Blues Seguir história

le_leprechaun_

Sobre o poder da música.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os direitos reservados

#bar #blues #música #conto #diabo #inferno
Conto
2
3.6mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Blues

Há muito tempo, em uma pequena cidade no interior do nada, havia um homem muito talentoso. Todos os dias, no mesmo horário e em um pequeno bar local, ele passava algumas horas tocando seu velho violão. Era uma época em que as coisas eram diferentes e, para um músico, não haviam muitas pretensões além de tocar em locais como aqueles.

O jovem homem era humilde, uma pessoa de bem, tinha vários amigos pela cidade, era bem-visto e muito admirado tanto por sua conduta, quanto por seu talento. Sonhava em se casar, ter filhos e continuar compondo e tocando para o máximo de pessoas possíveis. Mesmo reconhecendo suas limitações, ele não deixava de imaginar como seria ser conhecido no mundo todo, ter sua música cantada por milhões de pessoas. Mas isso não o deixava triste, ele apenas deixava o destino seguir em frente.

Certo dia, enquanto tocava uma de suas belas composições, o músico observou algo peculiar. No fundo do bar, em uma mesa isolada e escura, sentava um homem estranho. Estava bem-vestido, portando um copo de bebida na mão e olhando fixamente para apresentação que se desenrolava. O jovem ainda tentou cavar fundo em suas lembranças, procurando alguma pista que pudesse dizer quem era o sujeito esquisito que o observa mas, mesmo após tentar bastante, não conseguiu reconhecer o estranho. Decidiu deixar isso de lado e voltou a se concentrar em seu instrumento.

Dias se passaram e o estranho homem continuava a aparecer. O jovem músico mal conseguia saber quando ele chegava tão pouco quando ia embora, mas sabia que ele sempre estava lá, observando o show. Chegou a perguntar para os garçons se sabiam quem aquele homem era, perguntou até mesmo para o delegado da cidade, mas nada, ninguém sabia dizer quem era o homem que o músico procurava.

Após alguns dias nessa incessante busca, o homem simplesmente não apareceu mais. Passaram-se meses sem que sua presença pudesse ser notada tanto no bar, quanto nas ruas da pequena cidade. O jovem músico, a princípio, se intrigou ainda mais com a situação em que se encontrava, mas como passar do tempo, deixou tais pensamentos de lado, se dedicando apenas ao seu instrumento. Entretanto, em uma quinta-feira a noite, fria porém energética, o homem retornou a aparecer. Trajado com suas roupas pretas, aparentemente de alta qualidade e seu olhar profundo e assustador. Ao ver a presença do homem no bar, o jovem músico decidiu que aquele era o momento para tirar toda aquela história a limpo.

Após tocar uma de suas composições, um blues em tom menor que falava sobre um amor a muito perdido, o jovem desceu do pequeno palco improvisado e se dirigiu até a mesa do misterioso homem. Ao chegar na mesa, ele simplesmente o questionou:

– Perdoe-me o incomodo, mas não pude deixar de notar sua presença por aqui a algum tempo. Não o conheço das redondezas e fiquei intrigado. O senhor é um visitante?

Claramente cativado pela cordialidade do jovem, o homem misterioso olhou fixamente, com seus olhos profundos e assustadores, e calmamente o respondeu:

– A muito tempo não ouço um músico tocar tão bem. Admito que, a princípio, não achei que pudesse ouvir nada de novo ou intrigante após tantos anos, mas sua habilidade me impressionou. Respondendo sua pergunta, sim eu sou apenas um visitante e um mero admirador do seu trabalho.

O músico, agora realmente intrigado com tudo aquilo, passou alguns segundos em silêncio, digerindo as informações, mesmo que poucas, que havia recebido até então.

– Parece vir de longe. De onde o senhor vem? - Questionou o jovem.

O homem misterioso, com um sorriso sarcástico no rosto, virou o último gole de sua bebida e, olhando fixamente para o jovem, lhe respondeu:

- Sim, de muito longe. Eu venho do lugar para onde os homens irão, creio eu que, pelo menos, a grande maioria deles vá. As pessoas contam histórias de onde eu venho, mesmo assim nenhuma das que foram podem agora falar o que viram. Eu venho do lugar aonde a eternidade se resume apenas a uma lágrima, eu venho do inferno.

