(2019) SAINTS // SINNERS Seguir história

chrysiksolemn_ Chrysí K. Solemn

"Uma vampira, um cardeal e a criatura de Frankenstein entram num bar... Descobrem que têm mais em comum do que imaginam." O marido de Lucy morre, deixando para trás uma misteriosa pesquisa que pode curar seu estado vampírico. Os rascunhos de Victor Frankenstein foram usados como base, e Frank tem medo de rever os diários. Enquanto isso, Ike negocia com demônios, e engana todos eles.


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

#paranormal #demonios #sobrenatural #demons #vampiros #exorcismo #310 #monstros #pt-br #frankenstein
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Capítulo 1

Nova York, maio, 2018


Uma canção pop ecoava no apartamento entulhado. Lucy cantava e dançava enquanto organizava sua mochila para sair. Tinha os cabelos negros longos, usava um top vermelho e calças jeans justas, com uma camisa de flanela preta vestida em uma só manga pendurada nas costas. Era bem alta e tinha o corpo atlético, ombros largos e fortes, e a pele mais clara que o caucasiano normal. Não parecia se importar com o tempo, com a bagunça da cozinha, ou com absolutamente nada: exalava a confiança de quem tinha o mundo aos seus pés.

Na mochila, seringas e frascos de vidro. Também havia uma muda de roupa, shampoo sem enxágue e um pouco de álcool. Ela deu uma última olhada, mas hesitou nesse último item. Trocou por duas garrafas de vodca. Tinham quase o mesmo efeito.

A porta se abriu e um homem entrou, tão alto que ele precisou se curvar para atravessar o umbral. Trazia uma mala de rodinhas consigo, mas a carregava pela alça com a mão esquerda, já que o braço direito estava enfaixado em uma tipoia improvisada. Não falou nada, apenas desenrolou seu cachecol e o jogou sobre o balcão da cozinha, ocupando um dos bancos na frente. Seu rosto era composto por várias cicatrizes, a mais profunda iniciando-se abaixo da linha dos cabelos longos e cheios, e percorrendo toda sua testa, atravessando a ponte do nariz e terminando em algum lugar por baixo da barba. Os olhos, um azul e outro castanho, eram envoltos por profundas olheiras sob a pele bronzeada. Seu nariz tinha uma falha, como se estivesse quebrado.

— Se quiser alguma coisa, fala logo que eu vou sair — Ela declarou em tom de aviso, sem olhá-lo.

Ele resmungou alguns sons desconexos, jogando a cabeça para trás e esfregando os olhos:

— Só abaixa essa música. — Frank a seguiu com os olhos quando ela atravessou a sala para desligar a caixa de som. Aguardou que a música cessasse antes de continuar: — Eu tive que correr uns quatro quilômetros feito um tremendo de um imbecil. Eu odeio lobisomens. De verdade. Até quebrei o cotovelo na queda…

Lucy não deu muita importância para o discurso. Vestiu a camiseta pendurada e a abotoou abaixo da cintura, deu uma última conferida na mochila antes de fechá-la e a jogou sobre o ombro.

— Ei, rapidinho, vai querer transar quando eu voltar?

— Se eu vou… o quê?

— Transar. Foder. Fazer sexo — explicou ela, paciente.

Ele ergueu as mãos em sinal de pausa.

— Eu… Eu estou falando de como precisei segurar o rabo do vira-lata, cortar a cabeça dele com uma foice feita de prata, e que eu acabei me machucando no processo… E isso de alguma maneira te fez pensar em sexo?

— Na verdade, eu nem tava te ouvindo — Ela abriu um sorriso presunçoso. — Sabe como eu fico depois de caçar, sangue quente pra mim é afrodisíaco. Se não quiser, eu emendo pro Ike que ele resolve, ou dou um pulo com a Evie. Sei lá, eu me viro. Só perguntei pra saber pra onde eu vou.

— Lucy… — Calou-se. Não incentivaria aquilo com uma resposta. Virou o corpo novamente para o balcão e colocou a mala sobre a mesa.

— Sim ou não, Frank? — Para seu infortúnio, ela era muito insistente.

— Eu tenho mais o que fazer — respondeu em meio a um suspiro, puxando o zíper da mala. — Essas armas não vão se limpar sozinhas, e com um braço fora de combate, tenho que começar logo se…

— Tá, tá — Ela o interrompeu. — Não me espera acordado, então.

— Nunca esperei.

Mesmo com a ironia na voz, Lucy segurou o queixo dele e o beijou no canto da boca antes de sair. Frank riu ao se ver sozinho no apartamento. Detestava admitir, ficava um tanto alterado com aqueles gestos de carinho, e tinha certeza de que ela sabia disso.

Decidiu focar em seu trabalho. Com dificuldade, tirou uma bolsa pequena da mala: dentro, continha uma caixa de metal, onde guardava alguns revólveres e uma pequena foice de jardinagem. Abriu, em seguida, a sacolinha que continha os materiais que usava para a limpeza. Tirou a tampa do álcool, pegou um pano de tecido e começou a limpar, com toda a calma do mundo. Demoraria fazer tudo com uma mão só, mas não podia parar.

Apreciava aqueles instantes de silêncio pois nunca sabia quando os teria novamente. Lucy era o tipo de criatura que enchia o cômodo, fosse sem parar de falar ou apenas com sua presença tão instigante e segura de si. Por mais que gostasse muito de sua companhia, tinha alguns momentos em que ele preferia ficar quieto, com seus próprios pensamentos. No fundo, entretanto, esperava que ela voltasse logo. Mesmo que a quietude fosse onde se sentia seguro, também se sentia perto dela. E quando se tem mais de duzentos anos de idade, isso é ótimo; dava cor à vida. Só queria mesmo alguns minutinhos de sossego, parar a mente depois de um dia exaustivo.

