Alerta de perigo para você do outro lado dessa tela! Seguir história

stefanippaludo Stéfani Paludo

Estar com seu smartphone junto de si praticamente 24 horas por dia já é algo comum nos dias de hoje. Mas imaginem uma sociedade distópica onde tudo é realizado por meio dele, incluindo a comunicação que deixou de ser falada e é feita apenas através de mensagens. A cada idade, desde os primeiros meses de vida, os seres humanos ganham um dos aparelhos com funções específicas para suas necessidades. Necessidades essas que são satisfeitas sem precisar se tocar no smartphone. Graças à um microchip colocado em seu cérebro, tudo é realizado por meio de pensamentos. Tudo parece perfeito. A tecnologia parece que só vem melhorar e acrescentar em nossas vidas. Mas até que ponto isso é real? Até que ponto não somos afetados por elas e não corremos riscos?


Ficção científica Todo o público.

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Capítulo Único

Espero que você do outro lado dessa tela esteja conseguindo me ler. Não sei quanto tempo ainda tenho, mas acredito que o suficiente para relatar a minha história e abrir seus olhos. Isso enquanto a dor aguda não volta. Se ela surgir, não conseguirei mais prosseguir meu relato e vocês prosseguirão ignorantes. Portanto, torçam para que eu consiga. Não sei quantos minutos de vida me restam e preciso que mantenham os olhos fixos nesses aparelhos que governam nossas vidas.

Meu nome é Sara, tenho 34 anos e estou prestes a morrer. A consciência disso não me apavora. Não como deveria. Prefiro que minha vida acabe a viver na realidade em que estou. Além da dor que me incapacita a todos os momentos, há o vazio e a solidão. Um vazio e uma solidão que não posso mais ignorar. Meus olhos foram abertos. Eu consegui ver a verdade, e agora não é mais possível negligenciá-la.

Você deve estar se perguntando como as coisas mudaram para mim e que verdade é essa que agora posso ver. Só peço que tenha calma. Vou contar tudo por partes, como conseguir. Afinal, não é fácil escrever uma mensagem tão longa. Pense você, se nas circunstâncias em que está, com essa coisa na sua cabeça e esse smartphone em frente aos seus olhos, escreveria algo com tantas linhas? Provavelmente não. Essa foi mais uma das habilidades que me foram devolvidas. Assim como a capacidade de enxergar a realidade com meus próprios olhos, agora posso pensar por mim mesma e você logo será capaz de fazer isso também.

Desculpe a enrolação. Estou me perdendo um pouco no assunto e não sei exatamente como começar. Além do mais, essa dor insuportável não está ajudando. Por enquanto não me impossibilita de fazer muita coisa. Na verdade, a maior parte do dia ela tá lá, fraca mais sempre presente. Um aperto constante em meu cérebro, lembrando-me que meus últimos momentos de vida se aproximam.

Enfim, vamos ao que interessa:

Provavelmente você sabe sobre os chips que temos implantados em nossa mente, certo? Aqueles chips de silício e cobre que são colocados quando ainda somos bebezinhos. Esses chips são o início e os responsáveis por tudo. Eu sei, eu sei. Nesse momento acredito que esteja me xingando e pensando que esse microchip que tem na cabeça é a grande descoberta do século. Conheço todas as vantagens dele. Eu mesma ainda tenho ele no cérebro e por boa parte da minha vida achei a melhor coisa já inventada.

Só através dele podemos nos comunicar, fazer todas as atividades essenciais, nos alimentar, adquirir conhecimento, conhecer o que quisermos e viver a vida. Lembro que quando era adolescente permanecia deitada em minha cama o dia todo, conversando com meus amigos pelo meu smartphone, apenas com meus pensamentos. Eu pensava na mensagem que gostaria de enviar e segundos depois eles estavam recebendo. Simples assim.

Era só pensar também que estava com fome e o que queria comer, que o meu robô preparava meu jantar e o trazia para mim, dando em minha boca sem eu nem mesmo precisar levantar. Nem mesmo quando minha mãe chegava do trabalho. Ela não aparecia para me ver. Ligava a câmera de meu smartphone e por pensamento perguntava como eu estava. Eu respondia sempre a mesma coisa e dava um jeito de encerrar rapidamente a comunicação com ela. Preferia reservar toda a minha atenção aos meus amigos.

