Sanguineus Regium Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Aprendemos na escola que Tiradentes participou de uma conspiração para libertar o Brasil de Portugal, no séc. XVIII, e foi o único membro do grupo punido com a morte. Bem, esqueça os livros didáticos. Este breve conto narra a verdade dos fatos: os Inconfidentes eram na verdade um grupo de caçadores de vampiros, do qual Tiradentes fazia parte, que tinha o objetivo de evitar a Derrama em Minas Gerais: ao invés de ouro, os governantes da época, transformados em mortos-vivos, cobrariam sangue.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo Único

(Conto originalmente publicado na antologia "História Fantástica do Brasil – Inconfidência Mineira", da Editora Estronho).


Sanguineus Regium


I


A chama das velas nos candelabros sobre a mesa era a única fonte de luz na sala, ainda que em grande parte extirpada da penumbra, conservava certo aspecto soturno devido à trêmula claridade amarela. Junto à mesa, a silhueta sombria e solitária de um homem sentado parecia complementar o pouco convidativo cenário, os dedos de uma de suas mãos tamborilando impacientes a madeira. Revelavam uma demorada espera por algo ou alguém, além do fato de provavelmente constituir ele anfitrião daquele mundo de segredo e mistério.

O ranger abafado de uma porta de madeira sendo aberta em meio à escuridão predominante no resto da casa ecoou pelas dependências. Seguiram-se então passos contínuos sobre as tábuas do chão, tentando soar os mais silenciosos possíveis – dados por pessoas que certamente entravam com relutância e medo, ainda que não fosse a primeira vez, aquela atmosfera oculta. E, um a um, outros vultos foram surgindo na sala em que o outro até então os aguardava, acomodando-se nas cadeiras em torno da mesa. O anfitrião ocupava uma de suas pontas, demonstrando assim posição de liderança. Na extremidade oposta também se alojou um indivíduo, mais precisamente o último a entrar no recinto. Logo o móvel estava cercado por homens de variados trajes e semblantes; seus olhares, no entanto, possuíam algo em comum: uma contraditória mistura de determinação e hesitação, de bravura e temor, de ímpeto e contingência.

O líder olhou em volta, certificando-se que as janelas se encontravam fechadas e os criados dispensados. A residência, situada numa ladeira, era um tanto baixa, o que dificultava que os vizinhos ouvissem o que se passava ali dentro. Ainda assim via toda cautela como sendo necessária, principalmente devido ao motivo daquelas reuniões – e igualmente pelo fato de não estarem lidando com qualquer tipo de ouvinte...

Mais seguro, o anfitrião alisou de leve a barba em sua face, ordenando mentalmente as palavras a serem usadas, e por fim se manifestou:

– Senhores. Estamos aqui em mais esta noite para definirmos os últimos pontos pendentes de nosso plano de ação. Como é sabido, o dia da Derrama se aproxima. Chega o momento de fazermos algo para salvar a população de Vila Rica e de toda esta região das Minas Gerais.

Algumas das cabeças se mexeram em concordância, enquanto outras permaneceram imóveis. O medo, ao que parecia, dominava mais a alguns do que aos demais. Grande parte do desconforto, ao menos naquele encontro em específico, parecia ser gerado pela desconhecida figura do homem sentado na posição oposta à do líder do grupo. Ao contrário dos outros, ele não participara de nenhuma reunião anterior, e, dado o que faziam, perguntavam-se se não poderia se tratar de algum espião a serviço das forças régias. O anfitrião, no entanto, era alguém perspicaz, logo notando a desconfiança de seus colegas. E foi com esse intuito que apresentou o novo integrante aos mais antigos:

– Este é o senhor Ghelsin. Empreendeu uma viagem de meses da Inglaterra até aqui, apenas para nos auxiliar em nosso intento. Ele pertence à santa Liga Cromwell, à qual já me referi algumas vezes em encontros passados.

Os peitos relaxaram, os olhares se tornaram mais tranquilos. Sim, a Liga Cromwell – grupo de caçadores de amaldiçoados mais conhecido no mundo. Isto é, No mundo horripilante e sombrio existente em meio às mais profundas entranhas da sociedade, onde seres e monstros conhecidos pela maioria das pessoas apenas através de lendas convertiam-se em realidade. Um mundo de puro terror, e que apenas alguns possuíam o raro fardo de conhecê-lo. Quanto a não enlouquecerem por completo depois disso, era algo ainda mais difícil de ocorrer.

