A Filha de Hades Seguir história

samara-fritzen1548974282 Samara Fritzen

"A filha de Hades" é um livro baseado na mitologia grega. Conta a história de Lívian Reis, uma jovem semideusa prestes a descobrir seu verdadeiro papel no mundo, e para isso ela irá atravessar o romance, a aventura e a ficção do mundo dos deuses antigos. Uma profecia é a base de suas escolhas. Os mortos estão voltando, como ela vai agir afinal? https://www.spiritfanfiction.com/perfil/samarafritzen


Fantasia Épico Todo o público. © É autorizado as fanfics da história. Republicar em outro site não é proibido, desde a minha consciêsncia do ato e os devidos créditos.

#romace #deuses #mitologiagrega #misttério
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Calouro


 
Levantei da cama apressada. Quando vi o relógio que os meus “cinco minutos” haviam se tornado uma hora, procurei uma calça em todos os cantos do meu quarto bagunçado(roupas e papéis amassados em todos os lugares, assim como restos de plásticos de salgadinhos e biscoitos, livros jogados pelo balcão e meu laptop aberto ao lado deles, roupas das quais eu estava deitada em cima, entre outras bugigangas).

Peguei duas meias, nem reparei se era o par certo, ainda havia tempo de eu chegar na segunda aula, o sinal batia apenas oito e vinte, e agora eram sete e cinquenta e cinco.

Pedi a uma das empregadas que preparasse um café e voltei para o quarto para me vestir. Achei um dos meus uniformes jogados, estava manchado de tinta, mas o coloquei assim mesmo, vesti um jeans que estava em cima da poltrona e coloquei uma sapatilha preta sem detalhes, peguei um de meus casacos favoritos(um moletom totalmente preto, meio gasto, mas ainda incrivelmente confortável e quente de um modo que não me sufoca como os demais),e o coloquei também.

Eu já estava quase pronta, olhei para meu despertador em cima do balcão, que era a única coisa que parecia estar no lugar certo. Estava marcando exatamente oito e cinco, arrumei meu material o mais rápido possível. Meu colégio não era longe, poderia chegar a tempo, olhei para o relógio novamente que agora marcava oito e dez, peguei minha mochila e a pus nas costas,com um livro na mão esquerda. Assim que saí do quarto a empregada estava com meu café em mãos, agradeci e fui andando, praticamente correndo.

...

Cheguei no colégio dez minutos depois aproximadamente, subi as escadas. Passando pela biblioteca avistei, ao que me pareceu ser, um novo aluno: Ele era bonito, alto, loiro, cabelos um pouco compridos, de olhos azuis, com cara de inocente, mas que também aparentava não ser nada ingênuo. Passei apressada afim de que a bibliotecária não me visse, mas como eu sou uma garota super sortuda...

_ Lívian querida, que bom que está aí _ Fui obrigada a entrar na biblioteca quando ela chamou.

Quando se fala “bibliotecária” é normal você imaginar uma senhora de meia idade. Mas esta era uma moça com seus vinte e seis anos, com cabelos lisos e castanhos presos em um rabo de cavalo apertado, vestida em um terno feminino, deixando-a ainda mais elegante, com um salto alto preto que eu mal conseguiria andar, mas ela parecia incrivelmente confortável neles. Seu rosto com uma maquiagem um pouco exagerada, como sempre. Apesar de parecer ter uma face arrogante, ela era muito gentil, o tipo de pessoa que se for deduzir sua personalidade pela aparência, você erraria feio.

_ Pode mostrar o colégio para o..._ Ela pareceu confusa um instante e dirigiu-se ao novo aluno _ Desculpe, esqueci seu nome.

Antes que ele pudesse dizer algo eu intervim:

_ Desculpe Alice, mas tem mesmo de ser agora? Acontece que perdi a hora do primeiro tempo e…

_ Ah querida, não se preocupe, _ Ela me interrompeu _ Posso falar com o diretor; dizer que você estava comigo no primeiro tempo, e depois explico a entrada do nosso calouro.

_ Puxa, você acaba de salvar meu sábado Alice, muito obrigada.

