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Capítulo Único

Então, eu não faço a menor ideia de como essa história tomou o rumo que tomou, mas foi uma tentativa minha e provar que consigo escrever humor. Espero que esteja divertida!

Boa leitura <3

***

Era uma vez um valente cavaleiro em sua armadura brilhante.

— É sério que vai começar assim?

— Calado, eu sou o escritor aqui. Você é só o personagem, apenas obedeça.

— Se você diz. – Os ombros se erguem em falso sinal de desinteresse, porém o fantasma de um sorriso lhe paira os lábios. — Mas ainda sou o protagonista, tenho que ter voz nessa história.

— Eu mereço... – O escritor suspirou, já pressentindo que aquilo seria uma enorme dor de cabeça. — Continuando...

Era uma vez um valente cavaleiro em sua armadura brilhante. Esse cavaleiro saiu de seu reino acompanhado apenas de seu fiel alazão.

— O nome dele é Pé de pano.

— O nome dele NÃO é Pé de pano! Esse é o cavalo do Pica Pau que aliás você nem devia conhecer! Você vive em uma era medieval!

— Ei, também não precisa ofender! Se você conhece, então eu conheço também. E eu gosto de Pé de pano. Vai chamar ele do que? Pé de ferro? Que nome mais sem graça.

— Tá bom. – O escritor suspirou, cansado. — Só vamos nos concentrar na história, tudo bem?

— Yep. – O autor revirou os olhos diante a resposta. Pousou a caneta por alguns segundos e respirou fundo, alinhando seus chakras com o universo, pedindo paciência e inspiração.

— Como eu ia dizendo...

O valente cavaleiro cuja única companhia era o seu cavalo Pé de pano, saiu do reino em busca de aventuras, perigos e experiências a serem vividas.

— Mas como é? Perigos? Olha, eu acho que não gosto muito disso não, sabe. Minha pele é sensível e é fã de ficar onde deve.

— Pelamor, é só uma expressão! Será que eu posso continuar? – A fachada de calma estava começando a trincar. O personagem apenas piscou os olhos inocentemente e fez uma expressão de concentração e paciência profunda. — Caham!

O cavaleiro queria apenas propagar o bem, ajudar os necessitados, quem sabe salvar uma ou duas princesas no caminho, e, talvez, em seu âmago, tinha o desejo ardente de escrever seu nome na história.

— Mas eu pensei que eu quisesse apenas propagar o bem, e não ter conquistas pessoais.

— Shiu! Quem manda aqui sou eu!

— Tudo bem, tudo bem, seu tirano. Não está mais aqui quem falou.

— Apenas segure essas rédeas e tente parecer majestoso. – O cavaleiro fez como havia sido pedido e o escritor massageou as têmporas antes de se reclinar mais contra o papel.

No caminho, o Cavaleiro encontrou um vilarejo muito pobre e se comoveu com a situação. Os moradores se juntaram ao seu redor, apreciando o brilho reluzente de sua armadura e a majestosidade com que se portava.

— Majestosidade? Essa palavra existe?

— Tenho certeza que sim. – O escritor respondeu com a voz controlada. — Podemos?

— A vontade.

O Cavaleiro então perguntou aqueles reunidos o que causava tamanha fome e escassez de recursos ao que foi lhe dito ser culpa de um enorme cão de três cabeças que aterrorizava os campos, destruía as plantações, impedia a entrada para a mina e perseguia todos aqueles que ousavam se aproximar.

— Espera, espera, não me diga que.... – O Cavaleiro parou, percebendo onde toda aquela história ia dar.

— Sim!

Então, o Cavaleiro tocado pela situação que o vilarejo se encontrava, se ofereceu para cuidar do monstro e possibilitar o retorno às atividades de extração e comércio, decidindo dar um fim a vida da cruel criatura que aterrorizava os moradores. Sendo assim, puxou sua espada e pôs-se a galope para a entrada da mina, onde a fera havia sido avistada pela última vez.

