Uma Rachadura no Teto Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

Sentada no pátio da escola, Laura percebe que olhos estarrecedores estão pousados sobre ela; vidrados, as pupilas dilatadas e opacas devoram-na com avidez desejosa. Quando descoberto, o observador misterioso simplesmente desaparece. Deste dia em diante, o terrível olhar a acompanhará até seu limite derradeiro, onde, em um local inusitado, ela o encontrará em terrível agonia.


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Uma Rachadura no Teto

I


Foi no sétimo dia de aula que as coisas começaram a ficar estranhas na vida de Laura.

Era uma manhã de quarta-feira e o sol erguia-se cada vez mais orgulhoso no céu azul à medida que o ponteiro se arrastava, vagarosamente, no relógio, aproximando-se do meio-dia.

Àquela hora os falatórios desconexos já haviam irrompido por todos os lados e substituído o discurso monótono da professora. Em poucos segundos a sala de aula foi tomada por um burburinho generalizado de vozes ansiosas com a chegada próxima do intervalo.

Aquele era um dia excepcionalmente quente e desanimador. Mesmo a professora de física -uma mulher que devia ter por volta de seus 47 anos e que ostentava um rosto arranhado por fendas escuras que revelavam o fardo carregado por um professor- desistira de tentar acalmar a sala para prosseguir com a aula. Simplesmente tampou as canetas coloridas e se sentou para aguardar.

Restavam apenas 5 minutos para que o sinal disparasse, anunciando em um guinchado estridente e prolongado, o horário do intervalo. Como um rebanho, as porteiras se abririam e as escadarias e corredores seriam preenchidas por alunos desesperados – uns com fome, outros ávidos pelo ar livre e alguns ansiosos por uma conversa sobre qualquer coisa mais interessante do que aquilo que haviam deixado para trás – acotovelando-se e correndo enquanto gritavam em direção às portas que os levariam à libertação. Ali no pátio, assim como em uma prisão, a vida parecia retornar aos rostos vazios dos alunos, deslumbrados com a limitada liberdade.

Esgueirando-se na multidão, Laura caminhava só, rumando para o local coberto onde as mesas de plástico branco eram dispostas em várias longas fileiras. Presos às hastes de metal do teto, ventiladores disparavam borrifos de água no local em uma tentativa de refrescar o ambiente.

Laura puxou uma das cadeiras e se sentou. Olhava para a área descoberta que formava um banho de sol ao redor da entrada do ginásio poliesportivo. Só os mais corajosos se aventuravam por ali. Era um forno a céu aberto.

Observava os vários rostos que transitavam entre as fileiras de mesas. A maioria era formada por familiares. Pessoas com quem ela havia estudado no quarto ou quinto ano. Alguns que conhecia porque, embora não houvessem estudado na mesma sala, passaram tempo demais frequentado os mesmos corredores, cantinas e pátios; encontrando-se de vez em quando para uma prova substitutiva ou no mesmo elevador. Na multidão eufórica, Laura encontrou poucos rostos desconhecidos. E, quando os via, tinha certeza de que eram novatos, pois aqueles como ela que passaram tantos anos naquela instituição sabiam reconhecer um andar desacostumado, os olhares rápidos e desolados em busca de algum grupo que os acolhesse e aqueles que permaneceriam sentando-se solitariamente até que algumas pessoas sentissem pena o bastante e se solidarizassem agregando-o à família.

Não era de todo ruim, geralmente esses processos aconteciam rapidamente. As salas abraçavam seus novatos. O problema é que aquele era o segundo ano do Ensino Médio. As matilhas haviam se formado há tempos; as tribos se conheciam bem e aqueles que as compunham já estavam bastante familiarizados uns com os outros. Entrar em uma escola nos últimos três anos era uma tarefa difícil; naquela idade, era fazer o papel de imigrante em um país distante. A história importava demais. E, quando se é jovem e a rotina consiste no bom e velho “acordar cedo, ir para a aula por algumas horas e depois voltar para casa, tendo como única preocupação o receio de perder seu programa favorito na tv”, tudo aquilo que orbita o universo chamado escola importa muito.

Ao longe, Laura viu suas amigas caminhando em sua direção. Carregavam latas de refrigerante, pães de queijo e outros salgados. Laura então ajeitou-se na mesa afim de esperá-las.

