Nas Entranhas da Terra Seguir história

guilhermerubido Guilherme Rubido

Um grupo de expedicionários em busca dos segredos da Terra consegue entrar em um caverna de cristais que se encontrava escondida e esquecida pelas infintas eras transcorridas. O sentimento de desolação e a falta de localização proporcionados pelo ambiente mexe com a cabeça dos homens da companhia, fazendo com que muitos deles se percam para sempre na sufocante e abismal escuridão do nefasto mundo, intocado pela efêmera humanidade, que se esconde, distante, sob nossos pés. Nem mesmo o sol, com seus dedos dourados, tem capacidade o bastante para adentrar e tocar as trevas abissais que existem ali. E, ainda menos competência possui a mente humana mais sadia de conceber o inconcebível.


Conto Todo o público.

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Nas Entranhas da Terra

Desde minha infância -vivida há anos que já começam a ser esquecidos pelo tempo e pela minha mente-, escuto histórias vindas de meu avô. Histórias extraordinárias de como ele, junto de sua companhia expedicionária, viajou pelos quatro cantos do mundo -e alguns outros não constados em mapas convencionais- em busca dos mais diversos tipos de tesouros e estruturas que se encontram escondidos pelo passar dos anos. As histórias que se passavam em cavernas eram minhas favoritas.

Meu avô, já muito velho e, naquela época, com a mente começando a falhar, contava e descrevia-me a sufocante sensação de se estar debaixo da terra -isolado do mundo que se apresenta para a maioria dos humanos-, com tamanha habilidade e vivacidade que fazia-me imergir e imaginar-me dentro dos mais escuros caminhos, explorando-os em meu inocente corpo de criança.

O horror e a angustia que acometem os homens que se aventuram por lugares já há muito abandonados e desprezados pelo sol é inimaginável. Diria que é impossível descrever com meras palavras o sentimento de estar diante de um lugar como esses. Porém, meu avô nunca me tratou como uma criança. Tampouco amenizava as palavras na tentativa de deixa-las mais palatáveis para que minha mente infantil pudesse compreendê-las. Apesar de sua mente débil, meu avô sempre fora muito hábil com as palavras. Ficava empolgado quando revivia suas aventuras. Ao contar as histórias para mim, também contava para si mesmo; aproveitando seus últimos anos de vida para viver novamente o extraordinário. Assim, enchia minha imaginação com seus relatos aventurescos. Da forma mais crua e real possível, ele conduzia minha mente aos lugares mais inexplorados. Ensinou-me, desde pequeno, a temer as trevas sufocantes que assolam as entranhas do mundo.

Sou fascinado, desde então, pelas obras naturais criadas ao acaso pelo mundo em que vivemos. E, já naquela época, decidi que seria como meu avô: um explorador dos segredos do mundo. As entranhas rochosas e escuras que se escondem e serpenteiam infinitamente, contorcendo-se por debaixo da terra como longas e ancestrais minhocas ocas e já mortas seriam os caminhos que percorreria em grande parte da minha vida terrena.

Escrevo esta forma de documento utilizando-me do que acredito que sejam meus últimos minutos de vida -ou, ao menos, de consciência- com a intenção de tentar compreender que tipos de horrores inomináveis e escondidos pelo véu negro das sombras acometeram a mim e à minha comitiva nesta caverna. A escrita desse texto ajuda minha mente a manter-se trabalhando. Tento prolongar minha sanidade nestes últimos suspiros. O simples ato de respirar já se tornou um fardo para mim em meio a esse labirinto obscuro de pedra.

Meu grupo inteiro já se foi; todos agora engolidos pela terra. Perdi dois homens há algum tempo; ao menos acredito ter sido há algum tempo. Os dois estavam juntos, já que um deles havia torcido o pé devido a uma pequena fenda que havia no chão. O braço de meu homem, Alex, envolvia o pescoço de Artur, que era o mais robusto entre nós e, assim, o mais apto a carregá-lo. O pé de Alex estava inchado e vermelho, agora muito maior do que fora normalmente. Certas vezes, quando meus olhos e a luz de minha tocha caíam de relance sobre o pé torcido, era possível vê-lo latejar. A escuridão aterradora não permite que eu afirme com certeza o que vi; mas o pé parecia pulsar como um coração.