Conversávamos sobre a vida no geral. Falávamos uns dos outros, discutíamos um filme que havíamos visto recentemente, uma novidade que havia surgido ou sobre a aula daquele dia. Sempre odiei frequentar a escola e assistia as aulas da minha própria casa. Todas elas ficavam gravadas e disponíveis para que eu visse quando quisesse e eu as assistia sempre antes de dormir, aproveitando também para fazer os exercícios passados por mensagens e e-mail pelos professores. E fazia tudo isso sempre deitada, no conforto do meu quarto.

Na infância foi a mesma coisa. Não tenho tantas lembranças dessa época, mas como toda outra criança vivi boa parte dela em minha casa, com meu smartphone e meu robô de companhia. Eles me davam tudo que eu precisava. Me educavam, me ensinavam e brincavam comigo. Meu smartphone daquela fase era equipado com diversos jogos e vídeos que me distraíam por todo dia e estimulavam meu aprendizado.

Mas isso não é nenhuma novidade para você. Tenho quase certeza que cresceu e vive do mesmo jeito que eu vivia. Todos seguimos as mesmas rotinas, sempre monótonas e individuais. A única diversificação se dava com a troca dos smartphone conforme crescíamos e nossas necessidades mudavam. Essa era a nossa alegria e em torno do que nosso mundo girava. E em torno do que sua vida ainda deve girar.

Porque as semelhanças em nosso passado acabam por aqui. Pelo menos é o que espero.

No final de minha adolescência passei a ter frequentes dores de cabeças. De início apenas ignorei e as contornei como pude, me medicando e acreditando que logo passariam. Ou, então, acreditando que era algo comum, que todos tinham.

Mas não. Pouco a pouco as dores foram aumentando e fui me dando conta que outra coisa também mudava. Eu não estava mais tão parecida com os outros. Minha mente estava passando a ser diferente. Eu começava a me sentir diferente e começava também a sair da cama e frequentar os lugares em vez de vê-los pela tela do meu smartphone.

Me matriculei na faculdade de medicina e comecei a frequentá-la. Era uma das únicas estudantes que se fazia presente em sala de aula. O restante preferia gravar o conteúdo e assisti-lo quando pudesse. Ao contrário, eu começava a me sentir melhor a cada aula que ia. A sensação era bem diferente de vê-la por uma tela. Parecia até que eu estava sentindo as emoções que tanto ouvi falar ao longo de minha vida. Desde tédio em algumas aulas à animação e vontade de aprender em outras.

Alguns anos mais tarde me formei no curso, mas não sem que parasse de sentir as pontadas fortes em meu cérebro. Eram dores intensas e frequentes, que por vezes chegavam a me incapacitar e causar outros sintomas. Mas eu mantinha eles apenas para mim. Ninguém mais podia saber deles. Poderiam querer que eu fizesse exames para garantir que estava bem de saúde, e eu não estava disposta a fazê-los. Como médica, eu devia saber que não era nada grave. Eu estava e ficaria bem.

Com o aumento das dores de cabeça aumentava minha vontade de largar todos os meus aparelhos tecnológicos e, pelo menos por uma vez, sair andar sem a companhia de nenhum deles e conversar com alguém pessoalmente, escutando sua voz. Porém, sabia que eram atividades proibidas. Deveria estar sempre com meu smartphone me rastreando e rastreando qualquer coisa que eu dissesse ou visse. Também sabia que as conversas deviam se dar sempre por mensagens, salvo raras e essenciais exceções.

Tenho quase certeza que sabe de tudo isso que contei e que não se importa. Mas ao contrário de você eu me importava. Me importava cada vez mais. E quer saber o porquê? Acho que vou te contar de uma vez. Minhas dores estão aumentando. Minha visão está um pouco embaçada, meus olhos ardem e minha cabeça parece que vai explodir. É sinal que o pior da dor está chegando e eu não vou mais me ater a tantos detalhes.