Ela deu uma risada quase debochada:

_Quem disse que o salvei? Apenas livrei-a de mais um “menos” no seu boletim, e como você é uma garota muito bondosa vai usar seu sábado para me agradecer, ou seja, vai me ajudar a pôr os livros em ordem, a não ser que…

_ Ah não, não, sem problemas. Eu te ajudo sim. _ Disse, um pouco apressada de mais.

_ Ótimo! _Ela sorriu pra mim, tanto com dó, tanto com soberania.

Então me virei para o garoto, aparentava ter a mesma idade que eu: cerca de quinze anos, talvez dezesseis. Quando olhei seus olhos, era como se sentisse as ondas no mar de tão azuis que eram. Quando me recuperei da hipnose estendi a mão, em um comprimento formal:

_ Lívian, Lívian Reis, e você é…?

Ele aperta minha mão, olhando diretamente nos meus olhos.

_ Felipe Eldorado.

Olhei-o novamente, mas desviei, a fim de não entrar em transe novamente, então me dirigi a Alice:

_Que turma ele está?

_Na mesma que a sua!

“Ótimo”, pensei, “Mais um pra entrar para o grupo da Tiffany”

Tiffany Yang, uma das garotas da minha sala, ela era bonita de um jeito assustador e atraente, do tipo: Fica comigo ou faço da sua vida um inferno. Ela era a popular então, todos falavam dela apenas pelas costas, mas em sua frente, ela deveria se sentir uma rainha de tão bem que a tratavam, apenas por medo, quero dizer, a maioria. Claro que sempre tem aquelas pessoas que são capachos. Duas delas são suas “melhores amigas”, que vão fazer compras juntas e essas coisas de garotas mimadas. Uma delas é Sophia Natiele, que é uma espécie de empregada-amiga-burra-ingênua. E a outra, Isabelle Rocha, que só anda mais com Tiffany por inveja. É uma espécie de trio do mal, que aparentam um dia dominar o mundo se pedirem para o papai.

Peguei uma autorização para eu entrar atrasada e um comprovante do Felipe, que todo calouro deve apresentar quando entra em uma escola, para todos os professores, se não ele não é considerado aluno, portanto não assiste a aula.

Saí da biblioteca, com Felipe em meu calcanhar. Ele ficou em silêncio por todo o caminho, o que para mim foi uma benção. Ele não parecia ser muito diferente de Tiffany e seu grupinho, e com esse tipo de pessoa, eu passo longe.

Chegamos a porta da sala, bati e pedi licença ao professor, Entreguei os papéis a ele, e entrei relutante com Felipe, todos olharam para ele, e Tiffany estava ali, com sua blusa polo, com lacinho e uma saia rosa se fazendo de boa moça. O laço dourado que parecia um tanto grande para sua cabeça, junto a seu rabo de cavalo, seus cabelos compridos e lisos cor de chocolate caido-lhe no ombro esquerdo.

Ela olhou para Felipe como se já soubesse que seria sua próxima vítima amorosa, mas quando me voltei para ele, ele apenas encarava o chão, pensei que tivesse tentando se fazer de tímido para ganhar mais atenção ainda, então ele me olhou sem mexer os lábios, mas pude compreender o que ele estava tentando dizer: ele queria fugir dali. Talvez eu tenha interpretado-o mal, mas não quis tirar conclusões precipitadas, já me decepcionei demais com as pessoas, apenas por esperar muito delas.

Entreguei o compravante e minha autorização ao professor de física, que apesar de ter seus trinta e poucos anos, era um homem bonito, com cabelos negros que caia involuntariamente sobre seus olhos de uma maneira um tanto sexy. Se você já tivesse sido aluna dele, e nunca havia se imaginado com ele, você fez mal seu papel de aluna.

