Doce desejo Seguir história

ellie-bright1560477613 Ellie Bright

Há um ditado que diz que se você não passou pela crise dos dezoito ou vinte anos, você certamente terá a crise dos trinta. Bella ainda não tinha trinta anos, contudo, com os amigos casando e em empregos estáveis, a crise chegou. Depois que Charlie adoeceu, ela voltou a Forks para ajudá-lo e recomeçar. Ao menos um ombro amigo ela teria lá. O que ela não esperava era que sua pequena lojinha de doces pudesse trazer de volta um amor do passado. Edward Cullen. Talvez Forks fosse exatamente o que Bella precisava.


Romance Romance adulto jovem Para maiores de 18 apenas.

#twilight #crepúsculo #Edward-Cullen #bella-swan #Beward #EdxBella
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Magic Shop

UM

Magic shop




Era um estabelecimento pequeno, com tons de rosa pastel e creme, e que justamente por isso contrastavam espetacularmente com o resto da paisagem escura de Forks. Bella nunca pensou que abriria uma lanchonete naquela cidade esquecida por Deus, mas, desde que Charlie tinha adoecido e passado por uma cirurgia cardíaca, ela nem sequer hesitou em morar onde Judas perdeu as botas.

Ela e Charlie moravam no apartamento no segundo piso, enquanto que a lanchonete ficava embaixo. O lugar tinha poucas cadeiras. Apenas quatro mesinhas que permitiam que duas pessoas ficassem confortáveis, duas dentro, duas fora do estabelecimento, mas era tão bonitinho que Bella queria morrer.

As paredes claras faziam o lugar parecer maior e davam uma sensação gostosa de aconchego. O pequeno display exibia os doces delicados que Bella se sentia orgulhosa por ter feito. Os cupcakes com coberturas em formato de margaridas, as tatteletes de morango e mirtilos que pareciam muito apetitosas, cokkies do tamanho da mão dela, croissants de chocolate que certamente combinariam bem com os drinks acafeinados que recém–adquirida máquina de torrar grãos de café iria fazer.

Bella esperava que as pessoas parassem ali para comprar quitutes volta e meia, uma vez que o lugar ficava em uma das principais avenidas de Forks - não que existisse muitas avenidas em uma cidade com não mais que dez mil habitantes. Ela sabia que os amigos de Charlie certamente passariam no local em algum momento do dia e ela especialmente preparara uma torta de maçã que Renee lhe ensinara anos antes.

Mal ela pusera a torta no display, Jacob veio lhe visitar.

O código da broderagem exigia que ele fosse o primeiro a aparecer.

– E aí? Como estão os negócios hoje? – ele perguntou com um sorriso maroto. Bella revirou os olhos, estando secretamente agradecida que dessa vez ele se lembrou de colocar uma camisa.

Jacob era pedreiro e vivia tirando a camisa para “não ficar fedida ou suja com poeira”, era o que ele dizia, mas Bella sabia que era uma baita mentira: Jacob só queria seduzir o dono da casa que ele atualmente estava trabalhando. Tudo o que Forks tinha de pequena, também tinha de moradores com personalidade e visão de mundo fora da caixinha. Ali não existia racismo reverso, nem homofobia, nativos americanos eram respeitados e latinos bem vindos. Talvez fosse porque Forks ficasse bem perto do Canadá.

Outra coisa boa de Forks era que as amizades duravam. Jacob e Bella se conheceram ainda crianças, uma vez que Charllie tinha a mania de caçar junto do pai de Jacob. Os dois passaram a infância comendo linguiça de carne de cervo assada na brasa, às vezes, se eles eram sortudos, churrasco de carne alce. Acredite: o gosto era melhor do que o nome. Os mais idosos da cidade contavam histórias de vampiros e lobisomens ao anoitecer, numa fogueira onde todos assavam machimelo e ora colocavam a fofoca em dia, ora proseavam causos de terror.

Muitas vezes eles brincavam na floresta e se metiam em encrenca juntos. Uma vez foi especialmente perigosa porque os dois resolveram aprender a nadar se jogando no lago, sem qualquer supervisão de adulto ou uma boia por perto. A sorte é que deu certo e os dois aprenderam a nadar, mas, como não deveria deixar de ser, Renee e a mãe de Jacob lhes deram uma bronca gigantesca. Foi a primeira e única vez que Bella viu sua mãe completamente estressada, normalmente, ela era aquela hippie maluca que envergonha todo mundo com as good vibes.

– Os negócios estão fracos ainda. –ela disse, apoiando o rosto na mão direita enquanto olhava o relógio que marcava oito da manhã. – Obrigada por ainda estar de camisa.

