O que se encontra na noite Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

Da janela de seu quarto, um menino vê algo estranho caindo pelo céu escuro da noite nas redondezas da fazenda onde mora. Junto de sua bicicleta, ele vai averiguar o local da queda para saber o que era aquilo. Assustado, ele escreve em seu diário aquilo que viu.


Conto Todo o público.

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O que se encontra na noite

13/08/2001


Vamos lá. Hm... Como eu posso começar isso? Bem. Meu nome é Lucas Souza, são duas horas da manhã -papai e mamãe vão me matar se me verem acordado agora- e eu vou escrever aqui sobre o dia em que me encontrei com um alienígena! Bom...Pelo menos é o que eu acho que aquilo era. Vai saber.

Não espero que ninguém leia isso, talvez um amigo ou outro, mas só. A menos que alguma super produtora queira transformas isso aqui em algum filme.

Bem, moro com os meus pais em uma fazenda na área rural de uma cidadezinha de São Paulo chamada Divina Pedreira. Acho que isso não é muito importante, vamos para o que interessa de verdade. A escola em que estudo fica na zona urbana. Por isso todos os dias um ônibus da prefeitura vem me buscar pela manhã e, já mais pela tarde, ele me traz de volta aqui para casa. Faço essa rotina todos os dias há quatro anos. A maioria acha isso tudo muito chato, mas eu até que gosto. As aulas de ciências são bem legais e...ah, deixa pra lá. Acho que vou acabar me empolgando escrevendo essa história. Pelo menos vou ter tempo de terminar com calma, diferente das aulas de 50 minutos da professora Rita onde minhas redações sempre têm que acabar com uma bomba caindo e matando todos os cidadãos de uma cidade espacial...Aquela história era boa...Manter o foco!

Semana passada esse ônibus que me dá carona teve um problema -alguma coisa no motor, acho que foi o que o papai disse. Não tiveram como consertar ele a tempo, assim, tive que pegar minha bicicleta pela manhã e pedalar até a escola. É difícil pedalar sobre a terra. A bicicleta fica mais pesada e você tem que fazer muito esforço. Sem falar no sol...como é que dizem? Escaldante! Suei muito no percurso até minha escola, mas foi bem divertido. Gosto de sentir o vento e ver a paisagem com mais calma. Ver o seu Judas fumando aquele seu cachimbo na varanda da fazenda dele, o senhor Pedro arando a terra, enfim, andar de bicicleta pelos campos me faz perceber como nossa fazenda é enorme! E se ela já é grande perto da gente, imagina como o nosso planeta e o espaço são ainda maiores! Quando eu pego o ônibus, tudo passa muito rápido lá fora, não da pra ver as coisas direito. É meio chato. Sem falar que fico ocupado demais tendo que me preocupar com a guerra de bolinhas de papel que o Mateus sempre começa no banco de trás. Elas são boas...

A escola foi a mesma coisa de sempre naquele dia, exceto pelo exercício de matemática valendo nota que a professora Laura passou. É, eu me dei mal naquilo. Mas eu recupero fácil, não tô muito ansioso pra me reencontrar com o chinelo da mamãe...

Na sexta-feira o sinal tocou como sempre ao meio dia e meio. Todo mundo saiu correndo parecendo um bando de zumbis esfomeados. Eu teria feito o mesmo, só que a mamãe falou para eu voltar direto para casa naquele dia. Então, sei lá, não teria muito o que fazer depois da aula. Putz, aquele dia ia ser um tédio total.

Sai da sala de aula e fui para a parte de trás da escola, onde tinha guardado minha bicicleta. Fui bem rápido. Não gosto de passar pelo pátio com todos aqueles adolescentes bizarros por lá. Parece que eles sempre tão rindo de você e te olhando de longe como grandes árvores com olhos. Sempre tenho vontade de gritar: "Ei, seu projeto de Ramones babaca, olha pra minha bunda!". Cara, eles iriam acabar comigo. Mas fazer o que, os Ramones eram fodas. Eles não.

Peguei minha bicicleta -uma Caloi vermelha de dar inveja- e fui em disparada para casa. Vocês não tem ideia de como ela corre! Quando tô em um dia bom, faço ela correr mais que um cavalo bom. Juro! Só falta ela voar. Ela é incrível. Brilha mais do que todas as outras lá do colégio e faz todas comerem poeira. Bip-Bip!

