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sophiagrayson Sophia Grayson

Dando um basta em tudo Radamanthys de Wyvern deserda e volta para sua vida normal, levando a reboque o restante dos Juízes. [AU] [Pós Guerra Santa Clássica]


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#comédia #saint-seiya
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Capítulo Único

Escuro, com o ar e clima pesados, a brisa trazia os gritos de desespero das almas no Campo de Punições. Terreno árido e sem vida, o que dominava era o enxofre da morte e a mesma.

Um loiro, imponente, com sua sobrepeliz negra e aterrorizante, caminhava aos tropeços com os pedregulhos sendo jogados para todas as direções.

Tinha acabado de chegar no Hades e de despertar como Kyoto da oitava prisão, chamada Kaina pelo que se lembrava e que tinha entendido dos gritos passados por sua comandante irritadíssima... como chamava mesmo? Ah, Pandora. Se sentia enjoado só de ver aquela garota metida. Típica riquinha.

Olhava para o mapa que tinha sido entregue pela jovem megera. Não entendia praticamente nada naquele hieróglifo que era o desenho. Virava de ponta cabeça e nada. Coçou seus olhos mel que ardiam pelo ar pútrido, seu corpo doía pelo peso da armadura diabólica, se sentia contaminado.

Tinha que realmente usar aquilo? Fedia para caramba.

Fitou os lados tentando se localizar. Nada. Nem aquele imbecil do Caronte serviu para algo, pois só sabia dos rios e resmungar do valor baixo que recebia. Se perguntava em que o otário iria gastar naquele mundo inferior dos infernos.

Espera... aquilo era o inferno. Começava a sentir saudades de seu lar na Inglaterra, o cheirinho de bolo de cenoura que sua madrasta fazia, do chá, dos abraços calorosos, do amor. De tudo. Queria estar lá, se formando, escutando as chateações de sua crush e a paquerando de longe.

Mas não... aquela bruxa apareceu do além, sequestrando-o para aquele mundo de deuses, Kyotos e blá, blá, blá. Agora tinha que julgar almas e lutar em nome de Hades em uma Guerra Santa contra Athena. Não era o que sonhava para sua vida. Hades que se lascasse. Rezava para a deusa da guerra ganhasse assim voltaria para casa mais rápido. Ou daria um jeito de fugir. Tinha que ter uma forma.

Pegou sua garrafa de um litro de sua bolsa de Your Name e tomou com gosto, fazendo uma careta para os esqueletos ao longe e o deserto sem fim. Buscou seus remédios controlados — para raiva, bipolaridade e ansiedade — e os tomou. Previa um grande estresse no futuro. E isso não era bom para ele, não se sentia bem. Tudo o que mais gostava era a tranquilidade e rotina.

Caminhou mais um pouco tropeçando em grandes pedras. O suor escoria por sua face, pregando sua franja repicada na testa. Queria um banho e uma comida quentinha. Deveria ser difícil de se encontrar naquele mundo que só tinha, bom, a morte.

Finalmente, depois de horas — seus pés já estavam doendo — encontrou placas de sinalização, completamente pichadas, no meio do “deserto", não tendo sentido para o jovem Kyoto, pois não tinha nada a distâncias infinitas.

Elas diziam:

Yomotsu, direita, em vermelho berrante, pichado: Deathmask esteve aqui; Minos esteve aqui /2; MOMMY HELPA.

Giudecca esquerda, com mesma caneta: DOURADOS = MARICAS, Maricas são vocês, ótarios ~ Sukiyo.

Prisões esquerda: Rada covarde, sumido, marica ~Zeros.

Aquilo era sério? Uma veia saltou em seu rosto branquissímo do europeu.

Tribunais, esquerda: Espectros lixo ~ Kanon; Vazam ~ Minos; Domínio dos divosos Kyotos; Ao Tártaro cambada ~ Minos, Aiacos.

Cocytos, direita: Queda de Athena ~ Pharaó; Queda dos vagabundos ~ Caronte; Quem é vagabundo? ~ Sukiyo, Minos.

Portal, direita: Bronzeboys cachorrinhos ~ Minos; escravos de profissão ~ Aiacos; femininos ~ Minos.

Rio Aqueronte, direita: Hades reina ~ Lune.

Na base de madeira acabada tinha mais pichações, no topo uma carinha triste, em sua extensão, o nome Aiacos bordava desleixado com riscos de dias abaixo e um “mamãe me tire daqui" em letras garrafais. Um coração delicado rico em detalhes, escrito “Lune" no centro. Um pentagrama. Orpheé e Eurídice em um coração. “Ah, que babação”. Minos, com mais riscos de dias. Pelo visto foi o primeiro a chegar na miséria. “Amor imortal existe”.

Povinho com mais falta de respeito. Nem preserva a sinalização. Se bem... que para que presar um lugar, se você foi forçado a ser um escravo de um deus e só deseja o termino de tudo aquilo? Tinham que se rebelar de alguma forma.

No chão visualizou a caneta vermelha utilizada para as artes. Pegou retirando a tampa, escrevendo nas placas: ME HELPA, Rady esteve aqui/3; Quem foi o satanás a dizer isso com minha pessoa? Virará espeto; Gelo reina, menos Hades; RUA, VAZA desgraça; Deusa Athena não cairá, me salvará; Rady I; “Boy” chato; amor imortal é o de mãe.

Jogou a caneta no chão admirando seu trabalho e sua transgressão. Seguiu para esquerda a caminho das prisões. A dele era a oitava né? Aff! Só de pensar já o cansava. Tudo naquele lugar o cansava. Torciu o oxigênio tóxico como um tuberculoso. Sentia seu pulmão querendo sair de seu corpo.