O microchip que tenho em minha cabeça está derretendo. É esse o meu problema. O cobre está se deteriorando e causando reações no silício da peça e no meu cérebro. O pequeno objeto tecnológico também não está mais funcionado como deveria e conforme vai se desmanchando, mais danos causa a minha mente. Foi sempre essa a causa das minhas dores. Desde o início, desde que entrei na vida adulta e a dor começou essa era a razão.

E é ao chip estragado que se deve também a minha forma diferente de ser e de ver o mundo. Como ele está danificado, não controla mais o meu cérebro. Eu penso por mim mesma, eu consigo ter as capacidades normais e inerentes aos seres humanos. Capacidades que nos foram tiradas para que pudéssemos viver com a tecnologia de maneira plena.

Você entende? Você entendeu? Espero que sim. Porque não consigo dizer mais nada. Esse é o fim. Quero bater minha cabeça na parede. Já estou gritando enquanto escrevo essas últimas palavras. O chip deve ter derretido por completo. Eu vou morrer. E só espero que essa mensagem chegue até você e que tenha sido o suficiente para lhe fazer entender.


* *


Eu não morri. Felizmente ainda estou aqui. Queria que tivesse acabado o meu sofrimento, mas também queria ainda repassar isso a você. É o que terminarei de fazer agora. Porque se meu cérebro tivesse se desligado de vez, essas palavras todas teriam sido em vão. Eu fracassei e não pude enviá-las antes do pior da minha crise chegar. Caí no chão segundos depois de digitar a última palavra. Só tive a consciência e o impulso de me virar de lado e a convulsão começou.

Acredito que não tenha durado muito tempo. Caso contrário eu não estaria aqui. Mas foi o suficiente para me deixar desmaiada por várias horas. Pelo menos é o que acho, já que dessa alcova não consigo estimar quando é dia ou quando é noite. Só tenho aqui comigo meu smartphone, que eles programaram para não exibir mais o horário, mas que ainda é capaz de me servir e guardar esse texto.

E prosseguirei com ele. Agora com os detalhes mais uma vez, já que sei que ainda tenho tempo para que possa me dar o luxo de contá-los. Assim, você entenderá minha história e meus ensinamentos muito melhor.

E a onde eu estava mesmo? Ah, sim! Eu lhe expliquei sobre o chip, seu defeito e o que ele está fazendo com meu cérebro.

Você deve estar curioso para saber como descobri tudo isso e vou lhe contar. Não que ache essencial para a compreensão da mensagem. Mas como temos tempo e estou sentindo a dor fraca na cabeça, não me custa.

Já falei anteriormente que sou médica, mas acho que não cheguei a informar que trabalhava em um hospital público, onde realizava diversos exames e atendia os pacientes. Na época em que o que narrarei em seguida aconteceu, eu estava com as dores tão fortes quanto hoje e buscava uma maneira de amenizá-las e descobrir do que se tratavam. Foi numa tarde de chuva e calor que a oportunidade surgiu.

Havia um exame marcado para uma garota. Ela realizaria uma ressonância magnética no cérebro para verificar lesões e qualquer indício de um problema. Eu realizaria o procedimento e a aguardava pacientemente. Mas a moça não compareceu.

Há meses eu queria realizar a ressonância em mim mesma e descobrir o que acontecia com meu cérebro. Mas tinha medo. Como se sabe, não é permitido que se realize um procedimento desses sem autorização. Toda análise e o seu resultado precisam ser repassados ao governo. Se eu fizesse e apontasse alguma doença ou qualquer coisa errada comigo, seria mandada para um centro de tratamento, longe dali.

Eu tinha quase certeza que estava doente. Dores tão fortes não eram comuns. Nem mesmo as vertigens, as ânsias, a ardência nos olhos e as pequenas convulsões que tinha ocasionalmente. Mas queria ter certeza. E foi naquela tarde que eu tive.

