Marisol Seguir história

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"Eu não alteraria o pronome da pessoa amada para ter mais visitações, tampouco iludiria meus honrados leitores inventando um protótipo idealizado de romance. Meu compromisso, mesmo quando escrevia pequenos contos em cadernos que no máximo paravam nas mãos da professora, sempre foi com a verdade."


LGBT+ Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#preconceitos #lésbicas #primeiro-amor #autodescoberta #melhores-amigas #conto #amizade #lgbt #romance
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Não há nada mais desconcertante que a angústia comprimir o peito e você não ter com quem contar, sobretudo porque o orgulho sobrepuja todas as tentativas, tampando os lábios, impedindo um constrangimento que via de fato não pode nem deve ser descartado.

Escrever sugere um alívio momentâneo ao ruidoso medo. Embora o meu maior sonho tenha ido por água abaixo devido a impossibilidades que independiam da minha fé, o dom é um diamante que a experiência lapida toda vez que me debruço e sigo cuidando com amor de tudo que criei, de forma que a minha utilização determina o rumo das coisas.

Prazer, meu nome é Marisol e o significado alia dois amores meus: o mar e o sol. Profundo e arrebatador, tanto quanto meu relato sobre sentimentos e descobertas que não poderia escrever sem vivência de causa. Pisciana do dia 08 de março de 1989, saudosa do gosto daquele cereal matinal chamado Choco Krispis, cuja produção foi descontinuada — como quase tudo de bom nessa vida — e nada convencional.

Inicialmente julguei que não passasse de uma fase que me tirou o sono, aquela confusão inerente ao início da adolescência, quando abruptamente somos inseridos ao inferno chamado Ensino Fundamental II e é primordial criar uma identidade que seja socialmente aceitável, se inserir em um grupinho onde você se encaixe sem deixar espaço para que te expulsem por quebrar a harmonia. E sobreviver.

Nunca me senti atraída por indivíduos do sexo masculino. Nunca gostei deles da maneira que as pessoas notavelmente esperam e sugerem, como um padrão comportamental em que a partir de determinada idade todas nós iremos caminhar em fila indiana para esse fluxograma, cumprindo cada etapa da programação sem sequer questionar. Nunca morri de amores pelo garoto mais bonito da minha sala, mesmo sendo alvo de inveja das outras meninas por ter ficado com ele.

Todos pensavam que apesar do bom traquejo social com que mantinha minhas amizades, compensava o outro extremo sendo extremamente tímida no amor. E os adultos achavam graça quando me perguntavam sobre os namoradinhos nas festas. Eles pensavam que meu constrangimento era um charme. Não faço objeção alguma, valho-me da minha aquiescência para não me abrir mais do que devo.

As pessoas sabem de mim aquilo que permito. Sabem do que eu nunca disse, em virtude dos numerosos boatos que correm dentro de qualquer outra escola nesse mundo. E eu sei de mim o suficiente para não ser interditada. Estou ciente, pelo menos, que às vezes é mais conveniente sorrir e juntar-me ao grupo, nem sempre ser o centro das atenções é uma jogada acertada. Depende da atenção que se almeja e eu, definitivamente, não gosto de escândalos.

Eu gosto de mulheres. Gosto delas equivalente ao que elas (ou uma esmagadora maioria) gostam deles. A razão pela qual decidi compartilhar a descoberta do meu verdadeiro eu tem nome. Um lindo nome, a propósito. Fabiana. Minha melhor amiga. Minha vizinha de porta. Minha colega de classe. Minha companheira de aventuras desde o dia em que nos conhecemos.

Fabiana é o primeiro e o último pensamento do meu dia.

Fabiana. Fabiana. Fabiana. Fabiana.

Caso alguém ainda insista que eu era apenas uma adolescente vivendo uma fase, que não beijei o "menino certo" e em virtude disso transferi meus desejos mais profundos para a figura da minha melhor amiga, que procure outra história para ler.

