Antes que tudo se vá Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Um relato de um pai sobre como o mundo chegou aonde chegou. E ele tem pouco tempo para contar. Ele precisa fazer isso antes que tudo se vá.


Horror Horror zumbi Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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Antes que tudo se vá

Não há como saber se alguma alma neste mundo caótico irá ler o que vou escrever nestes pedaços de papéis em branco. Sinceramente, não creio que ainda haja alguma coisa a ser dita.

Alguma coisa boa, quero dizer. Boa como sentar na varanda no fim de tarde, abrir uma lata de cerveja e assistir o pôr do sol caindo devagar, com as crianças gritando e correndo pelo quintal. Falando em crianças, eu tenho duas. Nicolas, o mais velho, está no sofá neste momento. Ele olha para alguma coisa, algum lugar que não consigo entender qual é. O único tênis enfiado em seu pé direito está sujo. Os cordões possuem lama mas isso é o de menos.

Jeferson, o mais jovem, está no quarto. Vai ficar lá por um bom tempo. Um bocado de tempo, na verdade.

Deixe-me contar o que está havendo. A coisa toda começou a ficar ruim cerca de dois anos atrás, sendo que não ligava para isso no começo. Até me beneficiei desta "coisa" no início. Quem não se beneficiaria? Você tem uma bênção nas mãos, meu caro. Faça a coisa certa e que se foda todo o resto.

Desculpe-me. Divaguei por um instante. Ah, sim. Preciso contar para você, leitor deste atestado insano — se é que há algum — como precisei chegar à esta decisão tão cruel.



Para início de conversa, estou sentado no chão de minha sala de estar, escrevendo com um lápis de grafite péssimo em uma página de folha em branco. Não se preocupe. Há mais três destas folhas em meu bolso esquerdo do jeans. Estão ali caso falte espaço nesta ( coisa que creio que irá acontecer ) e também para garantir que conseguirei contar tudo neste curto espaço de tempo.

Vou começar pela chegada "dele". Me refiro ao meu caçula, Jeferson, ou apenas Jeff para mim e minha esposa Sofia.

Jeff chegou até nós em novembro de 2000, num domingo tão ensolarado e quente que Deus deveria estar bebendo uma geladinha sentado em uma nuvem.

Ocorreu tudo bem no parto — embora "bem" não seja a palavra correta para se usar — já que Sofia gritou a bessa como se estivesse dando a luz a uma espécie de alien.

Não me recordo de ter gritado tanto na vez de Nicolas. Talvez porque Nicolas fosse apenas um menino sadio e comum. Já o pequeno Jeff... bem, eu vou chegar lá.



Dois anos após minha esposa berrar naquele quarto abafado de um hospital público de uma cidadezinha de interior, decidimos nos mudar. Já estava na hora de pensar no futuro das crianças, de olhar para onde eles — e também nós — iríamos tocar as coisas de acordo com as possibilidades. Como meu pai costumava dizer, tínhamos que "dançar conforme a música".

E o ritmo desta valsa louca nos levou para um lugar chamado Vila Verde, um bairro pacato, com pessoas pacatas e bêbados pacatos pelos bares nos sábados a noite.

Achamos uma casa com um aluguel a altura do meu salário ( que não era lá grande coisa trabalhando como professor substituto em uma escola pública ) mas conseguimos viver bem e amém.

Assim como Sofia, também encarei a bronca de ser pai muito cedo. Quando Nicolas nasceu, ela tinha dezenove e esta pessoa que vos escreve, vinte e um. Já quando Jeff deu as caras, eu já estava com meus vinte e cinco, uma barriguinha um pouco mais saliente e um bocado de problemas financeiros.

Mesmo assumindo o cargo de professor principal de história, deixando de ser apenas um tapa furos, um plano B, uma segunda opção, meu salário não havia mudado grande coisa. E isto é ruim quando você é pai. E pai duas vezes é ainda pior.

Sofia não me cobrava por estas coisas. Sofia era... por Deus do céu... ela ainda é, um amor de pessoa. A noite, antes de dormir, ficávamos deitados, um ao lado do outro, conversando sobre como as coisas estavam se encaminhando.