Tomou mais água, como viveria nessa desgraça?

O celular apitou, era sua mamãe, madrasta como queiram. Afirmava que tinha feito seu bolo preferido e que havia encontrado paçoquinha. Cobertura de morango com leite condensado.

Virou pedra. Ah, quem iria matar Hades era ele. Como esse deus dos infernos pôde fazer isso com sua pessoa?! Ah, não. Onde estava o Caronte mesmo? Ia voltar para casa. Absolutamente não queria perder sua vida naquele lugar tóxico que atentava contra a mesma.

Girou seus tornozelos, dando meia volta, procurando a saída. Rebolou o elmo caveiroso muito sem estilo e elegância — além de feder — passou pela sinalização e rabiscou “Bolo de cenoura é a vida".

Descobriu que tirar a armadura era muito difícil, a coisa grudou em seu corpo. Escutou — vulgo quase ficou surdo — um assovio, se é que poderia chamar aquilo assim.

No alto de um dos rochedos estava um albino de longos cabelos e franja que cobria os olhos — Como era que enxergava? — lembrava-o muito a de um cachorro que desconhecia o nome, com a trevosa sobrepeliz tão feia quanto a dele. Por que tudo naquele lugar tinha que ser feio?

— Já vai embora Rada? — perguntou o rapaz, pulando de onde estava, mas como não era imponente, caiu de cara no chão que provavelmente era culpa da farta franja — Ai, minha cara — resmungou levantando-se com ajuda do escorpiano, parecia uma ameba. Espera, ele se sentia como uma — Bom, já vai dar no pé?

— Mamãe fez bolo de cenoura e nada no mundo vai me fazer impedir de degustar essa obra prima — respondeu sério, como se fosse a coisa mais importante do planeta, refletindo no motivo do outro não prender ou cortar o excesso de cabelo.

O albino colocou a mão no queixo, pegando com certa brutalidade o celular que jazia nas mãos do outro curioso. Espera só um momento, TINHA PAÇOQUINHA?! Era a ambrosia dos deuses. Se lembrava quando morou com sua querida madrasta em sua terra natal, onde conheceu essa maravilha. Fez um bico. Saudades de casa. Nem se lembrava como era o mundo exterior, provavelmente já fora dado como morto. Ou não, Amora o amava e tinha aquele sentido de mãe, mais poderoso que o Cosmo. Quer saber, era agora ou nunca! Ele iria embora!

A feição de fúria do líder dos Juízes o fez devolver o aparelho rapidamente. Dava medo e sabia dos surtos bipolares do outro. Seguia-o em suas vidas. Se bem que Minos só leu o livro da vida atual do companheiro. Por que? Tédio. Se iria contar? Jamais! Tinha amor a sua vida.

— Vou com você, é nobre sair daqui para isso, na verdade tudo é mais nobre que esse lugar — jogou seu elmo para o além e tirou uma fita cor de rosa que tinha roubado de algum Cavaleiro de Peixes, prendendo as longas madeixas e franja, revelando suas finas feições e bolsas negras abaixo dos olhos azuis purpuras escuros, como uma joia ametista, indicando noites sem dormir — É para lá o Rio Estige! — apontou para um horizonte com mais montanhas diabólicas — Espero muito que o imbecil do Caronte não esteja fugindo do horário.

— Como? Vai me deixar ir? — perguntou Rady surpreso, pensava que seria preso ou torturado, morto por ter abandonado o posto. Mas pelo que via todos queriam dar no pé. Mais uma tosse. O ariano o segurou. Tomou mais água.

— Claro! — como um estralo dos dedos a sobrepeliz saiu de seu corpo, forte, bem feito, com um casaco surrado de escola, calça jeans em pior estado e chinelos — Não sabe o quanto desejei sair daqui? — gesticulou — A maluca da Pandora ameaçou minha mãe, me prendeu em cativeiro e fez do meu irmão um espectro. Tive que assumir, Lune é louco e tinha que protegê-lo — o loiro encarava-o curioso, como danado o outro tinha tirado aquela coisa? — No instante aderiu ao lugar. E como suas condições psicológicas não são boas, piorou sem as devidas meditações. Pirou completamente da cabeça! Mas quer saber? Ele que se dane com Hades! — levantou as mãos, o escorpiano já voava, normal para quem tem déficit de atenção — Não aguento ficar com almas depenadas todo o dia! Acha que é divertido?! Não é! E as reclamações dos Campos dos Asfódelos? Ou os heróis metidos no Elíseos?! Já me passa a conta as vezes que Teseu veio resmungar ou tentar me matar pelas eras mitológicas. Como se eu me lembrasse delas!

— Hum...

— Nem está prestando atenção né? — colocou as mãos na cintura impaciente. Uma brisa fétida balançou suas madeixas. Fez uma careta. Aquele lugar fedia mais do que sua prisão.

— Claro que sim! — saiu do mundo da Lua encarando-o assustado — Podemos ir... — o encarava deduzindo o nome do companheiro, que de alguma forma sabia ser um Juiz.

— Minos! Já deveria ter percebido! — viu o aumento do mal humor estampado no rosto do mais novo pronto para explodir. Isso era mal e já o tinha visto tomar a medicação do dia... — Vamos sim? É uns vinte minutos daqui — olhou para o relógio de ponteiros, acabado, nem sabia como funcionava nos últimos seis anos.

