Quatro Balas Seguir história

derykasd Deryk Warrel

Depois que uma infecção na Quago transformou todos os tripulantes em humanoides distorcidos, Bell Mosaic acredita ter sido abandonado para morrer. Passar os últimos dias escondido em um corredor com uma parede pulsante e uma pistola o faz se questionar se deveria usar os projéteis na nave ou na própria cabeça. Mas antes que possa decidir, Bell é forçado a se mover.


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#espacial #horror #terror #conto
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Quatro Balas

Bell Mosaic odiava o som das paredes mais do que tudo. Mesmo depois de dois dias, a pulsação ainda o incomodava. Nos poucos momentos em que conseguia dormir, sempre acordava com dor de cabeça, e enquanto estava acordado elas faziam questão de mantê-lo em constante estresse.

Havia encarado o que devia ser parte de um ser vivo por tempo o suficiente para se livrar da ilusão de que se mexia; pulsava, mas não se mexia. Não sabia de que cor era o sangue que corria por aquilo, e preferiria não saber.

A parede, a pior companhia de que já teve em toda a sua vida, estava coberta por uma massa de carne. Não estava crescendo, mas havia se espalhado como raízes de uma árvore — uma árvore que cresceu rápido demais e cujo único propósito de existência parecia ser levá-lo ao limite de sua paciência. Quando a viu pela primeira vez, parecia apenas uma escultura estranha, talvez algo derretido, mas agora não conseguia dizer onde acabava o metal e onde começava a carne. Seria o mesmo que, se ao invés de vestir sua antiga armadura, o metal fosse permanentemente fundido à sua pele.

Bell tremeu. O arrepio que subiu pela sua espinha nunca pareceu tão perigoso. Fez um som baixíssimo, muito mais baixo que o pulsar das paredes que ecoavam por todos os corredores da nave, lembravam o som de vento escapando por uma porta — embora nunca tenha sentido que o vento quisesse matá-lo.

Fazia tempo que não via uma delas, era muito mais difícil ouvir os passos quando pisavam sobre carne; felizmente, o fim de corredor onde estava sentado tinha metal o suficiente para preservar sua sanidade. Pouco se importava se era frio; diferente da parede, havia parado de ser um incômodo há tempo.

Quando recuou a cabeça, a pistola que havia deixado no chão refletiu mais luz do que o normal, chamando sua atenção. Ele ajeitou a postura imediatamente.

Vão conseguir ver isso se vierem do outro corredor? pensou ele, os últimos dois não viram, e o primeiro tinha um olho.

A maneira como as primeiras criaturas se comportaram beiravam o cômico, mas a situação o impedia de rir delas. Se sobrevivesse a isso, talvez desse gargalhadas com o quão retardadas elas pareciam, talvez tenha pesadelos para o resto da vida.

Depois de alguns segundos, conseguiu evitar o impulso de pegá-la. Havia deixado a arma perto o suficiente para alcançá-la se necessário, mas longe o bastante para evitar qualquer acidente. Nunca havia disparado sem querer, mas se por qualquer motivo fizesse isso dessa vez, com certeza seria sua morte. Quatro balas, pensou ele.

Atirar seria idiota, mesmo que matasse quatro delas, o que faria com as outras quarenta? Até onde sabia, era bem provável que o número fosse algo próximo disso, a tripulação inteira da Quago, reduzidos a humanoides malformados e distorcidos que batem a cabeça na parede igual uma criança demente. Se os de reconhecimento de campo são burros assim, os lutadores devem ser igualmente fracos.

Testar a sorte quase parecia convincente para Bell, estava ficando exausto daquilo. No primeiro dia, tinha comido metade da única barra que havia pego no caminho, e no segundo finalmente conseguiu se livrar da armadura sem quase morrer por isso; era pesada demais. Podia ter apenas uma única lâmpada pendurada no fim do corredor que ainda iluminava parte daquela área, mas não queria que o reflexo da luz acabasse chamando a atenção de alguma coisa. Aparentemente, nada aconteceria enquanto ficasse parado. Essa era a parte mais difícil.

Bell já havia alternado entre todas as posições minimamente confortáveis que podia encontrar, e agora o corpo inteiro estava dolorido. A única coisa que ainda não parecia ter envelhecido o dobro de seus quarenta anos de vida eram os braços, não podia dormir sobre eles.

