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caius-augustus1563974973 Caius Augustus

Além do tempo e dos mundos aquele que não pôde descansar se exilou. Nos ecos do silêncio sua existência se conectou ao Grande Elo e sob à energia do Cosmus seu caminho busca ser restaurado. Horus depara-se com o mundo que tanto amara em turbulência sendo atingido pelo desequilíbrio. Em uma jornada para além do mundo físico, segue econtrando respostas e soluções mergulhadas nas profundezas da sua própria consciência.


Fantasia Medieval Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#horror #fantasia #drama #aventura #rpg #378 #ação #darkfantasy
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Prólogo

No silêncio profundo, afundando-se no abismo, agora estava. Envolto por sombras e vultos, todo o ambiente girava. As lembranças daquilo que fora não vinham mais à memória.

Deitado sobre o campo de cinzas, acordou ouvindo as batidas lentas do coração estremecendo por todo o corpo.

O homem de manto negro, com capuz cobrindo o rosto, levantou-se. Observava tudo à sua volta.

O céu estava amarelo e laranja com filetes de vermelho e dourado. Pilares brancos sobressaiam junto a templos em ruínas. Sobre eles, animais abertos ao meio e crucificados, davam cor às estruturas.

Enquanto caminhava sem destino, folhas caíam vindas do infinito acima. Um cervo, com centenas de chifres em sua galhada, caminhava onde a névoa se concentrava, próximo a troncos de faias que começaram a aparecer no ambiente brumoso.

O homem caminhou na mesma direção, mas não conseguiu alcançá-lo. Prosseguiu, sentindo suas lembranças e seus sonhos fluírem abaixo de seus pés descalços.

À frente havia uma clareira onde a névoa se dissipava. Podia-se sentir o aumento da umidade do chão. Deparou-se, enfim, nas margens de um riacho de águas calmas.

Uma garotinha estava sentada em um banco de pedras, além da margem. Os olhos cor de prata refletiam a luz no espelho formado na água. Seus longos cabelos brancos, caíam-lhe sobre o corpo despido, escorrendo como um manto desfiado até tocar o chão.

– Há muito o esperei e sabia que viria. – Disse a menina.

– Perdoe-me, mas creio não conhecê-la ou não me recordo de já termos nos encontrado.

– Não faz diferença, está tudo bem…

Permaneceram em silêncio se olhando por um tempo, o homem se sentia em um sonho confuso, não sabia ao certo o que dizer.

– Você está fora da Roda da Vida por uma força maior e não teve escolha sobre isso. Por aqui não poderá avançar e terá de voltar, novamente. – Ela falou.

– Por quê? O que há de errado? – Novamente?

– O desequilíbrio que ocorreu há muito tempo pode ter causado isto, no entanto é um mistério. Você ainda tem uma longa jornada.

– Apenas pretendo retirar-me para o descanso…

– Não seja tolo como todos, Horus, eles não fazem questão de tentar, este caminho é deprimente. Se for por aqui, não poderá continuar.

– Como sabe o meu nome?

– Sou você, assim como você sou eu.

Ele a observava em silêncio.

– Continue seu caminho. Suas vibrações e sua energia vital a tudo estão ligadas. Entretanto, a tudo e em relação a todos, elas se diferem. Por isso seu destino o trouxe aqui.

– Não tenho motivos para me alegrar a respeito do que tive ou do que tenho. Creio ter deixado o Plano Material há tempos e só desejo partir…

– Este plano é só uma passagem e por aqui só há um caminho… Você vive e vai voltar. Um selo em sua existência você recebeu do Cosmus. Você não pereceu! Apenas dorme… Este é mais um sonho.

Notou uma movimentação atrás da menina e percebeu uma forma observá-lo do tronco de uma árvore. Um rosto sem expressões e com três olhos dispostos de forma triangular o encarava. Horus voltou o foco para a garota e tornou a olhar para o tronco, porém, ali não havia mais nada.