— Espere! Por favor, espere!

— Olha só, quem aprendeu a ser todo educado. – O autor sorriu, cínico. — Deseja alguma coisa?

— Culpa sua que me fez assim. – Rebateu, tentando puxar as rédeas e impedir o corcel de prosseguir. — Apenas faça ele parar! Eu não quero lutar contra o cachorro e com certeza não quero morrer! Gosto de estar vivo, o ar tem um gosto ótimo!

— Deixe de drama. – Revirou os olhos, batendo a caneta na lateral da folha. — Se você morresse agora seria chato.

— Chato para mim, não é? – O escritor o ignorou e voltou sua atenção para as palavras.

Chegando lá, o valente Cavaleiro desmontou do cavalo e viu-se cara a cara com a fera. Pelos negros e três enormes cabeças de cachorro o fitavam com os olhos escuros de malícia e dentes afiados como navalhas. Mas o herói não temeu, estava calmo como o vento de primavera e confiante em suas habilidades. Girou a lâmina na mão e esquivou da investida que a besta se lançou. O som do aço cortando a pele foi a última coisa que o vale ouviu antes da fera cair com um baque no chão...

— Por que você está chorando? – Incrédulo, o escritor só pôde observá-lo soluçando de dar dó.

— Eu matei o cachorro. – O cavaleiro tinha uma face nada digna com catarro escorrendo pelo nariz e ameaçando pingar na armadura.

— Sim, e você salvou o vilarejo fazendo isso, lembra?

— Mas eu matei o cachorro!

— Ele estava atacando as pessoas! Não vejo qual o problema. – O autor continuava confuso, a satisfação de uma cena bem escrita lhe turvando os pensamentos.

— Era um cachorro! Eu gosto de cachorros! Nunca mais vou ser capaz de olhar nos olhos de um e estender a mão para lhe fazer carinho novamente. – O escritor deu um tapa na própria testa. “O que fiz para merecer isso? ” era o que pensava, ignorando que a resposta estava bem diante dos seus olhos.

— Não era um cachorro de verdade. – Tentou tranquilizar o protagonista. — Era apenas a descrição mais próxima dele que eu pude dar para que ficasse compreensível para os leitores. O que você matou era um monstro. Um monstro! Uma besta feroz com impulsos sanguinários.

— Falando assim ele fica parecendo um vampiro. – O Cavaleiro funga, e põe-se a limpar o catarro e as lágrimas. — Sendo assim tudo bem, eu não gosto muito de vampiros, o Conde Drácula me assusta.

— A mim também.

Os dois se encararam em um instante de constrangimento, daqueles que duas pessoas com medos iguais se conhecem.

— Podemos continuar? – Pigarreou o autor.

— Claro, claro, fique à vontade.

Vitorioso, o Cavaleiro voltou a vila e contou aos moradores as boas novas. Estes o agradeceram imensamente e prepararam um banquete farto em sua homenagem. Empanturrado de comida e boa bebida, o nosso herói dormiu.

— E acabamos por hoje! – O escritor comentou, feliz. Agora que a primeira parte da história estava escrita, sentia uma paz interior tomar conta de si.

— Só isso? – o tom de decepção era óbvio em sua voz.

— Preferia enfrentar outro cachorro? Posso providenciar isso, se desejar.

— Não, não, agradeço muito! Está de bom tamanho por hoje. Boa noite! – O autor riu, pousando a caneta e se esticando para estalar as costas. — E eu pensei que não fosse um cachorro!

— Apenas vá dormir!

.....................................................................

No dia seguinte, ao acordar de uma boa noite de sono...

— Boa noite de sono só se for para mim, não é? Você parece acabado. – O Cavaleiro começou.

— Bom dia para você também. – O escritor resmungou, o mau-humor matinal já presente em sua fala. — Achei que essa sua mania de interromper pudesse ter sumido durante a noite. É irritante!

