MICRO-ONDAS Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Conto que ficou entre os três melhores em um concurso realizado mês passado no site recanto das letras. Procurei explorar dois universos aqui ; a perda de uma gestante e dimensões paralelas. É um conto chocante, sem dúvida. Eu gosto de colocar o medo nos lugares menos esperados. Bem, creio ter feito isto aqui. Boa leitura.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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MICRO-ONDAS

Ela havia comprado o aparelho cerca de duas semanas atrás, na praça central - local onde os ambulantes costumam vender de tudo.

Não ia até lá a tempos; ultimamente, Cecília tem apenas continuado. E era exatamente a definição para o que vinha fazendo. Continuar não era uma tarefa fácil - tampouco satisfatória - mas tanto ela quanto Caio sabiam que era algo necessário.

Haviam as lembranças ( algo que com certeza seria para o resto da vida ) e também haviam os olhares, seguidos de perguntas que não serviam para nada senão causar desconforto.

Cecília já estava no oitavo mês de gravidez quando aquelas dores insuportáveis começaram. Elas duravam minutos no começo, depois passaram para noites quase completas até que com o esforço do marido ela decidiu correr até o médico. Caio já havia a alertado antes, sempre com cautela, mas naquela tarde de outono as notícias não foram boas.

Lamento informar senhor e senhora Ávila, começou o doutor Pereira e o casal já sabia onde aquela conversa iria parar.

Tem sido um esforço desde então. Caio tem trabalhado o dobro do tempo ( a função de corretor de imóveis tem gerado um bom lucro, e a economia está em alta de uns dias para cá ) mas Cecília ainda suspeita que ele prefere ficar fora por opção. Isto era a cara de Caio. Fugir dos problemas colocando outras prioridades na frente deles.

E nisso Cecília tem continuado. Hora deitada o dia todo, hora caminhando até o mercadinho da Luna, levando quinze minutos para ir e vinte para voltar. De vez em quando ela percebe que algum vizinho, ao passar por ela, aponta os olhos direto para sua barriga. Ela procura ignorar, ascente com a cabeça e segue viagem. Era assim que se escapava de um tolo.

E foi assim, tomando coragem para sair de casa aos poucos, que Cecília decidiu comprar aquele micro-ondas.



O velho que lhe vendeu o aparelho se chamava Kaleb, era tão baixinho quanto ela e tinha uma conversa esquisita.

No geral, era só papo de vendedor ( do tipo que tenta lhe convencer sobre este ou aquele produto ) até que, entre um sorriso e outro, as coisas ficavam estranhas.

Por alguma razão perturbadora, Cecília tinha a certeza de que ele sabia de tudo. Das dores, do medo da gravidez não chegar até o fim e do desfecho que tudo isso teve dois meses atrás. Não era uma dúvida passageira. Ela tinha convicção de que Kaleb sabia. E aquilo arrepiou os pêlos em sua nuca.

Mesmo assim ela trouxe o micro-ondas ( apesar de saber que ele era usado, que tinha sérias restrições quanto ao modo de uso e que Kaleb o achava extremamente necessário para ela no momento ) e nada daquilo pareceu ter importância. O problema estava na conversa.

No modo que ele analisava a sua barriga e depois subia os olhos para o rosto dela, como se dissesse: é, moça, parece que falta algo aí, não é mesmo?

A única coisa que conseguiu ouvir com clareza ( mesmo achando uma loucura, talvez por isso ainda conseguia lembrar ) era da " regrinha básica " informada por Kaleb sobre o micro-ondas; a voz arranhada dele tentou ser bem específica.

- Só poderá usá-lo uma única vez ao dia - ele explicou. E então, com o indicador apontando para cima, concluiu. - E por cinco minutos apenas. Se passar disso, o aparelho poderá pifar. E sabe Deus o que mais.

A parte final foi a que mais lhe incomodou naquele dia.



Se passaram dois dias até que Cecília finalmente decidiu utilizar a sua nova aquisição.

Era uma manhã de não muito calor ( dava para ouvir o vento lá fora, gemendo contra a calha ) e o desânimo das semanas anteriores parecia estar cutucando o seu ombro com um dedo fino e gelado. Ela sabia que depois do ocorrido nada seria como antes. Não teria como ser. A bebê já estava praticamente formada em seu ventre, as roupinhas já haviam sido compradas e o quartinho dela era cor de rosa assim como mamãe e papai quiseram.

Ela chutava na barriga de tempos em tempos, Cecília gritava para o marido e ele vinha correndo para pôr a mão e também sentir. Eles ficavam por alguns instantes sem fazer absolutamente nada, apenas parados, Cecília de pé com um sorriso nos lábios e Caio de joelhos e com a cabeça encostada na barriga da esposa.

