Sangue Antigo Seguir história

tiagovalentin Tiago Valentin

Aiyra é uma garota de 15 anos que sofre de transtornos mentais. Luan nasceu com uma antiga e rara maldição. Quando Aiyra se muda para a cidade de Campo Claro ela passa a ser vitima de uma série de eventos inexplicáveis e enquanto é ajudada por Luan, ela descobre um universo repleto de lendas, magia, deuses, criaturas folclóricas e, simples, chatos e monótonos, dias de aula comum.


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Bel

Se indagasse as pessoas sobre o dia, a maioria descreveria uma agradável tarde. Céu anuviado, campo verde, o vento fresco bagunçando as árvores. Mas se você perguntasse para Bel Campos, provavelmente a menininha cuspiria sangue no chão, te olharia trombuda; dando as costas sairia caminhando. Isso tudo porque ela estava brigando.

– Maria Linda, retira já o que você disse da minha mãe. – Gritou Bel que tinha um corte na boca e nem ao menos notara. O olho daqui algumas horas estaria tão inchado que as pessoas teriam dificuldades de reconhece-la e perguntariam: “Picada de maribondo?”.

– Retiro nadica de nada. – Disse Maria Linda batendo o pé na grama ao lado de suas duas amigas. Sim, a briga era pura covardia, Bel tinha só sete anos e Maria nove, bem alimentada à leite de cabrita era enorme pra sua idade, e ainda estavam em três, mas mesmo assim Maria se incomodava com seu nariz sangrento, presente de uma baita cabeçada de Bel que assombrou as outras duas meninas, aconselhando-as a nem entrarem na briga. Maria estava enfurecida e não daria o braço a torcer. – Sua mãe é bruxa sim senhora e seu maninho vai ser um belo monstrinho.

Bel gritou enfurecida e partiu pro ataque, correu pela grama e atingiu tão rápido e com tanta força a barriga de Maria Linda que as duas desabaram no chão, rolaram arrancando grama e terra, desceram a colina e Bel se deu muito mal quando ficou por baixo. O céu trovejou, Bel pouco se importava, só sentia as pancadas no rosto, puxão de cabelo também doía e sua cabeça bateu no chão duro, se odiou profundamente por chorar, mas são coisas que a gente não controla, as lagrimas mancharam o rostinho sujo, chorava mais pela humilhação do que pela dor, embora sentisse o rosto todo moído. As outras meninas puxaram Maria de cima, ela caiu sentada e levantou ensandecida, as outras se afastaram com medo e por conta disso Bel levou um grandíssimo chute nos estomago, perdeu ar, retorceu-se no chão e olhou com muito ódio para Maria. Mais um relâmpago e as primeiras gotas de chuva caíram, batendo nas copas das arvores, no pasto verde, espantando pássaros e minúsculos insetos, limpando delicadamente; o rostinho ferido da pequena Belinda Lima Campos.

As três meninas saíram correndo e alguém riu lá longe.

– Bel é uma grande cagalhona!

Belinda tentava ficar de pé, com a mão nas costelas cambaleou até o laguinho. A chuva estava fraca, pouco mais que uma garoa, patos sacudiram as penas e os pescoções, grasnaram e levantaram voo, Bel sorriu, parecia ser a mãe e os filhotinhos. Ela viu seu reflexo na água, e quase chorou. Seu pai avisara que se continuasse brigando ia ficar como os lutadores de MMA as orelhas parecendo mastigadas por um cachorro, depois cuspida e mastigada por um outro, até ficarem daquele jeito. Sua orelha ela não sabia mas o olho tava feio e inchado, sabia que colocariam gelo, limpariam os cortes com mertiolate, do velho que ardia, porque a mãe dizia que o que não arde não vale um tostão furado.

Bel sentou no tronco à beira do lago, era estranho sentar lá sozinha, sem as irmãs nem os pais. A chuva tinha ensopado seus cabelos negros e eles grudavam no rosto. Chorou. O que ia dizer? Brigando de novo? Mas xingaram de novo a mãe. Ela tinha tentado, tentava mesmo. Quando provocavam agora ela não caía na arapuca. “Seis filhas?” “Seus pais num tem televisão não?” “Elas devem dormir em gavetas pra caber todas naquela casinha” ela respondia “E você num tem um gato? Ele tem sete vidas pra você tomar conta”, ela dizia isso as irmãs riam e elas saíam pela escola. Sem briga, palavra lutando contra palavra, usando a esperteza como dizia Helô. Helô era esperta, era mais velha, por isso era esperta e Bel queria ser como ela. Helô não caía na armadilha de ninguém não senhora. Se viessem brigar com ela, nem dava o gostinho de uma luta, Helô vencia só de olhar. Era a garota de doze anos mais inteligente que Bel conhecia, e não porque era sua irmã não.

