Memories Seguir história

BeatrizPFT25 Beatriz PFT25

Há coisas que as pessoas desejam poder esquecer, há coisas que as pessoas querem recordar para sempre, e depois, há aquelas pessoas que não se conseguem recordar de nada. E esse era o caso de Todoroki Shouto, que, após um trágico acidente, foi diagnosticado com amnésia. Vendo-se envolto em dúvidas e incertezas, que o atormentam constantemente, tendo apenas duas coisas que lhe conseguiam transmitir um pouco de tranquilidade na incógnita que a sua vida se tinha tornado. [TodoDeku # One-shot # UA]


Fanfiction Anime/Mangá Todo o público.

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Memories - Capítulo único

Assim que Todoroki Shouto abriu os olhos, foi consumido pelo desespero e confusão, a sua mente estava num conflito interno, numa luta rápida e constante à procura de respostas. Estava assustado, sem saber quem era, onde estava ou o que tinha acontecido. A sua mente estava desorganizada, repleta de dúvidas e incertezas, num pleno caos.

Os médicos e enfermeiros tentaram acalmá-lo, pois devido à situação em que Todoroki se encontrava, precisavam de ter muita consideração e cuidado com as ações e palavras que lhe eram direcionadas, para que pudessem conversar com o paciente e explicar-lhe o que tinha acontecido para que o mesmo ali, numa cama de hospital.

Quando, por fim, se conseguiu acalmar, os médicos questionaram-no sobre como se sentia, e Todoroki, mesmo confuso, explicou que tinha algumas dores leves pelo corpo, mas o que lhe doía mais era a cabeça, que parecia latejar um pouco.

Os médicos explicaram que era normal, tendo em conta a situação delicada em que o mesmo se encontrava, aproveitando para esclarecer o que tinha acontecido para Todoroki estar naquele estado.

Explicaram-lhe que tinha estado envolvido num trágico acidente há 3 dias, e que tinha ficado inconsciente durante esse tempo, que receberam uma chamada, e que, assim que chegaram ao local, Todoroki tinha sido levado de imediato para o hospital, sendo assistido ainda durante o percurso, fisicamente ele tinha apenas alguns ferimentos leves, que precisariam apenas de tempo para estarem completamente curados, no entanto, tinha sofrido danos a nível psicológico, sendo diagnosticado com amnésia temporária.

Informaram-no de que, mesmo que no momento não se conseguisse recordar das coisas, bastava apenas algum tempo para que as memórias regressassem de forma natural, o que significava que, aos poucos, Todoroki poderia voltar a viver a sua vida normalmente.

E após esse dia, três semanas já se tinham passado. Todoroki tinha recebido alta do hospital poucos dias depois de ter ficado consciente, pois ele não se encontrava num estado em que precisasse de ficar hospitalizado, iria fazer-lhe muito melhor sair daquele local.

No decorrer daquele tempo, Todoroki já se tinha relembrado de diversos acontecimentos dos seus 25 anos de vida, quer da sua infância, adolescência ou fase adulta. Algumas coisas de que gostava, outras que tinha vivido, um pouco da sua família e amigos, e coisas tristes ou que o tinham chateado no passado. Mas, não era suficiente, Todoroki queria mais, precisava de mais, ele queria relembrar-se do máximo possível de toda a sua vida.

Assim que saiu do hospital, passou a viver provisoriamente em casa dos pais, que estavam preocupados com o estado do filho, e não queriam que ele voltasse para a própria casa sozinho, mesmo que Todoroki achasse que isso poderia facilitar, ou ajudá-lo, a recuperar alguma memória.

Todoroki tinha total liberdade para ir onde quisesse, com a condição de ter cuidado e atenção, e por isso, todos os dias, desde que saiu do hospital, fazia uma caminhada pelas redondezas da casa dos pais, aproveitando para relaxar onde achasse melhor, sempre acompanhado de um caderno com o seu nome e, inconscientemente, com esperança que um dos seus amigos se encontrasse com ele novamente, como vinham fazendo nas últimas semanas.

No momento, Todoroki estava sentando num banco de um parque, de frente para um lago, onde a única coisa que o separava da água era um caminho pedestre, no entanto praticamente ninguém se encontrava no local, talvez pelo frio, ou talvez por ser a meio da semana, mas isso não o incomodava, Todoroki sentia-se bem em sítios calmos e praticamente desertos, davam-lhe espaço para pensar com mais clareza, e organizar todos os pensamentos e lembranças que vinha tendo.

Olhou para o caderno que tinha em mãos, passando a ponta dos dedos delicadamente sob o seu nome na capa, ato que tinha feito desde que o objeto lhe tinha sido entregue, pois, por alguma razão ainda desconhecida para si, carregava-o consigo no dia do acidente. Mas, no fundo, conseguia compreender, pois mesmo não se lembrando como o tinha adquirido, o caderno já se tinha feito presente em algumas das suas memórias, sempre o deixando com um sorriso suave nos lábios, deveria ser algo importante para si, Todoroki sentia isso, e queria muito relembrar-se da razão pela quão o caderno parecia possuir um valor sentimental tão grande, ao ponto de o ajudar a recuperar as suas memórias e acalmando-o quando algo não parecia certo, talvez fossem essas algumas das razões, que o faziam nunca se cansar de ler os poemas ali escritos.

– Lês-me um poema? – Perguntou uma voz que Todoroki conseguia distinguir com certa facilidade, já que praticamente todos os dias conversava com o dono da mesma.

Todoroki ergueu o seu olhar do livro e encarou a pessoa que estava de pé à sua frente, com um sorriso gentil a adornar o rosto sardento, o que fazia com que os olhos verdes brilhassem de uma forma hipnotizante por tamanha beleza.

– Diz-me Deku, como é que me consegues encontrar sempre? – Indagou curioso, arqueando ligeiramente uma sobrancelha, pois aquela pessoa encontrava-o sempre, não importando em que zona dos arredores estivesse. Mas, não era como se realmente se sentisse incomodado, já que aquela pessoa o conseguia acalmar, e, no fundo, gostava da aproximação, gostava de sentir que não estava realmente sozinho com os seus pensamentos, gostava de partilhar as novas memórias com ele, gostava de ouvi-lo comentar sobre tais lembranças, gostava de tê-lo por perto, mesmo que, infelizmente, ainda não se conseguisse relembrar dessa pessoa na sua vida.

– Sexto sentido? – Respondeu num tom de dúvida, como se nem ele próprio soubesse como o fazia realmente, aproveitando o momento para também se sentar no banco.

Todoroki observou atentamente os movimentos de Deku, e perguntou-se mentalmente porque é que ele parecia que tinha sempre a mesma roupa, o mesmo casaco, luvas e ténis vermelhos, mas nunca cheirava mal ou parecia sujo, o que o deixava ligeiramente confuso e curioso, mas não queria ser indelicado com o seu atual confidente, então preferia apenas apreciar a sua presença, ansiando conseguir relembrar-se de Deku em breve, pois já se tinha conseguido relembrar de toda a família, e amigos próximos, e sentia-se mal por não se conseguir recordar nem do nome verdadeiro daquele que lhe fazia companhia, da primeira pessoa, para além dos seus pais, que o tinha ido visitar.

(#)

Todoroki estava sentando na cama de hospital, encarando as suas mãos que permaneciam repousadas no seu colo, com uma expressão pensativa. Tinha-se passado menos de um dia desde que tinha recuperado a consciência, e já se tinha conseguido relembrar de algumas coisas, como o seu nome e a data do seu aniversário, eram coisas relativamente pequenas para alguns, mas, para Todoroki, que não possuía certezas de nada e tinha imensas dúvidas, tendo a cabeça numa enorme confusão, aquelas memórias eram importantes e preciosas para si.

Já tinha até conseguido reconhecer o rosto de alguém, ficando extremamente feliz por ver realmente um rosto conhecido.

Tinha sido quando os médicos deixaram que os seus familiares entrassem, no caso, uma mulher de cabelos brancos, e um homem de cabelos vermelhos. Todoroki encarou a mulher profundamente nos olhos, e, após algum tempo em silêncio, perguntou se ela era a sua mãe, tal pergunta fez com que a mulher começasse a chorar e o abraçasse, dizendo que sim, era ela.

Todoroki então explicou que se lembrava da sua cara, mesmo que ela parecesse mais nova nas suas recordações, e a sua mãe explicou que era normal, pois provavelmente deveria ser uma memória de quando Todoroki era mais novo. E mesmo que não reconhecesse o homem à sua frente, o mesmo apresentou-se como sendo seu pai, o que foi confirmado pela mulher.

Os progenitores, antes de terem recebido a autorização para que entrassem no quarto, tinham sido informados sobre o estado do filho, tinha-lhes sido explicando cuidadosamente todas as precauções que deveriam ter na presença de Todoroki, já que o mesmo se encontrava num estado fragilizado, de confusão e incerteza.

Era aconselhável não se referirem a situações traumáticas, como o acidente, ou problemas que Todoroki tivesse, o melhor seria apenas tentar conversar sobre outras situações, e tentar ajudá-lo a relembrar-se das coisas pouco a pouco, não o forçando em momento algum.

Deveriam também ser pacientes caso Todoroki não os reconhecesse, ou não se recordasse de algo sobre o que eles fossem falar, pois, mesmo que as memórias regressassem com o tempo, como ainda se encontrava numa fase inicial, era difícil dizer quais seriam as que iriam voltar primeiro e como Todoroki iria reagir a elas.

Enquanto falava com os pais, Todoroki conseguiu manter uma conversa normal, fazendo algumas perguntas básicas sobre ele próprio e sobre a sua família e, mesmo que não se conseguisse lembrar do que os seus pais lhe diziam, sentia-se feliz, e um pouco aliviado, por começarem a haver respostas para as suas perguntas.

Mas os seus pais decidiram não responder a tudo de uma só vez, dizendo que não seria bom encherem-no de informações, sendo que ele tinha acabado de acordar, e explicaram que iriam ter com ele todos os dias, para conversar e ajudá-lo a recuperar as suas memórias, despedindo-se dele em seguida.

E, quando Todoroki foi deixado sozinho, encarou as mãos pensativo e suspirou. As coisas estavam tão confusas para ele, mas começar a realmente saber quem era, deixava-o um pouco mais calmo do que quando acordou.

Mas estranhou ouvir as vozes dos pais no corredor, sendo que os mesmos já se tinham despedido de si, talvez fosse uma oportunidade para se relembrar de algo, e, com essa intenção, Todoroki levantou-se lentamente, e caminhou para perto da porta, podendo ouvir claramente a conversa que acontecia do outro lado, no corredor do hospital.

Todoroki estranhou o que ouviu, pois os pais estavam a conversar sobre não contar certas coisas ao filho, pelo que Todoroki conseguiu ouvir, havia coisas que os pais achavam melhor que ele não se lembrasse, pelo menos por agora, então tinham combinado manter segredo sobre alguns assuntos.