— Ora, fico muito agradecido. – Ele ignorou o cavaleiro e voltou os olhos para o papel a sua frente.

No dia seguinte, ao acordar de uma boa noite de sono, nosso bravo herói deixou o vilarejo e partiu em busca de mais uma aventura. No caminho, encontrou uma caravana mercante que lhe informou sobre as histórias acerca de uma bela princesa que era mantida prisioneira em uma torre, guardada por um feroz dragão.

— Espere.... Não vai fazer o que eu estou pensando...

— Já fiz! MUAHAHAHA

— O que isso devia ser?

— Uma risada maligna?

— Nem de longe. – O Cavaleiro balançou a cabeça, a expressão decepcionada.

— Está cedo demais para isso. – O escritor massageou a ponte do nariz, afastando os óculos. — Preciso de mais café.

— E isso faz muito bem para o seu corpo, não é...

— Faz mil maravilhas! – Rebateu já com a xícara em mãos. — Agora, cale-se!

O Cavaleiro no mesmo momento se sentiu animado. Era essa a grande oportunidade que estava esperando! Apeou o cavalo e partiu na direção que o viajante havia lhe indicado. Chegando lá, a primeira coisa que ouviu foi o rugido de uma grande criatura que não aparentava estar muito alegre. Mas o nosso herói era destemido, não seria um barulhinho à toa que iria assustá-lo e fazer com que mudasse de ideia.

— Ah, seria sim... – O Cavaleiro falou baixinho, o suficiente para que o escritor ouvisse. Mas este achou por melhor, ignorá-lo e prosseguir com a narrativa.

Havia uma princesa em perigo e ele não poderia ignorar isso. Fizera um juramento de socorrer todos aqueles que necessitassem de ajuda. Incitou o cavalo a se aproximar da entrada do castelo e se preparou para a batalha de sua vida.

— Só um instante. É a última vez, eu juro! – O escritor lhe lançou um olhar afiado, claramente descrente em suas palavras. — Não acha que esse lugar está escuro demais para escrever?

— Não importa para você. – Rebateu, irritado. — Agora entre no castelo.

— Mas o viajante disse que tem um dragão lá! Você ouviu aquele ruído? Ele deve ser enorme!

— Sim, e estou mandando você entrar do mesmo jeito.

— Não vou entrar! – O Cavaleiro, teimoso, inflou as bochechas e fez cara de bravo. — Não pode me obrigar!

— Ah não, é? – As sobrancelhas se arquearam e a caneta voltou a percorrer as folhas com velocidade, pouco importando se a letra saia um belo de um bagaço.

O Cavaleiro adentrou o castelo, pedindo ao fiel alazão que o esperasse na entrada. Avançou, pé ante pé, apurando os ouvidos para captar quaisquer ruídos. Tudo estava quieto demais. Subiu as escadas que seguiam em espiral para a torre mais alta e abriu a porta de madeira, detendo-se por um momento ao ver uma bela garota de fartos cabelos negros como a noite e olhos verdes como a grama o olhar com espanto. Subiu o elmo e levou o indicador ao lábio, pedindo-lhe silêncio e gesticulando para que ela o seguisse.

Desceram a escada, os pés dela delicados e os passos como os de um gato, enquanto a armadura dele rangia e raspava nas paredes, o som ecoando pela pedra bruta e sufocante do local. O Cavaleiro já se considerava vitorioso, muito embora estivesse insatisfeito por ter sido fácil demais.

— Fácil demais é ótimo! Eu adoro quando as coisas são fáceis demais!

— Shiu! Ainda não acabou. – O café começava a fazer efeito e o escritor já sentia os pensamentos voando longe, planejando a próxima palavra, frase, escrevendo antes que pudesse acompanhar o parágrafo seguinte...

— É claro que não. – Ele resmungou. — Já até imagino o que vai acontecer agora...

Perguntava-se de fato onde poderia estar o tal dragão que ouvira falar.

