O Corvo da Noite Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

Uma forte tempestade faz Pedro desistir de sair de casa. Na noite solitária ele recebe a estranha visita de um corvo que, com palavras familiares, evoca traumas ocultos do passado.


Conto Todo o público.

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O Corvo da Noite

02/06/2004

Querido pai,


Sei que agora você deve estar bem longe, perdido em suas andanças pelo mundo. Você sempre foi avesso às inclinações que minha mãe e meu irmão nutriram durante os anos pelas artes das magias antigas e pela alquimia. Sabes que jamais o julguei quando nos deixou, pois também partilho dessa tua opinião. E, se continuei os seguindo durante seus experimentos e convívio, o fiz apenas devido à uma inércia apática e um amor estranho por eles.

Sabe que a devoção maior de meu irmão e da minha mãe -e que os correu durante tempo e fez com que o senhor se afastasse- era a obscuridade da vida humana e os mistérios que a envolvem. Embrenharam-se por muito tempo naquele porão em tentativas falhas de transmutação humana e nos estudos de espermatozoides de diferentes espécies para a criação de homúnculos vivos e, quem sabe, inteligentes. Só eu sei quantas vezes o assisti descendo por aquelas escadas -que mais me parecia um portal para um mundo estranho- com carregamentos de materiais químicos, animais mortos ou enjaulados, ferramentas, frascos e tantas coisas das quais não sei o nome. Claro que isso jamais deu o mínimo resultado. Ou era o que eu pensava, até alguns dias atrás.

Fiquei aliviado quando, frustrados, finalmente desistiram disso tudo. E comemorei quando meu irmão se mudou para a Alemanha acompanhado de sua nova mulher, que foi capaz de dissuadi-lo desses seus gostos excêntricos. Ela é bonita e inteligente, pai. Você deveria vê-la um dia.

Acabei ficando sozinho aqui na cidade, cuidando da mamãe em nossa casa. Ela já não estava andando muito bem. A velhice a consumia. Eu via a inteligência se esvair como um pedaço de papel tocado pelo fogo. Ela falava sem parar com o vento, dizendo coisas sobre o tempo, experimentos antigos e sobre sua própria morte. Quando íamos dormir, eu a ouvia por trás da porta trancada -tinha medo de acordar e vê-la parada ao lado da cama um dia. Escutava seus passos rangendo pela casa de um cômodo a outro; zanzando pela casa à noite com uma faca e alegando estar vigiando o lugar para que cosias -ela nunca me dizia exatamente o quê- não aparecessem. Dizia estra me protegendo. Via sombras por trás das janelas, escalando as paredes do prédio e arranhando as vidraças. Um dia, quando entrei em seu quarto para arrumá-la, encontrei-a parada. Seu dedo ossudo apontava para o chão abaixo do armário. Seus olhos estavam vibrantes, parecendo assustados com algo. Perguntei-lhe o que estava acontecendo. Sem se virar para mim, ela respondeu: “...o menino. É a cova do menino. Está vendo os ossinhos dele? Bem ali!”.

O médico dizia que delírios desse tipo eram comuns em pessoas com a demência já avançada e que dificilmente eles se intensificariam, apesar de não arrefecerem. Além disso, havia remédios fortes que ela tomava ao longo do dia e que também causavam alucinações e grandes períodos de sono.

Certo dia, ela simplesmente desapareceu.

Se lhe escrevo esta carta manchada por lágrimas de angústia, pai, é porque já estou desesperado. E para que você saiba o que anda me acontecendo, não só de excêntrico, mas também de rotineiro e ordinário. Pois sinto sua falta, e não quero que se esqueça de mim. Temo estar precisando de um porto seguro para não perder os parafusos. Alguém com quem conversar. Portanto, direi tudo.

Então, conto-lhe: esse foi o dia em que, chegando solene e familiar, um corvo me veio de mansinho, batendo à minha janela com seu bico curvado em um ataque sem parar.

