Arcadia Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Um gamer viciado em fliperamas sem mais máquinas para jogar. Numa cidadezinha misteriosa, o santuário repleto de arcades perdidos. Uma jornada inesperada é iniciada, e seu protagonista logo compreenderá a norma: Aconteça o que acontecer, não pare de jogar.


Ficção científica Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#game #nostalgia #multiverso #jogo #realidade #games #portal #virtual #dimensões #clássico #videogame #fliperama #Arcade #Simulacro
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Capítulo Único

Arcadia


I


Sou viciado, desde que me entendo por gente, em jogos eletrônicos. Mas não qualquer tipo de jogo. Cartuchos, mídias de CD e DVD, o novo Blu-ray... Argh! Não, não são minha praia. Para mim, jogar games em casa, numa televisão instalada numa sala ou num quarto, anula quase por completo a experiência que eles possam lhe fornecer. É como domesticar um animal selvagem: se você retira um leão de seu habitat natural, por exemplo, ele passa de "rei da selva" a quase um gatinho, seu posto soberano removido ao ser metido dentro de uma jaula. Com jogos é a mesma coisa. Televisores e consoles caseiros são prisões que lapidam boa parte do que um game é em sua origem. Por isso, na minha opinião, criações assim devem ser apreciadas somente no ambiente em que a maioria delas surgiu: uma boa máquina de fliperama.

Nem sou tão velho assim para preferir o Arcade. Na verdade, quando nasci, Mario e Sonic já debutavam nos consoles de 16 Bits, os videogames domésticos já tendo se tornado moda. Mas, graças a boas influências, descobri que o verdadeiro mundo dos games está dentro daquelas estruturas elétricas que mais parecem sarcófagos com tela. Fliperamas são, talvez, minha religião. Na escola, quando a professora de literatura escreveu na lousa pela primeira vez o termo "Arcadismo", acreditei ter descoberto a palavra perfeita para definir meu estilo de vida – mesmo descobrindo pouco depois que ela na realidade se referia a poetas de Minas Gerais que suspiravam por musas imaginárias...

Meu primeiro contato com um fliperama foi aos seis anos de idade. Na época eu e minha mãe costumávamos visitar alguns parentes que moravam no interior, com os quais por algum motivo nem nos falamos mais. Na rodoviária da cidadezinha em que eles moravam havia uma máquina de jogo ao lado dessas típicas lanchonetes de beira de guichê que vendem caro salgados ruins. Na época não sabia do que se tratava: achei de início ser uma televisão com vários botões, e eu, curioso que era, corri até ela para descobrir. O desenho de um guerreiro carateca num dos lados da mesma, junto com um letreiro bastante chamativo, prenunciaram o mundo no qual eu mergulhava:


STREET FIGHTER II


Eletrizado, vi um par de lutadores se digladiarem na tela: trocando socos, chutes, voadoras – até lançando poderes um no outro! Totalmente absorto pela novidade, passei a apertar os botões no painel de forma frenética, na tentativa de fazer com que o artista marcial preterido por mim entre os dois vencesse o embate. Só fui perceber algum tempo depois que o confronto terminava do nada num dado momento e, após títulos luminosos dançarem na tela, começava de novo infinitas vezes. Chorando, ouvi o dono da lanchonete revelar então que aquilo não passava de uma luta de demonstração em que eu não controlava ninguém, e teria de comprar fichas, colocando-as na máquina, para poder jogar de verdade.

Após essa turbulenta e um pouco frustrante introdução ao mundo dos Arcades, retornei à cidade dos meus parentes somente mais uma vez, um ano mais tarde. Durante todo esse tempo não havia conseguido tirar a misteriosa máquina de jogo de meus pensamentos, sentindo-me angustiado devido a por pouco não ter conseguido adentrar aquele mundo fascinante que aparentava tanto me prometer. Não havia dia em que nela não pensasse, imaginando se tornaria ainda a vê-la. Quando descobri que retornaríamos ao interior, temi que talvez nem tivesse chance de reencontrá-la. Porém, horas e mais horas enchendo minha mãe valeram para que ela me desse dinheiro que possibilitasse a compra de algumas fichas...

