Não é Natal ainda Seguir história

saaimee Ana Carolina

Passar alguns dias longe das pessoas que se ama pode ser difícil para você, mas a situação pode ser ainda pior se você for um animal de estimação. Era exatamente esse castigo que Elizabeth estava prestes a sofrer. Em um mundo magico onde animais se transformam em humanos podendo viver com seus mestres e amigos em harmonia era óbvio que os sentimentos e os laços entre eles se tornariam mais fortes os deixando mais dependentes. E, por isso, com o Natal chegando as dúvidas das possíveis separações por compromissos começavam a se instalar tirando a paz de algumas criaturas. ------------------------- ✼ Todos os personagens aqui pertencem a mim e TsukiAkii. Portanto postar/reproduzir esta estória em qualquer página sem a minha autorização é completamente proibido. Plágio é crime e eu tomarei providências.


Ficção adolescente Todo o público. © Todos os direitos reservados.

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Capítulo Único

Já tinha passado das 10 horas quando a garota de orelhas de gato terminou de escovar seus cabelos brancos. Ela observava contente seu resultado quando viu no canto do espelho o homem mais velho da casa se esticar na cama bocejando sonolento.

Em ocasiões normais, nesse momento, ele estaria em pé andando pela casa e agitando o ambiente com seus gritos, entretanto, hoje, esse não era o caso. Seus olhar correu para os outros lados encontrando o outro felino sentado na cama olhando para o nada com um olhar pesado tendo o jovem abissal próximo a ele guardando algo na prateleira. Ainda tinha mais um homem sentado um pouco atrás dela fazendo algumas anotações que quase não aparecia no reflexo.

Cada um estava em seu próprio canto lidando com suas pequenas tarefas sem qualquer preocupação. A cena habitual fez um suspiro lhe escapar enquanto colocava um sorriso no rosto guardando a escova.

— Está chegando. – Sua voz calma atraiu os olhares quase instantaneamente. — Logo, logo, será Natal.

O comentário tão simples fez os três pararem tudo o que estavam fazendo para fita-la desesperados em dizer algo sem realmente conseguir dizer enquanto o felino somente a olhou percebendo agora a proximidade do dia.

A data sempre foi considerada importante por ser carregada de sentimentos calorosos e, consequentemente, por essa mesma razão também é um dia que traz preocupação. Assim como para alguns é festa e alegria para outros pode ser solidão e nostalgia.

No caso dela podia se dizer que era uma mistura de ambas situações. Ela iria festejar quando o dia chegasse, mas faria isso sem a companhia dos homens que moravam ali, sua família.

A jovem entendia que Hayato, o felino que considera irmão, e Raphael, um empregado para ela, são criaturas tropicais e o frio extremo da região em que moram nessa época do ano podia afetar sua saúde por isso a melhor opção era envia-los para outra área. Também sabia que Mischief, o abissal e quase seu tio, precisava visitar a mãe na única data que lhe era permitido sem se preocupar com problemas e, como de costume, levaria Thony, seu domesticado e amigo da garota, com ele. O mesmo servia para Vicent, o jovem tubarão que a tratava como filha, que também precisava visitar a família. Ele sem dúvidas a levaria junto, contudo era impossível para uma gata passar três dias inteiros embaixo da água como ele.

E também tinha a situação de Daichi, o mais velho que também era como um tio, que, como urso, estaria entrando na fase de hibernação em breve e passaria os três meses longe dali contra a própria vontade.

O único que poderia ficar com ela era Virgil, outro felino irmão. Ela estava grata e aliviada por isso, mas não conseguia evitar de sentir a tristeza da data. Esse era seu segundo ano morando ali e seu segundo Natal, entretanto, mesmo assim, não estava preparada para passar por isso de novo.

Hayato ainda estava sentado na mesma posição olhando os outros três se entreolharem em pânico como se estivessem presos em uma armadilha onde qualquer passo errado poderia estourar suas cabeças. Seus olhos se voltaram para a garota que não parecia os ver perdida em seus pensamentos. Ele realmente não conseguia entender o porquê disso tudo.

— Mas, sabe Liz, – ainda com a expressão torcida Daichi começou a falar se virando na cama — nem vai demorar tanto pra gente voltar. O Mischief e o Vicent voltam em uma semana, né?

— Sim! – O abissal acrescentou mostrando seu melhor sorriso. — E eu ainda vou estar aqui para abrir os presente à noite antes de ir.