Eu estava quase pronto para sair de casa quando as tímidas nuvens que flutuavam no alto pela tarde ganharam coragem e se aglomeraram por cima das casas de dois andares que se enfileiravam ao longo da rua vazia, formando um manto cinza escuro no céu que despejou gotas de chuva sem economizar. Eu já conseguia até ver –e acho que essa é uma imagem que você vai se lembrar bem: as ruas da entrada da cidade se enchendo de água aos poucos, até que os carros passassem com suas rodas espirrando água suja para todos os lados. Os bueiros transbordando água como feras engasgadas. O peixe-estátua -um horrível monumento de boas-vindas, é o que sempre achei desde criança, lembra? - cada vez mais próximo de se tornar um peixe de verdade e se perder na água acumulada. O nível do mar se elevando até que os pescadores corressem às pressas do píer consumido pela água salgada -e isto nós fizemos muito durante nossas pescarias. No dia seguinte, os jornais regionais noticiariam o sumiço de um ou dois idosos que não tiveram força o bastante nas pernas para correr quando o caos se derramou pela cidade em forma de chuva. Fico me perguntando se outros lugares achariam estranho a normalidade com que falamos dos desastres trazidos com a água. Ou se cada cidade tem de se ocupar com seus próprios desastres. Mas a água é nossa constante companheira. E você sabe, mesmo em dias com chuvas mais tranquilas pode-se ver a maneira brincalhona como o mar flutua amigável e convidativo ao longe.

Naquela noite eu planejava visitar o circo itinerante que se instalara na cidade durante alguns dias. Andaria em alguns dos brinquedos -os que tivesse coragem-, comeria um algodão-doce, passearia um pouco pelo centro e, se eu desse sorte -eu rezava para que sim, e como rezava-, até mesmo encontraria alguém com quem conversar. Sabe, pai, as coisas têm sido meio solitárias por aqui desde que eles se foram. Contudo, meus planos foram arruinados e teriam que esperar até que o cara lá de cima desse uma trégua. Sair com essa chuva seria inviável para alguém sem carro como eu. Além disso, o parque era a céu aberto, eu não conseguiria aproveitar nada, de qualquer modo.

Frustrado, arranquei a roupa do corpo e me joguei no sofá. Liguei a querida tevê de tubo da Philips da mamãe -lembra-se dela? Ainda funciona- e escutei o chiado exageradamente alto que aquela grande caixa cinza produzia quando passava pelos canais que estavam fora do ar. Eu odiava aquele barulho. Àquela hora, dificilmente encontraria algo para assistir que não fossem novelas, jornais ou programas de fofoca dos artistas.

De onde eu estava, podia ouvir as gotas de chuva batendo contra a casa. Fustigando os vidros em uma competição irritante com o chiado monótono da TV. O vento assobiava pelos buracos e frestas, balançando as molduras de madeira das janelas como um prisioneiro impaciente que chacoalha as grades de sua cela. Mesmo que eu me esforçasse para fechar todas as entradas, uma corrente de ar frio insistia em me encontrar.

Dando a volta pela terceira vez nos incríveis onze canais que a antena conseguia captar em meio àquela tempestade, decidi desistir e deixar o primeiro programa que aparecesse me conquistar. Se eu tivesse sorte, conseguiria tirar um cochilo antes que pudesse ir muito longe neles.

Meus olhos acompanharam por alguns segundos a repórter. Chuviscos cinzas desciam aos montes pela tela. A imagem se contorcia de vez em quando devido à interferência, dando uma aparência bizarra à mulher.

Depois de um tempo, a imagem melhorou. Mas, quando isso aconteceu, eu já não prestava mais atenção. Minha mente havia voado para longe, deixando aquilo tudo para trás. Daquele ângulo, analisei o lugar onde eu havia morado durante todos os anos da minha vida. Percebi -não pela primeira vez, mas depois de muitos anos-, o quão grande era a nossa casa. Tinha perdido essa noção que tanto me encantava quando criança; quando tudo era grande e impressionante e cada aposento formava uma ilha de zonas inexploradas. Quando meu irmão e eu corríamos de você enquanto mamãe fazia a comida. Uma simples caixa de papelão se tornava uma base secreta russa, com painéis e aberturas para o campo aberto e, se você se esforçasse um pouco -e eu me esforçava bastante-, poderia encontrar até mesmo mísseis balísticos e radares. E ali estava eu, sentindo tudo isso novamente. Não da mesma forma que antes, mas ainda assim, o lugar parecia espaçoso demais para mim outra vez. Me parecia que tudo era meio desproporcional, como se não houvessem quinquilharias e móveis o bastante para preencher o ambiente. Não preciso descrevê-lo para você, porque acho que se lembra muito bem de tudo.