Acho que tô ficando meio maluco. Que nem o cara apaixonado pelo carro vermelho naquele filme Christine (meus pais não sabem que eu vi esse filme com meus amigos. É a porra de um carro assassino!) Ela tá lá na garagem, bem protegida e nunca matou ninguém.

Continuando: pedalei pelas ruas agitadas da cidade em alta velocidade. Eu tava faminto. O caminho de volta foi bem parecido com a ida. Vamos pular essa parte.

Quando cheguei em casa, já era 13h15 da tarde. Minha barriga roncava como se um monstro tentasse sair de dentro dela. Sentei na mesa e devorei a comida que minha mãe colocou. Lembro de ter escutado ela dizendo algo como: "Vai com calma, Lucas! Comer rápido desse jeito faz mal!". Continuei comendo com a mesma rapidez. Acho que vocês me entendem, eu estava faminto e a comida dela é sempre muito boa. Afinal, que mal um macarrão pode fazer a você?

Eu estava demansiadamente cansado pelo esforço que fiz para pedalar até em casa. E o almoço me fez ficar sonolento. Deitei em minha cama e apaguei na mesma hora. Cara, porque a gente só dorme facilmente quando não quer? Foi tão fácil!

Anotação: comer macarrão ao invés de ler gibis antes de dormir.

Dormi a tarde toda e só fui acordar de madrugada. Acho que minha mãe só não me acordou porque não teria aula no outro dia. Eram 3h27 da manhã, pelo que eu me lembre. Por ai. Sempre que eu fico acordado até tarde eu costumo olhar as estrelas. Fiz isso nesse dia também. Levantei da cama e fui olhar o céu pela janela do quarto. O céu estava extremamente estrelado. Aqui no campo é mais fácil de ver as estrelas. Não tem tanta luz humana para atrapalhar. Fiquei ali, olhando o céu por uns 15 minutos quando de repente algo passou voando no meu campo de visão. Caras, vocês tinham que ver. O negócio não tava pegando fogo, mas brilhava pra cacete! Acho que fazia um barulho também, mas ninguém pareceu acordar com aquilo, então acho que era só minha imaginação. Não sei dizer que forma tinha. Tava muito escuro e a luz daquilo era muito forte. Minha ação depois de ver aquilo era óbvia. Não esperei o OVNI cair. Fui até a garagem sem fazer barulho para que meus pais não acordassem, e peguei minha Caloi vermelha. Acompanhei o rastro brilhante da coisa enquanto ela caia, e fui pedalando em sua direção. Parecia que alguém tinha pegado uma faca e rasgado o céu. Foi foda.

A noite aqui na fazenda sempre faz muito frio, e eu tava só de pijama. Minha mãe teria falado um monte: "Vai ficar gripado, menino!". Mas o que eu podia fazer? Se eu demorasse muito, aquilo lá podia fugir ou desaparecer, sei lá!

Minha bicicleta nunca correu tanto, parecia até movida por turbo. O vento gelado batia no meu rosto com força. Era meio sufocante. Estava realmente muito frio e minha samba-canção dos Looney-Tunes não ajudava muito na proteção. Dava um pouco de medo estar ali sozinho andando numa estrada de terra no meio daqueles campos gigantescos cheios de paredes de milho, sabendo que todos dormiam e que tudo estava escuro. Os milharais balançavam pra caramba com o vento. Balançavam de um jeito meio assustador. Sozinho ali eu só conseguia pensar nas histórias que a minha mãe contava sobre o Papa-Fígado. Um cara que sequestrava crianças que depois eram encontradas com os corpos sem órgãos. Sinistro. E parecia ainda mais sinistro ali naquele lugar. Quase me caguei...

Tudo que eu ouvia era o som das rodas da bicicleta girando rápidas em cima da terra, a minha respiração, o som das folhas se batendo, as cigarras cantando sem parar. Sabiam que esses bichos explodem depois de cantar muito? É, eu sei, bizarro.

Com o milharal em volta eu só conseguia ver o rastro do OVNI. Eu tava um pouco distante ainda, mas vi que ele pararia perto de uma espécie de depósito abandonado do papai. Seria fácil encontrar ele por ali.