— Elizabeth, vai ficar tudo bem. – Enquanto eles se esforçavam com as palavras Vicent se aproximou sentando ao lado da garota e carinhosamente acariciou sua cabeça. — Você não vai ficar sozinha.

— Eu sei. – Olhando no espelho fitou cada um deles ainda com o sorriso nos olhos. — Mas a casa ainda vai ficar vazia.

Sua voz soou amável como sempre, entretanto suas palavras os fizeram se calar quase derrotados. Eles não podiam fazer nada além de mostrar em silêncio que entendiam seus sentimentos.

Ainda faltava dois meses e meio para o Natal, contudo, por conta das necessidades de alguns, eles resolveram começar já com as buscas pelos presentes.

Daichi e Mischief caminhavam lado a lado pelas estradas de pedra olhando as entradas de todo tipo de comercio pela cidade. O ambiente nem estava movimentado e o clima estava longe de ser natalino, entretanto isso não os atrapalhava, na verdade, era vantagem já que Daichi tinha dificuldades para manter o passo estável enquanto lidava com os efeitos da hibernação.

— Sua lista é menor que a minha. – Com os papéis em mãos o mais jovem comentou comparando os nomes que encontrava por ali. — Metade da casa vai dar presente pra Foxy, né?

— Provável. E eu tenho que ficar feliz que minha lista é menor.

— Por que? Seria melhor se fosse maior já que você vai andar comigo o dia todo. – O comentário irônico fez o maior se lembrar dos destinos que ainda o aguardava desejando voltar para casa naquele instante. — E nem adianta reclamar.

— Ah, me deixa em algum banco enquanto você faz suas coisas.

— Até parece. – Rindo ele seguiu em frente ouvindo os suspiros cansados do outro atrás sem se importar.

Para uma época de final de outono o clima da cidade estava agradável e surpreendentemente quente. O céu limpo sobre eles trazia frescor ao dia e os mantinha caminhando.

Seus pés se arrastaram pelo chão quando pararam em frente a uma loja de brinquedos de madeira vendo as prateleiras pela janela aberta estarem lotadas com os mais variados produtos.

— Hm... Parece que tem bonecas aqui.

— Você nem comece. – Sua voz era séria, mas não surtiu o efeito desejado trazendo risos a Mischief. — Nunca mais entro em loja de boneca.

— Mas não tem só boneca aqui. – Falou ainda provocando enquanto apontava para os cavalos e coelhos de madeira. — Tem animais, caixas, um monte de coisa!

— Ah, você não entende. – Coçando a nuca comentou. — O desprezo no olhar deles quando um velho fica parado olhando bonecas. – Sua voz amargurada acompanhava o rosto cheio de lembranças do que aconteceu no ano anterior. Mischief teve que se segurar para não rir fingindo entender aquele escândalo. — Você tá lá tranquilo e feliz porque acha que encontrou o presente certo enquanto tem 10 criaturas ao seu redor te encarando como se fosse algum esquisito.

— Eu lembro quando você chegou em casa com cara de pânico abraçado com uma sacola. – Sem conseguir se conter riu curto como se visse a cena passando naquela janela. — Parecia que tava sendo perseguido por algum monstro. – Daichi o encarou com a mesma expressão amarga assentindo. — Vicent não sossegou até você contar tudo que tinha acontecido.

— É... – respondeu com um suspiro vendo o outro se divertindo com a situação. — Continua rindo, um dia você vai ser velho. – A voz carregada de desgosto o fez olhar em sua direção carinhosamente como se mostrasse conforto.

— Mas valeu o sofrimento, certo? A Liz ficou tão feliz quando viu.

— Ah... – ele não pôde ver o momento que isso aconteceu, mas soube por todos como tudo ocorreu naquele dia e automaticamente sorriu. — Ela passou o inverno todo agarrada com a boneca, né?

— Foi... – o mesmo sorriso gentil o contagiou lembrando da menor. — Ela é apegada demais. Odeio ter que deixar ela.

— Nem me fale. – Suspirando aliviou os ombros pensando no rosto entristecido que viu naquela manhã. — Por mim eu hibernava em casa mesmo, mas vai parecer que tô morto. Não quero essa imagem na cabeça do Hayato nem dela. – Explicou balançando a cabeça quando viu os olhos tristes do abissal o encarando como se fosse chorar imaginando a situação. Daichi não teve uma reação rápida o suficiente para aquilo, só conseguiu rir descrente da atitude do mais novo. — Nem na sua. – Sua mão grande pousou sobre a cabeça dele afagando seus cabelos castanhos o fazendo sorrir.