Todoroki, ao perceber que as vozes se afastavam, suspirou e voltou para a cama, infelizmente não tinha conseguido ouvir que coisas eram essas que os seus pais achavam melhor que ele não se relembrasse. Era a vida dele, o que ele tinha vivido e passado, ele tinha todo o direito de se lembrar de tudo, mesmo que as memórias pudessem ser consideradas negativas.

Foi então, perdido em pensamentos, que Todoroki percebeu que já não se encontrava sozinho naquele quarto. Direcionou o seu olhar para a porta, vendo uma pessoa que parecia nervosa com algo, já que o seu corpo tremia ligeiramente e os seus dedos brincavam uns com os outros. Era um homem, parecia ter aproximadamente a mesma idade que ele, com olhos e cabelos esverdeados, tinha sardas e usava uma roupa típica de inverno, com direito a luvas e uns ténis vermelhos.

Parecia encará-lo com dúvida, incerto se deveria falar ou aproximar-se. Todoroki não se lembrava dele, mas se estava ali, talvez fosse um conhecido seu.

– Eu não me lembro de ti. – Confessou Todoroki, vendo os olhos do outro se arregalarem, em surpresa e confusão.

O homem à sua frente respirou fundo e fechou os olhos, abrindo-os em seguida acompanhado com um pequeno, porém sincero, sorriso no rosto.

– Tudo bem. – Disse com uma voz calma. – Eu soube da tua amnésia, só… estou surpreso com… algumas coisas. – Comentou aproximando-se lentamente.

– Então… conhecemo-nos? – Perguntou Todoroki apontando com a mão para uma cadeira próxima à sua cama, convidando o homem a sentar-se.

O homem logo se sentou, deixando clara a sua hesitação sobre como responder à pergunta de Todoroki.

– Somos amigos… confidentes, por assim dizer. – Explicou encarando o teto, adquirindo um ligeiro rubor no rosto.

Todoroki voltou a encarar as mãos, tentando lembrar-se daquela pessoa ao seu lado, mas sem sucesso algum. Enquanto que o homem encarava o teto pensativo, deixando o quarto num silêncio um pouco estranho, mas não totalmente desconfortável.

– E do que te lembras? – Perguntou o homem com uma voz curiosa, fazendo Todoroki encará-lo.

– O meu nome, o meu aniversário, e do rosto da minha mãe. – Respondeu com leve insegurança, não sabendo como é que o seu suposto amigo iria reagir ao saber que ele não conseguia lembrar-se dele.

– Incrível. – Comentou o homem com um sorriso nos lábios, fazendo Todoroki encará-lo ligeiramente surpreso. – Acordaste hoje e mesmo assim já te conseguiste relembrar de algumas coisas sozinho. – Acrescentou, fazendo Todoroki ficar um pouco orgulhoso de si próprio.

– Mas, não é suficiente… – Murmurou sem desviar o olhar, já que, por alguma razão, aquele homem lhe transmitia confiança. – Eu tenho tantas perguntas… há tanta coisa que quero saber… e os meus pais só falaram deles e dos meus irmãos, mesmo eu sabendo que tenho outra família. – Comentou encarando o anel no seu dedo anelar esquerdo. – Mesmo que não me lembre exatamente dela.

– Bem… sim, mas… os teus pais provavelmente acham que te deves lembrar disso por ti próprio. – Respondeu o homem com um sorriso e um olhar compreensivo, que, novamente, passou confiança e tranquilidade a Todoroki. – De certeza que, a seu tempo, te vais lembrar.

Ao dizer isso, ambos ficaram em silêncio mais algum tempo, e foi aí que Todoroki se lembrou de algo que deveria ter perguntando antes.

– Como te chamas? – Perguntou curioso, talvez o nome do seu amigo o fosse ajudar.

– Esqueci-me completamente disso. – Comentou o homem mexendo os braços nervoso e um pouco corado, envergonhado por se ter esquecido de algo tão básico como apresentar-se. – Mas eu preferia que não comentasses com ninguém que te vim ver. – Comentou encarando Todoroki seriamente, e, apesar de não ter compreendido, assentiu, concordando, e o homem sorriu. – Podes chamar-me Deku.

(#)

Um silêncio confortável instalou-se entre ambos, Todoroki encarava a paisagem à sua frente, com uma expressão neutra, e Deku encarava o caderno que ainda permanecia no colo de Todoroki, que o cobria e apertava com firmeza, talvez de forma inconsciente, o que Deku considerou normal, sabendo que os poemas do caderno lhe transmitiam calma e segurança, e para além disso, ajudaram-no imenso em conseguir grande parte das suas memórias novamente.

– E… como estás? E… as tuas memórias? – Perguntou timidamente, num tom de voz sereno, e que deixava evidente a sua preocupação.

Todoroki desviou a sua atenção do lago, encarando Deku, vendo novamente o brilho naqueles olhos e um pequeno sorriso no rosto que o deixava ainda mais belo.

– Estou bem, a cada dia que passa, novas memórias aparecem, e de alguma forma estou a conseguir organizá-las, e ainda não tive nenhuma do acidente, mesmo que algumas sejam confusas. – Explicou e suspirou, erguendo uma das suas mãos, a que não estava a segurar o caderno, em direção à lateral do seu rosto, apertou ligeiramente os olhos, unido as sobrancelhas e contraindo os lábios, numa expressão confusa. – Há memórias em que parece que estou a falar sozinho, não está lá ninguém, nem sequer oiço a voz, e quando parece que vou conseguir ver essa pessoa, é um vulto que aparece, impedindo-me de ver seja o que for… é confuso. – Admitiu tirando a mão do rosto, levando-a em direção ao caderno, suavizou a sua expressão novamente, encarou o céu e suspirou. – Mas… é uma sensação boa. – Acrescentou com um pequeno sorriso nos lábios.

– Mesmo que nem todas as memórias sejam felizes? – Perguntou Deku encarando o rosto de Todoroki, que fechou os olhos e suspirou novamente.

– A vida não pode ser feita só de momentos felizes, todas as memórias fizeram parte da minha vida, mesmo que algumas sejam tristes, ou me deixassem com raiva, ou qualquer outro sentimento, no fim, todas elas fizeram parte de mim e tornar-me no que sou hoje. – Explicou e respirou fundo, encarando Deku em seguida, que se surpreendeu minimamente pelo olhar firme de Todoroki. – As memórias que tenho, são partes de mim, da minha história, eu quero lembrar-me de todas, cada uma delas é importante para mim.

Deku ficou admirado com as palavras que ouviu, sentindo-se imensamente feliz com a forma de pensar e ver as coisas que Todoroki possuía no momento, não conseguindo conter outro sorriso na sua face.

– E graças a este caderno tudo ficou mais fácil. – Comentou Todoroki, encarando o objeto em mãos. – Leio-o todos os dias, pelo menos um poema antes de ir dormir e um ao acordar, sem contar com os que leio durante o dia, não me canso, é como se fosse sempre a primeira vez. – Confessou apertando com pouca força o caderno entre os dedos, que se tornou algo que nem às pessoas mais próximas confiava, não por duvidar das pessoas, mas por querer protegê-lo, já que era algo que o estava a ajudar muito, e tinha-se tornado importante e de valor para si.

– Lês um deles para mim outra vez? – Perguntou Deku com uma voz suave, Todoroki ainda não percebia a razão para Deku fazer sempre o mesmo pedido quando estavam juntos, sendo que até já tinha ouvido todos os poemas do caderno, e a única justificação que dava, era a de gostar da sua voz, no entanto, não parecia ser a resposta verdadeira, mesmo que também não parecesse mentira.

Todoroki então abriu o caderno, folheando-o, pensando em qual dos poemas poderia ler daquela vez, sabendo praticamente de cor a página de cada um, optando por reler o poema que leu para Deku a primeira vez que o pedido tinha sido feito.

– Assim como um pássaro

Voa em liberdade

Eu vagueio solitário

À procura da felicidade

Felicidade que encontrei

Pelos caminhos do destino

Pela qual procurei

Enquanto vivia sozinho

E dentre todas as coisas

Boas e más com que me cruzei

Foste a mais bela de todas

A pela qual me apaixonei

(#)

Deku entrou novamente naquele quarto de hospital, tendo os seus movimentos seguidos atentamente pelo olhar curioso e observador de Todoroki. Era o segundo dia desde que Todoroki tinha acordado e, naquele primeiro dia, Deku, antes de se despedir, perguntou se poderia visitá-lo outra vez, e Todoroki aceitou, o que fez com que Deku fosse diariamente visitá-lo, sempre quando o mesmo se encontrava sozinho.

Após fechar a porta atrás de si, aproximou-se de Todoroki, sentando-se na cadeira ao lado da cama. Todoroki tinha algo em mãos, parecia ler um caderno normal à primeira vista, no entanto, Deku reconheceu-o de imediato, mas manteve-se em silêncio, observando Todoroki, na esperança do mesmo explicar como é que tinha o caderno, e o que achava do mesmo.

Todoroki suspirou e fechou o caderno, revelando a capa, onde era possível ler facilmente o nome “Todoroki Shouto” em letras grandes e detalhadas.

– Trouxeram-me hoje as coisas que estavam comigo no dia do acidente. – Explicou Todoroki deslizando os dedos delicadamente sob o seu nome na capa. – A maioria das coisas eram documentos, cartões e outros papéis, mas recebi este caderno e fiquei bastante curioso, já que tinha o meu nome, e para eu andar com ele, provavelmente era importante. – Comentou com um pequeno sorriso no rosto, olhando carinhosamente para o caderno. – Está cheio de poemas, desde da primeira até à última folha, todos escritos à mão e… parece que são todos sobre mim.

– Já leste todos? – Perguntou Deku com a voz um pouco mais baixa que o normal.

– Ainda não, mas todos os que já li ou falam sobre a minha aparência, sobre momentos que supostamente vivi ou coisas que fiz, e os que não são sobre isso, parecem declarações. – Explicou deixando de encarar o caderno e direcionando o olhar para Deku, notando que o mesmo chorava, preocupando Todoroki.

– Podes… ler um deles para mim? – Perguntou Deku com lágrimas silenciosas a escorrer-lhe pelo rosto, Todoroki encarou-o apreensivo, e Deku ao perceber esse olhar sobre si, encarou-o nos olhos, com um olhar de determinação que acabou por transmitir confiança, o que tranquilizou Todoroki de alguma forma, fazendo-o encarar o caderno e abri-lo na primeira página, respirou fundo e preparou-se para ler um poema em voz alta.

Deku fechou os olhos lentamente, esperando que Todoroki iniciasse a leitura do poema, assim que a sua voz se fez presente, Deku ouviu atentamente cada palavra lida, sentido a emoção na entoação de cada uma delas e, involuntariamente, um sorriso adornou-lhe o rosto.

