Como é lindo o pôr do sol no alto da colina Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Tudo estava lindo. O fim de tarde, magnífico. As pessoas estavam felizes, passeando satisfeitas. E Priscila... Priscila estava onde Fábio queria que ela estivesse. Ao seu lado, no alto da colina. Tudo tão romântico. Tudo tão... Assombroso. Ficou curioso? Venha comigo até o alto da colina, que lhe mostro que a paisagem pode não ser assim tão maravilhosa.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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Como é lindo o pôr do sol no alto da colina

A vista dali era realmente magnífica.

Dava para ver o sol em sua magnitude máxima, prosperando divinamente por entre algumas nuvens de tom alaranjado. No verão, tudo por aqui parece florescer; e aos domingos, isso ficava ainda mais evidente. A perfeição era estar aqui, no topo desta colina. Um parque fora construído uns meses atrás, ainda quando Priscila não estava se sentindo muito bem. Haviam os medicamentos, as visitas semanais ao consultório do doutor Rubens. Aquele lugar tinha um cheiro agradável, propositalmente convidativo. Era como ler em uma placa : seja bem vindo, fique à vontade. Vamos só lhe virar do avesso e estará liberado.

Priscila sabia que assim que colocasse seus pezinhos de número trinta e cinco naquela sala, tudo mudaria completamente. Haveriam as consultas. O coquetel de remédios faria parte do cardápio. A quimioterapia seria das fortes, e seus belos cabelos escuros simplesmente dariam adeus.



O apoio sem dúvida teria de ser monstruoso. A família — pai e mãe, no final das contas — morava longe. Alguns mil quilômetros, para ser mais exato. Ainda assim, um telefonema ajudaria um bocado. Uma dúzia deles até poderia lhe fazer chorar. E, é claro, havia o Fábio. Seu marido, o homem que jurou diante de um padre com bafo de uísque e de um Deus todo poderoso que estaria à seu lado na saúde e na doença. E ele de fato cumpriu a coisa toda. Esteve ali o tempo todo, abandonou praticamente tudo — inclusive o emprego de porteiro em um luxuoso condomínio, onde recebia a bagatela de cem contos a hora — e seu apoio foi fundamental em todas as horas.

No instante em que o mundo escurecia e apenas as trevas pareciam espreitar, era a mão dele que estava lá para guiar e reconfortar.

E isso tudo foi a dois longos meses. Poxa, as coisas realmente passam rápido. Nada disso estava pronto no alto desta colina. Não haviam as ciclovias, muito menos pedestres. Agora tudo estava lindo. O sol estava radiante, como a moça do tempo disse que ele estaria no telejornal de hoje cedo.

As crianças corriam para lá e para cá, saltitando umas atrás das outras e aos gritos. Os casais caminhavam devagar, as mãos entrelaçadas, os olhares claramente apaixonados. No banco de madeira, virado estrategicamente na direção onde o sol se põe, estavam Fábio e Priscila.

Apenas os dois, uma vista de fato linda de se ver. O braço dele entorno dos ombros dela, com os dedos alisando carinhosamente a sua pele.

Priscila parecia refletir; a cabeça deitada sobre o ombro do marido, os cabelos negros esvoaçando devagar soprado pela fraca brisa. Ele usava uma bermuda jeans, a camisa polo azul formalmente passada à ferro. E Priscila... ela estava linda. Um vestido branco que deveria ir até a altura das canelas, remexendo bem devagar, suavemente, dando à ela um ar doce, assim como só Priscila costuma ser.

— Eu disse que viriamos aqui, não disse Pri? — sussurrou Fábio, quase ao ouvido da esposa.

Ela não respondeu. E não precisava fazê-lo. Quando estava deitada naquela cama incômoda que todo hospital parece possuir, Priscila apenas dizia que sairia daquela. Depois ela sorria, quase sem forças, o rosto pálido como uma vela. Fábio enchia os olhos de lágrimas, se debrussava cautelosamente sobre a esposa e lhe beijava a cabeça já raspada.

E hoje eles estão no alto da colina. Os pássaros cantam a quase todo instante e vez que outra um deles da um rasante morro abaixo. Era incrível — até mesmo para Fábio, que sempre negou qualquer tipo de crença em coisas mais religiosas — o quão longe poderia ir a vontade de uma pessoa.

E isso, segundo o próprio, era motivado pelo amor. O verdadeiro amor, obviamente. Uma menininha cruzou bem próximo aos dois, gritando qualquer coisa espalhafatosa para aqueles que deveriam ser os seus pais e depois correu na direção oposta. Fábio nem sequer olhou. Priscila tampouco.

— Quando nossos filhos nascerem, quero que conheçam este lugar — Fábio disse, e em seguida seu dedo indicador acariciou delicadamente o ombro da esposa.