Os dois homens andavam juntos e lentamente enquanto eu, a frente, iluminava a escuridão. Artur estava encharcado. O suor se derramava sobre seu corpo desenfreadamente; tanto por conta do peso que sustentava, tanto pelo calor extremo que fazia naquele lugar. Atrás de nós, ao fundo da comitiva, vinha Daniel. Portava uma segunda tocha, essa muito mais forte.

O tempo na caverna parecia funcionar de outra maneira. Assim, tudo aconteceu muito rápido, de forma que não pude entender -e, ó deus, ainda não entendo- o que havia acontecido. Olhei para trás e vi Artur e Alex, um apoiado ao outro, tropeçando e caindo em uma fenda negra que pareceu abrir-se no chão, de repente, apenas para buscá-los. Não a vira quando passei por ali. Se é que passei. A fenda era um penhasco gigantesco que se abria pela nossa lateral, trazendo consigo um negror indescritível. Era como a boca diabólica de uma entidade antiga esfomeada, que desperta de um sono profundo e, ávida pela vida, nada para a superfície da terra. Como um buraco negro, ela absorvia tudo que havia em nossa volta. A luz de nossas tochas parecia ser sugada por aquilo; até nós, sentimos uma inclinação diante dele, como se fossemos impelidos a nele sucumbir. Talvez -e estremeço diante da simples ponderação dessa ideia- aquilo fosse de fato um buraco negro; ou, então, uma espécie diferente da fenda galáctica. Talvez Alex e Artur não tenham tropeçado, mas, sim, sido sugados por aquilo. Luz alguma parecia ter força suficiente para rasgar as trevas que jaziam ali; afinal, os braços da escuridão eram muito mais longos e poderosos. Não seria diferente com humanos. Porque não fomos sugados no mesmo instante eu não saberia dizer.

Vi meus dois homens caírem e serem engolidos pela grande boca. Não tive tempo de reagir. Apenas produzi um som esganiçado que seria o início de um grito, mas que foi cortado antes de poder florescer completamente. Olhei para Daniel, que estava lá atrás, e fiz um sinal com a cabeça para que continuássemos. Ele entendeu e pareceu agir sem hesitar. Não havia o que fazer. Então, continuamos caminhando pelo purgatório.

Daniel já não está mais comigo. Não sei quando nos separamos exatamente, mas sei que aconteceu quando entramos nos túneis brilhantes.

Tentarei descrever o que vimos após o surgimento do penhasco: continuamos andando, até que chegamos a bifurcações por onde se espalhavam várias bocas de túneis dentro da rocha escura, formando longos caminhos dos quais meus olhos humanos não podiam divisar o fim. Até onde me lembro, eu e Daniel seguimos juntos por um destes caminhos. Ao entrar, nos deparamos com algo que não conseguiria descrever com o pouco tempo que me resta. Ali, a rocha não era escura e feita de pedras enegrecidas e opacas como o resto da caverna. Era, pelo contrário, a visão de um rio de diamantes. As paredes que nos cercavam estendiam-se infinitamente diante de nós em um corredor tortuoso e brilhante, como escamas de uma cobra prateada. Eram cristais! Paredes feitas do mais límpido cristal! Meus olhos ficaram marejados ao presenciar uma cena daquelas. Esqueci-me de tudo e agradeci ao mundo por estar ali. Os fragmentos multicolores encravados na rocha escura fizeram meu espírito de explorador acender-se novamente. A luz de nossas tochas era refletida neles, produzindo filetes de uma miríade de maravilhosas cores que percorriam todo o caminho como rastros de uma flecha disparada. Era como estar diante de um gigantesco caleidoscópio feito de cristais imaculados, intocados pela doença do tempo e jamais vistos por humano algum.