— Talvez tenha ido tirar umas férias. Eu bem que gostaria de umas. – Revirou os olhos ao receber um olhar de repreensão. — Tudo bem tudo bem, me calando agora.

Até que...

— Aí, viu só! Eu sabia que isso ia acontecer!

Caham!

Até que os dois paralisaram ao ouvir os passos pesados seguirem em sua direção.

— Corre! – O cavaleiro avisou para a princesa que disparou para a saída.

Tendo somente alguns segundos e apenas uma espada para lhe ajudar, o nosso herói precisou pensar rápido. Viu uma corrente grossa e de aparência forte largada no chão ao seu lado e teve uma ideia. Amarrou uma das pontas em uma coluna de pedra, prendendo os elos com a espada, e segurou a outra com força, mantendo-a esticada. O dragão se aproximou, 5 ou 6 metros de altura e asas de aparência ameaçadora com ferrões nas pontas. A enorme pata avançou e acabou por tropeçar na corrente, fazendo com que a fera tombasse para a frente e se chocasse contra o chão.

O Cavaleiro não perdeu tempo, usou de toda a sua força e puxou a coluna. Esta estalou e rachaduras começaram a surgir em sua base. Um, dois, três puxões com tudo o que tinha e a pesada viga de sustentação se inclinou perigosamente, desabando por cima da cabeça do dragão que começava a se erguer, ainda atordoado pela queda. O som dos pedaços da coluna caindo foi tudo o que se ouviu por vários segundos, junto a poeira levantada que parecia tampar a luz do sol. O cavaleiro saiu de seu esconderijo e se aproximou da fera...

— Eu sou muito burro, não acredito! – Revoltou-se. — Ninguém nunca me disse para não se aproximar de criaturas que acabaram de levar um golpe antes? É óbvio que elas podem acordar mais irritadas do que já estavam e aí, pobre do meu pescocinho! – Os olhos irritados se voltaram para o escritor, faiscando. — Você devia ter me dito isso! Era sua obrigação como mentor!

— Mas eu... – Este se afastou, subitamente confuso por esse acesso de raiva.

— Não quero mais saber de desculpas. Apenas continue logo esta história.

— Como quiser...

O Cavaleiro saiu de seu esconderijo e se aproximou da fera. Esta, para sua surpresa, se encontrava desacordada. Satisfeito com o seu trabalho feito ali, ele se afastou do corpo, sentindo que não seria justo se livrar de animal tão majestoso, e saiu para a luz do sol em direção ao seu cavalo onde a princesa o esperava.

— Ufa, ainda bem! – O Cavaleiro respirou mais aliviado. Porém, logo sua expressão se tornou pensativa. — Tenho certeza que isso já aconteceu em algum filme.... Ah! – Ele estralou os dedos ao lembrar. — É uma cópia de Sherk!

— NÃO é uma cópia! – O escritor protestou. — Você não tem nenhum burro, não é? E muito menos é um ogro!

— Tanto faz. – Deu de ombros, despreocupado. — Tenho certeza que ninguém vai se importar.

— Ora, seu...

— Opa, olha ali a princesa me esperando. Você não quer fazer ela aguardar por muito tempo, não é? – E, se ele se encolheu um pouco com o olhar que era lhe lançado, ninguém estava lá para ver.

Triunfante, nosso herói se aproximou da dama que o aguardava. A bela princesa olhou bem fundo nos olhos do valente cavaleiro e...

— Espera, espera, espera!

— Não precisava repetir tantas vezes, não sou surdo. – O escritor ajeitou os óculos no rosto, já preparado para o que se seguiria. — O que foi agora?

— Por que eu tenho que me apaixonar pela princesa? – O cavaleiro largou as mãos da moça e cruzou os braços, projetando o queixo de forma teimosa.

— Porque é o que acontece nas histórias, o mocinho salva a mocinha e eles ficam juntos no fim. Final feliz, lágrimas e muitos fogos de artifício! – O escritor agitou os braços movendo mãos e encenando os fogos estourando.