Entre sorrisos e carinhos eles se silenciaram voltando seus olhares para os produtos distantes dali. Era impossível afastar de suas mentes os rostos dos outros moradores da casa e se questionar se todos estavam sofrendo com a situação.

— Ela deixou a gente mal acostumado. – Rindo de sua própria preocupação Daichi comentou fazendo o outro assentir.

— Pois é.

— Mas vai ficar bem. Todos vamos.

A última afirmação veio seguida de um sorriso gentil que Mischief assistiu de perto acolher seu coração. Era claro que estavam preocupados com muitas coisas e ouvir isso não mudava nada, mas podia acalmar os pensamentos perturbados por saber que não estava sozinho.

— Agora de volta as compras. – Se esticando o maior comentou vendo o outro concordar estufando o peito.

— Loja de bonecas, né?

— Mischief.

— Pela Liz!

— Tá! – Irritado gritou o fazendo rir. — Mas você vem junto comigo.

— Ok, eu finjo que sou seu filho ou neto talvez.

— Cala a boca e anda antes que eu perca a paciência.

 

Enquanto isso, em casa, dois homens estavam na cozinha discutindo sobre o que fazer para aliviar o clima triste que invadia o local.

— Consigo ver perfeitamente que ela está triste. – Atrás do balcão Vicent comentou com uma expressão apreensiva enquanto Virgil do outro lado assentiu em silêncio. — Parece... pior esse ano.

— Acho que estar mais tempo com a gente tem influenciado e... Ainda são três meses. – Refletiu sobre o assunto enquanto pensava também sobre Hayato. Não era algo novo ter que se separar dele, contudo ainda se preocupava. — É tempo demais para quem vive junto.

— Sim. – Respondeu seguido de um suspiro pesado que o ajudou a tentar se recompor na cadeira. — Por isso precisamos fazer algo para que a casa não fique vazia.

— Certo.

Rapidamente se colocaram a pensar no que deveria ser o melhor plano pelo bem da menor. Nem um dos dois tinha ideia do que realmente fazer já que suas mentes estavam mais ligadas em como evitar a solidão do que em como deixa-la feliz e, por isso, todo opção que aparecia era descartada logo em seguida.

— Ah... – Virgil se manifestou primeiro depois de minutos pensando chamando o olhar paciente do rapaz. — Podíamos fazer uma festa.

— Mas isso seria muito trabalhoso. Uma festa por dia... Poderia até mesmo aborrecer ela.

— Não. Eu falo essa semana como uma lembrança de despedida. – Surpreso Vicent o encarou como se a opção mais óbvia fosse algo novo para ele enquanto o outro tentava se explicar. — Vai causa um impacto e pode ser bom para todos, eu acho.

— Uma despedida soa triste... Mas nesse sentindo estaríamos nos divertindo. – O felino assentiu vendo o outro aceitar sua sugestão. — Faremos isso, mas em uma semana? Vai ser difícil conseguir decorações tão rápido assim.

— Que...

— E a comida... Também vou precisar providenciar presentes-

— Vicent. – Vendo o rumo desastroso que a situação tomava Virgil chamou o encarando seriamente.

— Sim?

— Algo simples. – Suas palavras soaram até mais lentas na tentativa de ser claro o suficiente. — Só a gente e o que é importante. – Vicent não tinha dito nada, mas ouviu com atenção.

O felino sempre foi direto com os assuntos e dificilmente se deixava levar por situações agitadas. Não era frio, mas sabia se controlar então para Vicent o ouvir dizendo algo que mostrava claramente seus sentimentos era o suficiente para mudar seus planos.

— Se você está me dizendo isso, não poderei ir contra. – Respondeu com um sorriso gentil e antes que o rapaz pudesse entender completamente a situação continuou. — Hayato e Raphael saíram?

— Sim.

— Daichi e Mischief também... – Se levantando suspirou já fazendo os primeiros passos em sua mente para iniciar com o plano. — Certo, quando chegarem discutimos com calma.

— Ok, então eu vou voltar para minha sala e ver se tenho moldes de decoração. – Comentou rápido e antes que percebesse já tinha se perdido em pensamentos encarando o chão. — Preciso ver se sobrou material e... Ah, ainda nem olhei os presentes.