A verdade era que a Liga Cromwell, formada em segredo por alguns nobres, religiosos e comerciantes ascendentes, há pouco mais de um século, limpara a Inglaterra da extensa corte de parasitas demoníacos que a vinha assolando. Até mesmo o próprio rei Carlos I, nesse período, era um vampiro. Durante a violenta guerra civil que se sucedeu, a Liga reuniu os inimigos do mal contra as hordas de sanguessugas – e acabou por triunfar. Desde então, a sociedade secreta expandira sua área de atuação, procurando combater amaldiçoados não só sugadores de sangue, mas aberrações em geral, pelos quatro cantos do mundo conhecido. E, tendo sido notificada pelo anfitrião a respeito do que tinha palco na região das Minas, não tardou a enviar um de seus homens para auxiliar o pequeno grupo de resistência que se formava.

A desgraça que ameaçava se abater sobre a Colônia era parte de algo bem mais amplo. Há anos a maldição vampírica vinha se confundindo com o luxo ostensivo dos monarcas do Velho Mundo, ambos se tornando uma só moléstia. Cada um dos reis e rainhas europeus tinha se unindo às legiões satânicas, muitas vezes através de rituais empreendidos por nobres e cortesãos que há muito haviam se tornado sanguessugas. Na longínqua Rússia, bebês eram enviados em segredo ao palácio da imperatriz Catarina para se tornarem parte de banquetes oferecidos a ela e sua glutona corte de amaldiçoados. Nos domínios dos longevos Habsburgos, sanguinolentas cerimônias eram realizadas nos porões de suntuosos castelos, com a oferta de sacrifícios humanos a divindades do submundo enquanto os desesperados gritos das vítimas acabavam abafados pelas espessas muralhas. Até mesmo na França, onde as luzes despontavam como esperança frente ao crescente domínio das trevas, Luís XVI e sua rainha Maria Antonieta oprimiam os camponeses nos campos para que sua reserva de sangue e orgias fosse mantida intacta. A praga dos vampiros assim se espalhava pelos territórios europeus, até ter recentemente atingido um dos corações da cristandade: Portugal.

O Marquês de Pombal, um homem da luz, que até constituíra membro honorário da Liga Cromwell, fez de tudo para contê-los. A própria sociedade secreta, beneficiada pelos intensos vínculos estabelecidos entre lusitanos e ingleses, mostrara-se presente em Portugal para combater os amaldiçoados. Tamanho esforço, todavia, mostrou-se inútil. Com a morte de Pombal, a corte vampírica se consolidou sob o jugo de D. Maria que, apesar de não ter sido transformada, era incapaz de impedir a ascensão dos inimigos devido a estes a terem dominado mentalmente.

Com a queda da Metrópole, os vampiros espalharam-se por suas colônias, inclusive nos trópicos, para onde já vinham migrando em pequena quantidade desde que Cabral ali pisara. Os últimos tempos, porém, testemunharam uma verdadeira corrupção de todas as instituições do Brasil devido à presença dos sanguessugas, e tal influência vinha se mostrando mais determinante em sua região de maior riqueza: as Minas. A sede por ouro se misturou à sede por sangue, os veios do valioso metal confluindo com os fios de líquido rubro derramado pelas vítimas dos amaldiçoados. E o pior ainda estava por vir...

A Derrama constituiria ápice da selvageria empreendida pelos vampiros administrando Vila Rica e suas cercanias. Com o pretexto de coletarem impostos dos moradores da região, confiscando os bens daqueles que não pudessem sanar suas dívidas para com a Coroa, os sanguessugas teriam assim justificado seu livre acesso ao interior das moradias; aqueles que as habitavam estando assim completamente à sua mercê. Um verdadeiro massacre estaria em vias de ocorrer nas Minas Gerais, caso os homens de bem nada fizessem para deter os filhos de Satã. Aquele era o motivo das reuniões, dos preparativos. Dentro de poucos dias, aquele bravo grupo de resistentes sairia à caçada dos principais vampiros da localidade, antes que pudessem se colocar em movimento.