Deixei meu smartphone na sala do exame, para que o rastreador permanecesse aonde eu deveria estar e vestindo um roupão que me cobria por inteira segui para a máquina, fingindo ser a paciente que aguardava àquela tarde. Tudo estava programado no equipamento do exame e ele realizaria o teste automaticamente.

Demorou menos de meia-hora para que o procedimento fosse concluído e eu voltasse para minha função original. Lembro que virei meu smartphone com a tela para baixo, cobri a câmera traseira com um papel e respirando fundo abri no computador as imagens do meu cérebro.

Não precisei de muita análise para saber que minhas suspeitas se concretizavam. Eu estava morrendo. Já havia uma grande mancha na parte posterior do meu crânio, fazendo compressão à massa encefálica e causando as dores.

Pela primeira vez na vida tive vontade de chorar. Eu ia morrer, agora tinha certeza. E não poderia deixar que ninguém soubesse do meu estado. Precisava esconder isso até mesmo daquele maldito aparelho que me acompanhava aonde eu fosse. Se ele soubesse e a informação fosse repassada ao governo, minha última morada seria o centro de tratamento para onde levavam todos os doentes. E ninguém sabia como era ou o que se fazia por lá. Os poucos que se recuperaram e voltaram tiveram suas memórias apagadas.

Porém, tentava me convencer que ir para esse centro não seria pior do que viver no mundo em que vivia até ali.

Passei a ter plena consciência do mundo e do quanto somos alienados. Vivíamos nossas vidas em torno da tecnologia, sendo regulada por ela e pelo desejo dos grandes. Tudo que fazíamos, falávamos, víamos, tudo era repassado ao governo que fazia uso disso como bem entendesse. Inclusive, vendia essas informações para grandes empresas que se aproveitam das informações e das situações de cada um da melhor forma que pudessem.

Até mesmo quando tentávamos obter conhecimento e fazer pesquisas os resultados eram filtrados. Filtrados segundo o que era seguro que víssemos, segundo nossos históricos de vida e segundo o que o governo desejasse.

Viver numa bolha, preso a uma vida inventada e sem privacidade, onde cada movimento é observado e analisado com atenção, tendo que se acostumar com a individualidade e a solidão, com a vida rotineira e monótona de máquinas sem sentimentos e emoções que te fazem parecer como elas. Alienadas e negligentes. Acho que até preferia ir ao centro de tratamento a conviver com isso. Agora eu não tinha mais o escudo do chip que me protegia desses questionamentos e da reflexão. Agora eu era humana de verdade. Agora eu pensava. Agora eu vivia e sofria com isso.


* *


Desculpe pela parada. Me emocionei enquanto escrevia as palavras anteriores e desmaiei sem um aviso prévio. Parece que as emoções mexem com a parte atingida do meu cérebro e me fazem ficar ainda pior. Mas você sabe o que é emoção? Já sentiu uma delas alguma vez? Provavelmente não, já que o microchip as controlam e mantém você estabilizado e sem sentimentos.

Mas saiba que há várias delas. Várias emoções, no caso. Desde boas, às ruins. Eu tenho tido experiência com as ruins na grande maioria, mas, às vezes, tenho um breve vislumbre das boas. E além disso, sabemos delas. Conhecemos na teoria o que é a felicidade, o que é o amor, a tristeza, a saudade. Mas apenas na teoria e não na prática.

Não vou me ater a isso. Você não entenderia nem que eu explicasse nos mínimos detalhes. Não é algo que possa ser compreendido assim. Você precisa sentir por si mesmo. E com esses chips em sua mente isso é impossível. Portanto, vamos voltar ao que interessa e prosseguir a minha história. Já está quase no final e acredito que conseguirei concluí-la.

Realizei a ressonância magnética e não contei a ninguém o que eu havia descoberto. Também, não havia ninguém que se preocupasse comigo a ponto de querer saber disso. Ninguém além do governo, é claro. E para esse que eu não iria contar mesmo. Não por livre e espontânea vontade pelo menos.

Mas exatamente 3 dias depois de eu ter realizado o exame fui abordada por um colega de trabalho enquanto analisava algumas amostras de sangue coletadas de um paciente. Me encontrava no laboratório onde todos os médicos frequentavam e só notei sua presença quando ele me puxou pelo braço, me levando atrás de uma estante com livros e equipamentos e me entregou um papel.