Assim que a leitura terminou, Deku abriu os olhos, já não se faziam presentes novas lágrimas, apenas o rasto que as antigas tinham deixado.

– Sempre gostei de ouvir a tua voz enquanto lias os poemas. – Confessou num sussurro baixo e quase inaudível, como se fosse um segredo.

Todoroki não entendeu o comportamento estranho de Deku, mas vendo o estado em que o mesmo se encontrava, decidiu que não era o momento de perguntar, teria de controlar a sua curiosidade e, quem sabe, perguntar noutra altura, agradecendo simplesmente o elogio.

– Todos os poemas que já li ajudaram-me a lembrar-me de algumas coisas, momentos da minha vida começam a aparecer enquanto leio, talvez quando for dormir novas memórias voltem… e cada poema parece ter sido escrito com bastante cuidado e dedicação, como se todos fossem únicos, sinceros e tivessem sido escritos com o coração. – Confessou Todoroki voltando a fechar o caderno, e procurando as palavras certas para o que estava a sentir, e o que os poemas realmente pareciam ser. – Como se fossem…

– Declarações de amor. – Completou Deku, interrompendo Todoroki que o encarou e concordou com a cabeça. – A pessoa que o escreveu fê-los para ti, pois ela… realmente te ama.

(#)

Os dias iam passando tranquilamente, Todoroki mantinha a sua rotina, ainda em casa dos pais, vez ou outra experimentado coisas novas, ou coisas que se lembrava que já tinha feito alguma vez, ou fazia com alguma regularidade, e, na maioria desses momentos, tinha a companhia de Deku, nos outros, tinha da própria família ou de amigos próximos, dos quais Todoroki já se lembrava por completo, tanto que os amigos falavam com ele sobre algum evento e Todoroki estava ciente do que falavam, chegando a participar das conversas, que anteriormente não conseguia acompanhar ou perceber, mas que agora eram algo normal para ele.

Esses momentos faziam-no sentir-se bem, significavam que ele estava a lembrar-se de diversos acontecimentos da sua vida, e estava a sentir-se cada vez mais completo e feliz com todas as novas descobertas.

Mas mesmo assim, para Todoroki, ainda existiam algumas coisas que não pareciam certas, como se estivesse a esquecer-se, ou, no caso, não se conseguisse lembrar, de coisas importantes, e isso deixava-o frustrado diversas vezes, mesmo que as pessoas com quem convivesse não lhe explicassem, Todoroki era teimoso e persistente, insistindo diversas vezes nisso, mesmo que nunca conseguisse obter realmente uma resposta que fosse do seu agrado.

Mas, mesmo que por vezes fosse difícil, ou quase impossível, e mesmo que quisesse muito saber, Todoroki tentava não pensar tanto nisso, tentando aproveitar ao máximo os momentos que o faziam sentir-se bem e feliz.

Como os que tinha partilhado com Deku durante aquela tarde, quando ambos, apesar do frio, decidiram ir à praia, que, como deduziram, estava deserta, o que não atrapalhou o convívio de ambos, que conversavam e se divertiam apenas com a companhia um do outro.

Após aproveitarem algumas horas na praia, decidiram ir embora, iriam para um parque relativamente perto da casa dos pais de Todoroki, um dos locais que Todoroki mais gostava de frequentar.

Durante o caminho conversavam animadamente, Deku era quem falava mais, e Todoroki, na maioria do tempo, apenas o observava, mantendo a expressão serena no rosto.

No decorrer das semanas de convivência que tiveram, Todoroki já tinha percebido que Deku era um autêntico mistério para si, não sabia o seu nome verdadeiro, e o mesmo negava-se a dizer, não tinha sequer alguma memória dele, não sabia onde ele morava ou qual a sua profissão, chegando a estranhar que Deku tivesse tempo para si todos os dias, e nunca precisasse de ir a lado algum, fazendo com que Todoroki fosse quem tivesse de se despedir, e, mesmo que ficasse consigo tantas vezes, parecia que não gostava de contacto com outras pessoas, ou de locais muito cheios, pois, sempre que alguém vinha na sua direção, ele afastava-se, parecendo assustado, como se temesse algo.

Todoroki até chegou a perguntar sobre isso, e sobre todas as outras coisas relacionadas ao amigo que ele não compreendia ou tinha curiosidade, mas Deku conseguia sempre desviar do assunto, nunca parecendo querer realmente responder a alguma coisa sobre ele próprio, mesmo que mostrasse interesse em responder a perguntas sobre Todoroki, ou sobre amigos do mesmo, que, pelos vistos, também eram amigos de Deku, o que fazia Todoroki ficar até um pouco desconfiado, já que nunca ninguém se tinha referido a ele, no entanto, Todoroki nunca perguntou se alguém o conhecia, pois tinha prometido a Deku que iria manter segredo sobre os seus encontros e conversas.

Chegou a ficar desconfiado, pensar que na verdade não conhecia Deku, que ele era na verdade um estranho que, por alguma razão, se queria aproximar de si, mas, apesar disso, Todoroki confiava nele, falava com ele sobre tudo, coisas que nem à sua família ou outros amigos contava ou desabafava, para além de gostar, e muito, da sua companhia.

Todoroki só tinha uma certeza sobre esse assunto, queria lembrar-se logo de Deku, queria saber mais sobre o seu amigo, que se tinha tornado tão importante para ele naquele tempo.

E, para além dos mistérios de Deku, havia outro assunto no qual Todoroki não conseguia parar de pensar, mas ninguém lhe respondia, sequer comentavam, pareciam evitar ao máximo falar a respeito desse assunto, e isso chegava a irritar Todoroki, deixá-lo um pouco inquieto, tanto que, aproveitou para voltar a falar disso com Deku, na esperança de obter respostas.

– Deku. – Chamou quando finalmente chegaram ao parque, e escolheram um banco para se sentarem.

Todoroki escolheu uma parte mais afastada, e vazia, exatamente por acreditar que Deku não era muito social, ponderando se não seria algum tipo de fobia, e assim, num local como aquele, Deku sentir-se-ia mais à vontade. Isso deixava Todoroki feliz e relaxado, para além de que provavelmente iria facilitar a conversa sobre aquele tema.

– Sim? – Assim que obteve a resposta, e total atenção de Deku, Todoroki respirou fundo antes de tocar diretamente naquele assunto.

– Porquê é que a pessoa com quem estou casado não está comigo? Porque é que essa pessoa não veio falar comigo, ou ver-me, depois do acidente? – Perguntou Todoroki mordendo o lábio inferior.

Sempre que fazia perguntas sobre esse assunto em especial, nunca recebia resposta alguma, e ficava preocupado, já que nem memórias dessa pessoa tinha recuperado, chegou até a questionar-se se não seria Deku essa pessoa, isso faria algum sentido, mas Deku já lhe teria dito algo se essa fosse a verdade, certo? Todoroki pelo menos queria acreditar que sim.

Deku arregalou os olhos, não era a primeira vez que Todoroki perguntava sobre isso, mas era a primeira vez que o encarava de uma maneira tão perdida e angustiada, aquilo magoou Deku, o que o fez pensar que talvez não devesse mudar de assunto, como sempre tentava e fazia com sucesso, mas enquanto ponderava sobre isso, Todoroki começou a mexer na sua mochila, voltando a falar.

– Não foi ela. – Comentou tirando o caderno de poesia da mochila e agarrando-o com firmeza. – Que escreveu estes poemas? – Perguntou sério, ligeiramente receoso com a reação que Deku poderia ter.

Ao ser confrontado com algo tão direto, com perguntas tão sinceras, Deku apenas suspirou, decidido com a escolha que tinha feito, sobre o que responder.

– Essa pessoa… não pode estar contigo. – Disse fechando os punhos, apertando-os com alguma força, encarando Todoroki com uma expressão séria. – Não da maneira que queres, ou que esperas que ela esteja. – Finalizou, suavizando ligeiramente a sua expressão.

– Porquê? – Perguntou Todoroki mais calmamente, pousando o caderno no seu colo, desviando o olhar de Deku.

– Tem… só um pouco mais de paciência. – Pediu Deku num sussurro. – A seu tempo vais saber, ok? – Deku tocou no ombro de Todoroki, tentando confortá-lo e ao mesmo tempo dar a entender que não diria mais nada sobre o assunto.

Ao sentir o toque de Deku, que era estranhamente frio, mesmo sob as roupas que ambos usavam, Todoroki suspirou, não percebeu o que Deku queria dizer com aquelas palavras, mas aquilo era o máximo que já lhe tinham dito sobre o assunto, e se ele esperou tanto por respostas, e aos poucos estava a conseguir tê-las, então poderia tentar esperar um pouco mais.

Com esse pensamento, olhou para Deku, e sorriu, um sorriso de lado e triste, mas compreensivo, enquanto assentiu com a cabeça, concordando em esperar, o que fez Deku tirar a mão do seu ombro e sorrir.

– E de resto? Como te sentes em relação às tuas memórias que regressaram e sobre as coisas que já descobriste? – Perguntou Deku, já que naquele dia ainda não tinham falado sobre esse assunto, foi como se ambos tivessem concordado silenciosamente em deixar esse tema para outro momento, outro momento que tinha chegado.

– Eu acho que já me lembro de praticamente tudo, dos momentos com os meus pais, com os meus irmãos, com amigos e conhecidos, até aqueles em que estive sozinho. – Respondeu calmamente, suspirando em seguida. – Mas ainda tenho aquelas memórias estranhas. – Confessou, fazendo uma expressão ligeiramente mais pensativa e um pouco confusa. – Aquelas em que aparece um vulto, ou quando parece que estou sozinho, mas eu tenho a certeza que estou a falar com alguém. – Disse, sem conseguir compreender a razão para aquilo acontecer, a sua própria mente parecia estar a brincar consigo, e Todoroki não sabia o que poderia fazer para conseguir mais respostas em relação a isso.

Após essas confissões, ambos ficaram em silêncio, Deku abanava as pernas, pensando no que deveria dizer em relação a isso, ele começava a ter dúvidas sobre o que andava a fazer, seria realmente o correto?

Enquanto Deku pensava sobre isso, Todoroki apenas encarava o caderno, tinha conseguido tantas memórias com ele, mas, infelizmente, parecia que não poderia resolver todos os seus problemas.

– Mas. – Deku começou a falar, olhando para os próprios pés, atraindo a atenção de Todoroki para si. – Mesmo com essas memórias confusas, não estás feliz? – Perguntou erguendo o rosto e encarando Todoroki. – Digo, por te conseguires relembrar de tudo o resto. – Concluiu, com um olhar determinado, pois saber como Todoroki se sentia, era algo muito importante para si.

Todoroki acabou por desviar o olhar, voltando-o para o caderno, e negou com a cabeça.