Recordo-me de ver Daniel perambulando pelo túnel como se o redemoinho de cores o hipnotizasse. Andava lentamente, com os olhos vazios e distantes. Sombrio e taciturno, as mãos tocavam as paredes, acariciando-as com um cuidado e respeito que eu nuca vira Daniel demonstrar por mais nada. Parecia estar diante de um deus que amava.

Apesar da beleza indescritível, devo descrever um pouco do clima que nos assola aqui em baixo. O calor -que imagino ser de pelo menos 50 graus- é sufocante. Naquele momento, na caverna de cristal, minha cabeça já doía muito. O calor era insuportável e começava a me perturbar seriamente. Estava perdendo a paciência e a calma que é comum a um explorador. A umidade do lugar também era extrema. Comecei a desejar nunca ter adentrado aquele local terrível. Não era feito para humanos. O suor pingava e escorria por todo meu corpo. Minha respiração estava forte por conta do ar rarefeito que havia ali. De todos os lugares, ouvia-se o guinchar de morcegos e o constante bater de asas pela escuridão do lugar. Não consigo imaginar que tipos de animais podem ter crescido e evoluído por aqui.

De alguma forma, após um tempo caminhando nos corredores cristalinos, cheguei em uma espécie de salão. Só ali percebi que Daniel já não estava ao meu lado. Vi-me sozinho em um lugar bastante amplo. Um mar de estalactites em forma de lanças de cristal preenchia o teto do lugar. Apesar de amplo, o espaço era atulhado e bastante claustrofóbico, como uma câmara mortuária sufocante. Por todos os lados, grandiosas estacas de cristal colorido emergiam do chão em ângulos diferentes; por vezes erguendo-se verticalmente como pilastras comuns que, ao fim, se encontravam com o teto espinhoso, onde encravavam-se em meio às lanças translúcidas que dançavam no teto e, outras, caídas como ídolos destruídos, trespassando como agulhas paredes e chão. Senti-me preso em uma teia de aranha brilhante.
Era difícil andar por ali. As pilastras tornavam o lugar confuso e bagunçado. Não havia um caminho por onde andar, o que me fez pensar que a caverna era obra apenas do tempo. Contudo, ponho em dúvida essa afirmação, pois lá vi muitas formas que não pareciam ter sido produzidas pela simples natureza deixada à deriva. Alguns cristais formavam esculturas estranhas; grandes ídolos deformados, torres de cristal e, até mesmo, tumbas gigantes. Penso que se tratava de uma antiga catacumba que, espero eu, estava abandonada há muito tempo. Descrevo apenas o que vi. Tendo em consideração as condições de minha mente e do ambiente, não ouso afirmar nada como certo. Aqui tudo é escuro, e na escuridão o medo se fortalece e começa a dar forma às sombras. Como um cigano que enxerga formas em qualquer canto. Não ouso tentar desvendar esse mistério. É melhor que fique esquecido, longe da luz do sol.

Então, o medo e o calor pesado que recaíam sobre mim fez com que eu, homem da arqueologia e fascinado por monumentos antigos, deparando-me com aquilo tudo, ignorasse sem pensar duas vezes, deixando para sempre o terrível salão.
Sentado aqui, penso que meu último desejo seria poder olhar para tudo aquilo novamente. Ah, como vocês teriam chorado caso tivessem visto tudo que aqui presenciei! Poucos aguentariam! E eu chorei. Chorei e choro agora, perdido nos confins mais preteridos da terra.