– Inferno? Desculpe-me, o senhor é algum tipo de charlatão ou algo do tipo? - perguntou o músico, explicitamente frustrado com a situação.

O homem misterioso realçou seu sorriso sarcástico. Com um olhar estático, ele se aproximou do jovem e, calma e vagarosamente, lhe responde:

– Charlatão? Olhe em volta garoto.

O jovem ainda desconfiado, virou vagarosamente seu rosto para a esquerda. Enquanto fazia isso, podia sentir, mesmo que pouco, um sentimento de vazio se espalhando pelo local. Os sons que caracterizavam o lugar sumiam vagarosamente, o cheiro de bebida e comida caseira já não eram mais perceptíveis. Só era possível sentir o silêncio. Ao terminar a volta com sua cabeça, percebeu que não havia mais ninguém no bar, apenas ele e o homem misterioso.

– Mas o que está havendo? Aonde está todo mundo?

Com o sorriso ainda resplandescente, o homem se acomodou um pouco mais em sua cadeira. Puxou a tampa de uma garrafa de bebida – o jovem não saberia dizer se ela já estava ou não ali esse tempo todo –, e generosamente, preencheu o copo que estava a sua frente, aproveitando o tempo para encher um outro copo para o jovem.

– Achei que seria uma boa ideia conversarmos a sós – disse o homem em um tom quase que agressivo de sarcasmo.

– Afinal de contas, quem é você e o que quer de mim? - questionou o jovem.

– A primeira de suas perguntas é óbvia, eu sou o diabo. Quanto a segunda, seria bom debatê-la, tome um pouco de sua bebida, temos todo o tempo do mundo. Se te deixa mais calmo, eu lhe garanto que não tenho nenhum interesse em te fazer mal, não quero sua alma e tão pouco negociar qualquer acordo que seja. Eu estou aqui única e exclusivamente por sua música – respondeu o homem.

Atônito e absolutamente incrédulo, o músico não fazia ideia de como reagir naquele momento. Estaria ele falando com o próprio diabo? Seria tudo um sonho? Uma viagem psicodélica causada por um copo a mais – ou a menos – de bebida?

Enquanto se questionava, observava atentamente a porta de entrada no bar. Cada segundo que passava sem um movimento sequer, deixava o jovem mais assustado. Todo mundo desapareceu. Aonde eles estariam?

– O que quer com minha música? - perguntou o jovem em um súbito e inesperado suspiro de coragem.

– Eu navego por esse mundo a muito mais tempo do que qualquer homem pode imaginar. Eu vi toda a evolução, todas as guerras e, principalmente, todas as formas de manifestações que vocês conseguiram realizar. Eu vi pinturas rupestres, hieróglifos, a tragédia grega e os sonetos de Shakespeare. Tudo isso ao vivo. Mas eu nunca senti tamanha admiração, até ouvir a sua música. Qual o seu segredo? - o homem lhe respondeu, já não estava mais com seu, anterior, tom sarcástico.

– Eu não tenho segredo nenhum. Eu apenas toco o que preciso tocar. De onde vem ou como vem, eu não sei dizer, na verdade isso nunca me importou. Eu apenas toco o que é preciso tocar.

Os papéis da mesa haviam se invertido. Agora o jovem parecia calmo e confiante, enquanto o homem misterioso estava intrigado. Não conversaram muito mais depois disso. Apenas beberam.

– Você não me fez nenhuma pergunta. Normalmente os homens não perdem uma oportunidade dessas para conseguirem alguma informação privilegiada ou simplesmente saciar suas curiosidades. Não desejas saber nada? - perguntou o homem.

– Existem homens que procuram respostas para vencer na vida e existem outros que vencem na vida para encontrar respostas. Eu já me sinto um vencedor com aquilo que tenho, me sinto pronto para aquilo que terei e que deixarei de ter – respondeu o jovem.

– Já que não possui nenhum pedido, permita-me então ocupar mais um pouco do seu tempo com um desejo. Poderia tocar uma música para mim. Sua melhor música – pediu em tom de súplica o misterioso homem.

