A Morte Caminha Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

Em um acampamento de trailers, Jeff e Mike encontram-se em dificuldades para manter o aluguel em dia. Certa noite, decidem fazer uma brincadeira que não acaba muito bem. Então, da terra molhada, a escuridão volta para se vingar.


Horror Horror zumbi Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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A Morte Caminha

I


Feito grandes cachorros adormecidos, os trailers descansavam sob o céu negro da madrugada. A área era bastante grande para a pequena comunidade que se fixara ali. Devia haver uns trinta ou vinte veículos, no máximo. A maioria habitado por solteirões sem dinheiro, velhos desempregados, e jovens desamparados. Apesar de tudo, eram bons vizinhos. A melhor estratégia para uma boa convivência ali era limitar as conversas a um “bom dia” e um menear de cabeça rápido. Era o que Jeff e Mike tentavam fazer.

Os dois fugiram da faculdade de Publicidade quando perceberam que não precisavam saber muito sobre marketing para encher os bolsos de dinheiro. A droga se vendia sozinha, sem que muita propaganda precisasse ser feita. Não precisava de alguém por trás dizendo que “era da boa”. As pessoas compravam independente disso, principalmente quando já estavam loucas demais para ter qualquer noção qualitativa.

Foram pegos vendendo maconha para alguns calouros em uma das festas de faculdade que eram feitas para o pessoal se enturmar. Um dos organizadores do evento -um veterano do terceiro ano que devia ter lucrado bastante com aquilo tudo- os denunciou. Uma suspensão de duas semas chegou para eles e foi recebida com total indiferença. Afinal, ninguém tinha pego o dinheiro deles do dia da festa, e ambos estavam de saco cheio de tudo aquilo. Não aguentavam as salas de aula com professores metidos a intelectuais vomitando conteúdos que eles acreditavam não fazer nenhuma diferença utilitária, alunos com empolgações e entusiasmos fingidos e todo o resto. Assim, uma semana se passou e eles não voltaram para as aulas. Na verdade, quando o prazo acabou, eles já estavam a alguns quilômetros de distância.

Compraram a passagem de ônibus mais barata e embarcaram. Estavam chapados, e, quando estavam assim, não se importavam muito para onde iriam parar. Chegaram em uma cidadezinha do interior onde adolescentes sonhadores planejavam desde a infância dar o fora dali, para, quem sabe, conseguir a sorte nas cidades grandes e frequentar uma boa faculdade. Uma da qual o diploma ao menos valesse de alguma coisa. Já que as que havia ali eram constantemente paralisadas por greves, falta de verba e problemas estruturais. E, ainda que esses problemas não as assolassem, as aulas não eram das melhores. Com o tempo, os pais se acostumaram a fazer do trabalho de casa suas próprias instituições de ensino. Um ambiente de preparação para que os filhos pudessem suceder os mais velhos com tempo ou para que pudessem juntar dinheiro e ir para algum lugar com maiores oportunidades.

Isso não incomodou Jeff e Mike; a ideia de uma faculdade estava bem distante agora. Os dois fizeram alguns bicos por aí para obter uma renda extra -a principal vinha das vendas do que chamavam de “verdinha”. Descobriram que os caipiras cansados do sol e do trabalho gostavam de relaxar de vez em quando. Em alguns casos -quando davam sorte de encontrar a pessoa certa-, gostavam de ficar assim todos os dias. Com o pouco que tinham e do que juntaram, foram morar nesse acampamento de trailers decadente.

Um homem -que Mike passou a chamar de Márcio “Sapão” Lemos com tempo-, ofereceu para eles um dos trailers por um valor bem baixo. Chamar aquilo de trailer era um insulto. Mike tinha certeza de que o “trailer” só não estava no ferro velho porque o Sapão tinha preguiça de levar. Então, quando viu dois idiotas precisando desesperadamente de um lugar, aproveitou a chance para lucrar um pouco. O aluguel era muito barato e os bicos ajudavam a pagar os custos. Viviam no limite. Mas viviam. E, quando precisavam de mais, encontravam um jeito de obter mais droga.

Era o quarto mês que passavam ali e o dinheiro chegava com cada vez mais dificuldade. Quando decidiram sair para uma caminhada e para espairecer um pouco a mente, a maioria dos trailers estavam apagados. Pegaram alguns pacotinhos e partiram para uma inclinação que se abria sobre o terreno em uma distância segura da comunidade. Todos sabiam que eles eram fumantes contumazes -era impossível não sentir o cheiro que exalava do trailer decrépito e das roupas dos dois-, mas achavam bom não deixar tão explícito. Por isso a distância segura.

Andaram até a colina e, lá em cima, acenderam os baseados. As pontas carbonizavam rápidas, consumindo a seda com avidez a cada nova tragada. A fumaça descendo e se libertando deliciosa pelas bocas. Ficaram ali, sentados e sem conversar, enquanto assistiam as últimas luzes se apagarem no acampamento, deixando o céu negro e pontilhado os envolver na penumbra. Ao longe, um cachorro latia sem parar. O cachorro do Sapão, Jeff pensou.

