Tardes Que Nunca Acabam Seguir história

lollipopmars Lollys Mars

Numa tarde qualquer, na romântica Paris, um amor improvável estava para nascer.


LGBT+ Para maiores de 18 apenas.

#girls #ballet #lgbt+ #conto #paris
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tardes que nunca acabam

Paris, 1908

Margot estava indo até a École du Ballet de l’Opéra àquela tarde para encontrar-se com Elise. A mulher havia mandado um bilhete para Margot dizendo ter conseguido um emprego para ela e pedindo que a encontrasse na École naquele dia, naquela tarde. Ela usava uma roupa mais formal, uma blusa de secretária simples, mas bem passada e uma saia comprida e marrom, até os tornozelos, nos pés usava um sapatinho preto e havia prendido os longos cabelos louros em um coque simples.

Ela dava aulas de francês para crianças numa escolinha ao norte de Paris, mas o que ganhava ali era muito pouco, se comparado com as despesas que tinha, e um extra seria sempre muito bem vindo. Elise não havia dado muitas informações no bilhete, mas, imaginava que fosse algum aluno estrangeiro querendo aulas particulares de francês. Aquela não seria a primeira vez que faria aquilo.

Margot e Elise se conheciam desde a infância, haviam crescido juntas no interior da França. Foram juntas para Paris, construir a própria vida, mas haviam traçado caminhos diferentes. Elise sempre fora uma ótima pianista, e tocava sempre nas missas de domingo na igreja. Aprendera a tocar com o falecido padre e sempre usava o piano da igreja para praticar. Logo conseguiu uma vaga na Opéra de Paris e ali fez toda a sua carreira.

As coisas para Margot correram bem diferentes. Conseguiu entrar numa Universidade Comunitária e ali se formou, mas não era mais do que uma simples professora. Enquanto Elise havia construído uma magnífica e sólida carreira como professora de música, Margot havia sido jogada para a sarjeta da vida.

Entrou no grande e imponente prédio e foi até o auditório que Elise havia mencionado no bilhete. Não teve dificuldade em achá-lo. Ia tanto naquela Escola que já conhecia cada um dos auditórios como se vivesse ali.

O auditório estava vazio, com exceção de uma garota, uma bailarina, no centro do palco. Elise estava no canto junto ao piano, e a jovem dançava sem prestar atenção a nada além dos passos da dança, a luz do palco centrada nela. Ela tinha os cabelos negros como a noite, mas sua tez era clara. Seus cabelos estavam presos num coque firme, extremamente alinhados, como as bailarinas costumavam usar. Usava uma saia preta simples que ia do umbigo até um abaixo do joelho. O collant era branco, assim como a meia calça e a sapatilha.

Margot sentou-se em uma das cadeiras na plateia e ficou ali observando a garota dançar. Ela era muito bonita, isso não podia ser negado. E dançava muito bem. Mas isso vindo de alguém não sabia nada de ballet não significava muita coisa. Quando a música parou e a garota finalizou o último passo, Margot aplaudiu e aquilo chamou a atenção das duas para si.

— Margot! Ma chérie! — Elise falou descendo as escadas na lateral do palco. — Não a havia visto!

— Acabei de chegar. — Margot falou saindo de onde estava e caminhando para perto da amiga.

— Fico feliz que tenha podido vir! — A mulher a abraçou. — Venha! Venha conhecer a Elizabeth.

Segurando a mão de Margot como se ela fosse uma criança, Elise a guiou até o topo do palco, onde a bailarina estava aguardando-as.

— Elizabeth, está é a Margot. Ela poderá lhe dar aulas de francês. — Elise falou aquilo em inglês, errando a pronúncia de “aulas”.

Margot estendeu a mão e a bailarina a apertou, embora seu toque fosse leve, quase como se sua mão não pesasse nada.

Os minutos que se seguiram foi apenas Margot e Elizabeth combinando dias, horários e valores das aulas. Como a bailarina morava em uma república feminina barulhenta, por isso ficou acordado de que as aulas seriam na casa de Margot.

Depois de tudo acertado, Elizabeth desculpou-se e saiu para uma aula que já iria se atrasar se não partisse logo. Elise e Margot por outro lado, ficaram no auditório por mais algum tempo, colocando a conversa em dia. Depois que Elise tinha se casado, juntamente com as aulas na Opéra, havia ficado cada vez mais difícil ter tempo para sair com a amiga, afinal, ela priorizava o marido, que, nas palavras da própria Elise, havia sido um anjo em aceitar que ela trabalhasse.

