O quarto Seguir história

victoriac Victoria C.

Quando a filha bem sucedida e mais nova de uma família instável, recebe uma ligação do seu irmão e retorna para a sua antiga casa, não imaginaria a série de eventos que iria acontecer.


Conto Para maiores de 18 apenas.

#horror #suspense #terror #mistério
Conto
1
2607 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

De volta para casa

Dia 1

Toctoc
Bato na porta de entrada, mas ninguém aparece para atender. Olho para o relógio e já está tarde. O voo atrasou, o taxista era lento. Toc toc. Ninguém abre a porta. Olho pela janela da casa, mas isso se torna impossível, todas estão cobertas por cortinas pesadas e escuras. Coloco a minha mão dentro do vaso das roseiras que ficam ao lado da porta, encontro uma chave e a coloco na fechadura, giro a maçaneta e ponho os meus pés para dentro da casa. As luzes estão acessas, mas não tem ninguém.
— Joe? — Novamente o meu chamado é ignorado.
Desço a escada até o porão, o meu quarto. A cama e os livros ainda estão no mesmo lugar. Coloco a minha mochila no chão e subo. Vejo meu pai descer a escada do andar superior. Ele gesticula em libras para mim e eu o respondo. O meu pai perdeu a audição quando ainda éramos criança e com isso a fala foi se tornando cada vez mais difícil para ele, mas se falarmos bem devagar ele ainda consegue ler os nossos lábios.
— Cadê o Joe? Eu já sei da armação dele. — Conforme me comunico em libras, falo bem alto para que o meu irmão me escute.
— Você sabe que eu só fiz isso, por que você vive mais para o trabalho do que tem tempo para vir aqui. — Viro e encontro o meu irmão saindo da cozinha com uma faca e as mãos sujas de sangue, ele cheira e coloca um dedo na boca limpado com a sua saliva — É carne de porco, a sua favorita.
Há dois dias recebi uma ligação de Joe, supostamente, assustado e falando sobre como o nosso pai não estava bem. Eu acreditei no início. Mas depois percebi que o Joe nunca me liga, nem mesmo para assuntos graves e segundo é o Joe, só poderia ser mais uma de suas brincadeiras sem graça.
— Você não pode inventar as coisas e simplesmente me pedir para viajar para esse lugar no meio do nada. Perdi meu tempo.
— É, mas você veio. — Ele disse. É, eu vim.

Dia 2

Ainda de olhos fechados ouço passos em cima do porão, como se várias pessoas estivessem se movimentando na sala principal. Subo e quando entro na sala não encontro ninguém, a casa parece tão vazia quanto ontem.Penso queestava sonhando acordada.Vou até àcozinha e pego um copo com água, sento-me perto da janela e arrasto a cortina para o lado, lá fora ainda está escuro e pingos deáguabatem contra a grama verde do jardim. Caminho para mais perto dajanela, algo preto e grandevem na minha direção, colide najanelae cai. Dou um passo para trás assustada e deixo o copo cai no chão, olho para a janela e tudo o que vejo é o vidro trincado, ainda com receio caminho lentamente para mais pertojanelaeobservoalém da rachadura, um corvo contorcendo-se nochão, a ave conseguese recuperare levanta voo. Vejo o animal desaparecendo além das árvores.
Não volto mais a dormir, fico em meu quarto lendo alguns dos meus muitos livros até que amanheça. Quando finalmente retorno para o andar superior da casa tudo está em silêncio, assim como na madrugada. Caminho até as janelas da casa e abro as cortinas uma por uma, a claridade entra e a casa finalmente recebe luz natural. Na janela trincada consigo ver ao longe o meu pai no jardim apontando para algo nas árvores e Joe ao seu lado. Lembro do quarto do meu pai e decido ir olhá-lo. Quando abro a porta do cômodo não consigo enxergar nada, tudo está escuro e sinto um cheiro forte que me deixa enjoada.
Ligo a luz. A intensidade da iluminação faz com que os meus olhos se fechem instantaneamente, olho para todos os lados, mas nada parece incomum. Sinto algo tocar os meus ombros e calcanhares, afasto-me, mas não tem ninguém, devo estar sentindo coisas. Ouço uma voz vindo do closet do quarto. “Tem alguém aqui”, é o que consigo escutar. Ela se torna mais alta, e mais alta e então começa a parecer gritos “Tem alguém aqui”. Protejo os meus ouvidos com as mãos, contudo, não adianta, está muito alto. O cheiro começa a ficar mais intenso. Agora percebo que o ar não circula mais pelo local, as janelas estão cobertas pelo mesmo modelo de cortina das outras janelas que pelo visto tampam o restante da casa. A minha respiração começa a pesar, fica cada vez mais difícil de respirar. As vozes começam a brincar com a minha mente. Tem alguém aqui. Tem alguém aqui. Aproximo-me do closet e o odor fica ainda mais presente, arrasto o material de mdf para o lado e vejo um animal sem cabeça pendurada em um cabide. É um porco.
Por um instante tudo fica escuro em minha cabeça, os meus olhos se abrem novamente e o animal decepado ainda está na minha frente. Desço as escadas correndo. No andar de baixo vejo Joe fechando a última cortina de uma das janelas. O ambiente continua claro, a luz artificial está ligada. Tento gritar, mas a minha respiração ainda está desregulada.
— Você não deve em hipótese alguma abrir as cortinas — a voz de Joe ecoa na minha cabeça. E então desabo no chão gélido. “Tem alguém aqui”. A voz grita e é a única coisa que fica na minha mente.