Me sentei nos fundos ao lado de William, dirigindo um sorriso fraco para ele, que me encarou, como se perguntasse: Posso saber por que está andando com um garoto desses?  Ignorei- o e peguei meu material enquanto o professor fazia as apresentações necessárias:

_ Muito bem alunos _ Sua voz firme e sedutora passou pela sala deixando um ar de autoridade _ Este é Felipe Eldorado _ Dizia ele enquanto Felipe se sentava ao meu lado, eu o olhei surpresa com o gesto, mas não disse nada _ Tratem-no bem...Ah, vocês conhecem essa coisa de boas vindas. Lívian, se importa de ensinar os regulamentos a ele, e mostrar-lhe o colégio também? Pode usar essa aula se quiser.

Antes que eu pudesse responder, Tiffany levantou-se:

_ Eu mostro tudo a ele professor, não se preocupe. _ Dando outra entonação quando disse “mostrar tudo”.

_ Então Lívian _ Ele disse meu nome mais alto _ Se importa?

_ Ah...Não, tudo bem.

_ Excelente! Os demais, abram seus livros na página setenta e dois…

Tiffany me dirigiu um olhar severo, mas sentou-se, sem poder argumentar contra desta vez.

Este era um dos motivos de eu gostar do professor: Ele tratava todos os alunos do mesmo jeito, era subornado, mas nunca aceitou isso, então Tiffany naturalmente o odiava.

Saí da sala com Felipe, e comecei a explicar as regras:

_  Bonés no colégio não são permitidos, e para entrar no colégio você precisa fazer a sua carteira estudantil.

_ O que é isso?

_ Hm, bem, não estou com a minha agora, seria mais fácil explicar com ela aqui, mas enfim. Acho que todos os colégios no Brasil tem essas carteiras, você veio de onde?

_ Nova Jersey.

_ Ah, tá explicado. Bem, são tipo cartões de crédito normais, só que não contém nenhum dinheiro infelizmente. São um tipo de identificação para provar que você é aluno, você entrega antes de entrar no colégio, e depois os professores te devolvem na última aula.

_ Acho que entendi…

Andamos mais um pouco e expliquei o caminho dos banheiros.

_ Tem um no andar de baixo, e outro no andar de cima, a biblioteca você já sabe onde é. Ah sim, tem uma sala do lado da biblioteca que se precisar de folhas sulfites ou almaço é só comprar lá, eles também tiram xerox.

_ Comprar? O colégio não… dá as coisas que precisamos?

Definitivamente, pensei, ele era de algum colégio particular.

_ Não, isso é um colégio público, a gente precisa pagar as coisas. Até os livros que usamos para fazer as provas de português.

_ Mas isso é certo? Se é o governo que banca a escola, então eles tem que dar as coisas pra gente não?

Eu ri, um pouco alto de mais.

_ Grande piadista você hen. Não, eles dão os livros da biblioteca, os livros didáticos, e a comida da cantina, só isso. O resto é conosco.

_ Ah… Entendi.

Continuamos andando pelo colégio, e ele ficou fazendo mais perguntas, que para minha “não- surpresa”, eram sobre mim.

_ E você nasceu aqui mesmo?

_ Sim.

Era apenas isso que eu dizia, sim ou não.

_ Você e aquela garota com o laço na cabeça… Não são muito amigas não é?

_ Não.

Ele abaixou a cabeça, Finalmente percebendo que eu não queria conversar.

Voltamos para a sala, ainda era aula de física.

O sinal para nosso intervalo bateu quase meia hora depois, e eu fui para a biblioteca, como sempre, não tenho amigos neste colégio, e o que era mais próximo de ser um, é Alice e William.

William era um garoto um tanto nerd, era solitário, assim como eu, nos falamos algumas vezes, e depois dessas acabamos virando melhores amigos. Com o passar do tempo, aprendemos a ler as expressões e sentimentos um do outro. No intervalo, ambos ficamos na biblioteca.

Já estava no meio do caminho das escadas quando senti que havia outra pessoa, outros ecos de passos no corredor.

Primeiramente pensei que fosse Tiffany vindo me punir por tirar sua chance de arrastar Felipe para seu lado, mas então me deparei com ele mesmo me seguindo. Não entendia o porque, eu havia deixado bem claro que não queria conversa com ele, mas ele parecia querer ficar perto de mim. Achei meio rude olhá-lo tão surpresa, então apenas disse:

_Oi.

_Oi.