Jacob deu um sorriso arteiro e Bella imediatamente ficou séria.

– Se você quiser, eu posso fazer um strip tease aqui. Quem sabe isso não atrai mais gente pra sua lanchonete? –comentou Jacob erguendo as sobrancelhas num vai e vem que o deixava a cara de um tarado da machadinha.

– Nem tenta. – Bella mandou de modo categórico. –Vai querer alguma coisa?

– Vai ser por conta da casa? – Jacob perguntou em tom de flerte. Bella revirou os olhos: ela sabia que ele só estava irritando ela.

E a razão era simples: amigo que é amigo incentiva seu parça. Não fica querendo comer coisa sem pagar ou arte de graça: amigo paga pelo que consome justamente por saber como é difícil começar. Além disso, Bella e Jacob eram almas gêmeas que compartilhavam o mesmo neurônio cerebral de cometer idiotices.

Nunca rolou e nem nunca aconteceria algo amoroso entre eles. Jacob era a alma gêmea platônica de Bella e só.

– Claro! –ela disse animadamente e Jacob fez uma expressão de alegre surpresa extremamente forçada que não convencia nem criança. Bella sabia que devia estar com uma expressão similar quando os dois terminaram de dizer ao mesmo tempo. – Que não!

Os dois gargalharam como os dois idiotas que eram. Bella estava tão relaxada que sequer se importou com sua risada de porco que, às vezes, aparecia quando ela ria muito de alguma coisa. Jacob ria ainda mais dela quando isso acontecia e Bella automaticamente deu um murrinho no braço musculoso, e todo trabalhado no supino de 20 quilos de Jacob.

Em sua defesa, Jacob escondeu o rosto bonito, bronzeado e devidamente lambuzado de protetor solar atrás do cardápio com os preços. Não que Forks fosse uma cidade muito apreciada pelo sol, uma vez que tudo era coberto por um nevoeiro estilo Silent Hill sem os zumbis, mas Jacob insistia que era necessário por conta da camada de ozônio. Bella não discutia. Até mesmo achava necessário, só que, diferente de Jacob, Bella não era muito interessada em cuidar da aparência mais do que fazer as sobrancelhas e um eventual batom.

Jacob era o típico metrossexual que malha na academia, faz as unhas regularmente em manicure e paga de blogueirinho no instagram com o intuito exclusivo de pegar geral. Homens ou mulheres, ou ainda se eram pessoas trans; não importava. Tanto faz. Esse era Jacob Black.

– Certo, vou querer um expresso grande com bastante leite cremoso com um desses croissants de chocolate, um cookie com macadâmia e uma caixa de donuts variados pra levar pro pessoal do trampo. – Jacob disse uma vez que parou de rir, já tirando do bolso do jeans a carteira Dior que custou um rim e um fígado.

– Deixa comigo! – respondeu Bella prontamente já pegando a maior xícara que tinha para fazer o café que o amigo pediu. – Como é que você mantém esses músculos se come tanta besteira no café da manhã?

Bella arriscou um olhar por cima do ombro para Jacob, que a observava atentamente. O rapaz apenas fez um gesto de desdém com os ombros.

– Ah, você sabe. Erguendo muro, misturando concreto, carregando tijolo e depois fazendo crossfit. – ele respondeu casualmente, enquanto tirava o celular do bolso para checar o instagram. – É o segredo da minha bunda durinha. Você devia tentar, inclusive. Já faz meses que quero te levar pra cidade vizinha pra fazer academia comigo.

A máquina de café, que também fazia o leite espumado que dava a cremosidade ao drink, apitou e Bella apertou a prensa para parar de moer os grãos e evitar uma destruição em massa de café caro e quente sujando sua pequena área de trabalho. Ela serviu o café com o croissant e o cookie escolhido por Jacob.

– Dispenso. As caminhadas com Peralta e Boyle já são o suficientes. –ela respondeu rapidamente, se ocupando em empacotar doze donuts de coberturas diferentes. – Morro de inveja da Gina, ela passa o dia inteiro dormindo! A propósito, deu 20 dólares.

– Sua grana. – disse Jacob lhe dando uma nota de vinte. – Qualquer dia desses eu vou com você nessas caminhadas, quero ver meus sobrinhos. Boyle já sarou daquele probleminha de pele?

Bella sorriu ao se lembrar do pug a quem dera o nome de Boyle, Peralta era um dálmata e Gina era a sua gatinha de longa pelagem branca com cinza. Há uns dias atrás, Boyle estava com alguns fungos em suas dobrinhas e precisou ir ao veterinário. Depois de uma semana tomando remédio, o cachorrinho já estava 100%.

