atila-titi-senna Atila Senna

Depois do início da destruição, cidades e campos foram devastados, o futuro é desesperador durante a guerra.


Pós-apocalíptico Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#criança #ovelhas #bomba #solidão #esperança #convivencia #morte #guerra #fome
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A ovelha desertora

“Sem o desertor, estaríamos mortas”.


Muitas coisas me foram ensinadas desde meus primeiros sentidos, “muito outras novas sempre virão”, sempre repetia meu velho pai. Estávamos no jardim do quintal, sempre me chama atenção pela aparência minimalista. A tarde passava numa euforia rasa, havia um tempo que eu não ia ao jardim, era perigoso e assustador os primeiros dias da terceira vez. Mas toda a grama rala, as flores harmônicas no cenário amarelado pela estrela sol, e a deliciosa brisa intensa da vida de toda tarde refrescante e clara nos deixava muito bem, sim senhor, muito bem. Conversávamos sobre coisas da vida e tínhamos um momento de paz, em plena guerra. Ao mesmo tempo, em que olhávamos a linha de eventos do horizonte, um fascínio pela simplicidade, longe de todo o concreto da cidade, pisávamos em solo frio e não nos sentíamos solitários, mesmo afastado do caos. Estávamos calmos ao saber que estávamos longe de toda a radiação ao menos. Meu pai me fazia sentir menos boba com toda a sua sabedoria. Era um dia de bem, mas eu perguntava ao meu velho sobre as coisas ruins, depois da primeira bomba, porque faziam guerra novamente?


— Sabe-se lá criatura, disse-me descontente, cada ditador tem seus motivos. O socialismo mata.


Mesmo verde amarelo e azul nossa bandeira era realmente vermelha nesses dias terríveis, e às palavras de ordem estampadas que devia regir com vigor o mundo nunca foi, nem faria jus ao significado delas. Ainda menina tinha muito medo, dos barulhos dos ruídos, mesmo que longínquo, destruía a família brasileira. Enquanto isso meu pai vivia dizendo sobre um antigo homem, que não sabia como seria á terceira guerra mundial, mais sabia ao certo como seria a quarta: com pedras e paus. Não sei se entendia bem sobre política ainda, mas meu pai dizia que os líderes esquerdistas sempre são as ovelhas negras do povo.


— Então somos as brancas, meu pai? — Sim, enfatizou, somos as ovelhas brancas nessa história.

— Mais e os soldados que lutam forçados pelo governo?

— A esses, a opção de desertar, ser ovelha negra de seus líderes, ser mais uma branca como seu povo que não luta contra a vida humana em troca de ideais de um homem.