— Ah, é? Mas pelo que eu lembre essa história é minha! E eu não quero uma princesa. Sem ofensas, você é linda e tudo, mas é a fruta errada. – Ele se voltou rapidamente para a garota estendendo as mãos em uma reverência de desculpas. Ela corou fortemente, mas os olhos brilharam de interesse.

— Não ofendeu. – Ergueu o queixo, decidida e segurou a borda do vestido com muita dignidade. — Eu não queria ter de me casar sem antes ter vivido um pouco a vida e atirado umas boas flechas. Muito menos casar com alguém que só tivesse de derrotar um dragão para ser digno. Sem ofensas, fico muito agradecida por ter me tirado de lá, agora estou livre para seguir o meu sonho e me tornar uma caçadora. – E com isso puxou a barra do vestido e o rasgou até a altura das coxas. — Até a vista, bravo Cavaleiro! – Despediu-se, partindo para a proteção das árvores mais próximas e perdendo de vista o Cavaleiro que lhe acenava entusiasticamente.

— Só o que me faltava agora essa. – O escritor pousou os óculos, exausto, e se dirigiu ao personagem que lhe sorria superior. — Muito bem. E então? O que você quer?

— De verdade?! – Ele sorriu largo, dando alguns pulinhos nada heroicos. — Sem aquela conversa de que – Engrossou a voz antes de prosseguir. — “Quem está escrevendo a história sou eu, então cale a boca que eu quem mando nessa porra!”

— Olha o palavrão, não te criei assim.

— Desculpe, foi apenas um lapso.

— Imagino. – O olhar descrente não era uma surpresa, tampouco o sorriso inocente que lhe era lançado. — E?

— E o que? – A testa do escritor se franziu ainda mais forte.

— Você está bagunçando minhas energias com essa conversa.

— E você está confundindo as minhas.

— Ah, por favor, pelo amor de todos os deuses e não deuses que estiverem escutando, você pode me dizer o que quer?

— Um príncipe! E daqueles bem fortões, com músculos que parecem fibras de metal afiadas.

— Você quer traçar o Rambo? – Perguntou, descrente, só para confirmar se ouvira corretamente.

— Olha, traçar eu não sei. – A expressão do Cavaleiro se tornou pensativa. — Nem sabia que esse tal de Rambo era um baralho. – A vontade louca que o escritor teve de rir só podia significar que ele estava cansado demais para aquilo.

— E não é. Tudo bem, tudo bem. Falamos mais sobre isso amanhã.

— Como quiser. – Ele concordou, de repente parecendo muito solícito. — Apenas tenha uma noite de sono decente dessa vez. – E, antes de pousar a caneta, ele podia jurar ver nos olhos dele uma preocupação genuína.

— Vou tentar.

........................................................................

Após o sucesso em salvar a princesa, nosso Cavaleiro se encontrava muito desolado. Tinha medo de que suas aventuras já houvessem chegado ao fim e todo o resto agora se tornasse entediante.

— Não! Que nada! Entediante é ótimo! Eu já mencionei que podia muito bem tirar umas férias? Cenas de praia são muito apreciadas pelos leitores.

— Acho que eu devia te lembrar que não estamos em um anime e cenas como essa não são muito populares em livros. – Àquela altura, o escritor já havia desistido de lutar contra a tagarelice incessante do personagem, apenas aceitou e se deixou levar por ela.

— Você quem pensa. Garanto que eu arraso em uma sunguinha. – Por algum motivo, aquele sorriso convencido direcionado a si lhe fez corar. Pigarreou e tentou retomar o pouco de dignidade que achava ainda possuir.

— Se não parar de atrapalhar, não vai ter história e muito menos praia alguma.

— Certo, eu esqueci! Não está mais aqui quem falou.