Bia também era inteligente, mas do tipo que lia e fazia contas, tinha dez anos. Ela provavelmente nem entraria numa briga, ia sair chorando antes mesmo de começar, e se Bel estivesse por perto a chamaria de chorona mas defenderia a irmã, pulava pra cima das valentonas e rancava os cabelos chumaço por chumaço. Bia diria não ser o certo, briga não resolve as coisas, mas agradeceria, livraria a cara de Bel custasse o que custasse e ainda a ajudaria na lição.

As outras eram muito pequenas pra saber sobre brigas. Mas Bel lembrando das irmãs conseguiu se ajudar. Bia diria que ela precisava ser esperta, fazer parecer que as coisas não foram tão ruins assim. Então Bel caminhando no meio da chuva foi até o laguinho e limpou o rosto, só então percebeu o corte nos lábios, viu o sangue e sentiu o coraçãozinho acelerar, limpou a boca, fazendo careta porque ardia, sentiu o olho inchado, tirou as sujeiras do rosto, bateu um pouco a poeira da roupa e tudo. Bia estaria orgulhosa.

Depois pensou em contar uma mentirinha, uma de nada, só pra facilitar as coisas, foi pegar goiaba e caiu da arvore rolou pela colina e ficou assim, “haha! Que distraída né?”. Mas pensou em Helô, ela dizia pra não mentir pro pai e pra mãe, que eles foram criados por cães do mato e conseguiam sentir o cheiro da lorota lá longe, o melhor era contar a verdade, estufar o peito e andar de cabeça erguida, o que passou passou.

Foi o que fez Bel. A menininha caminhou pelo campo. Sentia-se mais leve e contente por ter conseguido lembrar de todas aquelas coisas, estava de rosto limpo e de cabeça erguida, usava a esperteza das suas irmãs mais velhas, e usaria o charme das mais novinhas. Afinal não poderia ficar no laguinho pra sempre, queria se secar, tomar banho quente, comer biscoitos e assistir televisão, ouvir o seu irmãozinho na barriga da mamãe, ia ser menino, o primeiro, havia até um quarto especial pra ele, mais ninguém tinha um quarto especial, mas Bel não ligava, ela ia ensinar ele a ser esperto, a não brigar, mas também não fugir, quando ele fosse grande e forte ela contaria tudo o que Maria Linda disse dele e da mamãe, ela ia ver com quantos paus faz uma canoa.

Bel ia tão distraída e contente que demorou pra ver as pessoas que se aglomeravam em sua casa, tinha gente querendo espiar pela janela, umas entrando outras saindo, falatório e alarde. Ninguém parecia se importar com a chuva que apertava.

Belinda ficou confusa, começou a se assustar, alguma coisa tinha acontecido. Apertou o passo até correr. Algumas pessoas a notaram, falaram alguma coisa que ela nem conseguiu ouvir.

– Bel! – Gritou Isabel, sua irmãzinha de quatro anos. Belinda a pegou pela mão e a tirou da chuva, entraram na casa e ela conseguiu ver a correria lá dentro. – É a mamãe.

Isabel parecia que iria chorar, e Bel também estava assustada, ouviram a mãe gritar e elas se encolheram. Cris que tinha três aninhos veio correndo. Bel estufou o peito e ergueu a cabeça.

– Bobonas. Não carece ter medo não. – Disse e as outras seguraram sua mão. – Vai dar tudo certo.

Elas assentiram pra Bel. Uma mulher surgiu na sala e o povo da janela perguntou como estava Lucia, mãe das meninas, a mulher fez um sinal negativo com a cabeça e Bel se enfureceu, o que essa dona pensava que sabia? Não sabia nadica de nada.

– Bel! – Chamou Helô da porta do quarto. – Onde cê tava? – Helô olhou pros machucados de Belinda e a garota se encolheu com o olhar de reprovação lançado pela irmã.

– Escuta, não fui eu que comecei...

– Agora não importa, precisamos de você. Precisa avisar o pai.

– Ele não tá? – Bel sentiu o coração aos pulos. Sem o pai?