Começaram a andar. Radamanthys parou abruptamente depois de raciocinar o afirmado.

— Vinte minutos? Andei por horas e me diz que é vinte minutos?! — estava abismado. Como assim ficou andando em círculos?

— Ah, isso é normal. Fiquei dois dias para encontrar aquilo — apontou para placa, agora era só um borrão — A sinalização aqui não é das melhores. Um Cavaleiro de Prata me ajudou, o que é impressionante, já que em teoria estamos em lados diferentes, acho que agora já deve ter renascido — ficou pensativo, lembrando-se do argentino simpático.

— Nem me fale. Tive sorte então — abriu o mapa dado, atraindo atenção do outro que o analisou de longe levantando uma sobrancelha albina.

— O que faz com o mapa do Santuário? — perguntou curioso. Lembrava-se de Aiacos resmungando a torto e a direito de encontrar um mapa da morada da deusa. Conseguiu aquele da Guerra Santa anterior. Muito provável que já tenha alterações.

Wyern fitou sem entender, como assim do Santuário?

— Como?

— É o mapa do Santuário — apontou Grifon — Como conseguiu ele?

Bufou. Minos pulou com medo, não queria parar no Yomotsu tão jovem.

— Pandora — entregou para o ariano, tomando outro gole de água — Aquela megera.

Suspirou aliviado.

— Ah, então ela te deu o mapa errado — analisou o papel antigo — É bem a cara dela. Comigo entregou o mapa do Tártaro e com Aiacos o do Limbo — pulverizou com seu Cosmo — Burrice dela ter te entregado esse, nem deve ter percebido que deu o que não era para entregar — riu com gosto — Acabou com seu próprio plano.

Radamanthys segurava-se para não encher de pancada quem tivesse pela frente, no caso o pobre Minos. O albino falava e falava — Ele não vinha com botão de desligar? — Estranho que o loiro ainda não o tivesse mandado para o inferno... espera... já estão no inferno.

Passando os primeiros dez minutos com o ariano contando de sua mãezona e madrasta, Amora Santos, de como era sua vida no Brasil. Dava para perceber que amava aquele país, provavelmente por ter sido abandonado pelo seu pai na Noruega. Muito triste. Ele sabia bem como era ser abandonado pelo progenitor. O seu pai havia o largado, dando a guarda a Lana, sua madrasta.

Uma ventania tóxica atrapalhou o albino, fazendo ambos olharem para o céu cinza. Aiacos de Garuda pousava desajeitadamente, quase caindo em Wyern. O asiático de cabelos médios e negros rapidamente se livrou de sua sobrepeliz que ganhava na feiura. Usava um quimono, parecido com o de karatê, velho e surrado. Provavelmente era do esporte.

— Ora, ora, que amigo eu tenho — disse com uma falsa irritação — Partindo sem a minha pessoa — colocou a mão no peito teatralmente — Traição isso-

— Ah, deixa de lengalenga — cortou o escorpiano irritado e cheio de tanta falação, fazendo o canceriano arregalar suas íris assustadas. Não tinha visto o outro. Deu passos para trás.

— Aiacos, Radamanthys — apresentou-os como ajuda de gestos clichês — Radamanthys, Aiacos.

O asiático sorriu sem graça apertando a mão do inglês sério. Voltou-se para seu amigo ariano, continuando a conversa.

— Vão embora mesmo? — perguntou, Minos logo mostrou a tela do celular de Rady, não facilitando no entendimento de Garuda. Teve que explicar com pingos nos “is" que desertaram do posto. Wyern por não aceitar a manipulação e perder sua vida no inferno. Grifon não aguentava mais toda escravidão e sim estava deixando Lune de lado, o mais novo estava completamente perdido. Queria voltar para casa, estudar e ter uma vida tranquila e comum. Talvez ter uma família, filhos...

O asiático fechou os olhos castanhos pensativo. Relembrava com muita cor o sequestro de dois anos atrás, ao sair de sua escola no Japão. O pânico no rosto de suas adoradas irmãs. Não precisou de cárcere de privado e torturas para fazê-lo ir ao posto de Juiz do Inferno. Só queria que suas princesinhas ficassem bem. Se fosse agora elas poderiam ficar em perigo. Mas Minos estava na mesma situação e iria embora. Suspirou. Sabia que o albino tinha um plano. Ele sempre tinha. Como na vez onde acidentalmente entrou em uma treta dos Dourados nos Elíseos, e não ela não era relacionada com os Cavaleiros de Bronze, ou Hades ou Hypnos e Thanatos.

Só de pensar em se ver livre daquele lugar era uma benção. Sentir o vento puro, ver as cores e pessoas vivas, sentir o sabor das comidas. Um banho... e claro, retornar ao seu lar com suas irmãs, iria protege-las como os próprios punhos... seu pai... ah, ele não.

Abriu seus olhos decidido.

— Vou com vocês — os outros ficaram aliviados e Grifon mais ainda pois não queria lutar. Mas por preguiça mesmo do que qualquer outra coisa.

Agora eram os três contra o mundo. Podem estar perguntando o motivo de Minos e Aiacos não se rebelarem antes da chegada de Wyern, já que em menos de dois minutos no qual se encontraram, saíam em encontro para a liberdade do mundo ensolarado. Eram fortes o bastante, mas, todavia, a megera daria empecilhos e colocaria em prática suas ameaças. Muito jovens e também a todo momento estavam sobre supervisão. Agora com o escorpiano era diferente. O mais leal dos leais, o novo supervisor — deles — estava indo contra tudo e bem antes do primeiro dia completo. Depois de éons estavam livres. Como almas, já que em vida eram anos.