Confesso que eu estava aliviado -que Deus me desculpe por isso- com o sumiço de minha mãe. Sua mente já estava tão corroída que mal sei se seria certo chamá-la assim. Era apenas uma carcaça, entende? O cérebro já havia sido corrompido pela doença. Agora eu podia dormir tranquilo. É claro, eu sabia que ela devia estar morta a esse ponto, tive tempo o suficiente para me conformar com isso. Afinal, faziam 5 anos desde que ela desapareceu sem deixar vestígios, como se a chuva a tivesse levado para longe, lavando os rastros por onde passava. Desde então, entrei naquele porão apenas mais uma vez e apenas para selá-lo, intocado. Ela fazia falta. Muita falta. E ainda faz, pai.

Sentado no sofá, olhei para cima e encarei a luz fraca e amarelada que zumbia tranquila no teto. Talvez você não saiba, mas sempre tive preferência pelas lâmpadas de luz amarela. Acho que qualquer ambiente se torna mais confortável e elegante quando iluminado por elas. Já as brancas fornecem apenas um aspecto hospitalar apático e pálido para as coisas. Penso que é só você olhar para as varandas distantes dos grandes prédios luxuosos de condomínios para enxergar a verdade. Fitar os restaurantes iluminados como tochas à beira do mar. Os transatlânticos que flutuam no mar enrolados em pisca-piscas amarelados.

No fim, sou um romântico. Sempre senti falta dos tempos não vividos dos anos 50, da ambientação noir que via nos filmes. Da época em que cantores como Ray Charles, Ella Fitzgerald e as maravilhosas The Chordettes -nossa, eu adorava aquelas mulheres. Hoje só lhes tenho ódio- preenchiam os salões com suas vozes usando microfones estáticos que desafiavam qualquer um a permanecer parado. Quantas vezes eu e minha mãe não dançamos por aquela sala, estalando os dedos ao som de Mr. Sandman ou Hey, Good Lookin’, de Charles? Ainda consigo ouvi-las tocando magicamente pelo lugar. Chegando sem pedir como vagões de trem cujo o único destino era o passado. Ecos dos mortos. Agora eu não possa evitar um calafrio sempre que as ouço. Seria legal ouvir de você como era essa época. Quero dizer, ouvir de alguém que viveu tudo aquilo. Informações inúteis, né? Bem, achei que seria legal falar um pouco sobre meus gostos pra você. E foi isso que pensei enquanto estava deitado no sofá, então...

Que deprimente, eu pensava melancólico. É por isso que eu queria tanto ter saído de casa. Quando eu estava fora, não pensava nessas coisas. Odiava essas noites de sábado em que minha rotina tinha de ser pausada, deixando minha cabeça desocupada para que pensamentos estranhos viessem me entristecer. Imagens da mamãe vagando sozinha na chuva...

Tentando dispersar os pensamentos, levantei-me do sofá com um pulo e caminhei até a cozinha, ouvindo o barulho abafado da chuva durante todo o trajeto. O corredor funcionando como um funil para o vento. Um aviso para que eu não prosseguisse. Mas eu continuei. Não podia saber o que me aguardava naquele lugar.

Quando acendi a luz da cozinha -branca. Por que toda cozinha tem luz branca? -, percebi que algo se debatia pelo lado de fora na janela acima da pia. Não conseguia ver o que era. Estava muito escuro lá fora e a chuva não era de grande ajuda. Um zumbido baixo e frenético vinha dali. Pensei que aquilo lembrava o zumbido do bater de asas de mariposas, só que... mais forte? Não. Se existisse no mundo uma mariposa desse tamanho eu estaria ferrado. Mas aquilo que batia era muito pior.

Andei devagar até a frente do vidro molhado e, na ponta dos pés, apoiei as mãos na bancada, olhando para o parapeito encharcado: ali, negro como a própria noite, um corvo batias as asas escuras. Apenas um corvo, e nada mais. Seu bico grosso dava toques contra o vidro. Mas quando surgi, ele as interrompeu e me encarou com olhos negros. Meu deus! Queria poder gritar para que eu não fizesse aquilo! Aqueles olhos! Olhos dos infernos que ainda me acordam assustado no meio da noite!