– Questões maiores envolvem tudo o que existe e a vida de um homem não passa de um sopro. – A garota disse. – Forças, vibrações, mundos e pensamentos maiores… Falamos sobre uma falha na estrutura do tempo e espaço… Uma distorção, cuja ferida é grande, a ponto de a própria estrutura cósmica procurar reparos destas proporções, fazendo-o sempre retornar… Caminhando sobre os planos há parasitas que mesmo eu temo. Estes interferem sobre os mundos de forma prejudicial. Como as pragas que destroem o jardim, infectando a vida das plantas que poderiam estar ali por dezenas ou centenas de anos. Sugam, destroem e alteram.

De pé ao centro do riacho, sentia a água na altura de seus joelhos, encharcando seu manto.

Uma borboleta azul passou entre eles e observaram seu voo delicado e suave.

Em um piscar de olhos, ali entre eles, via a si mesmo preso a uma coluna, exatamente como os animais que estavam dispostos nas ruínas no campo. Os cabelos longos e escuros caíam sobre o rosto, ocultando-o.

Fincado no tórax de sua imagem, um cajado escuro com várias curvas sinuosas, similar a uma serpente, prendia-o no pilar. Penas caíam do buraco, junto de um fluido negro, asqueroso.

Corvos apareceram voando alto de forma circular. Eram graciosos, silenciosos e a cada segundo mais deles apareciam, até que o céu foi tomado pelo negrume de suas formas. A escuridão envolvia tudo e as batidas do coração voltavam com intensidade.

A brisa bateu às suas costas, convidando-o a virar-se. Ali, enlaçado pelas raízes de uma gigantesca árvore, ele era envolvido.

A árvore majestosa que surgiu portava-se como se estivesse ali há milhares de anos. Subia cerca de cem metros, rodeada por outros troncos que se erguiam passando por ela até o infinito.

Uma arma parecia estar à sua espera, uma lâmina em arco de pura energia brilhava intensamente, numa luz azulada.

Acordando de uma meditação profunda, ouviu gritos e sentiu uma vibração desagradável na atmosfera. A perturbação vinha de fora das sombras de onde se encontrava, além do portal dimensional no qual havia se isolado em um tempo distante.

Libertando-se das trevas e quebrando seu ciclo de isolamento, caminhou pela dimensão obscura, transpassou o portal bruxuleante e saiu para o abismo na floresta.

As árvores eram negras como carvão, colossais, encurvadas e de troncos retorcidos. Anoitecia e uma tempestade tomava os céus. Sobre a clareira circular que se abria, a água empoçava sobre as folhas amareladas e várias pedras se projetavam do chão.

Pouco adiante, ao centro da clareira, estava um homem em pé.

Nomeado pelos mortais de Messiah e Salvador, Guerreiro do Sol e Profeta dos Mundos, o enorme guerreiro tinha belas feições, aparência jovem, de longos cabelos negros e olhos verdes profundos. Sua armadura parecia esmeralda e refratava a pouca luz do ambiente junto ao brilho de seu olhar. Os detalhes não podiam ser apreciados com perfeição, mas as formas encurvadas das ombreiras, as escamas na placa de peito, a cota de malha, os braceletes e as botas ornamentadas com espinhos, eram visíveis. Encarava-o e empunhava sua espada de duas mãos, que se arrastava no chão.

Horus tinha um semblante cansado. Seus olhos brilhavam matizados de púrpura, da cor de ametistas. Seus cabelos negros, com alguns fios prateados, caíam nas costas até a cintura, em uma grande trança solta, que se encharcava pela chuva. A capa era escura, capuz caído nas costas, vestes cinzentas de algodão e couro, já bastante velhas. A face era bela e ainda jovem, o olhar, profundo, olhos firmes, sombrios. O rosto magro tinha um formato triangular. Era difícil dizer qual idade teria.

Altos, esbeltos, feições sem barba e, naquela escuridão, eram quase vultos em meio às sombras. Entretanto, conseguiam se ver sem dificuldade e eram auxiliados pelos constantes raios que estouravam na atmosfera.

Dando um passo adiante e fechando o punho sobre a espada, o cavaleiro prontificou-se.