E, enquanto esperávamos o ônibus para ir embora após a visita, eu finalmente pude jogar.

Minha falta de habilidade nos controles ocasionou minha rápida eliminação pelos lutadores inimigos, e logo todas as fichas haviam desaparecido. Mas valeu a pena, e muito. Pude adentrar e começar a desvendar os segredos daquela dimensão de jogos tão desafiadores e inesquecíveis...

Dimensão a qual batizei carinhosamente de "Arcadia".

Desde então, fliperamas tornaram-se parte essencial da minha vida. Conforme cresci, descobri vários estabelecimentos na capital, onde resido, e passei a freqüentá-los. Meus pais nunca viram isso com bons olhos, devido às pessoas que infelizmente freqüentavam esses locais por outros motivos ao invés de prestarem culto à sua real divindade, os jogos: usuários de drogas, jovens cabulando aula, brigões... Eu, no entanto, só os adentrava com o firme intento de gastar minha mesada em fichas para poder viver em plenitude as experiências oferecidas por cada máquina. Luta, corrida, futebol, tiro... mundos incomparáveis atrás de cada tela, em que minha perícia nos controles – a qual por sinal muito se desenvolveu com o tempo – determinava ou não meu sucesso. Aquele tipo de ambiente me fazia sentir-me mais à vontade do que em minha própria casa: a sinfonia composta pelos sons e músicas embaralhados provindo de todas as máquinas ao mesmo tempo, os xingamentos devido ao "Game Over", os gritos de euforia, as pancadas sobre os painéis... Para fome e sede, pacotes de salgadinho e refrigerante. Para dor nas pernas, banquinho. Para vista zonza ou dor nas mãos, dar uma volta no lado de fora e retornar logo pouco depois... Tudo para poder inscrever minhas iniciais entre os dez melhores. Se possível em primeiro lugar.

Ao contrário do que acontece com muitos jogadores, meu vício não passou com o tempo. Mesmo no colegial, continuava um assíduo freqüentador de fliperamas, sempre que conseguia. O problema era que o declínio veio do lado oposto: os consoles caseiros e a Internet se popularizaram tanto que as casas de Arcade, uma a uma, começaram a sumir. Enquanto várias se converteram de mercadinhos a igrejas evangélicas, outras simplesmente se transformaram em lan houses ou cyber cafés, seguindo a tendência dos consumidores. A barulheira e a coreografia de botões deram lugar aos fones de ouvido e aos tiroteios via teclado e mouse.

Não, não há como eu me adaptar a esse novo mundo.

Jogando cada vez menos – e com os efeitos da abstinência sendo perceptíveis em meu caráter mais e mais tristonho e irritadiço – passei no vestibular, ingressei numa faculdade pública e em pouco tempo consegui um bom estágio numa firma de eletrônicos. A escolha da carreira por certo foi influenciada por meu antigo vício, mas digo-lhes: minha obsessão não parou por aí.

Aos fins de semana, passei a sair de casa mentindo para meus pais ao dizer-lhes que ia atrás de mulher. Foi então que, de forma parecida com rapazes que correm por aí atrás de entorpecentes, passei a perseguir minha própria droga: os poucos fliperamas restantes. Em poucas semanas varri a capital em busca desses estabelecimentos, porém todos que encontrei também funcionavam agora como bares ou casas de bilhar, contendo máquinas defeituosas ou falsificadas. Cheguei a descobrir algumas em bom estado em shoppings e lojas, mas o ambiente não era a mesma coisa, por mais que tentasse me convencer do contrário.