Largou o pano, tirou o sobretudo que vestia e jogou no sofá. A camiseta de mangas curtas deixava à mostra os braços tão cobertos de cicatrizes quanto o rosto. Carregava-os em outro momento como maldições, mas ultimamente não passavam de marcas do cotidiano, acidentes domésticos. Estava aprendendo a não se importar tanto com a aparência, coisa impensável dois séculos atrás. Às vezes se flagrava imaginando o que seu criador pensaria se o visse daquela maneira, saindo na rua sozinho e seguindo com sua vida. Claro que o mérito era, em parte, de sua melhor amiga. E ele provavelmente nunca conseguiria agradecê-la de maneira adequada.

Quando Victor Frankenstein morreu em uma expedição ao Polo Norte, a criatura jurou se matar. Frank tentou. Muitas e muitas vezes. Mas uma mulher o salvava cada uma delas.

Uma mulher de branco.

— Pra quem sempre me rejeitou, você aparece muito desde que vim morar com a Lucy.

Ela estava no sofá. A pele era tão clara que em certos pontos chegava a ser transparente, expondo os ossos. Os cabelos longos eram louros, e tinham um bonito movimento, serpenteando com leveza nos ombros. Tinha a esclera dos olhos negra, com a íris de um azul brilhante. Ela usava um vestido branco cortado na altura dos joelhos, de gola alta e sem mangas.

— Não é ciúmes, juro — ela riu, angelical. — Vocês mexem nos meus negócios todos os dias, seria estranho se eu não passasse por aqui com frequência. — Fez uma pausa se aproximando do balcão. — O que tem aí?

— Sangue de lobisomem. Uns pedaços de pele e tufos de pelo também.

— Pensei que você só lidasse com almas.

Frank fez um som com a garganta, negando. Ela pegou a foice recém-limpa e a analisou.

— Que bonitinha. Portátil.

— É bem útil, pra falar a verdade.

— Não vai olhar pra mim?

Ele suspirou, erguendo os olhos.

— O que você quer, Morte? Eu tô exausto, queria um pouquinho de…

— Eu preciso falar com a Lucy — interrompeu. — Tem a ver com o Leone.

Frank derrubou o punhal que estava limpando no chão de madeira. Sentiu calafrios e, no fundo, já sabia o que significava.

— Ele ainda está vivo. — Morte apressou-se para clarificar. — Mas não por muito tempo. Achei melhor avisar, sei do carinho que você tem por ele. E ela…

— Procura a Lucy.

Morte sequer respondeu, desaparecendo de imediato em fumaça pela noite . Frank continuou ali, estático com a notícia. Seus pensamentos foram direto para sua amiga. Não podia imaginar qual seria a reação dela. Temeu por aquele dia durante todas aquelas décadas desde que Lucy havia se transformado, fez tantos planos de contingência, e de repente…

Um branco.


+


Quando o cara ao seu lado colocou a mão em sua coxa no bar, Lucy suspirou: não de excitação, mas de raiva. Não havia uma novidade, qualquer tipo de estímulo para uma caçada. Esperava por aquela noite por meses e não podia nem se divertir um pouco. Aliás, a pior parte era não poder nem mesmo se queixar: queria que ele a desejasse, afinal, tornava o trabalho menos imundo.

Ele tomou seu rosto e a beijou. Qual era o nome dele mesmo? Não tinha ideia, havia acabado de conhecer. Adorava o bar da Nora pois era sempre bem-vinda e parecia mais um antro dos babacas, mas era muito fácil arrumar vítimas ali. Eles logo vinham a seu encontro, como formigas no açucareiro. Formigas fedendo a bebida. Tão fácil, tão irritante… Sequer reclamou quando ele enfiou a mão em seu decote. Gostava mais de correr, brigar, ver o desespero deles…

— Por que não terminamos isso em outro lugar? — Ela perguntou sedutora, sussurrando em seu ouvido para se sobrepor ao bar lotado. Cortou logo os pensamentos violentos por saber que era apenas a sede falando, mas por dentro ainda lamentava a facilidade. Imaginou se se sentiria muito culpada caso decidisse correr atrás de mais uma vítima, apenas para suprir aquele desejo por adrenalina, porém decidiu pensar no assunto mais tarde. Sua presa consentia, tão inocente e burra, e se deixava levar para os fundos do bar.

Homens eram tão fáceis de manipular que chegava a ser ridículo, ainda mais os daquela laia. Um salto alto, um batom vermelho e um decote eram suficientes para conseguir o que queria.

Lucy conhecia aquele bar como a palma de sua mão, e ela sabia que Nora liberava os três quartos no fundo do bar para ela e as prostitutas que ali faziam ponto. Todas sob a proteção de Big Mike, o líder de cartel daquelas bandas do Brooklyn, e Big Mike sob a proteção de Lucy. Mas o garoto que tentava tirar sua blusa antes da porta não precisava saber que ela estava acima de tudo aquilo.

Ele a prensava contra a parede, por ironia se ocupando em seu pescoço. Lucy abriu os olhos um pouco e se sobressaltou, empurrando-o para a outra parede, forte o suficiente para fazer um estrondo. Aquela fumaça sobrenatural em seus pés só podia significar uma coisa.

— Morte?! — rugiu, furiosa.

— Oi, Lucy, licença…

— Puta merda, o Frank não tá comigo! — apressou-se a dizer.

— O fato de você me associar a ele me deixa um pouco triste, não vou mentir…

— Você que vive atrás dele.

— Alguém tá com ciúmes?

— Quem é essa garota? Ela vai entrar com a gente?

Quando o rapaz — que não conseguia terminar a frase sem se embolar todo — falou, Lucy respirou fundo, unindo as palmas na altura do rosto.

— Eu poderia — prontamente, a mulher de branco sorriu. — Já faz um tempo, né, Lucy? Mas, não. Hoje, não.

A mão de Lucy foi de encontro ao rosto do rapaz. Em questão de segundos, ele caiu no chão, sem forças. Não estava morto, apenas desmaiado. A vampira respirou fundo, esfregando as têmporas, furiosa. Quando ele acordasse, tudo não passaria de um sonho de um garoto bêbado descuidado que escapou da morte graças à, que ironia, própria Morte em pessoa.