– Vamos fazer assim, você termina seu trabalho hoje e vem pra minha casa. Vamos comer pizza e fazer uma noite de karaokê com o Charlie, topa? – Bella convidou enquanto guardava o dinheiro na registradora improvisada. Basicamente, uma gaveta com tranca e compartimentos.

– Beleza, a gente se vê mais tarde!

Enquanto Jacob se despedia, alguns clientes chegaram. Eram pessoas da época da escola que Bella já não lembrava o nome o nome direito. Foi apenas quando começaram a falar dos ‘bons e velhos’ tempos é que Bella associou os rostos aos nomes: Mike e Jessica. Ela deveria ter reconhecido porque Mike continuava com o rosto de bebê, só que agora um bebê com um vinco na testa e com pés de galinha precoces. Jessica tinha alisado os cabelos, mas continuava tagarela.

Enquanto Bella servia fazia o latte de Jessica e o Americano de Mike para acompanhar os cupcakes pedidos, ela ouvia Jessica tagarelar que desde os 15 anos já era apaixonada por Mike, só que naquela época Mike tinha um crush em Bella. Mentalmente Bella se lembrou de seu próprio crush não correspondido por Edward Cullen, mais conhecido como: ‘o bonitão da aula de biologia’.

Jessica, naquele tempo, era uma verdadeira amiga da onça. Pegava as coisas de Bella emprestado e nunca mais devolvia; espalhou uma fofoca idiota que Bella era a fim de Tyler Crowley pelas costas e, o pior, é que o babaca acreditou. Bella se lembrava do quão mortificada ela ficou quando Edward perguntou se ela e Tyler iriam juntos ao baile em uma das aulas de biologia quando faziam um trabalho em dupla.

Só que isso não foi o pior: Tyler era um daqueles boy lixo bem fedido. Ele ficou perseguindo Bella pelo resto do ano, espalhando para absolutamente o mundo inteiro que ele e Bella estavam juntos. Não só isso, Tyler até se vangloriava de ter sido o primeiro cara com quem Bella transou.

O ano era 2005. Seus pais tinham recém-divorciado e Renee estava nos estágios iniciais de seu relacionamento com Phill Dwyer. Bella se lembra de ter tentado tudo para se livrar de Tyler: falar diretamente que não gostava dele, dizer que estava namorando Jacob, fugir dele; nada deu certo. Boy lixo que é boy lixo não sabe o significado da palavra ‘não’. E então Bella, Renee e Charlie acharam melhor que ela fosse morar em Phoenix com Renee por algum tempo.

Acabou que Bella terminou o ensino médio e foi direto para a Universidade Estadual do Texas cursar jornalismo. Por conta do seu estágio na University Star, Bella conseguiu um emprego em uma revista, onde ela poderia trabalhar com os artigos em casa e ir na redação uma vez na semana. Foi lá que ela conheceu Ângela e depois Ben, e bem depois Erick e Patricia, os filhos de seus amigos.

Aí Bella Swan virou “tia”. Erik tinha cinco anos e Patricia apenas três. Bella adorava apertar aquelas bochechas gordinhas e brincar de carrinho com o menino. Viver em Austin era bom, meio caro, mas ela conseguia se manter. O trabalho como repórter no começo foi muito bom, contudo os anos tornaram o entusiasmo em ‘marasmo’. Tudo isso fez Bella inevitavelmente ser perseguida pela crise dos trinta: todo mundo casando e em um emprego que amavam, porém ela estava bem longe disso.

Algumas pessoas na revista a forçavam em encontros as cegas, o que era extremamente desagradável porque Bella se deparava com cada date ruim. Um dos caras que apresentaram para ela levou os pais no encontro, outro teve uma intoxicação alimentar e o date terminou com ele tomando soro no hospital. Alguns desabavam em falar da ex e Bella um dia ainda teve a sorte de sair com um gay ainda dentro do armário, o qual ela passou o date inteiro dando conselhos de autoaceitação.

Ao menos Jacob se divertia com os desastres amorosos que Bella vivia.

Quando Charlie precisou se operar, Bella não pensou muito em se mudar para Forks. Ela precisava recomeçar. Abrir a doceria, rever Jacob que continuou sendo seu amigo durante todos esses anos, ter tempo para brincar com Peralta e Boyle, e as noites ter Gina dormindo sobre a sua barriga; Bella precisava de tudo isso.

