A Garota que Veio de Longe Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Matheus nunca esteve tão feliz. Sempre triste e solitário, conseguiu finalmente uma namorada. Poliana foi a melhor pessoa que poderia ter entrado em sua vida. Mas quando a jovem marcou um encontro aquela tarde afirmando precisar conversar sério com o rapaz, mil temores brotaram em sua cabeça. Do que ela poderia querer falar? E por que notou as ruas tão desertas até a praça em que combinaram o encontro?


Ficção adolescente Todo o público.

#romance #suspense #love #sci-fi #nerd #amor #mistério #paixão #esquisita #ficção-científica
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Capítulo Único

Conto originalmente publicado na antologia "Contatos Imediatos de Primeiro Grau", da Darda Editora.


Imagem de capa por Ben von Matterhorn.


A Garota Que Veio de Longe


Lá estava ela, sentada sobre o encosto do banco, olhar perdido e sonhador como sempre – balançando os pés com sandálias.

Ele esperava a semana toda para encontrá-la. Sair do ambiente tenso da escola, onde todos o rotulavam por "sair com a esquisita" ou chamavam-no de "namorado da doida". Não se incomodava com aqueles papos, visto ter tentado arranjar uma namorada durante todo o colegial e andar nas nuvens, há meses, por ter encontrado alguém que o aceitava como era. Sua preocupação se resumia a como ela encarava todo o escárnio.

A julgar pelo lindo sorriso que abriu ao vê-lo, Poliana não parecia lá muito se importar. Aliás, era difícil encontrar alguma coisa que realmente a perturbasse. Perder uma raid no MOBA que tanto jogavam fosse talvez uma das poucas. Namorar Matheus, sabendo que ele nunca ficara com alguém até o terceiro ano e não possuía experiência alguma com garotas, não era uma delas – para felicidade do rapaz.

Tudo começara de súbito, Poliana caindo em sua vida não de paraquedas, mas de skysurf, considerando toda a surpresa e sensação que causara. A aluna transferida para sua escola no início daquele ano, vinda não se sabe de onde ao certo, mas sem dúvida um lugar longe – provavelmente outro estado ou no mínimo uma cidade distante, embora não apresentasse qualquer sotaque que pudesse notar. Acabou, como de praxe, isolada na sala, ingressando tarde demais para ser absorvida pelas panelinhas já estabelecidas desde o primeiro colegial e que agora só falavam em viagens e formatura. A mesma situação de Matheus – não por escolha própria. OK, ele sempre fora do grupo dos nerds, tanto em questão de nota quanto gostos, mas não era um grupo que permitisse muita sociabilidade, muito menos chance com as meninas. Até que Poliana apareceu.

Uma garota que jogava on-line, assistia a animes e juntava dinheiro todo ano para ir a feiras geeks. Bom demais para ser verdade, principalmente depois que ela aceitou o convite de Matheus para levá-la ao cinema – não sem árdua campanha anterior, motivada por seus parceiros, para que criasse coragem em convidá-la. Nesse exato encontro, rolou o primeiro beijo. E desde então só vinham ficando mais unidos e felizes.

Além de parecida consigo em gostos e jeito de ser, Matheus a achava a mais linda garota que um dia poderia encontrar. Um pouco magra demais, talvez – o que no início até fizera o menino se questionar se ela tinha anorexia; deixando de se preocupar quando Poliana jurou, entre risos, que não –, mas extremamente encantadora com seus cabelos encaracolados, nariz arrebitado e grandes olhos azuis, tornados ainda maiores do que eram pelas lentes dos óculos que usava para compensar sua acentuada miopia.

Aos fins de semana, quando não estavam no chat ou jogando on-line, Matheus a encontrava naquela mesma praça a poucos quarteirões de sua casa, não chegando a se incomodar com as insistentes recusas da namorada em levá-lo à sua residência e apresentar-lhe sua família; algo que, todavia, começava a irritar os pais do garoto. Isso vinha, inclusive, tornando mais difícil deixá-lo sair sem brigas para ver a amada – embora naquele sábado os pais estivessem ocupados demais com qualquer coisa ao vivo passando na TV quando se despediu, talvez um jogo da Seleção do qual não estivesse sabendo. Não era nem um pouco interessado em futebol, afinal de contas; outra coisa que o distinguia dos outros adolescentes...

Isso também explicaria, aliás, a praça completamente vazia àquele momento, Poliana sendo a única pessoa ali além dele – considerando que o local sempre estava abarrotado de crianças, barraquinhas de lanche, sorveteiros e gente aproveitando a folga.

Mais paz e tranquilidade ao casal, o que agradou o rapaz – longe de achar aquilo estranho.

Chegando ao banco, subiu e sentou-se no encosto ao lado da namorada, a mão direita avançando para segurar a dela. Poliana deixou; no entanto, mesmo com seu sorriso cheio de ternura, estava diferente aquele dia. Seu corpo parecia tenso, meio encolhido, e evitava fitar Matheus nos olhos. Clássico jeito de alguém que está escondendo alguma coisa ou então quer falar algo importante e não tem coragem.

Começando a tremer e a suar, o garoto já esperava o pior. Por que ela estaria daquele jeito? Iria lhe dar um fora? Romper o namoro? Teria se cansado dele? Já vinha achando que o sonho que viviam era algo grandioso demais para umnerd como ele. Sempre temera a chegada daquele momento, quando seria empurrado de volta à sua vidinha solitária e inútil.

