Aqueles Versos de Amor Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Quanto tempo você esperaria pela resposta de alguém que ama? Será que, após os desafios e obstáculos da vida, o sentimento seria o mesmo? Conto inspirado na música Resposta, do Skank.


Romance Romance adulto jovem Todo o público.

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Aqueles Versos de Amor


Conto inspirado pela música "Resposta", do Skank, embora não tenha sido escrito em formato de songfic.


I


Madalena tirou os olhos do papel, mais precisamente uma folha de caderno. Reinaldo percebeu que seus olhos estavam molhados e havia um ligeiro rubor em seu rosto. Por fim a jovem disse, abrindo um daqueles sorrisos angelicais que Reinaldo adorava, exibindo os belos dentes brancos.

- E então? – perguntou o rapaz, também sorrindo. – Você gostou?

- Bem, eu...

A resposta de Madalena seria doce e prazerosa, mas a jovem acabou interrompida quando o professor de literatura entrou na sala de aula. Reinaldo virou para frente na carteira, contra sua vontade. Seu Pasquim era um ótimo educador, mas que não tolerava falta de atenção em suas aulas, e isso incluía alunos virados para trás. Teria que esperar até o intervalo para ter a resposta de Madalena, a tão doce e prazerosa resposta...

Aquela resposta seria mais importante que os acontecimentos em curso na Europa, como a abertura da União Soviética e as conversações para a reunificação da Alemanha, que tanto interessavam a Reinaldo – entusiasta de Estudos Sociais. Seria mais importante até que o vinil novo do "Ira!", que há tempos o rapaz juntava dinheiro para comprar. Aquela resposta seria tudo, tudo de mais doce e prazeroso.

De repente, o professor virou-se para o jovem apaixonado e disse, arregalando os olhos:

- Senhor Mendonça, eu acho que está usufruindo desta aula como ninguém, já que estou tentando tirar dúvidas sobre as "Cartas Chilenas" e o senhor, viajando pelo quinto céu, deve estar fazendo suas perguntas ao próprio Tomás Antônio Gonzaga no Paraíso, não?

Reinaldo ouviu algumas risadinhas dispersas pela classe. Pensou em olhar para trás e contemplar mais uma vez o semblante encantador de Madalena enquanto Pasquim estava de costas, mas deteve-se. Seria paciente. Assim evitaria conclusões precipitadas e mais broncas do professor de literatura...


II


O coração de Reinaldo disparou assim que o sinal bateu. Deixou a sala rapidamente, esbarrando apressado nos outros colegas. Logo seus olhos a encontraram: sentada num dos bancos do pátio, junto com suas amigas, contando sobre o que recebera do jovem. Ela tinha aquele encantador sorriso na face, aquele sorriso que era a inspiração de Reinaldo... E também o papel em mãos...

Ao ver que Reinaldo a observava, Madalena olhou para ele e sorriu de forma ainda mais amável, causando sensação entre suas amigas. O coração do rapaz começou a bater mais rápido ainda quando a garota levantou-se, com o papel em mãos, e caminhou em sua direção, enquanto as demais garotas cochichavam entre risadinhas.

Num piscar de olhos ela estava de frente para Reinaldo, aquele sorriso angelical, aquele olhar cheio de desejo, aquela cabeleira negra escorrendo por seus ombros... Reinaldo estava totalmente enfeitiçado por Madalena.

- Oi, Reinaldo – saudou ela.

- Oi – respondeu o jovem. – E então? Você não me disse o que achou do poema!

- Reinaldo, é que eu tenho consulta marcada no médico para daqui a pouco e até trouxe um bilhete de dispensa – sorriu ela, mostrando o papel com a autorização dos pais para que fosse embora mais cedo, não a folha do poema, como o jovem pensara. – A poesia está na minha bolsa, depois nós conversamos!

- Mas quando, Madalena? – indagou Reinaldo, atordoado. – Hoje é o último dia de aula!

- Quem é paciente sempre é recompensado.

E deu um beijinho no rosto de Reinaldo. Em seguida despediu-se, acenando entre sorrisos. O rapaz também acenou, mas não podia ocultar sua frustração. Madalena morava do outro lado da cidade, e ele não sabia o endereço! Ele teria que esperar até o próximo ano, depois das férias, para ter a resposta, a tão esperada resposta!