Se, às vezes, Bella ainda se cobrava por não estar casada, noutras ela se sentia tranquila que era melhor estar só do que com um embuste. Dar tempo ao tempo parecia ser a melhor opção e ela percebia suas inseguranças se acalmando a cada dia que passava em Forks. Contudo, em dias ruins, Bella não conseguia tirar da cabeça que o problema da sua solteirice estava nela e isso a fazia afundar na insegurança.

Ela não precisava que os colegas do ensino médio reforçassem seus temores: ela ia morrer sozinha e só iriam descobrir o corpo dela porque Peralta, Boyle e Gina iriam fazer um escândalo.

Bella se esforçou para ser agradável com o casal, em especial, porque Jessica se dizia sensível naquele estágio da gravidez. A barriga de oito meses bem pronunciada debaixo daquele casaco denso de frio era um reforço visual bem convincente disso. O casal decidiu ocupar uma das mesinhas e logo outros clientes chegaram, e Bella não teve mais tempo para conversar, o que era bom: ela precisava não pensar. Não se culpar.

Estava tudo bem se ela não gostava de usar maquiagem ou usar roupas provocantes para ir num barzinho flertar ou mesmo usar o tinder (vai saber que tipo de psicopata ela iria encontrar lá?). Bella sabia que não era feia. Ela tinha olhos grandes, castanhos, mas não tão comuns assim porque eram da cor do mel. Ela tinha pernas bonitas, livre de varizes por ter evitado salto alto a vida inteira. E depois que ela tirou os aparelhos, o sorriso dela ficou perfeito. “Eu sou um mulherão da porra!” ela pensou consigo mesma enquanto limpava o pequeno restaurante, enumerando suas qualidades para se sentir mais confiante.

O fluxo dos clientes pela manhã era bom, de acordo com a capacidade de Bella atender sozinha a todos e sem que ninguém precisasse ficar em pé. Ela poderia se acostumar com isso.

Depois da pausa do almoço, no qual ela e Charlie comeram uma salada com um triste frango grelhado permitido na dieta colesterol free que a doutora passou para seu pai, Bella reabriu a doceria Swan menos deprimida. À tarde vieram menos pessoas e Bella aproveitou para assar mais alguns cupcakes e fritar mais alguns donuts. Quem sabe ela pudesse atrair mais clientes pelo cheiro delicioso?

A estratégia funcionou e algumas senhoras fizeram pedidos para viagem. Charlie desceu para ver como estavam as coisas por volta das quatro da tarde e foi justamente quando seus amigos também vieram visitar a cafeteria. Eles decidiram ficar nas mesinhas de fora para que Billy tivesse maior liberdade por causa da cadeira de rodas. Bella serviu as fatias remanescentes da torta de maçã e expressos fumegantes enquanto Charlie jogava conversa fora. Ela tinha notado que o pai trouxera seu baralho e que provavelmente ele, Billy, Sam e Rockwild iam jogar alguma coisa até as seis, quando ela fecharia.

A imagem a fez sorrir: era bom ver Charlie se recuperando. Ela sabia que Renee também pensaria a mesma coisa. Bella se sentia sortuda às vezes. Seus pais se divorciaram quando ela tinha quinze anos, mas não foi uma separação traumática. Um choque? Foi um pouco, porém seus pais continuavam carinhosos e respeitosos um para com o outro.

Charlie era mais travado para explicar as coisas de relacionamento, então foi Renee quem lhe explicou que um casamento sem paixão é como estar casada com um irmão. Bella refletia se algum dia ela ainda casaria com alguém quando um novo cliente chegou.

Essa pessoa ela facilmente recordou.

Os cabelos acobreados, nem vermelhos, nem loiros; um tom bem no meio. Olhos castanhos em um forte tom âmbar que os deixava com um brilho dourado e a pele branquíssima como mármore. Alto, ombros largos, musculoso na medida certa. Ele não era maromba de academia como Jacob, mas também não era magricelo e fino; dava para ver pela pele firme e musculosa de sua clavícula. Até mesmo tinha pernas com coxas firmes e canelas grossas, o que é raro em homem, uma vez que o padrão de beleza americano exigia que os homens virassem o the rock, mas tudo o que o homem médio conseguia ser era uma cópia falha de Jhonny Bravo.

Edward Cullen continuava bonito.

Contudo, ao vê-lo após uma década e alguns anos fez Bella perceber que ele também não era essa coca cola toda. Os olhos dourados tinham uma cor linda, mas ele parecia ter um olhar de quem não dormia há dias ou de alguém que tinha levado um pé na bunda da namorada e tinha enchido a cara. Sem contar que Edward era tão branco que poderia se fundir a parede igual um camaleão se fundia ao tronco de uma árvore.