Em uma nova perspectiva, algo lhe chamou a atenção: encolhido feito um animal acuado em um canto escuro, um garoto olhava em sua direção com avidez assustadora. Ela o encarou e, quando seus olhos o encontraram, teve a clara certeza de que era o alvo daqueles olhos vidrados. No meio de toda aquela massa efusiva de pessoas, era para ela que ele olhava. O que mais estranhou naqueles olhos sombrios era a obsessão fria que ali se fazia presente. O mar descorado que flutuava monótono por trás da franja que lhe pendia sobre a testa, deixando seu semblante ainda mais obscuro e nada convidativo. Apesar da distância, Laura viu aquelas pupilas dilatadas tremerem convulsivas sob uma súbita corrente elétrica de excitação. Ele a fitava com olhar vidrado e intimidador, algo que a fazia se empertigar na cadeira sob à sombra de um sentimento imbuído de terrível malícia. No meio de todos, ela se viu despida. Dissecada minuciosamente na aura doentia que o garoto transmitia.

Poucos segundos se passaram desde que ela o avistara e, no momento em que esteve ciente de seu olhar, o garoto abaixou a cabeça em um movimento rápido. Ela continuou observando-o, sentindo o falatório ao seu redor distanciar-se até se tornar uma mistura confusa. Não era o “amor à primeira vista” ou qualquer coisa do tipo que costumam acontecer em algumas histórias, mas... medo. Simples e puro terror. Um pavor repentino que fez seus órgãos gelarem, remexendo-se intensamente na escuridão de seu corpo. Aqueles olhos famintos fizeram-na estremecer desconfortavelmente. Ao seu lado, alguém parecia chamá-la:

— ...ei, ei, Laura?! Que cara estranha é essa? — Uma garota questionava enquanto puxava uma cadeira para se sentar. Outras duas faziam o mesmo.

Laura se virou e, quando tentou falar, a frase que imaginara pareceu entalar na garganta.

— N-Nada, é que... — disse, levantando a mão com a intenção de apontar discretamente para o canto onde vira o garoto. Contudo, seus olhos nada encontraram além de um canto comum onde um faxineiro cabisbaixo arrastava uma vassoura. Tentou encontrar o garoto em meio ao pátio, mas não o achou. À sua frente, suas amigas se entreolhavam com estranheza.

— Eu, hein... — Ana murmurou, dando uma mordida no pão de queijo.

Recuperando-se do choque, Laura falou com uma empolgação fora do comum:

— Nossa! Tô morrendo de fome... Acabei viajando aqui por um momento. Carla, me dá um pedacinho desse mistinho? — Talvez suas amigas não tenham percebido – apesar de achar que não era o caso – o quão esganiçada sua voz soara naquele momento. Havia pavor em suas palavras. E, zombando de si mesma pela tolice de um medo ao qual atribuíra caráter exagerado, ela estremeceu outra vez. Pois, aquilo que sentira era bizarro demais para que não temesse.


***


Desde então, as aparições do garoto foram arrefecendo. Ciente de que suas estranhas vigílias haviam sido descobertas, o garoto pareceu acautelar-se em usas observações. Laura ainda o via se esgueirando em seu encalço, contorcendo-se por frestas e espaços vazios, e sumindo de repente à sua volta. Sentia-se vigiada a todo momento e, toda vez que sentia seus olhos, estremecia em um súbito calafrio.

Certo dia, enquanto comiam sobre as mesas brancas, Ana cutucou-a no ombro e, falando baixo por costume, contou para elas que um garoto estranho estava olhando na direção da mesa em que estavam sentadas. Sem cerimônia, todas se viraram na direção que Ana indicava.

— Nossa... Quem é aquele? Tem uma cara de morto — falou Carla sem rodeios, repuxando o rosto em uma careta de esgar que revelava nojo.

— Parece um maníaco olhando — concordou Ana.

Laura o encarou mais uma vez. E, tal como na primeira vez, sentiu o peso daquele olhar alucinado lhe percorrer o corpo feito dedos ansiosos. Com o rosto escondido pelas sombras, ele a devorava com os olhos, exultando e se regozijando com o que parecia ser a adoração de uma deusa celestial. Com asco, Laura viu que a boca pálida do garoto se contorcia. Remexendo-se sem parar, os lábios surgiam e desapreciam sob os dentes ansiosos que os mordiscavam. Dava a impressão de estar acometido por um transe hipnótico.

Desviando o rosto, ela se virou para as amigas:

— Ele meio que fica me olhando todos os dias... Assustador, né? — Perguntou, evitando demonstrar o medo real que escurecia dentro dela, fazendo com que ela minguasse cada vez mais diante do mundo que a cercava. — Mas ele sempre sai correndo quando eu encaro de volta. Na verdade, o mais bizarro é que ele simplesmente some. Nunca vejo ele correr. Parece mágica...Vai saber.

— É — afirmou Carla. — Inclusive ele já se mandou. Deus me livre.

— Sinistro — completou Ana, a boca cheia de pão de queijo.