Após ter apresentado o inglês aos presentes, o anfitrião, Cláudio Manuel da Costa, decidiu colocar em pauta os preparativos para a ação preventiva. Antes disso, no entanto, desejou saber se cada integrante colocara em prática a prévia incumbência que lhe fora conferida:

– Aos homens da Santa Madre Igreja, foi pedido que nos munissem de alguns dos instrumentos necessários para o expurgo dos demônios. Trouxeram eles o que lhes foi requerido?

De um dos lados da mesa, três homens de batina, sentados em conjunto, assentiram com a cabeça. O primeiro, padre José da Silva, depositou sobre o móvel um pequeno frasco de vidro opaco, sua extremidade superior fechada por uma tampa de madeira. O interior continha líquido imaculado, sua solução transparente chegando até a emitir admirável brilho prateado sob a luz das velas. Apresentava, naquele recipiente e em outros que carregava consigo, boa quantidade de água benta.

O segundo religioso, sentado ao lado de José, igualmente levou uma das mãos ao traje eclesiástico, retirando algo que colocou em cima da mesa. Era também padre, chamado Carlos de Toledo e Melo. Com todo cuidado, seus dedos desdobraram um lenço bordado com uma bonita representação do rosto de Cristo. Revelou, em meio a ele, algumas hóstias consagradas – o próprio corpo do Filho de Deus.

Finalmente o terceiro clérigo, cônego Luís, empurrou sobre a madeira um crucifixo metálico com vários adornos em ouro, prata e joias – verdadeiro tesouro familiar semienvolto num pano roxo. Cláudio sorriu em satisfação. Os artefatos sagrados necessários já estavam em posse do grupo – coisa que temera não acontecer, devido à visão de pensadores anticlericais que muitos dos religiosos de Vila Rica possuíam daqueles indivíduos. Era, afinal de contas, parte do disfarce.

O líder voltou sua cabeça para os senhores sentados do outro lado da mesa. O mais próximo, o minerador Alvarenga Peixoto, retirou do casaco um pequeno embrulho de tecido marrom. Abrindo-o diante dos companheiros, revelou uma série de estacas do tamanho de um antebraço, esculpidas em pura prata e possuindo pontas bem afiadas. Uma cortesia de suas minas. Ao seu lado, os militares que tomavam parte na conspiração colocaram sobre o móvel mosquetes, pistolas e outros armamentos que, apesar de não tão úteis contra os inimigos a serem enfrentados, poderiam servir para ao menos repeli-los momentaneamente.

Faltavam apenas dois integrantes do grupo a se manifestarem, um de frente para o outro. O primeiro, o jurista de nome Tomás Antônio Gonzaga, era talvez um dos maiores opositores dos vampiros entre os presentes. Unir-se a um movimento contra eles era ato, para si, também de retaliação, pois presenciara a morte de uma donzela, a quem amava, nas mãos de uma daquelas nefastas criaturas. Ele a imortalizara com a alcunha "Marília de Dirceu" em seus versos de poeta, mas para si a obra ainda não fora completa: desejava, agora, aniquilar aqueles malditos inumanos em nome da alma de sua amada que partira. Com seu semblante jovial de cabelos compridos, já envenenado pela busca por vingança, colocou em cima da mesa uma grande quantidade de dentes de alho.

O segundo, quase imperceptível num dos cantos do móvel, consistia talvez o membro mais apaixonado da sublevação. Metido na farda azul surrada de alferes, Joaquim José da Silva Xavier era, além de soldado, cirurgião dentista, ocupação que lhe valera o apelido de "Tiradentes". Seu passado, conhecido em plenitude por poucos, mostrava-se trágico, pois perdera os pais bem cedo, assassinados por vampiros em busca de caça. Tal fato foi o estopim da decadência de sua família, que perdeu assim suas terras e a riqueza que outrora possuíra. Dessa maneira, assim como Tomás, via-se movido pela revanche. Alguns diziam até que o irmão caçula de Joaquim, sétimo filho do casal, transformava-se num monstro nas noites de lua cheia – apesar da história nunca ter sido comprovada. De um modo ou de outro, o jovem era o mais determinado entre eles, disposto a dar a própria vida para livrar a Colônia dos sanguessugas. E, com expressão no rosto que transparecia essa decisão, o alferes trouxe à mesa uma adaga de lâmina feita de prata, o cabo dourado apresentando o relevo de uma cruz feita de diamante. Em seguida, com os olhos brilhando, voltou a cabeça para Cláudio, o qual, julgando já terem tudo de que precisariam, retomou a palavra:

– Pois bem. Podemos, então, revisar nossa estratégia para cercar nossos inimigos.