Vendo que na cidade grande meus esforços seriam inúteis, rumei para o interior. Tomava o carro do meu pai na sexta à tarde e só costumava voltar no domingo à noite, depois de vistoriar o máximo de cidades que conseguisse num raio de consideráveis quilômetros de distância. Numa delas, em certo sábado, uma surpresa: um fliperama ainda ativo com várias máquinas em razoável estado: The King of Fighters, Marvel vs. Capcom... quem diria, eles tinham até Galaga! Minha jogatina seguiu feliz por vários meses, todo fim de semana me dirigindo ao mesmo lugar e me tornando até amigo dos donos – já que, àquela altura, eu era um dos poucos fregueses que restavam...

Até que, também num sábado, veio a decepção: o local fechou, incapaz de viver somente das fichas que eu adquiria. Inclusive fui à prefeitura tentar descobrir para quem os donos haviam vendido as máquinas, porém nada descobri. A alegria parecia ter durado tão pouco...

A busca desenfreada por fliperamas se intensificou, e começou a afetar seriamente as demais esferas da minha vida. Ia mal nos estudos, estava a ponto de perder o estágio. Meus pais começavam a achar que eu mexia com drogas de verdade (coisa que jamais faria, já que vencedores não as usam) e, quando percebi estarem a ponto de tocarem no assunto comigo, saí de carro em plena quarta-feira, de novo rumo ao interior. Via-me decidido a fazer daquela minha última demanda. Ou encontraria um novo Arcade, ou desistiria de vez daquela insana empreitada.

Quem poderia imaginar que eu descobriria, na verdade, bem mais do que pensei...


II


Dirigi por horas e mais horas, a me perder no mapa de rodovias. Quando dei por mim guiara a noite toda e, no amanhecer do dia seguinte, concluí ter saído do próprio estado. Estava agora na entrada de uma daquelas "Tiririca da Serra" que são encontradas aos montes pelo interior do país. Achei difícil haver possibilidade de existir nela um fliperama em funcionamento, já que eu nada descobrira em cidades maiores. Como o destino, ou melhor, o motor do automóvel me trouxera até ali, resolvi que não doeria ao menos checar.

Percorri as poucas ruas que me separavam da típica pracinha central em frente a uma igreja. Idosos conversavam sentados nos bancos, o singelo comércio abrindo timidamente suas portas aos fregueses. Bocejando, vi botecos, um supermercado, uma lojinha de roupas... e então julguei que meus sentidos afetados pelo sono estivessem me pregando uma peça. Numa esquina encontrava-se situada uma velha construção de cor creme, paredes descascadas. As portas e janelas de madeira fechadas evitavam qualquer vislumbre do interior; mas a fachada possuía, em letras grandes e coloridas, o nome do estabelecimento... junto com a pintura bem feita de uma máquina de fliperama:


PARADISO GAMES


Como o nome mesmo fazia remeter, acreditei ter avistado um paraíso perdido. Torcendo para que a máquina de fliperama não fosse apenas um adorno do letreiro, manobrei o carro e estacionei. Meus passos até o local foram mais trôpegos que ansiosos, devido ao cansaço. Cruzei, mesmo assim, parte da praça, ignorando tudo e todos ao redor, e detive-me na calçada diante daquele verdadeiro oásis. Enquanto me perguntava se haveria alguém lá dentro, ouvi um despreocupado assovio, provavelmente de alguém envolvido numa tarefa rotineira. Um funcionário.

Comecei a bater à porta fechada de maneira desesperada, como se para mim representasse a morte permanecer do lado de fora (e, de fato, a mim de certa maneira representava). Tinham de me deixar entrar. Não poderia ter ido até ali à toa, não sem saber se haveria mesmo um Arcade ou não!

- Por favor! – subitamente vi-me implorando em voz alta, quase gritando. – Deixe-me entrar! Eu preciso!