O estômago roncou, e Bell sentiu vontade de se socar. O minúsculo pedaço de uma barra de “carne de nada com tempero de coisa nenhuma” — como costumava chamar — não seria nem perto do suficiente para servir de entrada. A essa altura, estava mais tentando se convencer de que não morreria de fome, do que realmente tentando fazer isso.

Depois de você, é tudo ou nada, pensou ele, encarando a barra antes de engolir o último pedaço. Nenhum sabor surgiu na língua, a boca estava seca demais para isso, e Bell nunca achou que tivesse gosto para início de conversa.

A parede pareceu pulsar com mais força, Bell se virou lentamente para ela. Nem pensar, nem pensar.

Se realmente precisasse de comida, tinha ela logo ao seu lado, carne ainda viva cobrindo todas as paredes. O estômago não aceitar não era sua preocupação, era a reação que teria quando a cortasse. Talvez fizesse muito barulho. Talvez, em algum lugar da nave, a boca daquela coisa chorasse. Não fazia a menor ideia de como aquilo funcionava, mas se estava viva, devia se alimentar de alguma forma, não queria arriscar. Mesmo na possibilidade do grito levar todas as criaturas para o outro lado da nave, não valia a pena tentar.

Se quiser me matar, tenho a arma, parede idiota. Se tivesse ânimo o suficiente para pensar nisso, teria dado três tiros na parede antes de atirar na própria cabeça. Quatro balas.

O terceiro dia estava chegando ao fim., Ao menos era a impressão que tinha depois de passar tanto tempo no espaço, marcando o horário com um relógio sem ver diferença nenhuma no cenário. Nenhum sol, nenhuma lua. Havia se acostumado com isso.

Não, ainda deve faltar um tempo. Sessenta e cinco horas, no máximo.

Quando pensou nisso, breves memórias invadiram a sua mente. Vislumbres de momentos aleatórios sobre a missão. Duvidava que algum ser humano teve uma vida sem constante medo de seus arredores desde que as colônias se tornaram espaciais, viajando pelo vácuo e procurando um planeta minimamente decente para que sobrevivessem. Talvez as outras naves tenham conseguido, mas eles estavam longe disso.

Bell sorriu, uma expressão cínica e debochada, tirando sarro da própria situação. Achamos a porra do quarto cavaleiro do apocalipse, não a terra prometida.

O sorriso sumiu tão rápido quanto surgiu; a silhueta que apareceu no fim do corredor o lembrou do quão ridículo era sorrir nessa situação.

Que merda é dessa vez? Pensou Bell, quando percebeu que o que viu foi apenas parte da criatura. Ela se arrastava pela curva do corredor, quase como um cavalo que puxava o corpo ao invés de andar. Essa era mais baixa que as outras e de um tom de marrom muito mais claro.

Bell ouviu algo, primeiro pensou que fosse a pulsação da parede, mas logo percebeu que estava errado. O som da criatura arrastando o corpo sobre a carne do chão era repugnante, mas havia outra coisa, mais dolorida, mais familiar, mais humana.

O som aumentou, e Bell conseguiu reconhecer o que era, ao menos a versão que conhecia do que aquilo devia ser: a criatura parecia estar chorando.

Bell engoliu em seco quando ela bateu na parede e continuou se esfregando nela por alguns segundos, igual as outras, igual as outras.

As duas primeiras que passaram pelo corredor agiram como robôs mal programados: apenas andavam reto até baterem a cara em alguma coisa, então se viravam e andavam na primeira direção onde não havia parede. Nas outras vezes, passaram a um metro de distância e entraram no corredor errado, mas dessa vez não parecia que teria a mesma sorte.

A criatura virou para ele. Bell arregalou os olhos e encheu os pulmões, tendo a impressão de que havia olhado diretamente para seus olhos; se havia o visto ou não, era um mistério, mas estava vindo direto para o fim do corredor.

Não bateria o rosto em nenhuma parede, não tropeçaria em nenhum obstáculo e cairia no corredor ao lado; tinha um caminho reto e vazio até ele.

Merda, merda, merda merda…

Bell não conseguia dizer mais o que estava ouvindo, a pulsação de seu coração acelerado se misturou com a da parede, se misturou com os passos da criatura e aos soluços que saiam daquele rosto distorcido que parecia ter sido cortado no meio. Conseguia vê-la mais claramente agora que entrou na fraca luz ao fim do corredor, e preferiria que tivesse continuado se questionando o que ela era.

Os passos eram ridiculamente curtos e lentos. A criatura mal tinha força o suficiente para arrastar seja lá o que estava grudada em suas pernas, e isso apenas tornava as coisas piores. Ocuparia todo o corredor em poucos segundos.