Então, ele caiu. O som foi muito baixo, como quando você bate a porta do carro com força. Quase não deu pra ouvir, sério. Foi meio frustrante, pra falar a verdade. Quero dizer, cadê a explosão, o fogo, o FBI chegando para isolar a cena?! Enfim. A coisa caiu bem onde imaginei, dentro do terreno do depósito. Eu teria que passar por um cercado e sair da trilha principal pra chegar nele. Então, deixei minha Caloi apoiada no chão ali mesmo na trilha, e pulei a cerca. Foi um dos momentos mais legais da minha vida. Me senti num filme. Parecia que eu estava fazendo algo de errado, e tudo isso deixava a situação ainda mais emocionante, fazendo com que eu sentisse um frio na barriga. Corri pelo campo aberto, apenas eu e a coisa que tinha vindo do espaço debaixo do imenso céu estrelado e vigiado pela grande lua que se abria lá em cima. Dava pra ouvir o barulho das folhas batendo umas nas outras por causa do vento e o som abafado do meu pé batendo no chão de terra. Foi bem legal. Fiquei olhando a coisa que caiu do espaço de longe, deitado atrás de uma espécie de morrinho que se formava no gramado. Não fui idiota de chegar tão perto da coisa; podia ser radioativo, e alguém poderia estar lá dentro. A cratera que se abriu com a queda foi bem pequena, mas era perceptível. E, atrás dela, dava para ver um rastro também, por onde a coisa deve ter passado antes de parar. Tudo foi tão pouco explosivo que eu quase penso que aquilo não caiu por engano...

Desculpem acabar com as expectativas de vocês mas, não. A nave não parecia com aquelas clássicas dos filmes que são em forma de disco com uma parte de vidro em cima. Na verdade, ela nem parecia ter forma. Não sei descrever. Pra ser sincero, nem eu sei se entendi o que ela era. Parecia um monte de pedaços de metais amassados em uma bola. Vi algum coisa que devia ser vidro, mas acho que não era isso. Talvez chamar aquilo de nave seja simplificar demais as coisas. Tipo chamar um sabre de luz de espada. A única coisa que eu tinha certeza é que não era um meteoro, isso eu sabia.

Mas caramba, como aquilo era bizarro. Pra piorar tudo, ela ainda fazia um som estranho. Era um zumbido fino de doer os ouvidos. Fiquei um pouco nervoso ouvindo aquilo, e os cachorros também ficaram, porque um monte começou a latir lá de longe. Pensei até em fugir, quase fiz isso mesmo, de verdade, mas consegui me segurar. A verdade é que eu tava bem apavorado. Era a porra de um possível alienígena parado na minha frente! Quero dizer, vocês também teriam se cagado!

Mas o pior foi quando o que tinha lá dentro saiu pra tomar um ar. Olha, eu não sei o que vi. As vezes me pergunto se tudo aquilo não passou de um sonho (ou pesadelo) e meu deus, eu acho que era real.

Aquele monte de metal não se abriu com uma porta ou algo do tipo. Pelo menos não da forma como eu esperava que aquilo se abrisse. Ela simplesmente desapareceu, deixando apenas uma sombra (que era algo vivo) parada no campo aberto. Em um momento aquele monte de metal tava ali e no outro não tava mais! Mas que sombra era aquela! Não me perguntem se era humano ou não. Eu não sei! Apenas vi a sombra e sai correndo. Acho que quase me mijei de medo. Foi horrível. Aquela coisa sabia que eu estava ali, ela me viu. Eu senti seus olhos me olhando. Acho que corri mais até do que a minha bicicleta poderia aguentar. Meu corpo inteiro estava arrepiado e eu soava muito; estava encharcado. Devia estar vermelho também, fiz muito esforço pra correr tanto. Quase não conseguia mais respirar e meu peito começou a doer. Coria e corria. Desesperado e com medo. O frio parecia ter ficado muito pior. Não sei se a criatura me seguia ou não, só sabia que seus olhos estavam em mim. Ele me via correndo pelos campos. Me viu também quando recuperei minha Caloi no meio da trilha e sai pedalando. Me viu quando a corrente soltou e eu tive que correr a pé pra minha casa. Ele sempre me via.