– Eu estou feliz. – Comentou, mordendo o lábio inferior. – Por saber quem sou, por saber as coisas que vivi, e as pessoas que tive ao meu lado, mesmo que ainda não me tenha lembrado de tudo, mas. – Todoroki ponderou sobre as palavras que deveria usar para descrever como se sentia, fechando os olhos e suspirando, voltando a abri-los, encarnado Deku de seguida. – É como… se faltasse alguma coisa… ou alguém, como se eu sentisse falta disso, mesmo sem saber o quê. – Murmurou pensativo.

Deku desviou o olhar e mordeu o lábio inferior, enquanto Todoroki suspirou novamente, percebendo que provavelmente não iria receber resposta alguma, nem uma dica que fosse.

– Ler os poemas deste caderno acalmam-me. – Disse Todoroki, querendo mostrar a Deku que não havia problema se houvesse coisas das quais não quisesse falar, ou não quisesse dizer. – Como se preenchessem, de uma maneira que não consigo explicar, o vazio que sinto às vezes. – Confessou com um pequeno sorriso, tranquilizando Deku com tais palavras.

E, desde que tinha acordado após o acidente, não era a primeira vez que, ao encarar Deku, ou pensar nele, sentia o coração bater mais rápido, nem a primeira vez em que a sua mente ficava um caos, com os pensamentos a mil, como se o seu corpo e mente estivessem a reagir a Deku, e, mesmo sem nunca ter comentado sobre isso, Todoroki já sabia o que precisava de fazer para que se conseguisse acalmar.

Pegou no caderno e encarou Deku, que o olhava curioso, esperando que Todoroki fosse ler algum poema para si novamente, mas Todoroki não fez isso, e a única reação que Deku teve, foi a de arregalar os olhos assim que o caderno foi estendido na sua direção, incentivando-o a tocá-lo e agarrá-lo. Deku abriu a boca, mas nenhum som saia, estava surpreso, pois Todoroki, desde que tinha acordado, nunca tinha deixado ninguém tocar no caderno.

– Podes ler um deles para mim? – Pediu Todoroki com um sorriso, repetindo as palavras que Deku tanto usava consigo naqueles dias.

Deku arregalou os olhos, pegando no caderno silenciosamente, ainda um pouco incerto. – Já que gostas de me ouvir ler, eu também gostaria de ouvir-te a ti. – Confessou, e Deku apenas concordou com a cabeça, admirado.

– Vejo que confias em mim. – Comentou num sussurro, rindo levemente em seguida, o choque inicial já tinha passado.

– Confio. – Admitiu Todoroki, e Deku sentiu uma enorme felicidade preenchê-lo com tais palavras.

– Qual? – Perguntou abrindo o caderno cuidadosamente, percorrendo as páginas lentamente, esperando que Todoroki pedisse por algum em específico.

– Escolhe tu. – Disse Todoroki, curioso por saber qual seria a escolha de Deku, pois o mesmo já tinha ouvido todos os poemas.

Deku não precisou de pensar muito, cada poema era especial, cada poema tinha algo diferente, mas, se tivesse que escolher algum para aquele momento, a escolha só podia ser uma, o último poema do caderno.

Ao abrir nessa página, Deku ficou com uma expressão serena, completamente fixo e concentrado, e um sorriso mínimo fez-se presente no seu rosto. Tal expressão atraiu a atenção de Todoroki, nos tempos que passaram juntos, era a primeira vez que a via, admirando-a, completamente fascinado e hipnotizado.

Deku então fechou os olhos, e respirou fundo, passando os dedos levemente pela página, abriu os olhos por um segundo, concentrando-se completamente no que estava prestes a fazer, fechando-os em seguida novamente, iniciando a leitura do poema.

– Acreditei no amor

Naquele amor à primeira vista

Quando vi o teu esplendor

Pela primeira vez na academia

Acreditei no amor

Aquele que nasce da amizade

Pois quando mais precisei

Nos teus braços me amparaste

Acreditei no amor

Quando disseram que era cego

Pois por ti o meu coração batia

E estar ao teu lado era o mais certo

Acreditei no amor

Aquele amor com defeitos

Quando percebi que a tua teimosia

Fazia parte do teu jeito

Acreditei no amor

Quando pensei que não fosse possível

Mas provaste-me o contrário

Quando te tornaste a luz da minha vida

Graças a ti digo

Digo que acredito

Acredito na felicidade

Aquela que me proporcionaste

E acredito no amor

No nosso amor de verdade

Assim que Deku terminou de recitar o poema, assustou-se com um grito de Todoroki, abrindo os olhos rapidamente, encarando-o preocupado, e, ao ver o estado em que Todoroki estava, entrou em pânico.

Todoroki tinha o corpo inclinado para a frente, as mãos na cabeça, apertando-a, os seus olhos estavam fechados com força e, após o grito que tinha dado, agora permanecia com a boca fechada, mordendo o lábio.

A sua cabeça doía, o seu coração estava descompassado e a sua mente estava a trabalhar num ritmo frenético.

As suas memórias estavam a regressar.

(#)

– Izuku. – Chamou Todoroki docemente, quase num sussurro, emocionado com as palavras proferidas pelo marido, que assim que terminou de escrever um novo poema, chamou logo Todoroki para ouvi-lo.

– O que achaste Shouto? – Perguntou Izuku com um sorriso nos lábios, ansioso e animado por saber a opinião de Todoroki sobre o seu mais recente e, consequentemente, último poema do caderno, que, após alguns anos de uso, já tinha as suas páginas totalmente preenchidas.

Todoroki aproximou-se vagarosamente da cama de casal de ambos, sentando-se ao lado de Izuku, que ainda tinha o caderno aberto em mãos, e abriu um sorriso sincero e carinhoso, levando uma das mãos de encontro a uma das que Izuku ainda mantinha no caderno, apertando-a e fazendo um leve carinho com os dedos.

– Magnífico. – Elogiou aproximando-se ainda mais de Izuku, que mantinha um pequeno e tímido sorriso, deixando-o extremamente fofo aos olhos de Todoroki, que ergueu a sua mão livre em direção ao rosto do marido, fazendo um breve carinho na bochecha do mesmo, que começou a ganhar um leve rubor que ia aumentando há medida que Todoroki se aproximava vagarosamente. Era impressionante como Izuku ainda tinha aquelas reações após tantos anos de relacionamento, e Todoroki amava todas elas.

Aproximou os seus lábios de Izuku, deslizando a mão da bochecha até ao pescoço, levando-a até à nuca, tocando levemente nos cabelos do marido, puxando com gentileza o rosto de Izuku para mais perto, juntando os lábios num beijo suave e apaixonado.

Izuku fechou a caderno e, sem interromper o beijo, deixou-o ao seu lado na cama. Todoroki aproveitou o momento para entrelaçar os seus dedos nos de Izuku, aprofundando o beijo. A outra mão de Izuku foi de encontro à roupa de Todoroki, puxando-o para mais perto, o que fez com que um sorriso, por parte de ambos, surgisse entre o beijo. Todoroki mordeu carinhosamente o lábio inferior de Izuku, puxando-o delicadamente com os dentes e, após um rápido contacto entre os lábios, afastou-se, admirando a expressão de Izuku.

– Só tu para escreveres poemas sobre mim, e depois de tanto tempo ainda não te teres cansado. – Comentou Todoroki, pegando no caderno com a mão que anteriormente estava na nuca de Izuku, admirando a capa do mesmo.

– Bem. – Disse Izuku, passeando os seus dedos sob as letras na capa. – Eu tinha de exprimir como me sentia, e os poemas foram a maneira que arranjei, e os meus sentimentos são cada dia mais fortes, por isso nunca me canso de escrever sobre ti. – Explicou rindo levemente.

– E por isso escreveste a minha autobiografia em poemas. – Brincou Todoroki, rindo ao ver Izuku desviar o olhar ligeiramente envergonhado. – São incríveis, obrigado. – Agradeceu dando um beijo na testa de Izuku, fazendo-o encará-lo corado. – Todos eles foram feitos para mim, e todos eles vieram de ti, eu amo cada poema que escreveste, e assim como nunca te cansas de escrevê-los, eu nunca me canso de os ler, ou de ouvir-te lê-los para mim. – Confessou abraçando Izuku, que riu correspondendo ao abraço.

– Temos de ir. – Comentou Izuku, afastando-se do abraço e, ainda sentando, viu as horas, eram quase 20h, teriam de sair em breve, resolvendo levantar-se e terminar de se arranjar para irem.

Todoroki pegou no caderno e guardou-o na pasta que iria levar, desde que Izuku confessou que escrevia poemas sobre ele, Todoroki levava sempre que possível o caderno consigo, só não o levava quando Izuku dizia que iria escrever um novo poema, pois, mesmo que pudesse parecer um pouco egocêntrico, aqueles poemas eram os sentimentos de Izuku, o que ele sentia e a maneira que ele via as coisas, tudo em relação a si, e só por isso, eram importantes para Todoroki.

Após vestir o casaco e calçar-se, Todoroki foi em direção à porta de casa, confirmando se tinha tudo dos dois na pasta, como carteiras, chaves de casa e os telemóveis e, quando viu que estava pronto, pegou nas chaves do carro e chamou Izuku, que logo apareceu no corredor, dizendo que também estava pronto.

– Tens mesmo de levar luvas? – Perguntou Todoroki encarando as mãos do marido, abrindo a porta de casa, dando espaço para Izuku passar.

– Está frio, porquê? Não ficam bem? – Perguntou Izuku pegando na pasta de Todoroki e saindo de casa.

– Ficam, mas com luvas não se vê o anel. – Explicou Todoroki, também saindo e fechando a porta, logo a trancando.

– Não é por não veres que não está lá. – Comentou Midoriya rindo, entrelaçando a sua mão à de Todoroki, e ambos começaram a andar em direção ao carro.

Não demorou muito para chegarem ao automóvel, já que Izuku tinha conseguido um lugar perto de casa quando voltou das compras.

Ambos entraram, Todoroki no lugar do condutor, e Izuku no de pendura, deixando a pasta ao seu colo, como sempre fazia. Após terem os cintos postos e Todoroki ligar o carro, Izuku decidiu ligar o rádio, procurando uma estação que o agradasse, para deixar a música como fundo da conversa que os dois iniciaram.

Estavam ambos de férias, já nos últimos dias e, como queriam aproveitar o tempo que tinham para estarem juntos, tinham decidido ir a um dos seus restaurantes favoritos.

Era um restaurante com uma vista maravilhosa, e, apesar de ser um pouco difícil de lá chegar, valia a pena, já que era um restaurante com uma qualidade e atendimento soberbos.

Durante o percurso até ao restaurante, começou a chover, algo fraco e que não dificultava a condução ou perturbava a visão, mesmo que Todoroki tivesse de ter mais cuidado, especialmente numa parte do percurso que era mais perigosa, pois era um terreno com irregularidades, praticamente sem iluminação e com declinações leves de ambos os lados da estrada, que era rodeada por árvores e outros tipos de vegetação.