Sempre ouvira os veteranos falarem que depois de salvar uma princesa, era só casar com ela que sua vida estava feita. Mas o nosso herói não queria uma princesa. Ele queria...bem, ainda não sabia muito bem o quê. Vagou pelas estradas solitárias, sobrevivendo ao sol escaldante e a chuva repentina, imaginando quando algo iria acontecer.

Foi então que as notícias sobre a guerra iminente começaram a se espalhar. E, coincidentemente, chegaram aos ouvidos do nosso valente herói.

— Claro, uma guerra, por que não? – Revirou os olhos.

— Isso foi sarcasmo?

— Aprendi com o melhor. – Piscou, brincalhão, deixando o pobre escritor confuso. — Muito bem, de volta para a guerra.

— Claro... Tem razão...

Diziam os boatos que o príncipe herdeiro do reino havia sido sequestrado na calada da noite em seu próprio quarto no castelo. E, com a doença avançada do rei, este era o único apto a assumir o trono.

— Um príncipe? – O Cavaleiro pulou, animado. — Ah, por favor, por favor, por favor, posso ficar com ele? Espero que seja bonito e sarado! Imagina só ser abraçado por todos aqueles músculos!

O escritor olhou seus braços magrelos e franziu a testa, porém, nada comentou.

Animado com o novo desafio, o Cavaleiro galopou até o local onde seria travada a grande batalha. O general encarregado do comando já havia escutado sobre suas glórias e ficou mais que satisfeito em incluí-lo em suas fileiras. Os exércitos de ambos lados se reuniam em lados opostos daquele extenso campo, os cavalos pisoteavam o chão, ansiosos pela corrida que se seguiria, e os soldados fixavam o aperto em suas armas, pronto para os louros da vitória.

As trompas soaram e os combatentes avançaram, lançando-se em direção ao exército rival com brados destemidos. Por um momento, o mundo se tornou uma confusão de ruídos e relinchos. Havia pessoas caindo de suas montarias, sangue manchando a terra verdejante e urros de dor. Costurando entre os combatentes, o Cavaleiro tinha um objetivo fixo: chegar a tenda principal e resgatar o príncipe. Sua espada se erguia veloz para rebater os ataques que lhe desferiam, e da mesma forma eram devolvidos. Pé de pano se esforçava, mostrando os dentes para aqueles que ousavam se aproximar por terra e espantando a todos, fiel ao seu cavaleiro. Vitoriosos, chegaram ao seu destino.

Então o valente herói ergueu sua espada e bradou com o fôlego que lhe restava.

— Entreguem-me o príncipe ou sentirão a ira os deuses e sobre vocês cairá o fogo e o sangue dos que ousarem me desafiar.

Os guardas ali presentes reagiram, puxando as próprias armas e se lançando para o combate. O cavaleiro desmontou, não lhe parecia justo enfrentar os oponentes em condições desiguais, por isso, confrontou-os um a um. Sua armadura retinia a luz dos golpes recebidos e o corpo começava a apresentar sinais de cansaço. Mas não podia desistir ainda, a vida do príncipe estava em jogo!

O Cavaleiro provou o seu valor. Derrotou os cinco guardas com maestria e habilidade. Havia vencido. Tudo que restava agora era resgatar o herdeiro e pôr um fim a essa guerra.

— É isso então. – Dessa vez, para o espanto do Cavaleiro, foi o escritor quem interrompeu o andamento da história. — Depois de salvar o príncipe, nos despediremos para sempre.

— Oh! – A ficha caiu. Estivera tão foca na luta que nem havia parado para pensar o que vencê-la podia significar. — Então suponho que isso seja um adeus...

— Sim. – Pigarreou, repreendeu-se por ficar tão emotivo. Era só um personagem de muitos outros que viriam... — Foi um prazer escrever sua história e espero que tenha sucesso com o seu príncipe.

— Sabe que vou ter. – os olhos se reviraram, descrentes. — Você quem está escrevendo a histórias, não é?

— Tinha esquecido sobre como você pode ser irritante.