Dia 3

Vozes são tudo o queescutoao abrir os olhos, mas não tem ninguém comigo. Não consigo lembrar do que aconteceu. A casa está em completa escuridão quando subo as escadas,vou até àjanela abrir as cortinas, mas alguém me puxa para trás. ÉJoe.
— Não abra as cortinas. — É tudo o que ele fala antes de sair, consigo ouvir seus passos indo para a cozinha, ele retorna e acende velas, colocando-as em candelabros pela casa toda. — Estamos sem energia por tempo indeterminado.
Tudo o que vejo é a silhueta de Joe andando pela casa. Subo as escadas e encontro o meu pai saindo do seu quarto, assim que ele me avista volta correndo para o cômodo, acelero os meus passos até a porta e o impossibilito de a fechar antes que eu possa entrar, diferente do resto da casa a janela está aberta permitindo que entre um pouco de luz e a brisa da manhã. O meu pai vai até porta e a tranca, quando se vira para mim, começa a falar, mas eu não consigo entender os seus rápidos movimentos com a mão. Ele para e retorna. Tudo o que eu consigo entender é “Tem alguém aqui”, então flashes da noite anterior aparecem na minha cabeça, olho ao meu redor e não vejo nada, vou até o closet e tem apenas roupas. A escuridão consome o lugar e as velas tomam o lugar da luz natural. Pergunto para o meu pai quem está aqui, mas batidas fortes na porta nos atrapalha.
A porta é aberta bruscamente. Joe aparece e balança um molho de chave na mão. Convida-nos para descer e comer. O prato principal de hoje será carne de porco, novamente. Mas antes, ele pede para que eu saia do quarto, pois, precisa conversar com o meu pai em particular, assunto de homem, ele diz. Desço as escadas e vou até à cozinha. Na mesa, a carne fede e está coberta de moscas, tento afastá-las, mas são muitas. Parece podre. Aperto o meu nariz com os dedos e saio de lá. Espero até que o meu pai e meu irmão desçam para que eu possa falar da impossibilidade de comermos carne estragada. Quando eles finalmente descem, passam por mim e vão até à mesa de jantar, ouço a cadeira ser arrastada e os talheres batendo no prato. Vou até lá e eles estão comendo, olho para o meu prato e a carne está intacta, bem assada e não parece podre. Olho ao redor e percebo que definitivamente algo está acontecendo comigo.

Dia 4

A luz tremeluzente da vela se apaga. Acendo outra. Não vai demorar para que essa assim como as outras três se desmanche até virar cera. Logo será manhã e eu ainda não conseguir fechar os olhos um só instante. Não sei o que está acontecendo, mas há algo de errado na casa. Ontemfuiaté a caixa elétrica da casa e parece que alguém desligou o interruptor de toda acasa, não sei quem o fez, mas não temos vizinhos e nem arruaceiros nas proximidades.“Sem energia por tempo indeterminado”,Joefalara. Decido não contar para ele e nem para o meu pai, temosvelas suficientespara cinco meses.
No andar de cima escuto a voz abafada de Joe e de mais alguém, a qual não consigo reconhecer, parecem estar no quarto do meu pai, ainda do último degrau da escada, estico o pescoço para tentar ouvir algo, mas a porta se fecha em um estrondo. Assusto-me, mas decido subir mesmo assim. Não ouço mais as vozes, apenas um grunhido que se parece com o som da voz do meu pai. Eu acho que ele está tentando falar, mas algo o impede. Bato na porta. Joe! Joe! Grito o nome do meu irmão. Sem passos, sem nada. Ninguém está vindo abrir a porta. Forço a fechadura da porta, mas ela se abre rapidamente, fazendo-me cair de joelhos no chão.
— Você precisa saber esperar — Joe fala e passa por mim. Na cama, vejo o rosto do meu pai enrugado dormindo. É, não tem ninguém aqui.
Lá fora a chuva castigava o jardim, as árvores balançam de forma ritmada de acordo com a direção do vento e os trovões soavam estrondosos. Pela única fresta da janela posso ver o que acontecia do lado de fora. Já era noite e as luzes da vela criava um ambiente sinistro na casa. A cabeça de um cervo empalhado e pendurado, agora parecia um monstro que toma forma uma horrenda e sombra se estende por toda a parede. Direciono novamente a minha atenção para a chuva, mas sinto algo envolver o meu pescoço, como se fossem duas mãos grandes estivessem enroscando-o e não querem mais soltar, tento inalar o ar, mas fica difícil, levanto-me e tento levar as minhas mãos até o pescoço, porém, algo me impede e continua a me sufocar. Uma baba grossa e vermelha começa a escorrer pela minha boca e cai no carpete. Esforço-me para gritar o nome de Joe, mas não consigo. Primeiro a minha visão fica turva e depois tudo apaga.