— Então… — Morte tentou puxar assunto.

— O que você quer, puta? — rugiu a vampira. Gesticulava com raiva conforme falava: — Não podia esperar cinco minutos? Cacete, tá acabando meu estoque, sua fodida. Com tanto dia pra…

— O Leone só tem mais hoje.

A raiva de Lucy, de repente, se dissipou.

Era possível ver em seus olhos o coração partido. A íris vermelha tremia, brigando com as lágrimas que se formavam. E era um choque para a Morte, que jamais havia visto sua amiga demonstrando qualquer outro sentimento além da arrogância e presunção. Deu tempo a ela, pois jamais saberia o que sentia.

— Me leva até ele — murmurou a vampira, sem forças. — Não importa onde, me leva até ele. Eu imploro.

— Lucy, querida…

Me leva — ela ergueu a voz. — Eu não me importo se vão ter consequências depois, só me leva.

Morte calou-se. Uma foice dourada se materializou em seus braços. Com duas batidas no piso de madeira, o bar se desfez. Estavam, no retorno do pêndulo, em um hospital, diante um apartamento. Lucy olhou para a madeira da porta, o número na plaquinha de plástico e não soube o que fazer. Pelo seu faro, ele estava sozinho, mas…

Tantas lembranças que não queria enfrentar.

— O que eu tô fazendo? — ela sussurrou, levando as mãos ao rosto.

— Realizando o último pedido dele — respondeu Morte. — E eu sei que você sabe disso.

Lucy pensou por um tempo.

Abriu a porta.

Um grande quarto iluminado, com uma cama no centro. A televisão estava ligada com o volume baixo em um canal de notícias qualquer, e o que mais chamou a atenção de Lucy foram as cestas de flores e cartões de desejos de melhoras. Era até bem decorado para um quarto de observação de um hospital, mas ela analisava os detalhes mais por medo de encontrá-lo do que por curiosidade.

Sentiu calafrios ao ouvir sua voz:

— Eu amei seu cabelo.

Um senhor muito idoso estava sentado na poltrona próxima à janela. Tinha um livro grosso em mãos, os óculos de aro fino na ponta do nariz foram ajustados ao erguer a cabeça. Ele fez menção de se levantar, mas Lucy já estava próxima. Ela não conseguia articular sequer um simples “olá”, a boca trêmula aberta e as lágrimas escorrendo seu rosto sem o menor esforço de sua parte. Talvez o mais assustador era notar que seu marido estava bem, ao menos melhor do que se esperaria de um senhor moribundo.

Ele estendeu a mão e, quando Lucy ajoelhou-se no chão, tocou o rosto dela, tirando-a de seu devaneio.

— Você realmente não envelheceu um dia, Lucretia.

— Leone… — Conseguiu ao menos sussurrar seu nome.

Lucy perdeu o controle. Chorou, sem parecer que pararia algum momento.

Ela já estava acostumada a ser uma vampira, mas a ideia de rever seu marido sempre a assombrou. Milhares de coisas tinham ficado mal resolvidas na noite em que decidiu deixar sua vida terrena para trás. Ela se amaldiçoava todos os dias por aquela escolha, porém jamais se perdoaria se fizesse algo a Leone. E vê-lo tão frágil, em seus últimos suspiros, era um tremendo choque.

Ele estava com noventa e cinco anos, Lucy sabia; e ela jamais passaria dos trinta. Sentia-se tão culpada, tão assustada com o que estava vendo, que mal conseguia falar. E mesmo assim, ele ainda sustentava o mesmo olhar terno, delicado e amigável de décadas antes. Enquanto ela…

— Me desculpa… — ela gemeu, as lágrimas afastadas por seu marido.

— Você fez o que julgou certo — Leone respondeu. — Só é uma pena eu não ter uma foto mais recente da família.

Ela riu. Não sabia se de alívio ou de tensão.

— Você está linda.

— Não…

— Está, sim. Preto é sua cor.

— Louro me fazia lembrar de você — ela respondeu. E sorriu, delicada. — De uma manhã em 45.

— Uma manhã em 1945 — Leone repetiu, assentindo com a cabeça. — Parece tão recente…

Lucy afastou as lágrimas e riu consigo. Sessenta anos tinham se passado, queria tanto contar toda a sua jornada a seu marido, mas não encontrava meios de fazer isso. Tudo parecia tão tolo, sem importância… Tudo o que queria era admirá-lo mais uma vez. Afinal, aos olhos dela, ele ainda era o mesmo cavalheiro de cabelos castanhos e olhos brilhantes. Leone dizia que ela não havia envelhecido, mas ele tampouco.

— Como chegou aqui? — curioso, Leone perguntou. — Passei tantas décadas te procurando e, no fim, foi você quem conseguiu me achar.

— Uma amiga — Lucy limitou-se a dizer. Apertou-lhe a mão.

— Frank ficou de te trazer de volta, mas acho que ele não conseguiu...

Ela fechou os olhos. Sentiu-se culpada, porém não deixou transparecer. Abriu um sorriso em seguida.

— Espero que ele esteja bem — Odiava mentir. Só que odiaria ainda mais deixar seu amado triste, ainda mais naquelas condições.

— Me conte tudo! — Leone abriu um sorriso gigante ao segurar as mãos de sua esposa. — O que fez? Quando você se foi, fiquei muito preocupado. Por anos, eu…

Ele parou a meia frase. Sorriu. Parecia ter se lembrado de algo. Tomou o rosto de Lucy e beijou-lhe a testa.

— Escute, Lucy… — Leone a olhava no fundo de seus olhos. — Eu fiz algumas coisas quando você me deixou. Nada ilegal, não se preocupe. — Ele riu um pouco. — Mas eu fiz umas pesquisas. Quando terminei minha especialização, iniciei meu estudo sobre doenças genéticas. Está tudo detalhado em nossa casa em Roanoke.

Houve uma pausa, na qual Leone tentava encontrar as palavras corretas.

— Eu acho que vampirismo tem uma cura.

