De Você Seguir história

sweet-mary Mary

Amar é mais difícil. Não se limita a normas e regimentos de "como deve ser". É errar, reconhecer a própria vulnerabilidade, as fraquezas da alma, as feridas mal curadas, é mais do que tudo, entrega. É sentir as gotas das suas lágrimas caindo nos meus lábios. É te olhar, tão diferente de mim, e querer conhecer esse mundinho, antes de recriminar ou ridicularizar, aprender a respeitar o que é importante para você e seria para mim, te abraçar e te sentir como se você fosse a minha estrela preferida de todo o céu. É tudo, tudo que estou disposta a sentir.


Não-ficção Todo o público.

#sentimentos #inspiração #escritora-mary
Conto
3
3926 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

De Você

Ultimamente eu te olho. Meu coração fica um pouco apertado, não sei explicar, não de um modo lírico e envolvente, só sei que dói.

Tudo mudou tão depressa e eu me senti baratinada no olho do furacão, procurando me encontrar e me entender, à medida que me perdia de um raciocínio mais lógico.

Oh, eu me sinto terrível por tudo de negativo que pensei a seu respeito, pelo que escrevi motivada pelo ciúme — não de você, mas da projeção de um trauma antigo que vi em sua figura uma ameaça — e não te dei sequer a chance de mostrar o que você poderia fazer, que você não era um pesadelo materializado à minha frente, mas alguém, alguém que merece respeito, uma simples chance, uma que seja, porque não deixa de ser uma tentativa.

Se eu respirar mais profundamente, posso sentir que se não disser agora, não direi nunca mais ou não com essas palavras. E elas são as únicas que posso te oferecer agora.

Eu não te odeio.

Ódio é um sentimento muito forte e franqueza cai bem para a oportunidade: você não me deu quaisquer motivos para tal.

Desculpa a minha resistência a mudanças, a tudo que transforma o eixo do meu mundinho, desarruma minha bagunça, me tira daquela zona de conforto.

Desculpa não te receber com carinho e não compreender — não tão depressa — que certas situações são novas para você também, que você ter confiança em si não necessariamente quer dizer que "você se acha" porque essa expressão soa os tempos de escola e nós já crescemos faz tempo. Se você não confiar em você e não souber se defender, as pessoas te farão de chão.

Desculpa não te enxergar, em partes eu fui infantil e corri, corri de medo, como sempre fiz, porque queria me sentir segura sob o véu da negação.

Desculpa por tudo.

O que aconteceu no passado, no que tange a feridas que não se curam, não foi culpa sua, e eu não posso transferir minhas dores para você, se não as ocasionou. É desonesto e fere princípios morais, éticos, fere a alma. Seria covardia causar sofrimento a você como forma de punir quem me magoou e perpetuar um ciclo nefasto envolto de egocentrismo e desumanidade. Mais adiante, se você não tivesse discernimento, feriria alguém que descontaria em outro alguém, até sermos todos retalhos de mágoas, frágeis e tão perigosos, tão cortantes quanto um grito de repúdio.

É hora de acionar a humildade de admitir que não superei meus traumas, apenas me escondi deles porque me cansei de chorar e buscar soluções que não existem ou confiar numa justiça que nem se fará. Seria uma longa história que não vem ao caso, porém atinei que bem lá no fundo tenho vontade de te conhecer melhor e esse desejo é um ímã que me atrai até você.

Tentei me colocar no seu lugar. Não é difícil. Não somos tão diferentes. Você também gosta das palavras, presumo que até mais do que eu porque as respira com uma maturidade que eu ainda não alcancei.

Ora, não queria que você se sentisse menor por minha causa, menos capaz, ou no caminho errado, não queria te magoar, porque sei o quanto é horrível quando nos atacam e não mensuram o dano que causam.

Queria encontrar algum defeito para te diminuir, te odiar, porque é o que pessoas imaturas fazem, a postura de quem sente medo, queria fazer com você o que fazem comigo. Descontar, seria uma expressão facilitadora, sim?

Estive de mãos atadas, buscando algo para aliviar a dor, engolir aquele choro que se formou no alto da garganta e eu contive porque não tinha ninguém para me abraçar quando eu queria que alguém segurasse meu rosto e me beijasse a testa me prometendo que tudo ficaria bem.

Que fosse uma ilusão, ora!

O abraço é o casaco que aquece dois corações.

Jurei que a raiva seria um escudo para bloquear o espanto com o fato de muitas coisas jamais tornarão a ser como eram. Porque eu gostava disso. Do que viverá agora na lembrança.

Fosse você ou não, tudo iria mudar. Se não fosse aquele dia, seria em algum outro. Eu sofreria da mesma forma ou até mais. Eu sofreria, inevitavelmente. A partir do momento em que você entrega seu coração, é o risco que se corre. Apesar da tristeza que às vezes me toca fundo, vale a pena.