Se a mídia me influenciasse tanto quanto pregam os puritanos de plantão, eu seria hétero. Cresci convicta de que a heterossexualidade era a norma, isso, claro, até eu conhecer a Manuela, uma amiga do meu pai e ainda hoje me lembro daquele churrasco no salão de festas do prédio onde moro porque nele Manu chegou acompanhada de uma bela mulher, de mãos dadas.

Escutei a Hanna chamando-a de sapatona nojenta pelas costas e, mais tarde, com a curiosidade gritando no peito, perguntei ao papai sobre o assunto. Com uma expressão consternada, ele se sentou comigo e me implorou para jamais repetir aquele insulto, explicando que chamá-la daquele nome feio era ofender seu direito de amar, ir e vir, até mesmo de viver.

Com o passar do tempo compreendi que nem tudo que via nas novelas era verdade: pessoas do mesmo sexo se amavam, se desejavam e também viviam seus perrengues diários, porém ninguém tinha coragem de explorá-los por conta da caretice da sociedade, porque existem muitas Hannas por aí.

Eu não alteraria o pronome da pessoa amada para ter mais visitações, tampouco iludiria meus honrados leitores inventando um protótipo idealizado de romance. Meu compromisso, mesmo quando escrevia pequenos contos em cadernos que no máximo paravam nas mãos da professora, sempre foi com a verdade.

Era três de dezembro, eu estava a um passo de me formar na primeira parte do Ensino Fundamental, animadíssima porque me saí bem nos testes finais e era a queridinha da Profª Luíza, mesmo quando ela confiscava meus cadernos porque me flagrava escrevendo na hora da aula, tudo bem que eu ainda não sabia o que era esse sentimento, porém já sentia uma pontada de tristeza porque saber que no ano seguinte eu não seria mais sua aluna, quanto mais a sua predileta.

Outra vez papai prometeu vir me buscar para almoçarmos juntos e não veio, enquanto eu passava longos minutos o esperando até a docente, que já estava habituada com a rotina do mocinho do tempo, se oferecer para me levar até em casa. Por mais que eu insistisse que saberia voltar sozinha, não passava de uma garotinha de 10 anos e devia obediência aos adultos.

Chegando ao meu cantinho seguro senti no corredor o cheirinho gostoso de batata-frita no capricho que a Salete preparava todas as sextas-feiras, notando também que no corredor do nosso andar havia dezenas de caixas de papelão e móveis protegidos por plástico bolha. Fazia um bom tempo que haviam desocupado o apartamento ao lado do nosso e pela barulheira tinha gente nova no pedaço.

Salete prestou serviços em nossa casa por muitos anos, chegou a conhecer Joana, minha mãe adotiva, que morreu quando eu estava com 10 meses de idade. Ela ajudou meu pai a me criar naquele momento em que uma simples gripe desfalcou nossa família, sendo a madrinha que não tive.

— Nossa, que bagunça é aquela no corredor?

Salete sorriu:

— Estou preparando uma torta de banana para receber os novos vizinhos. — avisou Salete, sempre de avental, com um olho na cozinha e outro em mim. — E pensei que você poderia entregar...

— E se eles não gostarem de torta de banana?

— Eles sempre gostam.

Salete piscou com o olho direito:

— Nunca vi ninguém rejeitar a nobre torta de banana da D. Salete. Ei, vi algumas crianças, provavelmente da sua idade. — comentou Salete, me espreitando com os olhos para saber qual seria minha reação. — Seria muito bom que você saísse um pouco de dentro de casa e aproveitasse mais a vida, Marisol. Você é criança e é muito importante que brinque com outras crianças, e se divirta. Ver televisão é muito legal, mas tem muitas coisas que a gente precisa viver de verdade.

Grande coisa, pensei em silêncio enquanto aproveitava minhas batatas-fritas. Eu já tinha me acostumado a ter duas vidas muito distintas: na escola eu era a palhaça que às vezes tirava a Profª Luíza do sério e mantinha uma relação cordial com a maioria das crianças e fora dela eu gostava de viver no meu próprio mundinho, o das palavras, porque minha mente não parava um só minuto.