O assovio, sem perder a calma, aproximou-se do obstáculo pelo outro lado... e logo em seguida ouvi o mais que bem-vindo som de uma tranca sendo removida. Deparei-me com um senhor idoso baixinho, de óculos redondos e pouco cabelo – os fios remanescentes totalmente tingidos de branco. Os olhos puxados revelavam ser oriental, por certo japonês. Usava camisa xadrez com suspensórios, calças marrons simples e sapatos velhos nos pés. Apesar da aparência humilde, a mesma demonstrava admirável zelo, e vi-me unindo duas imagens de minha vida ao contemplá-lo: o guerreiro carateca no primeiro game que joguei num fliperama e o mestre carateca de um filme antigo, cuja figura velha e sábia lembrava a daquele pequeno lojista.

- Bom dia! – ele sorriu ao me ver, não aparentando se surpreender com meu aspecto sofrido e desmazelado. – Em que posso ajudá-lo, meu jovem?

- Com licença, mas eu preciso saber! – respondi, adentrando o recinto ao quase empurrar o senhor. – Tem por acaso uma máquina de fliperama aqui?

Antes de escutar a resposta do suposto proprietário, fitei rapidamente o interior do estabelecimento: sobre o tablado antigo e junto às paredes desgastadas, prateleiras exibiam games e apetrechos para consoles de última geração. Uma loja destinada aos novos jogadores, pelo visto. Isso bastou para me desanimar; no entanto a serena voz do idoso trouxe nova esperança aos meus anseios:

- Hehe, na verdade tenho uma sim, filho. Eu a conservo há décadas em minha família, desde que vim de Osaka para o Brasil com meus irmãos. Além de ser parte da decoração, ela ainda funciona e é um atrativo a mais para os fregueses.

- O-onde está? – balbuciei, minha aflição crescendo, apesar da boa notícia.

- Ali! – o oriental apontou seu braço direito para uma direção do lugar que eu ainda não havia olhado.

Voltei a cabeça, quase sucumbindo de emoção... e vi o tesouro, a relíquia. Ao término de um corredor composto por prateleiras de produtos, encostado a uma parede, havia um Arcade negro, de design arrojado. Ao contrário dos contornos retos da maioria dos gabinetes, aquela peça era toda curva, como se uma empresa de games houvesse resolvido lançar todas as suas máquinas em estilo art déco. Inexistia, aliás, qualquer logomarca no produto – fosse da parte física ou do jogo em si. Os desenhos na estrutura eram bem genéricos, mostrando guerreiros em armadura greco-romana junto com um lutador de kung fu e uma nave espacial – não deixando nada claro a respeito de que game seria aquele. Pensei no momento se tratar de uma peça fabricada em larga escala para comportar diferentes lançamentos – por isso, talvez, o aspecto tão pouco específico do acabamento. O painel de botões era igualmente estranho: apenas dois, junto a um manche de comando em formato de chave que deveria machucar os dedos com bem menos tempo de uso que o normal. Mas o mais pitoresco, sem dúvida, era a ausência de slot para inserção de fichas – o que me fez perguntar seriamente a respeito de como aquela máquina funcionava...

- Como faço para inserir créditos? – indaguei, dirigindo-me lentamente à máquina como um caçador cauteloso diante de uma nova presa.

- Oh, não precisa! – riu o velho. – Ela é promocional, de uma série limitada fabricada muitos anos atrás. É só ligar e jogar à vontade.

As fichas eram parte do ritual para mim, e a ausência delas prejudicaria um pouco a experiência. Porém não poderia reclamar, pois achara algo bom até demais para minha situação tão desesperadora. Tinha de abraçar aquela oportunidade, principalmente pelo fato de achar ser aquela a última vez na vida em que jogaria num Arcade. E seria em grande estilo, numa máquina rara. Do que eu poderia reclamar, afinal?

Convenci-me e, concluindo minha caminhada até o fliperama, tateei-o com minúcia, sentindo sua textura. Áspera, desafiadora. Eu talvez estivesse mesmo enlouquecendo – mas enlouqueceria mais se não o jogasse. Sem me virar de novo para o idoso, tornei a questioná-lo:

- Como faço para ligar?