– Espere... – pediu o padre Carlos, ansioso em seu assento. – Onde está o coronel Joaquim?

De fato, outro Joaquim, de sobrenome Silvério dos Reis, estava ausente àquela reunião. Até então não faltara a encontro algum, tendo desta vez sido vencido, talvez, pelo medo. Ou simplesmente queria terminar sozinho seus preparativos para o dia de agirem, que se aproximava cada vez mais. O anfitrião confirmou com os olhos que o militar não se encontrava mesmo em nenhum ponto da sala, optando por iniciar sem ele a reunião.

– O momento é de urgência, e não podemos titubear. Comecemos mesmo assim. Gostaria que o senhor Ghelsin, representante da Liga Cromwell, expusesse o que tem em mente.

Levantando-se de sua cadeira sem agradecimentos ou qualquer outra reverência, o inglês, com sua voz cheia de sotaque, passou a falar – todos os outros inseridos no mais completo silêncio e mantendo seus olhos cheios de bravura fixos na figura do estrangeiro.


II


Ele caminhava trôpego pelas ruas de calçamento de pedra, cada ladeira representando penoso esforço para suas pernas trêmulas e seus sentidos amedrontados. Além de ser consumido por um cruel sentimento de culpa devido ao que se encontrava prestes a fazer, agora até o próprio cenário de Vila Rica, envolvido pelo manto noturno, aparentava voltar-se contra si. As fachadas dos casarões, com suas portas e janelas cerradas, pareciam rostos de expressão resignada, olhos fechados diante da traição perpetuada por aquele homem. Dos parapeitos e telhados, sinistras sombras projetavam-se pelo caminho, como se compusessem armadilhas espectrais destinadas a apanhar o delator antes que ele concluísse seu intento. Julgando-se louco, o indivíduo logo se flagrou desviando como podia das áreas imersas em penumbra, buscando ao máximo os trechos da via expostos ao brilho do luar e das estrelas. No entanto, àquela ocasião até este não era o de costume, a claridade prateada banhando o solo e as casas numa alvura fantasmagórica, gerando a impressão de que a qualquer momento almas há muito adormecidas despertariam em nuvens de pavor para tragar ao inferno aquele infeliz vira-casaca.

Ofegante, Joaquim Silvério dos Reis, vestindo uma suja camisa e calças em estado igualmente precário, abrira mão do uniforme do exército, naquela noite, na esperança de que quem o visse pelas ruas não o reconhecesse. Entretanto, as poucas pessoas com que se deparara pelo trajeto – sendo ilusão de sua mente perturbada ou não – lançaram sobre sua estropiada figura olhares de completa reprovação, como se ele não passasse do mais odioso dejeto daquela sociedade. Mas, apesar de intensificar sua penúria, tal reação fomentava ainda mais a busca por seu objetivo. A razão que o levava a trair seus companheiros de conspiração, sem se importar com o que os amaldiçoados fariam se não fossem impedidos...

Passou pela frente da Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia, a pequena torre ainda em construção se erguendo rumo ao céu noturno como um pequeno resquício divino tentando inutilmente se afastar daquele antro de pecado. Porém, apesar do reconforto aparente que ela gerava, Joaquim sabia que para si não haveria mercês, muito menos misericórdia. Continuando a andar quase cambaleando, seus pés por pouco não tropeçando nas lajotas do calçamento, contornou o Palácio dos Governadores, determinado a abraçar o destino que escolhera. O prédio, parecido com um forte, era a edificação mais opressora dentre as silhuetas sombrias dominando aquela parte da cidade; as quais não pareciam pertencer a casas, mas a monstros gigantescos adormecidos em instável torpor.

Sentindo-se um sonâmbulo que mal controlava seus movimentos, Joaquim começou a vencer a escadaria do lugar. Se não fosse sua meta, teria desistido daquela empresa muito mais cedo – mas graças a ela conseguia enfrentar o terror que gradativamente tentava se apoderar de seu coração. Cruzando o pátio diante da fachada do local, lançou breve olhar para as guaritas, nelas identificando vigias fardados cuja pele era branca como cera – verdadeiros cadáveres reanimados. Ignorando esse sortilégio, rumou para a porta dupla da entrada, as luzes acesas no interior do casarão lhe parecendo bem convidativas em contraste com as sombras que predominavam do lado de fora.