Quando saiu da École, já eram quase cinco da tarde e ela precisava correr para casa ou perderia o programa das 18:30. Era uma história boba de rádio, mas mesmo assim ela gostava e não perdia um dia sequer.

Morava em um apartamento pequeno e simples, em um pequeno condomínio só de mulheres, como era adequado a mulheres solteiras de sua idade, ficava ao leste de Paris, um pouco longe do centro, mas ela gostava dali. Gostava por dois motivos: era um lugar barato e sem muito barulho, ao contrário do centro da cidade com todas as suas festas e bailes que iam do entardecer até o anoitecer.

No fundo, Margot desejava participar daquelas festas, como toda jovem na sua idade e posição social, mas sabia que não seria bem-vinda. Aquele não era o seu lugar. Tantas pessoas ricas e elegantes, enquanto ela era apenas uma garotinha do interior que precisava suar para pagar suas contas.

Dois dias depois, Elizabeth apareceu na porta do apartamento de Margot para a primeira aula. Antes de mais nada, as duas conversaram um pouco e descobriu que Elizabeth era filha de um pequeno Lorde de York e que havia chegado em Paris haviam apenas algumas semanas. Também descobriu que ela tinha apenas 18 anos e que aquela era a primeira vez que viajava para longe sem os pais.

Ela falava apenas meia dúzia de palavras em francês e Margot optara por começar com o básico, ensinando-a como pronunciar e escrever palavras comuns que ela usaria em seu dia a dia.

As duas acabaram se distraindo e quando foram se dar conta, já estava anoitecendo. Elizabeth era muito jovem, e estrangeira, não seria adequado andar na rua sozinha muito tarde da noite. Margot a acompanhou até o ponto onde o próximo bondinho passaria.

Três dias depois, Elizabeth estava de volta, era sábado, e Margot decidiu fazer uma aula ao ar livre, levando a jovem bailarina para conhecer a cidade e ouvir como as pessoas falavam. Elizabeth achava tudo muito encantador e às vezes ficava encarando algo por vários minutos. Dizia estar captando toda a beleza do objeto. E assim as aulas seguiram dessa forma: durante a semana Margot dava-lhe aulas em seu apartamento, e aos sábados passeavam pela cidade.

Quase sem perceber, ambas começaram a ansiar pelo dia que veriam uma a outra. Adoravam estar juntas, e conversavam sobre as mais diversas coisas. Margot estava sempre procurando coisas engraçadas para falar a Elizabeth pois adorava o som da risada da bailarina, achava-a infinitamente linda quando sorria. Elizabeth por outro lado, adorava a voz de Margot, poderia ouvi-la falar por horas a fio sem nunca se cansar.

— Quando iremos até a Torre Eiffel? — Elizabeth perguntou numa tarde de sábado, enquanto caminhavam por uma pequena ruela da cidade, indo em direção a um pequeno restaurante perto do Sena.

— Por que vous, les touristes só se interessam pelo falo gigante? — Margot perguntou sorrindo. — Uma cidade tão grande e tão cheia de coisas para serem vistas, e todos se preocupam com juste une chose.

— É que já me dá aulas há semanas, já fomos em centenas de lugares, mas nunca lá. Eu sou apenas uma turista, no fim das contas.

— Repita isso en français e prometo que pensarei na Torre para o nosso próximo destino. — Margot falou com um sorriso travesso no rosto.

— Isso não é justo! — Elizabeth falou fazendo beicinho e Margot não conseguiu deixar de pensar em quão fofo aquilo era.

As duas chegaram ao restaurante e almoçaram ali, com uma bela visão do rio à sua frente.

Na semana seguinte, quando Elizabeth chegou ao apartamento de Margot, antes mesmo de cumprimentá-la disse:

— Peut-on visiter la tour Eiffel? — A garota tinha um sorriso brincalhão no rosto, sabendo que havia pego Margot de surpresa.

— Oui, oui. Vamos ver o grande falo de ferro. — A professora respondeu dando-se por vencida.

— Por que você vive chamando a Torre de falo? — Elizabeth perguntou enquanto Margot ia buscar a própria bolsa, uma toalha de piquenique e um chapéu antes de saírem.