A hesitação inicial da menina passou, passando a segurar com ambas as mãos os dedos de Matheus. Este quase fechou os olhos, preparando-se para um momento "eu não queria magoar você, mas...", até que os lábios da namorada se abriram, e a voz veio:

– Má, lembra quando você e seus pais perguntaram da minha família?

Ele soltou exasperado o ar dos pulmões, assimilando que a ameaça não era tão grande quanto julgara. Sim, ele se lembrava; embora não achasse ter dito diretamente a Poliana, vez alguma, a respeito de seus pais também indagarem sobre as origens dela. Será que ela havia presumido? Não era boba, disso ele tinha certeza.

– Tá, eu lembro – o garoto respondeu olhando os próprios tênis. – Até pensava em te falar de novo isso esses tempos... Sabe, eles andam bem encanados. Tenho medo de jogarem areia no nosso namoro se você continuar sem falar nada.

Ele encarou a menina por um momento, incomodado pelo alto som de sirenes causado por duas viaturas da polícia que passaram a mil pela rua, talvez perseguindo algum bandido. Quando o barulho se afastou, Poliana tinha uma sobrancelha franzida e os enormes olhos azuis focados nele de um jeito meigo e intrigante ao mesmo tempo. Sua mão direita continuava envolvida pelas mãos dela.

– Má, sabe o MOBA que a gente joga?

"Ancient Legends of the Storm", o famoso "ALES", game do gênero mais popular no momento. Quando não estavam na escola, estudando ou saindo juntos, quase sempre acabavam jogando, lutando no mesmo time.

– Sei.

– Bem... – ela olhou para suas mãos magras. – Sabe a classe dos Scouts?

Sim, os "batedores". Unidades que saíam à frente do resto do grupo para revelar o mapa e determinar a posição dos inimigos. Geralmente eram mais rápidas e possuíam ataques para atordoar os adversários, criando oportunidades de fuga. Não era uma classe da qual realmente gostasse, porém possuía suma importância no andamento de uma partida.

– Sei sim – Matheus sorriu, achando ter entendido tudo. – Você quer dizer que não quer mais jogar de Mage e quer virar Scout? Ora, isso nem é problema, mor! Eu passo a jogar de Scout também, e continuamos upando juntos!

– Não, não é isso... – Poliana corou de leve; olhar ainda abaixado e dedos tamborilando sobre os nós da mão do namorado. – E se eu te dissesse... Bem...

Ela estava enrolando muito, tornando a aumentar a preocupação do garoto; e ele já estaria suando em bicas se a praça não houvesse sido dominada pela sombra, ainda que a tarde fosse de sol até pouco antes, levando a crer que logo choveria. Ao menos um pouco de água na cachola refrescaria os miolos quentes de Matheus.

– E se eu contar que sou como uma Scout, servindo de batedora... aliás, oficial de reconhecimento, em território inimigo, obtendo dados e informações sobre o terreno antes de meu povo, que vem de muito longe, chegar?

OK, agora o cérebro do rapaz parecia recém-batido em liquidificador. Quando as perguntas que o dominaram recuperaram algum sentido, pôs-se a trabalhar em máxima velocidade. Do que ela estava falando? Era de outro país? Uma nação que invadiria o Brasil? Para aceitar namorar Matheus, só podia mesmo ser uma espiã – uma recrutadora do Estado Islâmico, quem sabe? Sentindo água se acumular em seus olhos, o garoto achou-se subitamente traído. Então ela não gostava dele de verdade? Estava consigo só para espionar, conseguir informações?

– Calma. Eu não sabia que, neste trabalho, acabaria me apaixonando por você... – ela tornou a sorrir, percebendo seu nervosismo e contribuindo para deixá-lo um pouco menos tenso. – Só saiba que, devido às circunstâncias do que está prestes a acontecer, as coisas vão ficar meio complicadas. Prometo que você e sua família ganharão salvo-conduto! E talvez nós possamos continuar juntos, de algum jeito...

- Que papo é esse?

Após continuar encarando-o durante alguns segundos, Poliana ergueu os olhos ao céu, e Matheus acompanhou-a no gesto.

Só nesse instante, o adolescente percebeu que a tarde não estava encoberta por nuvens. Sobre as ruas desertas da cidade, acima do topo dos prédios mais altos do centro, ao longe, pairavam grandes objetos redondos e achatados, cada um maior que um estádio de futebol. Deslocavam-se lentamente pelo céu, seguindo algum tipo de formação; enquanto outras dezenas – de tamanho menor devido à distância, porém crescendo conforme desciam – aproximavam-se pela atmosfera para cobrir outras áreas da cidade.

Petrificado, Matheus baixou novamente o olhar ao sentir leve calor em torno de sua mão. Uma luz esverdeada era agora gerada pelos dedos de Poliana, como se a menina tivesse uma lâmpada ou celular aceso entre suas palmas e a mão direita do rapaz; só que não havia coisa alguma.

– Não quero te assustar, mor... – ela continuou sorrindo enquanto admirava os discos voadores, seus olhos brilhando num tom esmeralda. – Mas chegou a hora de conhecer o seu sogro.

2 de Abril de 2019 às 02:12 5 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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Arthur Callahan Arthur Callahan
ojala supiera que dice
15 de Abril de 2019 às 15:00

Arthur Callahan Arthur Callahan
ojala supiera que dice
15 de Abril de 2019 às 15:00
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