Encarando-me, a ave negra movia a cabeça com rapidez, curiosa com a figura do lado de dentro. Como o pelo brilhava lustroso à luz branca da lua!

Eu não sabia o que deveria fazer. Pelo que conseguia ver, o animal parecia abatido. Empoleirava-se de forma estranha... desengonçada, sobre o parapeito. Lentamente, destranquei a janela, deixando apenas uma pequena fresta aberta. O vento frio da noite soprou com força surpreendente, derramando gotas de chuva gelada sobre minhas mãos e pelos móveis, mas a ave não se moveu. Eu esperava que ela saísse voando quando ouvisse o barulho da tranca ou da janela sendo aberta, contudo, ela apenas continuou me encarando com aqueles olhos demoníacos. Sentindo -ingênuo! - pena do animal, peguei um pano de prato velho e envolvi com ele o corpo da ave. Senti sua musculatura flexível por cima de meus dedos. Era mole demais. Lembrava um saco de areia fina. As penas pinicavam minhas mãos pelo tecido. Com cuidado, eu o trouxe para dentro. Meu rosto afastado temendo que a ave pudesse voar em cima de mim. Repousei o pano sobre a banqueta e encarei confuso a ave. Ela continuava parada.

“-Que tipo de coisa você come?”, eu perguntei, falando mais comigo mesmo do que com a ave.

Surpreendentemente, a besta negra me respondeu com um gralhar que era uma artificial imitação da voz humana: “Não. Corvoo. Olá. Coorvoo... Coooorvo”.

Ainda posso me recordar, pai! Recordo-me como se vivesse isso agora mesmo! Pude sentir mãos gélidas pousarem sobre a minha nuca quando ouvi aquelas palavras inesperadas romperem o silêncio de forma assustadora. Eu sabia que os corvos eram ótimos imitadores. Eram aves extremamente inteligentes e podiam imitar pessoas melhor do que os papagaios. Li isso uma vez em uma revista de curiosidades. Mas... aquilo? Aquilo parecia demais para mim. O timbre lembrava uma voz masculina grotesca, não exatamente humana, eu sabia. E sei ainda mais agora. Grotesca! A imitação era convincente, confesso, pois eu mesmo fui enganado por ela! Lembro que pude perceber que não passava de algo rude... primal. Com um sorriso amarelo, eu prossegui, embrenhando-me cada vez mais fundo em penhasco urgidos de uma loucura inescapável:

“-Ãn... Comida?”. Eu arrisquei, inconscientemente levando a mão à boca em uma imitação cômica de alguém comendo. Droga, eu estava totalmente vendido à ave! Agindo como uma criança diante de um cachorrinho!

O corvo então me encarou mexendo a cabeça levemente para o lado. Ele voltou a repetir suas palavras copiadas: “Corrvo... Corvo... Alô...”. E então, com o mesmo tom de interrogação, ele imitou a pergunta que eu lhe fizera: “Comida?”. Gralhando sem parar, repetiu com estupidez enquanto balançava as asas: “Não? Comida?... Comida?! Olá. Corvo”. Como não percebi? Como não percebi o que havia na forma como ele me imitava...

“-Tá bom, tá bom. Já entendi!”. Gritei, já me virando para procurar alguns grãos no armário que eu pudesse usar. Agachado, pensei no modo mecânico como a ave repetira: “Comida?”. Ali, percebi que aquilo não passava de nada além de um papagaio levemente mais inteligente. Que engano o meu. Olhei o que havia dentro da dispensa: pacotes de macarrão instantâneo, sal, açúcar, aveia, molho de tomate, milho, etc. Pensei que o milho seria a melhor escolha. Então gritei, meio vacilante: “ -Milho?!”

E a ave respondeu em um gralhar entusiasmado, quase uma gargalhada: “Milho!... Milho!... 67. Não. Olá. Corvoo... Milho”. Eu ignorava as palavras como um tolo. Se o senhor estivesse lá...

“-Milho, então”. Eu disse enquanto me levantava, escutando a ave repetir às minhas costas “milho... Certo... milho. Oi”. Por via das dúvidas, peguei o pacote de aveia também. Eu nunca comia aquela porcaria mesmo. Estragaria dali a um tempo.