– Homem de coração tomado de ódio e demônio do abismo. Lamento por sua existência, porém neste plano você não ficará enquanto eu estiver aqui em domínio. Você causa desequilíbrio e traz aos Homens o que eles não devem ter. Suas vibrações destoantes e sua maldita consciência atrapalham tudo. Você os faz pensar demais. Percebi que mesmo um exército enviado para destruí-lo não é suficiente. Sendo assim, seu Deus vem e lhe ordena que se curve. Chegou a hora de partir para o outro mundo.

Olhando para baixo, Horus refletiu em silêncio por algum tempo. Fechou com força sua mão direita em seu velho cajado e voltou o foco para o homem à sua frente.

– Ondrem, se é isto o que deseja, venha e me confronte, não retornarei para meu abrigo quando, de fato, quero vê-lo morto. No entanto, peço-lhe que vá embora e viva sua vida, assim como eu fiz. Pare de se preocupar com superficialidades e deixe as consciências de todos seguirem livres. Afastei-me deles e não mais me relaciono ou me envolvo em seus jogos. Não me importa o que vocês têm feito ou aonde chegaram.

– Tolo, eles são assim por si mesmos, praticamente nada tenho feito. Sinto também uma insinuação de desafio, acha que pode me derrotar? Você mesmo sabe, já fui queimado, decapitado e jogado de um penhasco. Nada pode me deter! Mesmo que você tenha adquirido uma suposta imortalidade, ainda posso destruí-lo. Acha que eu não conseguiria entrar ali? Vi como você saiu, eu o perturbei, posso forçar o portal. Os homens não sabem quem sou, mas imagino que tenha consciência de com quem está falando e por isso desistiu de tentar me derrubar. Sua Ordem acabou! Demorei muito para descobrir… Fugiram como ratos. São meras crianças feitas sob meu reflexo, assim como você! Porém, vejo que algo mudou. Aquilo que, por precaução, alteramos em vocês no passado, em você acabou por ser desfeito, talvez por alguma intervenção além de meu entendimento. Uma ameaça você se tornou. Aqui não deve ficar e tenho como dever eliminá-lo.

Forçar o portal? Somente eu posso entrar ali. Estaria ele blefando? E como me encontrou? Deveria ser impossível. Algo muito errado está acontecendo.

– Na verdade, não sei ao certo sobre você e não compreendo tudo o que o envolve. Creio que me superestima. Perturba-me ver o que fez nesta terra. Não me contento com esta linha que seguiu e nada que fez me agrada. Vem até meu lar para me retirar do isolamento… Que ironia, parece que os lados se inverteram. Retorne de onde veio ou confronte-me de uma vez. Terminemos com isso, não ficarei parado esperando por uma morte vinda de você.

Assim, Ondrem, empunhando sua espada, correu em direção ao inimigo golpeando-o com fúria progressiva. Ele se esquivou para trás e girou o cajado, defendendo-se. Ondrem se aproximou mais, com lances de ataques intensos em todas as direções. Com habilidade e velocidade, esquivou-se de todos.

O guerreiro de olhos verdes investiu em um ataque frontal, mas todos os movimentos foram em vão.

Horus concentrou uma enorme quantidade de energia que, de forma misteriosa, fluiu de seu pulso esquerdo numa aura negra que distorceu o ar. Uma adaga de energia com uma lâmina sombria se formou. A arma se projetava tortuosa e possuía um belo aspecto, iluminando sutilmente a atmosfera, ao mesmo tempo em que parecia sugar sua luz. Empunhando-a, confrontou a sequência de golpes atacando rápido e defendendo-se com extrema destreza em conjunto com o cajado.

A chuva caía intensa e permaneceram no duelo por tempo indeterminado, talvez segundos, talvez horas.

Ondrem gritava e atacava com fúria enquanto o imortal permanecia sereno e paciente. Desferiu uma série de ataques laterais em uma investida e conseguiu feri-lo no rosto, braço e pescoço.

O guerreiro de armadura esmeralda sangrava um fluido sombrio e era tomado de fadiga. Seus golpes intensos abriam fendas no ar e deslocavam blocos de pedras à sua volta. Revoltado e com ira, gritou:

– Como um homem é páreo ao Guerreiro do Sol? O que é você?