- Há um pequeno botão embaixo do painel, do lado esquerdo. Vai senti-lo se tocá-lo.

- OK, obrigado senhor...

- Atari. Atari Takashi.

- Obrigado, senhor Atari.

Ouvi os passos do dono da loja se afastando, enquanto eu, como ele instruíra, passava os dedos pela seção esquerda abaixo do painel em busca do interruptor de ativação. Minha pele se arrepiava conforme deslizava pelo revestimento plastificado, meus lábios se retraindo devido à demora em localizar o botão. Segundos depois, todavia, pude determinar a saliência de uma pequena alavanca, acionando-a... Simultaneamente, meus olhos dispersos se deram conta do fato de que a máquina não possuía conexão alguma ao sistema elétrico, a tela sendo iluminada com uma energia vinda não se sabe de onde. Ignorei o fato, porém. Era tarde demais para recusar aquele convite.

O visor da máquina assumiu uma cor azul intensa, que se manteve por alguns instantes. Acreditei que logo sumiria, ali permanecendo enquanto o programa do jogo era inicializado. Mas, para meu infortúnio, uma mensagem aparentemente de erro, em letras brancas assim como as que costumam ser fornecidas por computador, surgiu na tela:


NEW USER DETECTED

PRIMARY SLAVE UNIT FOUND

READY TO INITIALIZE…


- Hei, senhor Atari, deu erro! – exclamei, impaciente. – A máquina diz que vai inicializar, mas não inicializa!

Mal concluí a última palavra, um intenso clarão foi emitido pela tela anil, cegando-me temporariamente. Minhas mãos, dispostas sobre o painel de botões, queimavam, porém não conseguia removê-las: estavam como que fundidas à máquina. Abri a boca para berrar por ajuda, porém som nenhum saiu. Meu corpo estremeceu e relaxou seguidamente, como se atingido por rápidas e intensas descargas elétricas, cada célula de meu corpo formigante parecendo explodir... Quando dei por mim, tudo era luz e calor, não havendo mais chão, paredes ou loja. Senti-me arrastado, sugado por algo... e apaguei.


III


Não me lembro do que senti quando nasci, mas acredito que aquilo que passei após o estranho choque em frente ao Arcade se assemelha a um parto.

Assim que a forte luz se dissipou e meus olhos voltaram a ver, deparei-me com um estranho cenário urbano. Eu me encontrava de pé sobre o asfalto de uma rua, as linhas amarelas em seu centro perfeitamente simétricas. Em torno da via existiam prédios cinza, de diferentes tamanhos – e estranhei o fato de haver vários idênticos entre si, como se seguissem três ou quatro padrões pré-definidos: alguns de teto triangular com muitas janelas, outros retangulares quase sem aberturas, um punhado de redondos achatados... Percebi, igualmente, que alguns deles se encontravam semi-destruídos, estando em chamas (o fogo, curiosamente, sempre se originando do mesmo andar) ou repletos de rachaduras. O mais bizarro de tudo, talvez, fosse o céu vermelho-sangue acima dos telhados. Uma cor rubra intensa... ostentando várias estrelas de brilho branco, que também se alternavam em dimensões.

Um barulho chamou logo minha atenção, aproximando-se por minhas costas. Logo o identifiquei como o girar das hélices de helicópteros, mas havia algo de diferente no som... algo de eletrônico, de virtual. As aeronaves logo surgiram, voando por cima de mim e desaparecendo adiante pela rua que me pareceu, àquele momento, não ter fim. Eram verdes, helicópteros Apache... mas carregados de armas estranhas, como mísseis enormes e canhões que, de acordo com meu conhecimento de ficção científica, pareciam ser laser.