— Porque não seria adequado para uma moça falar em dick.

Elizabeth enrubesceu-se toda e não voltou a tocar mais no assunto.

As duas pegaram um bonde para o centro da cidade e fizeram o restante do caminho a pé.

Todo o gramado próximo à Torre estava cheio de casais sentados sob a grama trocando beijos rápidos quando achavam que não havia ninguém olhando e juras de amor.

— Oui. — Margot falou parando num lugar o mais próximo que havia conseguido chegar da Torre. — Está satisfeita?

— Muito!

Margot estendeu a toalha na grama e sentou-se, sendo imitada por Elizabeth.

— Pergunto-me que tipo de lição seria capaz de tirar daqui… — Margot falou olhando ao redor.

Elizabeth pareceu ponderar sobre o assunto por alguns minutos, Margot observava ela distraída, porém, foram interrompidas por dois rapazes que pareceu terem surgido do nada.

— Bonjour, mademoiselles. — O rapaz que usava boina e suspensórios, junto com uma calça de linho escura e uma camisa simples de botões, foi quem falou primeiro.

— Como pode, duas jovens moças tão belas estarem sozinhas aqui? — O outro falou, este vestia-se também como o outro, entretanto não usava nenhum chapéu e sua calça era cinza.

— Estamos apreciando a vista, enquanto esperamos por nossos namorados que foram comprar alguns refrescos. — Margot respondeu em francês, sorrindo, como se aquela não fosse uma grande mentira.

— Oh, pardon, madame. Não sabia. Já estamos indo. — O de boina respondeu e puxou o amigo para longe.

— O que disse para eles? — Elizabeth perguntou quando já estavam longe o suficiente. — Só entendi a parte dos refrescos.

— Disse-lhes que nossos namorados haviam ido comprar refrescos. — Margot sorria como uma criança.

— Mas eles eram tão bonitinhos!

— Acredite em mim, não vai querer se envolver com aquele tipo.

As duas ficaram em silêncio por algum tempo, Margot sempre olhando ao redor como se procurasse por alguém e Elizabeth fitando a Torre. Então, a bailarina falou:

— Margot? — Chamou e a outra respondeu com um “hm”. — Você tem namorado? Desculpe-me, se estou sendo muito petulante, é só que você é jovem, bonita, mas vive sozinha e nunca vi você mencionar nenhum rapaz…

Margot ponderou a fala da garota por algum tempo antes de responder.

— Non. Não tenho namorado. Nem nenhum pretendente ou algo do tipo. Et toi? Digo, na Inglaterra.

— Não. E nem poderia. Tenho de me comprometer ao ballet, pelo menos por enquanto.

Margot não respondeu. As duas ficaram em silêncio novamente, mas não durou muito, pois Margot viu um pombo fazer cocô na cabeça de uma rapaz não muito longe dali e chamou Elizabeth para ver, enquanto se acabava de rir.

Quando a fome surgiu, as duas foram para um restaurante conhecido de Margot não muito longe dali e depois seguiram para o Louvre.

— Já que estamos aqui, porque não dar uma olhada na moça de olhos misteriosos e sorriso faceiro? — Margot falou enquanto guiava a bailarina pelos jardins do Louvre até a entrada do lugar.

Margot fez questão de mostrar para Elizabeth uma centena de outros quadros, antes de finalmente ir até a Mona Lisa. A professora de francês achava incrível o quão fundo Elizabeth mergulhava em suas observações, absorvendo cada mínimo detalhe e guardando-o na memória.

Quando saíram do museu, a noite já havia chegado e as ruas parisienses estavam todas iluminadas. Elizabeth nunca havia tido aquela vista do centro da cidade. Sempre recolhia-se cedo, como era próprio para uma garota da sua idade e posição e nem poderia, pelas regras da república. Diziam não tolerar biscastes e sirigaitas.

Com receio de aparecer na república tarde da noite, Elizabeth não sabia o que fazer. Das duas, o apartamento de Margot era o mais próximo, e Elizabeth temia voltar sozinha àquela hora da noite. A professora se voluntariou para acompanhá-la, mas ela não queria que Margot fizesse todo aquele percurso de volta, sem contar que ficaria ainda mais tarde, e assim, Elizabeth acabou por aceitar passar a noite na casa de Margot.