Lucy arregalou os olhos. Processou aquelas palavras por alguns instantes.

— Não existe — ela falou, sem muita certeza na voz.

— É apenas uma hipótese — Leone disse, fazendo um gesto de calma. — Comecei a pesquisa logo quando Frank decidiu te procurar. Achei que ele teria medo do assunto por motivos óbvios, então nunca…

— Leone, não existe uma cura. Vampirismo não é uma doença, é uma condição física.

— É uma deficiência — ele interveio.

— Meus órgãos não funcionam.

Leone parou. Aguardou uma explosão, mas ela manteve a expressão incerta. Por dentro, Lucy tinha certeza das próprias palavras, contava com a própria vivência ao longo daquele meio século…

Por outro lado, sabia que Leone não falaria aquilo sem ter feito uma extensa pesquisa.

— Como eu disse, é uma hipótese — Leone pacientemente continuou. — Eu passei todos esses anos esperando que você voltasse para Roanoke pois queria testar essa ideia; queria ao menos tentar devolver a vida que você perdeu. — Fez uma pausa, preocupado. — Talvez não seja nada, mas também talvez seja alguma coisa. Um lugar pra começar a procurar, sabe?

Lucy desviou o olhar.

— Estou te dizendo isso por saber que não tenho mais muito tempo, meu amor. — Declarou Leone — Mas você tem. E eu sei que a ideia de eternidade é algo que a incomoda profundamente. Frank me contou das conversas que vocês tinham sobre a condição dele, logo quando você se transformou. Ah, se ele ao menos estivesse aqui… Pobrezinho, ainda deve estar rodando este país te procurando. Eu devia…

— Você tem o contato dele? — ela perguntou.

— Ora, sim — Leone sorriu com carinho. — Ele gosta muito de você e sente sua falta. Quando você se foi, ele se prontificou a te trazer de volta. É um pouco triste pensar que ele não conseguiu. Queria ter o telefone dele, mas ele não parece se dar muito bem com tecnologia, então não quis incomodar.

Leone riu, e ela se obrigou a acompanhá-lo. No fundo, sentia-se traída, mas precisaria lidar com aquilo mais tarde. A ideia de eternidade, para ela, era assustadora justamente por querer evitar aquele exato momento. Sabia que jamais teria estômago para ver Leone fraco daquela maneira, e menos ainda em saber que a vida dele chegaria ao fim. Lucy, ao longo das décadas, encontrou com alguns vampiros e desprezava todos eles pois nenhum parecia se importar com seus próprios familiares humanos. Ela não tinha se tornado uma por querer; foi um acidente.

E se amaldiçoava todos os dias por ter sido tão descuidada.

Teria Leone sacrificado sua saúde pesquisando esta tal “cura”? Jamais se perdoaria se fosse verdade. Tão teimoso… Não somente isso, mas sentia como se a notícia tivesse vindo tarde demais. Qual seria o sentido de pesquisar se ele estivesse morto? Pra quê voltaria a ser humana sem uma casa para retornar?

No fundo, Lucy sabia que falar algo do gênero seria uma ofensa ao legado de seu marido. Guardou mais um segredo em seu coração que a corroeria por dentro.

Ela não queria ir embora pois significava que era a última vez que via o único homem que amou em vida. Mas a noite chegava ao fim, não tinha escolha. Lágrimas caíram quando ela se deu conta disso.

— Obrigado pela visita. Fez um velho moribundo o homem mais feliz do mundo. Já é hora de ir. Não vou ficar bravo, prometo.

— Eu vou voltar.

Sua voz falhou naquele momento. Os dois sabiam que não era verdade. Ainda assim, Leone pediu um abraço de sua esposa. Sua eterna esposa.

Quando Lucy saiu do hospital, se deu conta de que Morte não estava lá para buscá-la.

Afinal, ainda estava em Nova York. Não muito longe de casa.


+


Sentia-se impotente com aquela notícia.

Frank tinha uma xícara de café nas mãos, seus materiais ainda espalhados pelo balcão da cozinha. Não estava com clima para mais nada, parecia tão estúpido àquela altura que… Não sabia, só queria ficar quieto tentando digerir a ideia de que Leone dava seus últimos suspiros. Era sua figura paterna, mais que Victor Frankenstein. Frank riu consigo. Chegava até mesmo ser uma ofensa comparar Leone com Victor. Um foi tirano, negligenciando-o na primeira oportunidade; achando bem mais fácil desqualificar sua criação (seu filho) como um monstro e deixá-lo para morrer. O outro, no entanto…

Pode ficar com a gente o quanto quiser, Frank!

A voz de Leone, tão jovem e cheia de energia, era clara como se Frank tivesse vivido aquele momento na tarde anterior. Lembrava-se de tudo: do gramado bem cuidado diante a casa dos Coady, os fios louros de Lucy voando com a brisa do rio, as pessoas na rua passando, o aperto de seu melhor amigo em seu ombro… Pensar que fazia quase setenta anos parecia um absurdo.

— Lucy nunca pensou em transformá-lo?

Ele ergueu os olhos ao ouvir a voz de Morte, que se acomodava ao seu lado no sofá.

— Nunca — Frank apressou-se a dizer. Sua voz era melancólica. — A ideia sempre esteve fora da mesa. Ela não gosta de ser uma vampira, sabe? Ela só caça para se alimentar. Aprendeu a drenar o sangue e raciona o máximo que consegue. Em épocas normais, ela consegue segurar quatro litros em três meses.

— Tudo para não causar mais sofrimento. Entendo… — a ceifadora suspirou, os lábios cadavéricos sorrindo de um jeito maternal. — Pobrezinha… Ela só queria uma vida normal, não é?

— Com todos os defeitos que ela tem, ela é muito forte. E eu não sei, eu sinto que hoje ela chegou no próprio limite.

Morte fez um som de concordância e um silêncio invadiu.

— Você… — Frank mordeu os lábios a meia palavra, mas logo perguntou: — Tudo bem você ter nos contatado?