Acordo ofegante. Pingos de água caem sobre o meu rosto que está molhado de suor, tem uma infiltração no teto do porão. Olho para o relógio na escrivaninha e ainda é noite, nada aconteceu foi apenas um pesadelo. Mesmo assim toco no meu pescoço e está dolorido, tento falar algo, mas a minha voz sai rouca, a minha garganta se contrai esaium pouco de sangue pela minha boca, lembro do sonho e caminho até o local da casa, no qual ocorreu o meu supostosonho. A cortina está um pouco afastada, deixando a luz da lua passar pelo vidro, vou até lá e a arrastado, fechando-a completamente. Olho parao carpetee noto uma mancha vermelha escura, abaixo-me e toco aquele borrão sujo, o sangue ainda está quente e viscoso. Algo tenta se aproximar de mim enquanto levanto, olho para trás e vejo uma sombra correndo e subindo as escadas. Sigo o vulto, ao chegar no andar superior, a coisa entra no quarto do meu pai, apresso-me a ir atrás, mas a porta já está fechada. Tento abrir a porta, mas algo pesado parece impedir até mesmo a maçaneta de girar. Ainda não consigo falar por causa da minha garganta, mas mesmo assim continuo a empurrar a madeira pesada na minha frente. Não obtenho um resultado, então decido tentar pela janela, mesmo que isso dêchancepara o que quer que seja sair de lá.
Olho para a janela em cima. É no segundo andar, então não é tão alto. A chuva já passou, mas o frio insiste em continuar. Subo pela construção de madeira que fica ao lado da janela, encontro dificuldade em apoiar os meus pés junto das plantas que envolvem a madeira. Mas preciso ser rápida. Não consigo enxergar lá dentro, as grossas cortinas tapam a minha visão. Arrasto o vidro para o lado, mas não é surpresa alguma que a janela esteja trancada pelo lado de dentro. Com o braço esquerdo me seguro no parapeito da janela e coloco o cotovelo direito na frente do me corpo, sem pensar muito jogo o braço na direção do vidro, uma fina rachadura se abre, forço mais uma vez e, finalmente, um buraco mediano rompe, posiciono a minha mão para dentro e encontro a fechadura, arrasto o ferro para o lado e a janela destrava.
Coloco a última parte do meu corpo para dentro do quarto. No meu bolso esquerdo sinto o estilete friccionar. O quarto está escuro, a não ser pela luz trêmula da vela, e sem sinal de ninguém, o que é estranho, já que o meu pai deveria estar dormindo aqui. O mesmo odor que eu sentir pela primeira vez que entrei aqui surgi novamente. Sinto uma vontade incontrolável de vomitar e uma líquido espesso sai pela minha boca. As mesmas vozes que gritavam quando entrei aqui retornam, mas agora a frase é diferente "Estou aqui". Puxo o canivete do meu bolso e vou até o closet, deslizo a porta de uma vez e enxergo um corpo também sem cabeça pendurada no cabide. Olho para a cama e o meu pai não está lá. Eu preciso sair daqui. Corro até a janela, mas está trancada, e não abre, tento a porta, mas como esperado ela também não quer abrir. A vela intenta a apagar e uma silhueta aparece na parede, uma grande mão ameaça em vir em minha direção, jogo o meu corpo contra a porta, esperando que alguém ouça o barulho. Aquele membro grande agarra o meu pescoço e o brilho da luz se dissipa, a porta se abre e o meu corpo é jogado para frente e logo desmaio.