Aiacos visualizou com seus olhos de rapina, algo que amava na bolsa do escorpiano. Bala Fini. Ficou encarando durante o restante do percurso, irritando o loiro, que o entregou sem mais e nem menos, para total felicidade do moreno.

— Viciado — murmurou Minos. Sabia que o asiático era louco por doce. Foi um sofrimento o primeiro ano que passara com ele. Todos os resmungos e chororôs.

— Gente — disse o moreno momentos depois, quebrando a falação de Grifon — E Hades como fica?

— Que se dane essa desgraça — Wyern foi direto, esse nome dava tanto nojo como a de Pandora.

O albino colocou a mão no queixo pensativo.

— Exato — concordou — Acho que até deveríamos avisar a Athena quem é o receptáculo de Hades e acabar com isso tudo.

— Até para nossa própria proteção! — gritou o canceriano de boca cheia. Rady estava mais preocupado em tirar a armadura — Amei, você é genial Grifon!

— Hum... — resmungou o loiro.

Aiacos prendeu o cabelo e a franja depois do quarto tropeço. Piranha, tic tac e um laço que arranjou com um Cavaleiro de Peixes — o que? Os piscianos eram os que mais tinham dessas coisas — mais bonito do que dizer “roubou”. O suor estampava seu rosto, adocicado pelo açúcar das balas.

Minos não aguentava em ver Wyern na luta de tirar aquele traje. Ligou um fraco Cosmo e bateu na armadura do outro, tirando-a por completo.

— Obrigado — suspirou aliviado sem o peso estrangulando-o.

O ariano e o canceriano ficaram pasmos. Radamanthys agradecendo? Era um dia de muitas surpresas.

Mais alguns passos e já estavam no Rio Estige, Caronte brincava com a água segurando seu remo, dentro de seu barco tediosamente.

Minos tomou a frente, arrancando um olhar curioso do barqueiro.

— Nos tire daqui — ordenou com sua imponência, fazendo os outros dois colocarem a mão na cara. Caronte não se sentiu intimidado.

— Não tenho notificação da senhorita Pandora para liberá-los — disse com simplicidade, encarando por debaixo do elmo a ausência das sobrepelizes — Querem desertar? — riu — Vão morrer, vão morrer — cantou como um maníaco.

O ar se tornou mais denso, Radamanthys iria mandá-lo para o Tártaro, sendo segurado por um Aiacos apreensivo.

— Não, assim nunca vamos sair desse inferno — sussurrou, pedindo com o olhar que o albino resolvesse logo o assunto.

O ariano rebolou um gordo saco, com uma infinidade de dracmas, salário dos anos trabalhados e que em nada poderia gastar. Caronte parou de rir e fitou o conteúdo que transbordava. Mão de vaca, ganancioso, avarento. Sorriu malignamente. Minos ativou seus cordões invisíveis prendendo-o e sufocando-o.

— Nos leve para fora — apontou — E isso é seu — aproximou-se, os anos de escravidão o treinou para se mostrar frio e aterrorizante quando desejasse — Se soubermos que nos denunciou, te mato da pior forma possível.

Caronte engoliu seco balançando a cabeça positivamente. Grifon o soltou assim que ele falou com palavras que entendeu.

O trio entrou no barco. Dois deles assustados com a súbita mudança do albino que retornava a falar animadamente como se nada tivesse acontecido. Garuda ofereceu Fini, receoso como alguma outra mudança de comportamento do amigo, afinal doce melhora o dia de uma pessoa. Grifon negou com as mãos, cruzando os braços. Radamanthys deixou seus pensamentos vagarem no delicioso bolo que estava a sua espera.

Demorou mais trinta minutos para chegarem ao outro lado, aturando o barqueiro cantar desafinadamente. Queriam matar o imbecil. A água de Wyern tinha acabado e sua tosse em nada melhorava.

Saíram do barco, com Minos lançando seu olhar intimidador ao Caronte. Radamanthys apontava o caminho por onde tinha vindo, afinal existiam várias formas de entrar no inferno, em diversos países. Não que isso fosse de conhecimento geral.

Aiacos já furtava mais bagana na bolsa do mais novo. Agora comia pipoca salgada. Há anos que não comia nada. Era bom sentir o gosto de algo novamente.

O Portal do Inferno de Londres já era avistado com pouca caminhada. Imponente, com gravações em grego na entrada e na saída não havia nada, pois quem iria sair? Só entravam e não saiam.

Passaram por debaixo do arco adentrando em uma caverna molhada. As vozes do trio ecoavam nas paredes. O sério Rady já conversava com os outros dois, soltando-se.

Minos fazia planos quando voltasse para casa, Aiacos queria se mudar com as irmãs para Inglaterra ou algum outro lugar longe o suficiente de seu pai. Radamanthys... bom ele... só queria sua vida normal de horas antes de ser abordado pela louca.

Empurram a rocha que bloqueava a saída, e finalmente voltaram ao mundo dos vivos. O céu estava nublado com uma fraca neve caindo na floresta de preservação ambiental. O albino e o moreno tiveram seus olhos ardidos pela parca luz que vazava das nuvens, o mais novo respirou fundo o ar puro do exterior. Sentiu seus pulmões se acalmarem desintoxicando aos poucos.