Recordo-me que, de alguma forma, cheguei a novos caminhos estreitos, tuneis de rocha escura, não mais feitos de cristal. Ali, o ambiente se tornava sombrio novamente. Caminhei pelo que me pareceram horas a fio. Andei por dentro daquela escuridão para a qual minha tocha não constituía um adversário. A chama bruxuleante dançava e tentava se arrastar por mais lugares, mas a barreira negra das sombras não permitia. Fiquei sem a tocha; perdi-a de algum modo. Caminhei pela escuridão, errante e cansado. Desidratava com velocidade por conta do suor que saia de mim sem parar. Arrastei-me pelas paredes. Corri. Perdi o ar. Senti uma claustrofobia que não ouso descrever enquanto passava por túneis em que precisava andar de quatro! Pensei em desistir; deitar-me ali mesmo e esperar a morte chegar. Teria feito isso! Mas continuei. Lembrei-me de que tinha outra tocha. Acendi-a com os carvões e fósforos que levava em minha mochila e que, só por um milagre, não haviam se perdido. Sentei. Esperei. Levantei e andei mais um pouco. Cercado pelo silêncio retumbante que fazia meus ouvidos apitarem. Os únicos sons que ouvia eram o arrastar ecoante que meus passos produziam ao percorrer o túnel sem fim e o som da minha respiração, arquejante e falhada. Como eu aguentei!

Em algum momento, pude ouvir um barulho alto de algo caindo. Penso que o som pode ter sido feito pelo barulho dos corpos de Alex e Artur chegando a algum lugar depois da queda.

Sentei-me em uma clareira que se abria diante de dois caminhos. Fui até um canto e, cambaleando, me sentei. Fiquei parado, imóvel e atormentado. Olhando as duas fendas que se abriam e levavam de volta aos caminhos de cristal eu tremia. Um dos caminhos se abria à minha esquerda, e, o outro, à direita. Duas fendas escuras que não me permitiam ver nem mesmo 5 metros de seus interiores.

Aqui estou: eu, minha tocha -que acredito que deva ser a terceira ou quarta que acendo-, um pedaço de carvão que me serve como lápis e alguns papéis onde escrevo este depoimento. A falta de ar está começando a ficar intolerável! Não sei mais quanto tempo aguentarei Penso na morte a todo momento enquanto escrevo. Talvez deva procurar o penhasco que engoliu meus amigos e ir me juntar a eles. Tentar chocar-me em direção a uma pedra com a vã esperança de que morra de uma vez só quero sair daqui não aguento mais...

Consigo ouvir algo vindo do túnel à minha direita isso me faz despertar. O silêncio enlouquecedor faz com que o som venha até mim de forma abominosa e implacável ecoando em minha direção. Estou imóvel e só tenho como esperar o que quer que seja se aproxime de uma vez O pânico se abateu sobre mim neste momento. A tensão da espera é horrenda. Não quero ver o que vem até mim Não quero Sei que é inútil pedir mas quero ajuda

Pude ouvir algo se contorcendo pelo túnel, arranhando as paredes e se debatendo contra as paredes rochosas. Algo gosmento e com uma respiração entrecortada, como a de alguém resfriado. a criatura desconhecida está chegando mais perto e começo a perceber que é algo grand Muito grande! Consigo divisar algo balançando na escuridão. Algo brilhante e redondo. Uma esfera colorida Posso ve agora. Meu deus! Não é nenhuma cor conhecda por nós, habitantes da superfície. Nunca vi esse tom antes. É inacreditável Anoto freneticamente o que vejo com um impeto final desesperado a esfera está dançando como se flutuasse em minha direção. A cor é impressionante e até perdi o medo. O que quer que seja finalmente cheg A esfera parou junto com o som de arrastar. a esfera está alo balançando parada Apenas escuto a respiração anasalada e intensa. Ele está ali! Ali parado e me olhando! A tocha só ilumina o pequeno circulo onde estou mas a luz fez algo refletir. Uma mão está saindo das trevas e se agarrando à borda da abertura do túnel pôs sua mão no teto da caverna. É enorme Uma mão que nenhum adjetivo poderia descrever. Consigo apenas me lembrar de: grotesco. o cheiro é horrível A criatura está se contorcendo desesperada para fora do túnel como uma larva saindo de seu casulo escuto o barulho do que deve ser a pele da criatura se arrastar contra a parede Ah meu deus que porra e essa isso e enorme meus

17 de Maio de 2019 às 01:11 0 Denunciar Insira 4
Fim

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