Eu era convidada para todas as festas de aniversário e não perdia uma, adorava me divertir com a criançada até ficar manca, suada e descabelada. Não fui café-com-leite nem relegada, me entendia bem com as meninas, porém não tinha uma melhor amiga. Por outro lado, pelo fato de meu pai ser meteorologista, às vezes visitava o instituto de meteorologia onde ele trabalhava e me entrosava com os adultos.

Nelson de Moura chegou a ser o mocinho do tempo do Vinte Horas e fazia uma entrada ao vivo todos os dias no telejornal para a previsão diária e a fim de explicar os fenômenos meteorológicos da forma mais didática possível para os telespectadores, porém deixou o cargo para a entojada da Hanna Fonseca porque havia muito tempo que queria montar um canal especializado em meteorologia. Se já existiam emissoras que passavam telejornais de segunda a segunda sem parar, por que não haver um que informasse sobre o tempo?

Pois sim, certo! A ideia não era assim tão original porque já existia uma emissora que fazia o mesmo, todavia as instalações estavam concentradas em Atlanta e a proposta era bem distinta do que pretendia Nelson, meteorologista de carteirinha, com mestrado em El Niño e esperando que coubesse na sua interminável agenda de compromissos uma tese de doutorado.

Papai adorava desafios e naquele ano seu foco estava todo concentrado no Tempo na TV que estreou no quarto trimestre de 1999. Os meses seguintes seriam cruciais para o êxito do projeto, não à toa o coitado não dormia quase nada e não me dava tanta atenção quanto antes.

O aroma convidativo da torta de banana estava me desconcentrando e a ideia de bater na porta dos novos vizinhos não me agradava muito. Ou melhor, não me agradava nem um pouco. Não que estivesse dando para ser antipática e introvertida, Salete saberia ser uma ótima anfitriã.

— Marisol, o café está servido! — avisou Salete.

Dei por encerrada a arrumação do quarto, visto que tomei uma bronca de Salete depois do almoço por deixar tudo desorganizado. A fome me vencia pelos roncos profundos no estômago. Era inútil resistir à torta de banana, porém não foi à apresentação do prato que me chamou a atenção. Foi encontrar duas irmãs sentadas em volta da mesa redonda com a empregada.

— Quase pensei que estivesse no mundo da lua. — comentou Salete indicando uma cadeira vazia para eu me sentar. A mesa estava pronta como em todos os outros dias. Mesmo com a precoce morte de Joana, os protocolos nunca mudaram. Era um jeito de seguir a vida, fazer de conta que a normalidade nunca se perdeu, que aquela casa sempre manteria o seu ar hospitaleiro, acolhedor, gentil, ainda que a decoração fosse o mais minimalista possível.

— Aterrissei a tempo! — completei, fazendo o primeiro contato visual com a menina maior.

Fabiana.

— Marisol, ela é a Fabiana. — anunciou Salete.

Fabiana sorriu para mim. Aparentava ter a mesma idade que eu, usava chiquinhas com tranças, tinha os cabelos cor de mel e olhos castanho-claros, sardas em volta do nariz, dentes separados e um sorriso simpático do tipo "vamos ser boas amigas". Maria Eduarda, a irmã, era um pouco menor, não devia ter mais do que seis ou sete anos de idade. As duas usavam vestidinhos jeans e sandálias iguais, porém de números diferentes.

— Você viaja pra lua? — perguntou a menor com os olhos curiosos brilhando com a ideia de ter uma nova amiguinha cheia de aventuras para dividir com ela.

— Marisol vive no mundo da lua. — brincou Salete, percebendo que as três meninas estavam rompendo o gelo da timidez, decididas a se conhecerem mais e engatarem a amizade, o que de fato aconteceu quando as convidei para visitarem meu quarto e mais tarde lhes apresentei a área recreativa do nosso prédio. Só subimos na hora do jantar.

Desde então, Fabiana e eu não nos desgrudamos mais. No início, até Duda encontrar sua turma, nos seguia de uma parte a outra e chorava porque era café-com-leite para os grandes. Depois que encontrou gente da sua idade, nos deixou um pouco em paz.