Como o apartamento era pequeno, havia apenas um quarto e uma cama de solteiro. Margot deu sua cama para Elizabeth, já que ela era a convidada, mas a bailarina insistiu para que ambas dividissem a cama.

— Vai ficar um pouco apertado — Elizabeth falou. — Mas a noite está un peu froid, e ambas somos magras. Não vejo problema algum.

Margot não queria aceitar, dizendo que estava tudo bem em dormir num colchão de lençol improvisado no chão, mas Elizabeth não aceitou e por fim as duas acabaram se deitando na pequena cama.

— Satisfeita? — Margot perguntou, seu corpo junto ao de Elizabeth por debaixo das cobertas.

— Bonne nuit, Margot. — Falou virando-se de lado, com a coberta até o pescoço.

— Bonne nuit.

Ao acordar na manhã seguinte, ainda era cedo, nem mesmo o sol havia despontado no horizonte ainda, e Margot se deu conta de que havia abraçado Elizabeth por trás enquanto dormiam. A bailarina não pareceu se importar, até havia deixado seu corpo mais perto da outra e segurava sua mão.

Margot ergueu um pouco o próprio corpo, apoiando o braço no travesseiro e a cabeça na sua mão, movendo-se devagar para não acordar Elizabeth e apenas ficou ali, observando a bailarina dormir. Pareceu notar pela primeira vez o quão bela ela era, com os cabelos bagunçados e a face um pouco corada, a boca entreaberta, os olhos fechados, ressonando baixinho. Se lhe perguntassem, não saberia precisar por quanto tempo havia ficado ali, apenas observando a bailarina dormir.

Quando Elizabeth acordou, viu que Margot a observava. Passou a mão pelos cabelos e bocejou.

— Bonjour. — Falou com a voz rouca de sono.

— Bonjour. — Margot respondeu, um pequeno sorriso nos lábios.

— Está sorrindo por quê?

— Non, nada.

— Ninguém sorri por nada.

Margot demorou a responder.

— Não sei se é adequado en parler.

— Je jure que não conto pra ninguém.

— Estava pensando em comme tu es belle, et como seria te beijar.

Dessa vez foi Elizabeth quem ficou em silêncio. As duas ficaram se encarando por um tempo, e então Margot fez menção de se levantar, mas foi puxada de voltar por Elizabeth, que juntou seus lábios logo em seguida. Nunca havia sentido nada como aquilo, era como se fosse a combinação perfeita. Mesmo que aquele não fosse o primeiro beijo de nenhuma das duas, sentiam como se fosse. Tudo levou apenas alguns segundo e seus lábios mal se moveram antes que elas se afastassem.

— Pardon… — Elizabeth falou logo em seguida.

— Não. Tudo bem. Pas de problème. — Margot acariciou o rosto de Elizabeth, a bailarina estava corada.

— Isso… foi bom. — Elizabeth falou depois de um tempo.

— Oui.

— Mas… não é correto. — Elizabeth ergueu o próprio corpo, sentando-se na cama. — Digo… Você sabe.

Margot não respondeu. Levantou da cama, a camisola toda amassada e começou a andar de um lado para o outro no quarto, refletindo sobre aquilo, tentando pensar no que faria em seguida, mas só conseguia pensar na garota em sua cama. Elizabeth sentou-se com as pernas para fora da cama e ficou encarando a professora.

— Margot… S’il te plait, diga alguma coisa!

Margot parou, olhou para a bailarina e foi até ela, ajoelhou-se perto dela e a beijou. Beijou-a como se a sua própria vida dependesse daquilo, enquanto a abraçava pela cintura. Cortou o beijo mas não se separou da outra.

— Eu gosto disso. De toi. De nous. — Margot falou por fim. — E… sinceramente, eu já não sei mais o que é certo ou errado. Je sais que durante tout le temps, desde que eu te conheci, tive os melhores jours de ma vie. — Margot suspirou. — Não quero perder nada disso.

Elizabeth respondeu puxando Margot mais para perto de si e a beijando. A professora ergueu mais o próprio corpo, ficando por cima da bailarina e colando seus corpos. Era como se nada mais existisse no mundo além delas. Seus corpos tão perto, encaixando-se com perfeição.