Depois disso não me lembro de muito bem o que aconteceu, mas segurava docemente minha pequenina mão, era como se estivéssemos ali num momento, e noutro, num escuro tenebroso. Era o ciclo da história política, que erramos no intuito de melhorar o sistema e governos, mas mal tomam o poder e o sistema muda os líderes em prol da mesmice, dizia meu pai. De repente a globalização dominou finalmente, a ciências desmascarou as religiões e megacidades e megalópoles foram destruídas sem peso algum, tropas inimigas avançam por todos os meios. Éramos uma família tranquila e tradicional, mal vista atualmente, onde tudo era poliamor, onde tudo que era proibido por ser errado, algo era simplesmente preconceito desde que os fracos adolescentes de 2000 para cá firmaram na burrice do jovialismo, longe do real conhecimento, que estavam certos em dizer que tudo era em prol de liberdade e dos direitos individuais por mais animalesco e imbecis que fossem. Não importa, se queriam, deviam ter o direito por mais ridículo e desnecessário que fosse. Onde morávamos brincávamos todos os dias, brigávamos e prosseguíamos felizes próximos à natureza virgem. Durante os primeiros dias, pensamos que talvez duraria apenas alguns meses, mas já se estendia há anos mais que a segunda, e não tínhamos expectativas de melhoras. As notícias pipocavam a todo instante: implantara a religião única global, a língua oficial do mundo, e ele ditara as novas regras, que todos os outros maus um dia no passado tentaram. Muitas pessoas fugiam de suas casas, das gigantescas cidades, e as tropas inimigas por onde passavam tudo destruíam. Era uma espécie de Brasil paralelo onde eu estava só, procurando a escada do sótão, perdida em minha própria casa com o ouvido o zunir depois da explosão. Entrelaçava meus dedos no maior da minha mãe. Penso que tinha apenas dez anos. Meu pai apertava-nos para que assim ficávamos um pouco mais aquecidos. Chovia a noite toda e o sótão era o único lugar seguro, alguns soldados andaram bisbilhotando o andar de baixo, enquanto sofríamos em silêncio. Meus olhos estavam pesados e vermelhos, e mesmo que eu tentasse resistir, tudo foi desbotando até desaparecer num sono profundo. Lembro-me de acordar minutos depois com uma forte explosão, que destruiu uma das laterais da casa, envergando moderadamente a estrutura do sótão na direção do chão. Minutos antes meu pai havia descido, e assim, simplesmente depois do susto, aquele soldado passara fazer parte da nossa família sem licença alguma. Simplesmente ficara ali, era o desertor que também se escondia do mesmo inimigo do qual nos fizera estar unido naquele sótão. Momentos depois a tropa avançava por toda a extensão da fazenda, podíamos escutar nossos cavalos relinchando em pedidos de socorro. Certamente tiros e lêiser havia atravessados seus corpos, não pude vê-los, mas sei que naquele dia os mataram, pois, simplesmente seus tormentos desapareceram após todos os disparos. Os grandes e monstruosos 8x8 ou com lagartas de metal, marcavam profundamente o terreno a medida que avançavam contra os inimigos a distâncias. Pude escutar a alguns palmos abaixo de mim que o soldado tivera seu rosto deformado, completamente irreconhecível, seu corpo queimava. Pensei que aquele era o inimigo morto, mas onde estava meu pai que fora nos canteiros para a colheita de nossa comida? Passávamos muita fome pela manhã, e todos os dias um de meus pais tinham que se arriscarem para saciar-nos; comíamos bem, visto a situação. Quando julgaram o corpo morto ser o soltados que abrigávamos, continuaram a avançar batalhando furiosamente. Eu e minha mãe olhava o inquilino, sem respostas sem perguntas, depois disso fiquei avulsa. Hoje sei que os soldados não o perdoariam jamais se soubessem a verdade. Era a ovelha branca que fugira do seu grupo de combatentes negras, que são más, ordenadas por um pastor inescrupuloso. Destruíram sua família, disse naquele dia terrível de modo seco para minha mãe. Só queria um lugar para ficar bem, e assim o fez. Mamãe, pouco se comunica com ele durante os dias seguintes, também tão pouco me deixava dialogar com ele, me dizia que papai estava morto, todos os dias, para sempre papai estava morto. Meu velho pai que tudo me ensinara. Ah se Deus existir que o tenha, depois tenha a nós ao falecer. Quando todos passaram, enterramo-os no dia seguinte no quintal numa cova rala feita pelo desertor, onde dentro de alguns dias já se podia ver à terra granulada pelo trabalho das larvas e dos insetos. Minha mãe sempre me apoiava quando eu entrava em desespero, me sentia perdida.

— Você tem que ser forte, continue sendo forte, dizia minha mãe naquele momento, não importa o que aconteça; se formos pessoas de bem teremos nosso lugar no reino do céu.

— Ovelhas brancas sempre tem seu lugar no céu, respondia sorridente, era o que dizia papai.