O jovem músico não ficou surpreso com o pedido. Mesmo assim, um lampejo de nervosismo pairou sobre ele. Não saberia dizer qual era sua melhor canção, ainda mais para ser tocada a uma plateia tão ilustre. Mesmo assim, respirando fundo, ele aceitou.

Subiu com calma no pequeno palco improvisado. Afinou as cordas de seu violão até ficarem o melhor possível. Fechou os olhos e começou a tocar.

Abrindo com uma melodia lenta, com progressões simples e usuais porém, tocadas de maneira paciente e delicada. A harmonia entra, ecoando pelas paredes de madeira velha do lugar. O silêncio que antes dominava o local, agora é dilacerado pelos acordes precisos que eram tocados pelo jovem. E então ele começou a cantar. Algo sobre um amor perdido, uma alma vagando pelo mundo sozinha e dúvidas e dúvidas. No ápice de sua apresentação o jovem já não sentia o bar tão vazio, parecia cheio, movimentado. Chegando ao fim de sua composição, o músico arriscou abrir os olhos, teve uma visão jamais vista por outro homem. As cadeiras agora eram ocupadas por todas as criaturas e seres que habitam o submundo, ouviam atentamente sua música, apreciavam o show. Mas o mais incrível foi que, ao olhar o homem misterioso, podia-se ver um sorriso, não mais o sorriso sarcástico de antes, mas um de admiração e felicidade.

Ao tocar a última nota, como que por pura mágica, o lugar estava normal, com os bons e velhos amigos observando e aplaudindo o músico. Mas o homem misterioso estava lá, se levantou calmamente de sua cadeira, acenou para o músico e foi embora.

O jovem sabia que aquilo não era o fim. De fato não foi. De cinco em cinco anos, o homem misterioso voltava. Dizem que, durante os poucos minutos em que o jovem músico apresentava-se para o homem, o mundo carecia de maldade.

Isso durou até o dia em que o músico, agora já não tão jovem, ficou muito doente. Não levou muito tempo até que seus últimos dias chegassem. Antes do seu último suspiro, recebeu a derradeira visita do homem misterioso. Mais uma vez o vazio e o silêncio.

– Eu imaginava que você fosse vir. Veio me levar não é mesmo? - peguntou o velho músico.

– Sua alma não me pertence. Você vai para um lugar melhor – respondeu o homem.

– Então por que está aqui? - perguntou, agora intrigado, o músico.

– Vim apenas me despedir um amigo – respondeu o homem.

– Agradeço sua cortesia – disse o músico.

– Em todos esses anos, você nunca me pediu nada, nunca me perguntou nada. Eu jamais pude agradecer por suas apresentações. Permita-me realizar um desejo seu antes que parta. Posso te tornar imortal se assim quiser, poderá continuar tocando por vários anos – disse o homem misterioso, agora sério, quase que comovido.

- Eu já tive tudo o que eu precisava meu velho amigo. Foram bons anos, boas apresentações, uma boa vida. Eu venci os meus dias e agora estou pronto para as respostas que virão. Mas, eu te peço que, se possível, torne minha música imortal, não se esqueça dela – lágrimas escorriam enquanto o velho músico falava, agora quase sem folego.

– Assim será feito velho amigo. Descanse em paz – respondeu o diabo.

Dizem que, até hoje, a cada 5 anos, o velho músico pode tocar sua música novamente. Nesses dias, nenhum sofrimento acontece, o inferno se torna um lugar calmo e tranquilo e, principalmente, nesses dias é possível observar, quase que de maneira inacreditável, o sorriso do demônio, de alegria e satisfação.

Pense, talvez o melhor dia de sua vida, tenha tido como trilha sonora, a canção do velho músico.

6 de Maio de 2019 às 13:22 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Lucas Pires Lucas tem 19 anos e é de Brasília. É músico, escritor e, nas horas vagas, desenhista. Utiliza a arte como companhia, como uma forma de se manter conectado consigo mesmo e exercitar sua visão de mundo. Começou a escrever com 14 anos, durante a explosão das 'creepypastas' e, desde então, se dedicou a aperfeiçoar seus métodos de contar histórias. Escreve contos de horror e ficção científica, seu objetivo é usar da sua curiosidade e medo para instigar as outras pessoas.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~