— Você me disse para fazer algo pequeno, mas está pensando em trabalhar a semana toda, não é? – Virgil rapidamente se levantou o encarando na tentativa de se defender, entretanto se calou ao ver o sorriso dele o envergonhando. — Eu não disse para parar, mas lembre-se que é algo simples também, ok?

— Sim.

— Ótimo.

Do lado de fora da casa os dois, Raphael e Hayato, conversavam nos degraus despreocupados com qualquer tarefa ainda a ser concluída.

Falavam de tudo e nada ao mesmo tempo até que o silêncio caiu sobre eles os lembrando que ambos também estavam preocupados com a data se aproximando.

— Sabe, eu nunca me importei com essas coisas. – Tentando afastar a frieza dos pensamentos que o silêncio trouxe, Raphael começou a falar calmamente com uma expressão irritada. — Natal, sabe? – Hayato apenas concordou sem desviar sua direção do chão. — É meio normal com animais, né? A gente não sabe nem que dia é hoje quando tá lutando pra viver.

— Eu sei.

— Né? Aí é meio exagerado ela ficar assim. – Os dois assentiram sem nem se olhar como estivessem falando mais de si mesmos do que criticando Elizabeth. — É exagerado, mas também tô inquieto com isso. – Dando um suspiro derrubando os ombros admitiu olhando para a direita da vila onde algumas criaturas descansavam. — O que não faz sentido porque a gente vai ficar longe da teimosia do Vicent, longe dos barulhos do Daichi e longe dessa menina! Então... – O tom de sua voz foi aumentando conforme buscava motivos para não se entregar a solidão até que se interrompeu procurando pelo rosto do menor ao lado como se esperasse que ele pudesse ajudar.

— E longe de casa também. – Sem ânimo respondeu o fazendo abaixar a cabeça enquanto concordava. — Eu não acho ruim ficar lá. Não gosto de praia, mas a mãe do Mischief é legal e a tia dele também o único problema é ter que te ver pelado o tempo todo. – O comentário soou incomodado, mas foi o suficiente para fazer o outro rir. — Mas... se eu pudesse escolher eu não ia. E nem é pelo Natal.

Ambos sentiam seus corações apertarem com as dúvidas e os medos. Eram somente três meses e poderiam tirar férias de todo o estresse diário, porém em um mundo como esse não havia folga para corações que esperavam outros voltarem vivos de batalhas.

Hayato ainda pensava no medo de Daichi de morrer durante a hibernação e, nenhum dos dois, conseguia tirar da cabeça os perigos que Mischief podia se colocar enquanto estavam fora. Eles sabiam que esse tipo de coisa também podia acontecer enquanto estavam na casa, mas ficar longe fazia o sentimento ser ainda pior.

— Vou te contar uma coisa. – Se apoiando nos braços atrás das costas Raphael começou a falar tirando os dois daquele mar de pesadelos. — Eu passei a maior parte da minha vida com meu irmão já que nossos pais desapareceram e a gente nunca teve qualquer notícia sobre eles. A gente precisava ficar junto e... Ele sempre me protegeu. Dos outros, né. – Sua voz soava despreocupada como sempre e seu olhar estava distante vendo imagens que Hayato não podia. — Era minha única família, mas... Eu sempre gostei mais quando a gente não tava junto. – O felino não sabia se deveria dizer algo, mas ao ver o rosto frustrado do amigo resolveu apenas continuar ouvindo. — Foi esse o tipo de sentimento que conheci e por isso achava que sempre seria assim e que tava tudo bem ser assim, mas aí. – Se interrompeu com um riso curto como se não acreditasse no que estava dizendo. — Aí eu conheci o Mischief nadando igual um idiota perto da casa dele. – O comentário parecia irritado fazendo Hayato sorrir timidamente. — Ele veio até mim e passou aquela mão gelada na minha cabeça e então. – Se interrompeu novamente suspirando em silêncio tomando algum tempo antes de se virar para encarar o rosto curioso do menor e continuar. — Eu tô aqui e... Gosto mais quando a gente tá junto.

De todas as coisas que falavam e de todas as brigas que tiveram para poder chegar ali esse momento era o que Hayato menos esperava que fosse acontecer algum dia. Raphael sempre falava sobre si cortando partes como se não quisesse que os outros soubessem de tudo e, agora mesmo, ele fez isso de novo, porém o motivo era mais claro. Era doloroso para ele mesmo ter que se lembrar de tudo.