O pior é que eu acho que ouvi o bicho falando. Era uma voz que parecia sair pela garganta (se é que aquilo tinha uma garganta). Parecia que ele ficava estalando a língua quando falava, tipo uma tv fora do ar. Nem sei se aquilo era ele falando ou se era só um som que ele produzia. Puta merda, eu tô me cagando de medo enquanto escrevo isso. Eu não sei se vocês entendem a situação, mas essa porra pode estar andando lá fora nesse exato momento! Pode estar se alimentando das vacas e dos cachorros das fazendas. Dormindo escondido nas plantações e sei lá mais o quê!

O resto não importa muito. Cheguei em casa chorando e gritando desesperado pelos meus pais. Eles acordaram extremamente assustados. Acho que quando viram minha cara eles devem ter pensado que eu tinha me encontrado com o Jason ou algo do tipo. Mas o que eu vi foi obviamente pior. Muito pior.

Tentei explicar para eles o que tinha acontecido. Contei que tinha visto pela janela do meu quarto algo caindo do céu e que peguei minha bicicleta pra ir lá ver o que era. É vergonhoso, mas eu chorei muito e abracei os dois muito forte. Eu ficava repetindo (pelo que minha mãe disse depois no outro dia): "Ele tá vindo, mamãe! Ele tá vindo atrás da gente! Eu vi ele lá perto do depósito, juro que vi! A gente tem que se esconder rápido. Por favor, mãe! Não deixa ele chegar perto da gente...não deixa".

Meus pais tentaram me acalmar, mas nada funcionava. Acho que na cabeça deles, não era um alienígena rastejando pelos campos que os preocupava. Deviam estar pensando que talvez fosse um pedófilo ou então crianças da vizinhança querendo zoar alguém. Sei lá, qualquer coisa, vocês sabem como eles são.

Meu pai parecia meio bravo. Saiu e foi sozinho chamar uns amigos da vizinhança pra eles irem ver o que tinha acontecido. Eu fui contra a ideia, o bicho podia pegar ele. Tentei dizer: "Ele vai te pegar lá fora, papai! Não sai daqui, por favor! Não deixa a gente aqui sozinhos!", mas ele não me escutou.

Eu e minha mãe ficamos em casa enquanto meu pai saia de carro pra reunir seu esquadrão fantástico. Qualquer barulho que eu escutava me fazia pular do sofá. Até minha mãe começou a ficar preocupada. Talvez por causa do choque forte que eu sofri, acabei dormindo ali no sofá. Só fui saber o que aconteceu com meu pai na manhã do outro dia.

Aparentemente, ele e mais três amigos ficaram rodando pelos campos a noite inteira. Foram no depósito (já que eu tinha falado pra eles que foi lá que aconteceu tudo). Meu pai disse que não acharam nada. Parece que não viram nem mesmo a pequena cratera que tinha se formado com o impacto.

"Filho, talvez você tenha entrado em estado de sonambulismo ontem à noite, e aí imaginou tudo aquilo. Estou dizendo pra você, não tinha nada lá. Nós conferimos". Tentei protestar, mas acho que de alguma maneira queria acreditar nele. Sabia que a cratera devia ter desaparecido, assim como Ele. Afinal, não era sempre assim que acontecia nos filmes? Tudo sempre desaparecia antes dos pais conseguirem ver.

Uma seman...Nossa, pensei ter escutado alguma coisa lá fora. Acho que é isso que da ficar escrevendo sobre isso de noite. Enfim. Uma semana se passou e eu não tive mais notícia nenhuma sobre isso. Não saiu nenhuma matéria no jornal e nem ninguém disse ter visto o brilho no céu também. Pra não dizer que nada aconteceu, a filha dos Araújo sumiu de casa esses dias e nunca mais voltou...Encontraram as roupas dela jogadas pelas plantações, mas nada da menina. O pessoal fala que ela já não batia muito bem da cabeça e que mexia com essas coisas de drogas, que deve ter fugido dos pais...mas eu não acredito. Acho que aquele bicho tá se alimentando. Talvez se reproduzindo lá fora. Tenho vontade de chorar quando penso que essa menina pode ter se encontrado com ele...Espero que não...

Sei que tudo aquilo que eu vi foi real. Eu sei que foi. Só eu sei o medo que senti. Só eu sei como aquilo me olhou!