Para o abismo, eu costumava dizer. Ela, com sua doçura, beijava meu rosto e dizia que tudo ficaria bem. De certa forma ela não estava errada. Mas de certa forma TUDO deu errado. Não conseguiu entender, não é mesmo leitor de primeira viagem?

Calma que vou explicar algumas coisinhas.



Com quase três anos de idade, Jeff fazia muito mais do que apenas cagar nas calças. Ele resmungava algumas palavras — dava para entender apenas uma dúzia delas, como "papi" ou "ma-mi" ou "ma-ma-mãe" — coisinhas básicas de uma criança tão pequena. Mas havia mais. Muito mais, na verdade.

Enquanto o irmão Nicolas já se preparava para encarar o primário, cuidando impressionantemente bem de seu material escolar, separando os lápis de colorir dos lápis comuns, Jeff só queria saber de sentar no sofá e olhar para o teto. Muito comum na idade dele ter este comportamento estúpido. Sabe, você tem quase três anos de idade nas costas e tudo que tem a fazer é nada e o que sabe fazer é menos ainda.

Sofia achava aquilo uma fofura. Ela olhava para ele e dizia : olhe, Jonas, meu bem. Se já não é um homenzinho nosso pequeno!

E eu concordava, orgulhoso, correndo na direção dele em seguida e apertando aquelas perninhas gordinhas. Como foram bons aqueles tempos. Tempos em que a normalidade de um lar chegava a ser monótona e desagradável. Em que ouvir as crianças era um pé no saco, mas você sorria mesmo assim. Porque era assim que as coisas eram. E ainda são para muitas famílias.

Para nós... bem, nós apenas seguimos. Graças a mim. Não ao Jeff.



Com quatro anos e alguns dentes a menos, com os cabelos loiros e um rostinho que enganava a todos ( incluindo a mim ) Jeff finalmente decidiu parar de olhar para o teto nos finais de tarde. E isso foi um avanço. O menino fazia isto desde os dois e meio de idade e Sofia e eu já pensávamos mil e uma coisas. Autismo era apenas uma delas, embora nenhum exame clínico comprovasse tal coisa, para alívio mútuo deste jovem casal.

Ele vasculhou nas coisas do irmão ( o que causou uma discussão moderada entre os dois, com interferência minha e de meu chinelo um pouco mais tarde ) e encontrou o que de fato parecia procurar. Um pedaço de papel e um lápis de cor verde.

Ele só quer pintar, Sofia disse, com aquele sorriso carinhoso nos lábios. Nicolas, com a testa franzida e o traseiro vermelho após três chineladas, mantinha os braços cruzados e os olhos fixos no irmão fuxiqueiro.

Eu estava como Sofia. Bobo, sorrindo para uma criança que segurava um papel e um lápis de cor. Deus, por que permitiu uma coisa dessas? Não poderia apenas tê-lo matado no parto? Sabe, agente vê muito disso nos noticiários da TV. Vai e volta, de canal em canal, e pronto. Lá se foi um prematuro.

Porra! Divaguei um pouco mais. Vejo que estou quase indo para minha segunda folha, enfiada no bolso.

É hora de avançar um pouco mais se quiser lhe contar isso tudo. E até já sei para onde ir. Para o primeiro desenho de Jeff, nosso Picasso do apocalipse.



Bem, aqui vou eu para um campo sinistro. Sei que ACREDITAR é algo difícil. O ver para crer supera o crer para ver. Não irei falar sobre lobisomens ou vampiros... embora isto já não me pareça tão absurdo assim. O caso aqui é outro.

Aqui há uma família feliz — mesmo com os problemas que qualquer família possui. A diferença é que nós temos o Jeff. O pequeno Jeff e sua mania de olhar cinco horas por dia para o teto como se algum desenho animado estivesse sendo exibido por ali.

Depois ele apenas baixa a cabeça, saindo do transe, pega o lápis de cor roubado das coisas do irmão e então ele faz. Simples assim. E eu já o vi fazendo. É desagradável de se olhar. Entenda, os olhos dele ficam brancos como leite e a mãozinha torta com os dedinhos em ângulos impossíveis.

Ele é um artista, Sofia dizia. Como Mozart ou Da Vinci.