_ Porquê está aqui?

_Ah, se você quiser eu posso sair…

_ Não foi isso que quis dizer, é que não sou acostumada com isso entende, companhia, é estranho. _ Dei uma leve risada e ele quase me cegou com seus dentes branquíssimos. Parei de sorrir subitamente _ Mas ainda não ganhei uma resposta.

_ É que você não é como os outros _ Olhei para ele de um modo meio estúpido.    

Ele pareceu perceber

_ Não foi isso...mas que droga. Acontece que eu também não sou muito de me enturmar, sempre fui bastante isolado.

Eu segurei o riso para não acabar ofendendo-o.

_ Porquê não anda com a Tiffany? Quero dizer, todo mundo anda com ela, e ela pareceu interessada em você.

_ Então porque você não está andando com eles?

_ Porque não sou como eles!

_ E é só você que pode ser diferente nesse colégio? Sei que tipo de garoto pareço, mas não me defina mal, é como tentar ler uma obra de arte, há várias definições, nunca se sabe a certa, e ainda a resposta certa pode nem se quer ter passado pela sua cabeça.

Abaixei a cabeça, sentindo-me um tanto culpada.

_ Desculpe.

_ Não se preocupe, só queria que soubesse que não sou como os outros… _ Ele sorriu para mim de maneira tranquilizadora.

Sorri de volta mas não acreditei totalmente nele. Levo tempo para confiar nas pessoas, minha infância foi um pouco turbulenta… Nunca conheci meu pai verdadeiro, e nunca soube nada dele. Então vivi com minha mãe até meus três anos, a partir daí convivemos também com meu padrasto. Já havia perguntado para ela sobre meu pai, mas ela inventava qualquer desculpa e não tocava mais no assunto. Então nunca soube seu verdadeiro paradeiro, e nunca descobrirei, pois ela morreu ao meus nove anos de idade. Minha custódia ficou com uma de minhas tias, Elizabeth: Uma mulher extrovertida, porém arrogante, mas me tratava bem, na verdade, eu não a vejo muito, ela é uma grande empresária, então sempre fui monitorada por empregados. Mas ninguém sabia de nada disso, não gostava de ser assim, exceto pelo fato de ter uma biblioteca particular, os livros sempre foram uma boa escapatória para a realidade.

As empregadas podiam deixar a casa inteira impecável, mas convenci minha tia de que meu quarto seria tocável apenas por mim, o que nunca fazia. A bagunça era meu templo, meu método de dizer “não sou como eles”. Digo isso pois nunca me senti normal, na definição de hoje em dia pelo menos não, afinal, se ser normal quer dizer ser exibido, rico, metido e viver em redes sociais o tempo inteiro, prefiro sim ser a garota estranha, o normal é sem graça. Esse pensamento me fez lembrar de minha bipolaridade extrema: Eu mudava de humor de uma hora para outra, começava a chorar depois de me gargalhar, eu nunca entendi isso.

_ Então, porque veio para o Brasil?

_ É complicado, pode se dizer que é o trabalho...E um pouco de família também.

Fiquei em silêncio, sinceramente nunca tive uma família próxima de mim para dizer que entendo.

_ E você? _ Ele me perguntou, olhando para o chão, como se não fosse capaz de me encarar agora _ Você se dá bem com sua família?

_ Sim, bem, como qualquer outro adolescente sabe _ Menti.

_ Entendi.

Ficamos encarando o chão por uns cinco minutos até eu me lembrar de que William estava me esperando na biblioteca.

_ Bem, eu tenho que ir…

_ Ah, tudo bem.            

Me virei e comecei a andar.

_ Lívian… _ Ele chamou quando estava a meio caminho das escadas _ Você se importa de eu passar na sua casa?

A pergunta me pegou de surpresa. Ele provavelmente percebeu, pois disse rapidamente:

_ Para pegar o conteúdo. Como cheguei aqui no meio do bimestre, entende?

_ Sim, tudo bem, na sala te passo o endereço.

_ Sua mãe não vai se importar?

_ Não se preocupe, ela não liga. _ E como poderia? Ela morreu mesmo, pensei.