Dia 5

Os meus olhos se abrem com dificuldade. Apalpo abaixo do meu corpo e percebo que estou na casa, namesinhaao lado consigo ver uma xícara de chá e umacaixinhatransparente com pílulas. O relógio aponta que já é tarde e logo maisanoite chegará. Devo ter dormido o dia todo. Sento na cama com dificuldade e apoio o meu corpo na parede, estico o meu braço e apanho a xícara que contém um líquido verde, levo o conteúdo até o nariz e tem um cheiro forte, mas não parece ser ruim.
— Você vai se sentir melhor quando tomar com os comprimidos — Assusto-me com a voz que sai do canto escuro do quarto, é Joe, eu não o vi ali. — Eles irão vir te pegar a noite.
Eles quem? Mas quando vou perguntar a porta do porão se fecha, ele se foi e me deixou aqui sozinha. Eu não posso mais ficar aqui. Derramo o chá no mesmo canto escuro do qual Joe saiu e jogo as pílulas debaixo da cama. Pego a minha mochila, mas está vazia, sem as peças de roupa que eu trouxe, está sem nada. Vou até o telefone que fica na mesinha de cabeceira, mas está mudo, preciso ligar o sistema de energia e restabelecer o sistema de telefonia. A porta se abre, volto para cama. Joe olha a mochila jogada no chão e me fita balançando a cabeça negativamente.
— Você não vai precisar mais das suas roupas. Confie em mim. — É a última coisa que diz antes de sair apressado do quarto, deixando-me sem possibilidades para perguntas e respostas.
Vejo o relógio e pelo horário sinalizado o sol deve estar se pondo. Apesar do receio de que a porta esteja trancada, subo as escadas e consigo abri-la sem dificuldades. Aqui em cima o silêncio é agonizante, caminho até a janela e puxo a cortina para o lado, diferente do que o relógio indicava, o sol não está se pondo, já anoiteceu e o céu está escuro, nem lua, nem estrelas. Alguém atrasou o meu relógio. Caminho até a porta dos fundos da casa, já do lado de fora vou até o interruptor e ligo todo o sistema, ainda assim as luzes da casa estão apagadas, conecto também a fiação do sistema de telefonia. Retorno para a casa, ainda com receio de que alguém me veja. Vou para o meu quarto e tranco a porta. Consigo ligar a luz. Retiro o telefone do suporte, e está funcionando normalmente, disco alguns números, mas o aparelho para de funcionar novamente. O meu corpo começa a tremer e sinto que vou desmaiar, tento dizer a mim mesma para ficar calma, porém só aumenta a sensação. Do alto da escada uma luz pálida escapa por debaixo da porta e uma sombra anda na frente do porão, desaparecendo depois. Ele já sabe que liguei o sistema.

Tudo retorna a ficar escuro. Olho para a frente e a luz da vela também se apaga. O quefaçoagora? Olho para a porta do porão e decido correr, ainda que seja a minha últimachance. Subo as escadas e abro a porta, mas antes de colocar os meus pés para fora da cômoda algo me faz tropeçar ecaiona escada, o meu corpo se colidi com o chão, tento me levantar, mas não consigo,julgo quequebrei algumas costelas. Na portavejoa silhueta de uma pessoa descendo pelas escadas, esforço-me a levantar, mas sinto uma dor excruciante nas minhas costas, ainda assim consigo me arrastar para trás, mas a madeira da cama me impede continuar, a coisa vem se aproximando de mim, mesmo com aescuridão euconsigo ver o par de olhos que me encaram, eles brilham de uma forma que eu nunca tinha visto. Do seu braço direitoobservoum objeto pontiagudo que também reluz no escuro. Antes que a coisa me acerte,douum chute que parece ter sido no ar,pois, nãosinto o impacto em nada, mas por um tempo a figura some da minha frente e eu não sei como, mas consigo me levantar e mesmo andando curvadaalcançoaescada, subomais rápido quepossoe consigo sair do porão. Apoiando-me na parede chego a até a porta de saída. A minha única e últimachance, digo em meus pensamentos, aúltimaoportunidade. Toco na maçaneta e a porta abre com dificuldade. O vento choca com a minha face e a neblina cobre todo o jardim, dou uma última olhada para trás e resolvo tentar correr. No entanto, aoinvés de omeu corpo ir para frente, eu o sinto sendo lançado para trás no ar e se chocando com a parede, escorregando lentamente até atingir o chão. Da minha garganta rasga um grunhido de dor, sem forças para me levantar,vejoas velas que estão colocadas nos candelabros se acenderem e na parede surgem sombras que se aproximam de mim,enquantoa porta a minha frente começa a ranger, de forma lentae agoniante, fechando e atrás dela está o meu irmão. É tudo o quevejoantes das sombras se revelarem sobre mim.

21 de Abril de 2019 às 22:53 0 Denunciar Insira 119
Fim

Conheça o autor

Victoria C. Desvelando a minha existência como um ser em um mundo de constantes mudanças.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~