Seus toques, seus beijos, sua pele, tudo era apenas um. Margot tocava Elizabeth como se estivesse tocando o mais fino cristal, cuidando para que não fosse quebrado. Ainda assim, com sua pele pálida, cada toque se tornava um céu poente e ambas gemiam baixinho, dando voz ao amor que emanava de si.

Os cabelos louros de Margot acabaram se soltando no processo e Elizabeth o acariciava, embora aquilo deixasse eles ainda mais bagunçado no fim das contas. Olhava para a outra e a única coisa que vinha a sua mente era o quão perfeita ela estava. Queria vê-la assim, todos os dias. Seus dedos compridos traçaram uma linha imaginária nas costas de Elizabeth e seguiram até a intimidade da outra, tocando-a placidamente.

O sol já ia alto no céu, mas o quarto ainda estava escuro, como se fosse noite, e as duas se amavam como se não houvesse amanhã. O mundo era um nada, uma grande página em branco e elas eram poesia, dançando juntas, seus corpos em sincronia, preenchendo todo o vazio e formando uma maravilhosa pintura.

Elas brilhavam de suor, agarradas uma à outra, a respiração entrecortada. O cabelo negro de Elizabeth era uma completa zona, assim como o de Margot, e juntos se emaranhavam um no outro por cima do travesseiro, seus rostos colados.

— Margot… — Elizabeth chamou, a voz rouca, os lábios vermelhos e inchados. — Como algo tellement bon, pode ser tão errado?

— Non. Ce n'est pas mal. Não pode ser. — Beijou a bailarina mais uma vez. — Não quando c'est tellement parfait.

As duas ainda ficaram abraçadas ali por muito tempo, até que Elizabeth lembrou da apresentação que faria aquela noite, e que precisava partir para o último ensaio geral.

Margot a acompanhou até o ponto do bondinho, e a abraçou apertado antes dela partir, mesmo que fosse vê-la mais tarde naquela mesma noite. Queria tê-la beijado uma última vez. Havia o feito quando ainda estavam dentro do apartamento, mas, ali fora, não era o mais adequado, mas isso não a impedia de querer fazê-lo mesmo assim.

Enquanto o bondinho sacolejava pelas ruas de Paris, Elizabeth não conseguia parar de relembrar as últimas horas. Suas bochechas estavam começando a ficar doloridas de tanto de sorrir e seus olhos brilhavam. Uma velhinha sentada ao seu lado disse que ela estava sendo muito descortês, mas ela não se importou. Contaria as horas até poder ver Margot novamente.

Mais tarde, Elizabeth vestiu a sua melhor roupa, um vestido azul de cetim que havia ganhado de sua mãe antes de vir para Paris e que ainda lhe cabia perfeitamente. Ele tinha um pequeno decote, e mangas curtas, e era longo. Possuía um cinto de renda com pequenas rosas desenhadas nele, num azul um pouco mais claro e que se fechava logo abaixo dos seios com um pequeno broche em formato de coração.

Iriam apresentar “O Lago dos Cisnes” e Elizabeth estaria no papel da princesa Odette. Margot chegou cedo, na esperança de poder ver a bailarina antes da apresentação começar, mas não conseguiu ter acesso aos bastidores e nem conseguiu encontrar Elise para que pudesse liberar sua entrada.

Procurou seu lugar, marcado no bilhete de entrada e sentou-se, e esperou. Alguns lugares já estavam ocupados, a maioria ali parecia ser pais de alunos da École. Ainda demorou bastante tempo até que todos chegassem e ocupassem seus lugares e então a apresentação pudesse de fato começar. Olhando ao redor, antes de as luzes da platéia se apagarem, Margot teve a impressão de toda a alta sociedade de Paris estava ali.

Elizabeth executava cada um dos passos com perfeição e maestria, como se houvesse feito aquilo a sua vida inteira. Parecia não pesar nada e Margot tinha a impressão de que ela flutuava sobre o palco. Margot sorriu quando o pensamento de que ela provavelmente havia aprendido a dançar antes de sequer aprender a andar cruzou sua mente.

Quando terminou, Margot esperou até que todas as outras pessoas houvessem saído do grande auditório, antes que ela mesma saísse e fosse procurar por Elizabeth.

Encontrou-a junto com os outros bailarinos cumprimentando algumas pessoas da elite parisiense na entrada do auditório. Deixou-a falar com todos, esperando do outro lado do recinto, até que ela parecesse finalmente livre. Sabia que ela precisava fazer aquilo. Muitos ali eram patrocinadores da École, e precisava que eles continuassem com a generosidade.