_ Mesmo? Não quero acabar causando problemas para você.

_ Isso eu faço sozinha, não se preocupe. _ Dei um sorriso, que pareceu tê-lo convencido.

Me virei novamente, indo ao encontro de William.

_ Onde você estava? _ Ele parecia bravo, mas não pude deixar de sorrir.

Ele era de fato nerd, mas aquele tipo de nerd meio fofo e gatinho de certa forma.

Ele não se importava com a aparência, então ele sempre usava um jeans com um tênis, e um moletom com capuz azul escuro por cima do uniforme. Os cabelos eram sempre bagunçados, mas mesmo assim eram incrivelmente macios e bonitos com seu estilo meio jogado. Seus olhos eram verdes, mais escuros que os meus, que eram de fato um verde cintilante.

 _ Felipe ficou me interrogando no meio do caminho. Não pude fazer nada sem ser grossa.

_ Então que fosse grossa.

Dei risada e baguncei um pouco mais seus cabelos. Ele riu.

_ Como você faz isso?

_ Isso o que?

_ Eu estava espumando de raiva e preocupação e você simplesmente mexe nos meus cabelos e isso tudo passa.

Dei risada e ele acariciou meu queixo.

_ Voltando ao assunto, me fala dele, ele tentou alguma coisa com você? Por que se tentou…

_ Não, relaxa. Não tem muito o que falar dele, conversamos pouco sobre nós.

Ele me encarou, e eu sabia  que aquele olhar queria toda informação possível, sendo pouco ou não.

_ Tudo bem… _ Disse, enquanto nos sentávamos em uma das mesas. _ Ele é de Nova Jersey, não é muito exibido nem nada do tipo, é… normal. Ele veio pra cá por causa de trabalho, ou família, não entendi direito, acho que os dois.

Ele me encarou, querendo mais informações, eu ri e continuei.

_ Os olhos dele parecem que me deixam em transe ou sei lá, como se de fato hipnotiza.

Eu olhei para ele, que estava com a cabeça abaixada.

_ Hey…

_ Você gostou dele? Do tipo…

_ Claro que não…

Ele me olhou, perguntando- me novamente.

_ Eu nem conheço ele, e você sabe que esse não é meu tipo.

Eu levantei a cabeça dele, fazendo ele me encarar.

_ Por quê ficou assim, e se eu tivesse gostado dele mesmo, isso não faria a gente parar de se falar.

_ Não é isso…

_ É o que então?

Ele riu.

_ E depois os homens que são lerdos.

_ Não entendi.

Ele riu mais alto agora, seus dentes não eram retos e perfeitos, mas para mim era o sorriso mais lindo de todos.

_ Vem cá burrinha. _ Ele me  chamou para deitar em seu ombro.

Eu deitei, ainda sem entender nada.

Cerca de dois minutos depois o sinal tocou para voltarmos para a sala.

No decorrer do último tempo Felipe me deu seu número de telefone, para que eu pudesse lhe passar o endereço depois. Infelizmente Tiffany olhou para nós bem na hora que ele me passara o papel. Não me importo com o que ela pensa, mas ser seu alvo não é algo que queira presenciar, ela faz de tudo até você sair da vida dela completamente, por bem ou por mal.

Coloquei o papel no bolso de trás assim que o sinal tocou para irmos embora.       Guardei meu material, joguei a mochila nas costas e comecei a andar para a saída, poucos alunos estavam na sala: Apenas eu, Tiffany, Sophia e Willian.

Dei um abraço e um beijo na bochecha de William, ele sorriu para mim.

_ Se quiser companhia, é só ligar.

Dei risada e saí da sala, sentindo seu olhar penetrante em mim.

Felipe vinha logo atrás de mim, Tiffany me lançou um último olhar severo, e logo em seguida uma piscadela para Felipe, não olhei para trás e saí, determinada a ir direto para “casa”.

Assim que cheguei me debrucei na minha cama cheia de coisas.