– Olá. Acho que você não lembra de mim. – disse Edward com um sorriso singelo. Bella o achou bonito, mesmo que ele estivesse ligeiramente vesgo. – A gente estudava junto.

Coisas que nunca reparamos na adolescência” ela se viu pensando ao observar que Edward, de fato, era um pouco estrábico. Ela sorriu. Por alguns instantes, ela fingiu uma expressão de quem não se lembrava de nada tão obvia que Edward virou o rosto para o lado direito, estreitando o olhar de modo divertido.

– Edward Cullen, parceiro da aula de biologia! – ela disse com entusiasmo, como se fosse a própria Xeroque Holmes e Edward riu baixinho.

Há vários anos atrás, a Isabella Swan de quinze anos estaria com uma crise de nervos pensando como aquele homem era perfeito. Um anjo caído na terra e mais um monte de baboseira juvenil. A adolescente estaria sonhando com um casamento com véu e grinalda, beijos avassaladores, braços fortes a envolvendo, e uma primeira noite de amor muito romântica com direito a pétalas de rosa vermelha em lençóis de linho branco.

Por outro lado, a Isabella Swan de vinte e nove anos apenas curtia o momento e até mesmo queria tirar onda com a Bella de quinze anos. Edward continuava atraente, porém não o suficiente para deixar Bella com os neurônios fritos. No fim, ele era só mais um cara. Devia ter diarreia como todo mundo.

Era legal perceber que a paixonite que um dia ela teve por aquele homem tinha se esvaído com os anos e agora era só saudoso.

– Então, o que vai querer? –ela perguntou mais confiante do que seu eu adolescente jamais conseguiu ser, mesmo fazendo dupla com Edward em todos os trabalhos de biologia por mais de um ano.

– E não é que você lembra? Isabella Swan, parceira da aula de biologia. – ele comentou com um sorriso mais charmoso, mesmo que estivesse arremedando–a.

Bella riu e revirou os olhos ante o tom de brincadeira de Edward, e isso o fez rir ainda mais. Enquanto ele ria, Bella pensava no quanto a vida era injusta.

Edward tinha dentes perfeitos: alinhados, brancos, no tamanho certo. Pessoas como ela poderiam ter um sorriso daqueles depois de anos de sofrimento com um aparelho, passando dor a cada vez que o dentista tivesse que apertar o aparelho, com dificuldades para tirar aquele pedaço de comida que ficava grudado no fundo da boca preso no aparelho. Mas pessoas como Edward Cullen tinham um sorriso de dentição perfeita por genética. Os filhos dele seriam abençoados com os genes Cullen, já que não tinha uma pessoa feia naquela família e isso sempre foi motivo de boataria na escola.

Não ajudava que Alice e Emmet se envolveram com os irmãos Hale, considerados as ‘beldades’ da escola. Os padrões para ficar com qualquer Cullen eram altos demais. No ensino médio, Bella sempre dizia a si mesma que Edward era areia demais para seu caminhãozinho, ainda assim, ela sonhava com o dia que os dois iriam ao baile juntos e seriam coroados rei e rainha.

A Bella Swan de 29 anos achava Edward bonito. Todavia não era a escultura de Rafael photoshopada que a Bella Swan de 15 anos achava que ele era. Isso era ótimo porque agora ela não se sentia nervosa em falar com ele ou mesmo precisasse ficar pensando no que iria dizer ou não. Ela já não era aquela máquina de corar, gaguejar e suspirar pelos cantos escrevendo “edward e bella” dentro de um coração.

Aos quase 30, Bella podia apertar o botão ‘dane–se’ e ser quem normalmente ela era sem se importar no que Edward pensaria dela.

– E então parceiro, o que vai querer? –ela perguntou em um tom brincalhão, se escorando levemente no balcão para escutá–lo melhor.

Charlie e os amigos estavam falando alto sobre futebol americano, que time estava bom e com chances de vencer o campeonato. Às vezes até relembravam a apresentação do super bowl daquele ano. Lady Gaga, amigos, Lady Gaga. Billy eventualmente fazia algumas piadas e todos na mesinha riam tão alto que era difícil ouvir o que Edward dizia.

– Eu ia pedir a sugestão da casa. –respondeu Edward se inclinando em direção a ela, sua voz ligeiramente pomposa. – É você quem faz os doces também?

