Diara, a pessoa amada Seguir história

anneliberton Anne Liberton

Depois que a jovem Diara da Costa morre, muitos se juntam para se despedir em seu funeral, que reserva algumas surpresas para os presentes.


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Prólogo — Quatro namorados e um funeral

Era inegável, a julgar pela quantidade de gente reunida no cemitério, que Diara da Costa tinha sido uma pessoa amada. Não só isso: o tanto de lágrimas derramadas pela vida dela, ceifada tão cedo, provava que era importante, sim, você cultivar boas relações com todo mundo presente na sua vida, independentemente do quão longe a pessoa vivesse de você. Havia gente de outras cidades, até de outros estados ali, todos prestando suas últimas homenagens àquela jovem que falecera de súbito num acidente de carro.

Após o caixão ser colocado no lugar, as preces feitas, as palavras e não ditas, porque era tudo muito difícil, um homem subiu numa sepultura antiga. Um ato de puro desrespeito, na opinião de quem o observava de perto, mas ninguém falou nada. A dor ocupava mais espaço que aquele incômodo.

O homem pigarreou, analisando a multidão, alisou seu terno, e disse:

— Eu posso ter a atenção de vocês por um momento?

A voz dele projetava bem, mesmo naquele cemitério aberto, ou a maioria simplesmente teria seguido seu caminho. Ele aguardou um momento, para se certificar de que fora ouvido, e continuou, antes que fosse ignorado:

— Meu nome é Tadeu Guttenberg, e eu preciso falar com quatro pessoas. Elas são... — Checou um papel que trazia na mão. — Thales de Sá, Melissa Bittencourt, Jorge Aragão da Silva e Arielly Abreu. Por favor, se estiverem aí, venham comigo até a capela. De novo, Thales de Sá, Melissa Bittencourt, Jorge Aragão da Silva e Arielly Abreu. Tenho uma mensagem da falecida. Obrigado.

Com um aceno de cabeça, ele se encaminhou para a mencionada capela, socando o papel no bolso. Trazia uma pasta de couro na outra mão, que balançava a cada passo nervoso que Tadeu dava. Ele mirou os presentes, numa tentativa de adivinhar quem era quem e falhando miseravelmente.

“Uma foto, pelo menos”, pedira na ocasião. “Não seria mais fácil eu ter uma foto de cada, para evitar fraude?” Mas ela fora inflexível. “Não precisa. Se eu morrer cedo, eles vão aparecer no meu enterro. Mesmo que um ou outro falte, só o que vai acontecer é eu descobrir quem me amava de verdade e quem não. É bom que sobra mais pro resto.”

Tadeu resmungou. Como se desse para descobrir qualquer coisa do outro lado.

Depois do que pareceu uma eternidade, ele viu um rapaz loiro bem alto entrando na capela. Parecia perdido, como se fosse um moleque de cinco anos que tinha se separado da mãe. Os olhos inchados reforçavam ainda mais a ideia.

— O... Oi.

— Olá, senhor...?

— Hm, Jorge. Eu sou o Jorge.

— Tem certeza? — Ergueu a sobrancelha.

O rapaz olhou por cima do ombro.

— Tenho.

— Se importaria de me mostrar um documento?

— Aproveitando o embalo, eu também queria um seu — uma terceira voz masculina preencheu o recinto, fazendo Tadeu olhar a entrada.

Diferente do loiro grandão, esse era bem magrinho, disfarçando a falta de músculos com um terno preto de bom corte, talvez mais caro que o seu. Vinha com as mãos nos bolsos, o cabelo preto ondulado penteado para trás e uma expressão calma no rosto. Um pouco atrás, uma garota trajando vestes hippies caminhava devagar.

— Senhor Thales de Sá?

— O próprio. — O recém-chegado sorriu. — Mas mostro um documento só quando você mostrar o seu. Disse que era o que da Diara mesmo?

— Não disse. — Tadeu esperou que a moça se apresentasse. — É sua acompanhante ou...?

— É e não é. Encontrei a Mel enquanto tentava decidir se vinha aqui ou não.

— Melissa — a garota corrigiu.

— Dá na mesma.

— Então temos três já — Tadeu constatou. — Alguém viu a Senhorita Arielly Abreu? Vocês a conhecem?

— Nunca nem ouvi falar — Thales respondeu. — Aliás, nunca ouvi falar de nenhum de vocês. Que mensagem é essa da Diara? E por que a gente tem fazer isso agora, cara, justamente no enterro dela?

— Na verdade... — A voz leve, Jorge chamou a atenção dos outros. — Eu queria perguntar se vai demorar muito, porque eu tenho que pegar o ônibus de volta para casa.

— Que horas ele sai, Senhor Jorge?

— Nove e meia. Mas eu queria chegar com antecedência, para não perder.

— Que espécie de ônibus tem horário certinho para... — Thales se calou. — Você não é daqui?

— Não, sou de Paracatu.

