A Ordem Seguir história

u15541325421554132542 Moisés Calado

Em 1890, após dez anos de paz, uma série de misteriosos assassinatos envolvendo aristocratas e prostitutas começava a retomar os arredores da gélida e sombria cidade de Blackwood, deixando sua população completamente aterrorizada. Liderados pelo arguto e erudito delegado, detetive-investigador Carl Manny, os policiais John McGregory e Peter Jaymond seguem em uma emocionante caçada aos habilidosos e peculiares assassinos, que usam de meios extremamente inesperados e nunca antes notados nos anais investigativos. Cada cena criminal fora composta de forma única e foram deixadas pistas que apenas os dotes investigativos do detetive Manny conseguem decifrar. Auxiliados pelo seu legista e o padre da cidade, os agentes da lei seguem em uma busca irrefreável, analisando cada corpo que adentra o Centro de Perícias, no intento de desvendar o que realmente impulsiona os assassinos a cometerem tão hediondas mortes. Um romance composto por muita ação, amores demasiados, misticismo, religiosidade extrema, grandiosas festas, sociedade secreta, estudos de línguas e artefatos históricos, A Ordem levará o leitor a uma viagem pelo tempo, no mundo da ficção e da realidade, mescladas a imensos toques de requinte e deleite literários.



Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os direitos reservados

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PRÓLOGO

O ano era 1890. Nas entranhas de uma úmida e densa floresta, podia-se perceber uma fuligem branca se ascender em meio a galhos retorcidos e emaranhados, que se desenvolviam reunidos entre o breu que encobria toda à plantação obscura do lugar. Cruzavam-se entre os galhos que continha frestas, tênues raios de luzes, dando forma a uma simples cabana, que adornava o cerne do hermético bosque.

Os animais que ali habitavam, faziam de velhas árvores e do chão regado, as suas moradias. Rastejando-se e fazendo de outros animais alimentos, as serpentes, impiedosamente abocanhavam os mais frágeis que as rodeavam e velozmente retornavam às suas ocas para mais um moroso ciclo de digestão.

Empunhando um machado em uma de suas mãos, um misterioso homem trajando vestes completamente negras, percorria tacitamente os arredores da imensa floresta. Ele trazia pendurado ao seu corpo um acanhado alforje que respingava um líquido viscoso e avermelhado pelas curtas tramas das costuras. Seu caminho parecia ser habitual. Assim demonstravam as anosas marcas formadas sobre a trilha.

Em frente à porta de entrada de uma velha cabana, o incógnito homem para e observa sorrateiramente por debaixo de um grande chapéu que cobria sua cabeça e grande parte do seu rosto, deixando a vista, apenas uma pequena parte de sua boca e seu queixo pontiagudo. Depois de alguns minutos observando a entrada da antiga choupana, o enigmático homem caminha até ela, e com um leve empurrão usando a parte debaixo do seu machado, ele abre à porta e adentra, virando-se rapidamente e observando algum possível bisbilhoteiro pela ínfima abertura da porta, que ia se fechando após ser empurrada vagarosamente, até ser travada e encobri-lo por completo.

Correndo rapidamente sob as sombras das árvores que tomavam todo o arredor, Katarine Emily Helmett ─ uma loira de porte médio, cabelos lisos e olhos levemente esverdeados ─ tropeçava em vários pedaços de paus e nos pequenos buracos que encontrava pelo percurso, fazendo-a se machucar a cada passo que dava. Respirando fortemente e demostrando um intenso cansaço, seu coração palpitante delatava o tamanho do desespero que a tomava e que a enfraquecia, fazendo com que seguisse se apoiando nas carrancudas árvores negras que iam desprendendo suas cascas cada vez que ela se apoiava em seus troncos. Lentamente, ela se aproximava da pequena e solitária cabana, localizada em meio a um círculo de árvores concêntricas, de folhas entrelaçadas. O velho telhado do casebre, desgastado pelas várias temporadas que havia passado ali, era protegido pelos entrelaces das folhas das árvores. Em frente à velha cabana, Katarine respirando profundamente, solta um abafado grito desesperado:

Olá, tem alguém aí?!