Levei os grãos até a bancada e os amontoei em uma mistura ao lado da ave. O corvo encarou a ração parecendo hesitar. Sua cabeça movendo-se para cima e para os lados em um movimento que aparentava uma quantidade de frames menor. Sem se levantar, esticou o pescoço em direção a um grão de milho, segurando-o com força entre a ponta do bico como uma pinça. A ave levava os grãos de milho à boca com voracidade. Devia estar esfomeada. Muito esfomeada.

Quando sobraram apenas os grãos de aveia, o corvo apontou com o bico para o montinho e gralhou naquela voz robótica: “Milho... Milhooo”. O maldito corvo apontou com o bico para o milho quando queria mais!

Antes que eu pudesse repor a comida, a ave adquiriu um comportamento louco. Uma fera atacada pelo espírito da besta! A ave repetia obstinadamente as palavras de antes, voando desengonçado pela cozinha em um frenesi descontrolado: “Não. Comida? Corvo. Olá. 67”. O corpo se chocava com baques surdos pelas paredes e armários da cozinha. A coitada da ave parecia desorientada. Pensei que esse seria o comportamento de uma ave caso estivesse presa em um aposento com um bichano faminto. Mas eu não era um gato. E ela se comportara tão bem até o aquele momento. Então, o que acontecera? Seria aquilo parte das ações sem sentido de um ser irracional, movido tão somente pelos instintos? Foi nisso que acreditei. Hoje penso diferente, pai. Porque sei o motivo daquele voo desastrado de uma ave jovem em suas primeiras tentativas.

Se ela continuasse assim, a próxima batida deixaria uma mancha de sangue na área acertada. Talvez o corvo até se virasse atordoado para mim, o olho pendendo da órbita como uma bola de gude. A visão mórbida daquilo fez com que eu me movesse agoniado para pará-la. Não sei por que pensei nisso. Era um nervosismo estranho, daqueles que sentimos quando um carro passa raspando em um cachorro sem acertar. A pena que sentimos de um animal ferido...

Tentei acalmá-la, sem saber como. Obviamente, não obtive sucesso. Aquilo não era um cão para que parasse ao sinal de um “shhh!” incisivo. Nem sabia se pássaros respondiam comandos.

Com o tempo, a ave pareceu se recuperar da pane mental que a assolara e pousou. Eu a fitava-a com curiosidade, temendo que as penas escuras estivessem tingidas de sangue pisado. Mas, aliviado, vi que não havia nenhum sinal de sangue. Apesar de odiá-la de alguma forma confusa, sinto vontade de chorar quando penso o quanto ela sofreu tentando me avisar.

Parado sobre o chão da cozinha, algumas lembranças pipocavam inesperadas em minha mente. Lembranças de coisas que permaneciam escondidas no escuro da mente até que você precisasse delas ou que algo o faça se lembrar de que você as tinha em algum lugar. Recordei-me do poema famoso que vira uma vez em uma aula de literatura no segundo ano -embora eu ainda não o tivesse lido- chamado “O Corvo”. Eu o li depois desses eventos. Devorei os versos magistrais de Poe com espanto pela familiaridade que havia entre alguns aspectos de minha história e o poema. Principalmente, o estigma alado e maldito que habitava de modo fúnebre as duas histórias.

Havia também os dois corvos que vi servindo Odin em uma revistinha do Thor que li quando era menor. Os médicos da idade-média que vestiam máscaras que imitavam os bicos de corvos, entupidas com ervas de cheiro forte. E nos filmes, os corvos que surgiam como pestes aladas da morte, criaturas vis e aproveitadoras. Voavam em nuvens negras, preparando-se para o próximo cadáver. Afinal, eles surgiam por causa do cadáver ou o cadáver surgia por causa deles? Mesmo hoje em dia não ouso afirmar como certeza. E estremeço diante das consequências lúgubres que essa pergunta pode trazer consigo. Ao que me parecia, os corvos eram capazes de despertar e aguçar a imaginação de diversos artistas. Eles são os gatos pretos das aves, eu pensei. E, se os gatos pretos são, de fato, bruxas disfarçadas, o que então se esconde por trás do manto escuro dos corvos? Os pensamentos chegavam em mim sem avisar; entrando rapidamente sem pedir licença.