– Ele saiu, foi no mercado. Você é a mais rápida na bicicleta em toda a cidade.

– Eu vô, eu chamo ele.

Helô concordou com a cabeça mas antes Bel quis ver a mãe. Elas entraram no quarto e Lucia gritava na cama, parecia sofrer horrores. Bel teve medo de olhar, sentiu uma coisa ruim, como se não devesse testemunhar a cena, nunca tinha visto sua mãe assim e pareceu errado assistir seu sofrimento, pensou em fazer alguma coisa, mas o que poderia fazer? Mulheres apoiavam Lucia e a examinavam, Bia estava ao lado com um livro na mão.

– Tem certeza que estão fazendo certo? – Disse ela. – Aqui diz que as contrações precisam...

– Que é contração? – Perguntou a parteira.

– Belinda. – Chamou Lucia sorrindo. A menina esgueirou até a cama, a mãe suava bastante e respirava com dificuldades, Bel já tinha visto a mãe ter neném, mas nunca daquele jeito. Lucia passou as mãos nos cabelos molhados de Bel, sorriu balançando a cabeça. – Brigando novamente?

– Eu... Caí pegando goiaba.

– Olha. – Lucia pegou a mão de Bel e colocou em sua barrigona, a garotinha arregalou os olhos e sentiu ela se mover, só um pouco mas sentiu. – Ele se acalmou quando você chegou. Ele gosta da sua voz.

– Sério?

– Sérião. Você vai sempre cuidar dele?

– Claro que sim, sempre.

– Então... – Lucia se contorceu e segurou a dor. – Então tem que prometer se comportar, seja você mesma, se precisar lute, mas não arrume confusão atoa... Todas contam com você.

Bel pegou o dedo mindinho e entrelaçou com o da mãe. Helô quase chorava e Bia enfiou a cara no livro, as lagrimas estragaram a folha.

– Eu prometo.

Lucia gritou de dor, e as parteiras pediram que elas saíssem. Helô ninguém conseguiu expulsar, só saiu para dar instruções para Bel. Belinda era pequena, aprendeu a andar de bicicleta sem rodinha com seis anos. Agora tinha sete e era rápida, principalmente por não ter medo de correr.

– Vai rápido, mas toma cuidado.

– Certo. Helô...

–Que?

– Cuida da mãe.

Helô sorriu pra irmã.

– Prometo.

Belinda saiu em disparada pela cidade, espirrando lama e bem confiante. Helô tinha prometido e ela nunca quebrava uma promessa.

A chuva era forte, na avenida carros passavam e teve quem buzinasse para Bel, ela nem se importou, apenas pedalou sem parar. Quase derrapou quando virou na rua, os cabelos a irritavam grudando no rosto perto dos olhos, sua mãe gostava assim grande, já ela preferia cortar tudo, mas pra ver mamãe contente Bel deixaria grande. Viu as luzes do mercado, carros estacionados na frente. Largou a bicicleta, entrou no coberto e abriu a porta, ficou parada olhando ao redor, no chão uma poça formava-se com a água que escorria da garotinha.

– Bel Campos? – Chamou a caixa idosa, dona Rita esposa do proprietário. – Olha só quem está aqui e toda molhada ainda.

Bel ouviu vozes de homens entre as prateleiras, Manoel foi o primeiro a sair e depois o pai de Bel com a pequena Malu no colo, eles riam conversando sobre futebol. Bel quase chorou aliviada, seu pai quando a viu ficou parado, Malu reconheceu Bel e estendeu os braços querendo o aperto da irmã.

– Que cê tá fazendo aqui? Molhada assim... Andou brigando de novo Bel?

– É a mãe, pai.

Manoel deu carona e nem ligou que Bel molhava o assento do carro. Chegaram muito rápido e os curiosos tinham ido embora graças a chuva forte. Eles entraram na casa, as pequenas Cris e Isabel gritaram pro pai e o abraçaram, elas estavam assustadas e ele as consolou sorrindo, ele as deixou sob os cuidados de Bel que já estava com Malu no carrinho.

Ricardo respirou fundo e sorriu para as meninas não se preocuparem, entrou no quarto. A parteira parecia alarmada e Bia com Helô ajudavam. Elas sorriram aliviadas ao verem o pai, e Bel que espiava pela porta pode ver quando Helô piscou pra ela orgulhosa. Belinda estufou o peito feliz da vida por não ter decepcionado a irmã. Mas a mãe não parecia nada bem. Estava sem cor e os lábios tremiam. A parteira dizia pra ela ter forças, pra empurrar.