Ela não diz nada. Ele sabe que o sonho de Priscila é ser mãe. Se possível de um casal. Eles se chamariam Luan e Maria. Seriam batizados, como mandam os costumes, e frequentariam a escola treze de Outubro, lugar onde Priscila também estudou. Fábio não cursou por lá. Ele era um pouco melhor, financeiramente falando. Estudou na Auxiliadora, um coleginho particular onde apenas os almofadinhas costumavam ir.

Uma mulher vestindo uma calça legging e uma regata cor de rosa passou trotando por detrás do casal, fazendo um pequeno som ao pisotear a brita. Tanto Fábio quanto Priscila não deram muita importância.

— Já estamos aqui a um bom tempo, — ele comenta. — Mas como não estaríamos? Olhe este pôr do sol, meu bom Deus!!

Priscila segue com a cabeça sobre o ombro do marido. Os raios de sol já não estavam assim tão fortes, eles já começavam ceder ao crepúsculo. E aquilo deixava a vista ali de cima ainda mais linda. Linda e perfeita. Como tinha de ser este momento. Como Fábio torceu — e quase rezou — para que ele acontecesse assim que Priscila deixasse aquela merda de hospital para trás. O hospital e seus exames cansativos. Seus bipes enlouquecedores, com médicos e enfermeiras marchando para cima e para baixo como generais de Cristo. Tudo que eles faziam era apontar. Bastava indicar uma alma perdida e tudo estaria acabado.

Mas agora isso ficara para trás. O câncer no estômago já não era mais um problema. Nada ali era um problema. Ali, tudo estava perfeito. E lindo, muito lindo.

— Olhe, Pri!! — Fábio se referia ao magnífico pôr do sol. Era estonteante olhar para aquela bola de fogo, submergindo em algum ponto deste mundo maluco. — Não é a coisa mais maravi...

Não conseguiu concluir. Teve tempo apenas de ver o sol sumindo de sua vista, dando lugar aos galhos de uma árvore e em seguida ao rosto de um homem que usava um boné cinza.

Suas costas caíram com vontade no chão, fazendo com que algumas pedrinhas de brita chacoalhassem.

— Me SOLTEM!!! — berrou Fábio. As pernas chutavam o ar e nada mais. Já haviam outros quatro policiais posicionados sobre ele.

— Segurem os braços dele! — ordenou aquele que deveria ser o sargento. Os outros apenas obedeceram.

Em volta, um aglomerado de pessoas já se formava. Dava para ouvir os murmurinhos e também alguns dedos apontando. Até que uma mulher berrou tão alto que apenas ela conseguiu ser ouvida.

— Olhem aquilo!!! — E ela apontava justamente para Priscila. A noiva de Fábio estava caída ladeada no banco, com o vestido sujo de barro, apenas o pé esquerdo calçando uma sapatilha.

Os olhos não existiam mais. Os lábios estavam roxos e uma dúzia de larvas se remexia em seu pescoço, caindo abruptamente na madeira do banco.

— Jesus, é um cadáver!! — gritou um homem qualquer, acompanhado de uma sucessão de lamentos e correria.

Alguns outros policias que cercavam o local tentavam conter as pessoas. Um jovem, talvez o que o pelotão costuma chamar de novato, estava com um dos joelhos apoiado no chão e conversava com um garotinho na tentativa de distrai-lo. Parecia estar obtendo sucesso.

Enquanto isso, um oficial alto e de bigode grisalho confidenciava à um idoso de chapéu de palha o que estava acontecendo.

— Este homem enlouqueceu, —ele dizia, sendo acompanhado atenciosamente pelos olhos do idoso.— Aquele cadáver é o de sua esposa. Ela faleceu a cerca de três semanas, vítima de um câncer. O coitado ficou tão louco de dor que não conseguiu se deter. Sabe... os pensamentos malucos invadiram a cabeça dele. Então ele foi até o cemitério, desenterrou a falecida e... bem. Trouxe ela para cá. Procuramos por ele a tarde toda, após uma denúncia de um coveiro.

Ao fundo, os gritos enlouquecidos de Fábio cortavam a colina ao meio. O sol finalmente se pôs por completo. As pessoas —boa parte delas — mantinham os olhos estagnados e a mão cobrindo a boca.

Finalmente um policial —um baixo e gordo — cobriu o corpo de Priscila com um lençol branco. Apenas um de seus pés ficara para fora, como uma língua debrussada na boca de um defunto.

— Ela VIUUU !!! — gritou Fábio, assim que foi jogado na parte traseira da viatura. — Eu prometi que ela veria o pôr do sol...


Em seguida, a porta foi fechada e as sirenes foram ligadas.

20 de Julho de 2019 às 17:53 0 Denunciar Insira 3
Fim

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