Assim que chegaram ao restaurante, apreciaram o serviço e a vista que tinham, conversavam sobre diversos assuntos, tendo ainda direito a música ao vivo, tornando aquele momento ainda mais agradável, mesmo que a chuva tivesse aumentando durante o jantar, não foi incomodo algum, tornando até o ambiente mais acolhedor.

Quando estavam a voltar para o carro, prontos para regressarem a casa, com o intuito de aproveitarem o resto da noite aconchegados e aquecidos, Izuku, ao notar que a carga de água tinha voltado a diminuir, convidou Todoroki para dançarem à chuva, o que Todoroki tentou negar, mas, apenas um novo pedido animado, foi suficiente para os dois acabarem por dançar alguns passos, rindo debaixo da chuva suave.

No entanto, como não queriam ficar doentes, logo Todoroki disse que era melhor irem, já que ainda queriam aproveitar o resto dos dias de férias o máximo possível, e não na cama com gripe.

Quando ligou o carro e começou a conduzir, Todoroki notou que o chão estava um pouco escorregadio e ligeiramente lamacento e, a juntar com a chuva fraca, mas constante, dificultava um pouco a condução, mas nada de muito complicado ou preocupante.

O rádio estava com o volume baixo, a música com algumas interferências, já que estavam a passar pela zona mais difícil do caminho e não havia muito sinal.

Os dois ainda conversavam, a tentar decidir que filme iriam ver quando chegassem a casa, no entanto, quando Izuku olhou para a frente, viu uma sombra mexer-se em direção à estrada, alertando Todoroki com um pequeno grito, surpreendendo o condutor, que, quando viu o animal no meio da estrada, tentou desviar-se a tempo de não o acertar, no entanto, com o movimento brusco do volante e travão, Todoroki acabou por perder o controlo do carro, que, devido as irregularidades e ao piso molhado, fosse para fora da estrada e, consequentemente, descesse por entre as árvores, batendo com força em algumas.

Izuku fechou os olhos e gritou quando o carro começou a bater e passar por entre as árvores, em pânico, e Todoroki tentava, em vão, retomar o controlo do carro. O carro então bateu, de lado e com mais força, numa árvore e, por fim, parou.

No momento do impacto, Izuku, que estava do lado em que a árvore tinha batido, sentiu dores em diversas partes do corpo, reparando que o impacto tinha amolgado o capô e a porta, ao ponto de acertá-lo, e partisse o vidro da frente, acertando os dois que estavam no interior do veículo.

Izuku ficou pânico e foi rapidamente preenchido pelo medo, especialmente quando sentiu a dor ficar mais forte e notou que sangrava de algumas partes do corpo, e tudo piorou quando chamou por Todoroki e não recebeu resposta, sendo tomado pelo desespero.

Olhou em direção a Todoroki, e não o conseguiu ver, já que os faróis do carro, que era a única iluminação que tinham, pararam de funcionar após o embate.

Com esforço, enquanto tentava ignorar a dor que sentia, Izuku ergueu um dos braços para ligar a luz que existia no teto do carro, mordendo o lábio inferior para tentar não gritar com o movimento.

Assim que conseguiu fazê-lo, o seu coração falhou uma batida e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto.

Todoroki estava de olhos fechados, com a cabeça inclinada para a frente, os locais onde os cacos de vidro que lhe acertaram estavam a sangrar, assim como um dos lados da sua cabeça.

– Shouto, Shouto, Shouto… – Chamou incontáveis vezes, em meio a soluços e gemidos de dor, tocando no rosto e braço de Todoroki, na esperança de obter alguma resposta, mas não adiantava, Todoroki não reagia, permanecia desacordado. – Por favor… – Pediu num soluço sôfrego. – Acorda Shouto… – Pediu novamente à medida que as lágrimas se intensificavam. – Por favor… – Pediu desesperado. – Shouto...

(#)

Diversas recordações começaram a fazer-se presente na mente de Todoroki, todas as memórias em que parecia estar, ou falar, sozinho, todas as vezes em que aparecia um vulto, foram preenchidas com Izuku ou, como lhe tinha sido apresentado após o acidente, Deku.

Inúmeras memórias ficaram completas e algumas novas surgiram, todas relacionadas a Izuku. Quando se conheceram, quando se tornaram amigos, as ocasiões que passaram juntos, incluindo o início do relacionamento amoroso, que tinha levado ao casamento, o momento em que decidiram, e começaram, a morar juntos, todas as conversas dos dois, os momentos tristes, alegres, em que se chatearam, que fizeram as pazes, as noites e provas de amor que partilharam, as promessas que fizeram, o quotidiano de ambos, as vezes em que Izuku escrevia poemas e os lia a Todoroki, tudo, simplesmente tudo, fez-se presente uma vez mais na mente de Todoroki, desvendando todos os mistérios que ainda existiam na sua vida, e recebendo todas as respostas que tanto almejava ter desde do dia em que acordou.

Tudo agora fazia sentido, tudo agora estava claro para si, Izuku era a resposta, todo aquele tempo a resposta que queria, e precisava, esteve ao seu lado.

A cabeça de Todoroki doía ligeiramente, o seu coração batia descontroladamente, a sua respiração estava desregulada, e ele tentava acalmar-se, organizar os seus pensamentos e tudo o que estava a sentir.

Sentiu uma mão tocá-lo cuidadosamente no ombro, e ergueu o rosto, tirando as mãos da cabeça, encarando Izuku, que se tinha levantado e agora estava à sua frente, encarando-o com uma expressão preocupada, enquanto perguntava se Todoroki estava bem, e o que tinha acontecido para ele ter agido assim.

Num movimento rápido, Todoroki ergueu-se e abraçou Izuku, que ficou surpreso com o contacto repentino e inesperado. Lágrimas deslizavam pelo rosto de Todoroki descontroladamente, enquanto as suas mãos, que estavam nas costas de Izuku, tremiam, apertando-o com o máximo de firmeza que conseguia.

Deku não tinha compreendido o que tinha acontecido, pensou que Todoroki pudesse ter-se relembrado de algo, temendo o que seria, devido à reação que teve. Mas logo correspondeu ao abraço, aproximando Todoroki ainda mais de si, apreciando o calor do seu corpo e o cheiro único e viciante que o mesmo possuía, não conseguido controlar o choro silencioso, que apenas se intensificou quando ouviu um soluço por parte de Todoroki.

– Izuku. – Sussurrou, com a voz tão baixa, que, se não tivessem abraçados, Deku não teria conseguido ouvir.

Mas, aquela forma de ser chamado, pelo seu primeiro nome e num tom tão carinhoso e suave, só poderia significar uma coisa, Todoroki tinha-se lembrado de si. Não sabia do quê exatamente ele se teria recordado, mas não haviam duvidas de que, fosse o que fosse, o envolvia.

– Eu… lembrei-me de tudo. – Disse Todoroki com a voz um pouco baixa devido ao choro. – És tu, sempre foste, estás comigo há tanto tempo, estamos casados e temos uma vida juntos. – Começou a falar, explicando a Izuku alguns dos momentos dos quais se tinha lembrado.

Izuku permanecia em silêncio, ainda nos braços do amado, ouvindo atentamente cada palavra que o mesmo dizia, vendo que Todoroki já não chorava, mesmo que parecesse que fosse voltar a qualquer momento, mas, no meio de uma frase, Todoroki calou-se, lembrando-se de algo, afastando-se de Izuku, desfazendo o abraço e agarrando-o nos ombros, encarando-o com um olhar intenso e profundo.

O lábio de Izuku tremeu levemente, e desviou o seu olhar, deixando Todoroki apreensivo, e uma nova dúvida surgiu.

– Porquê… porquê não me disseste quem eras? – Perguntou Todoroki preocupado e apreensivo, levando uma das mãos em direção à bochecha sardenta de Izuku, acariciando-a suavemente, movendo a outra em direção a uma das mãos de Izuku, entrelaçando os seus dedos.

Izuku mordeu o lábio inferior, sentido a intensidade das lágrimas aumentar, encarando Todoroki com os cantos dos lábios erguidos, num pequeno sorriso.

– Eu queria… – Começou a explicar, soluçando. – Que te lembrasses sozinho… – Murmurou, levando a mão livre aos olhos, limpando as lágrimas e tentando parar de chorar.

– Porquê? – Questionou Todoroki, limpando também as lágrimas do marido.

– Não sabia se te ia fazer bem. – Confessou Izuku respirando fundo.

Ao ouvir essa resposta Todoroki ficou confuso, erguendo uma sobrancelha e parando de acariciar o rosto de Izuku, baixando a mão, em direção à outra do marido, apertando ambas com firmeza.

– Mas não me consegui afastar de ti Shouto. – Confessou novamente num soluço. – Mesmo que ao te lembrares, signifique que não podemos ficar juntos, mas eu preferia que te lembrasses do que eu ficar a vaguear por aí, desculpa ser egoísta Shouto, eu não queria que as coisas tivessem acontecido desta maneira. – Explicou não conseguido controlar as lágrimas, pois sabia que, agora que Todoroki se lembrava, teria de saber a verdade, e a verdade nem sempre é fácil de ser contada, ou aceite.

Todoroki não compreendeu as palavras do marido, do que é que ele estava a falar? Mas foi aí que se relembrou do acidente novamente, pensando numa possibilidade, numa que não lhe agradava em absoluto, pelo que tentou confirmar que estava errado.

– No acidente… tu estavas comigo. – E mesmo que não fosse uma pergunta, Izuku confirmou com a cabeça e Todoroki decidiu prosseguir. – E… o que aconteceu? – Perguntou receoso, mordendo o lábio em seguida.

Izuku desviou o olhar para o chão novamente, e suspirou, encarando Todoroki de seguida, com uma expressão séria e lágrimas no rosto.

– Quando te vi desacordado, fiquei desesperado, completamente perdido. – Começou a explicar, deixando as lágrimas escorrerem livremente pelo seu rosto, já sem se importar, mantendo o olhar fixo no de Todoroki. – Mas, apesar do medo, consegui pensar, e então tentei ligar a uma ambulância, e, por algum milagre talvez. – Disse encolhendo os ombros, incerto. – Consegui fazê-lo, mesmo num sitio com tão pouca rede. – Izuku fechou os olhos e respirou fundo, tentando explicar da forma mais clara possível. – E bem. – Continuou a falar, abrindo os olhos novamente, voltando a fixar o olhar no de Todoroki, que não se moveu em momento algum, completamente atento. – Eu só queria que acordasses, dissesses o meu nome e que tudo ia ficar bem, mas continuaste desacordado. – Um soluço escapou pelos lábios de Izuku, que fez os possíveis para continuar a falar. – Pareceu uma eternidade, mas a ambulância acabou por chegar, e conseguiram tirar-nos do carro. – E suspirou, tentando controlar a respiração. – Eu acabei por perder a consciência antes de entrarmos para a ambulância... E quando acordei, não quis acreditar. – Disse, apertando ligeiramente as mãos de Todoroki.