Ricardo mandou as meninas saírem. Segurou a mão de Lucia e a beijou.

– Já foram seis o que é mais um pra você? – Os dois sorriram e Lucia gritou mais uma vez.

Escutaram algum rumor lá fora. As meninas disseram alguma coisa e a porta do quarto abriu. Era o velho Rudá, descendente de índios e a pessoa que alertou Lucia sobre a gravidez antes que qualquer um pudesse saber. Todos da cidade o respeitavam e Ricardo era grato a ele por ter feito as pessoas pararem de dizer que o menino seria amaldiçoado por ser o sétimo filho do casal depois de seis meninas. Ele olhou para os dois e disse algo em sua língua nativa. Lucia pareceu se acalmar, respirar com tranquilidade. A parteira mandou empurrar, disse que estava vendo, Lucia gritou, estava quase, “mais um pouco” gritava a parteira, Ricardo segurava a mão que lhe apertava até perder a cor dos dedos. Lucia deu mais um grito e a parteira disse algo bem alto, escutaram um choro e Lucia riu exausta. Ricardo a beijou e as meninas se aglomeraram na porta. A chuva tamborilava no telhado, a janela toda riscada de pingos. A mãe ofegante pediu o bebê chorão. A parteira passou um pano nele e o limpou como pode, era um pequeno bruto com muita força no pulmão. Ela olhou pro velho Rudá.

– Ele será...

– Sim. – Disse o velho. – Pertence a lua agora.

Lucia chorou e Ricardo ficou irritado com esse papo. Lucia pareceu sem forças e quase deixou a criança cair, Ricardo quis pega-lo no colo mas ela recusou.

– O nome dele vai ser Luan. – Disse Lucia e o velho Rudá sorriu concordando. – Ricardo você tem que prometer não abandona-lo, nunca.

– Que história é essa?

– As meninas.... Todos... Ele não tem culpa. Prometa.

Ricardo prometeu e Lucia entregou o pequenino Luan, que já não chorava.

Bel olhava tudo da porta, as meninas queriam ver o irmão a mãe e até o velho Rudá que era tão misterioso e sempre fazia truques de mágica quando visitava para saber do bebê. Escutaram um falatório no quarto, a parteira muito aflita, Ricardo falava alto, chamou pela mãe delas, o velho índio cantava alguma coisa e tudo ficou confuso, O pai delas entregou o bebe para Bel que o agarrou, ele voltou pro quarto, bateu a porta e não puderam ver mais nada.

As meninas agruparam-se ao redor do bebê, ele chorava com a confusão, todas queriam acalma-lo e nem Helô conseguiu. Mas Bel falou com ele, se apresentou e apresentou cada irmã, ele escutou a voz de Belinda e parou. Bel olhou admirada para as irmãs.

– Ele gosta mesmo da sua voz. – Disse Helô admirada.

– É né? – Bel não queria se gabar mas ficou felicíssima com isso, era seu irmão e a adorava desde já.

Todas ficaram encantadas com o bebê, o paparicavam e se divertiam com qualquer coisinha, riam e se derretiam. Tanto que não ouviram o choro do quarto. O pai lamentando e sua mãe silenciosa.

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Ricardo tinha feito uma promessa que jamais cumpriria, depois de alguns meses da morte de Lucia ele abandonou a casa, não aguentou a pressão e principalmente não aguentou o pobre Luan. O conselho antigo quis dividir as meninas e claro, ficar com o bebê, mas Helô se mostrou a mais valente e decisiva das crianças de doze anos que os anciões já viram e nem os deuses puderam interferir sem quebrar as regras e os acordos com os humanos. Helô conseguiu manter a família com ajuda de Bia e Bel. Ganharam um tutor um velho pária que só aceitou o encargo para poder ser livre novamente e por causa de Luan, o primeiro puro da raça há mais de séculos.

A história que contarei é sobre seres antigos, pessoas e criaturas, sobre as famosas irmãs Campos e, Luan. Sobre a cidadezinha de Campo Claro e seus moradores. E começarei com coisas pequenas, talvez ondas de um mar adormecido, parques com balanças quebradas, piqueniques, futebol, um menino de joelho ralado, compras, passeios, ou por uma nova garota, que acabou de se mudar com sua família.

30 de Abril de 2019 às 10:36 0 Denunciar Insira 4
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