Troquei de roupa(um shorts curto cinza de academia com uma blusa comprida rosa chock), e desci para o almoço. Minha tia não estava lá novamente, ela deveria estar almoçando com algum cliente ou qualquer outra pessoa, então o que pude fazer era aproveitar sua ausência: Comer sem postura ereta, com um rock alto soando pela casa, comer porcarias a tarde toda sem ninguém poder falar nada.

Pedi para uma das empregadas preparar morangos com chocolate derretido em um pote, enquanto isso fui ligar o meu celular no som, e coloquei no volume máximo, sem me incomodar. Não tínhamos vizinhos próximos então mais um motivo para eu sossegar por completo.

Comecei a dançar sozinha como um louca, cantando apesar de não ter uma voz boa para isso. Mas então a empregada entrou com meu chocolate e morangos, tentei disfarçar minha auto apresentação, agradeci-a e pedi também que ninguém me incomodasse por um tempo, elas estavam acostumadas com este pedido, então entenderam.

Tirei a música, liguei a TV, conectei o netflix e coloquei uma série qualquer. Aproveitei ao máximo minha sobremesa-almoço enquanto assistia, até me lembrar de um detalhe que temia esquecer: Ligar para o Felipe.

Subi as escadas apressada, tentando lembrar onde coloquei a calça.

Pelo menos não havia muitas calças espalhadas pelo meu quarto, verifiquei os bolsos de todas, procurando o papel, até que o encontrei.

Peguei meu celular e liguei para ele, era quase duas horas da tarde. Conversamos um tempo, deveria estar ofegante pois ele me perguntou se eu estava bem, com uma voz mais séria do que o normal, então expliquei a situação. Passei meu endereço a ele e combinamos que ele viria as duas e meia.

Aproveitei e liguei para William também, em vídeo chamada, como sempre fazíamos.

_ Oi Lívi. Tudo bem? Precisa de alguma coisa?

_ Ah, não, tá tudo bem, só quis dar um oi mesmo.

_ Tem certeza? Quer que eu vá aí?

_ Bem… Se quiser vir, não tem problema, mas o Felipe também está vindo.

Ele se endireitou.

_ Por quê ele está indo na sua casa?

_ Relaxa, ele só quer as matérias atrasadas.

Ele juntou as sobrancelhas, ainda preocupado.

_ Tudo bem então, mas me ligue depois que ele sair. Se você não ligar ou mandar uma mensagem até as quatro horas, eu aí.

_ Tá bem, mas não se preocupa muito, você sabe que essa casa é…

_ Enorme e a maioria dos cômodos são a prova de sons? Sim eu sei, e isso não ajuda em nada.   

_ Eu ía dizer “cheia de pessoas”, mas é, isso também.  

Ele ainda parecia preocupado comigo, mas eu não entendia porque. Sempre fomos próximos, mas ele nunca havia se preocupado tanto comigo quanto no último ano, ele parecia querer passar cada segundo comigo. Era legal, mas as vezes eu achava que ele só estava tentando ser gentil comigo por eu ser tão sozinha, então prefiro dar um pouco de ar para ele, me importo demais com ele para deixar que pare de viver a própria vida.

_ Não esqueça de mandar notícias, tchau Lívi. _ Ele piscou para mim, e depois desligou.

Arrumei o material que Felipe precisava e desci novamente, arrumando a mesa do meu escritório com os livros e cadernos. Voltei para a sala onde estava assistindo e sentei no sofá, a espera de ele chegar.

Foi aí que me toquei, teria de explicar a ele sobre minha tia e sua mansão. Sempre me sinto estranha quando dizem que sou rica(ninguém disse até hoje, apenas o Willian, mas ainda assim me sinto desconfortável).

Como ainda faltavam dez minutos, resolvi assistir até ele chegar. Porém assim que deitei, fechei os olhos instantaneamente, adormecendo. O estranho era que não estava cansada, mas ainda assim, não lutei contra, um cochilo nunca faz mal não é?

...

Acordei assustada me perguntando que horas eram. Uma das empregadas estava ao lado, parecia ter acabado de chegar no local quando olhei para ela.

_ Desculpe acordá-la srta. Reis. A srta. tem visita.