***


Os dias se passaram e Laura teve de conviver ciente de que olhos famintos a vigiavam todos os dias. Sabendo que, em meio a multidão, ele estaria escondido em algum lugar, perscrutando os corpos desinteressantes em sua busca. Às vezes, encolhia-se de repente enquanto andava; temendo que estivesse, de alguma forma grotesca, alimentando a imaginação doentia de seu observador secreto. Certa vez, enquanto caminhava, sentiu aqueles olhos de abutre pousarem sobre ela – sentiu. Pois, de fato, percebia quase instintivamente quando isso acontecia. Parou no mesmo instante. E, depois de estancar, passou a buscá-lo entre as paredes. Lá o encontrou. Os olhos animalescos estavam dilatados e, com assustadora excitação, faiscavam sem parar. Segundos depois, ele desapareceu. Ela piscou e, feito pó, o garoto se dissipou no ar sem deixar rastros.

Laura descobriu que ele estudava no 2-C. E, salvo em raros casos, poucos eram capazes de dizer mais do que duas palavras sobre o garoto. A maioria terminava em “estranho” ou “bizarro”. Uma garota – amiga de Laura – lhe disse que ele “parece mais um fantasma. Ninguém vê o coitado, e, quando vê, ele parece simplesmente desaparecer. Deve ser um daqueles sujeitos tão envergonhados que, quando se veem encarados, se enterram nas próprias calças ou saem correndo”.

Numa quinta-feira chuvosa, Laura descia as escadas em direção ao laboratório de química. Segurava um jaleco em uma das mãos e um caderno na outra. Estava atrasada. Corria depressa, saltando pelos degraus e virando os corredores. Saiu pela porta do prédio e adentrou o pátio principal. Dali, correu em direção aos corredores abertos que levariam ao outro bloco de prédios. Virando no corredor, Laura avistou um rosto que a encarava na esquina por trás da quina de uma parede. Sentiu aqueles olhos a analisarem com excitação e curiosidade voraz. As pupilas do garoto cintilavam por trás da cabeleira negra, emanando uma pressão perturbada que fez Laura olhar em volta em busca de amparo de algum transeunte. Por um momento, ela achou que até mesmo poderia sentir o cheiro do garoto. Um odor seco e azedo, o cheiro da velhice e do mofo.

Entrecortados pela parede azul, os lábios do garoto se debatiam em um sorriso trêmulo que despencou no mesmo instante em que Laura começou a se aproximar. Estavam a no máximo 5 metros de distância. Era provável que ele tenha se escondido ali porque acreditava que ela passaria reto, seguindo o caminho do corredor até o final. Contudo, esse não foi o caso.

Em um ímpeto de coragem, ela correu em sua direção. Enquanto avançava, viu o rosto desaparecer por trás da parede, mas, com a distância que agora os separava, ele não poderia ir muito longe.

Quando dobrou o corredor, o lugar estava vazio. Mais uma vez o garoto havia sumido sem deixar resquícios de sua presença. Desaparecera emulando uma aparição fajuta de filme de terror. Dissipara-se no ar como fumaça.

Sua mente fervilhava em busca de alguma justificativa para o fenômeno inexplicável. Corria os olhos para cada canto onde ele pudesse ter se escondido. Entretanto, não havia local algum. As paredes do corredor percorriam lisas até o final.

Isso tá ficando estranho demais até pra um filme, tentou pensar nisso de forma cômica, mas não conseguiu. Estava tremendo de medo e achava que mais um tempo em pé poderia fazê-la desmaiar. Não, não tá ficando estranho, pensou, tendo certeza disso. E estava certa, porque as coisas começaram a desandar desde o primeiro momento em que sentira os olhos sobre ela. Quando conhecera o medo.


***


Quando seu ânimo começou a despencar em um estado de aceitação e inércia, suas amigas, percebendo a situação, tentaram convencê-la a falar com alguém. A diretora ou algum inspetor. Mas, quando ela negou dizendo “que aquilo não era demais, de qualquer forma, não vão fazer nada”, Ana e Carla a arrastaram até a sala onde a vice-diretora ficava. Encorajada, Laura contou-lhe tudo que andara acontecendo e como estava assustada. Que as saídas de casa se tornaram um inferno e todo pedestre se tornava um inimigo para ela na rua. Que agora seus olhos sempre estavam voltados para os pés e que a qualquer sinal de que alguém a encarava ela desviava o rosto. Surpreendeu-se pelo peso que sentiu ao proferir aquelas palavras diante das amigas e da mulher. Por um momento ou outro, hesitou, e até mesmo tentou suavizar a história pensando que poderia estar exagerando e que aquilo não passava de um mal-entendido. Com esforço, conteve as lágrimas que ameaçaram escorrer. Quando terminou, suas mãos tremiam e uma nuvem densa parecia crescer dentro dela, sufocando-a como se todo seu corpo pesasse.