Estupefato, acompanhei as máquinas de guerra se distanciando no horizonte ainda por algum tempo; enquanto uma espécie de melodia artificial – parecendo ser tocada por uma orquestra de botões de fliperama – provinha não sabe de onde, contínua, meus ouvidos logo a ela se habituando. Em meio a ela, sem demora, acabei identificando também outro ruído... de passos, em marcha. Este, no entanto, também se assemelhava a uma seqüência pesada de bipes, ao invés do som natural de calçados sobre o asfalto.

Voltei-me novamente. Um pelotão de soldados corria em minha direção – ainda que seus membros não tivessem seus olhos em mim. As armas que empunhavam me chamaram primeiro a atenção: algo como rifles laser de miras telescópicas enormes. Vestiam farda azulada, sem uma diferença sequer de uma para outra; fato que notei, após rápida observação, também se aplicar às suas feições. Tinham todos rostos idênticos: claros, quadrados e pouco naturais – ainda que remetessem claramente a semblantes humanos. Só nesse instante notei o inexplicável fato: apesar de, para meu alívio, conservar meu corpo natural, eu também usava o mesmo traje!

- Apresente-se, recruta! – exclamou um combatente em particular que, destoando do avanço empreendido pelos colegas, parara diante de mim e me abordara com uma voz que, mesmo compreensível, parecia ter sido pronunciada por um daqueles bonecos a pilha.

- Recruta? – repeti sem entender.

- Oh... – apesar de soar desapontado, sua expressão continuou estática. – Mais um slave desinformado...

- Slave? Do que está falando?

Ele apoiou sua arma de pé sobre o chão e arregalou bem os olhos – de uma maneira que chegou a me assustar – para dar-me a seguinte explicação:

- Muitos loadings atrás, antes de eu ser programado, uma grande ameaça pairou sobre o Império de Arcadia. Uma força invasora do espaço tentou conquistar esta terra, lançando contra nós uma chuva de asteróides. No entanto, uma brava piloto chamada Pong decolou sozinha numa nave classe Galaxian e destruiu todas as rochas, retornando a Arcadia como heroína. Devido à sua bravura, foi entronada CPU, o posto de governante de nosso império. Depois disso, no entanto, Pong tornou-se uma tirana. Passou a oprimir seus súditos, transformando-os em slaves, escravos de comandos. Mas alguns de nós começamos a resistir, e hoje empreendemos grande civil game contra a CPU Pong!

A fala do soldado foi interrompida pelo som agudo de algo como um caça a jato, numa velocidade espantosa, voando sobre a rua. Sua forma escura e pontuda mal foi percebida por meus sentidos, mas o que ele deixou para trás logo teve seus efeitos sentidos por todos nas imediações: uma esfera amarela de energia, que pairou no ar por três ou quatro segundos, antes de converter-se num círculo de outras doze, que de imediato despencaram em trajetória reta impecável rumo a distintos pontos do asfalto, gerando explosões de estranho fogo quadriculado e crateras de tamanho igual umas às outras. Os combatentes azuis atingidos voavam por metros de distância, caindo em poses retorcidas enquanto suas silhuetas começavam a piscar insistentemente, anunciando estarem a ponto de deixar aquela existência.

Os soldados remanescentes, ao invés de buscarem abrigo, correram até os companheiros atingidos e, abaixando-se junto a eles, executaram misterioso ritual: retirando de seus uniformes um par de moedas prateadas, colocavam uma sobre cada olho do moribundo – como era costume dos gregos para pagarem o barqueiro do Estige. Chegando mais perto, notei que na verdade não eram moedas, mas fichas de Arcade. Após o procedimento, os supostos cadáveres sumiam de vez... apenas para voltarem, de pé e intactos, instantes depois – cada um dos indivíduos tornando a marchar como se nada houvesse acontecido.

- O que está havendo? – indaguei, cada vez mais confuso.