As pontas eram jogadas no chão para que novos cigarros pudessem ser preparados. Mesmo depois de já terem fumado vários, os dedos ainda confeccionavam novos com maestria. Mike era quem menos descansava. Antes de o que estava entre os lábios acabar, ele já preparava uma nova reserva.

Jeff o olhava com receio, vendo-o fazer aquilo com uma obstinação doentia, como se preparasse um produto na esteira de uma fábrica que, caso não fosse finalizado, levaria a morte do funcionário. Não queria interrompê-lo com aquele assunto. Mike sempre fora o líder da dupla. Sempre arranjou tudo. Mas o tempo passava sem que os dois tomassem uma iniciativa. A droga acabava -na maior parte por consumo próprio, não pelas vendas- e o dinheiro se tornava escasso.

-É...M-Mike? -a voz saia sem muita confiança. Pisava em uma zona perigosa: -Nossa grana tá acabando e os caipiras tão parando de comprar nossa ganja... o Sapão já tá puto com o alugu...

Mike interrompeu seu trabalho. Deu um trago profundo e olhou na direção de Jeff, sentindo-o remexer-se incomodado com o olhar: -Aproveita a brisa, cara. A gente vai dá um jeito. A gente sempre deu. Não vai ser diferente. Nosso produto é do bom, cê sabe. E eu tô experimentando ele agora mesmo, Jeff. Você devia tentar. Sabe, pra confiar mais no próprio produto, sacou? Não quero ouvir o nome daquele cara de novo. Já basta ver aquela cara gorda dele todos os dias. -Terminou o que estava fazendo e se deitou na grama para continuar a fumar.

Jeff tentou mais uma vez: -Eu sei, cara. Mas a gen... -e foi mais uma vez interrompido. Agora de maneira mais incisiva.

-Quer calar a porra da boca?! -as palavras soaram traiçoeiras. -Curte... a... brisa. Só aproveita. Ou me deixa curtir.

Jeff sentiu que se não calasse a boca Mike faria com que se calasse. Além disso, ele tinha razão. O produto deles era bom pra cacete. Então, resolveu aproveitar.

A droga que levaram para lá tinha acabou mais rápido que esperavam. Estavam entediados, chapados demais para fazer qualquer coisa. Mas Mike teve uma ideia, e ela pareceu interessante.

-Jeff?

-Fala.

-Que tal se a gente der uma zoada no Sapão? Só pela diversão... ele merece, vai.

-Hã? -respondeu com uma voz débil. Jeff sabia que Mike estava falando com ele, mas estava ocupado demais fazendo outras coisas. “Curtindo a brisa”.

Mike pegou uma pequena pedra no chão e jogou na direção de Jeff. O garoto se remexeu tentando entender o que tinha acontecido. Estava dormindo, e, agora, tudo parecia tão lento.

-Que que foi Mike?

-Tô falando pra gente zoar o Sapão. Dar uma lição nele. Pra ele aprender a parar de ficar cobrando as pessoas.

Jeff percebeu uma seriedade na voz de Mike. Um desejo intenso e estranho.

-E o que cê quer fazer?

-Sei lá, cara. A gente vai até o trailer dele e vê o que faz. Acordar o gordo, jogar umas pedras, mexer com aquele cachorro de merda dele. Essas coisas.

-Sei não...

-Ah, para com isso, porra! Vai ser divertido. O cara merece. Vai dizer que você também não tá puto? -perguntou, parecendo explodir de raiva de repente.

-Tô... -Jeff cogitou a ideia de que havia algo a mais naquela maconha. Um pouco de pó, talvez. Mas descartou a ideia. Era apenas o velho Mike. O Mike que explodia de repente em uma raiva que parecia fazer seus olhos queimarem e a face se tornar uma máscara horripilante e maliciosa. Uma vontade desgovernada e implacável.

-Então é isso -disse, levantando-se e agarrando o capuz de Jeff para que ele ficasse de pé. -Vai, anda. Não sei quanto tempo a gente tem até clarear.

Os desceram a colina, passando pelos trailers apagados tentando parecer normais para o caso de que algum bisbilhoteiro os visse. Na verdade, Jeff cambaleava, mas Mike andava normalmente. Para ser mais preciso, Mike andava com confiança ansiosa. Estava sóbrio. E, quando a lucidez começou a retornar a Jeff, ele percebeu isso.

A casa do homem era a mais solitária. O trailer ficava mais afastado do resto do acampamento. Era um lugar bom. Todos queriam ter essa “privacidade”. Mas Márcio não abria mão. Nem por boas quantias.