Hayato podia até não entender exatamente o que aconteceu com o rapaz, mas entendia perfeitamente o sentimento de querer ficar junto.

— Morar aqui trouxe um significado diferente. – O felino não era de falar de seus sentimentos tão abertamente quanto Raphael, mas ouvia com atenção mostrando que sabia como era aquilo com o olhar. — Aí eu até entendo o desespero daquela menina.

O menor sorriu. Era óbvio o desprezo do outro por ela na voz, entretanto também estava óbvio o quão preocupado estava com a mesma. Ele quis o provocar dizendo algo sobre o relacionamento de Raphael com Vicent, mas se impediu quando lembrou de algo importante.

— Espera! A gente não tinha que ver aquelas coisas da lista que o Vicent pediu?

— Ah... – se lembrando fechou os olhos estando a língua. — Que droga, ele vai matar a gente. Levanta, vamo logo!

 

Enquanto isso em outra cidade, Elizabeth e Thony estavam sentados em um banco de madeira rodeados por caixas e bolsas de presentes e as listas de lado com nomes já riscados.

A garota parecia estar se divertindo com sua bebida em mãos enquanto sentia o vento suave tocar suas bochechas. Seu sorriso era gentil como o sol da tarde fazendo o rapaz se prender a ele contagiado por sua beleza. Lentamente seus olhos se moveram capturando o cabelo macio dela balançando com o vento.

— Seu pelo tá bonito. – O comentário a pegou desprevenida no silêncio a fazendo corar antes de conseguir responder.

— Obrigada. Você não estava em casa quando fui escovar então tentei sozinha.

— Oh...

— Mas isso não quer dizer que quero que você pare.

— Quem disse que vou parar? – Seriamente questionou a fazendo rir aliviada. O seu sorriso era acolhedor o suficiente para o contagiar. — Como você está? Sobre o Natal.

Ela ia responder automaticamente, contudo se interrompeu quando ouviu do que se tratava. A jovem sabia que estava sendo difícil disfarçar sua preocupação quando queria poder falar sobre isso, mas sabia que devia se conter. Engolindo as palavras sorriu novamente.

— Bem. – Colocando o copo sobre o colo respondeu calmamente sem o fitar. — Não há nada que eu possa fazer e três meses passam rápido.

Ele a olhou em silêncio tanto na esperança que continuasse a falar quanto para poder analisar com cuidado sua expressão. Era óbvio que Elizabeth estava mentindo e isso era o mais estranho.

Ela pôde perceber seu olhar insistente e não conseguiu evitar o suspiro curto.

— Uma vez Vicent me disse que preciso sempre mostrar um rosto firme seja com sorrisos ou seriedade para não preocupar os outros. – Calmamente falou se virando para fitar os olhos castanhos interessados. — Porque quando você é forte, dá confiança para os outros ao seu redor. Eu quero ser assim.

Thony não disse nada enquanto a ouviu dizer com determinação seus motivos. Isso era realmente algo que Vicent diria, mas não como uma ordem e sim como um conselho. Os olhos dele se abaixaram vendo as mãos dela se apertando como se tentasse fortemente afastar o que quer que estivesse sentindo e, apesar da surpresa, sorriu.

— Me dá sua mão.

O pedido foi inesperado, entretanto ela não negou. Lentamente as entregou sentindo a palma lhe acolher e seus dedos longos a segurar com firmeza. O jovem a acariciou enquanto fitava sua pela tão clara quanto porcelana sentindo seu calor. Ela não era fria como o pai, não sabia mentir.

— Eu entendo o que você quer fazer, mas não precisa fingir comigo. – Sua voz era séria e confortável. Ela o encarou por alguns momentos e depois desceu os olhos para as mãos dele a aquecendo. Ele também não era frio. — Tá tudo bem me mostrar seu rosto.

Seu comentário atraiu novamente os olhos azuis dela. Seu coração estava acelerado tanto por conta das dúvidas quanto pela liberdade em poder se mostrar. Sem conseguir dizer qualquer uma das palavras presas em sua garganta, assentiu o prendendo rapidamente em um abraço.