Era um bilhete dobrado, percebi assim que o peguei na mão. Quis perguntar a ele do que se tratava, mas o homem de meia idade, ao qual nunca soube o nome, fez um gesto com a mão me pedindo silêncio e indicando a mensagem em minha mão.

Desdobrei o papel e li as breves palavras: "Eu sei o que você fez. Eu sei o que você tem e que vai morrer. " Arregalei meus olhos e o encarei aflita. Como ele poderia saber? Imaginei que o restante do bilhete dissesse que eu estava condenada ao Centro de Tratamentos, mas fiquei ainda mais surpresa ao descobrir que não: "Confie em mim. Quero te ajudar. Você não é a única. Mas não fale nada em voz alta. Nem em frente ao seu smartphone. Estamos em um ponto cego da câmera, mas eles ainda podem nos ouvir. "

Como a mensagem acabava dessa forma, sem maiores explicações, olhei para o homem grisalho em minha frente e fiz um gesto afirmativo com a cabeça, mostrando que havia entendido. Ele retirou um novo papel do seu bolso e começou a escrever rapidamente:

"O chip que tem na cabeça está derretendo e afetando seu cérebro. "

"Eu sei", escrevi como resposta, tendo dificuldade em segurar a caneta e fazer as letras.

"Você também deve estar sentindo que o seu cérebro não é mais governado por eles. "

"Sim. "

"Isso está acontecendo com várias pessoas. Aconteceu comigo também. "

Eu o encarei espantada. Ele também tinha as dores de cabeça? Ele também iria morrer logo?

Peguei o papel e o virei, usando seu verso para continuar a conversa:

"Você vai morrer? Quanto tempo faz que já sabe? "

"Não. Eu consegui tirar o chip da minha cabeça antes que fizesse maiores danos. "

"Como assim? Posso fazer isso também? E como o governo não descobriu? "

"Somos discretos. E foi uma cirurgia secreta e sem os aparelhos essenciais. Eu fui o primeiro a fazer. Achávamos que não ia dar certo. Mas deu e eu sobrevivi. Realizamos em outros também, mas as chances de morrer são de 50%. "

Ele me entregou um novo papel para que eu pudesse responder.

"Vou morrer de qualquer jeito. Com essa operação terei alguma chance. "

"Ótimo. Verei o que podemos fazer com você. "

"Mas é quando eu tirar o chip da minha mente como me comunicarei com meu smartphone? O governo vai perceber a ausência de comandos. "

"Sem o chip ficamos mais inteligentes. Ele limita nossas capacidades. Um dos nossos, quando o chip já havia praticamente se deteriorado inteiro, conseguiu criar uma forma de realizar as coisas manualmente no smartphone. É assim que fazemos e vem dando certo. "

"Tudo bem. "

"Apenas permaneça quieta. Não deixe que ninguém saiba sobre isso e esconda os seus sintomas de todos. Principalmente do seu smartphone. Entrarei em contato logo. "

Concordei e o homem se afastou sem dizer mais nada. Levando consigo os dois papéis que usamos para nos comunicar. Alguns dias depois voltamos a nos falar e ele marcou a minha cirurgia. Me explicou aonde deveria ir e o que fazer para enganar meu smartphone. Fiz como explicado e me desloquei até o local.

Os preparativos para a operação ocorreram de modo satisfatório e eu acompanhei todos eles. Só não vi mais nada após ser anestesiada. Esperava acordar bem e sem aquele maldito aparelho eletrônico na minha cabeça me matando. Ou então esperava morrer e nunca mais acordar. Uma morte calma e sem dor, enquanto eu dormia.

Mas o que aconteceu não foi nem uma coisa, nem outra. Quando acordei já estava aqui, presa, sem ver a luz do dia e sem saber o que aconteceu. Suponho que tenham nos encontrado e nos prendido antes da operação começar. Não há como saber de certeza. A única coisa que sei é que a cirurgia não foi realizada e eu ainda tenho o chip na minha mente. Se não tivesse ela não doeria tanto.