Observando por uma encurtada fresta de uma janela localizada na parte dianteira da cabana, grandes olhos negros se moviam da direta para à esquerda, enquanto brilhavam com a tênue luz que adentrava o curto buraco e refletia em sua visão. Fitando àquela desconhecida mulher, alguém de dentro do casebre anunciava que à moradia não estava vazia:

─ Quem está aí? ─ inquiri um misterioso homem de voz rouca.

Assustando-se com a repentina e pujante resposta advinda da choupana, Katarine o responde ainda ofegante:

─ Olá senhor, posso entrar? Preciso de ajuda!

Naquele instante nada se ouvia; nenhuma resposta. Apenas os barulhos dos galhos das árvores que roçavam um no outro devido aos intensos ventos que sopravam acima.

─ Senhor, por favor, deixe-me entrar! Preciso de ajuda, tem alguém me perseguindo! ─ persistia ela, enquanto se aproximava da porta da casa. Nenhuma resposta fora emitida durante alguns instantes. ─ Você pode me escutar?! Abra à porta, por favor!

Insistindo diante da entrada da velha choça, Katarine batia ininterruptamente e pedia em voz alta e aterrorizada que a deixasse entrar, quando, rápida e inesperadamente, à porta se abre e uma mão sob uma longa manga de um sobretudo, totalmente negro, a puxa para dentro e fecha à porta velozmente.

***


Em um pequeno Café da cidade de Blackwood, localizado nos arredores da floresta, almoçavam os policiais John McGregory, homem branco, que media mais ou menos um metro e setenta e aparentava trinta e poucos anos, sempre trajava um paletó com um colete Waist coasts; Peter Jaymond ─ seu parceiro ─, também costumava se vestir da mesma forma: um negro de um metro e setenta e cinco, trinta anos, extremamente ativo e forte.

Apesar dos crimes não serem costumeiros na cidade, estes jamais haviam perdido um suspeito em perseguição quando eram solicitados. O delegado, investigador e detetive de polícia, Carl Manny, ao contrário dos seus agentes, sempre trajava vestes consideras noturnas. Também com um e setenta e cinco de altura, o investigador de trinta e cinco anos de idade, pele clara e cabelos negros, sempre usava um paletó, luvas e um longo sobretudo preso por uma faixa que circundava sua cintura.

Papeando enquanto degustavam seus cafés, os agentes da lei tentavam encontrar uma possível solução para um recente assassinato que ocorrera na torre do relógio da Igreja de São Domingos, com uma jovem senhorita que há pouco tempo ganhara à reputação de uma das várias mulheres que faziam favores sexuais em troca de dinheiro pelos arredores da cidade.

A magnificente construção era uma das poucas catedrais que havia na região e se localizava bem nas cercanias da cidade de aparência rústica e macróbia. Blackwood tinha dentre os seus moradores, bêbados, facilmente encontrados nas várias vielas escuras que cruzavam os pontos mais remotos e as costumeiras meretrizes, que se ofereciam entre o ir e vir das carruagens. Os mais distintos e renomados cidadãos passeavam em suas suntuosas caleças, trafegando por ali rotineiramente, em busca dos frívolos prazeres da vida.

***


Anteriormente, os policiais haviam recebido uma notícia de que se ouviam histéricos gritos provindos da edificação do relógio da igreja. Imediatamente montaram em seus fortes e altivos cavalos, seguidos por algumas carruagens oficiais e, sem titubear, galoparam em direção a grande torre da Catedral, localizada a alguns quilômetros da sede da delegacia local e próxima à extensa floresta negra. Ao chegarem de fronte ao santuário, o detetive Manny logo os apronta, dissipando-os pelo derredor do ambiente e seguindo pela entrada principal:

─ Rápido, homens, devemos nos separar! John: você segue pela direita da igreja... Peter: você vai pela esquerda e eu seguirei diretamente pela entrada central até o cume da igreja! Vasculhem ao redor da Catedral, se não perceberem qualquer reação anormal aqui por baixo, encontrem-me no ápice da torre do relógio! Apressem-se!

Sim, senhor! ─ respondem os jovens policiais, correndo cada qual em suas direções.