Entrou no recinto, passando mecanicamente por uma série de corredores e salas imersos em requinte. Seus passos não eram mais ordenados pelo cérebro, e sim por algum tipo de força maior que o seduzia, controlava-o. Chegou, afinal, a uma porta de madeira fechada, guardada por um soldado de uniforme e peruca. Portando seu mosquete em posição de vigília, tinha a tez igualmente pálida como a neve do Velho Mundo. Foi com uma voz fina e gélida, capaz de causar calafrios, que ele se dirigiu ao recém-chegado.

– Vosmicê pode entrar. O Visconde o aguarda.

Sem ser intimidado pelo inesperado convite, Joaquim prosseguiu, empurrando com uma das mãos o obstáculo de madeira, que rangeu medonhamente.

Viu-se então num salão adornado com luxuosa mobília europeia, as pinturas nas paredes demonstrando ser aquele o gabinete de um homem apreciador das artes. Todavia, no centro do ambiente se desenrolava ritual selvagem digno das mais temíveis celebrações de Lúcifer, diferindo muito da decoração rebuscada. Sentado numa cadeira, um homem de farda e insígnias no peito, porte altivo e cabelo alinhado, encontrava-se com o corpo inclinado para frente. Tratava-se do Visconde de Barbacena, governador das Minas Gerais. Diante dele enxergava-se o motivo de estar em posição corporal aparentemente tão desconfortável – apesar de, naquele caso, o incômodo ser duvidoso: duas escravas seminuas, com seus bustos totalmente descobertos e pele embebida em suor, mantinham-se ajoelhadas diante do governante, olhos arregalados fixos em sua figura. Com uma expressão de completa submissão, conservavam seus corpos relaxados, respirando lentamente e tendo suas mentes hipnotizadas pelo indivíduo. Este, dominado por prazeroso frenesi, segurava, um em cada mão, os pulsos direitos das mucamas, cravando, alternadamente, seus dentes nas artérias de cada um. Sangue vertia em jorros pelas tábuas e tapeçarias do chão, e as servas, ainda que se enfraquecessem mais e mais devido à perda do líquido, nem sequer piscavam.

Joaquim, sem ação, contemplou o maléfico espetáculo por alguns instantes, até que o Visconde finalmente notou o visitante e ergueu-se do assento. As escravas permaneceram imóveis, ainda de joelhos e braços ensanguentados estendidos como se seu amo jamais houvesse saído dali. Quanto a ele, aproximou-se do recém-chegado limpando seus grandes e pontiagudos caninos tingidos de vermelho, e logo depois indagou:

– A que lhe devo a visita a esta hora da noite, senhor coronel?

Tendo seu corpo assolado por forte choque, a mente ganhando mais uma vez autonomia, o militar se atirou ao solo, prostrando-se diante dos pés do Visconde. E, erguendo o descorado semblante em súplica, pediu, vencendo a pressão interna que até aquele momento tentava fazer com que voltasse atrás.

– Ó meu senhor, aqui venho para lhe rogar sua boa vontade! Sou um miserável cansado desta vida sem sabor entre os iguais criados por esse Deus tão ingrato! Por favor, livrai-me deste castigo! Compartilhe comigo vosso sangue azul! Tornai-me um imortal, assim como vosmicê e seus semelhantes!

O governador abriu um maligno sorriso, um brilho rubro reluzindo em seus olhos inumanos. Num tom gozador, considerando aquele homem que o procurava um inseto insignificante, questionou:

- E o que tem a me oferecer em troca, mortal? Tal dádiva possui um preço.

- Conspiram contra vosmicê, meu senhor! – Joaquim não mais se conteve. – Membros da guarda, poetas, padres... eles planejam caçar e aniquilar os imortais de Vila Rica, dentro de poucas noites. Vim aqui para lhe avisar, e em troca poder desfrutar do mesmo sangue que corre em vossas veias!

O Visconde riu. Riu deliciado. Em seguida respondeu:

- Pois muito bem. Darás a mim os nomes de todos esses infelizes, para que eu os cace antes. Em retribuição ganharás sim, a imortalidade, provando do sangue dos reis. Saiba, porém, que com ela jamais podereis adentrar o Reino dos Céus. Estarás fadado a vagar para sempre por este mundo, se alimentando do sangue dos vivos e glorificando o demônio através de seus atos, engrossando suas fileiras.