Foi inevitável querer se exibir um pouco e Bella se empertigou orgulhosamente, surpreendendo Edward. Ela fez um gesto afirmativo com um balançar da cabeça, do modo mais arrogante e zombeteiro que poderia fazer, tentando imitar um chef francês metido a besta. Edward riu gostosamente, os olhos diminuindo e ficando no formato de meia lua.

Bella quis rir junto, mas decidiu manter o ato.

– A chefa diria torta de maçã com expresso simples. – Bella respondeu com uma imitação fajuta de sotaque francês que arrancou ainda mais gargalhadas de Edward. Ela sorriu e voltou ao normal. – Mas já acabou. Então recomendo um donuts com cobertura de chocolate com um machiato de caramelo.

– Então eu tenho que vir aqui amanhã provar essa torta de maçã, mas, por hora, eu vou querer o donuts com cobertura de chocolate e um machiato de caramelo grande. –pediu Edward dando uma piscada brincalhona e Bella ficou um tanto quanto surpresa. –Não pensei que iria te ver de novo em Forks. A boca grande dizia que você estava muito bem no Texas.

Se no minuto anterior Bella estava um pouco surpresa, nesse instante ela estava devidamente chocada. Desde quando Edward se tornara tão bem informado no que acontecera em sua vida? Quando vieram à lanchonete esta manhã, Jessica e Mike não sabiam que ela tinha ido para o Texas.

De todas as pessoas que ela conheceu em Forks, apenas seu pai e a família Black sabia que Bella tinha ido morar no Texas. Ela não queria que o imbecil do Tyler tivesse qualquer tipo de informação sobre ela afinal de contas.

Para ocultar seu estranhamento e evitar estragar com o clima amigável da conversa que estavam tendo, Bella se ocupou com a máquina de moer café, medindo a quantidade de grãos o suficiente para fazer uma xícara grande do drink.

– É, o Texas foi bom pra mim. – ela respondeu, ainda sem encarar Edward e focada em espumar o leite do drink. – Me deu Peralta, Boyle e Gina, mas família vem antes e eu precisava de novos ares.

Era uma resposta boa, não? Bella não se sentia muito feliz em compartilhar detalhes mais íntimos de sua vida, porém ela tampouco desejava usar uma máscara social que a forçasse a dizer coisas apenas para manter uma imagem de uma pessoa que não era ela.

Bella estava velha e cansada demais para se preocupar com os padrões do mundo.

– Precisava ser em Forks? – Edward comentou em tom brincalhão e efetivamente tirou Bella de seus devaneios.

Na verdade, isso quase a ofendeu. Ok, Forks era um lugar esquecido pelo mundo, entretanto não era tão ruim assim.

– Essa era a parte não planejada, mas é o que temos para hoje. –Ela respondeu um pouco incomodada, enquanto serva o pedido de Edward. – Aliais, pra mim é mais surpreendente que você esteja em Forks. Sua família sempre teve a chance de viver em qualquer outro lugar no país.

O sorriso de Edward travou por alguns instantes e sua expressão amuou brevemente, mas logo ele voltou a sorrir. Um sorriso ligeiramente formal. Edward se concentrou em adoçar o drink e Bella percebeu com alguma surpresa que Edward era uma formiga: colocou seis saches de açúcar ao café.

Logo ele provou o drink e sorriu, suas expressões faciais suavizando outra vez, embora ele decididamente estivesse sério. Sobrancelhas juntas e lábios em uma linha fina.

– Meu pai gosta de ver os veados invadindo nosso jardim. –Edward respondeu com a voz firme e foi como se ele tivesse acertado em cheio o botão de riso dentro de Bella porque a gargalhada foi inevitável. – É sério! Pelo menos Holt se diverte com os amigos selvagens.

– Holt? –Bella indagou ainda rindo, seu estômago doendo pela força da gargalhada.

–O meu doberman. –Edward respondeu após mais um gole de café. – Também tenho o Cheddar.

Bella não poderia acreditar: Edward também amava brocklyn 99! Instantaneamente Bella se viu curiosa para saber quais outras séries Edward amava, porque se ele também gostasse de “one day at a time”, xingasse o final de “how i meet your mother” e principalmente: tivesse assistido a “true dectetive”, a primeira temporada, Bella teria altas chances de voltar a gostar desse homem.

– Não me diga que ele é um corgi. – ela se viu perguntando com a boca seca.

Edward deu uma mordida no donuts e logo gemeu em prazer por conta do sabor delicioso que sentia e logo fez vários gestos positivos com o polegar. Ele mastigou rápido, limpou a boca com um guardanapo e, com um sorriso levemente presunçoso, afirmou:

– É um corgi.