Eu e minha mãe sempre desconfiávamos que o soldado morto nada mais fosse que meu querido e velho pai, com o rosto completamente desfigurado. Tínhamos uma relação de necessidade com aquele desertor, substituía meu pai em todos os quesitos de forma melhor, exceto em afeto e carinho, mas era muito mais jovem muito mais forte, tínhamos mais condições de viver. Mais ainda sim passávamos por dias de desconforto e solidão, esses dias passavam e outros vinham, não duvidávamos, não tínhamos mais dias comuns não tinha mais amigos. Naquela época nem mesmo brincava mais. Tudo era forçado e o trabalho era duro e desanimador. Mais dias se passaram e nossos olhares se intensificaram, criamos um novo vínculo familiar. Andávamos sempre de mãos dadas, acompanhado de minha mãe e, podíamos ver em seu olhar que ainda maquinava, talvez algo sobre sua família. Chamava-o de Theo, e sabe-se lá se esse era o verdadeiro nome, mas gostava cada vez mais dele com o tempo, protegia-me muito bem. Sempre enxergamos, sempre, desde o primeiro dia seu remorso ao remoer os acontecimentos passados, que o fez estar no lugar do meu querido pai. Ainda sim nos ajudava muito, mesmo na carência de técnicas e produtos, continuava a encher as nossas barrigas muito bem. Cultivava as terras, verificava o raio de segurança todos os dias e voltava sempre quando se afastava. E nós todos com o sentimento de que nada iria mudar tão cedo. Brincávamos de ser soldados a noite inteira, mas não queria lutar, tínhamos medo da morte. Talvez fosse o medo da solidão e dos dias frios, não sei. Uma vez, na linha do horizonte distante do nosso raio de periculosidade, pude enxergar um veículo grande que pelo tempo parado parecia nos vigiar. Noutros dias antes outros já passaram pela mesma linha do horizonte, outros bem próximos, mas sempre partia. Esse parecia diferente e permanecia. Tive medo que nos observasse, mas minha mãe disse que não éramos interessantes a ninguém nesse mundo, mas mesmo assim corri até o desertor. Theo se dispôs rapidamente a aproximar-se, sempre fora muito cuidadoso e disposto comigo, acostumei-me com o passar do tempo e até mesmo brincávamos e escutava suas histórias. Tive muitos sentimentos por ele, além de culpa-lo internamente pela morte de meu pai. Creio que minha mãe velasse este sentimento idem ao meu. As cercas todas foram destruídas, e há muito o solo ficou arrido, amarelado, pouco fértil o que já nos avisava de antemão que faltaria comida logo, e ar. Lembro-me que nossas narinas já ardiam, o ar estava virando veneno, e naquele horário fazia a estrela se tornava carrascos. Não tínhamos mais comunicação nem mesmo notícias por outros meios, a tecnologia gradualmente se esvaia. Sabíamos que desta vez ninguém era neutro, não havia cruz vermelha não havia órgãos, nem organizações que ajudassem as pessoas feridas, simplesmente a guerra. 8 bilhões de vidas modificadas de alguma forma, muitas bilhões mortas. Tínhamos medo de que ele fosse mais um número naquele dia. Mais ao se aproximar daquele tanque de guerra foi apenas um corpo morto e alguns mantimentos de curta duração que encontrou, muitos anestésicos, remédios agulhas e utensílios. Nossa velha casa já rangia em todos os pontos e estava torta, mesmo escorada por estruturas improvisadas, não demorou muito o sótão cedeu. Todo o primeiro andar sucumbiu-se de presa nos atordoando num susto inesquecível. Sei exatamente qual era a sensação. Simplesmente a gravidade de um instante para outro pareceu ser por vezes mais forte e nos puxou para baixo numa velocidade assustadora que me deixara sem ar e senti minha barria doer. As paredes laterais do sótão ainda permaneceram de pé no final, completamente danificadas, rachadas: lembro bem da sensação de aprisionamento. Toda aquela poeira cegava nossos olhos, incomodava nossos ouvidos, e o quão ruim minha respiração se tornou ao horrível tragar de cada tentativa de tentar continuar viva. Horas depois a poeira baixo enfim, no topo tínhamos a janelinha redonda, nossa única fonte de luz nos últimos dias de vida que acreditávamos que teria. O céu era azul, fosco, mais ainda sim, azul.


[...]