Os dois Juízes ficaram encantados, era como estar em um sonho, no qual logo foram arrastados pelo escorpiano antes que morressem de hipotermia. Destrincharam todo o percurso de volta a cidade. As pessoas olhavam com medo ou apreensivas, pensando serem malucos que fugiram de um hospício. O trio não estava nem ligando para isso. Em meio a interrupções — pois Minos e Aiacos paravam a quase todo momento apontando e admirando automóveis, vitrines de lojas e mais outras coisas — o loiro conseguiu fazer com que os outros dois entrassem em um metro, para irem a sua casa. Não sabe ao certo quando a conversa os levou a animes, mas o moreno e o albino discutiam o melhor desenho. Sailor Moon ou Sakura Card Captors? Para ele era o filme Your Name, bem óbvio pela bolsa que carregava.

Encarrou uma mulher que sussurrava deles para um garoto, possivelmente seu neto. Pessoas eram tão hipócritas, rolou os olhos.

— Qual é o mais forte, Gabu ou Agumon? — Aiacos olhou para Rady, o albino emburrado no outro lado, pedia em gesto para que o loiro resolvesse esse importantíssimo assunto, afinal até no julgamento das almas era o escorpiano a dar o veredicto final, sim era ele, já faziam séculos que Aiacos havia entregado esse posto ao outro.

E quando foi que Sailor Moon e Sakura Card Captors passou para Dinossauro Rei e Digimon Savers? Não interessava, pediu para os dois deixarem de serem crianças. Puxou-os quando o veículo parou onde iriam desembarcar.

Saíram em um bairro residencial, com Minos e Aiacos ainda trocando farpas, agora a questão era quem era o mais patriota: Capitão América ou Kazune de Kamichama Karin?

Uma coisa não tinha haver com a outra. Avistou a doçaria de sua mãe, adentrando no lugar, sendo banhado com cheiros e o calorzinho gostoso. Seus músculos relaxaram. Finalmente em casa. Os dois imbecis pararam de brigar embriagados com o acolhimento do local. Lana Clarke logo apareceu preocupada com o loiro que não tinha dado notícias, abraçando-o com carinho invejável aos outros dois.

Era visível o quanto Lana era jovem, realmente era a madrasta de Radamanthys pois não era possível que fosse a mãe biológica dele, além do fator físico, pele canela, madeixas negras e encaracoladas, estrangeira, provavelmente grega, quanto a idade, que deveria ter menos de trinta anos.

A mulher ficou horrorizada e escandalizada com o que o trio de adolescentes contaram que foram vítimas de um sequestro, sendo Minos e Aiacos presos em cárcere de privado por anos. Ela chorou agarrando os três, muito comovida, o escorpiano afirmou que já estavam bem e que conseguiram fugir, não tinham se machucado, bom pelo menos ele.

A gentil moça negou, sabia que no fundo tinha algo errado. Não devia ter deixado o rapaz sair de manhã.

Depois de muito lutar para acalmar Lana e dizer que a mesma não tinha culpa, e ligaram para polícia, a mesma cedeu os banheiros da casa para tomarem um bom banho, assim como as roupas. Demorou muito para que o asiático e o norueguês tirassem o grude dela, que fazia perguntas para ter certeza que estavam bem e seguros, longe do inferno.

E agora estavam eles na cozinha da ampla e confortável casa, de clima leve e acolhedor, algo que o ariano e o canceriano não tiveram nos últimos anos.

O moreno, banhado depois de anos exalava o cheiro de sabonete de lavanda e xampu de cerejeiras japonesas. Vestia um pijama folgado com um pônei estampado, pantufas azuis deslizavam pelo balançar dos pés, os cabelos rebeldes voltavam a cair no rosto. Já o albino estava com pijama dos Beatles e as madeixas mais brilhantes do que jamais estivera, a farta franja escondia seus olhos novamente. O loiro também com roupa de dormir — Kuroshitsuji — fitando uma vez ou outra seus novos amigos.

Rady comia finalmente seu bolo de cenoura recheado, gemia a cada pedaço, Minos só faltava casar com o doce de paçoquinha, se perguntava como ainda não era possível esse casamento nos dias de hoje. Era amor a primeira mordida. Aiacos era o mais desleixado comia doce com salgado, o rosto todo melecado.

Já estava quase de manhã, pois a polícia tinha chegado com a assistência social para cuidar do caso. Ocorreram horas de interrogatório cansativas. Lógico que mentiram em quase tudo, se falassem a verdade não acreditariam e taxariam de loucos. Sabiam que o caso nunca iria se resolver, mas voltariam para casa.

Teve um grande momento de tensão, pois queriam levar os dois garotos para lares adotivos, sendo lutado por Lana a custodia deles até seus pais chegarem. Ela saiu vitoriosa depois de tudo. Os meninos se perguntavam internamente se a mesma não era promotora, pois tinha extrema habilidade e oratória.

A grega voltou-se para eles, sentando-se na última cadeira que tinha na cozinha, sorria calorosa para o trio. Não sentiam pena da parte dela para com eles, só um instinto maternal gigante.

— Está muito bom dona Lana — disse Minos terminando de tomar seu leite de soja, tinha praticamente devorado a torta de paçoquinha. Lambia os dedos — Faziam anos que não comia algo tão divino.

— Ah, obrigada meu bem — passou as mãos nos cabelos albinos, levando as madeixas para trás, encarando os belos olhos azuis-púrpura — Podem comer o quanto quiserem...

— Não é necessário, dona Lana — Aiacos afirmou, deixando o prato completamente limpo e a caneca de lado, deitando-se na mesa satisfeito. Radamanthys o encarava, finalmente tinha enchido o barril que era o estômago do moreno? — A senhora é um anjo — murmurou adormecendo.