Bella deu um gritinho de prazer que foi tão alto que Charlie e os amigos pararam de conversar, e lhe encararam preocupados; Bella desviou o olhar, fingindo que estava tudo bem. Contudo, Edward gargalhava. Ele envergou o corpo para trás e por muito pouco não caiu do banco em meio a risos. Por um momento, Bella quase ficou preocupada que ele fosse se engasgar na própria saliva e morrer sufocado.

Teria sido bem feito, porém seria péssimo para os negócios.

Charlie ainda estava preocupado e muito confuso. Seu pai continuou a olhar para onde Bella e Edward estavam, só voltando a conversar quando a filha murmurou um “desculpa”. Foi o tempo que Edward também se recuperava da crise de riso. Havia algumas lágrimas no canto de seus olhos.

– Tenho fotos pra provar. – Ele disse com a voz fraca, tirando o celular do bolso da jaqueta. – Mas só mostro se eu ver fotos de Peralta, Boyle e Gina.

Edward estava escorado no balcão, o rosto levemente inclinado e com um sorriso charmoso que fez Bella pensar por um segundo que ele estava flertando com ela. A parte racional de seu cérebro logo vetou essa hipótese.

Daí ela apenas fez um gesto de descaso com os ombros.

– É um preço justo. – ela ponderou, tirando o próprio celular do bolso, destravando a tela e logo caçando fotos de seus filhos na galeria. – Aqui. Esses são meus filhos.

Edward pegou o celular de sua mão e deu um zoom na imagem. A foto mostrava Peralta em pé, com um sorriso típico de cachorro, com um gorro de papai noel. Boyle estava vestido com uma capinha vermelha e completamente jogado no chão ao lado de Gina, que estava extremamente mau humorada por conta do óculos de sol que Bella colocou nela.

Angela quem tirou a foto, pois Gina logo tirou o óculos de sol e a tática de manter um petisco na altura da câmera só funcionaria por alguns segundos com Boyle e Peralta, visto que os dois eram extremamente gulosos.

Gina era fresca com comida. Não gostava de patê de gatos, só comia ração de uma marca e apenas comia sachê de frango ou de salmão. Bella já tentou de tudo com aquela gata, porém Gina era teimosa demais.

– Deixa eu adivinhar. – Edward disse lhe devolvendo o celular. – Boyle é esse pug gordinho com a roupa vermelha, Peralta obviamente tem que ser o dálmata sorridente e é apropriado nomear essa gata como Gina. Ela é tão traiçoeira quanto aparenta?

– Que horror! – Bella exclamou em choque, abraçando o celular como se estivesse protegendo a honra de da casa Lannete. – Ela não é traiçoeira! Ela é maravilhosa, só gosta de derrubar as coisas dos móveis, mas, sério, que gato não faz isso? Além disso, você não me respondeu.

Edward deu uma nova mordida em seu donuts, mastigou tudo lentamente e, como o riquinho de boas maneiras que era, limpou a boca no guardanapo para tomar mais alguns goles de seu café. Bella tinha certeza que ele estava fazendo de propósito.

– Responder o quê? – ele perguntou desentendido.

– Porque Edward Cullen, provável rei do baile de formatura, o aluno que muito provavelmente fez o discurso de despedida da turma, aquele com notas boas o suficiente para tentar Harvard ou Standford e tudo o mais decidiu ficar em Forks. Por que não foi explorar outros cantos dessa bela América condenada por um palhaço laranja com topete como os seus irmãos? – Bella perguntou exagerando um pouco e conseguindo mais uma risada e Edward. – E eu espero que eles ainda morem fora se não eu vou soar como uma completa idiota.

Normalmente, Bella se sentiria muito feliz se as pessoas degustassem a comida que ela fazia lentamente, saboreando cada momento. Era sinônimo que estava muito gostoso e inflava o ego dela. Só que toda regra tinha uma exceção. A dela era Edward Cullen comendo aquele donuts.

– E por acaso todas essas acepções que você fez de mim não te fariam uma completa idiota, senhorita Swan? – ele perguntou de modo presunçoso, arqueando uma das sobrancelhas de um jeito tanto cômico quanto sensual.

Ninguém deveria ficar tão bonito bebericando um café daquele jeito. O mundo era muito injusto.

– Não, sei que é fato. – Bella respondeu cruzando os braços.

A verdade é que ela não sabia se era mesmo um fato. Jacob contou tudo para ela alguns anos atrás, entretanto, Bella não se lembrava de nada. Afinal, qual seria a utilidade de recordar uma formatura que sequer foi dela?