(#)

Izuku abriu os olhos lentamente, estranhando o facto de se encontrar de pé. Observou o local onde estava, percebendo rapidamente que era um quarto de hospital.

Olhou para o seu corpo e estranhou, não havia marca alguma do acidente, e não sentia dor alguma, era como se tivesse sido um pesadelo que nunca chegou a acontecer, no entanto, ao virar-se, Izuku percebeu que tinha sido real.

Há sua frente, deitado na única cama daquele quarto, estava ele próprio. Izuku tremeu, e a confusão preencheu-o, não compreendendo o significado daquilo. Observou o corpo, que parecia ter recebido tratamento para os ferimentos que tinha sofrido no acidente, e notou algo que o preocupou, não estava a respirar. Decidiu aproximar-se com cautela, o medo quase a consumi-lo por completo, e tocou no corpo deitado, sentindo-o a temperatura do mesmo, estava frio, e sem qualquer batimento cardíaco. Ele estava sem vida.

Izuku, aterrorizado e confuso, deu alguns passos para trás, e começou a tremer, abraçando o próprio corpo, não conseguindo controlar as lágrimas.

Em meio ao choro, ouviu a porta do quarto abrir-se e um médico e um enfermeiro entraram, ele logo foi em direção aos mesmos, e tentou dizer alguma coisa, mas, tudo o que pode fazer foi arregalar os olhos, quando o seu corpo passou pelos das outras pessoas, sentido algo que nunca antes tinha sentido.

Enquanto chorava, ouviu a conversa dos médicos sobre o seu estado, aparentemente, para além dos ferimentos externos, sofreu uma hemorragia interna, que foi notada, e tentaram tratá-la, tarde de mais, resultando na sua morte.

Izuku gritou, angustiado com a sua situação inexplicável em que se encontrava, tentou tocar nos médicos, chamar as enfermeiras, até regressar ao próprio corpo, mas nada resultava. Ele tinha-se tornado invisível, como um fantasma, como os que via em séries e filmes.

Desabou no chão, de joelhos e com as mãos sobre a cabeça, gritando e chorando. E, mesmo não aceitando, compreendeu a situação em que se encontrava, ficando desesperado e com medo, não sabendo o que fazer a seguir.

O médico e enfermeiro saíram do quarto, deixando-o com o seu próprio corpo, e Izuku ficou algum tempo ali, apenas a chorar e lamentar a sua situação.

Foi então que se lembrou de Todoroki, perguntando-se em que estado é que ele estaria. E esse pensamento foi o suficiente para se erguer, limpar o rosto, e sair do quarto, ainda a tremer, assustando-se novamente ao perceber que conseguia atravessar a porta.

Andou lentamente, sem saber como encontraria Todoroki, sabendo apenas que, na sua atual condição, não poderia depender de ninguém para conseguir informações.

Por sorte, o quarto ao lado tinha o nome do seu amado à porta, e Izuku agradeceu por isso, ele queria ver Todoroki, não se importando em que estado o mesmo estaria.

Atravessou a porta lentamente, encontrando-se num quarto normal de hospital, semelhante ao que estava anteriormente, com apenas uma cama, onde logo pode ver Todoroki deitado, com uma expressão serena, como se estivesse num sono profundo, e isso fez as lágrimas voltarem a escorrer pelo rosto de Izuku.

Desta vez, diferente das outras lágrimas no seu quarto, eram lágrimas de felicidade. Todoroki respirava, estava ligado a algumas máquinas, que indicavam que o seu coração ainda batia, e um sorriso involuntário surgiu no rosto de Izuku, o seu amado estava vivo.

Aproximou-se da cama, observando Todoroki, aproximando a sua mão do rosto adormecido, estranhado quando não o trespassou, e pode sentir o calor do outro corpo, apreciando-o.

Ouviu novamente o som da porta, e viu uma médica e outro enfermeiro entrarem no quarto. Izuku permaneceu no mesmo sitio, comprovando novamente que ninguém o via, e reparou que a médica estava a ver em que estado Todoroki se encontrava, dizendo ao enfermeiro, que apontava tudo.

Naquele momento, uma nova mistura de sentimentos voltou a preencher Izuku. Descobriu que, mesmo que provavelmente ficasse desacordado por mais uns dias, Todoroki encontrava-se estável, os seus ferimentos externos tinham sido leves e que em breve estariam curados. No entanto, ouviu que durante o tratamento que Todoroki recebeu, o mesmo tinha sido diagnosticado com amnésia.

Izuku arregalou os olhos e sentiu-se perdido novamente, aquilo significava que Todoroki não se iria lembrar de si quando acordasse, e isso despedaçou-o.

Foi então, enquanto foi deixado sozinho com Todoroki, que uma voz se fez presente na sua cabeça, como um sussurro, e Izuku tinha a certeza de nunca ter ouvido aquela voz antes na sua vida, mas compreendeu perfeitamente o que a mesma dissera. Cumpre o teu último desejo.

Izuku levou os dedos aos lábios, pensado no que aquilo poderia significar, concluindo que, ao cumprir o seu último pedido, poderia terminar com a situação, mesmo não sabendo o que isso significava realmente, ou se iria sequer resultar em algo.

Tentou então lembrar-se desse último desejo, e não demorou muito para o fazer. Ele desejou que Todoroki acordasse, dissesse o seu nome e que tudo iria ficar bem. E ao perceber isso, suspirou, praticamente desistindo, pois não poderia cumprir isso, já que Todoroki provavelmente nem dele se recordaria ao acordar.

Aceitando, minimamente, o estando em que se encontrava, e em que provavelmente iria ficar, sem saber o que poderia fazer para mudar a sua situação, Izuku decidiu permanecer ao lado de Todoroki enquanto o mesmo estava desacordado, esperando que ele acordasse. Ouvia as conversas dos médicos, ou enfermeiros, sobre o estado do seu marido, observando, e acompanhado, as visitas que Todoroki recebia.

Os pais de ambos tinham ido vê-lo, assim como alguns amigos, e todos choravam, tentado por vezes sorrir, e conversavam com Todoroki, informando-o de algum acontecimento, ou novidade, tentando ao máximo que fossem positivas e minimamente alegres, mas nenhum deles aguentava a visita toda sem referir a reação que Todoroki poderia ter ao receber a trágica noticia, e lamentavam diversas vezes a morte de Izuku, que chorava a cada palavra que ouvia de todos os visitantes.

A vontade de abraçar cada um deles, e corresponder aos sentimentos carinhosos que os mesmos mostravam sentir por si, era esmagadora, mas Izuku não conseguia tocar em nenhum, e ninguém conseguia ouvir a sua voz. Então apenas chorava, emocionado com as palavras que ouvia, conseguindo sorrir algumas vezes, desejando a todos a maior das felicidades, agradecendo por todos os momentos compartilhados.

E assim, os dias em que Todoroki esteve desacordado passaram.

Foi no terceiro dia, em que Izuku decidiu recitar um dos poemas que tinha escrito para Todoroki, talvez por estar desacordado a sua voz o pudesse alcançar, pelo menos, era nisso que Izuku queria acreditar. E, ao terminar de recitá-lo, uma nova etapa de mudanças estaria para começar.

– E em cada pedaço de mim

Há um pedaço de ti

Assim que terminou, Izuku percebeu que Todoroki estava a começar a mover-se, e parecia que iria abrir os olhos a qualquer instante. Izuku não soube o que fazer, saindo do quarto assustado, não sabendo que reação teria ao ouvir da boca do marido que não se relembrava dele, e comprovar que o mesmo não o conseguiria ver, mesmo ele estando tão perto.

Começou a chorar do outro lado do quarto, perto da porta, vendo médicos e enfermeiros entrarem, ouvido a voz de Todoroki após aqueles dias assustadores pelos que passou.

O coração bateu descompassado, a sua respiração ficou irregular, e as lágrimas intensificaram-se uma vez mais, era doloroso, e quando Izuku viu os pais de Todoroki entrarem, decidiu ir ao terraço do hospital, pois mesmo que Todoroki não o pudesse ver, e que ambos não pudessem conversar ou ficar juntos, ele não queria chorar na presença dele.

Quando Izuku conseguiu acalmar-se, limpou as lágrimas, rindo levemente ao perceber que até mesmo naquele estado, ele conseguia chorar tanto. Respirou fundo e andou determinado até ao quarto do marido, desejoso de poder ver novamente os olhos heterocromáticos abertos, e ouvir a voz de Todoroki, ansioso também por saber que memórias Todoroki teria, e em quais iriam regressar, e quando.

No entanto, tudo para o que se preparou enfrentar, mudou completamente, assim que Todoroki deixou evidente que o via, conseguia falar com ele e Izuku lembrou-se que tinha conseguido tocar-lhe quando o mesmo esteve desacordado.

Naquele momento, Izuku ganhou esperanças, ele poderia sair daquela situação, ele poderia, talvez, ser livre, e ir para onde deveria, mesmo que não soubesse exatamente o que isso significava.

Izuku percebeu que Todoroki realmente não se lembrava de si, ficando um pouco magoado, mesmo que compreendesse a situação, e foi então que decidiu que iria conseguir fazer com que Todoroki se recordasse dele sozinho. O que foi facilitado, já que, Izuku tinha ouvido uma conversa entre os seus pais e amigos, em que eles tinham combinado não referir Izuku, ou algo relacionado a ele, pois poderia ter algum efeito negativo em Todoroki, e todos concordaram que apenas iriam falar de Izuku caso Todoroki se lembrasse, ou ficasse emocionalmente estável para receber uma noticia daquelas.

Enquanto conversavam a primeira vez após o acidente, Izuku elaborou rapidamente um plano, para que Todoroki não percebesse que era o único que o via e falava com ele, apresentou-se como Deku e pediu segredo, acompanhado as melhorias que Todoroki tinha, tendo atenção para não aparecer à frente de Todoroki quando o mesmo estivesse acompanhado, e tendo cuidado para não atravessar nenhum objeto ou pessoa.

Izuku aproveitou o tempo limitado que sabia que teria ao lado de Todoroki, cada pequeno momento, cada leitura dos poemas, que ajudavam o seu marido, e a importância que Todoroki lhes dava, mesmo sem se lembrar realmente, cada nova redescoberta que Todoroki fazia, era como presenciar um novo lado do marido que Izuku não conhecia, era algo que, apesar da sua situação, era maravilhoso para si, como se tivesse ganho a oportunidade de ficar um pouco mais ao lado de quem ama, e tivesse a chance de fazer o seu marido relembrar-se de si novamente, o que fez com que Izuku agradecesse a oportunidade que lhe tinha sido dada, para dizer tudo o que ainda queria dizer, para viver algumas coisas que ainda queria viver, para estar ao lado de Todoroki novamente.