A forma como a ave se comunica tanto verbalmente quanto corporalmente era extremamente assustadora para mim. Verdadeiramente humana. Estremecendo de leve, pensei em como havia algo de realmente sinistro na forma como aquele corvo apontara com o bico negro o montículo de cascas de milho. “Milho”, a palavra ressoou em minha cabeça naquele momento. Ela ressoa agora. Ressoa sem parar até hoje. Era tão profunda. Eu podia acreditar que havia uma linha de diálogo. Eu acreditei. Talvez em algum lugar, escondido em algum canto escuro por ali.

Pensava que o que estava vivendo e sentindo devia ser parecido com a sensação que as pessoas que cuidam ou possuem chimpanzés e macacos-prego experenciam. A sensação de se estar olhando para um reflexo deturpado. Um reflexo que te faz retornar ao espelho sentindo o sangue gelar de repente, receando que, por um momento, por um ínfimo instante, você pudesse ter visto algo mais. Algo além. Talvez uma peça que, com alguns ajustes e um pouco de sorte talvez pudesse... Bem, não sei se estou me fazendo claro, pai, mas tento lhe fazer entender tudo que senti. Para que entenda minhas conclusões.

Retornando de meus devaneios imaginativos, perguntei a ave: “-O que mais você sabe fazer?”. Disse isso olhando bem no fundo dos olhos vítreos da ave, tentando encontrar uma passagem. Entretanto, a ave não respondeu. Com um pequeno salto, saiu voando pela cozinha, grasnando seu limitado arcabouço de palavras desconexas: “Coorvoo. Ajuda. Milhoo, milho, miilho”. Ainda no ar, ela atravessou a porta da cozinha, voando pela casa com asas um pouco mais controladas, mas não o bastante. O corvo rodopiou algumas vezes até que se empoleirou sobre o toca-discos que descansava no móvel da sala. Com pancadas frenéticas, começou a bicar o aparelho:

Irritado, gritei: “-Ei, ei! Para com isso! Xô, xô! Isso era da minha mãe, vai estragar!”

Compreende, pai? Era o toca-discos da mamãe. Sei que tudo ali era dela, mas aquilo era diferente, a ave queria me dizer algo sobre ela!

“-Você quer escutar uma música?”. Perguntei a ave, rindo um pouco com a estupidez da cena.

Ela não respondeu à minha pergunta diretamente. Desaparecendo da minha frente em um borrão preto, alçou voo até a moldura de uma alta janela, onde me subjugou com seus olhos tenazes. Assustei-me com aquele movimento brusco. Uma mudança abrupta de postura. Levantei minha cabeça em busca da ave. O que esse pássaro idiota tá fazendo?

Leia coma tenção, pai, porque é daqui que tiro minhas principais provas. Pois, se erguendo como uma sirene maléfica que anuncia a chegada do mau agouro, a ave negra emplumou-se e pôs-se a regurgitar palavras soltas no ar que voaram tenebrosas, ecoando desoladas pelos cômodos da casa.

Primeiro veio o já conhecido: “Não. Corvo... 67... Corvo... Milho”. Desses eu já estava farto e pouco me impressionavam. Mas, entenda, o que veio após uma pequena pausa do corvo é que é estranho. Acima de tudo, ele recitou: “Ajud... Sandm... bring-me... dre...”. Coletei as palavras com dificuldade, percebendo que se tratava de uma versão engasgada e confusa de Mr. Sandman que, ainda assim, foi o suficiente para que os pelos de todo meu corpo se arrepiassem; os fios dos dedos de meus pés se eriçaram, pontiagudos como estacas. Lembro-me de perceber uma estática fraca agarrando-se em meus calcanhares, acariciando meu cabelo e deslizando suave e carinhosa pela minha nuca. Peço para que acredite em mim, pai, porque o choque foi grande demais para que eu me esquecesse do que senti. Me lembro de tudo com muita vivacidade. Sou como uma vítima de um acidente automobilístico que consegue se recordar de cada instante no carro; cada sensação; cada terror!

Meu corpo se retesou feito uma agulha, aguardando que a ave prosseguisse com seu espetáculo sombrio. Como se encontrasse a ordem correta, ela arriscou mais uma vez. Pasmei ao ouvir a ave estranha e escura, soando agora tão clara e compreensível: “Mr. Sand... m-an, bring me a dream... Sandman.... Sandman.... bring. Bring”.

