Instigante Seguir história

u15552862861555286286 Jade B. Sand

Bruno poderia ser considerado um homem bem-sucedido. Formado, trabalhando, namorando uma ótima garota e proprietário de um grande apartamento, ele não teria do que se queixar se não fosse a crise financeira. Para manter o dispendioso apartamento, ele decide dividi-lo com quatro rapazes, todos estudantes e trabalhadores. Eric precisava de um quarto no centro da cidade e tinha pressa. Podia ser dividido. Podia ser até o quartinho de empregada nos fundos do apartamento do Bruno, embora a falta de ventilação piorasse as suas alergias. Sensível e misterioso, ele começa a despertar sentimentos diversos nas pessoas ao redor. Romance Gay.


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#primeira-vez #romance-gay #erótico #romance-dark
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I

— Amiga, como a gente era boba! — disse uma mulher na mesa ao lado. — Eu ia à farmácia todos os dias só para ver o vendedor. Inventava cada desculpa! Por que eu era tão idiota?

— E eu que esperava o entregador de jornal passar pela minha rua e depois começava a correr, dava a volta ao quarteirão, só para encontrá-lo na próxima esquina? Pensa! Ele sorria para mim e eu me sentia nas nuvens, como se ele não estivesse rindo da minha cara.

Não pude deixar de rir ao ouvir esse diálogo, mesmo estando sozinho. Duas mulheres não muito jovens conversavam e riam como se estivessem num bar, mas eram apenas oito horas da manhã numa padaria onde o conforto e o cardápio minimizavam o atendimento ruim e os preços salgados.

Verifiquei as horas no celular, apesar de estar de relógio. Eles estavam atrasados. Os três caras que iriam dividir o apartamento comigo a partir daquele momento.

Eu sou o Bruno. Aos 27 anos eu era um cara normal, engenheiro mecânico, empregado, com namorada, um filho que tive com uma ficante, família grande e linda. Morava sozinho em um grande apartamento, que era meu. Tudo perfeito. Só que não.

Morar sozinho era incrível. A solidão e a liberdade sempre me atraíram, e apesar de todos estarem sutilmente me cobrando o casório, ou pelo menos um noivado, eu não me sentia no momento apropriado. Além disso, as coisas não eram tão favoráveis. Uma crise, um salário menor do que eu gostaria, um grande apartamento, uma grande despesa. Contas de luz absurdas, não importando o quanto eu economizasse. Pensão, IPTU, condomínio, diarista... Prestes a cancelar minha TV por assinatura, meu irmão me deu a ideia de ocupar aqueles quartos vazios e diminuir o prejuízo. Só por um tempo. Só para pessoas de confiança. A Larissa, minha namorada, apoiou a ideia indicando o Sérgio, seu best friend, um cara “incrível, super gente fina”, na opinião dela. Um sujeitinho afetado e metido a besta, na minha. Ele ficaria com a outra suíte.

E por falar nele...

— Olá! Tudo bem? Desculpe a demora — disse ele me estendendo a mão e abrindo um sorriso enorme. Se sentou na minha frente e começou a falar sem parar. — O trânsito está péssimo. Na verdade, ele está normal, né?! Todo dia é assim. — Revirou os olhos. — Ai, estou tão feliz em sair dessa vida! Quando a Lari me disse que você ia dividir seu apê eu pensei: é agora! Não posso perder essa oportunidade, eu posso ir andando pro trabalho! Tem uma vaga para mim na garagem, né?! — Assenti e ele continuou: — Vou me mudar nessa sexta, ok? Já estou arrumando minhas coisas, providenciando alguém pra levar minha cama e meu armário, é claro que você não se importa — ele afirmou e não perguntou —, e mais umas coisas que...

— Tem cama box e armário no quarto — o interrompi. — Acho que lá tem tudo...

Ele me interrompeu.

— Claro, claro! Mas o meu colchão, eu não vivo sem ele. Não vai atrapalhar, juro! A Lari disse que o apartamento é top, decoração vintage...

— São velharias mesmo. Mas as camas são novas. — Eu não estava a fim de falar de decoração e aquele moço era muito chato. A expressão “falar pelos cotovelos” combinava perfeitamente com ele.

— Mas eu vou levar, tudo bem?

— Sim, claro. E vamos discutir algumas regras também.