Sob as luzes de pequenas lamparinas, os policiais caminhavam nas imediações da igreja, passando por entre as vielas dispostas próximas à entrada da floresta. Empunhando em sua mão direita, apoiada por sua mão esquerda sob a luz da lanterna, Peter apontava para sua frente em sinal de alerta, um revólver Remington de cinco por três quartos (5 ¾) de polegadas de cano; acompanhado por seu parceiro John, que carregava uma bela espingarda Winchester, modelo Boy’s Pump Rifle. Caminhando lentamente, os policiais vasculhavam cada ponto escuro daquelas estreitas ruas, onde muitas vezes serviam de refúgios e pontos de encontros para as prostitutas locais se encontrarem com alguns dos mais poderosos homens da cidade, que as buscavam em suas imponentes caleches. Em cada rua que os policiais passavam, subitamente apontavam as armas para as meretrizes que os acometiam de forma inesperada, encurralando-as nas paredes das ruas.

─ Tenha cuidado ao se aproximar abruptamente de alguém armado, mulher... Você esteve a ponto de ser atingida por um disparo! Estamos à procura de um suspeito de assassinato. Não viu alguém passar por aqui? ─ pergunta o policial Peter, apontando seu Winchester em direção à cabeça da prostituta.

─ Não, senhor! Estou aqui desde as oito horas da noite e não vi ninguém que aparentasse ser algum assassino, ou agisse estranhamente ─ responde à meretriz assustada com a arma diante dos seus olhos.

Entre às oito horas e a madrugada do dia seguinte, alguns dos assassinos viam o momento propício para atacar suas vítimas. Logo que elas chegavam, e ao findar dos seus trabalhos, as meretrizes eram agarradas e raptadas subitamente sem deixar testemunhas, devido ao intenso breu que vestia a maior parte das ruas da cidade.

Prosseguindo com a busca, os agentes seguiam caminhando diametralmente em direção à soleira da imensa floresta negra, procurando por rastros de sangue, pegadas ou algum objeto que possivelmente o assassino poderia ter deixado para trás. Vasculham a margem da mata e todo o perímetro que compõe o ambiente, mas não conseguem se deparar com nada útil às investigações. Além de galhos e folhas espalhados pelo chão, continham apenas imensos troncos das árvores derrubadas pelos lenhadores que trabalhavam na parte da manhã. Vasculham minunciosamente, mas, inutilmente. Retornando por um trajeto dessemelhante ao anterior, os parceiros prosseguem se infiltrando em uma rua completamente escura, que pouco se enxergava à frente se não fosse o auxílio das tênues luzes das lanternas, transportadas por cada um deles.


***


No alto da torre ─ acompanhado pelo padre Andrews Seth, que o observava da entrada do recinto ─, o investigador Carl Manny se esforçava para entender o porquê de alguém cometer tamanha barbárie e com tanta destreza. O crime fora consumado de forma peculiar e ele analisava cada sinal de suspeição deixado pelo assassino. No entanto, o que lhe chamara mais atenção, fora à escrita inserida na parede por raspagem à faca ou algum outro objeto de cunho caseiro. Nos anais da história de Blackwood, jamais haviam ocorrido delitos semelhantes ao que sua visão varria à frente.

─ Mas, que assassino mais peculiar ─ diz o investigador. ─ Certamente nunca houve algo perecido em nossa cidade.

O padre se aproxima do detetive e assente:

─ Certamente, detetive.

O inspetor vira sua cabeça em direção ao padre.

─ Isto é latim, não é, padre?

O clérigo analisa com mais cautela.

─ Sem dúvidas, investigador...─ retorque enquanto lê. ─ E são duas frases distintas.


Omnem jacere aleam omnes dies

Ante mortem Habemus cofitentem reum


Manny analisava à escrita passando as pontas dos dedos sobre ela, tentando sentir seus relevos e depressões. O detetive volve sua cabeça em direção ao clérigo novamente.

─ Padre, por certo o senhor estudou latim, sim?

─ Claro ─ responde o padre Andrews com uma expressão irônica, visto que à doutrinação Católica, praticamente, convém em maior parte, dos termos latinos.

─ O senhor pode me auxiliar com a sua tradução?

O padre aquiesce sem titubear.

─ Certamente, filho. Deixe-me ver outra vez ─ retorque, levando sua mão à parede, à medida que cingia os olhos em direção ao grifo.

Passando a mão por sobre as palavras e sob a luz de uma pequena lamparina abastecida por óleo ─ também conhecido por azeite de baleia ─, que a mantinha acesa por um longo período de tempo, o padre analisava a frase minuciosamente.