— Das consequências cuido eu, Frank. Relaxa. Eu só senti que devia isso a vocês dois.

A conversa foi interrompida pelo som da porta batendo. Ele se levantou ao ver que sua amiga havia chegado mas, antes de qualquer fala, Lucy o esmurrou, que caiu no chão com o nariz sangrando.

Você contatou o Leone?! — Ela rugiu.

Lucy! — Morte chamou, em vão. — Lucy! Para! — Morte segurou a amiga pela cintura e a afastou dele, colocando-se entre os dois com as mãos nos ombros dela. — Fui eu que dei a dica pro Frank. Você deveria estar com raiva de mim, não dele!

— Eu não tô falando de agora, Morte! — retrucou ao se desvencilhar. — Esse filho da puta contatou o Leone várias vezes ao longo dos anos. E não me disse! Leone estava bem perto de mim e eu simplesmente…

Ele tentava aos poucos se levantar, mas a força da vampira era tamanha que o deixou muito desnorteado. Levou a mão ao rosto. Se Lucy quisesse, poderia ter quebrado sua mandíbula, e Frank sabia.

— Eu podia ter visto ele, sabe? Mais vezes, não só no último dia de vida dele! — Passou a palma no rosto, afastando as lágrimas que se formavam. — E o Frank me escondeu isso! Me fez perder dias preciosos com o Leone! Eu tô tão puta…

— Você tinha dito que tinha medo de olhar pra ele depois que foi embora! — Protestou Frank — Eu pensei que…

— Se você soubesse que o Victor estava prestes a morrer, você não faria de tudo para passar os últimos dias com ele?!

Frank não respondeu.

Eu não esperei estar próxima dele quando ele fosse morrer! — Continuou, a voz perdendo a força — Uma coisa é receber a notícia da morte. Outra coisa é poder estar perto antes disso. — ela fez uma pausa. — E agora eu perdi tempo. — Lucy ergueu os olhos e riu, tentando impedir as lágrimas de caírem. — Puta que pariu! Eu não… Eu tenho a porra da vida eterna e eu podia ter usado isso a meu favor! Eu podia ter ficado do lado dele!

Fez-se silêncio no apartamento, o único som sendo o soluçar de Lucy, derrotada. Frankenstein não a olhava: refletia sobre as palavras de sua amiga.

— Pode deixar a gente sozinho, Morte? — pediu ele.

A ceifadora consentiu e sumiu em névoa. Frank, por sua vez, se esforçou ao máximo para se levantar. A queda, pela dor, havia atrasado em mais algumas semanas a recuperação do cotovelo. Mas não estava bravo pela surra; Lucy sempre tinha suas razões e, falando sério, ele mereceu. Além disso, sequer conseguia imaginar o choque que estaria ela passando naquele momento e compadecia-se.

Ele se aproximou devagar. Envolveu-lhe os ombros com o braço esquerdo e a abraçou. Pôs a mão na cabeça dela e a fez deitar-se em seu ombro. Não sabia bem o que dizer ou fazer, mas sabia que seria capaz de cruzar o país a pé por aquela garota.

Deixou que ela desabafasse da mesma forma que tantas vezes ela havia feito por ele. Só que ela ficou em silêncio, apenas chorava, sem saber o que fazer. Ele se desculpou várias vezes, mas não parecia suficiente.


+


Ilha de Roanoke, 3 de outubro de 1945


Ela sempre ia à ferroviária acompanhar seu pai em suas viagens, e mesmo assim sentia-se desconfortável no meio de tanta gente. Não pelo motivo para aquilo, sabia que a maioria das pessoas estava ali para rever seus filhos, pais e maridos que finalmente chegavam dos quartéis que estavam alocados ao longo do país. O problema era os olhares.

Era uma mulher grande, e isso chamava muita atenção. Tinha pouco menos que um e oitenta de altura e os ombros largos. Podia muito bem ter seguido carreira como nadadora, só que o esporte não era caminho para uma moça direita; era estranha por ser estranha apenas. Era feia. Os cabelos louros estavam sempre escondendo parte de seu rosto por vergonha, mas era em vão. Todos viam aquela brutamonte e riam. Podiam não expressar, mas ela sabia que, por dentro, estavam fazendo pouco dela. Podia sentir.

Por medo e timidez, ela sequer se aproximou ao ouvir o trem chegando. Ficou ali, paralisada pela ideia de se ver no meio da multidão, se destacando como uma árvore centenária. Encolhida na parede de uma banca de jornais, aguardou, sentindo seu coração acelerar tanto que mal conseguia respirar de ansiedade.

Aguardou dois anos inteiros por aquele momento, contou os dias para sua chegada… E agora tinha medo de se aproximar. Sentia-se uma imbecil.

Lucy despertou em seu caixão. Quase nunca dormia ali, mas estava se sentindo tão fraca que não viu outra opção. Muita coisa havia acontecido em muito pouco tempo. Sentia como se sua cabeça estivesse prestes a explodir. Empurrou a tampa de madeira e sentou-se, esfregando as têmporas com força, como se quisesse organizar seus pensamentos.

Na sala, Frank terminava de arrumar sua mala. A tipoia, improvisada com gaze e uma camiseta velha, estava quase cedendo ao peso de seu braço. Não podia lidar com aquilo naquele momento, entretanto: estava quase atrasado.

— Ei.

Ele olhou para a porta do quarto, onde Lucy se apoiava.

— Ei — ele respondeu, sem entusiasmo algum.

— Desculpa por ontem.

— Tudo bem — ele se esforçou para sorrir um pouco. — Não te culpo. Foi muita coisa. — Frank deixou a voz morrer. Baixou o rosto para a mochila mais uma vez, murmurando: — Tá tudo bem. Juro.

Não era suficiente para Lucy. Parecia que ele estava se convencendo, e isso a machucou. Caminhou até ele, e Frank não reagiu, continuou mexendo em sua mochila. Lucy desfez a tipoia com um leve puxão na gaze. Sem graça, Frank deixou a palma da mão boa bater na mesa e acabou rindo, escondendo o rosto em seguida. O gesto a contagiou, mesmo que pouco.