— Culpa sua que me fez assim. – Ele piscou, mas logo o sorriso esmoreceu. — Suponho que eu tenha que ir agora.

— Sim. – O autor concordou, um peso em seu peito se espalhando como sempre acontecia ao chegar ao final de uma história. — Vá buscar o seu feliz para sempre. – e dizendo isso, retomou a caneta e prosseguiu com a narrativa.

Adentrou a tenda e se deparou com o herdeiro amarrado a uma cadeira, debatendo-se com impaciência. Seu exército estava lutando, ele precisava se libertar e ajudá-los. O cavaleiro avançou em sua direção, determinado, era por esse momento que tanto havia lutador. E, quando retirou o saco que cobria a cabeça do príncipe, surpreendeu-se, pois, a face lhe era tão conhecida quanto a própria.

— Você..., mas eu pensei que esse fosse o nosso adeus. – O cavaleiro acolheu o príncipe em seus braços, a pele clara contrastando com a morena enquanto os primeiros raios de sol incidiam sobre eles. — Escritor...

— Eu não consigo mais te deixar. – O encarou com lágrimas nos olhos. — É egoísmo demais da minha parte não querer essa história acabe, não querer deixar de te ver e te ouvir tagarelar por horas a fio?

— Não. Pois se isso for egoísmo, eu também sofro dele, pois não desejo tampouco te deixar. E se porventura tivesse de o fazer, renunciaria a essa sentença e buscaria a voz que grita em meu coração. E todos sabem que um herói não renuncia em desejo próprio, logo eu não seria mais um. – Os dedos tocaram a bochecha, acariciando as faces coradas e os olhos brilhantes que viam por entre vários universos.

— Eu sei, por isso estou aqui, para que não tenha que fazer essa escolha.

— Desistiria mesmo de sua história apenas por isso? Por nós?

— Não estou desistindo. – As mãos seguraram as dele, calejadas de tantas batalhas, mas nada menos do que perfeitas naquele momento. — Apenas acrescentando mais capítulos, isso é, se eu não for musculoso de menos para você.

A risada do Cavaleiro só não foi melhor do que o gosto dos lábios dele tocando os seus. E, naqueles segundos, o escritor apenas gostaria de poder eternizar o momento.

— Então, já salvou seu príncipe, venceu sua batalha e alimentou os famintos. Tenho certeza que isso garantirá que o seu nome seja inscrito na história dos mais bravos cavaleiros.

O Cavaleiro riu, embriagado com a felicidade.

— A única história que me interessa é a nossa. Agora venha, temos uma guerra para terminar!

Os dois seguiram para a saída e findaram aquela batalha. O exército real comemorou o retorno do seu príncipe herdeiro e uma grande festa no castelo foi organizada.

Quanto ao final feliz, bem... como poderiam tê-lo quando ainda haviam tantas aventuras a serem vividas?

E é por isso, que esta história continua no próximo episódio....

— Não acredito que me fez escrever isso! Como eu pude me deixar convencer tão fácil?

— Simples, você me ama, baby. E o amor pode tudo. – A piscadinha foi o cúmulo. O escritor se aproximou e tomou o rosto do Cavaleiro nas mãos.

— De fato, errado você não está. Mas ainda não estamos em um anime!

O Cavaleiro riu e abraçou seu amado mais forte, unindo os corpos até não haver mais nenhum espaço entre eles.

— Não importa, pois já estou no único lugar que eu gostaria de estar. E esse é o felizes para sempre que sempre desejei.

17 de Julho de 2019 às 13:44 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Nathy Maki Leitora voraz desde que tenho idade para segurar um livro em mãos. Sagitariana e um poço de emoção e muuita indecisão. Amo um clichê bem escrito e um suspense que te prende, mas fantasias e ligações são especialidade. Sou fã daqueles finais inusitados. Até mesmo os tristes! Lema: Colecionar sonhos, ideias e magia e depois transformá-los em palavras é o que torna bela a vida.

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