Horus permanecia imóvel e sem expressão. Seus olhos púrpura eram mais acostumados às trevas e, concentrado na batalha e em aproveitar as brechas deixadas pelo oponente, aguardou Ondrem investir furioso e desatento. Desviou-se do golpe, girando por baixo e atirou lama no rosto de seu agressor. Ele desceu a espada de uma vez, mas o imortal fora mais rápido e num golpe definitivo, enfiou-lhe a adaga no pequeno vão da armadura, na região abaixo das costelas. Os intestinos começaram a se desprender dali e o sangue jorrou das frestas das escamas metálicas. Após Ondrem deixar cair a espada, a adaga o atingiu num último golpe e cortou seu pescoço de uma orelha a outra até decapitá-lo, fazendo-o assim queimar em energia negra.

Como é possível? – Ambos dividiram o mesmo pensamento.

Sombras e espectros atormentados saíram de dentro do corpo de Ondrem e uma enorme vibração estremeceu todo o ar. O local tornou-se ainda mais obscuro e a chuva de repente parou, as gotas flutuaram no ar.

O Guerreiro do Sol parecia queimar em partículas esverdeadas. Fragmentos de luzes tentavam sair de seu corpo e foi como se um portal ou reflexo de outro mundo se abrisse. A atmosfera tornou-se esverdeada e escura. As nuvens eram espirais.

Havia uma distorção da realidade. Aquele que se dizia a chave do equilíbrio dos mundos e o salvador, líder de suas existências, acabara de ser destruído.

O corpo de Ondrem consumiu-se em chamas. Enormes serpentes de luz verde subiram em direção ao céu.

Devagar, as gotas da chuva estremeceram e começaram a cair. A tempestade continuou intensa e as árvores gemiam à sua volta.

Olhou para além dos galhos secos. As formas manifestavam-se como reflexos de outros mundos e tudo parecia estranho. Era difícil descrever ou interpretar o que acontecia em meio às espirais.

O mundo poderia estar perto de um colapso? Teria eu causado isso? O que está acontecendo? Será que realmente ele seria um dos antigos e as historias seriam reais? Mas o que foi isso?

Todos aqueles presentes, não apenas em seu plano, mas também nos outros mundos paralelos à existência conhecida, poderiam estar em risco. Alguma atitude para equilibrá-los tornava-se necessária e sentia-se parte daquilo.

Uma estranha ressonância o atraía para fora dali. Uma voz interior convidava-o a seguir os rastros deixados pela energia de Ondrem. De alguma forma estava conectado a ele.

Sentia cada folha, cada partícula bater na terra e cada gotícula se estilhaçar. Os estalos vibravam nos troncos e a dor de Ondrem ecoava em seu corpo.

Apoiado em seu cajado, se recompôs. Observou a passagem dimensional por onde saíra e notou-a semelhante a uma chama negra tremeluzindo nas trevas. Viu apenas uma fraca ondulação se consumindo e desaparecendo no ar, devido ao colapso causado. Soube então que seu caminho por ali agora estava barrado.

O que é isso? O que tanto me chama? Sinto que… devo restaurar, devo seguir para esta vibração. Acho que posso ter as respostas lá. Jamais esperei que este portal fosse se fechar.

Seu corpo ressoava a algo no norte, onde a antiga passagem e o elo que interliga os planos e mundos eram instáveis. Viu as chamas de Ondrem e a aurora se dissiparem e seguiria até lá. Pensava inutilmente que, talvez, agora os homens seguissem livres em sua evolução. Sempre imaginou isto, caso Ondrem tivesse sua existência aniquilada. Acreditava que iriam se libertar para poderem progredir em sua jornada. No entanto, como consequência do que acabara de ocorrer, temia pela existência de todos, até mesmo pela própria.

24 de Julho de 2019 às 13:45 1 Denunciar Insira 3
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Daniella Rossi Daniella Rossi
Uma aventura do começo ao fim. Uma jornada de auto descobrimento,em que o leitor embarca junto com o personagem. Recomendo 👏🏻👏🏻👏🏻
24 de Julho de 2019 às 11:10
~

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