— Lucy, você pode…

— Consertar essa merda? Não precisa pedir de novo.

Apesar da atmosfera melancólica, Frank ficou aliviado em notar que ela se esforçava para não se deixar levar por isso. Ele decidiu aguardar que ela mesma tocasse no assunto pois sabia que Lucy era ainda pior do que ele para lidar com os próprios demônios.

Os fios de gaze serviram como base para a tipoia, e a camiseta foi amarrada com maior firmeza, envolvendo o polegar dele, deixando os outros dedos livres.

— Foi só o cotovelo?

— Cotovelo e o ombro. Eu fiz de qualquer jeito ontem, só fui examinar hoje quando acordei. Tava com pressa.

— Isso sara em o quê? Uma semana?

— Por aí. Marca duas, mais seguro.

— Quando eu sair, eu compro uma tipoia de verdade. Vende em farmácia, não é difícil de achar.

— Não precisa se incomodar. — Frank movimentou os dedos do braço quebrado. — Eu consigo me virar com isso.

— Tem certeza?

— Vou ficar bem. — Garantiu. — Obrigado, Lucy.

Frank aguardou alguma brincadeira típica, mas recebeu apenas um sorriso com o canto dos lábios. Ele imaginou por quanto tempo a regeneração dela demoraria.

— Tem certeza que vai sair com o braço assim? — questionou ela.

— Eu tenho compromisso, não posso faltar. — Levantou-se do banco diante o balcão.

— Entendo…

Ah, que se foda.

— Quer que eu fique? Você quem não parece muito bem.

— Não, não! Eu só… — Lucy fez uma pausa. — Eu vou dar uma volta. Sei lá, deixei minha mochila no bar da Nora. Vou buscar e, não sei, beber um pouco. Mexer com a Evie, jogar pôquer…

— Não quer que eu pegue pra você?

— Não precisa.

— Você nem conseguiu caçar ontem, né?

Lucy suspirou.

— Nem tô mais no clima — murmurou, mas logo retomou o tom normal: — Sei lá, eu dou um jeito. Ainda tenho uns seis dias antes de estourar meu tempo. Sempre caço perto do limite, aí…

A criatura se compadeceu. Era doloroso ver sua melhor amiga tão confusa e sem ânimo. Era óbvio como ela estava fugindo do luto. Leone era um homem muito querido para os dois, afinal. Só que ele, Frank, havia se acostumado em perder pessoas amadas ao longo de seus duzentos anos de vida. Já Lucy…

— Você acha que ele já foi?

A pergunta o pegou de surpresa. Lucy não ergueu os olhos.

— Não sei. Morte não disse nada sobre avisar, mas também não acho que ela o faria. Já foi muito contra-mão ela ter nos avisado ontem.

Houve um longo silêncio entre os dois. Frank tomou a mão de Lucy e beijou seus dedos, em uma tentativa de apoiá-la. Notou que ela tinha os olhos distantes, tentando digerir os últimos acontecimentos. Não podia apressá-la, teria que deixá-la falar quando conseguisse.

— Eu vou dar uma volta — ela rompeu o silêncio. — E você tá atrasado.

Derrotado, Frank riu um pouco.

— Tudo bem. Posso passar no bar depois e a gente volta junto pra casa.

Ela fechou a maleta sobre o balcão e entregou a ele, que apenas suspirou e partiu para mais uma noite.

Lucy queria ficar sozinha um pouco. Não gostava daquela atmosfera, e definitivamente toda aquela melancolia não combinava com ela, mas não podia negar que estava se sentindo impotente demais para lutar contra o que estava sentindo. Lamentava de verdade ter perdido a cabeça com Frank na noite anterior, só que não conseguiu evitar. Estava tão brava, não somente com ele por ter omitido seu contato com Leone, mas também consigo mesma por ter se escondido de seu marido.

Era uma covarde mesmo.

Ela sabia que a morte dele era iminente, mas ela achava que estar por perto seria uma forma de talvez conseguir ficar em paz com todo o ocorrido. Havia sessenta anos que fugia de todas as consequências de seus atos e a morte de Leone era a culminância desta fuga. Era um atestado do quão covarde e fraca era.

Dentro de si, uma vozinha protestou: “mas o que você faria?”

O vampirismo era irreversível, ela tinha certeza. Mas as palavras de seu marido na noite anterior haviam marcado: O que seria aquela pesquisa? Como foi feita?

Leone viveu sua vida pós-exército como historiador. Quando Lucy se foi, ele havia acabado de conseguir seu título de mestre em História da Arte durante a Segunda Guerra, e ela, trabalhando como arqueóloga em uma expedição sobre a lenda da tribo perdida de Roanoke. Durante a excursão, foi atacada. Não seria surpresa alguma se Leone tivesse decidido partir para um estudo genético, ainda mais entusiasmado como ele era com estudos. Ainda assim… Uma cura?

Assim como ele, Lucy também tinha um grande interesse por leitura e conhecimentos diferentes. Era uma das (poucas) coisas que gostava em ser vampira: sem o cansaço, sobrava muito tempo para continuar lendo. Ainda assim, não conseguia se recordar de nenhuma literatura que abordasse vampirismo como uma doença curável. Ao menos, não no plano das narrativas…

Era muito engraçado imaginar que o único ponto de pesquisa que tinha eram histórias inventadas difundidas através do folclore mundial. Era cética demais para ser uma vampira, essa era a verdade.

— Se não vai beber nada, cai fora.

Ergueu os olhos. Quando deu por si, estava no bar de Nora mais uma vez. Sua amiga — uma mulher baixa e gorda com a camiseta suja e um pano de prato no ombro — a empurrava um copo de vodca. Naquele estado, só podia tomar líquidos, e em pouca quantidade.

— Você deixou sua mochila no quarto dos fundos, Lu — Nora disse. — Fiquei até preocupada que eu não te vi.

— Eu tive uma emergência — Lucy respondeu, sacudindo a mão e bebendo um pouco. — Saí às pressas daqui.