— Claro, eu concordo. A vantagem é que eu e a Lari somos tão amigos que eu não vou me importar com a presença dela, desde que se comportem, é claro. Ou não, né! — Serginho deu uma gargalhada. — Só me meto em caso de briga de faca. É mentira, tá? — E outra risada escandalosa. — A Lari me disse que...

— Calma, não é bem assim. Estou esperando também... Ah, sim, aí estão os outros dois.

— Outros dois? — Sérgio fechou a cara e elevou a vista para os dois rapazes que se aproximavam. — Não esperava por mais gente, achei que seria só você e eu. O que houve? Vai mesmo transformar seu apê numa república? — Ele disse “república” com certo desprezo.

— Tem mais dois quartos menores e um banheiro. E meu irmão conhece os “gêmeos”, eles são muito amigos. O apartamento é grande e somos todos civilizados. Qual o problema?

Meu irmão mais novo havia me indicado “os gêmeos”, dois rapazes do interior, da mesma região da minha família. Meus pais tinham vindo de lá ainda jovens e sempre cultivaram o desejo de voltar um dia. “Quando eu me aposentar”, dizia meu pai. Então minhas irmãs se casaram, minha mãe tomou para si a missão de cuidar da sogra doente, e meu pai conseguiu a sua tão sonhada aposentadoria. Compraram um terreno numa pequena cidade litorânea e se mudaram. Poderiam ter vendido o apartamento e comprado um menor para mim, mas minha mãe não quis. “Aqui você vai poder criar os seus filhos, Bruninho”, ela havia dito na véspera da mudança deles. “Mas, mãe, isso vai demorar muito, por enquanto eu só vou criar baratas, porque não vou ter tempo nem saco pra limpar tudo isso” — eu havia respondido. “Ora, contrata uma faxineira, você estudou para quê?” Sim, minha mãe é bastante simples.

— Fala, Bruno! Como vai? — disse um dos rapazes. Esse era bem-apessoado, parecia um cantor de Axé, e as mulheres da mesa ao lado se calaram ao vê-lo chegar. Já o irmão era bem diferente, lembrava um pouco o Ronaldinho Gaúcho, só que fora de forma e com óculos de grau. Os dois tinham pouco em comum.

— Tudo beleza, cara. E aí, Rique, como vai? — Cumprimentei os dois irmãos. — Podem sentar aqui para a gente conversar. Esse é o Sérgio, do outro quarto que te falei.

Apontei para um Sérgio irritado e mal-encarado, mas do nada o humor dele mudou. Sorriu de forma pode-se dizer, encantadora e estendeu a mão aos recém-chegados.

— Olá, eu sou o Paulo Sérgio.

— Oi, Paulo Sérgio. Eu sou o Paulo Vítor e esse é o meu irmão Paulo Henrique. É muita coincidência, cara, não acha? — ele falou para mim. — Você sabia disso?

Claro que eu sabia do fato, mas, como queria surpreendê-los, fingi que não sabia.

— Vocês se identificam todos pelo segundo nome, como eu iria imaginar? É muito interessante. Se eu quisesse juntar, de propósito, uma galera com o mesmo nome, acho que nunca conseguiria.

— Nossa, isso deve ser um sinal! — Um Sérgio mais sorridente colocou a mão no peito ao dizer isso.

— Da minha parte, podem esquecer o Paulo — disse o outro rapaz, o Paulo Henrique. — Não estou acostumado com ele.

— E da minha também. Bom, já nos conhecemos. Agora vamos ver quais serão as regras da nossa “boa convivência”. — Paulo Vítor fez “aspas” com as mãos. Ele era prático e rápido, assim como eu.

As regras que combinamos eram comuns, eu tinha pesquisado com conhecidos e na internet mesmo. Eles se mudaram e embora eu estivesse receoso quanto à mudança na minha rotina e a convivência com quase desconhecidos, tudo corria melhor do que eu imaginava. Todos saíam de casa cedo, bem antes de mim, e passavam o dia com seus trabalhos e estudos. Em casa revezávamos com o preparo do café da manhã e o jantar, já que ninguém almoçava em casa, e cada um cuidava da sua roupa. Nas segundas e sextas-feiras, uma diarista vinha limpar o apartamento, mas nós não acumulávamos muita bagunça. Nos finais de semana todos iam para suas casas, viagens, baladas. E o dinheirinho finalmente começou a chegar. Minha namorada não gostou de não poder dormir comigo durante a semana. Estávamos juntos há mais de três anos e ela já pensava em redecorar o apartamento. Eu não.