─ Detetive... ─ O padre para por um instante com um semblante duvidoso; de quem ainda não sabia a resposta com solidez. ─ Creio que seu significado seja o seguinte: “Empregar todos os esforços, todos os dias. Antes da morte, temos o réu que se confessa”... ─ Sim, é exatamente isto ─ diz Andrews, agora convicto de sua tradução, após continuar observando atentamente. ─ Imagino que o assassino queira lhe transmitir algo através destas palavras.

─ Certamente, padre. Geralmente alguns dos assassinos em série deixam estas pistas ou avisos. Já estive à frente de alguns casos parecidos. Essa pode ser uma assinatura. Isto significa que haverá mais mortes, creio eu. Entretanto, ainda é muito cedo para o identificarmos como um assassino em série ─ redargui o detetive Manny, anotando tudo o que observara.

Pendurada a uma corda ─ envolvendo-a do seu tórax até suas costas, entrelaçada por um nó que elevava a uma amarra verticalmente e a fixava a uma barra de ferro que suspendia o grande sino da catedral ─, estava à mulher despedaçada. Logo após verificar os escritos sobrepostos à parede do lado esquerdo da vítima, rente ao chão, o detetive se levanta e observa à mísera mulher perecida e suspensa. Alguns minutos apreciando a vítima disposta à sua frente, o investigador tentava fazer conexões entre a forma do crime e as palavras que ele, a partir daquele instante, astutamente passou a considerar como pistas e identificação criminal.

À meretriz havia sido esquartejada de forma sistemática e cautelosa: uma corda presa por uma de suas pontas as frestas de uma das maiores engrenagens, que fazia com que o relógio girasse forte e pontualmente, estava amarrada a outras quatro cordas que prendiam os seus pulsos e calcanhares, enquanto outra amarra a prendia pela cintura, atada fortemente na sua frente, à medida que uma sétima corda envolvia seu pescoço. Com o crepitar do relógio à meia noite, as cordas entrelaçadas ao mecanismo giraram com toda a força que fazia com que àquela aparelhagem mantivesse os enormes ponteiros do relógio girando, e se enrolaram completamente puxando os quatro membros da vítima em direções opostas. Enquanto a corda que estava presa envolta a sua cintura a segurava e a fixava, seus braços e pernas eram esticados e repuxados para detrás de si e, sua coluna vertebral era quebrada no mesmo instante que seus membros eram amputados lentamente ─ devido à força do mecanismo ─, só permanecendo seu tronco balançando pelas cordas que a prendia pelo pescoço e tórax até o findar das batidas do sino, no primeiro minuto após as doze horas.

Apoiando-se em uma pequena saliência contígua à parede e se segurando na barra de ferro que sustentava o sino da catedral, o detetive tentava desatar o nó que sustentava o que restara do corpo fenecido e esquartejado da prostituta, e baixá-lo até o chão do ambiente. O padre, ainda ao lado da escrita, continuava a observá-la e a passar as suas mãos por cima.

─ Padre, o que o senhor está fazendo? Não toque mais em nada! Você pode alterar qualquer detalhe que nos leve até o autor do crime ─ disse Manny, olhando a silhueta escura de Andrews sob o breu.

O padre Seth se sobressalta.

─ Claro, detetive... Apenas estava tentando entender o que o assassino quis nos passar através desta escrita ─ responde o padre, caminhando até um vértice escuro de uma das paredes afastadas da possível assinatura do assassino e esperando o investigador descer à vítima.

Após alguns silentes minutos, de repente, escutam-se passos pressurosos subindo às escadas e um grande impacto sobre a porta seguido por dois homens armados, entrando o recinto abruptamente.

─ Parados! ─ grita um deles indo em direção à sombra imóvel sob o escuro.

─ Parem, homens... Somos nós! ─ Manny retruca com altivez, ainda desamarrando o forte nó que suspendia o cadáver.

Reconhecendo o tom de voz do investigador, Peter gira em direção ao seu parceiro que apontava seu Remington para a silhueta imóvel no canto escuro da torre, e o auxilia direcionando seu winchester diretamente para a cabeça do então desconhecido e ofegante ponto escuro.