Depois disso, a mulher por trás da mesa disse que tomaria providências agora mesmo e que, caso algo viesse a acontecer novamente, Laura deveria contatá-la sem medo. Segundo ela, a escola não admitiria que alunos fossem intimidados ali dentro.

Contudo, tal como uma tempestade rápida de verão, o garoto simplesmente desapareceu. Aparecia com cada vez menos frequência até que parou de ir à escola. Ao que Laura sabia, o garoto havia sido contatado e alertado sobre a situação relatada. Talvez ele tivesse recebido uma suspensão que Laura desconhecia ou então estava envergonhado demais para aparecer.

De qualquer modo, ele nunca mais retornaria ao colégio.

21 de Outubro de 2019 às 07:44 4 Denunciar Insira 4
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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá, Gulherme! Faço parte do Sistema de Verificação do Inkspired e estou aqui para parabenizá-lo por ter tido suas histórias verificadas, além de deixar um comentáriozinho por aqui. Hahaha! E, caramba, que história! Na verdade, gosto demais de histórias com uma pitadinha de terror e mistério e as suas costumam ter os dois! Gostei bastante da estrutura do seu conto, principalmente do narrador que você escolheu: que parece mostrar tudo de uma forma indiferente no começo, mas que depois começa soar um pouquinho alarmado, o que me deixou da mesma forma; o que também é ótimo para o clímax da história. Os seus personagens me cativaram muito. Inclusive fiquei até com dó do garoto misterioso do 2-C, principalmente por ser sempre tachado como bizarro e outras coisas (ainda assim, confesso que também não sei se teria coragem de me aproximar dele, principalmente depois de ele ter simplesmente sumido naquele corredor. Uma mistura muito louca de compaixão e medo hahaha). Gostei muito também da forma que as falas dos personagens foram colocadas. Tudo ficou muito fluido e dava pra imaginar as gurias conversando daquele jeito e até mesmo as caretas que faziam. Apesar de tudo isso, gostaria de deixar alguns apontamentos gramaticais retirados da sua história. São apenas alguns exemplos:"anunciando em um guinchado estridente e prolongado, o horário do intervalo" em vez de "anunciando, em um guincho estridente e prolongado, o horário do intervalo"; "O problema é que" em vez de "O problema era que" — visto que o tempo verbal escolhido para a narrativa é o pretérito e é aconselhável que se mantenha nele. "as tribos se conheciam bem e aqueles que as compunham já estavam" em vez de "as tribos se conheciam bem e, aqueles que as compunham, já estavam"; "afim de" em vez de "a fim de"; "sob à sombra" em vez de "sob a sombra"; "em meio a multidão" em vez de "em meio à multidão"; "em usas observações em vez de "em suas observações". Uhh! É isso! Parabéns mais uma vez. Sua história é realmente incrível e sua escrita também não fica pra trás. Ah... Se eu fosse a Laura, ficaria com medo durante um bom tempo, mesmo depois do sumiço do garoto. Vai saber, né!
14 de Novembro de 2019 às 09:25

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Poxa, que comentário legal de se ler! Receber elogios é sempre maravilhoso. Só posso agradecer por todos eles! Ainda assim, receber críticas construtivas (principalmente quando feitas de maneira tão educada) é ainda melhor. Infelizmente, por mais que eu me esforce, erros sempre passarão. Sou só um (isso a maioria dos escritores do site entendem) e, após dias de escrita e revisão, seus olhos já não aguentam e nem têm mais a capacidade de identificar alguns problemas no texto. Ainda mais quando são vários projetos de uma só vez, como costumo fazer. Conforme o tempo passa e eu retorno para os textos - agora já publicados -, vou encontrando os erros que ficaram e começo a corrigi-los (e até alterar coisas. Não consigo me segurar, haha) aos poucos. Seu comentário me ajudará nesse trabalho. Farei algumas alterações no texto o quanto antes. E que bom que gostou da história! Gostaria de falar sobre ela, mas há um limite de palavras, e eu o atingi... É sempre bem-vinda para comentar! Obrigado! 15 de Novembro de 2019 às 11:44
  • Karimy Lubarino Karimy Lubarino
    Nem esquenta! Erros são comuns. Os apontamentos são feitos por protocolo do Time de Verificação, além do mais são poucos e não interferem na compreensão da história. Parabéns mais uma vez, sua escrita é incrível. 3 weeks ago
~

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