— Posso saber o que foi? Ou vai fazer mistério?

A vampira nada disse. Manteve o copo entre os dedos e o girou um pouco, organizando os pensamentos, o que fez Nora suspirar. Era sempre assim, não sabia nem por quê perguntava ainda. Pegou o pano sobre o ombro e ocupou-se em secar algumas canecas atrás de seu balcão.

— Não precisa falar, mas que é esquisito você com essa cara de desânimo, é. Mas espero que logo se resolva. As coisas não são as mesmas sem você tagarelando por aí e mexendo com a galera do pôquer. Dominic inclusive perguntou por você esses dias, mas você nem tava.

Nenhuma reação. Fosse o que tivesse acontecido, havia mexido muito com ela. A garçonete deixou para lá, entendia que sua amiga queria ficar quieta.

O pior era que Lucy queria muito desabafar, mas não encontrava as palavras certas para isso. Era uma situação muito bizarra, ninguém conseguiria entendê-la com exatidão. Não era um pai ou uma mãe à beira da morte, mas sim seu marido; tinham quase a mesma idade, só que somente ele havia envelhecido, enquanto ela ficaria eternamente com trinta anos.

— Nora, você já teve vontade de morrer?

A mulher ergueu os olhos.

— Mas você não pode, não é?

Lucy terminou a bebida.

— Avisa pra Evie que eu tô no quarto. Se ela quiser mandar alguém, manda, tô trabalhando.

Não queria pensar em nada, não queria falar nada, não queria fazer nada; só queria ocupar a mente e apenas duas coisas conseguiam: sexo e violência. Infelizmente, não estava no clima para caçadas, mas tinha muitos potenciais clientes no bar da Nora, como de costume. Afinal, o mundo não pararia de rodar por conta de seu luto.

Em seu robe após despachar o segundo cliente da noite, encontrou com Frank a aguardando na porta. Ele carregava um envelope com o nome dela no verso. Lucy reconheceu a letra: Morte. Ela o abriu, leu e apertou o canto dos olhos. Não queria chorar de novo.

— Você vai? — ela perguntou.

— Eu não tenho coragem. Mas se você for, eu crio uma.

Conseguiu sorrir um pouco para aquela gentileza. Ainda assim, aconselhou-o a voltar para casa. A última coisa que queria era ser vista naquele estado tão frágil. Era ruim para sua reputação.


+


Ninguém sabia de onde vinha aquele cheiro estranho de queimado. Algumas pessoas culparam um inexistente incêndio; outras, o crematório do cemitério. Mas Frank sabia exatamente de onde vinha.

Não queria ir ao enterro de Leone, de jeito algum. Não era um adeus digno a seu amigo, visto como havia omitido viver com Lucy ao longo das últimas décadas. Machucava sua alma lembrar que falou várias vezes com seu amigo, ansioso por uma notícia de sua esposa, e negou entregar as informações que tinha. Mesmo que os motivos tivessem sido nobres, conviver com a culpa seria terrível dali para frente. Diante seu caixão aberto, a sensação parecia piorar a cada segundo.

Lucy estava muito bonita. Um vestido longo de renda, luvas, óculos escuros e os cabelos presos em uma trança, protegidos por um chapéu de aba larga. Da cabeça aos pés, a viúva usava luto, mesmo que nos papéis constasse que Leone era quem havia perdido sua esposa em um “fatal acidente de trabalho” na década de 50 – o que não era mentira. Frank sustentava um guarda-sol acima da cabeça de sua amiga. Ela não esboçava nenhuma reação, a não ser eventuais gemidos de dor pela pele queimada.

Não era saudável, mas Lucy era teimosa. Fez questão de comparecer, mesmo como uma figura invisível e desconhecida, observando à distância. Sem filhos ou irmãos, Leone era velado por seus alunos e amigos que fizera ao longo de sua jornada como professor, que desconheciam sua esposa. Um de cada vez, discursavam sobre como Mestre Coady era um homem amável e inteligente, sempre os incentivando a trilhar seus caminhos acadêmicos sem nunca olhar para trás.

Certo momento, o microfone foi aberto para quem quisesse falar, e Frank percebeu que Lucy se movimentou, mas logo desistiu. Não era difícil entender o motivo. Perguntou a ela se estava tudo bem, e a vampira ergueu a mão. Preferia ficar quieta, era óbvio. Frank apenas suspirou. O mais louvável era que, mesmo com a dor, tanto física quanto psicológica, a mulher mantinha a expressão neutra.

Ele ergueu os olhos. Sentiu as lágrimas vindo, mas não perderia para elas. Admirava muito como Lucy estava reagindo a tudo e, mesmo que estivesse se sentindo culpado, não poderia ceder. Seria injusto tanto com ela quanto com Leone.

Seria injusto com sua família.

O padre, ao anunciar o fim do velório, iniciou as orações quando o caixão foi fechado. Lucy deu as costas, não tinha como ver aquilo. Mas Frank continuou observando a movimentação. Haviam tantas pessoas ao redor, muitas entregues às emoções…

— Ele sempre foi muito querido — murmurou. Não sabia bem porquê. Mas ficou feliz que Lucy respondeu, mesmo que com a voz embargada:

— Ele salvou nós dois. Eu da minha cabeça e você…

— Eu não ia morrer — Frank voltou-se a ela. — Você sabe. Mas aquele moleque mais fino que meu mindinho encarando o laboratório de Mengele, abrindo minha jaula… Eu não sei. — Riu. — Tinha algo especial nele.

Lucy sorriu, saudosa. Frank pensou ter visto uma lágrima escorrer em seu rosto, mas ela desviou-o rápido demais para ter certeza.

— Eu sonhei na tarde de ontem. Havia umas boas semanas que eu não sonhava.

— Sonhou com o quê?

— Comigo. Esperando ele voltar.

Frank olhou novamente para o caixão baixando. Morte estava ali, deixando suas condolências ao longe. Teve certeza que a entidade não se aproximaria, então acenou com a cabeça para ela em reconhecimento.