Sérgio trouxe seu “colchobox” favorito, um armário, apesar de já ter um grande no quarto, televisão e vários eletrônicos. Eu disse a ele que cobraria uma taxa extra por causa do aumento na conta de luz e ele disse que pagaria pelo seu conforto. Mas, na verdade, já no segundo mês ele começou a atrasar o pagamento do aluguel. E inventava desculpas. Ele era aquele tipo de pessoa que sabe usar muito bem as palavras. Podia ser extremamente simpático, bom conselheiro e podia ser grosso ou sarcástico quando queria. Eu o admirava e também o odiava por isso. Era moreno, de baixa estatura, com músculos vistosos e definidos, usava roupas caras e curtia praia, shoppings, baladas. Estudava Direito na mesma turma que a minha namorada.

Já os gêmeos eram um caso interessante. Para início de conversa, eles não eram gêmeos, nem sequer parecidos. Paulo Henrique, o patinho feio da família, tinha 23 anos, estudava uma engenharia qualquer na federal e a ela dedicava todo o seu tempo. Era um tipo magro, mas de barriga saliente, cabelo desleixado, malvestido, óculos de grau, dentes proeminentes com aparelho. Simpático e inteligente, é verdade, mas se eu fosse uma mulher, ou mesmo gay como o Sérgio, jamais pegaria. Ou talvez, se estivesse matando cachorro a grito. Ele fazia um estágio e recebia algumas centenas de reais que mal davam para a comida e o transporte.

Paulo Vítor, o cisne da família, era o contrário. Moreno, malhado e popular, usava bermuda, óculos escuros e regata quando não estava vestido para o trabalho. Apesar de ser três anos mais novo que o irmão, ele tinha um emprego formal, estudava numa faculdade particular à noite e ainda tinha tempo para malhar, namorar, festejar, conversar. Era ele quem pagava o aluguel dos dois, era o dono do carro e praticamente bancava o irmão mais velho. Sem cerimônia, ele pegava a carteira do Henrique para colocar dinheiro e camisinha, além de levá-lo ao dentista. Mas eles se amavam, nunca vi irmãos tão unidos.

Observar esses detalhes da vida dos meus inquilinos era meu divertimento secreto, quase um hobby. Como não estudava mais, eu tinha algum tempo livre e uma rotina bem tranquila. E assim se passaram dois meses e meio.

Numa bela manhã de sol, dois meses e meio depois que Vítor, Serginho e Henrique se mudaram para o meu apartamento, eu recebi a ligação de alguém que dizia estar precisando de um quarto naquele bairro. Que podia ser dividido. Que tinha que ser logo. Eu apenas disse que não tinha mais vaga e saí para o trabalho sem pensar mais naquilo. Depois do almoço, eu descansava no charmoso restaurante onde ia quase todos os dias quando um rapaz veio falar comigo. Pediu desculpas por me incomodar, eu disse tudo bem, ele pediu desculpas novamente e começou a falar:

— Então, você é o Bruno, não é? Então, eu te liguei hoje cedo a respeito do quarto. — Ele falava assim, com pausas depois do “então”.

— Cara, como eu te disse, não há mais vagas. — Me senti o gerente de um grande hotel. Pedi que ele se sentasse.

— Poxa, me disseram que seu apartamento tem quatro quartos e eu precisava muito de um lugar para ficar. Está difícil conciliar o trabalho e o curso, por causa do tempo do transporte. E está tão perto...

— Sim, mas o quarto quarto — rimos quando falei isso — é o meu, e o pessoal que está lá não pretende dividir. Não é exatamente uma república, entende? Somos um grupo de amigos que divide as despesas e eles me pagam o aluguel.

— Poxa... Sim, eu entendo. Então..., mas será que você não conhece, tipo, um lugar por aqui que tenha uma vaga para mim? Pode ser qualquer uma, de qualquer jeito...

Visualizei meu apartamento mentalmente e me veio uma ideia maluca. Eu não sabia por que estava preocupado com o curso e o emprego daquele desconhecido, não sabia de onde ele tinha tirado que eu alugava quartos nem de onde me conhecia. Mas não pensei nisso na hora, apenas tive uma ideia e achei interessante.

