Soneto 141 Seguir história

rosicarl rosicarl

Na Busan Senior High School existem dois tipos de pessoas: as populares e as que não existem. Sehun e Kyungsoo, por exemplo, se orgulhavam demais de fazer parte do segundo grupo. Mas a paz de espírito dos dois fica na corda-bamba quando Yixing - um estudante transferido - e seu amigo Jongdae bolam um plano mirabolante para o chinês conquistar o coração de Baekhyun, o irmão popular de Kyungsoo. Baseado em "10 Coisas que Odeio em Você".


Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#comediaromantica #romcom #lemon #fluffy #romantico #colegial #sidesuchen #sidebaekxing #sesoo #exo #10coisasqueeuodeioemvoce
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Romeu


Pessoalmente, a Busan Senior High School — ou apenas Busan High, como os alunos a chamavam — parecia exatamente como nos folhetos de admissão que Yixing tinha recebido em sua casa, quando ainda estava na China. Se constituía em um complexo de prédios quadrados pintados em um tom cinza chumbo, com um pórtico todo de vidro bem na frente. Apesar da estrutura num geral ser bastante imponente, também passava um ar contemporâneo e os alunos que transitavam para dentro e fora do colégio com seus uniformes chiques contribuíam para deixar o ambiente com uma aparência até que bem amigável. Bom, era uma escola de artes, no final das contas.


Yixing sentia-se ansioso para conhecer melhor cada cantinho daquele que seria o seu teto durante boa parte da semana ao longo do último ano de estudo. E foi com um pequeno sorriso e o coração palpitando de expectativa que segurou o mapa da instituição aberto em frente ao rosto, pronto para seguir até a sala do Conselho Estudantil, onde tinha uma reunião marcada com Bae Joohyun, a conselheira, para que o colégio lhe fosse propriamente apresentado.


— OLÁ!!!


— Minha nossa! — Yixing gritou, quase rasgando o mapa ao meio de susto e levando as duas mãos ao coração ao ser surpreendido pelo berro e o sorriso imenso que havia flutuado até a sua cara aparentemente do nada.


— Oh, desculpe! — disse o garoto que o cumprimentou, a franja acobreada escapando do buraco do boné displicentemente virado para trás. Ele desceu de uma espécie de skate automático e colocou-o debaixo do braço — Meu hoverboard assusta as pessoas, às vezes. Você é o chinês, certo?


— Eu... eu acho que sim? — Yixing respondeu, ainda um tanto abalado.


— Acha? — o garoto riu — Qual o seu nome?


— Zhang Yixing.


— Ok, definitivamente chinês. — estendeu-lhe uma mão pequena meio escondida pela manga do blazer escolar — Bem vindo, padawan, eu sou Kim Jongdae. A Srta. Bae anda meio ocupada e me pediu pra te dar uma força por um tempo, tudo bem?


Devidamente recuperado, mas ainda tímido, Yixing apertou a mão de Jongdae.


— Eu, ahn... estava tentando justamente chegar na sala do Conselho. — informou ao rapaz, mostrando a ele seu mapa todo enrugado.


— Ah, não se preocupe, eu vou ser seu guia agora. — repentinamente fez uma careta — Mas, sinceramente? Quem ainda usa um mapa de papel? Eu entendo o apelo vintage, mas nós temos um aplicativo da escola pra isso.


— Eu não sou muito ligado em tecnologia. — explicou-se, tratando de amassar o mapa de vez em um tamanho que coubesse no bolso até poder ser jogado no lixo.


— Acho bom começar a ficar, nós fazemos tudo nessa escola pelo app. — começou a enumerar as funções uma por uma com os dedos — Colocamos neles as datas das reuniões dos clubes, das aulas, provas e palestras, as notas do ano inteiro, as notícias sobre os eventos esportivos e, o mais importante, o dia-a-dia da comunidade escolar num geral.


— Como assim, o dia-a-dia?


— Tipo... acontecimentos relevantes das relações interpessoais entre os alunos...


— Você quer dizer... fofoca?


Jongdae abriu e fechou a boca algumas vezes, sem saber como responder bem àquela pergunta. Sim, era fofoca, mas dentro daquela escola era um conteúdo importantíssimo. Colocou a mão que não segurava o hoverboard na cintura, ponderando a melhor forma de explicar a significância daquelas informações para a sobrevivência dentro da Busan High.


— Chega aqui. — chamou o chinês com um aceno de cabeça, mostrando o pátio apinhado de alunos em horário livre ou de intervalo — É o seguinte. Nessa escola nós temos uma certa... "hierarquia" não é bem o nome... é mais uma... divisão de castas.


— Castas? — repetiu, um tanto chocado.