Acho que vou parar por aqui, já tô ficando cansado e com sono. Talvez um dia eu volte aqui no diário com novas informações. Se você está lendo isso, hm, Deus te ama! Tchau e obrigado!

Que bosta.

Espero que não passe pela mesma experiência que eu. E uma dica, se puder escolher: NÃO VÁ ATRÁS DA PORRA DO OVNI. A vida é diferente dos filmes. Câmbio, desligo!

***

Encarou por alguns minutos as palavras no papel, achando tudo aquilo meio bobo e mal escrito. Fechou o caderno e pousou o lápis sobre a escrivaninha de seu quarto, iluminada por um pequeno abajur de luz amarelada.

Levantou-se da cadeira e se espreguiçou. Sua bunda doía pelo tempo sentado no banco duro de madeira que o pai lhe dera em um de seus aniversários. Lucas nunca gostou muito do presente, era feio e desconfortável. Mas o pai se dedicou tanto aquilo que ele não pôde evitar fingir uma surpresa empolgada quando a recebeu. O pai passou vários domingos lá fora na garagem atrás da casa principal. Trabalhava sem parar, acompanhado apenas de uma garrafa de cerveja gelada sobre a banqueta ao lado e os jogos do brasileirão na rádio. Ninguém o incomodava nessa hora. Quando terminava, voltava de tarde para comer alguma coisa. As roupas cheias de pequenos pedaços de madeira e pó da carpintaria sujavam a casa deixando a mãe enlouquecida. Lucas achou que seria legal fazer aquilo; mexer com serras e ouvir os jogos, mas o pai não deixou. Era muito perigoso, ele dizia. E, além disso, era uma surpresa.

Nessa noite, quando se sentou diante da primeira folha do diário, Lucas começou a escrever tão naturalmente que nem percebera o quanto se empolgara com aquilo. Sentiu um frio na barriga. Um formigamento leve de vergonha pelo que escrevera,

de estar feliz pelo resultado.

Ninguém nunca iria ler aquilo, garantiria para que assim o fosse. Era seu segredo. Todo mundo tem uma história que prefere deixar escondida para não ser tratado como louco ou mentiroso. Essa era a sua. Foi difícil para ele revisitar as memórias de um dia que já parecia distante no tempo, embora possuíssem apenas uma semana de existência. Uma semana desde seu encontro. As imagens, os cheiros, a sensação que sentiu ao correr pelos caminhos enlameados que recortavam os acres de terra que se estendiam sem fim pelo horizonte; os sons que escutara naquela noite; o vento chacoalhando as plantações, batendo gelado contra seu rosto; tudo era tão vivo. Escrever fez Lucas se libertar do peso que carregara durante os últimos dias. Finalmente tinha se divertido, sentia-se mais leve.

Esquadrinhou seu pequeno quarto, satisfeito por estar protegido pelo conforto de sua casa. Acima da escrivaninha, uma grande janela se abria revelando a penumbra estrelada da madrugada chuvosa lá de fora. O vento trazia o cheiro de terra e da grama molhada para dentro do quarto, enquanto milhares de insetos espalhados em seus próprios mundos cricrilavam incessantemente. Por trás dos vitrais -agora molhados pela chuva-, Lucas fitou o ponto no céu por onde, há uma semana, assistiu o brilho em queda sobre a fazenda.

Depois daquele dia, raramente mantinha a janela de seu quarto aberta. Deitado em sua cama embalado de baixo do cobertor, sentia-se rodeado pelos sussurros sinistros que a noite traz consigo. Pensava nas coisas que percorriam os arredores da casa sob o luar, quando todos dormiam. Não gostava da imagem daquela coisa deslizando do lado de fora. Assim, fechava a janela.

Na verdade, preferiria manter todas as janelas da casa fechadas. Mas seus pais não gostavam da ideia, e sempre insistiam em mantê-las abertas. Lucas aceitava sem brigar. Pela manhã e à tarde, não sentia tanto medo -só quando estava sozinho, nessa hora ele fechava todas elas. Era quando a noite chegava que seus temores despertavam. Caminhar até a cozinha com aqueles grandes vitrais o observando como olhos era terrível para ele.