Eu levantei para abrir a porta, mas a empregada já fizera isso então dei mais um salto para levantar-me do sofá. Limpei a baba que escorria pelo canto da minha boca, não queria nem ver o estado do meu cabelo ruivo, ainda por cima, ele estava solto, o bom disso é que ele era liso, então é só dar uma mexida aqui e ali, que ele está apresentável.

A empregada saiu do cômodo, nos deixando a sós.

_ Oi! _ Ele disse, segurando o riso.

Ele me olhou e eu comecei a rir, então ele parou de se segurar e gargalhou comigo.

Depois de um bom tempo rindo, respondi:

_ Oi!

_ Então…

_Ah sim _ Sorri distraída _ Estão no escritório, venha.

_ Escritório? Ah, entendi _ Parecia que só agora notara a enorme e elegante casa. _ Casa legal.

_ Obrigada, mas sinceramente, não gosto muito dela, exceto por ter uma biblioteca só minha _ Disse, meio triste e meio feliz com isso.

_ Uou… E o que são os outros cômodos?

_ Bem, eu não lembro todos de cabeça, mas se você quiser podemos fazer um tour depois que acabarmos.

_ Pode ser.

Nos sentamos na mesa do meu escritório, expliquei para ele todas as matérias, emprestei minhas anotações e todo o resto do conteúdo. Ele pareceu entender tudo muito bem, o que foi bom, pois não sou boa com explicações.

Veja bem, eu entendo as coisas perfeitamente(até demais), porém quando vou explicá-las, minha cabeça inteira se confunde, e embaralho toda a situação, por tal motivo prefiro escrever do que falar.

Ele escrevia rápido, com uma caligrafia um tanto relaxada, o que nos fez acabar tudo em pouco menos de uma hora.

_ Foi rápido não? _ Disse ele, suspirando pesadamente.

Eu comecei a rir, e ele me me olhou confuso.

_ Desculpe, você não vai querer entender, deixa pra lá. _ Eu continha as gargalhadas em minha garganta.

Ele me olhou e riu também, parecia ter entendido.

Eu tenho muita tendência a maliciar as palavras e os atos, apesar de não presenciar muito tais acontecimentos, o que era mais um motivo para eu rir quando aconteciam. E a frase que ele usou, junto com os suspiros pesados, era um desses raros acontecimentos.

_ Então, ainda quer aquele tour?

_ Claro! _ Começamos a andar enquanto conversávamos _ Sua casa é incrível.

_ Ela é real, não se preocupe.

_ Como?

_ A palavra “incrível” diz que não se pode acreditar, então é o mesmo que você dizer: Não acredito na sua casa”. Com a entonação que você usou, substituindo os termos, a palavra daria o sentido de surreal.

_ Ah, você é mesmo inteligente.

_ Não, eu só uso palavras difíceis.

_ Tudo bem _ Ele riu, me encarando, pude perceber o sarcasmo em sua voz, mas não dei continuação ao assunto.

Esperei um tempo antes de perguntar:

_ Como faz isso?

_ O que?

_ Os seus olhos, parecem ondas…

_ Genética do meu pai.

_ Não, quero dizer que parecem até mesmo se mover como ondas…

Ele não respondeu, decidi não insistir, e continuamos o passeio.

Mostrei todos os cômodos do primeiro andar, estávamos subindo as escadas quando uma voz feminina me surpreendeu:

_ Lívian?

Me virei surpresa.

_ Tia? Por quê não veio almoçar?

_ Almocei com um cliente.

“O que foi que eu disse?!”, pensei.

_ Quem é esse? _ Não tenho  certeza com o que ela se surpreendeu: Se foi o fato de ele ser lindo, de ser um garoto, ou de ele estar andando comigo, de acordo com ela, William não tinha essas qualidades, o que era uma ofensa para mim, mas ele se divertia.

_ Ele é novo no colégio, estava passando o conteúdo a ele.

_ Entendi. _ Ela parecia tão concentrada nele quanto Tiffany.

Ela saiu, na verdade ela nunca soubera nada de mim, talvez tenha me perguntando essas coisas como uma desculpa para conhecer o Felipe.