Foram meses maravilhosos. Meses em que o amor parecia quase que realmente poético.

E agora tudo havia partido. Apenas as lembranças restaram e elas nunca seriam suficientes. Nada mais de euforia. De horas ao lado do marido, ambos deitados na cama, tentando escolher o nome da primeira filha.

O quarto era só cor de rosa agora, mas vazio como um jarro onde antes haviam belas flores.

Assim que esticou o braço para abrir a porta do micro-ondas, Cecília ouviu o telefone tocar.

O celular estava sobre o braço do sofá e assim que se aproximou Cecília conseguiu identificar o número que piscava na tela.

Ela até que sentiu uma sensação boa ( não maravilhosa como em épocas anteriores ) mas até que aquilo bastava.

- Oi, querido.

- Como está, amor? - a voz de Caio saiu abafada, como se falasse com um travesseiro diante dos lábios.

- Bem - e era mentira.

- Mesmo? Ou está apenas tentando me deixar tranquilo?

- Mesmo. Só estou cansada... fui até o mercadinho hoje. Havia me esquecido o quanto ele era longe.

Uma risadinha surgiu do outro lado da linha, mas Cecília não acompanhou o marido.

- Vamos superar, está bem?

- Tenho certeza que vamos - e aquela era outra mentira de Cecília Ávila.

- Ouça, sei que não deveria ter aceitado esta viagem. Que era para eu estar aí com você, agora, passando por tudo isso juntos. Mas algumas coisas são necessárias... ( e então a voz de Caio pareceu desaparecer, aos poucos, deixando Cecília de pé diante do sofá, olhando para o nada, pensando em como aquilo tudo estava chegando num limite perigoso. Não havia mais uma razão para continuar. Ela prometera que continuaria tentando, que frequentaria um psicólogo se necessário, mas a dor parecia consumi-la aos poucos. Ela só queria ter de parar de acordar no meio da noite, suando, com lágrimas no rosto e depois fingindo que nada havia acontecido. Queria poder passar pelo corredor sem ter de olhar para o quarto rosa e não ver nada ali dentro, quando na verdade não deveria ser assim. Por que tinha de continuar com tudo isso? Não dava para simplesmente apertar o botão e deixar tudo se apagar? E Caio, também sentia esse tipo de coisa? Se sentia escondia muito bem, pois... a voz dele foi ressurgindo aos poucos e trazendo Cecília de volta do meio da bagunça que estavam seus pensamentos ).... você não acha, amor?

- Talvez - ela respondeu, sem ao menos saber o que era. - Quando você volta, querido?

- Daqui uma semana. Os negócios estão voando e a imobiliária quer me segurar aqui o quanto puder. E sabe... é lindo aqui, amor. Você iria adorar.

Cecília duvidava disso. Ficou em silêncio por vinte segundos e só então respondeu.

- Então aproveite. Lhe vejo em uma semana.



Assim que desligou o celular e deixou o marido em algum canto de sua cabeça tão vazio quanto o quartinho rosa, Cecília caminhou até a cozinha e abriu a geladeira.

Não havia muito ali dentro; a fome - quando ela existia - era algo cada vez mais raro.

Desde que a bebê se fora, Cecília já havia emagrecido uns onze quilos. E não parava de baixar.

Catou um sanduíche que já estava pronto, do tipo que só se retira a embalagem e se joga dentro de um micro-ondas, e lembrou-se das palavras de Kaleb.

Cinco minutinhos no máximo, ele dissera. Uma única vez ao dia.

- Que diabos de micro-ondas você comprou, Cecília? - perguntou olhando para o aparelho. Então abriu a portinha e respondeu. - Destes que velhos esquisitos vendem para mulheres que acabaram de perder o bebê. E essas ganham uma promoção. Por que acha que ele cobrou apenas cinquenta mangos?

Atirou o sanduíche para dentro, fechou a portinha com um tapa e marcou um minuto e trinta segundos no relógio do painel frontal.

Assim que ele começou a funcionar e o sanduíche lá dentro começou a girar de modo lento, Cecília imediatamente sentiu que uma corrente de energia penetrou por toda a extensão de seu corpo.



A sensação ( logo de cara ) foi de susto.

Depois, olhando em volta, quase tudo parecia como era para parecer. Quase.

A cozinha ainda tinha aquela pintura verde-clara - o que Caio chamava de " cor vibrante " - e a pia continuava com a louça da noite anterior. Não havia sol lá fora e quando se olhava para janela tudo que se via era um dia carrancudo.

