Folhetim Extraordinário: O Ouro dos Tolos Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Brasil, 1861. O naufrágio de um navio inglês na costa do país aproxima os dois impérios da guerra. O embaixador Christie exige a devolução da carga. Um grupo formado por uma Senhora, um herói guarani, um míope tanto físico quanto moral e um defunto autor acaba encarregado de resolver a crise localizando a carga roubada. Eles cumprirão seu objetivo, ou serão eles mesmos tentados por seus demônios?


Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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I

Conto vencedor do 2o. Concurso de Ficção Histórica do perfil FiccaoHistoricaBR do Wattpad - "Brasil Império".


(Grato à equipe do perfil FiccaoHistoricaBR do Wattpad por gentilmente ter produzido a capa).


Folhetim Extraordinário: O Ouro dos Tolos


I


Acordou com o insistente badalar dos sinos.

Não era lá homem muito crente a ponto do som da igreja atraí-lo de antemão, mas o alto repicar cortava a noite – além do clamor das ruas que logo se assomou em seus ouvidos. Sentou-se na cama esfregando os olhos, pijama ensopado de suor, o travesseiro atirado ao chão revelando que a consciência atribulada não lhe dava descanso nem durante o sono. O brilho alaranjado que enxergou pela janela serviu para lhe perturbar ainda mais os nervos.

O incêndio foi confirmado pelos tons bruxuleantes do clarão projetado sobre a parede de fora, unido ao odor de queimado invadindo o quarto. Os sinos chamavam pessoas com baldes d'água ou qualquer coisa que pudesse combater as chamas, o morador conseguindo visualizar o movimento dos vizinhos sem nem precisar debruçar-se à janela.

O povoado não era grande o suficiente para que não pudesse determinar a direção do fogo – julgando se alastrar pelas imediações da casa do caixeiro Antônio. Ao menos a igreja estava intacta, poupando a imagem de Santa Vitória vinda da Europa pela qual o povo dali tinha tanta devoção...

Quando ia se levantar e calçar os tamancos para ao menos espreitar o combate ao incêndio pela janela, o movimento que notou a poucos passos da cama fê-lo realmente considerar tornar-se homem religioso.

A figura devia ter mais de dois metros de altura, metade visível e metade oculta pelas sombras. Um braço e metade do tronco à mostra revelavam-se puro músculo, e só não achou tratar-se de uma estátua de mármore pelo tom vermelho da pele exposto sob o brilho do fogo vindo da rua. Uma fresta de luz lhe acendia parte do rosto, mostrando um semblante fechado e longos cabelos negros, as feições cobertas por pintura de guerra que parecia sangue. Já tivera contato com os índios guaranis da região para identificar um legítimo guerreiro nativo, e estava exatamente diante de um – os meros punhos do dobro do tamanho dos seus sequer precisando de armas para ameaçá-lo.

O índio permaneceu parado, olhar perdido em algum ponto entre a cama e a parede atrás dela, de onde pendia um crucifixo que agora mal poderia valer pelo morador. O silêncio dos instantes seguintes foi apavorante, quebrado aqui e ali ainda pelos sinos e os gritos desencontrados distribuindo ordens à improvisada brigada de incêndio – quando uma voz calma e segura, de mulher, manifestou-se, vinda de algum canto da penumbra daquele mesmo quarto:

– Eu não testaria a paciência de Peri. Como sucessor de Tamandaré, os deuses da mata o tornaram imortal para que protegesse o mundo da inundação de maldade dos homens. Vem desempenhando esse trabalho há trezentos anos, e se é capaz de arrancar uma palmeira do solo com as próprias mãos... Não quero saber o que faria com você.