- Aprenda, slave! – o mesmo soldado que antes me instruía, tendo escapado ao bombardeio, exclamou para mim. – Em Arcadia todos nós temos apenas três vidas. Após a primeira ser perdida, o morto deve ser remetido ao Portal do Continue, onde ganhará automaticamente suas duas chances remanescentes. Use-as bem, na luta contra Pong!

Mal pude responder – dando conta de que eu também ganhara, sabe-se lá como, um daqueles rifles – quando algum tipo de força terrestre inimiga surgiu pela via. Tratava-se de um pitoresco trono ambulante, cheio de adornos dourados e estofado em roxo, locomovendo-se sobre lagartas de tanque. Conforme avançava, pude visualizar a figura nele sentada: uma estonteante jovem oriental, de maquiagem preta ao redor dos olhos e longo cabelo castanho preso atrás de sua cabeça. Sua aparência remetia muito mais a meu mundo de origem do que a dos tais slaves – e não posso negar que isso me agradou. Vestindo um collant cinza do pescoço aos tornozelos que definia muito bem suas esculturais formas, calçava botas negras de salto alto e segurava, com uma das mãos, uma espécie de tabuleta retangular. Tratava-se de um pequeno letreiro digital, onde surgiam, alternadamente, os números um e zero.

Levei algum tempo para desviar os olhos da beldade e perceber que, de acordo com o algarismo a surgir no pequeno painel, os soldados azuis pelo caminho eram simplesmente empurrados de lado por uma força invisível ou explodiam em milhares de pequenos pontinhos luminosos – os quais logo deduzi serem bytes. A primeira situação ocorria quando piscava o zero na tabuleta eletrônica, e a segunda quando nela aparecia o um. Compreendi a louca verdade: no mundo de Arcadia, a vida ou a morte eram definidas, pela CPU, através dos inquestionáveis pulsos do código binário. E sim, aquela devia ser a tal Pong, em toda sua glória destrutiva.

Logo só restávamos eu e meu instrutor, que não fez sequer menção de fugir diante da aparição da ditadora. Ainda voltado para mim, abriu a boca para explicar mais alguma coisa, quando vi o número um brilhar no painel da mulher... e meu guia se fragmentou em minúsculas partículas de informação.

Via-me, agora, sozinho diante da tirana. Um sádico sorriso não abandonava seus lábios cobertos de batom verde. Perguntava-me a razão de parecer tão real naquele mundo imaginário – eu já tentando compreender a lógica daquela maluquice. Não, eu achava que era um sonho. Tinha de ser apenas um sonho...

- Ora, olá! – saudou ela, as lagartas do trono-tanque sendo freadas. – Vejo que um novo slave foi transportado para meu império!

- O que está esperando? – encontrei, ainda, coragem para confrontá-la. – Me delete, assim como fez com os outros!

Ela riu. Gargalhou, na verdade, como alguém que demonstrava saber bem mais do que eu. E sim, isso me incomodou muito.

- Para que faria isso, querido? – ela indagou, descendo pelos degraus diante do trono com pose mais imponente que a do próprio Xerxes. – Logo se vê que você não é como os outros. Tem vontade própria, raciocínio humano. Além do mais, seu corpo pode gerar bem mais prazeres do que um modelo poligonal...

A lascívia na fala da imperatriz era nítida. Aproximou-se de mim, fitando fundo meus olhos. Senti meus pêlos se eriçarem, minha libido se acender. Perto o bastante, envolveu meu pescoço com um dos braços e, com o rosto a poucos centímetros do meu, revelou:

- Achou ser esta uma simples máquina de fliperama? Em sua ânsia por jogar, enganou-se. Digamos que, durante os últimos meses da Segunda Guerra Mundial, o imperador do sol nascente reuniu seus maiores cientistas na tentativa de criar uma arma tão poderosa quanto a que os ianques do outro lado do Pacífico estariam preparando... Chegaram à conclusão que, mais útil que algo que causasse destruição em massa, seria um recurso capaz de transportar as tropas japonesas para qualquer lugar no mundo de maneira instantânea. Unidades poderiam ser deslocadas de Tóquio para defender uma praia numa ilha distante no oceano num mero piscar de olhos. Teletransporte, tão retratado em filmes de ficção científica...