(#)

Izuku terminou de contar o que lhe tinha acontecido em prantos, abaixando o rosto. O seu corpo tremia, as lágrimas estavam descontroladas, assim como os soluços que saiam involuntariamente da sua garganta. Ele temia a reação de Todoroki, questionando-se mentalmente, uma vez mais, sobre a escolha que tinha feito, talvez realmente ter-se afastado teria sido a melhor opção.

O seu estado de pânico apenas se agravou, quando sentiu Todoroki soltar as suas mãos e não dizer nada, deixando um silêncio breve, e bastante incomodo para Izuku, entre ambos.

No entanto, tão rápido como apareceu, o pânico desfez-se, assim que sentiu os braços quentes de Todoroki o envolverem, e trazerem-no para mais perto, passando-lhe confiança e conforto que, inconscientemente, procurou durante aquele tempo.

Quando se apercebeu, Izuku já estava a corresponder ao abraço, fechando os olhos, desejando poder ficar nos braços de Todoroki para sempre, mesmo sabendo que isso não seria possível.

– Izuku. – Chamou Todoroki, num sussurro, com a voz baixa e falha, denunciando o choro.

Após aquele chamado, ambos ficaram em silêncio novamente, apenas com os soluços de Izuku, que iam diminuído gradualmente, e com as lágrimas que banhavam os rostos dos dois. A apreciar aquele momento, aquele contacto, aquela oportunidade, cada um à sua própria maneira, perdidos nos próprios pensamentos.

– Desculpa. – Pediu Todoroki, quebrando o silêncio, apertando Izuku mais nos seus braços. – A culpa foi minha, tudo isto. – Suspirou, fechando os olhos, enquanto o choro se intensificava de forma silenciosa. – Lamento muito… perdoa-me Izuku. – Pediu novamente, sentindo-se devastado por dentro, uma enorme culpa a consumi-lo por todo o ocorrido.

Quem estava a conduzir, quem perdeu o controlo do carro, quem tinha feito com que Izuku se ferisse, e posteriormente morresse, tinha sido ele, quem o esqueceu também tinha sido ele, e todos esses fatores tinham, muito provavelmente, magoado e feito Izuku sofrer de uma maneira que Todoroki não conseguia imaginar, e desejava ter podido proteger o seu amado de tais experiências.

Enquanto isso, Izuku estava perplexo com as palavras de Todoroki, ele não o culpava, o acidente tinha sido apenas isso, um acidente, um azar do destino, que, se pudessem, ambos fariam os possíveis para alterar, mas isso não era possível, Izuku estava num estado que não tinha retorno, restando-lhe apenas esperar para que Todoroki dissesse o que ele queria em vida ouvir.

– A culpa não é tua. – Garantiu Izuku, afastando-se minimamente do abraço, para poder segurar o rosto de Todoroki entre as suas mãos, vendo o estado, quase em prantos, em que o marido se encontrava.

Não que Izuku estivesse num estado diferente, ele também chorava, contudo, tinha tido um pouco mais de tempo para se mentalizar sobre o que teria de ocorrer.

Passou os dedos suavemente sobre as bochechas de Todoroki, tentando limpar as lágrimas, no entanto, era uma tarefa bastante difícil, já que novas lágrimas surgiam a cada instante, não evidenciando que fossem parar em breve.

Ao sentir o carinho do marido no seu rosto, e vendo que o estado de Izuku era praticamente o mesmo que o seu, Todoroki levou as suas mãos de encontro às que estavam no seu rosto, tocando nas luvas que ainda as cobriam, fechando os olhos.

– Eu nunca gostei que usasses luvas. – Admitiu, pois, se Izuku estivesse sem elas, talvez ele tivesse conseguido recordar-se antes.

Todoroki abriu os olhos lentamente, encarando os de Izuku, que tinha um pequeno sorriso no rosto, fazendo com que as lágrimas de Todoroki apenas se intensificassem.

– Não é porque não vês que não está lá. – Comentou Izuku, retirando as mãos do rosto do marido, desfazendo o breve, e indireto, contacto com as de Todoroki, começando a retirar as luvas.

Todoroki encarava Izuku com um olhar triste e abalado, percebendo que, se ele próprio se encontrava assim, Izuku teria estado a sofrer ainda mais, pois sofreu sozinho desde o acidente, e, mesmo agora, Izuku sofria, e Todoroki sentia-se incompetente, não havia nada que ele pudesse fazer.

Assim que Izuku tirou as luvas, revelando as suas mãos, uma cheia de cicatrizes que, pelo que Todoroki se lembrava, tinham sido feitas quando Izuku tentou ensiná-lo a andar de bicicleta, e a outra que possuía um anel no dedo anelar, as lágrimas apenas se intensificaram, e Todoroki, num movimento instintivo, levou a sua mão à esquerda de Izuku, tocando o anel.

Pelo contacto repentino, Izuku acabou por surpreender-se um pouco, deixando as luvas caírem, porém, elas não chegaram a tocar no chão, pois, enquanto caiam, elas desapareceram, como se fossem feitas de cinzas que voaram com a brisa.

Tal acontecimento deixou ambos assustados, não sabiam exatamente o que aquilo poderia significar, mas algo bom, com certeza não era.

Izuku tremeu levemente, sentindo-se um pouco mais fraco desde que tinha acordado naquela condição. E, ao sentir o calor das mãos de Todoroki nas suas, percebeu o que, possivelmente, estava a acontecer.

O que Izuku mais queria, o que o “prendia” de alguma forma ali, eram as palavras de Todoroki, as que ele queria ouvir, e Todoroki, ao relembrar-se dele, disse o seu nome, o que fez com que, provavelmente, uma parte do que queria se realizasse, e isso, talvez, fosse a razão de sentir o seu corpo mais fraco.

– Shouto. – Chamou Izuku num sussurro, encarando o marido. – Desculpa ter-te feito relembrar de algo tão doloroso… eu não deveria ter-me aproximado de ti… querer que te lembrasses de mim – Disse apertando as mãos contra o peito. – Foi egoísmo. – Completou, sem conseguir impedir que novas lágrimas voltassem a ameaçar descer-lhe pela face. – Se eu pudesse. – Falou com um sorriso triste no rosto e suspirou. – Ah, se eu pudesse, ficaria ao teu lado da maneira normal, e como queria puder fazê-lo. – Izuku respirou fundo e continuou a falar. – Mas, não posso… eu estou aqui por um capricho, eu só queria ter a certeza de que estavas bem, e olha no que deu… acabei por tornar-me nisto. – Disse esticando a perna em direção ao banco onde estavam sentados anteriormente, deixando Todoroki sem palavras ao ver o corpo de Izuku atravessar a madeira. – E ainda te fiz sofrer por te lembrares de mim, talvez o melhor tivesse sido teres ficado sem as tuas memórias. – Finalizou levando as mãos ao rosto, rodeando o nariz e boca, numa tentativa de se acalmar.

– O que é que estás a dizer? – Perguntou Todoroki incrédulo. – Não podes estar a falar a sério. – Disse negando com a cabeça. – Como é que podes dizer isso?

– S-Shouto. – Disse Izuku, tirando as mãos do rosto, mas antes que pudesse continuar a dizer algo Todoroki voltou a falar.

– Eu disse isso não disse? – Perguntou retoricamente. – Que não importava que memórias fossem, eu queria relembrar-me de tudo, que queria saber a verdade, saber quem eu era e o que tinha vivido. – Relembrou-o, tocando-lhe no ombro. – Então, não digas que talvez fosse melhor não me lembrar de ti. – Disse puxando Izuku para um novo abraço.

Izuku deixou-se ser guiado pelos braços de Todoroki, continuando a ouvir o que o mesmo tinha para dizer.

– É verdade. – Continuou. – É verdade que dói, é verdade que não estou feliz pela situação, é verdade que estou a sofrer, que não queria que estivéssemos nesta situação. – Disse, encostando o seu queixo no topo da cabeça de Izuku. – Não quero perder-te… – Confessou, apertando-o com mais firmeza. – Mas, eu nunca me arrependeria de ter estas lembranças de ti. – Afirmou, com total convicção nas suas palavras. – Nem todas são felizes, em várias das minhas recordações estamos chateados, a discutir, tristes, a chorar. – Disse levando uma das mãos aos cabelos de Izuku, acariciando-os levemente. – Mas, na maioria delas não é assim. – Afirmou fechando os olhos. – Na maioria estamos felizes, a rir, a brincar, a divertir-nos, a sorrir, a sermos felizes. – Disse com um pequeno sorriso nos lábios. – E o importante dessas memórias… é que estamos juntos. – Comentou, afastando-se do abraço e parando de acariciar os cabelos de Izuku. – Praticamente em todos os meus momentos mais felizes, estás lá tu. – Disse, levando as mãos em direção as bochechas de Izuku. – Todas as discussões e problemas são tão insignificantes. – Comentou, iniciando um leve carinho nas bochechas do marido. – Comparados a tudo o que vivemos, comparados ao que eu sinto por ti, e ao que tu me fazes sentir. – Acrescentou, fechando os olhos e suspirando, abrindo-os de seguida, encarando Izuku, continuando a falar. – Eu nunca. – Garantiu, abanando a cabeça lentamente em negação. – Jamais, iria querer esquecer-me… – Confessou num sussurro, encostando a sua testa à de Izuku, terminando de falar. – Dos melhores momentos da minha vida.

Não importava a condição em que Izuku se encontrasse, não importava o tempo que passasse, as palavras de Todoroki sempre teriam um efeito nele que ia para além da sua compreensão, e, na situação em que estava, nem lhe tocavam o coração, mas sim a alma. Palavras tão sinceras e carregadas de sentimentos que só fizeram Izuku chorar, não conseguindo controlar as lágrimas ao ouvir palavras como aquelas, só por terem sido de Todoroki.

– Como queria poder ter mais tempo ao teu lado. – Confessou Izuku, limpando as lágrimas, ele não deveria chorar, ele não queria, e já tinha chorado tanto naquele momento, que nem sabia como aguentava.

– E podes. – Afirmou Todoroki agarrando Izuku pelos ombros. – Nós podemos ficar juntos, é só eu não dizer aquelas palavras, que podemos ficar um ao lado do outro, eu não me importo que estejas nessa condição, desde de que te possa ter ao meu lado Izuku.

– Mas… isso não é certo. – Disse Izuku, tocando nos braços de Todoroki, que o largou. – Nós não podemos ficar juntos, não te podes prender a mim, a algo que agora faz parte do teu passado. – Afirmou, encarando-o nos olhos, tentando fazê-lo entender. – Eu já não estou vivo. – Declarou suavemente. – E tu. – Disse, agarrando o rosto de Todoroki entre as mãos novamente e continuando a falar. – Ainda tens uma vida pela frente. – Garantiu, soltando o rosto de Todoroki. – Não te podes prender a mim, por favor. – Pediu. – Não te prendas a mim, vive, e aproveita o resto da tua vida para fazer o que sempre quiseste.