— Viajou só para ver a Diara?

— Era o mínimo que eu podia fazer por ela...

Thales franziu a testa, encarando o loiro como se ele não fosse uns dez centímetros mais alto. Sem se importar, Melissa analisava Tadeu e sua pasta, que ainda não deixara o posto em sua mão.

— Você... Tadeu? — Ele confirmou. — Você ainda não nos disse quem é, Tadeu.

— Eu queria esperar até estarem os quatro reunidos, mas... — Deu uma olhada no cemitério, que esvaziava. — Acho que a Arielly Abreu não veio... Muito bem. Vamos começar então. Há alguns bancos aqui. Creio que seja mais confortável tratar desse assunto se estivermos sentados.

Todos se dirigiram para o local que ele determinara. No meio tempo, Tadeu pegou seu documento de identificação e o exibiu, como havia sido pedido.

— De novo, meu nome é Tadeu Guttenberg, e eu sou o advogado da Senhorita Diara da Costa. Ela me deixou a cargo de seu testamento antes de morrer, e é dele que eu gostaria de falar com os senhores neste momento. Entendo que é uma situação um tanto quanto inusitada, mas a Senhorita Diara me comunicou que não seria possível encontrar todos vocês num mesmo local com a mesma facilidade do dia de hoje, portanto, ela mesma sugeriu que eu fizesse essa leitura caso o pior lhe acontecesse...

— Como é? — Thales estreitou os olhos. — Ela previu que ia morrer com 28 anos?

— Cuido do testamento dela desde os 21, Senhor Thales. A Senhorita Diara era muitíssimo precavida.

— Mais uma coisa que ela não me contou...

— Qual é o seu problema? — Melissa inquiriu, aborrecida.

— Ela era, aparentemente...

Thales virou o rosto depois que ela o fuzilou com o olhar.

— Os senhores já se conheciam antes de hoje? — Tadeu quis saber, dada a familiaridade que pareciam ter um com o outro. Estavam sentados lado a lado, com Thales de pernas abertas e os braços cruzados atrás da cabeça, os cotovelos tocando nos ombros dela.

— Não — foi Melissa quem falou, a voz firme.

Assentindo, Tadeu folheou o documento, um pouco nervoso. Diara garantira aquilo, porém, em vez de facilitar sua vida, ele achava que a surpresa dificultaria tudo. Não tinha hábito de lidar com escândalos, apesar de ter sido muito bem pago para cuidar daquele circo todo. “Espero que o outro lado esteja valendo a pena”, pensou.

— Bom. Prossigamos com a leitura. A Senhorita Diara era uma moça muito abastada, como alguns de vocês devem saber... — Jorge fez que sim, Thales continuou de rosto virado e Melissa não esboçou nenhuma reação. — e também bastante generosa. Então... — Pigarreou. — “Para a minha...” Hm. “Para a minha namorada Arielly, deixo meu apartamento de três quartos na Asa Sul, onde compartilhamos aquelas maratonas maravilhosas de ‘The Tudors’. Nunca vou esquecer. Para o meu—”

— Espera aí um minuto! — Thales ergueu a voz. — Que história é essa de namorada?

— Senhor Thales, por favor, peço que não interrompa até eu terminar a—

— E desde quando a Diara era sapata?!

— Eu gostaria de continuar—

— Me deixa ver esse papel aí... — Levantou-se.

Tadeu saltou do banco, afastando a pasta das garras dele.

Senhor Thales.

— Eu também... também queria ver o documento, se for possível — Jorge pediu, franzindo a testa. — Eu não...

Tadeu bufou.

— “Para o meu namorado Jorge, deixo...”

Quando a pasta voou de sua mão, o advogado sequer sentiu o baque. O horror de Thales era tão nítido que Jorge também ficou de pé, sobrando apenas Melissa no banco, pálida que nem uma vela.

— “Para o meu namorado Jorge...” — A voz de Jorge sobressaltou Thales, que não o vira se aproximar. — Tem meu nome aí mesmo... “Para o meu namorado Jorge, deixo minha coleção de—”

— E faz diferença? — Thales rebateu, os olhos arregalados. — Você viu o resto? Minha namorada Melissa, meu namorado Thales... Você disse que é de Paracatu, eu moro em São Paulo... E você é daqui, não é, Mel? — Franziu o cenho. — Sabia de tudo enquanto me ouvia, né? Sabia que ela fazia a gente de otário?

— Senhores, por favor, se acalmem... — Tadeu interveio.

— Eu não sabia de nada! — Melissa se defendeu. — Não estava... não estava entendendo direito. Quando você falou que ela era a sua namorada, eu...

— E quem é essa porra de Arielly?!

— É Alliery.

Todos se voltaram para a entrada da capela, onde uma garota gótica se recostava de braços cruzados.

12 de Julho de 2019 às 03:22 0 Denunciar Insira 3
Leia o próximo capítulo 1 — Alliery, a desconfiada

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