— Bonsoir, mademoiselle. — Margot falou quando se aproximou de Elizabeth. Os outros bailarinos haviam acabado de partir e ela ficara só.

Quando a viu, Elizabeth queria ter pulado em seus braços e a abraçar apertado, mas tinha de manter a compostura. Mas, ainda assim, sorriu para a outra.

— Vem comigo.

Elizabeth deu a mão a Margot e a guiou pelos quase infindáveis corredores da École até estarem bem longe do auditório central e de todas as pessoas. Entraram em uma pequena sala de aula vazia.

— Não deveria ficar lá, com todos os outros? — Margot perguntou quando a bailarina fechou a porta.

— Só cinq minutos! — Falou enquanto se aproximava da outra e a beijava. — Senti sua falta.

— Mas foram só algumas horas!

— Je sais! Isso é ridículo. — Falou e a beijou novamente. — Posso… posso te pedir uma coisa?

— Oui. — Margot respondeu abraçando a bailarina pela cintura e juntando mais seus corpos.

— Fica essa noite avec moi?

— Na república?

— Oui. Minha colega de quarto está na casa dos pais. E amanhã é feriado! Ela só volta na terça. — Elizabeth fez beicinho e Margot deu um selinho em seus lábios.

— Ok. Très bien! — Margot a beijou e Elizabeth estava sorrindo por entre o beijo. — Agora precisa voltar para o auditório.

— Só mais um pouquinho! — Elizabeth dando vários beijinhos nos lábios e no rosto da professora, sem querer partir.

Ao longo dos dias que se seguiram, elas foram ficando cada vez mais próximas. Se viam quase todos os dias, mesmo quando não era nos dias das aulas de francês. Elizabeth começava a passar mais tempo no apartamento de Margot do que em seu próprio, tanto que não demorou até as duas estarem procurando um apartamento próximo da École onde pudessem morar juntas.

Seus dias eram recheados de beijos e muito amor além de Elizabeth dançando pelo apartamento. Margot adorava vê-la dançar tanto quando adorava amá-la.

— Casa comigo? — Margot perguntou uma tarde. Estavam na cama, aninhadas uma a outra, depois de fazerem amor. — Je t’aime. Quero casar contigo. A Elise pode dizer as palavras, não precisamos de um padre. Veux tu m’épouser?

Elizabeth olhou nos olhos da namorada, e então a beijou e em seguida disse:

— Oui! Un million de fois, oui!

Foi uma cerimônia simples, no jardim da casa de Elise, com uma meia dúzia de convidados, amigos mais próximos. Elise, apesar de uma católica devota, havia aceitado realizar a cerimônia, amava a amiga demais para não realizar um pedido como aquele, tinha certeza que o amor que sentiam seria o suficiente para que Deus a perdoasse. Era uma tarde primavera e o jardim estava florido, e o perfume das flores era inebriante. Aquilo era mais do que perfeito.

Margot nunca deixou de ser professora, apesar de tudo, amava o que fazia. E Elizabeth se tornou uma famosa bailarina, a mais famosa em toda a França, talvez até em toda a Europa. Sempre que podia, Margot a acompanhava, e Elizabeth fazia questão de apresentar a todos sua melhor amiga Margot.

Quando perguntavam sobre seus maridos, elas diziam serem muito amigas e terem feito um pacto de nunca se casar, para que nunca pudessem deixar de ser amigas e as pessoas achavam aquilo incrível, uma grande e linda amizade que transcenderia as décadas.

E transcendeu. As duas sobreviveram duas grandes guerras, mesmo com o medo de serem descobertas pairando tão fortemente, e ainda muito mais depois disso. Às vezes brigavam, às vezes ficavam dias sem se falar, às vezes ficavam perigosamente próximas de serem descobertas, mas no fim, tudo acabava bem. No fim, elas ainda se amavam, no fim, elas seguiam juntas, vivendo tardes ensolaradas que nunca acabam, indo contra todas as expectativas, contra todas as leis dos deuses e homens, mas, elas tinham uma a outra. E aquilo era tudo o que importava.

27 de Maio de 2019 às 01:43 0 Denunciar Insira 120
Fim

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Lollys Mars Desde 2012 escrevendo altas merdas por ai.

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