Naquele momento, meus órgãos pareciam grandes cubos de gelo. A reprodução da letra era tremendamente assustadora. O corvo conseguira emular até mesmo -ainda que rudemente- os tons da música. Não eram simples palavras secas, repetidas por um animal que tinha como característica a mimetização. Havia uma musicalidade sepulcral imbuída junto das palavras odiosas! É claro, não possuíam a mesma qualidade que a música original, mas, de alguma maneira obscura, estavam vivas ali. E era horrível. Soturnas, as palavras dançavam estonteantes em volta de mim; moscas sujas de Belzebub! Penetravam meus ouvidos sem parar! O próprio diabo as sussurrava friamente em meu cangote! Muitos me estranham quando reajo de forma exagerada à sussurro. Não posso mais evitar reagir de tal maneira. Pois temo que as palavras de algo morto batam do além à minha porta outra vez, como nessa terrível noite.

Tive de sentar. Foi difícil me mover, meus pés se agarraram ao chão como garras. Minhas pernas haviam se transformados em sacos d’água diante daquela voz que, penso agora, em muito lembravam as palavras metalizadas que soavam do computador do famoso físico Stephen Hawking, cheias de pausas demoradas e ansiosas.

“-O-O... O que foi que você disse?”. Perguntei atônito, sem me importar se falava com animal ou demônio. Questionada, a ave apenas crocitou o bom e velho: “Não. Corvo. Milho. Olá”. Minha pergunta fora inocente, e suspirei aliviado quando a ave perversa não se pôs a repetir a música. Não havia dúvida em mim sobre o que ouvira. Ouvi-a muito bem. Deus, como era terrível! Agora pode entender porque lhe disse que passei a odiar as The Chordettes e sua música!

Tudo aquilo me parecia uma grande piada de mau gosto! Um sonho estranho do qual eu despertaria em alguns instantes, descobrindo ser tão irreal quanto os filmes que assistia. De repente, uma repulsa pela ave se instaurou dentro de mim; crescia rapidamente, um fruto podre florescendo tóxico. Desejava que jamais tivesse deixado aquela ave vinda das trevas entrar em minha casa! Deveria tê-la deixado apodrecer do lado de fora; morrer dura sob o frio da noite, libertando-se finalmente de sua prisão. No outro dia, eu a teria recolhido com desprezo, sem saber nada sobre o que ela era. Minhas mãos que envolveram a ave com o pano de prato pareciam sujas, como se uma doença pútrida tivesse se agarrado a elas por meio da cria infernal da noite. A imagem viva e visceral de eu esganando a ave, pisoteando-a até que ela virasse uma pasta preta e opaca debaixo de meus pés me parecia deliciosa. O crec-crec irritante dos ossos se quebrando, espatifados em farelos. O senhor não sabe quanta raiva senti. Aquela maldita coisa me fazia recordar de coisas ruins demais!

Do alto ela me observava parecendo não entender o pavor que tamborilava em meus ouvidos. Seu bico se abria constantemente, liberando novos sons até então desconhecidos. Com insistência irritante e animada, declamava a frase: “Está me ouvindo?... bring me a dr... Não... dream. Corvo. Olá?”. O canto repetitivo de um passarinho, exceto que ali havia uma força condutora por trás. Um reflexo fantasmagórico de raízes profundas se esgueirava por detrás daquelas simples palavras. Em especial, naquela última frase desolada: “Está me ouvindo”. Sim, eu estava. E ouço-o cada vez mais, cada vez melhor, ouço-o todas as noites, quando bate insistente em minhas janelas ou portas, ó ave maldita!

Jogado no chão da sala, eu gritava as palavras sem falar. Fazia-as retumbar feito um cientista louco em um frenesi de epifania à beira de uma descoberta arrebatadora! Em meu peito ululante, meu coração acelerava cada vez mais.

Ergui novamente a cabeça e encarei o corvo. Meus olhos brilhavam com curiosidade. Nossos olhares se encontraram e um choque intenso rompeu de uma vez em todo meu corpo. Fitando-a, pude ver o que se escondia por trás das cortinas da irracionalidade. Digo que vi a centelha pálida da inteligência vibrar brilhante por trás daqueles olhos negros do corvo! Dançava bruxuleante em movimentos rápidos e aflitos. Um pedido de socorro.