Agora que conclui a mensagem e expliquei minha história, vou enviá-la a todos vocês. Espero que seja o suficiente para alertá-los sobre o perigo de continuar vivendo com isso na cabeça e o quanto esse smartphone governa suas vidas. Vocês precisam agir. Se souberem da verdade poderão um dia fazer alguma coisa e evitar a morte e o controle mental.

Estou dando minha vida por vocês. O que me resta de consciência e de inteligência usei para desenvolver um algoritmo capaz de invadir esses malditos aparelhos de vocês e distribuir essa minha mensagem como um vírus. Se ele der certo todos vocês verão e esse será o início da diferença.

E por favor. Façam isso rápido. Para mim não há mais opção. Estou vendo o mundo escurecer. Do meu nariz já pinga sangue. Estou morrendo. Mas talvez para vocês ainda exista uma saída. Minha cabeça vai explodir. Estou gritando de dor. Mas vocês ainda podem viver.... Vocês ainda...

29 de Julho de 2019 às 00:10 8 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Stéfani Paludo Stéfani Pinheiro Paludo é uma jovem escritora gaúcha, nascida em Passo Fundo e que além de tudo é leitora, estudante de arquitetura e apaixonada pelas artes em geral. Publicou seu primeiro livro em físico, “A Missão”, pela Editorial Hope em 2018. E em 2019 arriscou seu primeiro ebook na Amazon: Salve a Rainha. E agora de forma independente os dois primeiros livros da trilogia A Missão. Além desses possui uma poesia publicada na Antologia Coexistência pela Porto de Lenha Editora em 2016.

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Meio irônico que precisamos de algum meio tecnológico pra ler o texto ksksk. Bem, deixando isso de lado, uau! Tenho de admitir que achei a escrita um pouco pobre, mas isso, sem sombra de dúvida, foi compensado pela reflexão que a história passa. Eu próprio já critico muito a tecnologia — reconheço suas utilidades mas acho que estamos indo longe demais — então fiquei interessado em especial quando vi a sinopse, e não me desapontei. Vi algumas contradições, especialmente no que toca a esse governo ditatorial de chips cerebrais que quer matar toda a sua população, mas talvez isso seja explicado por algo que não seja dito no texto. De qualquer modo, num geral, topper!

  • Stéfani Paludo Stéfani Paludo
    Muito obrigada! Obrigada pelas críticas também. Vou pensar nelas com carinho e se possível melhorar. 2 weeks ago
Edvaldo Lopes Edvaldo Lopes
Gostei bastante desta envolvente e cativante estória onde podemos ver um pouco de uma realidade futura onde as pessoas poderá ser totalmente teleguiados não seram donos dos seus pensamentos das ações sendo monitorados todo o tempo. Os humanos de certa forma já estáo se deixando serem controlados tudo que hoje pesquisamos ficam como pegadas na grande rede.

Tamires Barbosa Tamires Barbosa
Simplesmente adorei. A história me prendeu, o jeito que você escreveu me cativou, sem falar que a história é muito boa. No mundo em que estamos vivendo, acredito que seja bem provável algo assim acontecer. Parabéns, por mais histórias assim!
31 de Julho de 2019 às 14:14

  • Stéfani Paludo Stéfani Paludo
    Né? Pode muito acontecer. E obrigada pela leitura. Fico bem feliz que tenha gostado 2 weeks ago
Maya Amamiya Maya Amamiya
Wow! Me prendeu a leitura. Uma situação bem Black Mirror com um pouco de 1984 do Orwell. Bem assim mesmo. Onde quer que a gente vá, encontramos pessoas na rua olhando o celular e não é coisa rápida, parece que gruda mesmo. Uma realidade. E gostei muito do seu texto. Está de parabéns!
29 de Julho de 2019 às 16:04

  • Stéfani Paludo Stéfani Paludo
    Simmmm! É muito real. E cada vez mais é possível de acontecer. Fico feliz que tenha gostado e obrigada pela leitura e comentário 2 weeks ago
~

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