E eu até que concordei com ela no início. Não dava para não concordar, entenda. Era como ver um menino prodígio, como estes encontrados em várzeas de futebol. Sofia achava aquilo um máximo. Eu também achava um máximo. Principalmente quando ( Deus, me perdoe! ) "usei" o dom dele pela primeira vez em meu favor.



Um homem não pode deixar que sua família desconfie dele. Que achem que ele NÃO pode cuidar dos que estão a sua volta. Quando isso acontece, você se torna um fracasso. E eu estava quase me tornando um quando Jeff completou cinco anos.

O aluguel havia aumentado um bocado, o material escolar de Nicolas parecia ter duplicado de tamanho a cada ano em que avançava na escola e também haviam os remédios. Os gastos incômodos — porém necessários — com analgésicos para dor e calmantes. Sem mencionar os comprimidos para dormir. Quem consegue deitar a cuca sobre o travesseiro e pegar no sono sem uma ajudinha farmacêutica quando se sabe que esta cuca possuiu um tumor bem no centro dela?

Inoperável, falou o doutor Carlos Pompeu.

Sofia caiu no choro como resposta. Eu a abracei, chorei como ela e vi que a partir daquela visita médica as coisas iriam mudar. Elas sempre mudam. Noites mau dormidas, insônia, depressão. Sem falar nas crianças, que ainda eram jovens demais para ver a mãe partir e adultas demais para dizer que a "mamãe fez as malas e foi morar com Jesus".

Triste. Foi uma época maluca em nossas vidas. Um segundinho... Sofia está aqui perto, com uma xícara de café, caminhando em minha direção. Ela sabe que estou escrevendo... mas ao mesmo tempo não sabe. Antes de dar o primeiro gole, vou lhe falar sobre como abusei da sorte.



A coisa funciona da seguinte maneira: Jeff olha para o teto. Jeff passa cinco — às vezes seis — horas por dia fazendo isso e apenas isso. Ele caga nas calças e nem sequer se move. Depois, Jeff, com a tranquilidade de um monge, pega um papel em branco e seu lápis de cor verde. Desenha ( isso mesmo! Aos cinco anos ele faz isso e muito bem) e este desenho... bem, de alguma maneira, ou magicamente, seja lá qual for a sua crença, se torna possível. Compreenda que descobrimos isto muito tempo depois. Para mim — e creio que para Sofia também — aquela escola de madeira com metade do telhado construído que fica no final do quarteirão sempre existiu... mas descobrimos que não.

Aquele era apenas um terreno baldio, usado por usuários de cocaína para entupir o nariz e ver elefantes cor de rosa voando por aí. Sempre foi assim depois que derrubaram uma fábrica de pneus em 94, com a promessa de construir um lar para idosos ( que nunca se concretizou ) até o mato tomar conta de cada metro quadrado daquele lugar.

Então eu encontrei aquele desenho. Enfiado na lixeira, debaixo da caixa de pizza da noite passada. Foi por acaso, até. Não estava com a cerveja na mente, mas a lata já estava em minha mão. Caso contrário a culpa seria da cevada e suas consequências.

Aquela cor verde chamou minha atenção. A cor preferida de Jeff, o artista. Quis saber o que afinal aquelas cinco horas por dia o tinham inspirado. Afastei a caixa de papelão e não precisei pegar naquele papel para reconhecer o que era aquilo. Deus, era a velha escola de madeira do final do quarteirão, sem metade do telhado e tudo.

O garoto não tinha como copiar aquela coisa. Não com a riqueza de detalhes, como a porta com maçaneta de brilhantes.

Lembro de quase deixar a cerveja cair. Quase. Não contei nada para Sofia naquele momento. Não teria coragem de perturbá-la com uma baboseira daquelas.

Em vez disso, minha cabeça teve uma outra ideia.

— Desenhe uma coisinha para o papai, sim, Jeff? — sugeri naquela manhã de sol fraco, com Sofia ainda dopada sobre a cama e Nicolas já a caminho da escola.

O garoto apenas sorriu. Depois olhou para as mãos ( elas eram tão perfeitas quando não estava desenhando ) e resmungou alguma coisa que no momento não consegui compreender.

