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Aquilo só podia ser uma espécie de maldição, ou estava sendo extremamente azarado. Recentemente, todos os lugares em que ia, o maldito do Dazai também aparecia por perto. Se resolvia alguma missão, lá estava ele. Se ia para o bar, lá estava ele. Se parava no alto de um prédio qualquer, apenas para observar a noite estrelada — que era exatamente o que estava fazendo nesse momento — adivinhe? Lá estava ele. Tudo bem, dessa vez ele que o encontrou, mas foi uma surpresa ver o maior quando subiu, parado na beirada olhando para baixo. Nakahara Chuuya já estava extremamente puto com tudo isso. Óbvio que uma parte sua adorava poder ver o moreno com mais frequência, mas seu orgulho fazia questão de enterrar esse lado. Enquanto remoía seus pensamentos, nem percebeu que o encarava todo esse tempo, tendo a presença notada. A voz melodiosa, tão conhecida pelo ruivo, se pronunciou.

— A noite está bonita, não é mesmo? — tentou puxar assunto.

— Estaria mais se não houvesse sua presença desagradável. — Chuuya retrucou.

— Sempre amigável, Chuuya. Como consegue ficar tão irritado numa noite calma dessas? — fez uma cara de santo, o que irritou mais ainda o outro.

— Deve ser porque tenho que ver essa sua cara de imbecil praticamente em qualquer lugar que vou. Parece uma praga. — bufou.

— Ora ora, sério? Eu nem havia reparado que eu estava me encontrando tanto com você assim. Será que você não está só pensando demais nisso? — parou de falar e encarou o ruivo, com um sorriso malicioso brotando nos lábios — Ou você está achando que isso é obra do destino? — insinuou.

Chuuya o encarou, um tanto indignado com um quê de surpreso, aquele idiota achava que se esbarravam por aí por causa de destino? Ele o confundia com uma garota do colegial, que achava que se encontrar por acaso com quem gostava numa rua qualquer era porque estavam destinados? Só podia ser uma piada, mas a raiva não foi o suficiente para parar suas bochechas de corarem com o pensamento. No mínimo tinha dedo do Dazai na história, mas Chuuya não pensou numa razão decente para que ele estivesse fazendo isso. Era trabalho demais se fosse apenas para debochar da cara dele. Tudo havia limites.

— Hã?! Só cale a boca e suma, idiota. — esbravejou sem paciência, recebendo um riso em troca.

A verdade era que Dazai Osamu, não só havia reparado nas diversas vezes que se encontraram, como também estava por trás dos ocorridos. Não podia evitar, há algum tempo sentia a necessidade de verificar se o ruivo estava bem. Antigamente, quando eram parceiros ele estava sempre próximo, mas após sua saída da máfia, seu sentimento de protegê-lo ficou notável, e as coisas se complicaram nessa questão. Então, ocupou seu tempo ocioso para saber por onde o ex companheiro estaria, o que era bastante cansativo e trabalhoso, mas era recompensador só por estar perto novamente. Bom, talvez não tão perto quanto gostaria, já que boa parte dos encontros eles não trocavam uma palavra, Dazai apenas aproveitava para observar o pequeno e ouvir sua voz. Agora, resolveu um aproximar mais direto, pois o encontro dos dois no alto do prédio estava sendo puramente o destino. Talvez devesse encarar isso como sinal, pensou, afinal as chances de Chuuya subir no mesmo prédio que ele subiu pra pensar na vida, só não considerava impossível pois o ruivo estava bem ali, e não foi embora ao notar sua presença, o que provava que aquilo tudo definitivamente era um sinal. Estava se tornando alguém supersticioso? É, o amor realmente afeta as pessoas. Se perguntava como o outro não havia percebido o tanto de coincidências impossíveis, ou pelo menos o questionado a respeito.

O silêncio se instalou por longos minutos, apenas o som do vento era audível. Chuuya fitava o céu e algumas vezes Dazai, percebendo que o mesmo estava o observando sem parar, mas apenas virava a cara em resposta ao olhar, na tentativa de esconder as bochechas coradas de vergonha. Na terceira vez que olhou-o, já cansado de se sentir observado — e de muitas outras coisas também —, resolveu questionar.

— Por que você está aqui ainda? Quer algo comigo ou é falta do que fazer?

Dazai ficou surpreso com as perguntas que soaram tão calmas, geralmente eram em tom elevado e acompanhado de um xingamento ou um chute. Suspirou. Era natural que ambos um dia amadurecessem, e ele decidiu que levaria a sério esse sentimento. Se não fosse por destino ou sinais, seria pela necessidade que sentia em ser sincero dessa vez. Sem deboches, enigmas ou omissões.

— Devo lembrá-lo que eu estava aqui antes, mas... — debochou rapidamente, recebendo uma cara feia — Na verdade, essa é minha prioridade na minha lista de afazeres. Ver você. — disse simplista, em tom sério.

Inevitavelmente Chuuya corou inteiro ao ouvir a resposta. Então vê-lo era algo importante para ele? Era uma pegadinha com certeza, estava só esperando algo de si, uma reação ou algo do tipo, para fazer um deboche. E Chuuya já estava exausto disso, como se estivesse preso numa espécie de jogo, criado pelo moreno.