─ Não se mexa! ─ disse John, tentando perceber quem estava ali.

O detetive salta da pequena saliência.

─ Não me escutaram? Abaixem as armas, policiais! ─ disse Manny após baixar o corpo e se posicionar atrás de seus subordinados. ─ Esse é o padre Andrews... Deixem-no vir até o ponto mais claro. Calma, não há perigo.

Ainda receados, os agentes abaixaram suas armas lentamente e se afastaram caminhando para trás, à medida que o padre saía do meio da escuridão.

─ Perdoe-nos padre, imaginamos que fosse nosso suspeito ─ disse John, enquanto Andrews se aproximava de uma tênue luz que adentrava a torre por uma das pequenas janelas no cume.

Caminhando em direção ao clérigo, o investigador ordenava aos agentes que pusessem um pano por sobre os restos letíficos da vítima e os envolvessem.

─ Padre ─ chama o detetive Carl ─, onde o senhor esteve durante o tempo de ação do assassino? O senhor estava aqui?... Refiro-me aqui na igreja.

Com um olhar rasteiro e receoso, Andrews Seth observa o investigador Manny puxar do seu bolso o pequeno caderno de anotações.

─ Sim, detetive ─ responde. ─ Entretanto, quando cheguei ao local, esta infeliz senhora já estava sem vida.

─ Certamente! ─ redargui o investigador, despontando um leve sorriso no canto de sua boca e fazendo algumas anotações.

Percebendo a feição sarcástica do inspetor, o padre franze a testa e o inquire de imediato:

─ Aonde o senhor quer chegar com isto, detetive? Por que este sorriso?

─ Mantenha-se calmo padre, o senhor não tem com o que se preocupar... São perguntas rotineiras. Ou devo cogitar algo relativo ao senhor?

O clérigo lança um forte sopro.

─ Lógico que não! ─ diz o sacerdote eufórico. ─ Mas, que anotações são essas? O fato de eu estar no meu ambiente de trabalho me torna um suspeito?

─ Já disse para o senhor não se incomodar, padre. Isto faz parte do procedimento. Entretanto, ficaremos de olhos abertos ─ dizia Carl, enquanto caminhava em direção à saída. ─ Vamos homens, levem este corpo para baixo e em seguida busquem algo para transportá-lo. E o senhor, acompanhe-me, por gentileza.

─ Acompanhá-lo? Aonde vamos?

O investigador Manny esparge um intenso suspiro, demostrando claramente sua impaciência com a situação.

─ Somente me acompanhe, padre. Sem mais perguntas.

O que será que ele ainda deseja de mim?, refletia o padre, enquanto seguia atravessando à porta de saída da torre.


***


Sob melhor iluminação, fora da sala da torre do relógio, o detetive observava o padre cautelosamente enquanto conversavam. Andrews Seth demonstrava todo o seu desconforto ao ver que estava sendo analisado continuamente, quando o detetive Manny percebera um pequeno espirro de sangue em suas vestes. Em seu colar clerical, logo abaixo da ponta da gola da sua sotaina, podia-se ver resquícios de um líquido avermelhado e coagulado ─ indício que levara a crer que à vítima estivesse viva enquanto era afligida, uma vez que o sangue não coagula pós mortem, devido igualmente, à morte das células ─, que por algum motivo respingara no clérigo e até então ele não percebera.

Carl Manny dá de ombros e meneia sua cabeça, cingindo levemente sua boca enquanto girava em direção a saída.

─ Agradeço-lhe à atenção, padre ─ diz o investigador, ultrapassando as grandes portas da Catedral, intrigado com o que acabara de notar na roupagem do sacerdote.

O padre o observa com uma expressão intrigada.

─ Disponha, detetive. Noticie-me se conseguir alguma informação do assassino, senhor. Há algo de errado com esse investigador, reflete mais uma vez, observando sua expressão incomodada.

─ Claro, padre... O senhor irá saber! ─ disse Manny, com a voz distante e olhando para trás. Pode ser que seja um dos primeiros a ser informado, pensa enquanto sorrir.