— Se vai... tudo... se vai... — Ele disse, ainda olhando para tudo menos para mim.

— O que? Olhe... é só um desenho. Como estes que você faz as vezes. São bonitos não são?

Jeff não disse nada. Ele não os achava bonitos. E também não eram só DESENHOS. Eram "coisas" se tornando realidade, entende, leitor? Você está aí? Há algum leitor na platéia?

Enfim. Naquela ocasião, Jeff não fez o que lhe pedi. Mas uma semana depois, com a ajuda de um irresistível sorvete de morango, ele decidiu olhar para o teto mais uma vez.



Não foram cinco horas, tampouco seis, mas oito horas enfiado no quarto no mês de Outubro. Sofia estava em repouso. Estava linda, com um lenço amarrado a cabeça — os cabelos agora eram constituídos apenas por alguns fios — e dava a impressão de estar sorrindo.

De dez em dez minutos eu espiava pela fresta da porta do quarto de Jeff e o via sentado com as pernas dobradas como um professor de yoga, olhando para o teto e só para ele. Era uma concentração invejável. O garoto não movia um músculo sequer e estamos falando de horas aqui, caro leitor curioso. A propósito, ainda está aí?

Espero que sim, ou que não, tanto faz. Você é só mais um, assim como eu. Mas advirto que agora a coisa vai piorar. Sabe, eu fiz de novo. Pedi outro desenho para o Jeff. E desta vez não precisei de um sorvete de morango para isso.



Meu primeiro pedido, se é que isso interessa para você, foi de certa maneira egoísta. Pensei apenas em mim e já que ( por Deus, perdão ) fui eu à descobrir o dom do pestinha, nada mais justo do que usá-lo para uma vontade própria.

Tinha de ser algo simples, nada de abusar na primeira viagem. Desde minha infância, adorava assistir aos jogos de futebol ao lado de meu pai, mesmo que ele dormisse na metade do primeiro tempo segurando uma lata de bud na mão. Meu sonho era assistir a um destes jogos da primeira fila da arquibancada, de frente para meus ídolos e vivenciando cada segundo daquele pequeno mundo de homens, onde mandar o seu semelhante tomar no cú era tão permitido que se podia fazê-lo na presença da Polícia.

Então, precisei do Jeff. Do Jeff e de sua mágica. E oito horinhas depois um ingresso surgiu no bolso de meu paletó. Foi um dia lindo.

Que Deus perdoe o que irei escrever mas... nada me deixou mais feliz naquela semana, nem mesmo a pequena — mas vitoriosa — melhora na saúde de Sofia.

Eu assisti ao jogo de camarote, com cerveja a disposição, palavrões aos montes e meninas com as pernas de fora à espera de algum jogador com convite para mais tarde. Foi lindo. Mais que lindo. Foi possível. E se isso era possível, qualquer coisa seria.

Foi daí que a coisa fugiu do controle.



Esqueci completamente do café trazido por Sofia. Esfriou, a propósito. Bem, ela não liga. Não como antes. Onde eu estava mesmo?

Oh, claro. Na beira do abismo. Com a faca no pescoço. Com a vontade magnífica de foder com tudo sem ao menos perceber.

Com o aluguel nas alturas e o salário lá embaixo, não era preciso ser um gênio da matemática para calcular essa conta. "Aquilo" vezes "isto" é igual a problema resolvido.

Por Deus todo poderoso... eu não quis em hipótese alguma... veja. O negócio era "criar" dinheiro sabe?

Algo como: filhinho querido, desenhe algumas notas para o papai e sua família — que inclui você — não irem parar no olho da rua!

Era esta a ideia. Juro. Algo nada egoísta desta vez, para equilibrar esta balança sabe-se lá do que.

Só que Jeff desenhou outra coisa. Nada de notas de cem. O fedelho passou dois dias naquele quarto, em posição de yoga, olhando para um teto em branco e imaginando como ele iria fazer. E então, seus olhos ficaram brancos. Suas mãos entortaram horrivelmente.