Ele pareceu tão animado quanto uma criança em um parque de diversões quando adentramos a biblioteca: Uma sala redonda enorme, como um salão de festas, mas esta, pendiam livros do chão ao teto, de todos os gêneros, o teto parecia se prolongar cada vez mais, de modo que tornava difícil vê-lo, havia também uma escada em espiral em volta de toda a sala, de modo que conseguíssemos pegar todos os livros em segurança.

Ele me olhou como se fosse o garoto mais sortudo do mundo.

_ Você sabe onde fica os livros de mitologia grega? _ Disse ele, sorrindo.

_ Venha. _ Conduzi-o pela escada, subimos alguns andares, e então ele começou a pegar vários livros sobre os deuses gregos. Comecei a ajudá-lo a segurar os livros para que ele conseguisse ver onde estava indo. _ Pra que isso tudo?

_ Você já leu sobre eles? _ Ele perguntou, um tanto sério demais. _ Ou sabe algo sobre eles?

_ Apenas aquela história do deus do céu, por quê?

_ Você vai ver. Apenas me ajude a levar isso tudo lá para baixo.

Eu não tive tempo de discutir, peguei os livros que ele me dera e descemos. Colocamos os livros sobre a mesa central, enquanto ele me explicava algumas coisas:

_ São doze deuses olimpianos, cada um deles, domina um poder diferente. A muitos anos atrás, o mundo era governado pelos titãs, o líder deles era Cronos, o titã do Tempo.

_ Sim, essa história eu conheço, ele comia os filhos porque uma profecia dizia que um de seus herdeiros iria matá-lo.

_ Exato! Mas a mãe estava cansada de ver seus filhos sendo devorados, então pegou um deles, antes que o pai o comesse na esperança de ele libertá- los algum dia.

_ E quando descobriu o que seu pai fizera a seus irmãos ele o matou.

_ Não, os titãs não morrem, em vez disso, para se livrar da ameaça, ele aprisionou Cronos, retirou seus irmãos de dentro dele e depois o esquartejaram com a própria foice, e jogaram seus pedaços no tártaro.

_ O que é o tártaro?

_ O lado mais sombrio do submundo. Depois que acabaram, cada um deveria governar uma parte da Terra. Zeus ficou com os os céus, Poseidon com o mar, e Hades com o submundo.

_ O que é exatamente o submundo?

_ É como o inferno.

Ele parecia tão sério falando sobre aquilo, que chegava a dar calafrios, mas não quis interromper.

_ Você disse que são doze deuses…

_ Sim, depois destes temos Hera, Atena, Afrodite, Deméter, Ártemis, Ares, Apolo, Hefesto e Hermes. Fora eles ainda temos os deuses menores, monstros, criaturas da natureza, etc. Mas o que temos de focar agora são os Deuses.

Ele estava realmente levando aquilo a sério demais.

_ Pra que isso tudo? Por quê tenho de saber sobre eles?

_ Eu vou te explicar tudo, mas pra você entender têm de aprender sobre eles, porque se não vai ficar confusa como os outros e vai acabar atraindo mais coisas do que queremos. Apenas… Confie em mim, por favor…

Que outros? Eu não sabia o que dizer a ele, eu acabara de conhecê-lo, por outro lado, o que ele poderia tentar fazer com histórias? Resolvi arriscar.

_ Tudo bem…

_ Sente-se, vou explicar tudo!



(O próximo capítulo será publicado dependendo da quantidade de pessoas interessadas na história ok; então me avisem se quiserem o resto)

31 de Janeiro de 2019 às 23:02 2 Denunciar Insira 0
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gt gabriel tigre
Muito bom, otimos personagens e uma trama que hipnotiza os leitores, um belo começo para uma serie espetacular (se pretender escrever mais é claro), e pelo fato de mostrar um pouco da realidade brasileira é incrível
31 de Janeiro de 2019 às 17:27

  • Samara Fritzen Samara Fritzen
    Obrigada, se houver algo que queira ver durante o enredo, pode falar que dependendo da ideia, levarei em consideração 2 de Fevereiro de 2019 às 09:49
~

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