Andaram pelas sombras, os capuzes cobrindo o rosto da pouca luz que havia no lugar. Quando chegaram na clareira que se abria onde o homem morava, eles andaram pelas bordas e se esgueiraram para dentro da relva alta que crescia atrás do trailer. Pelos lados, não precisaram passar pelo cercadinho que Márcio “Sapão” mantinha para seu cachorro.

Agora escondidos, olharam em volta em busca de algumas pedras. A primeira -uma pequena, mas potente- voou e acertou a lataria do trailer com um barulho abafado, deixando um beijo de despedida em um leve amassado.

-Acertei! -sussurrou Jeff, dando uma risadinha.

-Ali é fácil, seu lixo. -Mike pegava mais uma pedra do chão. -Quero ver acertar um dos vidros. Se você acertar, eu tomo conta da limpeza de casa por uma semana. Se você errar, eu tenho minha chance.

Jeff analisou o chão coberto de grama em busca de sua munição. Pegou uma pedra que cobria o centro da palma da sua mão. Concentrou-se por um tempo e, girando o punho, lançou-a na direção das janelas. A pedra bateu contra a moldura sem tocar o vidro. Apesar disso, o som da batida foi alto, e o cachorro lá na frente começou a latir freneticamente quando o som de metal ressoou.

O som despertou Jeff: -Cara, vamo embora. Já deu disso, o cara vai pegar a gente! -dizia com a voz esganiçada. Mas Mike não lhe dava atenção. Olhava fixamente para o trailer. Tinha uma pedra do tamanho do punho em mãos e um olhar concentrado. Jeff tentou puxá-lo, chamando-o desesperadamente. Mas Mike se desvencilhou e o empurrou com raiva:

-Me solta, porra! É a minha vez.

A voz era sombria e nada o faria mudar de ideia. Seus olhos ensandecidos olharam para Jeff e voltaram para o trailer. Quando ele ficava irritado, nada o parava. Transformava-se em um animal. Sem esperanças, Jeff começou a dar as costas pra Mike. Escondendo-se na relva, retornaria para casa e tiraria um cochilo dos bons.

Foi quando a cara gorda do Sapão apareceu emoldurada pela janela. Pela distância e escuridão, o homem não conseguiria identificá-los. E, para a sorte de Jeff, o homem só via a silhueta de Mike, que estava parado em pé com a pedra nas mãos feito uma aparição.

Quando o garoto o viu por trás da janela, arremessou sem titubear, como se já esperasse pelo homem. A pedra voou como uma bola de beisebol. Diminuindo a distância com velocidade. Márcio mal pôde vê-la chegando, senão teria se mandado dali. Soltou um berro abafado pelo vidro, algo como: “O que tá fazendo aí?!”, mas foi interrompido antes que pudesse terminar quando a pedra o acertou, esmagando seu rosto com força. O vidro se estilhaçou derramando pedaços pela terra e pelo carpete de dentro do trailer. O sangue pingava sem parar de sua cara. O nariz, torto por baixo do sangue, escorria um líquido estranho.

-O que você fez, Mike?! -Jeff perguntou agachado com uma voz vacilante.

Mike sorria em triunfo em pé sob a noite. Encarava excitado o velho sangrando que o fitava com raiva lá de dentro, o sangue caindo sem parar por cima dos olhos furiosos.

Ensandecido, Márcio não estava disposto a deixá-lo fugir. Com uma das mãos tampando o rosto latejante, Márcio levantou uma arma na direção de Mike e puxou o gatilho cinco vezes, descarregando todo o tambor. Os tiros rimbombaram pela escuridão feito trovões. Três projeteis passaram de raspão por Mike e desapareceram às suas costas. Os outros dois, por outro lado, alvejaram-no no peito, fazendo-o cair como um tronco de árvore velha na relva ao lado de Jeff.

Jeff olhou atônito o corpo do amigo caído e se contorcendo enquanto a baba lhe saltava da boca como um chafariz carmesim. Não tinha ideia do que deveria fazer. Se ficasse parado, morreria ali mesmo. Revelando-se por um momento, pegou os braços moles de Mike e o arrastou pela relva por onde tinham vindo, desaparecendo de qualquer vista.

Márcio tentava se recompor. As mãos e roupas estavam empapadas de sangue. Queria correr atrás do filho -filho não, filhos, pois, por um momento, vira um outro ratinho se esgueirar lá fora- das putas, mas não conseguia. Estava velho e seu rosto latejava sem parar. O sangue não parava de jorrar, deslizando por todos os lados com um líquido esverdeado. Com um pano de prato branco escrito “Bom Dia” pressionado sobre o rosto, ele reuniu forças para se levantar e sair do trailer. À porta, gritou por ajuda dos vizinhos que agora começavam a acordar por conta dos tiros.

Do outro lado, Mike ouvia o cachorro latir alucinado enquanto a vida deixava seus olhos. O cachorro desgraçado.

15 de Julho de 2019 às 21:35 0 Denunciar Insira 1
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