Chorávamos unidos todos os dias, olhávamos as estrelas, e tentávamos decifrar o som do lado de fora. O concreto era sensível a qualquer toque, por isso não podíamos criar saída de forma bruta, e tão pouco podíamos, nada tínhamos. A janelinha, minuscula e elevada, nem mesmo se abria. O pior era a tensão de algumas fraqueza estruturais que ameaçava constantemente por tudo abaixo com a gravidade e esmagar-nos. Sem comida emagrecemos rápido. Não podíamos fazer nada com nossas angústias, não havia fuga imediata. A única vantagem era o meu tamanho aliado há magreza a mais de cada dia, avançava rápido colaborando para que eu pudesse sair enfim para o lado de fora o mais depressa possível. Ainda sim demoraríamos dias. — Sem comida morremos de fome, minha mãe analisou, sem água não passaremos de alguns dias. — Não aguentaremos, disse e chorei. — Não, não é bem assim, corajoso era Theo, um corpo e feito com mais de 70% de água e, tem muita carne... Tínhamos apenas latas repletas com muitos anestésicos e outros tipos de remédio, tudo o que encontrara um dia no veículo abandonado, e o mais importante: à extrema atitude para alimentar-nos. Empalidecemos. A estrutura era frágil, estralava e parecia ceder mais a cada dia, e durante os dias os ruídos eram cada vez mais presentes. A ferramenta era inapropriada, mas acabou que a colher que coroia a parede deu conta. Quando Theo pode finalizar a passagem, arrastei-me por ali, pelo aperto passei para o outo lado, donde pude novamente respirar o ar profusamente imundo de fora. Ao me reerguer diante dos destroços relatei a ambos como estava o entorno do cenário destruído. O horizonte ainda mais cinza mesmo assim seduzia, mesmo repleto de devastação, era aliviador. O fundo distante exibindo todos os destroços da cidade que nos rodeava era esperado. Relatei as nossas percas durante os dias em que fiquei solitária do lado de fora, não tínhamos ainda alimento.

— Como vocês sobreviveram aos dias de fome Melissa?

— Durante os dias que sai, Theo não mais se desmembrou, passei a colher todos os dias os alimentos tóxicos que estavam em nossa pequenina lavoura a esmo, colhia frutos na floresta desde que não estivessem muito distantes. Encontrei ferramentas melhores para ele. Também voltava para dormir no calor, mesmo com o perigo de tudo desabar, não tínhamos cobertas e se ficasse do lado de fora certamente morreria de frio. E depois todos saiamos, tínhamos plano sobre um novo lugar. Em Theo, restara apenas seu braço e mão direita que demostrava seu posicionamento político que se contraponha contra seu líder naquela época.

18 de Fevereiro de 2019 às 04:15 5 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Atila Senna Imagino cenas, faço delas contos e histórias.

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MiRz Rz MiRz Rz
Olá, eu sou a MRz e venho pelo Sistema de Verificação do Inkspired. Sua história está “em revisão”, pelos seguintes motivos: 1) Erros gramaticais. A história está com algumas palavras escritas erradas, como “intendia”, sendo que o correto é “entendia”, entre outros. 2) Está faltando algumas vírgulas no texto que dificulta o entendimento da frase. 3) Diálogos dentro da narração que também deixaram o texto um pouco confuso. 4) Acentuação. Algumas palavras estão sem acento, como “início” e “história”. São errinhos pequenos que são facilmente corrigidos em uma revisão. Caso precise de um beta reader, o Inkspired disponibiliza com o serviço de Autopublicação. Depois de corrigido esses erros, é só responder esse comentário para que eu faça uma nova verificação. :)
March 05, 2019, 01:55

  • Atila Senna Atila Senna
    Eu que corrijo os erros, mesmo trocando polos pontos? March 30, 2019, 20:35
  • MiRz Rz MiRz Rz
    Então, os pontos é para solicitar o beta reader aqui pelo site. O beta vai apontar detalhadamente os erros e fazer algumas sugestões para melhoria da história. Daí você mesmo edita a história corrigindo o que estiver errado e fica seu critério se vai seguir com a sugestão do beta ou não. :) March 31, 2019, 22:06
  • Atila Senna Atila Senna
    Pronto, acho que seja o suficiente para uma nova verificação. April 03, 2019, 00:24
  • MiRz Rz MiRz Rz
    Olá. O texto ainda apresenta alguns erros gramaticais, como “ceco” no lugar de “seco”. Conjugações de verbos errados, como o verbo vir, você conjugou “viram” para se referir ao futuro, quando correto é “virão”. Está faltando algumas palavras de ligações em algumas frases. Tem “porque” usado errado em pergunta. Eu realmente aconselho você a procurar por um beta que te ajudará a identificar os erros mais profundos, porque a verificação cita apenas alguns erros de exemplo. Depois de corrigido tudo, é só responder esse comentário para que eu faça uma nova verificação. No geral, a história está boa principalmente por tratar de um tema muito complicado, afinal escrever sobre Guerra é bem difícil. Estou no aguardo da nova correção. :) April 03, 2019, 21:56
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