Dava para sentir o cheiro ali ( uma mistura de Pinho com o sanduíche que rodava devagar dentro do micro-ondas ) e então Cecília deixou que seus olhos caíssem na direção do chão.

Imediatamente fora ela quem quase caira. Soltou um gritinho contraído, deu dois passos para trás e se segurou com as duas mãos na mesa.

Não tinha como aquilo ser possível. Sua barriga de oito meses de gravidez estava de volta.



Ficou encostada na mesa, os olhos arregalados, as mãos agora acariciando a própria barriga.

Tentou falar alguma coisa mas só o que saiu foram uns resmungos abafados por lábios trêmulos. De repente, tudo que queria era ligar para o marido e dizer as boas novas. Não saberia como explicar ( explicar sobre o que? ) mas daria um jeito. A sensação estava de volta. O prazer de carregar uma vida outra vez, a vontade de pegar ela nos braços assim que nascesse, a ideia de...

- Não pode ser verdade! - finalmente conseguiu dizer. Os olhos ainda maravilhados com a enorme barriga. - Não HÁ como ser verdade. Deve ser uma espécie de alucinação ou coisa do tipo.

Mas então ela toca na barriga mais uma vez e consegue senti-la. Não estava delirando.

Ate seus pés pareciam mais inchados. Uma vontade aterradora de chorar lhe arrebatou imediatamente, e quando as primeiras lágrimas começaram a escorrer um apito incômodo ecoou por toda a cozinha. Era o aviso do micro-ondas que o sanduíche estava pronto.

E de que Cecília já podia voltar para a sua vida atual.



Um minuto e trinta segundos. Este foi o tempo que durou a sua nova " gravidez ".

Agora ela estava sentada no piso da cozinha, as costas apoiadas na geladeira. Nem sequer encostou no sanduíche. Apenas olhava para o micro-ondas, depois para a sua barriga e outra vez para o micro-ondas.

Ainda tentava entender o que diabos tinha sido aquilo, sempre procurando evitar chegar perto da palavra LOUCURA, mas achava que não tinha jeito. Talvez tenha sido uma espécie de surto, algo comum para o tipo de trauma que havia enfrentado... só que aquela barriga pareceu muito real uns minutos atrás. Assustadoramente real. Cecília só esperava - e nisso ela estava agarrada com unhas e dentes - que isto não tenha sido o mundo lhe jogando na cara que não havia mais nada a ser feito, que aquela era a prova crucial de que deveria parar de tentar continuar com sua vidinha maluca e que a hora de subir numa cadeira com uma corda enrolada no pescoço estava chegando.

Afastou estes pensamentos por um instante e procurou raciocinar o mais logicamente possível.

- Foi apenas um surto, Cecília - falou, e quando percebeu suas mãos estavam outra vez sobre a barriga vazia. Às retirou repentinamente, como se seus quadris estivessem quentes.

Uma única vez ao dia, pensou. Cinco minutos no máximo.

Por mais perturbadora que fosse, a ideia já se alojava em sua mente.



Nos três dias seguintes, Cecília não conseguiu evitar. Ela ia até o mercadinho da Luna, o mais devagar possível, sempre evitando os vizinhos e suas perguntas imbecis, até chegar em casa e deitar no sofá.

Conseguia ficar ali por uns vinte minutos ( às vezes quinze, outras vezes trinta ) sempre com a cabeça rodando e a vontade de ligar o micro-ondas lhe assoitando como um predador no escuro.

Até que a vontade dominava o corpo. Ela corria até a cozinha e ligava o micro-ondas apenas para sentir aquela sensação mais uma vez. Cecília se perguntava se era assim que um viciado em drogas deveria se sentir, depois esquecia de tudo e se sentava no piso, alisando a barriga.

Fazia isto no limite máximo de tempo ( cinco minutinhos e nada mais, dissera Kaleb ) e depois passava horas deitada no próprio piso da cozinha, encolhida e abraçando a cintura.

Aquela era uma realidade absurda, Cecília tinha plena ( talvez nem tanta ) certeza sobre isso, mas era um momento único, um sonho que não era bem um sonho mas sim uma projeção de como as coisas eram e para onde elas iriam se nenhuma intervenção divina tivesse acontecido.

Não dava para se culpar por querer sentir isto outra vez. Ou dava? Talvez aos olhos dos outros - principalmente de Caio - o certo seria parar enquanto ainda restava um pouco de sanidade. Olhar para o futuro, e não para o passado. Mas o que se podia fazer quando a realidade que Cecília gentilmente chamava de "lado bom " decidia dar as caras?

Ser mãe era seu maior sonho. E poder se sentir como uma outra vez era tão bom quanto antes. Talvez até mais.