***


Sentada em uma cadeira no centro da pequena cabana da floresta, Katarine se esforçava para respirar através de um capuz que havia sido posto em sua cabeça, junto com uma mordaça e uma venda, para que impossibilitassem completamente a sua visão e possíveis emissões de barulhos. Caminhando circularmente em volta do seu assento, o enigmático homem a observava enquanto girava o seu machado e roçava suas botas no piso emadeirado. Arrastando uma encurtada mesa de formato quadrangular, retirada de próximo à quina oposta a direção em que Emily se encontrava, o homem, lentamente a empurrava de encontro à mulher e encostava sua borda nos seios dela lentamente, comprimindo-a entre a sua cadeira e o móvel aviado de uma densa madeira removida dos arredores da floresta. Aos poucos, a mesa ia apertando ela contígua a parede. Com a respiração ofegante e forçosa, Katarine se remexia, exprimia densos espasmos tentando se soltar das amarras e proferir um único grito desesperado de socorro. Meu Deus, ajude-me!, pensou ela, à medida que ouviu os passos do desconhecido homem cessarem vagarosamente, o barulho de uma cadeira sendo repuxada para trás e cautelosamente para frente, enquanto alguém se apoiava sobre a mesa. Ele se sentou. Apenas o som da respiração desesperada da púbere mulher ressoava diante dos ouvidos atentos do enigmático homem. O silêncio a submergia ainda mais em aflição. A falta de ruído fazia com que seu pânico aumentasse cada vez que ela escutava o som de sua própria respiração. Então, ela escuta uma voz inesperada:

─ O que uma bela jovem como você faz por essas partes distantes da floresta, senhorita? ─ pergunta o emblemático senhor. ─ Parece-me que sua residência fica bem longe daqui, não?

Continuava-se a escutar o respirar forçado e aflito de Emily, mas nenhuma resposta irrompia dos seus lábios avermelhados.

─ Algum problema, bela dama? Por que não responde as minhas simples indagações? Ah, perdoe-me, por um instante me esqueci que você está de mordaça e não pode me responder. Mas agora isto não importa, porque devemos seguir com o plano, sem interrupções.

Subitamente um trepidar de madeira espargiu no ambiente cavo da velha cabana, fazendo com Katarine saltasse junto com a cadeira que a mantinha cativa e aumentasse pujantemente sua respiração, já bastante ofegosa. Outra pessoa? Isso fora uma porta batendo!

─ Finalmente você chegou, mulher ─ diz o incógnito homem.

─ Não pude alcançá-la e passei muito tempo vasculhando a floresta. Mas vejo que o plano deu certo ─ redargui a visitante.

Imaginando alguma forma de romper as amarras que forçavam sua permanência naquele ambiente aterrador, Katarine não se atentava a qualquer outra coisa que lhe falassem. Entre as mórbidas imagens que surgira no seu caminho desde seu percurso pela floresta e sua entrada forçosa naquela pequena cabana, o que surgia em sua mente e mantinha firme seu corpo, eram as imagens do seu vulto em fuga, o sentimento de esperança e o desejo de se libertar daquele lugar que se tornara sombrio e a cada instante a enchia ainda mais de pavor.

─ Muito bem, senhora Helmett, a partir de hoje essa será sua nova residência. Espero que desfrute da estadia ─ diz o desconhecido, levantando-se e arrastando à cadeira com as partes traseiras de suas pernas.

Meu Deus, onde eu vim parar?! Ajude-me, Senhor!, refletia Katarine, plenamente terrificada.

Ao ouvir o som do móvel se afastando, Katarine, ao mesmo tempo, percebia o seu coração acelerar e seus densos palpitares colidirem com a parte interna do seu peito, enquanto à respiração forçosa a roía continuamente. O pânico começava a lhe devorar interiormente. De forma súbita, ela solta um grunhido e se balança na cadeira. Parecia que Emily queria dizer algo. Ela se contorcia desesperadamente presa ao assento e sacudia sua cabeça para os lados. Após alguns torturantes segundos, imaginando o místico senhor e sua comparte à frente, ela sentiu que lentamente o capuz era retirado de sua cabeça. Tacitamente, iam-se evidenciando àqueles belos cabelos loiros e resvaladios, caídos por sobre os ombros de Katarine.

─ Calma, querida ─ disse a voz suavemente em seu ouvido, enquanto acariciava seus cabelos ─, tudo ficará bem.

1 de Abril de 2019 às 16:48 0 Denunciar Insira 2
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