Uma tontura forte se abateu sobre mim. O mundo se desmanchou em bétulas borradas e coloridas. Tive de fechar os olhos por alguns momentos. Na escuridão, mil imagens salpicavam o negror de minha mente. A voz do corvo ressoava horripilante, ecoando pelas crateras escuras de meu cérebro, penetrando avassaladora os esconderijos mais preciosos. Lá estava ele, uma sombra majestosa e rara, batendo as asas sem parar enquanto falava aos sete ventos: “Mr. Sandman... Ouvindo?... bring me a dream... Não. Olá. 67.”.

A raiva explodiu: “Saia daqui, maldito! Saia da minha casa, já!”. Gritei colérico. Desorientado, tentei afastar a criatura portadora de aflição. Tateei com dedos trêmulos o criado-mudo ao meu lado e arremessei a primeira coisa que encontrei em direção a ave. Uma caneca com café frio voou pela sala e se estilhaçou no parapeito da janela. Mas a ave agourenta nada fez, permaneceu imóvel.

Foi nesse momento em que, com um clic, a verdade se inflamou completa para mim; tão clara e destruidora que uma confusão frenética borbulhou em sobre meus olhos. Meu coração saltou subitamente para a garganta, alojando-se ali como uma bola de beisebol que tampava minha respiração. Sentia-o pulsar em uma velocidade impressionante, martelando meus ouvidos com pressão. Angustiado, temi que pudesse ter um ataque cardíaco ou algo parecido. Como não havia percebido antes? Deus!, como eu não percebi, pai?!

Tentei falar alguma coisa, mas emiti apenas um gemido gaguejado, débil e abatido. Processei com terror as palavras que o corvo repetira para mim ao longo da última hora. Pensei na música que ele havia cantado. A verdade daquilo era dura demais e minha mente fervilhava enlouquecida como uma locomotiva insana e desgovernada. Meu coração agora esmurrava a garganta, gritando sufocado em busca de ar.

A ave então lançou sobre a sala suas palavras derradeiras. E, no momento em que as ouvi, embarquei em um estado de torpor letárgico, aturdido pela verdade nefasta que deslizava para fora junto das palavras do corvo. Paralisado, eu as ouvi: “Olá... Olá... M... Oi.... Olá, Pedro... Olá”. A ave me chamou pelo nome! Mas como era possível? Como era possível que aquela desgraçada soubesse meu nome?! Minha inocente mente demorou para compreender. Não me culpe. Ninguém espera que algo assim possa ocorrer. E nós dois jamais acreditamos ou entendemos o que eles faziam!

Fazendo jus às lendas obscuras sobre corvos misteriosos, as últimas palavras se formaram em seu bico, evocando consigo a loucura da verdade crua que eu não percebera sob o meu nariz: “Olá... mãe... 67... Certo. Oi. Pedro... Olá... Milho”. Agora compreende?! Compreende porque senti meu sangue pesar como um tijolo ao escutar aquilo?! Por que senti minha garganta pulsar feito um tambor?! A dor que eu sentia não era física. Mas doía muito mais, fazendo arder uma angústia em meu peito.

Pai, pensei nas palavras e reuni isto: “67. Certo. Mãe. Não. Corvo. Olá. Pedro. Ajuda.”, era isso o que a ave tentava me dizer. Foi isso que me fez encarar com tamanho horror o pássaro que me contemplava com olhos vazios de desesperança lá do alto. A mamãe tinha voltado, pai. De alguma forma, estava ali.

Já enviei uma carta destas para meu irmão, mas ainda não obtive resposta. Espero que o senhor possa me ajudar, porque não sou inteligente ou corajoso o bastante para continuar. Não consigo encará-la sem chorar ou me esconder. Ela está lá fora, e não para de gritar por meu nome. Acho que está morrendo... Talvez essa experiência -se é que foi planejado- não tenha dado certo, pai. Seja lá onde o senhor estiver, pelo amor de Deus, me ajuda!

Com afeto,
De seu filho, Pedro.

29 de Junho de 2019 às 05:58 0 Denunciar Insira 3
Fim

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