III


Reinaldo passou as férias como se estivesse doente. Triste, impaciente, nervoso... Sua ânsia pela resposta de Madalena crescia a cada dia. Não conseguia jogar bola, ler um livro... Ganhou o vinil do "Ira!" de Natal e quase nem ouviu. "Envelheço na Cidade" fazia com que tivesse pensamentos funestos: achava que ficaria velho e gagá e não teria a resposta de Madalena! Tinha medo que esta lhe viesse apenas à beira da morte, sendo que assim de mais nada valeria. Aquilo estava virando uma paranóia.

Sua mãe levou-o ao psicólogo, mas de nada adiantou, pois Reinaldo não se abriu com ele. Disse apenas que era uma questão de tempo, pois logo que as aulas recomeçassem, voltaria ao normal. Seus pais estranharam. Era a primeira vez que o filho estava ansioso para voltar à escola após as férias!


IV


E assim recomeçaram as aulas. Reinaldo chegou à escola meio zonzo, pois mal havia dormido à noite. Mas aquilo não era apenas sono, era também ansiedade. Só conseguia pensar em Madalena e no poema. Ele precisava muito vê-la, pois em sua mente começava a esquecer seu rosto, seu sorriso perdia o encanto, as formas de sua face eram corroídas pela falta de memória. Achava preciso renovar aquelas feições, tomar um banho gelado na fonte do amor estudantil...

Reinaldo entrou na nova classe e sentou-se. Os mesmos alunos do ano anterior, alguns novos. Mas e Madalena? Onde estava ela? Reinaldo olhou para todos os cantos: viu as amigas dela, as patricinhas que não conversavam com ninguém, duas garotas novas... Mas Madalena não estava ali!

Foi o ápice do desespero. Reinaldo pensou em começar a arrancar os cabelos, quando Dona Amélia, professora de matemática, entrou na sala. Enquanto ela caminhava até a lousa, a face de Reinaldo parecia uma pintura de Munch, senão pior. Antes de começar a matéria nova, Dona Amélia disse, sorrindo:

- Bom dia! Meu nome é Amélia, sou professora de matemática. Os alunos novos podem sentir-se em casa, livres para perguntar se tiverem dúvidas, contanto que não conversem na hora errada. Ah, a aluna Madalena Gouveia mudou-se com sua família para o Rio de Janeiro, portanto ela não estará conosco este ano!

Reinaldo estremeceu. Pensou até que ia desmaiar, mas conteve-se. Aquilo era um pesadelo. O sonho transformara-se em pesadelo assombroso e injusto, digno de uma tragédia de Shakespeare. "Sonho de Uma Noite de Verão" convertera-se em "Romeu e Julieta", senão "Hamlet". O pobre rapaz debruçou-se sobre a carteira e chorou, chorou amarguradamente, enquanto Dona Amélia dava uma revisão sobre funções...


V


Estamos agora em 2005. Uma Mercedes bela e caríssima pára na frente de um prédio abandonado em Diadema, São Paulo. De dentro dela sai um homem forte e de boa aparência, vestido num terno de preço também exorbitante. O sujeito usa óculos escuros, que logo tira do rosto e guarda num dos bolsos da calça. Podemos reconhecer, fitando com atenção o rosto desse homem, o pobre Reinaldo, que sofrera tanto por amor, e por sinal pobre apenas nesse sentido.

Dentro da Mercedes permaneceu um motorista. Reinaldo, após dar alguns passos na direção da construção abandonada, virou-se para o empregado e disse:

- Eu volto logo. Lembre-se que precisamos pegar o Pedrinho na escola.

- Sim, senhor!

Reinaldo prosseguiu pelo caminho, parando na frente de um portão. Nosso poeta cruzou-o sem demora, enquanto este rangia incomodamente. Ganhou então um pátio, que fitando com atenção também poderíamos reconhecer... Aqueles bancos... Havia uma porta que levava ao interior do prédio, sob a qual havia a inscrição "Colégio Carlos Lacerda".

Após ler a inscrição e sorrir brevemente, Reinaldo entrou pela porta caindo aos pedaços, caminhando por um corredor cheio de pichações e mau cheiro, devido ao fato que mendigos e bêbados faziam ali dentro suas necessidades fisiológicas. O velho colégio era agora um enorme banheiro público e esconderijo para viciados usarem suas drogas. Deprimente. Talvez um castigo de Afrodite ou Nêmesis, mais provavelmente a segunda, devido ao amor cheio de injustiça que ali tivera palco... O colégio era uma Sodoma fétida, uma Gomorra pichada!