— Com o cabelão loiro e tudo? — Frank tentou deixar o assunto mais leve. Mordeu os lábios, arrependido, logo em seguida. Não era hora.

— Me leva pro carro. Eu tô muito fraca.

— Com licença.

Um rapaz negro, com os cabelos ondulados se aproximou. Era mais baixo que Lucy e muito franzino. Estava elegante em um terno preto, mas dava para ver em seu rosto que não era seu estilo. Parecia feliz, como um garoto que encontra seus ídolos. Levou um bom tempo olhando para Lucy, como se a conhecesse há tempos.

Protetor, Frank colocou Lucy diante seu braço bom de maneira a escoltá-la. O jovem retomou seu foco e apressou o passo para alcançá-los.

— Desculpa! Meu nome é Robert, eu fui aluno do professor Coady! Seu… Seu nome é Lepore, certo?

Lucy parou, obrigando Frank a parar também.

— Lucretia Lepore… Lucy Coady! — Robert falava em um tom baixo, mas triunfante.

— Lepore é meu nome de solteira — ela disse. — Você sabe da pesquisa, não é?

Robert se aproximou, um tanto receoso pela maneira que Frank o encarava, mas Lucy parecia receptiva.

— Professor Coady me disse que usar seu sobrenome chamaria menos atenção caso alguém ouvisse… — ele falou, um tanto encabulado. — Me desculpe o susto. É só que…

— Ele falava da gente?

Robert sorriu. Mas logo se apagou como uma vela ao vento.

— Lamento.

— Você tem um telefone? — perguntou Lucy. — Você deve saber, é muito exaustivo…

— Ah, claro! — Robert buscou em seu paletó um cartão de visitas. — Por favor, me ligue assim que se sentir melhor. Preciso muito falar com a senhor--

Lucy tocou em sua mão. Ele se arrepiou com o toque gélido.

— Só Lucy.

— Desculpe — respondeu encabulado.

Frank acompanhava a conversa em silêncio, muitas questões surgindo em sua mente. Que tipo de pesquisa ele estava falando, e como Lucy parecia tão inteirada no assunto? Mesmo assim, respeitou a exaustão de sua amiga ao levá-la ao carro — uma caminhonete de segunda mão — e decidiu não tocar no assunto até que ela se recuperasse.

Mesmo fraca, ela conseguiu dirigir até o apartamento nas favelas do Brooklyn. Fizeram o caminho em silêncio, o sol já se pondo entre os prédios da cidade. Ainda assim, era possível ouvir a pele da vampira queimando sob a renda do vestido, mesmo que a densa película do painel segurasse a luminosidade um pouco. Assim que estacionaram, Frank correu com o guarda-sol a fim de escoltá-la para dentro do prédio.

Enquanto ele girava a chave do apartamento, ela apertou-lhe o braço. Falou em tom sombrio, rouco:

— Eu preciso que você abra o zíper das minhas costas e, assim que eu entrar, pegue as sacolas de gelo no freezer e me dê. O mais rápido possível.

Sem questionar, ele abriu o vestido e então empurrou a porta. Grunhindo de dor, Lucy se livrou das mangas do vestido com esforço. Cambaleava, gritava de desespero… soluçava de dor. E Frank não tinha tempo para consolá-la, buscando três sacos de gelo do freezer. Quando voltou-se a ela, viu que havia sentado seminua no sofá, arranhando o próprio corpo como se quisesse se livrar da dor. Fumaça saía das queimaduras, que desenhavam o formato da renda do vestido, as costas e ombros sangravam. Os gritos não paravam, pediam pelo gelo em desespero.

Ao receber os sacos, Lucy pôs um sobre as queimaduras em suas coxas e sustentou outro no colo de seus seios. Frank apoiou o terceiro em suas costas. Ela ofegava entre as lágrimas de dor — ele não sabia até onde era física, até onde era mental. O sangue se misturava com a condensação do gelo, e ele perdeu as contas de por quanto tempo ficou aguardando ela se recuperar.

Frank enfim compreendeu o esforço que ela estava fazendo. Com o pulso, fez com que ela repousasse em seu ombro e a abraçou. Ela tremia. Melancolia, medo, dor… Tudo misturado.

Um turbilhão.

23 de Julho de 2019 às 19:56 6 Denunciar Insira 4
Continua… Novo capítulo A cada 30 dias.

Conheça o autor

Chrysí K. Solemn Taróloga e astróloga aprendiz. Filha de Apollo, aluna de Hades, sol em Touro e ascendente em Sagitário. Viciada em Bayonetta. Escrevo mais angst; desculpe por antecipação.

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Lady Salieri Lady Salieri
Amo e não é pouco! *u*
25 de Julho de 2019 às 16:38

  • Chrysí K. Solemn Chrysí K. Solemn
    Amo vossa senhoria ainda mais 💖💖💖💖 25 de Julho de 2019 às 20:32
Lininha #ForaMAC Lininha #ForaMAC
Meu Deus do céu! PODE ENTRAR HISTÓRIA DO MILÊNIO. Que isso menina, quero urgente te conhecer, que incrível. Começo cativante, personagens curiosos e peculiares não? Um Frank, posso dizer, apaixonante, uma morte totalmente fora dos "padrões", tem tudo que um bom início precisa, contexto, uma piadinha e um bom drama pra gente não esquecer de se perguntar " tá, mas e agora?" Essa é a minha pergunta pra vc, e espero que seja respondida o mais breve possível. Ansiosa. Até mais meu orgulho.
24 de Julho de 2019 às 21:35

  • Chrysí K. Solemn Chrysí K. Solemn
    Também quero te conhecer, pô, a gente vai ser super amiga HAUAHAUAH Obrigada, sua linda 💖💖💖 Aliás, não sabia que você tinha gostado tanto do Frank! Ele é um neném lindo demais aaaaa 💖 Fico feliz de verdade que você tenha gostado da ideia e obrigada a força 💖💖💖💖 25 de Julho de 2019 às 00:36
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