Edward não precisava saber disso.

E a julgar pelo ato de rendição que ele fez, o que foi uma imitação mais bonita do meme do Neil Tyson Degresse, ela acertou nas suposições.

– Certo. Emmet e a esposa Rosalie ainda moram em Passadina. Mas Alice e o esposo só passam os finais de semana em Forks, eles moram em Vancouver. –contou Edward enumerando os destinos de sua família. – Acho que também gostam de veados no quintal. E Forks é o fim do mundo, mas a internet é boa e não tem a correria das cidades maiores. É o suficiente para mim ficar.

– Tem certeza que é porque não curte uma família de veados no seu quintal? – ela inquiriu. Bella apoiou o cotovelo esquerdo no balcão e em seguida apoiou o rosto na mão esquerda.

Edward sorriu, mas foi educado o suficiente para não mostrar os restos mortais do que restou do donuts, o qual ele dera a última mordida. Bella lançou um olhar preguiçoso para o relógio que ficava a sua direita, notando que ela poderia encerrar as atividades do dia em cinco minutos.

Logo mais ela poderia tomar um bom e relaxante banho na banheira, tendo que praticamente enxotar Gina do banheiro porque a essa altura do campeonato a gata estaria carente de atenção. Jacob provavelmente daria o ar da graça por volta de umas sete e meia e aí eles poderiam decidir que pizza pedir.

Ela foi trazida a realidade pelo som da xícara sendo depositada no pires e com um muito satisfeito Edward Cullen.

– Me pegou nessa. –ele disse com um sorriso. – Deu quanto?

– Sete dólares. – ela respondeu enquanto pegava o pires e a xícara sujos para depositá-los na pia atrás dela.

– É divertido falar com você. – Edward comentou lhe estendendo uma nota de dez dólares envolta num guardanapo. Ele já estava de pé e arrumava a camisa, talvez para se livrar de alguma sujeirinha inconveniente. – Guarda uma fatia de torta para mim amanhã. Quero ver se é tão boa ao ponto de merecer uma recomendação de chef.

Edward deu uma piscadinha e saiu sem querer o troco. Bella, ainda meio aturdida, acenou para ele, guardando a nota no caixa improvisado. Ela estava quase jogando o guardanapo fora quando percebeu que tinha algo escrito.

Tomara que não seja uma cantada. Seria muito brega” ela se viu pensando. Entretanto o que estava escrito a deixou mais confusa que nunca. Havia um número de telefone e isso a princípio quase lhe deu um ataque cardíaco. Só que a parte confusa veio na notinha.

É meu número.

Me liga qualquer dia desses e aí podemos fazer um encontrinho com nossos cachorros”

Sem nem perceber, Bella fez uma careta tentando entender exatamente o que aconteceu e não conseguindo chegar a qualquer conclusão. Edward estava interessado nela ou em Peralta e Boyle apenas?

O que raios tinha acontecido?

– Aconteceu alguma coisa? – Charlie perguntou subitamente perto dela.

Bella encarou o rosto preocupado de seu pai, logo percebendo que o bigode estava sujo com um pouco de café. Um dia ela iria convencer Charlie a tirar esse bigode, mas não era hoje.

Ela sorriu e guardou o guardanapo no bolso do jeans.

– Não é nada. – ela respondeu com um sorriso. – Vou fechar agora. Jacob vai vir mais tarde.

Por alguns instantes, Charlie pareceu uma criança que tinha perdido o balão visto que assim que Bella falou que estava fechando a lanchonete, sua expressão facial amuou instantaneamente; era quase cômico, se não desse um pouco de pena. Todavia, ele nada falou, apenas assentiu com a cabeça e foi avisar os amigos.

Ela se concentrou em limpar o lugar, fechar as portas e tudo o mais, mesmo que o número de celular naquele guardanapo ainda a distraísse. Isso certamente a garota boboca de quinze anos nunca tinha imaginado e agora deixava a adulta uma boboca sem saber o que fazer.

Talvez Jacob pudesse ajudar quando ele viesse mais tarde; ele era bom nisso. Com certeza Jacob iria ter alguma teoria sobre o que tinha acontecido ou, talvez, Bella simplesmente devesse ligar para aquele número e ver o que o futuro reservava, afinal, ela não tinha mais quinze anos e uma paixonite.

Talvez (e só talvez) Forks pudesse trazer exatamente tudo o que Bella precisava e talvez (só talvez) Edward pudesse ajudar nisso.

22 de Julho de 2019 às 02:16 0 Denunciar Insira 1
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