— Arrumei camas no quarto de Rady — anunciou — Consegui que ficassem comigo até a chegada de seus responsáveis — levantou-se, recolhendo a louça — Não suportaria ver vocês naqueles lares adotivos sem amor.

— Rady? — o moreno riu de leve, recebendo um olhar raivoso do mesmo.

— Agradeço dona Lana — Minos assumiu, o asiático se dividia em cochilar e rir do apelido do loiro — Se não for incômodo em nos manter...

— Não será meus queridos, sintam-se em casa — olhou para seu filho, que terminava de comer seu bolo. Sim, o bolo inteiro — Rady meu bem, depois que terminar leve seus amigos para descansarem, sim?

O loiro piscou. Percebeu agora que a dupla iria dormir em seu santuário que era seu quarto. Fez um bico de desgosto, escondendo rapidamente de sua mãe. Pegou Aiacos e o arrastou escadaria a cima para seu quarto. Minos agradeceu novamente e seguiu desajeitadamente os companheiros, aos tropeços, a franja cobria novamente seu rosto.

O escorpiano jogou o moreno em uma das camas arrumadas no chão. Aiacos, afundou e se cobriu, adormecendo por completo. Minos analisou a organização perfeita do quarto, com prateleiras de livros colocados por ordem alfabética, mesa de estudos impecável, cada coisa em seu lugar. Cortinas fechadas azul bebê. Postes de animes adornavam as paredes e figuras de ação em pranchas.

Deitou-se no colchão ao lado da cama de Radamanthys, ficando no meio, entre o moreno e o loiro. Encarou o teto, pensando novamente em sua mãe, que no momento deveria estar uma pilha arrumando-se e pegando o primeiro voo para Inglaterra. Suspirou. Como contaria do Lune para ela? Abraçou suas pernas. Seus músculos tencionaram. A luz foi apagada, sentindo os pés do loiro pularem de seu colchão para a cama.

— Vá dormir Minos — escutou a voz abafada do outro pelos cobertores — Já está tarde... quase de manhã na verdade.

Ah, sim dormir, algo que não fazia nas últimas semanas. Estirou-se, sentia todo o cansaço e sono puxando-o, mas nada o fazia fechar os olhos. As preocupações o rondavam, antes eram as chateações daquele mundo infernal.

— Não consigo — passou as mãos no rosto ansiosamente. Suspirou.

O abajur foi ligado, atraindo sua atenção. Logo escutou as gavetas da cômoda sendo retiradas. Pegou a caixa de remédios tarja preta jogada pelo loiro.

— Sou bonzinho e te deixo tomar — lançou uma garrafa de água que o albino não fazia ideia de onde saíra — Não quero ninguém reclamando depois ou perturbar meu sono — desligou o abajur — Vá dormir Minos — cobriu-se, virando-se de costas para o albino.

O ariano piscou, mesmo com o jeito sério e forma fria de tratar as pessoas, Radamanthys de Wyern tinha sentimentos. Jamais pensou que os veria e seria fruto de uma de suas preocupações. Era um dia e tanto.

Acordou com um berro estridente. Pulou da cama assustado não sabendo onde estava, olhando para os lados atordoado demorando alguns minutos para se lembrar. Soltou a respiração que prendia aliviado. Coçou os olhos se espreguiçando.

Aiacos e nem Radamanthys se encontravam no quarto. No relógio digital da mesa de estudos marcavam duas da tarde. Dormiu demais, coisa que não fazia muito por ser rígido nos horários para acordar. Mas essa era uma exceção e agradecia o remédio milagroso, estava completamente recuperado. Levantou-se letárgico, se arrastando para fora do quarto e descendo as escadas, se perguntando de onde tinha vindo o grito.

Na sala se encontrava a presepada, o canceriano assistindo Sailor Moon, pelo visto Usagi tinha morrido... de novo... era um dos filmes da saga R, clássico, a música Moon Revenge dominava o cômodo. O moreno chorava pela princesa. Minos girou os olhos, o rapaz mais novo se encontrava ainda de pijamas, com um papel em forma de tiara na testa com o símbolo da Lua, cabelos amarrados por um elástico pink com rosinhas, face lambuzada de leite e grãos de pipoca, nariz e olhos vermelhos pelo choro. De alguma forma tinha um gato branco de pelúcia — Ártemis — no sofá espaçoso.

Miserável. Merecia morrer só por acorda-lo com aquele susto. Se aproximou de fininho, invejaria a Pantera Cor de Rosa, deu um tapa estilo Gibbs de NCIS.

— Imbecil!

— Ai! — virou-se emburrado — Boa tarde, dorminhoco — disse ácido, alisando o local maculado.

O ariano seguiu para a porta que dava para doceira. A jovem mãe estava no caixa organizando os valores que tinha até o momento, a loja estava vazia, o que era estranho pelo horário, no qual deveria ter movimento. Radamanthys se encontrava sentado em uma das mesas, nem um pouco diferente do outro dia, conservando a vestimenta de dormir — ainda era sua casa, podia ficar como quisesse — escrevia em seu laptop, voltando seu olhar assim que ele entrou.

Lana, mais receptiva saiu de onde estava e abraçou o albino.

— Boa tarde, meu anjo — sorriu cativante — Dormiu bem?

— Boa tarde, dona Lana — desejou com igual alegria — Sim, obrigado.

A morena se levantou batendo as mãos no avental, retirando o pó que ainda estava nela. Pediu para o ariano se sentar junto de Rady, que logo iria trazer algo para ele comer.