 

• • •

 

Alguns dias depois de terem finalmente terminado de comprar os presentes e discutir sobre a festa eles estavam colocando os planos em prática organizando a casa, fazendo comidas e decorando tudo dentro do pouco tempo e espaço longe do conhecimento da garota.

Os homens ainda acabaram levando mais tempo do que deveriam por conta de discussões e confusões, mas no final conseguiram. O pequeno Natal só deles estava ali carregado de orgulho e antecipação.

Quando tudo terminou Thony foi até o quarto chamar pela jovem que passou a tarde toda se divertindo com os embrulhos de seus presentes.

— Você pode vir comigo?

— Agora? – Olhou os pacotes no canto que ainda esperavam por sua capa.

— É. Tem uma coisa para você. – Ela se assustou com o inesperado, mas ao ver o sorriso dele resolveu confiar.

Descendo as escadas com calma ela tentou captar qualquer som curioso na tentativa de entender a situação. Entretanto só conseguiu ouvir alguns ruídos que não pareciam importar.

Continuou seguindo o rapaz sem nem reparar por onde iam quando o viu parar repentinamente em frente a sala de estar.

— Thony? – Chamou curiosa o vendo olhar por cima com o mesmo sorriso antes de se afastar permitindo que seus grandes olhos azuis vissem o local decorado e os outros seis homens parados ali.

Ela não conseguiu dizer nada com o choque, porém sua expressão de lábios entreabertos e olhos arregalados olhando cada pequeno detalhe os fez sorrir satisfeitos com a certeza que tinham conseguido alcançar o objetivo.

— O Virgil teve a ideia. – Vicent foi o primeiro a falar fazendo os olhos dela pularam dele para o outro felino sem saber exatamente como reagir o vendo sorrir timidamente.

— Eu... Minha, nossa. – Passando a mão pelos cabelos tentava encontrar palavras sem saber se queria rir ou chorar.

— A gente também sabe como dói ficar longe. – Ao lado de Vicent, Daichi comentou a fazendo olhar para ele. — E já que não dá pra mudar, é melhor aproveitar enquanto tá junto, né?

Ela o ouviu falar com aquele largo sorriso de sempre percebendo finalmente que todos estavam sentindo o mesmo que ela. A mesma solidão, a mesma preocupação e a mesma vontade de mudar tudo. Percebeu também que não estava sozinha.

— Eu... Estou tão feliz. – Os olhos brilharam com lágrimas e o rosto se avermelhou com os sentimentos empilhando no peito. — Vocês são a melhor família. – Tentando se segurar comentou desviando o olhar na direção de Raphael que no canto junto a Hayato assistia a tudo. — Todos vocês. Eu quero abraço!

Ao ouvir o pedido Vicent automaticamente se aproximou a fechando em seus braços carinhosamente logo em seguida Mischief correu até eles os agarrando sem deixar as reclamações do homem os separar. Daichi não segurou o riso e antes de se juntar a eles foi até os três afastados e, os agarrando pela roupa, levou junto dele até o encontro da garota os fazendo participar da bagunça em um abraço tão apertado quanto desajeitado.

Thony estava perto e pôde assistir tudo acontecendo. Ele não conseguia se sentir parte dali, mas ver a garota feliz o contagiou de alguma forma e sem se importar com seus limites se aproximou colocando seus braços ao redor daquele montinho de sete idiotas deixando o calor os unir dessa vez.

 

• • •

 

Logo a data tão assustadora chegou levando dali os três primeiros rapazes e que mais tarde naquela noite levaria mais três. Mas não era isso que estava na cabeça de Elizabeth naquele momento.

Embaixo da gigante árvore enfeitada no centro da vila ela observava a gritaria alegre, as risadas e os olhares esperançosos por todos os lados se lembrando que era exatamente isso que aquele dia significava. Ela queria viver o máximo disso por ela e por eles.

Com um sorriso tão honesto se ajoelhou colocando a última caixa decorada junto as outras centenas por ali e com um suspiro cheio de vida sussurrou:

— Feliz Natal, pessoal. Eu vou esperar para abrir os presentes dessa vez.

25 de Dezembro de 2018 às 02:04 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Ana Carolina Mãe de 32 personagens originais e outros 32 adotados com muito carinho, fanfiqueira nas horas vagas e amante das palavras em período integral. Apaixonada demais e, por isso, sou tantas coisas que me perco tentando me explicar. Daí eu escrevo. ICON: TsukiAkii @ DeviantArt

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