— Não anda com coisas muito importantes para fazer pelo visto. A agência está falindo e você não tem mais casos para trabalhar é? — respondeu com o maior desdém que conseguia no momento, que era bem pouco por sinal.

— Ou algumas coisas são mais importantes do que outras. — rebateu instantaneamente, dando de ombros.

— Não se abandona coisas que nos são importantes, Dazai.

A voz de Chuuya saiu baixa e carregada de mágoa, quase como se estivesse apenas pensando alto demais, o que não deixava de ser verdade, já que não pensou muito ao dizer aquilo, mas era algo que rondava sua mente e sentimentos de tempos em tempos, sendo automático o desabafo. Era inegável que ele confiava em Dazai, algo que não mudou mesmo ele indo embora inesperadamente, mas o fato dele o ter abandonado como se não significasse nada, mexeu em algum sentimento que o menor ainda não sabia descrever.

— As vezes agimos da maneira que achamos ser certo, para só perceber o erro depois. — suspirou. — mas eu estou aqui, não estou, Chuuya? Eu estou sempre por perto porque é impossível para mim te abandonar. — confessou, desviando os olhos para o céu.

Então o maldito estava o perseguindo, sua teoria de ser uma maldição era correta, mas Chuuya não desgostava de ter que carregá-la pela vida, e muito menos desfazer. Estava muito desconfiado da atitude de Dazai, inesperadamente sério. Uma parte sua já criava esperanças do amor enterrado ser correspondido, a outra tentava avisar que era uma armadilha.

— Está dizendo que não consegue ficar sem mim? — perguntou debochado, cruzando os braços. — Meio contradizente não?

— Sabe… — olhava para o céu, ponderando se deveria dizer — eu ouvi esses tempos que lar é onde nosso coração está.

O ruivo apenas o encarava confuso, sem saber o que dizer a respeito. Isso apenas serviu de incentivo para o moreno continuar.

— E todas as vezes que te olho, é quando consigo sentir paz. — Dazai o olhou novamente — Acho que isso significa que você é meu lar, Chuuya.

Desarmado, era assim que se sentia. Como sempre, pelo menos quando se tratava de Dazai. O moreno parecia saber exatamente como atravessar todas as suas barreiras, fossem elas seus planos, a gravidade ou seus sentimentos. Olhava incrédulo, a mente em branco e as palavras o abandonando. O maior se aproximou, parando à sua frente.

— Hã?! — gritou, saindo do choque — Hããã?! — talvez não completamente.

— Antigamente eu não dava muito valor para a companhia das pessoas ou sentimentos, mas com o tempo eu percebi que são eles que tornam a experiência de viver mais agradável. Os sorrisos, as risadas…— desviou o olhar, corando — mesmo assim eu ainda sentia falta de algo, e sempre pensava em você. Então decidi te encontrar, para entender como eu me sentia.

Chuuya apenas ouvia atentamente, balançado demais para pensar no que fazer. Já Dazai, parecia ter decidido por tudo pra fora.

— Era bom vê-lo, de todas as maneiras. Eu apenas apreciava cada ato seu, mas também ficava aliviado de te ver bem. Só que comecei a querer mais, queria falar com você, te fazer sorrir…

— Chega. Não sei o que houve com você, talvez tenha batido a cabeça numa das suas tentativas de suicídio, pois não parece você. — falou, se virando pra ir embora.

Dazai o impediu, segurando sua mão. O contato era desagradável para o moreno, afinal, a luva costumeira não permitia o toque direto de suas peles, mas o aperto era firme, evitando que o ruivo se distanciasse.

— Eu estou falando sério Chuuya. Não consigo mais controlar esse sentimento, é o que eles chamam de amor? — a palavra fez os dois corarem — As vezes acho que você usou a gravidade em mim, por isso sou sempre atraído de volta.

— Idiota. Se isso fosse possível você nunca teria sequer ido embora. — confessou, fazendo bico, se virando para encara-lo novamente.

— Mas se fosse, eu nunca desativaria. — ajeitou a franja do outro, num movimento lento — Quero estar sempre ao seu lado. — deixou um afago na bochecha.

— Eu… — o ruivo estava confuso, todos os seus sentimentos pareciam ter saido e se misturado, estava tentado em ativar seu poder e ir para a órbita da terra.

— Não precisa dizer nada — Dazai parecia saber como o outro estava se sentindo — Só saiba que tudo o que eu disse é verdade.

Apoiando o rosto do menor com as duas mãos, ele se aproximou do mesmo, deixando um beijo em sua testa. Depois, simplesmente virou as costas e foi embora, falando um simples “nos vemos de novo”. Chuuya permaneceu ali, paralisado, sua mão cobrindo o local do beijo e as bochechas em chamas.

— Dazai de merda. — sorriu.

De todos os pensamentos que atravessam sua mente no momento, a única que tinha certeza eraque seu coração também tinha um lar. E agora ele finalmente poderia voltar para casa.

28 de Julho de 2019 às 18:26 0 Denunciar Insira 0
Fim

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Lexyee Oie! Sou apenas uma viciada em animes e em imaginar histórias pros meus shipps favoritos. Espero que se divirta com o que escrevo!

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