Minos agradeceu novamente a matriarca por tudo o que estava fazendo por eles e seguiu para a mesa onde se encontrava o escorpiano. O loiro franziu o cenho ao ver o mais velho se sentar. Sentia seu território invadido. Suspirou. Retornou a dar os detalhes finais na carta que tinha feito junto de Aiacos naquela manhã para Athena. Ficou surpreso pela deusa ser dona da maior empresa do Japão e uma das mulheres que sua mãe mais admirava, Saori Kido.

Lana retornou com um prato para um batalhão, um copo de vitamina e um pedaço de torta, assustando o norueguês. Colocou tudo na mesa e explicando que o albino deveria se alimentar bem, pois estava muito magro.

O que não foi nem um pouco acalentador. Fitou a mulher voltar para o caixa cantando. Olhou para as comidas. Iria chamar Aiacos, o esfomeado derrubaria metade daquilo. Mas não agora. Não era idiota e estava com fome.

— Terminei de redigir a carta para a senhora Kido — contou o loiro, dando outro susto no ariano, que o encarou sem entender. Percebendo isso Radamanthys mostrou a tela para o amigo — A deusa Athena. Contando tudo o necessário para frustrar os planos de Hades — explicou.

— Ah — Minos olhou para a tela, doze páginas ao todo mais os nomes completos a baixo, mas só uma questão passou pela mente do albino, como Radamanthys sabia de tudo aquilo? Mal tinha ficado no Mundo Inferior.

— Aiacos me ajudou — o albino arregalou os olhos preocupado, o asiático não era a melhor pessoa para isso — Não se preocupe, ele é sério quando quer.

Estava pasmo com o montante de informações escritas. Garuda era surpreendente quando deixava a preguiça de lado, mesmo que só fosse para ditar os ocorridos.

Tomou um gole de vitamina e apontou ao escorpiano o que mais poderia ser acrescentado, até mesmo com o plano de Pandora para invadir o Santuário. Nada muito imprevisível e que um Dourado resolveria. Mas se era para entregar, que fosse o esquema todo.

Minos se sentia como um FBI. Radamanthys era o mesmo cubo de gelo, digitando. Parou só para pegar a torta. Finalizaram com quase cinquenta páginas, seria muito mais, mas resumiram, senão o fizessem acabaria por se tornar um livro.

Imprimiram e assinaram, sendo nesse momento em que Aiacos finalmente apareceu, com o rosto limpo, só ainda com a tiara de papel na testa e com Ártemis de baixo do braço. Havia terminado mais outro filme de Sailor Moon, quando Lana o tirou do sofá, aos resmungos, para socializar.

Logo o canceriano começou a comentar os filmes, devorando o restante da comida. O loiro nada falava, deixando isso para o albino, terminando de colar a aba da correspondência. Minos suspirou, deitando a cabeça paciente escutando o outro reclamar e analisar os filmes.

Felizmente a labuta de Minos terminou antes mesmo de se desenvolver por horas a fio, como era de costume quando o moreno via filmes. As escondias claro.

Como um furacão, duas jovens entre seus quatorze e quinze anos, entraram berrando na pequena doceria. Uma ruiva de longas madeixas, vibrantes olhos esmeraldas, pele de porcelana, incrivelmente sem nenhuma sarda. Vestia um fofo vestido azul cheio de babados e sapatos Lolita, com meias até os joelhos, brancas e com uma fita da mesma cor do vestido. Parecia uma bonequinha.

A outra tinha traços asiáticos, igual palidez, curtos cabelos negros, em um corte Chanel, olhos idênticos ao de Aiacos. Como a irmã do meio, usava um vestido, só que vermelho. Duas bonecas de nacionalidades diferentes.

— SUKIYO!!!!!! — ecoou na loja, assustando o escorpiano e ariano. Ambas as meninas caíram no moreno que desequilibrou da cadeira. Pasmo, correspondeu o aperto quando assimilou que era suas princesas. Estavam tão grandes. Deixou as lágrimas rolarem pelo seu rosto. Pensava que nunca mais as veria.

Natasha e Hikari Takahashi. A ruiva era adotada e a mais velha entre ambas, enquanto a morena era irmã biológica. Pelo visto, estavam desacompanhadas. Típico de seu progenitor.

Depois de um longo momento, com o lindo reencontro e as meninas grudadas nos braços do mais velho, Aiacos contou o que ocorria aos demais que estavam em pura confusão.

Lana ficou muito contente do moreno se encontrar com a família mesmo com a ausência perceptível de um responsável. A ruiva com seu inglês cheio de sotaque, conseguiu dizer a mulher que estavam com uma babá, mas infelizmente não pôde acompanha-las para a loja, tinha outras coisas a resolver a mando de seu pai. Muito ilógico, já que o mais importante para qualquer pai era o filho. Para ver a frieza do homem.

Ah, é, algo importante a ser dito é o nome de Aiacos. Era Sukiyo Hiro Takahashi. Mas praticamente adquiriu o outro quando foi ao inferno. Talvez até adicionasse no registro.

Em algum momento Radamanthys saiu de fininho do fuzuê que havia se tornado a doceria, seguindo para os correios enviar a carta. Estava feliz pelo amigo, mas não suportava barulho.

O ariano percebeu a saída do loiro, pensou até em segui-lo para averiguar se estava tudo bem... certo... ele não tinha mais nada a fazer e o moreno as irmãs e Lana emendaram em um assunto no qual era praticamente um fantasma. Parecia que tinha esquecido de sua existência. Mas por ironia do destino Amora Santos entrou na loja.