— Olha, meu apartamento é daqueles antigos, com área de serviços grande e dependência de empregada nos fundos. Não sei se serve para você, mas é o que tenho.

— E é mais barato do que um quarto normal, né?! — O jovem ficou feliz com o sucesso da abordagem e sorriu, animado. Num ímpeto, ele pegou minha mão, que não estava estendida, e apertou, me deixando constrangido. Ao notar a gafe, ele ficou sem graça e soltou minha mão, mas eu percebi que tinha sido rude e me corrigi. Ambos atrapalhados, nos cumprimentamos novamente.

— Seria bom se você visse antes, pois, apesar de estar tudo limpo e organizado, é bem diferente dos outros quartos. Muito pequeno, miúdo mesmo, praticamente uma despensa — falei ainda segurando os dedos frios do rapaz.

— Claro que eu posso ver antes, mas posso te adiantar que na situação em que estou, eu alugaria até um sofá se necessário, desde que fosse nesse bairro e que eu pudesse pagar. Não é por muito tempo.

— Bom... — Fiz uma pausa para raciocinar melhor. Será que seria uma boa ideia colocar alguém para dormir na área de serviços? Eu estava tão necessitado de dinheiro assim ou estava fazendo uma boa ação para o rapaz que não tinha onde morar? Decidi. — Você pode ir lá hoje à tarde, depois das cinco? Aí a gente conversa melhor, porque agora eu preciso voltar ao trabalho.

— Pode ser sim, eu também tenho que voltar pra cozinha. Eu só posso depois das seis, pode ser? Ah, eu te ligo. — Ele falou atropelando as palavras e eu fiquei tonto pensando.

Ele disse “cozinha”? Ele disse “eu te ligo”? Claro, ele tinha o meu número, já tinha ligado uma vez, mas foi a palavra cozinha que me intrigou. Nos levantamos e, sem parar de nos olhar, fomos nos afastando, eu em direção à rua e ele em direção aos fundos do restaurante. Claro, a cozinha. Ele trabalhava ali, então foi ali que ouviu falar sobre mim. Era meu lugar favorito para almoçar e eu conversava com os atendentes.

Fui caminhando até meu local de trabalho perdido em pensamentos como um maluco. O que estaria acontecendo comigo? Cheguei rápido. Era tudo tão perto, por isso aquele espaço era tão disputado. Entrar e sair daquele centro é que era difícil, o trânsito era caótico e estressante. E caro. Mamãe tinha razão, era melhor manter aquele apartamento, um trambolho, é verdade, mas um trambolho bem localizado. Localização é tudo numa cidade grande.

O resto do dia passou normal. Ou quase. Enquanto me distraía no trabalho, eu pensava no motivo pelo qual eu tinha cedido ao apelo de um desconhecido e pensado em alugar o quartinho dos fundos. Tudo bem que ele era cozinheiro no meu restaurante favorito, mas isso não era motivo para levá-lo para casa. Pensei, inclusive, em ligar para ele e dizer que o quartinho seria para a empregada que iria começar o trabalho na próxima semana. Que desculpa mais idiota, ainda mais idiota do que alugar o quarto da empregada!

— Ah, dane-se! O apartamento é meu e eu posso alugar o que eu quiser, até mesmo o sofá da sala — falei para mim mesmo.

Os outros não iriam gostar nadinha. Pensei na cara feia do Sérgio e sorri involuntariamente. Ou talvez ele gostasse, já que o dito cujo, cujo nome eu me esqueci de perguntar, era bem-apessoado. Bem bonito, na verdade, mas, pensando bem, o Sérgio preferia morenos mais sarados e o cozinheiro era muito branquinho.

Cinco e dez eu cheguei em casa. Me preocupei com a possibilidade de o jovem chamar no interfone enquanto eu estivesse no banho, mas depois ri da minha insanidade. Ele iria me ligar, foi o que ele disse; além disso, ele não devia saber exatamente onde eu morava. Ou talvez soubesse, já que sabia o meu número. Levei o celular para o banheiro e tomei um banho rápido. Ao me ver no espelho, eu tomei um susto: minha barba estava muito espessa, e meu cabelo, bastante crescido. Pus meus óculos de grau só para conferir: sim, eu estava a cara do Renato Russo!