Ele rabiscou por mais algumas horas e toda vez que eu me aproximava para tentar espiar ( sabe, ver o que o artista está criando atiça a curiosidade ) a porta se fechava em meu nariz. Aconteceu umas três vezes. Na quarta, o próprio Jeff abriu a porta, segurando o papel, com um sorriso nos lábios. Era um sorriso diferente dos outros. Ele não era de satisfação por acabar um desenho. Era por acabar com muito mais do que isso.

— Não... Não, Jeff, o que foi que fez?! — quase gritei.

Ele não respondeu. Não precisava. O homem sem cabeça no desenho era uma resposta bem óbvia.



Lucio Bueno, ou, para os mais íntimos, " o cara que cobrava nosso aluguel ", saiu de um bar naquela noite após uma bebedeira, entrou em seu corsa prateado e despencou ribanceira abaixo em uma curva com formato de S.

Isso foi o que o laudo pericial revelou. O pobre sujeito perdeu a cabeça nas ferragens, assim como no desenho de Jeff. Isso não havia em laudo algum. Só na minha consciência, pesada demais para andar até algum lugar e contar a verdade. Mas o que, afinal, seria a verdade? Até hoje, quando escrevo esse lixo para algum leitor poder ler em algum dia se ainda existir um novo dia, ainda não sei o que é a tal verdade dos homens.

E, Deus do céu, aconteceu muita coisa após isso. Um bocado de coisa.



Ainda existe esperança em mim. Não sou um homem sem fé ( mesmo considerando toda maluquice que vivenciei ) mas preciso crer, entende?

Nestes últimos anos, com minha cabeça rodando sem parar e as mãos de Jeff rabiscando o que chamei de " o destino da humanidade ", penso se tudo poderia ter sido diferente. Se um aborto aquela altura resolveria — se não por completo, em partes — o nosso problema. O meu problema.

Veja, matar Lucio Bueno foi apenas o começo. Foi uma solução para um assunto pendente, digamos. Deus, veja o que estou escrevendo...

Tentar curar Sofia, isto sim foi um erro.

— A mamãe precisa de nossa ajuda... — E isto foi tudo que precisei dizer, em meio as lágrimas.

Nunca deveria ter falado nada. NUNCA. O desenho não saiu como deveria ter saído. Foi feito às pressas ( Jeff leva, em média, quase dois dias olhando para o teto e mais dois para desenhar, quando a coisa é complicada ) e tudo fugiu do controle.

Uma mulher deitada, com a cabeça aberta num claro sinal de "papai, fiz uma saída para a doença deixar o corpo da mamãe " não foi bem interpretado.

Encontrei Sofia sobre a cama, um rombo do tamanho de uma laranja logo acima da testa. Deus, havia sangue demais. E a doença continuava lá.

Passei uma semana inventando histórias para acobertar a coisa toda. Principalmente para Nicolas, que noite e dia perguntava pela mãe. Eu dizia que ela estava no hospital. Ele chorava e eu o abraçava, enquanto Jeff me espiava da sala de estar.

— Eu quero ficar com a mamãe!! — ele gritava e eu o apertava ainda mais. O que ele pensaria de mim, seu pai, seu herói, se descobrisse que a mamãe estava enterrada no quintal dos fundos?



Os irmãos de Sofia queriam respostas. Fred e Pedro eram grandalhões, e pode apostar que deveriam ter a mão pesada. Para eles, disse que Sofia estava em completo repouso e que logo poderiam visitá-la. Viu como o cerco estava se fechando? Viu a enrascada que me meti?

E piorou. Jeff... O que foi que você fez?



" quero estar junto da mamãe " foi o que Nicolas disse, aos berros e agarrado em mim. Jeff resolveu a coisa, por assim dizer.

Assim que cheguei em casa após um dia típico naquela escola típica, notei que algo já não estava certo. O quarto de Nicolas estava completamente vazio. Era como se ele nunca tivesse existido. Não havia Nicolas nem nas fotografias... desculpe eu gargalhei sozinho agora. Não posso perder o foco aqui. Estou quase no fim.

Imediatamente corri a procura de Jeff, suando, o coração quase na garganta. Gritei por ele e só fui acha-lo sentado na varanda, olhando para um pôr do sol que não significava nada mais para mim... e breve para ninguém.

— Onde está o Nic, Jeff?

Nada de resposta. Insisti.

— Onde está o seu irmão?