Todoroki encarou-o tristemente, ele compreendia a situação, mas não queria deixá-lo ir, era verdade que ainda haviam imensas coisas que Todoroki gostava de experimentar, alguns objetivos que tinha para cumprir, mas, que sentido fariam essas coisas, se ele estivesse sozinho? Ele tinha a família, ele tinha os amigos, mas com quem dividiu os melhores momentos foi com Izuku, a pessoa com quem fez mil e um planos, a pessoa que mais o apoio e lhe deu forças para lutar, e atingir, os seus objetivos, então que sentido faria, se essa pessoa tão importante não estivesse ao seu lado, para vê-lo chegar onde sempre quis, e fazer o que sempre desejou?

– Fica, Izuku por favor fica. – Pediu, praticamente desesperado, agarrando as mãos de Izuku com firmeza.

– Shouto… Eu… não posso. – Respondeu, apertando as mãos de Todoroki, sentindo-se impotente ao ver o estado de tristeza do marido.

– Eu preciso de ti. – Comentou Todoroki, acariciando uma das mãos de Izuku, entrelaçando os dedos na outra.

– E eu de ti. – Respondeu Izuku com um pequeno sorriso. – Mas, nós vamos ver-nos outra vez. – Garantiu, aumentando o sorriso.

– Como é que podes ter tanta certeza? – Perguntou confuso, não conseguindo negar a esperança que essas palavras lhe deram.

– Eu tive uma nova oportunidade para te ver, para estar ao teu lado, para poder conversar contigo e para nos despedirmos. – Explicou Izuku, com um sorriso gentil e um olhar que transmitia determinação e certeza. – Então se eu tive esta maravilhosa oportunidade. – Continuou. – De certeza que vamos ver-nos e ficar juntos novamente. – Disse, acreditando profundamente nessas palavras, e ao ver o olhar incerto de Todoroki, voltou a falar. – Preferias ter acordado sem memórias e nunca te lembrares de mim? – Perguntou, e Todoroki rapidamente negou. – E preferias lembrar-te de mim sem esta oportunidade de falarmos outra vez? – Perguntou novamente, vendo Todoroki arregalar os olhos ao compreender o que Izuku queria dizer, e negando rapidamente. – O destino foi cruel. – Disse. – Por ter deixado que isto nos acontecesse, mas… tivemos esta oportunidade, e por isso tenho de agradecer. – Comentou sorrindo, ficando feliz ao ver um mínimo sorriso no rosto do marido.

Todoroki tinha percebido a visão de Izuku, se eles não tivessem tido esta oportunidade, ele ao relembrar-se iria sentir-se imensamente culpado, provavelmente perderia as forças para viver ao saber que tinha sido a pessoa que causou o sofrimento e morte daquele que ama, mas, graças a esta oportunidade inexplicável que ambos tiveram, eles poderiam dizer o que queriam e precisavam. Todoroki estava decidido, iria aproveitar a oportunidade que lhes tinha sido dada.

– Eu amo-te. – Disse, iria relembrar Izuku de como o amava e de como ele era importante para si. – Tanto, mas tanto… Amo as tuas qualidades, defeitos, e todos os teus feitios. – Disse rindo levemente ao lembrar-se de alguns momentos pelos quais ambos tinham passado. – Amo o teu corpo, o teu sorriso, as tuas sardas, olhos e cabelo. – Continuou, mantendo uma expressão serena. – Amo a tua força para enfrentares tudo de frente, a tua lealdade, a tua determinação, amo ter passado por todos os momentos que passei contigo, teres preenchido a minha vida de momentos, independentemente de quais, amo todos eles. – Todoroki aproximou o seu rosto ao de Izuku, sem nunca soltar as suas mãos, encostando a tua testa à do amado, continuando a falar num sussurro. – Amo ter-me apaixonado por ti, uma pessoa tão incrível. – Todoroki tocou com o seu nariz no que Izuku, e abanou a cabeça, fazendo um famoso beijo à esquimó. – Por seres quem és, eu simplesmente te amo.

Izuku, ao perceber o que Todoroki pretendia, sorriu, já nem se importando com as lágrimas, se era assim que as coisas iriam ser, que fossem, nenhum deles iria ficar com algum arrependimento.

– Eu amei ter-te conhecido. – Começou Izuku, encarando os olhos brilhantes de Todoroki, vendo um sorriso sincero adornar-lhe o rosto. – Amei a tua amizade, os teus carinhos, as tuas palavras, e as tuas atitudes. – Comentou, sem desviar o olhar por um único segundo. – Amei teres lutado por mim e nunca teres desistido, amei a tua persistência, amei ter escrito poemas para ti. – Izuku voltou a esfregar os narizes de ambos, imitando o ato que o marido tinha feito. – Amei casar-me contigo, ter-te a meu lado, e não me arrepende de nada, de uma só coisa, ou de um só momento. – Izuku não conseguiu conter um sorriso ao falar, feliz por poder declarar-se novamente. – Amei a oportunidade de ter vivido ao teu lado, amei-te com tudo o que tinha, e recebi todo o teu amor em troca. – E um pequeno riso deixou os lábios de Izuku. – Eu amei ter-te amado.

Após as declarações, ambos permaneceram a encarar-se, olhos nos olhos, lágrimas nos rostos e sorrisos apaixonados, não havia mais nada a dizer, ambos sabiam como o outro se sentia, os sentimentos partilhados e mútuos que os dois tinham, apenas o silêncio bastava para confirmar o que eles já sabiam.

– Porquê é que tiveram de te tirar de mim? – Lamentou Todoroki, afastando-se ligeiramente, e soltando uma das mãos de Izuku, para tentar limpar o rosto.

– Eu ainda estou contigo. – Disse Izuku, aproveitando a liberdade da mão para pegar o caderno que tinha ficado esquecido no banco. – E sempre estarei. – Prometeu, estendendo o caderno em direção a Todoroki, feliz por conseguir pegar no mesmo, sendo a única coisa, para além do próprio marido, que Izuku conseguia tocar.

Todoroki agarrou o caderno e apertou mais firmemente a mão que estava entrelaçada na de Izuku. Aproximou-se lentamente, fechando os olhos e tocou nos lábios de Deku com os seus, iniciando um toque puro e simples, que foi prontamente aceito. Ambos estavam de olhos fechados, a aproveitar o contacto, sabendo o que estaria para acontecer.

Ao se afastarem, ambos permaneceram de olhos fechados, com as testas encostada, e numa concordância mútua e silenciosa, aproximaram os lábios novamente. Desta vez, num beijo mais profundo e necessitado, com um sabor salgado pelas lágrimas de ambos, não que isso importasse muito, poder sentir o contacto com o outro era, sem duvida, o mais importante.

Ao desfazerem o beijo, outros mais se iniciaram, e mal terminavam, novos eram trocados, cada um mais necessitado que o outro, cada um mais entregue, cada um mais nostálgico, cada um mais apaixonado, e cada um mais real, real no sentido em que sabiam o que iria acontecer quando se separassem definitivamente dos beijos, algo que nenhum deles iria ficar preparado jamais, mas algo que ambos sabiam que teria de acontecer.

Tendo em conta a situação, não se podiam prender ao passado, não se podiam iludir com uma realidade que não iria resultar, não poderiam ser verdadeiramente felizes, não naquelas condições que os impediriam.

– Eu nunca me vou esquecer de ti. – Sussurrou Todoroki ainda com os seus lábios contra os de Izuku, iniciando um novo beijo, aproveitando para abraçar o marido.

– Nem eu a ti. – Prometeu Izuku abraçando-o, terminado o beijo. – Eu quero que sejas feliz Shouto, que vivas uma vida feliz e completa, uma vida sem arrependimentos. – Disse com um sorriso, que foi retribuído, um pouco incerto.

Todoroki pegou na mão de Izuku, e levou-a aos lábios, beijando a aliança que se encontrava no seu dedo.

– Eu irei continuar a amar-te. – Prometeu, num sussurro, com os seus lábios ainda a tocarem na aliança do marido.

Izuku sabia que aquilo era verdade, sentia a sinceridade nas palavras que ouvia, e no olhar que Todoroki lhe dirigia, que o encarava de forma tão profunda.

– Está na hora. – Comentou Izuku, tentando limpar o rosto.

Ele sabia que não seria bom adiar mais, mesmo que, se pudesse, o faria, e ficaria com Todoroki. Izuku não poderia, nem queria, prendê-lo de alguma forma, tirar-lhe a sua liberdade e impedi-lo de viver uma vida que ainda tinha pela frente, só porque ele tinha perdido a sua, não significava que Todoroki tinha de parar de viver a dele.

– Eu não me quero despedir. – Confessou Todoroki com um sorriso triste, mesmo sabendo que era o melhor, para ambos, já que Izuku parecia estar a sofrer bastante com a situação, seria o melhor, ele sabia disso, mas não deixava de ser difícil, e doloroso.

– Então não te despeças meu amor. – Pediu Izuku acariciando uma bochecha de Todoroki, encostando os seus lábios aos dele, num beijo rápido, repleto de sentimento e significado.

– Estou feliz por ter-me lembrado de ti. – Comentou Todoroki acariciando uma das mãos de Izuku. – Não sei como o fazes, mas já é a segunda vez, que fazes a minha vida ter sentido. – Confessou, sabendo o que teria de fazer a seguir.

Por um lado, esperava que, se as palavras não fossem totalmente sinceras, não resultasse, por outro, também não queria causar mais sofrimento em quem ama, e apreciava aquela oportunidade que lhes tinha sido concedida, para poderem estar juntos.

– Todoroki Izuku. – Chamou o marido pelo nome completo, com uma firmeza extraordinária na voz, sentido Izuku afastar-se, fazendo-o soltar a sua mão e, ao ver um sorriso no rosto do amado, Todoroki ganhou coragem para terminar de falar, fechando os olhos, sentido o sabor salgado das suas lágrimas nos lábios ao proferir aquela frase que iriam mudar a sua vida. – Tudo vai ficar bem.

Ao dizer tais palavras, sem saber se eram mais para Izuku ou para si próprio, apertou um dos punhos com força e, com o outro, apertou o caderno firmemente contra o peito, mantendo os olhos fechados, temendo abri-los e confirmar se Izuku realmente não se encontrava mais ali.

2 de Agosto de 2019 às 19:10 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Beatriz PFT25 Viciada em BNHA! ❤ Apaixonada pelo Todoroki Shouto! ❄❤🔥 Escrevo nos tempos livres! ✍ TT: Beatriz_Kami7 Sintam-se livres para falar comigo :3 Tenho conta também no Spirit, Wattpad e Nyah, todas com o mesmo nome

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