- Eu aceito. Não mais desejo tomar parte entre as criaturas de Deus.

O vampiro acenou com a cabeça, em seguida curvando-se sobre o homem. Este gelou, fechando os olhos enquanto aguardava a mordida do amaldiçoado, que visaria por certo seu pescoço... mas, para sua surpresa, sentiu apenas um volume se chocando contra uma de suas mãos, o tilintar de metal bastante perceptível. Voltando a enxergar, Joaquim viu um saco de moedas em frente a si, seu benfeitor explicando:

- Além da imortalidade, ganharás pequena fortuna para que possa viver conosco em nosso conforto. Porém não se engane: tais luxos não saciarão sua verdadeira necessidade, que constituirá o sangue. Judas Iscariotes recebeu trinta moedas de prata do sumo sacerdote ao trair o Filho de Deus. Para lhe mostrar minha gratidão, dou-lhe também trinta moedas, mas de ouro!

Joaquim abriu o recipiente para contar o dinheiro, no entanto, acabou se distraindo, não esperando o bote do Visconde, que foi súbito e implacável. Sentindo lancinante dor em sua jugular, o coronel percebeu sua vida se esvaindo junto com o sangue sugado pelo vampiro e, antes de perder os sentidos, rogou para que sua reanimação como um dos imortais não tardasse. Ansiava por começar a desfrutar de suas vantagens.


III


Na noite seguinte, os integrantes da conspiração anti-vampírica foram surpreendidos em suas casas pelos soldados do governador. Alguns tentaram reagir, porém, estando separados e surpreendidos, não se mostraram páreos para a força sobre-humana dos amaldiçoados. Antes fosse como na lenda, em que aqueles malditos só entravam em uma residência se fossem convidados...

Metidos em carruagens e levados à prisão, alguns dos conspiradores, nos próprios coches, viram-se sem mais alternativas e aceitaram serem convertidos em vampiros – justo as criaturas que até então tanto odiavam. Gradativamente, graças à influência do Visconde e seus aliados, e também às ameaças que sofreram, todos os membros da posteriormente chamada Inconfidência Mineira cederam em se tornar amaldiçoados, exceto o idealista Joaquim José da Silva Xavier, que mantinha viva em sua mente a imagem dos pais sendo mortos pelos sanguessugas e que não aceitaria, assim, jamais ser transformado num deles.

Como punição para os olhos ingênuos da sociedade, os criminosos contra a Coroa que agora também eram mortos-vivos foram degredados para as colônias na África, onde dizem que até hoje assolam as populações das savanas em sua busca desenfreada por sangue humano. Somente Tiradentes foi realmente castigado, resistindo até a morte contra as tentativas de ser mais um nas fileiras de amaldiçoados e, por isso, tendo seu corpo constituído alvo de intensa barbárie depois de cumprida a sentença.

Já Joaquim Silvério dos Reis, o traidor, teve tanto sua recompensa material quanto a transformação em vampiro realmente concedidas, apesar dos rumores de que posteriormente seu túmulo foi destruído para que deixasse de vagar sobre a Terra.

Quanto à Liga Cromwell, que prometeu ser de ajuda à conspiração em Vila Rica e que se mostrou, na prática, pouco eficiente para evitar seu fim, manteve representantes no Brasil ainda por muito tempo – contribuindo para que os vampiros fossem aos poucos exterminados e dessa forma retirados da administração colonial. Após a Independência, seus membros aproveitaram-se dos fortes vínculos da nova nação com a Inglaterra e continuaram exercitando sua função, instruindo também grupos locais de caçadores de monstros. Mas foi apenas com a Proclamação da República, um século depois do fatídico movimento nas Minas Gerais, que a figura do bravo Tiradentes foi finalmente resgatada. Infelizmente, a maior parcela da população ainda desconhece o fato de que, mais que um defensor da liberdade, fora ele na verdade um caçador de vampiros – ignorando os verdadeiros dentes que ele, em sua busca por vingança, almejava extirpar.

Bem, ao menos até agora...

28 de Maio de 2019 às 12:58 0 Denunciar Insira 119
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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