— Com mamãe! — ele finalmente gritou.

Cai de joelhos, as lágrimas lavando meu rosto, Jeff ainda olhando para o horizonte. Não quis saber como ele fez este desenho. Não importava. Mas precisei fazer outra vez. Uma última vez.



Em um recorde de uma semana enclausurado no quarto, sem comer ou fazer qualquer outra coisa, Jeff fez o que lhe pedi. Sei que fez. Os desenhos comprovam isto.

Sofia, caminhando pela cozinha, suja de terra e livre do câncer comprova isso também. Nicolas, sentado no sofá, um único tênis enfiado no pé, com a mandíbula frouxa no queixo, olhando para mim neste momento, parece não pertencer a este mundo. Diabos, não pertence mesmo à este mundo.

Na verdade, ninguém mais parece pertencer a coisa alguma. Porque Jeff acabou com tudo. Não há mais pessoas sadias ali fora. Apenas carcaças arrastando seus pés, sem rumo, rastejando para qualquer lugar.

Neste instante, Jeff está em seu quarto. Está lá a quase uma semana e creio que ficará por muito mais tempo. A um mundo todo para ser refeito, entende?

E se alguém estiver lendo isso, saiba que não foi minha culpa. Eu quis apenas passar um tempo a mais com minha família.

24 de Julho de 2019 às 02:11 7 Denunciar Insira 5
Fim

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Por que o pai não simplesmente tirou os papéis de desenho do filho quando se apercebeu dos problemas e explicou ao filho por quê o fez? Sim, é difícil com uma criança de cinco anos, mas ele tinha de tentar

  • Edison Oliveira Edison Oliveira
    Olá, caro leitor/ autor. Tenho acompanhado seus comentários ( o único que até aqui lê e comenta ) e apreciado cada um deles. Eu tenho inúmeras histórias postadas em outro site além deste — um site frequentado por outro tipo de leitor, posso dizer assim. Um lugar onde pessoas mais rodadas na literatura escrevem e lêem. Algumas dúvidas ou questionamentos seus fazem todo sentido ; mas creio que a lógica deve ser deixada de lado algumas vezes, ou as narrativas não aconteceriam. Se o leitor procurar pêlo em ovo, irá se chatear com muita coisa que lê. Ou seja, o fator humano precisa estar presente nas histórias. E este fator inclui a burrice ou o erro em suas decisões. Por que os jovens não fogem de Crystal lake antes do Jason matar a todos? Porque não haveria o filme. As decisões humanas erradas nos proporcionam um prato cheio. Obviamente não sairei escrevendo asneiras porai, com personagens tolos. Apenas acho que a tolice cai bem as vezes. Continue me acompanhando. Tem coisa boa a caminho. 4 weeks ago
  • Edison Oliveira Edison Oliveira
    Fui selecionado para integrar uma coletânea de contos de terror — não pude participar por estar envolvido em outros projetos. Então fui convidado outra vez este ano, e creio que no fim de 2019 o projeto sairá. E só consegui isto após horas e horas de escrita. E também após dar ouvidos as pessoas certas. Não sou de responder a comentários ; acho que interfere demais na relação autor/ leitor. Mas eu leio tudo que me escrevem, obviamente. Eu tive um " comentarista " anos atrás que me tornou o que sou hoje. Por fim descobri que ele era um crítico literário real — imagina a minha reação. Fato é que segui bastante as dicas daquele cara. Eu leio o que anda opinando sobre as minhas histórias. E me divirto com cada linha. Acho que é isso que sempre busco ao escrever : causar algum efeito. Se um autor renomado tem de aguentar os pitacos dos outros, imagine um cara como eu. Você escreve, sabe como é. Outra vez muito obrigado pelas palavras. Enquanto estiver gostando, continue lendo. 4 weeks ago
  • Tiago Líreas Tiago Líreas
    1. Bem respondido. 2. Sim, sei como é quando alguém se interessa pela nossa arte, e por isso mesmo gosto de comentar tanto. Não só por estar genuinamente interessado nas suas histórias e de outrem, mas para incentivar o autor a fazer mais e se sentir contente, assim como eu me sentiria! 3. Qual o outro site, please?! 4 weeks ago
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