Os passos dos saltos altos reverberaram pelo assoalho até a silhueta da jovem ali presente se revelar – tão deslumbrante e inacreditável quanto se saída de algum sonho que, ao ser acordado pelos sinos, tornara-se realidade. Os cabelos castanhos estavam presos num penteado que lembrava uma coroa, enquanto o comprido vestido rendado remetia a uma dama da própria Corte, mãos revestidas por luvas e trazendo, numa delas, leque adornado com o que pôde jurar serem pequenas safiras. Abanou-se, colocando-se de pé diante da cama, ao lado do índio; o belo rosto logo se tornando inquisitivo. Não era um anjo ali descido para salvá-lo, afinal de contas.

– O querem de mim? – o homem na cama indagou.

– Você se apoderou de algo que não é seu, senhor Marães – a mulher respondeu severa. – Peri seguiu seu rastro da praia até aqui. Pode achar ter tirado a sorte grande, mas muitos estão procurando o fruto de seu roubo. Pessoas poderosas. É melhor que entregue a si e a carga antes que a situação piore. Acredite, esta ainda é uma missão diplomática...

– Como podem exigir alguma coisa, invadindo assim minha casa? – os olhos do morador se arregalaram. – Não roubei nada! Não sei do que me acusam!

– Ele está mentindo – uma nova voz sentenciou, agora masculina, gerando a terrível conclusão de o número de intrusos conjurados dentro daquele quarto ser ilimitado.

Além da fala, a terceira pessoa denunciou-se também por um reflexo, gerado por vidro ou algo espelhado... e, quando caminhou para fora das trevas, a luneta em sua mão mostrou-se a fonte do lampejo. Presa ao paletó do indivíduo por um cordão, mais parecendo um monóculo, a lente reluzia em cores estranhas, passando do verde ao vermelho enquanto seu dono exibia as feições morenas e magras numa expressão que denotava esperteza, porém misturada a algum tipo estranho de ingenuidade. Num gracejo, fixou a luneta ao olho novamente.

– Simplício consegue perceber a falsidade como ninguém, não se engane por seu jeito tolo... – a dama de vestido de gala afirmou astuta. – Não percamos mais tempo, senhor Marães. O carregamento, onde está?

– Ora, mandem o índio quebrar alguns dedos dele para que abra o bico! – um quarto sujeito, de tom áspero e ranzinza, pronunciou-se na penumbra atrás dos demais, seu vulto parcamente visível. – A via diplomática esgotou-se. O fogo não vai distrair a gente do povoado por mais muito tempo. Tão bondosos vocês... E pensar que retornei à vida para isto!

Dando um passo adiante, o homem de chapéu, colete e casaco mostrou sua face de bigodes argutos e ligeiro cavanhaque; os quais, apesar do tom grisalho, mostravam junto com a pele corada e os olhos atentos que o indivíduo, fosse lá o sentido de sua declaração, estava mesmo bem vivo. Bateu uma bengala no chão com força, sem ligar para o barulho atrair ou não os vizinhos. Sua petulância aparentou apenas dar mais urgência à mulher da Corte que, como visível líder do grupo, já perdia controle da situação:

– Onde está a carga? Fale!

Ele não aturaria mais aquela conversa, tampouco as ameaças. Mesmo já tendo deixado seu auge físico para trás, ainda era forte e, quando necessário, rápido. Por mais que o índio diante da cama mais parecesse um gigante entalhado em madeira, não devia ter a pele fechada. Decerto não resistiria à fúria de um bom balaço...

O braço direito agiu. Estendendo-o para baixo do estrado da cama, tateou o cabo da pistola nele escondida com a ponta dos dedos, enfiado entre as ripas cheias de farpas. Já estava, como de costume, carregada – e não descuidaria daquele hábito justo no momento de sua vida em que tinha algo tão importante a proteger.

Ergueu a arma, arrancando olhares surpresos dos invasores. Sem pestanejar, mirou-a e disparou.

O tempo pareceu congelar, sua visão obstruída pela fumaça do tiro, antes que esta se dispersasse e voltasse a enxergar...

12 de Abril de 2019 às 16:21 0 Denunciar Insira 2
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