Somewhere Over The Rainbow Seguir história

laiana

Em homenagem àqueles que há 50 anos deram o primeiro passo na luta contra a homofobia. Através dos personagens fictícios, a história retrata o drama real dos jovens LGBT+ na década de 60 e como eles acabaram envolvidos na Revolta de Stonewall.


LGBT+ Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#OrgulhoLGBT #BaseadoEmFatosReais #RevoltadeStonewall #LGBT+MC #lgbt+
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Maio de 1967

Por mais movimentadas que estivessem as ruas de Greenwich Village ao anoitecer daquela sexta-feira, Alan jamais havia se sentido tão sozinho. Sentia-se imensamente desolado, como um barco à deriva no meio do oceano. Enquanto chorava, seus passos distraídos carregavam-no para algum lugar, mas ele não fazia ideia de onde. Afinal, para quem não tem um destino em mente, que diferença faz o caminho tomado?

O garoto sentou-se à beira da sarjeta quando as lágrimas tornaram-se tão abundantes que não era mais possível enxergar o caminho por onde andava. Alan abraçou a mala com poucos pertences, se dando conta de que aqueles eram agora os únicos que possuía.

Tudo o que tinha havia ido por água abaixo por descuido dele. Por que foi deixar aquele maldito diário aberto em cima da cama? Por que havia começado a externar aqueles pensamentos proibidos, mesmo que os mantivesse apenas para si?

– Hey! – O garoto foi dispersado de seus pensamentos com um sobressalto. – Me desculpe, eu não queria te assustar...

Alan observou a figura à sua frente. Era um rapaz pouco mais velho que ele, porém sua postura demonstrava uma maturidade que ele próprio não tinha. Sentiu vergonha e quis esconder as lágrimas.

– Eu já estou de saída... – ele levantou-se apressadamente.

– Não vá! – O outro pediu.

– Eu preciso ir para a casa... – Alan mentiu, dando-lhe as costas.

– Não, você não vai. – O estranho contornou-o para encará-lo novamente.

– Me deixe em paz! – Com a proximidade, Alan pôde reparar que o outro garoto estava armado. – Ou então me mate de uma vez!

Os olhos do mais novo voltaram a se inundar. Ele parou de tentar fugir do estranho. A morte, naquele momento, seria para ele como uma dádiva.

– Eu não vou te matar, se acalme! – O garoto pôs as mãos nos ombros de Alan. – Mas acho que você talvez queira um lugar para passar a noite, pelo menos até encontrar algo fixo...

Alan encarou-o com desconfiança. Aquele estranho estava o espionando?

– Já me deparei com inúmeras pessoas que foram expulsas de casa, eu diria até que faz parte da minha rotina... – explicou-se. – Me chamo Filipo Lombardo e você?

– Alan Brook... – eles apertaram as mãos. – Por que está sendo tão gentil comigo?

– Se você não gosta, eu posso parar. – Filipo cruzou os braços.

– Não! Não é isto... – Alan tentou se corrigir desconsertadamente, o que arrancou risos do outro.

– Tudo bem! Venha comigo, vamos conversar em algum lugar mais apropriado.

Alan pareceu ponderar se deveria aceitar o convite do outro. Concluiu rapidamente que não havia nada a perder acompanhando-o.

– Obrigado... – o garoto finalmente esboçou algum sorriso.

– De nada. – Filipo guiava-o. – Então... como veio parar aqui?

– Bem... – Alan analisou o quanto deveria contar. – Foi uma briga feia com os meus pais. Eu cheguei em casa e minha mãe entregou-me esta mala já pronta e alguns poucos dólares. Me disse para ir embora antes que meu pai chegasse do trabalho, senão as coisas ficariam ainda piores. – As lágrimas ressurgiram. – Eu fui idiota, quis me explicar, pedir desculpas... perdi tempo...

– E seu pai chegou... – Filipo completou.

– Ele entrou quebrando tudo e me perseguiu... queria me matar... minha mãe não fez nada para impedir...

O italiano parou de caminhar e estendeu-lhe um lenço. Esperou pacientemente até que Alan recomeçasse a falar.

– Por sorte, passou um ônibus e eu consegui fugir nele. Nem percebi para onde ia até estar aqui. – Ele finalizou sua narrativa.

– Eu nunca passei pela experiência de ser expulso de casa, apesar de já ter quase sido morto também... mas vai ficar tudo bem.

O mais novo sentiu um frio na barriga ao escutar aquilo. Com que tipo de gente ele estaria se metendo? O que Filipo desejava de si?

– Aonde estamos indo? – Alan tentou não parecer inseguro.

– Stonewall Inn. E estamos quase chegando.

Os garotos viraram uma esquina e avistaram o letreiro do bar mencionado. Um homem espiou-os através de uma portinhola antes de permitir que eles entrassem.

O bar definitivamente não era bonito e parecia não haver muita preocupação com higiene lá também. Era certo que Alan nunca entraria em um lugar daqueles em outras circunstâncias. No entanto, havia algo de reconfortante naquele ambiente. Talvez fosse a música animada ou o grupo de pessoas que se começava a se juntar ali.