- Mas algo deu errado, presumo... – murmurei, sabendo que nada se falava nos livros de História sobre militares nipônicos surgindo do nada na Califórnia.

- Pois é. O meio encontrado pelos pesquisadores foi converter matéria física em impulsos elétricos, os mesmos sendo transformados de novo em matéria física quando se atingisse o local desejado. Algo similar ao telefone ou à televisão: ondas voando pelo ar. Acontece que as cobaias nunca atingiram o destino previsto. Elas se convertiam em impulsos elétricos e... sumiam. Vindo parar aqui, nesta outra dimensão. Arcadia. O paraíso idealizado por você que, quem diria, realmente existe.

Ela deu um sorrisinho bobo, como se por um momento recuperasse a inocência que demonstrara não ter, e continuou:

- Os pais de meu marido, Takashi Atari, foram dois dos cientistas pioneiros do projeto. Após o fracasso do mesmo e a rendição do Japão na guerra, o imperador desmantelou a equipe. O casal Atari, porém, continuou as experiências em segredo, visando vender os resultados para os americanos ou os russos: quem pagasse mais. Nada conseguiram, transmitindo o legado a seu filho, Takashi. Ele deu prosseguimento às tentativas, mas faltavam-lhe cobaias... até que ele resolveu usar a mim, sua esposa Pong.

A CPU de Arcadia mordeu os lábios por um momento, demonstrando que o assunto a incomodava. Mas não se intimidou, seguindo a falar:

- E aqui estou eu. Presa há décadas, talvez até séculos, já que como aqui não envelheço, desconheço o real passar do tempo. Meu marido nada fez para me salvar, e cansei de esperá-lo. Iniciei uma nova vida nesta dimensão, dominando esses seres virtuais. Quero aqui construir minha felicidade, porém não sozinha. Você é o primeiro humano aqui desde que cheguei. Junte-se a mim. Poderemos governar Arcadia, lado a lado, para sempre...

O outro braço da japonesa também me enlaçou... foi então que, sem que conseguisse continuar a resistir, nos unimos num beijo... o qual, posso jurar, fez com que eu sentisse leves choques por todo meu corpo.

Quando nossas bocas se separaram, os olhos de Pong tinham um brilho de alegria, de esperança. Só então parei para analisar toda aquela situação: de certo modo, minha vida toda fora dedicada a jogos de fliperama, esse hábito tendo crescido e muito em meu dia-a-dia... Seria mesmo destino? Um sinal de que toda minha existência convergira justo para aquele momento, tornando-me eu imperador de Arcadia, o mundo com o qual sempre delirei em minha imaginação, ao lado de uma belíssima mulher?

Sim, era mesmo destino. Beijei Pong mais uma vez, demoradamente... e logo depois, convicto, dei-lhe minha resposta:

- Aceito, minha cara. Hoje e sempre, governarei contigo este paraíso eletrônico.

De mãos dadas, subimos pela escada dourada do trono-tanque, que automaticamente criou um assento a mais – ao lado do que já existia. Sentei-me em meu novo posto, meus dedos ainda entrelaçados ao de minha rainha. Juntos, realizados. Ainda que estivéssemos em guerra, daríamos a ela continuidade para que pudéssemos erguer ali nosso próprio mundo. E, por eras e mais eras virtuais, as futuras gerações de humanos nascidos em Arcadia conhecerão minha odisséia graças a este relato que deixo escrito em arquivos criptografados... A serem convertidos algum dia, talvez, em cartuchos e outras mídias para consoles caseiros...

Para mim, aqui, jamais haverá fim de jogo.


THANK YOU FOR PLAYING!

29 de Maio de 2019 às 01:01 0 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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