Tentava encarar aquilo tudo como um simples pesadelo aterrador que deveria encontrar seu sepultamento nas últimas palavras de seu diário. Achava que pensar muito sobre aquilo poderia atrair coisas ruins. Era como o que a mãe dizia sobre o Diabo. Se falar nele, ele aparece. Então, tudo seria melhor e mais fácil se ele tentasse esquecer. Sabia que era uma mentira, mas ela o ajudaria. Não queria desaparecer igual a menina da família Araújo.

Abriu a porta de seu quarto e saiu para o corredor apagado. Passou sem fazer barulho pelo quarto dos pais e foi até a sala de jantar. Precisava urgentemente usar o banheiro. Não havia percebido o quão apertado estava. Andou pela casa adormecida, esgueirando-se com o sentimento de que estava sempre sendo vigiado por olhos atentos por trás das janelas e pelos quadros da mãe pendurados na parede.

Passou pela parte da casa que mais o assustava. Ali, um escuro corredor se estendia até a porta do banheiro. A arquitetura do lugar convergia para a imagem do Salvador crucificado ao fim da parede. Lucas odiava aquilo. Amava Jesus, mas achava a figura crucificada extremamente mórbida. Sentia que Ele o observava sempre que passava pelo corredor. Era impossível não o olhar quando estando ali. Sua mãe arrumou tudo muito bem para que isso acontecesse.

Correu apertado até a o banheiro. Sentindo os olhos de Jesus sobre ele, entrou rapidamente e trancou a porta; deixando o mundo escuro preso do lado de fora. Ficou aliviado por estar seguro novamente.

A luz se acendeu iluminando o banheiro com uma luz exageradamente forte. Lucas andou sobre o chão frio na ponta dos pés. Sua bexiga parecia prestes a explodir. Já não aguentava mais. Correu diretamente para a privada e logo ficou mais aliviado.

Parado no silêncio da noite, Lucas começou a ficar incomodado. Entrou tão rápido no banheiro que se esqueceu de fechar a a janela atrás de si. Olhou por cima do ombro e viu os campos lá fora. De repente queria sair logo dali. Experimentava uma sensação de vulnerabilidade. A urina saia sem parar, parecendo durar uma eternidade. Sentiu um rápido calafrio arrepiar seu corpo. Nem mesmo as cigarras que sempre cantavam estavam fazendo barulho. Havia apenas o som da urina caindo na água do vaso. Sentia agora o mesmo nervosismo daquela noite. O frio na barriga de temor. A vontade de correr.

Vai mijo, anda logo! Vamos, vamos, ele chacoalhava-se ansioso, olhando em volta para garantir que nenhuma mão o agarraria por trás.

Começou a levantar o short antes que as últimas gotas saíssem. Suas mãos desajeitadas tentavam abotoá-lo quando três sons abafados quebraram o silêncio da noite atrás dele. Três batidas solitárias contra a janela à suas costas: Toc, Toc, Toc. O som o assaltou de surpresa, congelando-o ainda na tentativa de abotoar o short com suas mãos trêmulas. O choque e o medo desolador invadiram sua mente imaginativa de criança. Toda sua força se esvaiu de repente. Não queria olhar. Deveria andar para fora do banheiro e correr para chamar os pais.

As batidas soaram mais uma vez, mais insistentes do que as outras. A cabeça de Lucas virou em um movimento automático, e ele logo sentiu seu corpo ceder. A vida deu lugar ao horror provocado pelo ídolo soturno que, inerte, o observava por trás dos vitrais da janela. A imagem da menina desaparecida veio em sua cabeça e ele quis berrar por ajuda.

Naquela noite, todos ouviram o grito desesperado e aterrador que veio, de forma cruel, da casa da família Souza, propagando-se e se alastrando pelos extensivos hectares de plantações que se curvavam sob a égide perpétua do universo inalcançável.
A segunda criança tinha sido adicionada a contagem dos moradores de Divina Pedreira. Na noite do desaparecimento de Lucas, alguns caseiros disseram ter visto um animal estranho deslizar pelos gramados. Além disso, os moradores foram presenteados com uma sinfonia frenética de ganidos dos cachorros da vizinhança. Poucos dias depois, outra pessoa teria seu nome gravado nas folhas do jornal local.

4 de Junho de 2019 às 04:21 0 Denunciar Insira 5
Fim

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