– Olá, Lisa! – O italiano cumprimentou uma mulher com estilo bastante masculinizado.

– Achou aquele filho da puta do Angelo? A bebida que temos aqui não vai durar nem até meia-noite, Filipo!

– Não! E eu vou matar aquele desgraçado se ele não tiver um bom motivo para o sumiço!

Alan não sabia dizer qual das duas figuras o intimidava mais. A ameaça do italiano lhe parecia bem real, enquanto a tal Lisa também não parecia estar para brincadeiras. Apenas a coragem dela de se vestir daquela forma já era suficiente para mostrar que ela não temia as consequências de infringir a lei.

– Quem é o garoto aí? – A mulher sorriu, mostrando-se amigável. – Desculpe a confusão, estamos tendo um pequeno problema aqui... – Lisa falou como se realmente não fosse nada de mais.

– Eu me chamo Alan.

– Ele foi expulso de casa. – Filipo comentou.

– Pobrezinho! Eu sei como se sente, eu também fui expulsa quando eu tinha mais ou menos sua idade.

– Eu disse que conhecia bastante gente que também passou por isso. – O italiano sorriu. – Vamos beber, e você pode se animar um pouco, ou pelo menos afogar a tristeza. Hoje é por minha conta, aproveite!

– Cheguei! – Um homem apareceu à porta.

– Angelo!

– Antes que você abra um buraco na minha cabeça, Filipo, permita-me esclarecer o que houve. – Ele não estava nada nervoso ao dizer aquelas palavras, como se fosse um hábito receber ameaças.

– Fale!

– Tive que lidar com alguns tiras. Sorte minha que havia gente da Família por perto e pude contar com a ajuda deles.

– Esses desgraçados estão nos custando cada vez mais caro... – Filipo reclamou, acendendo um cigarro. – Traga logo a bebida para cá, Angelo!

Alan ainda estava um pouco perdido. Um bar onde homens permitia-se que homens dançassem e onde as pessoas vestiam o que desejassem. A atitude de Filipo, que por algum motivo, estava gostando de ter por perto, mesmo sendo óbvio que havia perigo em sua companhia. Tudo aquilo era demais para um único dia.

A dupla sentou-se nos bancos ao redor do balcão e Lisa logo serviu uma dose para cada um da bebida amarelada trazida por Angelo. Alan, que não estava acostumado, quase engasgou ao sentir o álcool queimar sua garganta. Ele não possuía idade para beber, mas não achou prudente recusar a oferta.

– Então você é o dono daqui? – O garoto perguntou.

– Não exatamente. O Stonewall Inn pertence à Família Genovese, da qual eu faço parte. Mas meu pai e o Don são bastante próximos, então sempre estou por aqui.

– Genovese... – Alan buscava aquele nome na memória. – A máfia!

– Claro. Apenas a Cosa Nostra poderia manter um lugar como este funcionando.

– Por que? – O outro perguntou inocentemente.

– Ora, olhe à sua volta! O tipo de pessoas aqui, somos todos indesejáveis, não somos? – Filipo carregou a palavra “indesejáveis” com todo o sarcasmo que possuía.

O grupo ali aumentava conforme a noite progredia. Pessoas travestidas, homens dançando, mulheres se beijando... Alan não imaginava que existia um lugar onde tudo isso era possível. Tudo ali era ilegal ou imoral.

– E os policiais?

– Digamos que nós sabemos como manter os cães do governo sob controle...

– Então é seguro estarmos aqui? Só para confirmar...

– Nada que realmente valha a pena neste mundo é seguro. Apenas relaxe e aproveite, Alan! – Ele fez um sinal para Lisa encher seus copos novamente.

– Talvez você tenha razão... – o mais novo sorriu, elevando seu copo e fazendo-o se chocar contra o de Filipo.

– À seu recomeço! – O italiano desejou.

Alan sentia-se leve por causa do álcool e estava gostando da sensação. Uma música dançante começou a tocar e ele a reconheceu prontamente.

– Beatles!

– Você também gosta? – O mais velho sorriu.

– E quem não gosta? – Alan se levantou animadamente.

– Vamos dançar! – Filipo correu para a pista de dança.

O garoto deixou suas inseguranças de lado e parou de hesitar. Foi até o italiano e se soltou como nunca antes havia feito em público. Com passos improvisados, ambos se mexiam ao ritmo de “I Want To Hold Your Hand”. Alan ria sem motivo algum, apenas deixando que o seu corpo agisse sob o efeito inicial da embriaguez.

– Obrigado por me trazer até aqui Filipo. – Ele aproximou-se para que o outro escutasse. – Eu nunca me senti tão vivo!

Os olhos dos dois se encontraram em meio àquela pouca luz. O coração de Alan batia forte e ele desejava sanar todas as suas vontades reprimidas. Filipo compreendeu suas intenções e beijou-o intensamente. Pela primeira vez na vida, o jovem Brook não se importou com mais nada além de sua felicidade e entregou-se a si mesmo tanto quanto ao italiano.












29 de Junho de 2019 às 00:26 0 Denunciar Insira 5
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