Levantou da cama e caminhou ( quando na verdade queria correr ) até a cozinha.

Digitou cinco minutos no painel do micro-ondas. Estava pronta para continuar a sua gestação mais um pouco.

Eram duas e oito da manhã.



Naquela tarde, o celular tocou por diversas vezes mas Cecília preferiu não atender.

Já sabia que era Caio. O marido com suas perguntas tradicionais ( você está bem, amor? ou como está seu dia hoje, amor? ) e depois um blá -blá-blá que não serviria para nada. Não como o micro-ondas servia.

Principalmente quando estava ligado e fazia os momentos mágicos aparecerem. Na madrugada, enquanto alisava a barriga e conversava com a ( vejam só, ela já a chama pelo nome! ) Alice, Cecília andou como toda gestante, devagar e com uma das mãos apoiada na altura dos quadris. Passou diante do corredor e viu o quarto rosa como ele sempre fora; com o berço no cantinho esquerdo, e o pequeno guarda-roupa no cantinho direito.

Não era apenas em Cecília que as coisas mudavam. Tudo se organizava maravilhosamente em ordem, esperando a chegada de Alice.

Daí os cinco minutos cessavam e o " lado bom " ficava para trás. Não para sempre, mas guardado ali ao lado, assim como um segredo bem escondido.



Trinta e duas horas depois, Cecília se encontrava atirada no sofá da sala, vestida apenas com o seu roupão de dormir e as pernas arreganhadas, uma para cada lado.

O micro-ondas estava na banqueta próxima. Ela sabia que assim que acionasse o relógio regressivo do painel frontal, sua vida mudaria para sempre. Era algo natural, não dava para explicar. Ela conseguia sentir, e nesta etapa ela ainda não havia chegado da outra vez.

Só uma mulher poderia entender. Só uma era capaz de saber. As contrações estavam maiores ontem. Ela podia senti-las até do " lado ruim ".

Programou o micro-ondas em cinco minutos ( o tempo favorito de Cecília ultimamente ) e esperou.



A viagem de Caio Ávila levou quatro horas para se encerrar. Ele pegou um vôo fretado ( dê graças aos IRMÃOS MOTA IMOBILIÁRIA LTDA ) e chegou no aeroporto da cidade de Plátanos algumas horas depois, onde teve de pegar o seu carro para só então partir para a casa.

Estava preocupado à beça. A esposa não atendia ao celular desde ontem e a possibilidade dela ter cometido uma loucura não parava de flutuar sobre sua cabeça.

Assim que entrou em casa, Caio se deteve. Havia sangue sobre o sofá e alguns respingos no piso abaixo dele. Sinal ruim. Chamou por Cecília e ela não respondeu. Mais um sinal ruim. Péssimo, na verdade.

Deixou a maleta cair ao lado da porta e avançou depressa ( viu um micro-ondas esfumaçando no caminho ) e parou apenas quando olhou para o quartinho que seria de Alice. Tanto ele quanto Cecília jamais entraram ali. Até agora.

Dava para ver a silhueta da esposa sentada ( viva, ótimo sinal ) em uma cadeira de balanço, indo e vindo, bem devagar.

- Querida? - e Cecília não respondeu. Apenas continuava para frente e para trás, para frente e para trás.

Os pés de Caio pararam na entrada do quarto e sua mão direita tateou até encontrar o interruptor. Com o indicador, ele o apertou e a luz iluminou todo o quartinho rosa. Uma dor agonizante lhe acertou em cheio no peito e teve de se apoiar na parede para não tombar.

Os olhos dele se esbugalharam e a boca se abriu num ângulo esquisito, mas não conseguiu gritar. Pôde apenas observar a esposa sentada na cadeira de balanço, com um único seio para fora, amamentando um feto de aspecto podre coberto de sangue. Cecília sorria, com lágrimas escorrendo pelas bochechas.

- É nossa bebê, querido - ela murmurou baixinho, depois olhou para Caio e cobriu os lábios com o dedo. - Fala baixo para não acordar o anjinho.

Mas Caio não conseguia falar. Suas costas escorregaram devagar pela parede e ele se sentou no chão, olhando abismado para aquilo, os olhos marejados e a boca ainda aberta.

À sua frente, Cecília seguia balançando na cadeira, aquela coisa que nem boca possuía encostada em seu seio descoberto.

Não dava para ouvir nada senão o rangido incômodo da cadeira de balanço. Para frente e para trás, para frente e para trás.

14 de Julho de 2019 às 19:44 3 Denunciar Insira 3
Fim

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Desses Terror eu gosto. Arriscado, ousado. Inesperado! 👌

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