Tenho as minhas memórias. Tudo bem, elas estão seguras e sou grata. Estão escritas, documentadas, sentidas. Estão por toda a parte. E são. São um bom pretexto para evocar o motivo de seguir em frente.

Eu escolho amar.

Amar é mais difícil. Não se limita a normas e regimentos de "como deve ser". É errar, reconhecer a própria vulnerabilidade, as fraquezas da alma, as feridas mal curadas, é mais do que tudo, entrega. É sentir as gotas das suas lágrimas caindo nos meus lábios. É te olhar, tão diferente de mim, e querer conhecer esse mundinho, antes de recriminar ou ridicularizar, aprender a respeitar o que é importante para você e seria para mim, te abraçar e te sentir como se você fosse a minha estrela preferida de todo o céu. É tudo, tudo que estou disposta a sentir. Porque exige de mim a coragem que não tenho. E viver com medo me definia quando eu era garota, porque era a desculpa que colava: correr sempre e me esconder.

Até o dia em que não há onde nem por que se esconder. E então os olhares se firmam e as mãos se dão. E minhas mentiras tolas caem por terra, minha pose de menina durona, minhas tentativas falhas de te odiar, fingir que você não existe.

Por quê?

Odiar é mais simples, proferir palavras amargas com o intuito de machucar quem as ouve, ignorar suas tentativas e virtudes, suas pegadas na areia, seus argumentos e sentimentos, seu jeito de ser e viver, projetar um monstro de mentirinha e me fechar na bolhinha, na expectativa de que nenhum alfinete me espete, porque o ódio é o conforto das almas perdidas no próprio egoísmo.

E eu não quero me tornar uma pessoa incapaz de amar, de sentir a dor do outro, feliz por uma conquista, com um simples sorriso. Quero, mesmo já tendo passado por tantas dores que quebraram minha confiança, ser capaz de abrir o coração, para que meus olhos enxerguem o que de melhor há em cada um que cruzar meu caminho.

Ainda sinto medo desse amanhã porque ele é uma névoa que me rouba a paz, mas é muito bom deitar a cabeça no travesseiro e saber que hoje vou me deitar com o coração mais leve porque escrevi aquilo que estava atulhado no meu peito junto a todo choro que talvez se sinta inútil por permanecer guardado.

Eu não te odeio.

Eu. Não. Te. Odeio.

Sei que se me esforçar de verdade, entenderei que vivo uma fase que, admito, não era o que eu planejava ou sonhava ou minimamente ansiava, e ela tem algo a ensinar, pelo qual é preciso passar, para aguçar a compreensão.

Odiaria abrir por pura infantilidade uma ferida no seu coração porque, pombas, palavras doem. Elas podem curar, sei disso, mas quando destroem sonhos, quanto tempo leva para se recuperar a confiança que se quebrou? O amor por algo que te fez chegar mais longe do que você sonhou? Ou te fez pensar que se enganou?

Quero te conhecer. Não sei se é cedo demais para dizer “me acostumar”, no entanto pretendo me esforçar para te olhar com o coração e não comparar aquilo que já foi com o que me restou. Acredite em mim, só preciso de um tempo. Meu coração precisa de um tempo. Não físico e cronometrado. Um tempo meu. E espaço, para que eu me sinta confortável e não minta.

Insisto, nada mais do que tempo, ainda que ele corra contra mim e contra você, ainda que eu possa pedir aquilo que nem tenho.

Se o tempo é capaz de atenuar os efeitos dos danos que nos causam, também nos traz quem pode nos curar e nos ensina a deixar ir quem já não pode mais ficar.

Você deixou em cada pessoinha um pouquinho de si e levou um tiquinho delas também? Seu olhar se demora em algum ponto do horizonte? Tem saudades incuráveis? Coleciona corações e lugares? E quando você sonha, se permite abrir as asas ou tem medo de voar? Você acredita que sonhar é colorir o mundo com as cores da esperança?

Tudo bem, não posso me exceder, são perguntas demais... Ou não?

Alguém que eu conheci antes de você me fez acreditar que eu tinha algo a dizer com a minha escrita. Ela me lembrou do meu par de asas escondido atrás dos sonhos que eu queria abandonar por conta de palavras que a mim dirigiram com o objetivo de me aprisionar, mesmo eu sendo tão desengonçada. Por pouco não a ignorei. Temi, sim, sentir. Porque eu sofro toda vez que alguém que se vai. Dói demais me refazer, transformar o olhar, colecionar mais uma saudade. Ainda mais, creio, é o vazio de não ter saudades de nada, de perder a capacidade de se doar, receando, como for, porque são lágrimas preciosas, de quem se arrisca, de quem luta para viver, para fazer valer até às palavras que se desdobram e me entregam, aqui, no escuro de um céu cheio de estrelas distantes, como estou dos meus sonhos...

Boa noite! E tudo bem se você quiser me abraçar. Pode ser que eu queira. E que eu não te solte. E que seu sorriso me faça sorrir. E que ao fechar os olhos, eu veja estrelas!

13 de Abril de 2019 às 06:14 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~