Parecia uma miragem para a mãe ao vê-lo. Longas madeixas loiras, lisas e escovadas, como estava frio, muito frio, vestia casacos e sobretudos. Olhos castanhos, brilhantes, cheios de lágrimas. Botas caramelo. Novas, já que no Brasil praticamente não utilizava.

Minos quase morreu sufocado pelo aperto da madrasta.

Se o escorpiano teria paz ao sair da loja, estava muito enganado, coitado! Quase não passou por dois quarteirões direito, que se esbarrou no mais novo vizinho dele. O filho deles para se mais claro. Um garoto de longas madeixas ruivas e desfiadas, olhos caramelos, boné do Ben 10, um suéter com cervos, feito à mão — possivelmente por causa da proximidade natalina, que seria a dois meses (muito adiantado, mas e daí?!) — calça jeans e tênis do Chat Noir. Olhava intensamente o mapa no celular com capa surrada.

Era o Luca... Rady não se lembrava do sobrenome pois estava nem aí. Mas agora percebia uma familiaridade... colocou a mão no queixo e quase caiu no chão quando percebeu quem o guri era.

Seu mais leal e de longa data servo... Valentine de Harpia. Seus olhos mel quase saltaram dos orbes. A surpresa era muita. Jamais pensou em encontrar um de seus criados ainda na infância. Tirando as vezes em que se reencarnavam como irmãos ou primos.

Agora entendia o motivo do menino ser tão grudento. Parecia um carrapato quando ia a doceria.

Pensou em continuar seu destino e deixar o guri de lado. Mas foi tarde.

— Rady! — gritou feliz quando o viu. O loiro estancou e deu um sorriso amarelo — Que maravilhoso te ver — pregou-se na calça do mais velho, que agora percebia que ainda estava de pijamas. Ah, mas ele não ligava. Qual era o problema?

Tocou nas madeixas vermelhas de leve como um robô, com uma careta estampando o rosto. “Rady”. O guri já tinha pegado o apelido sem autorização. Agora percebeu, o que uma criança de dez anos faz desacompanhada?

— Oi, Luca — forçou novamente um sorriso — Onde estão seus pais?

O ruivinho murchou.

— Ah, mama está dodói e papai ‘tá viajando — mostrou o celular, com um mapa — Mama pediu para fazer a feira, já que não pode.

Irresponsáveis. Depois a criança some e nem sabem o motivo. Por um milagre divino, o escorpiano acompanhou-o para o supermercado, mas não antes de postar a carta no correio. Valentine, ou melhor, Luca praticamente surtou. Era seu “herói” o fazendo companhia — de onde o menino tinha tirado isso, Radamanthys não sabia.

Fato é que logo se passou os meses, trazendo mudanças literalmente para o loiro. Antes antissocial e solitário, tinha três grudes agora. Imaginou que nunca mais veria os dois otários. Mera ilusão. Minos e Aiacos logo depois de saírem da Inglaterra para suas respetivas moradas, criaram um grupo em uma rede social. A única que o escorpiano tinha. Praticamente todo o santo dia era bombardeado pelos dois. Não que achasse realmente ruim, mesmo se mostrando rabugento.

O albino e o moreno voltariam com tudo no outro ano, decidiram entre si — Rady não participou disso — que iriam cursar na mesma faculdade. Por alguma magia ou macumba, Minos e Aiacos conseguiram suas vagas. E claro, sua casa serviria de hotel. Lana permitiu que ficassem na casa no período letivo. “Tinha muito espaço sobrando” afirmara. Sabia que não, sua mãe ficou muito amiga de Amora e as meninas, logo se apegando aos rapazes.

Sim, as garotas também iriam estudar na Inglaterra. Queria saber em qual santo tacou pedra.

Uma das visitas mais surpreendentes foi a de Saori Kido. A deusa, agora uma bela mulher, foi pessoalmente agradecê-lo. Claro, escoltada pelos seus dourados, Seiya e Hyoga. Disse que agora o inferno estava em nova gerencia, a mando de Zeus, que apareceu do além. Lady Perséfone — que sabe se lá onde estava também — Era a imperatriz — sempre foi — mas agora com o cargo efetivo do marido.

E que muito agradecida, libertou quem estivesse nas garras de Hades. No caso Lune, estava a salvo, com o pouco de sanidade que tinha. O que era bom, Minos carregava um enorme peso por deixá-lo.

Estavam livres para viverem suas vidas. Podendo voltar ao Hades quando desejarem. O que ele não quer. Sabia que um dia tinha que retornar ao seu posto..., mas não agora.

Era babá de Luca, sim babá. Sempre cuidava de seu servo agora. Que ironia. Mas até que não era tão chato quanto pensou. O guri era muito calmo e seguia tudo o que dizia.

No momento cuidava da doceria, enquanto a mãe fazia algumas compras do que faltava. O ruivinho que agora era presença constante, lia um de seus mangás, Kuroshitsuji, o loiro estava no caixa, observando o movimento nas ruas.

Quando para sua surpresa e horror, uma pessoa que jamais queria ver em sua vida, vestindo um vestido negro, sandálias da mesma cor, assim como as madeixas. Pandora, entrou na doceria.

Assumiu logo sua pose de defesa, se aproximando do ruivinho para protegê-lo.


O que caramba aquela megera estava fazendo ali?!

6 de Junho de 2019 às 13:54 0 Denunciar Insira 1
Fim

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Sophia Grayson Só uma garota que gosta de escrever.

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