Reinaldo penetrou na velha sala de aula, lugar de tantas lembranças. Alegrias, tristezas... e Madalena! A pessoa que ele não conseguia tirar da cabeça, aquela garota tão bela e inatingível que, quando o rapaz tinha mais esperança em conseguir conquistar, mudou-se para longe. Reinaldo havia se casado, tinha dois filhos, mas não conseguia esquecer aquele sorriso, aquela face, aquelas mãos delicadas, aquela voz suave de soprano...

Irritado, Reinaldo chutou uma carteira cheia de teias de aranha, que voou sobre outra, levantando grande quantidade de pó. Em meio ao barulho provocado, algo diferente e ao mesmo tempo conhecido chegou aos ouvidos do antigo rapaz, uma voz de mulher:

- Reinaldo!

Trêmulo, com o coração aos pulos, Reinaldo olhou para a entrada da sala. Lá estava ela. Adulta, não menos bela. Cabelos mais curtos, porém com o mesmo encanto, corpo tão bem modelado como outrora. Era ela, e assim que sorriu, não deixou dúvida: Madalena!


VI


- Olá – saudou ela, um tanto insegura.

- Olá, Madalena – respondeu Reinaldo, mais inseguro ainda. – Como você está?

- Bem... Vejo que recebeu mesmo meu telefonema.

- Sim, mas eu pensei que fosse alguma brincadeira de mau gosto feita por alguém que estudou com a gente...

- Mas mesmo assim veio averiguar.

- Sim...

Madalena se aproximou alguns passos, e Reinaldo pôde notar algo diferente nela. Estava pálida, seu sorriso não tinha mais o mesmo encanto. Ainda era belo e sedutor, mas faltava algo... Como a Mona Lisa sem as sobrancelhas.

- E então, o que fez de sua vida? – perguntou ela.

- Tornei-me escritor. Já publiquei nove livros e com o dinheiro dos direitos autorais, estou conseguindo ter uma boa vida. Minha mulher é médica e...

- Então você se casou?

- Sim, o nome dela é Jaqueline, temos dois filhos.

- Compreendo...

Um silêncio desconcertante se seguiu, como se uma versão maligna do Cupido houvesse disparado uma flecha dentro do cômodo decrépito cujo efeito era impedir que quaisquer palavras fossem pronunciadas ou ouvidas. Reinaldo sentia-se oco por dentro, um fantasma cumprindo um ritual amargo para finalmente se soltar daquilo que o prendia, e logo deu continuidade à conversa, ávido por encerrá-la:

- E você? O que tem feito?

- Sou advogada. Lembra? Era meu sonho! Casei-me, mas meu marido morreu num acidente de carro há cinco anos. Entrei em depressão, e logo veio o diagnóstico...

- Que diagnóstico?

- Leucemia.

Isso explicava a palidez, e também o cabelo curto. Quimioterapia. Pobre mulher.

- Bem, mas acho que sabe por que estamos aqui...

Madalena tirou uma folha de caderno de dentro da bolsa que carregava. Era velha, embolorada. Reinaldo reconheceu aquele papel...

- Não acredito! – exclamou ele.

- Nunca é tarde para certas coisas...

Reinaldo olhou para aqueles versos feitos a caneta. Haviam perdido sua essência. Não por causa do bolor, mas sim pelas circunstâncias. Ele e Madalena não poderiam mais ficar juntos. Aqueles versos eram de outra época, senão de outra dimensão, uma dimensão cheia de amor e prazeres, perdida nas névoas do tempo.

- Reinaldo, esse seu poema é lindo. Eu o amei, assim como você.

Finalmente, a resposta. Mas ela veio sem doçura e sem prazer, ao contrário de como Reinaldo sempre havia aguardado. E Madalena beijou-o nos lábios, aquele beijo com quase vinte anos de atraso... Um beijo já sem vida, sem amor, mórbido.

Duas pessoas distintas, perdidas no universo morto daquele colégio cheio de lembranças. Dois amantes de outrora, agora meros bonecos do destino, ligados por alguns poucos versos... Mas versos belos, versos de amor...

23 de Julho de 2019 às 17:49 0 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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