Aos poucos, Bell conseguiu voltar a distinguir os sons. A testa ainda ardia de medo, a parede ainda pulsava, a criatura ainda chorava. Em poucos passos, ela cobriria a entrada para o outro corredor, e então ele não teria saída.

Bell se inclinou para frente, a mão alcançou a pistola, ainda não acreditando no que iria fazer.

Levou o cano da arma diretamente para sua cabeça, apertando com força logo acima de sua orelha esquerda; a respiração cada vez mais pesada. Atire, atire…

Bell grunhiu, mas não puxou o gatilho. Quando se arrependeu do que havia feito, já estava em pé e correndo. As costas bateram contra a sua única companheira pulsante na parede, e ele deslizou para o corredor antes que a entrada fosse bloqueada.

Então, ele cometeu o erro de olhar para trás.

A criatura não mostrou sinal de ter o ouvido, ainda andava em direção ao fim do corredor, de onde provavelmente não sairia por algumas horas. O erro foi ter visto ela.

A luz estava diretamente acima dela agora, e o que saia da parte de trás de sua cintura não era uma parte deformada de seu próprio corpo, eram outros corpos.

Uma mão se estendeu para ele, arranhando o ar tão lentamente que parecia o movimento de um bebê recém nascido, mas Bell tremeu de medo.

Viu uma, duas, três, todas conectadas umas às outras de maneira diferente num emaranhado de braços e pernas. Imaginou que todas deviam ter se encolhido em um canto quando foram transformadas e assim foram ligadas umas às outras.

Então, ele viu a quarta. Era quase como o núcleo daquela coisa, sendo espremida e sufocada pelas outras três, apenas um terço do rosto abrindo caminho pelos ombros que pareciam tentar escondê-lo, lutando para respirar.

Bell se virou, balançando a cabeça, quase saiu correndo pelo corredor. Idiota, retardado, não faça merda.

Conhecia o interior da nave pelas diversas rondas que fez. Era o mais forte e o mais preparado para lutar entre todos da Quago, o único com treinamento militar, por isso havia se tornado uma espécie de guarda.

De onde estava, muitos caminhos seriam difíceis de se passar. As maiores salas com certeza estariam cheias delas. Pense, pense, onde vai? O que tem desse lado?

Bell coçou a nuca, olhou de relance para a criatura no fim do corredor, se certificando de que não o pegaria pelas costas, só então percebeu que estava encharcado de suor.

A ala medicinal fica muito longe. No segundo corredor a partir daqui pode virar à direita… não, não pode.

Juntando sua coragem, Bell deu um passo para frente, o passo mais lento de sua vida. Pisou lentamente sobre uma parte onde ainda havia chão o suficiente para seu pé direito, ainda tinha medo de pisar na carne e ela se mexer, ou ele escorregar. Assim, ele lentamente fez seu caminho até o fim do corredor, tentando completar o mapa da nave em sua cabeça.

Quando estava se inclinando para olhar dentro de uma sala, ouviu um passo; a nuca esfriou em reação. Se virou, mas ainda estava sozinho no corredor. Olhou pela fresta da porta aberta e não viu nada, estava escuro demais.

Então, se repetiu. Um passo. Um passo de bota.

O que aconteceu com as roupas deles?

O medo havia o impedido de perceber isso antes, mas nenhuma das que viu até agora usavam roupas. Cresceram demais e rasgaram tudo? Então…

Ouviu o terceiro passo, estava se aproximando do corredor logo ao lado da porta de onde havia acabado de olhar. Bell apontou a arma na direção, tentando fazer os braços pararem de tremer.

A silhueta surgiu, Bell a viu primeiro. Levou alguns passos para confirmar, mas aquele não estava distorcido, não havia passado por uma mutação grande o suficiente para se tornar irreconhecível.

Ele parou, levantando as mãos em reação, estava tão escuro de onde vinha que só percebeu a arma apontada para ele quando estava a menos de um metro de distância.

Bell levou o indicador até a boca, reconhecendo o garoto. Os olhos arregalados e o rosto fino que parecia ser feito de puro osso pertenciam à Rom.

O garoto começou a tremer, balançando a cabeça sem parar; a boca se abriu e fechou algumas vezes.

Covarde de merda, não faça barulho, se quisesse te matar já teria feito.

Bell abaixou a arma lentamente, assentindo para ele. Rom levou vários segundos para abaixar os braços, estava assustado. Em seguida, fez um sinal com a cabeça, pedindo para que se aproximasse.