No ano letivo seguinte Fabiana se transferiu para o mesmo colégio que eu e caiu na mesma classe, logo partilhamos o medo da quinta série e eu fui me acostumando com a ideia de ter uma melhor amiga que mesmo não gostando de ler, se divertia muito com as minhas histórias enquanto eu gostava das dela que não eram escritas e sim vividas.

Fabiana tinha três irmãos. O mais velho, André, era universitário e morava na república junto com outros jovens, só aparecia em casa em circunstâncias muito especiais. Kelly estava saindo da escola e também iria estudar longe, sem falar na Duda, a caçula. Os pais se divorciaram havia um ano e meio, de modo que minha melhor amiga e a irmã mais nova passavam alguns fins de semana com o pai.

Na maior parte do tempo, apesar de estabanada na cozinha, Fabiana se virava sozinha e dava conta da Duda que a considerava "mãe". Fabi era ótima em varrer, lavar louça, fazer a cama, passar aspirador nos tapetes, porém queimava o arroz e só se arriscava no macarrão instantâneo com nuggets de frango. A mãe das meninas se virava em dois empregos para bancar a casa.

Fabiana foi meu ombro amigo quando a vida me lançou no centro de reviravoltas que deixariam qualquer menina da minha idade desconcertada.

Eu, Marisol de Moura, sempre soube que papai me adotou quando eu era recém-nascida e não tinha o menor problema com isso porque se Nelson me registrou com seu sobrenome e me deu amor, uma boa vida, condições para ser uma grande mulher no futuro, era meu progenitor mesmo que não tivesse me concebido, todavia descobrimos que minha mãe biológica estava vivíssima e sofria por não me encontrar, uma história que como insisto, daria um bom folhetim da RPN, daqueles repletos de dramas, clichês, comédia e até uma pitadinha de vilania.

Helena Rebouças era uma mocinha muito bonita e simpática que estava trabalhando no Tempo na TV, começando a aparecer no vídeo, receber boas críticas da imprensa e também dos fãs que começavam a admirar a figura dela. Gostei de Helena desde o primeiro momento e ela se tornaria não apenas aquela amiga adulta que acharia graça em mim, nossa empatia se dava num nível maior do que esse.

Depois de anos sozinho, papai se animou quando se aproximou da colega de trabalho. Quem não gostou nadinha disso foi a Hanna Fonseca que queria ascender dentro da emissora recém-fundada e se findava no fato de o Sr. Fonseca ser prefeito da cidade natal dela e proprietário de uma importante afiliada da RPN.

Eu não cogitava a hipótese de papai se casar novamente porque ele era tão comprometido com o trabalho que parecia não ter espaço para nada nem ninguém em sua vida, no entanto com as investidas de Hanna, passei a me preocupar seriamente com a ideia de ter uma má-drasta. Ela não gostava de mim nem de criança nenhuma, era fresca da maior estirpe e intragável, porém para ganhar pontos com o big boss do Tempo na TV, nada como ser doce e gentil comigo, todavia eu olhava em seus olhos verdes e sabia que todas aquelas mesuras eram falsas e insidiosas. Ela era pior que a Cassandra Sotomayor, só precisava de espaço para mostrar seus garrotes traiçoeiros.

Entretanto, quando descobri que Nelson e Helena estavam se aproximando, senti um calorzinho dentro do coração, aquele estalo meio "Operação Cupido", queria ver aquele casal reunido de qualquer forma e a ideia de que aquela moça fosse a nova esposa do meu pai não me aterrorizava porque eu me afeiçoei a ela ao ponto de considera-la a mãe que não tive, logo quando a própria se sentou comigo para me contar que eu era sua filha biológica, tudo que fiz foi abraça-la sem querer largar.

Era o final feliz para um drama que se arrastava havia anos, que impedia Helena de viver em plenitude, todavia passados os protocolos básicos de todo fim de novela, começava outra história.

A minha própria história.

7 de Fevereiro de 2019 às 02:16 0 Denunciar Insira 122
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