Me vesti e fui para a sala esperar. Deu dezoito horas, ele não apareceu, e eu comecei a ficar impaciente. Obviamente, não era normal eu ficar naquele estado, mas não dei atenção a esse fato no momento. Só olhava as horas e o celular e as horas no celular. Às dezoito e dezoito, ele ligou. Ri e pensei se não eram coincidências demais na minha vida. Sabia que era ele, pois já tinha conferido o número que tinha ligado pela manhã. No segundo toque, eu atendi.

— Oi, Bruno, é o Eric. É sobre o quarto, eu falei com você hoje no restaurante — ele disse pensando, talvez, que eu já tivesse me esquecido da sua pessoa. Não tinha.

— Ah, sim, Eric. — Yes, não precisei perguntar o nome dele. — Pode vir, já estou em casa. Você sabe onde eu moro?

— Não, sei apenas por alto. Por isso eu te liguei.

— Bem, anota aí então. — Passei o endereço nos mínimos detalhes, dei instruções sobre como ele deveria subir, e avisei na portaria.

Doze minutos depois, ele chegou. Estava de calça, camiseta preta e tênis, bem simples. E com cara de cansaço. Ele devia ter mesmo uma vida bastante corrida.

— Olá, boa noite. Desculpa se eu demorei.

— Boa noite, tudo bem. — Cumprimentei-o estendendo a mão.

Eric entrou olhando o ambiente com interesse e timidez.

— Que sala grande — comentou.

— Pois é, mas vamos ver o local que eu te falei. Como eu disse, é um quarto pequeno, simples e fica nos fundos. Venha.

Fechei a porta e fui para o interior do apartamento; Eric me acompanhava em silêncio. Da sala, passamos para a sala de jantar, de onde saía um corredor que levava aos quartos, que eram quatro, além do banheiro social. Ali também tinha o lavabo e a porta que dava na cozinha. Entramos por ela e o Eric olhou, admirado. Ele parecia apreciar uma boa cozinha.

Pouco tempo antes de se mudarem, meus pais reformaram a cozinha. Era o único cômodo moderno da casa; os demais tinham móveis antigos, daqueles que encontramos em feiras de antiguidades, nem todos em suas melhores condições.

Da cozinha, saímos para a área de serviços, que era bem espaçosa, mas quase não tinha ventilação. E ali estava o tal quarto, um cubículo escuro com um banheiro minúsculo. Me senti um tanto constrangido em mostrar, mas era tarde demais para desistir.

— Tem uma cama nova. — Eric apontou a única coisa boa que tinha ali, uma cama box de solteiro, pouco usada. Na verdade, ela estava na suíte que ficou para o Sérgio, mas não era boa o suficiente para o moço e ele trouxe a cama dele.

— Ah, sim, é nova mesmo. O que achou?

— Então, o quarto não é ruim. Na verdade, é melhor do que eu esperava. A única coisa que me incomoda é a falta de ventilação, é que sou alérgico a mofo, essas coisas — ele disse sem graça.

Eu não respondi. Tudo bem que aquele quarto não estava à altura de nenhum trabalhador, mas achei meio fresco da parte dele reclamar quando estava tão desesperado por um quarto, fosse qual fosse.

— E o preço? — Eric sorriu e levantou uma sobrancelha.

Eu ainda não tinha pensado nesse detalhe, então chutei um valor bem menor do que o que os outros rapazes me pagavam. Eric concordou, confirmando com a cabeça.

— Quando posso vir dormir? — ele perguntou.

— Vir dormir? — Estranhei a pergunta, mas me recuperei rápido e respondi. — Amanhã, se você quiser. Vou falar com os outros hoje, quando chegarem.

— Ok, então. E como funciona em relação a comida, horários, limpeza, chaves...?

— Ah, sim, já ia me esquecendo. — Peguei um papel que estava num balcão da cozinha e entreguei a ele. Era a nossa cartilha.

Eric leu rapidamente e já ia me devolver quando o contive.

— Esse papel fica com você, aqui todo mundo tem um desses. — Sorri e ele retribuiu.

Combinamos o pagamento e ele se despediu menos animado que quando chegou. Algo o tinha desagradado, mas eu não podia fazer nada. Também tinha uma tarefa desagradável pela frente, que seria conversar com meus outros “inquilinos”.

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15 de Abril de 2019 às 00:38 0 Denunciar Insira 120
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