Rom andou até ele, os passos fazendo menos barulho dessa vez. Os olhos foram em direção a sua arma, não a seu rosto.

— Está sozinho? — sussurrou Bell, abaixando o rosto e falando diretamente em seu ouvido.

Rom não disse nada, apenas assentiu.

— Onde estava? Por que não ficou lá?

O garoto se aproximou de seu ouvido, com medo de fazer muito barulho.

— Banheiro, não tinha nada pra come—

Rom cortou a própria frase, um movimento na visão periférica chamou sua atenção, só então percebeu o som de algo batendo. Os olhos se arregalaram ainda mais quando a viu.

Ele deu um passo para trás, apontando para o fim do corredor e balançando o braço. Bell o segurou com a mão livre, e ele começou a se debater.

— Está com eles, está com eles — disse Rom, agora em um tom mais alto.

Bell balançou a cabeça desesperadamente, vai fazer barulho, idiota, fique parado.

Podia ser muito mais forte do que o garoto magricela, mas uma das mãos estava ocupada segurando sua arma. Rom deslizou para baixo como uma cobra e saiu de seu aperto, caindo de costas e espalhando um alto som metálico pelos corredores.

A nave pareceu cair em silêncio total pelos próximos segundos. Rom ainda tremia no chão, mas ficava no mesmo lugar, também tinha percebido o que acabara de fazer.

Meio minuto depois, quando Bell se convenceu de que todas as criaturas eram completamente surdas, começou a ouvir passos. Diversos, a maioria vindo principalmente pelo corredor de que Rom apareceu, na direção dos banheiros e do refeitório, os lugares que mais deviam estar cheios delas.

Olhando por cima do ombro, viu que até mesmo a que estava no fim do corredor tentava vir em sua direção. Era longa demais para isso, então não parecia estar conseguindo fazer muita coisa além de se enrolar em sua própria “cauda”.

Covarde desgraçado.

Bell começou a andar na direção oposta de onde vinham os passos. Viu Rom tentar se levantar e escorregar, encarando alguma coisa que surgia no fim do corredor.

Os passos foram rápidos. Sentia vontade de correr o mais rápido possível, mas isso o mataria.

O coração pulou uma batida quando virou o primeiro corredor, com medo de que fosse surpreendido com algo; felizmente, estava vazio. Bell sentiu um repentino cansaço, o corpo parecia estar doendo mais agora que finalmente havia se exercitado depois de quase três dias. O mapa da Quago ainda passava pela sua cabeça, as cápsulas de escape ficam logo à direita, uma pena que os filhos da puta me de…

Bell parou repentinamente, estreitando os olhos. Não estava ficando louco, uma das cápsulas ainda estava lá.

Uma rápida batida em suas costas o fez acordar. Bell caiu violentamente para frente, batendo o rosto com força contra o metal. Uma criatura caiu em cima dele antes que terminasse de se virar.

As unhas se cravaram em seu pescoço, ele gritou enquanto batia no seu rosto com o cotovelo, a carne que atingiu parecia uma bolsa d’água.

Grunhindo, Bell trocou de posição com o humanoide. O cano da arma deslizou para dentro dos dentes que tentavam mordê-lo, soltando um ruído desconfortável antes que puxasse o gatilho, explodindo seu cérebro para fora.

Uma das unhas ainda estava presa em seu pescoço, e quando a puxou com força, sentiu como se a criatura ainda estivesse viva, um pedaço de carne ficou preso debaixo da garra.

Bell cuspiu baba enquanto se levantava. Ouvia os passos logo atrás dele, alguns muito mais rápidos do que outros. Não ouviu Rom gritar, talvez tenha se escondido em algum lugar. Sem olhar para trás, ele correu até a cápsula.

A mão foi direto para a válvula da porta, o número “04” vermelho lhe dizia que ela ainda tinha energia. Estava tão fraco que a válvula parecia enferrujada há anos.

Por quê? Questionou Bell, se lembrava muito bem de quantas pessoas correram em direção as cápsulas, tinha assistido enquanto as duas primeiras se soltarem da nave. Fiquei sentado naquela merda por três dias com a cápsula aqui do lado?

Quando a porta finalmente abriu, Bell caiu para dentro do minúsculo corredor que existia entre a nave as cápsulas, não podiam deixar um grande buraco aberto para o vácuo dentro da nave. A segunda porta foi tão difícil de se abrir quanto a primeira, mas não se importava de cair para frente de novo. Porém, quando caiu, sua pergunta foi respondida.

Um humanoide de seu tamanho o empurrou com os braços, quase o empurrando para fora da cápsula. Sua cabeça pendeu para trás, por pouco não foi ao chão.

Com o canto do olho, Bell viu silhuetas se mexendo atrás de si. Gritando, puxou o gatilho duas vezes sem mirar enquanto se jogava para frente com mais força do que esperava ter nessa situação.

Os dois caíram para dentro da cápsula, mas sua primeira ação foi levantar e se jogar contra a porta. Gritou de dor quando o fez, sentindo como se o machucado no pescoço tivesse acontecido uma segunda vez. Com um som mecânico alto, a porta se fechou.

Uma pressão surgiu em seu ombro. A mandíbula tinha tanta força que parecia que poderia esmagá-lo em poucos segundos.

Bell chutou desesperadamente, mas a criatura continuou a arranhar suas costas e mordê-lo, não conseguia mirar com o braço em tanta dor. Quando finalmente conseguiu se mover o suficiente, ele chutou a porta com toda a força que tinha, se jogando para trás e caindo no chão novamente.

A mandíbula se desprendeu, levando ainda mais carne consigo do que a garra. Bell foi forçado a passar a arma para a mão esquerda, sentia como se todas as veias do braço direito estivessem sendo puxadas para fora.

Ele esperou, suando e grunhindo, enquanto a criatura rastejava até ele. A idiota deixou que colocasse o cano em sua testa como se não fosse nada, e no próximo instante seus olhos estouraram enquanto caía como uma marionete sem cordas.

Bell largou a arma e se deixou ir ao chão. Ouvia vários sons vindos do outro lado da porta, em especial o ruído estridente do metal sendo arranhado, espalhando um arrepio constante por sua espinha.

Estava encharcado de suor e sangue, a criatura já estava machucada quando entrou e pintou metade de sua roupa de um tom escuro de roxo. Retardado, devia ter ficado com a armadura!

A adrenalina ainda corria incessante por seu corpo, mas Bell finalmente prestou atenção no resto da nave. Havia uma outra daquelas em um canto da sala, e dois humanos no outro, logo ao lado da porta, mesmo que coubesse uma dúzia ali, apertados, mas caberiam.

Ambos estavam destroçados demais para serem reconhecíveis; um deles não tinha nada abaixo da cintura, talvez tenha sido comida pelos últimos três dias. O outro tinha a cabeça afundada dentro dela mesma, mas a placa de identificação ainda estava lá, “Nora”.

Bell finalmente percebeu o cheiro, virando de lado enquanto cuspia para não se afogar no próprio vômito. A criatura escorregou e soltou suas pernas.

Se levantar foi difícil. A dor no braço era tão repugnante que preferiria não ter ele. Bateu com força no botão vermelho de “LANÇAR”, fazendo a cápsula se soltar enquanto procurava pelo armário embutido em uma das paredes. Encontrou muita coisa que podia usar: analgésicos, bandanas e outros itens medicinais, exceto uma serra pra cortar essa merda fora.

Enquanto engolia alguns comprimidos com nada mais além de baba, o constante piscar laranja de “PILOTO AUTOMÁTICO” no painel chamou sua atenção, até mesmo a expressão de dor sumiu de seu rosto por um breve momento.

As cápsulas foram feitas para seguir até a Nave Mãe automaticamente, devia ter combustível o suficiente para chegar nela, mas não foi isso que quase o fez se arrepender de sua decisão.

Bell pouco sabia sobre o que exatamente era a amostra que haviam cultivado no laboratório além de que foi coletada no último planeta inabitável que visitaram, mas sabia que a transformação se espalhava de indivíduo para indivíduo.

Comida não era um problema, tinha uma farta seleção de restos humanos e restos de um possível demônio aos seus pés. Porém, se a cápsula tivesse energia o suficiente para chegar até a Nave Mãe, podia estar levando aquilo para o último refúgio estável da humanidade.

A infecção, o que quer que fosse, certamente estava impregnada naquele lugar. Também devia estar dentro de seu corpo, não podia levá-lo até lá. Não vivo. Quando se deu conta, a pistola já estava apontada para sua cabeça.

Fechou os olhos e puxou o gatilho, mas ouviu apenas um clique fraco.

Quatro balas, pensou Bell.


『。。❆。。』

6 de Julho de 2019 às 19:01 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Deryk Warrel Escritor amador, INTP-A e infelizmente otaku.

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