— Não entenda mal, nós fazemos isso por autopreservação. Essa é uma escola de artes, um habitat dominado pelo ego, padawan. — colocou uma das mãos sobre o ombro de Yixing, apaziguador, enquanto apontava com a cabeça um grupo de alunos altos e musculosos — Aqueles ali, por exemplo. Eles são os atletas. São inofensivos, exceto depois do almoço. Você sabe, muita batata-doce... — fez um gesto como se espantasse um mal cheiro do nariz — O ambiente ao redor fica insuportável. Também não é aconselhável ficar muito tempo perto deles em temporada de torneios, eles restringem carboidratos e o humor no geral fica terrível.


Jongdae começou a caminhar por entre o mar de uniformes azuis, sendo seguido de perto pelo chinês, que analisava tudo com curiosidade e um pouco de medo, não iria negar. O ruivo apontou um outro grupo de pessoas usando cordões e brincos enormes de ouro e tênis de marca cujas solas pareciam mais pneus de caminhão, e Yixing jurou que tinha visto um cara usando grills nos dentes.


— Aqueles são os rappers. Eles podiam estar no grupo dos trainees porque, bem, eles são trainees também, mas se alguém for perguntar eles dizem que não se misturam com engomadinhos. O que não faz o menor sentido, já que são todos ricos.


— Ei, Jongdae! — um garoto de cabelos escuros a alguns metros de distância interrompeu-os aos gritos — Finalmente arrumou um empregado pra limpar aqueles itens de museu do seu clube?


— Vai se fuder, Junmyeon! — Jongdae gritou de volta — Te desejo tendinite eterna por jogar aquele lixo de PUBG sem parar!


Junmyeon levantou o dedo do meio para o rapaz, rindo meio debochado, e foi retribuído em seguida por um Jongdae muitíssimo irritado.


— Aquele é o líder babaca do clube de e-Sports, Kim Junmyeon. Esses caras se acham só porque participam de campeonatos e ganham prêmios em dinheiro — estalou a língua em desgosto — Tudo um bando de cuzões inúteis apertadores de botão que jogam essas merdas sem conteúdo.


Yixing achava que um grupo de alunos que movimentava a economia escolar ganhando campeonatos não era exatamente inútil, mas resolveu manter o ponto de vista para si. Ao mesmo tempo, ficou curioso e quis perguntar a que clube Jongdae fazia parte, porém não teve tempo para isso, já que ele logo estava lhe mostrando outra panelinha.


— Ah, aqueles ali que são os trainees! — Jongdae apontou para uma aglomeração bem maior de alunos, todos muito altos, bonitos e maquiados, vários deles com cores de cabelos diferentes — O grupo parece grande porque eles estão sempre misturados com os youtubers instagramers. É uma relação meio parasitária, só não sei de quem com quem, sinceramente. São todos intragáveis, se quer saber minha opinião.


O chinês gelou onde estava e mordeu o canto da boca, nervoso.


— O que foi?


— Ahn... — Yixing hesitou, envergonhado — É que eu meio que vim pra Coréia pra... virar trainee...


— Ah. — Jongdae arregalou os olhos, igualmente constrangido depois da revelação — Mas... imagino que nem todos sejam tão ruins, né?


— Aham, claro... — concordou, nem um pouco convencido do que dizia enquanto observava os alunos que já no pre-debut pareciam modelos de passarela. Sentiu-se repentinamente acuado, pois mantinha a aparência de adolescente de Changsha de sempre, um pouco magro além da conta e com cabelos do mesmo tom escuro com que tinha vindo ao mundo.


— Veja bem, — Jongdae prosseguiu — isso é só um estereótipo geral baseado em certo tipo de aluno. Por exemplo, aquele cara ali. — mostrou o garoto mais alto e mais forte de todos, quase do mesmo porte dos atletas, mas extremamente bonito com seu sorriso enorme e cabelos prateados e sedosos que se destacavam mesmo em meio a tantas cores diferentes — Park Chanyeol. Ele é cantor e modelo nas horas vagas. O queridinho dos professores de música porque "tem uma voz profunda". Dizem que a Tommy Hilfiger o patrocina e que ele vai debutar na SM Entertainment depois de se formar.


— Uau! Ele deve ser incrível e super talentoso!


— É um imbecil.


— Ah.


— Repara só como ele é forçado.


E, de fato, quando se olhava uma segunda vez, podia-se notar como o Park tentava a todo custo chamar mais atenção que os outros, falando mais alto e rindo escandalosamente a todo momento de uma maneira nada natural. Dava para perceber o quanto ele estava querendo ser descolado, jogando os cabelos prateados para trás como se estivesse na porcaria de um comercial de shampoo. De repente, toda a beleza e simpatia daquele garoto pareceu forjada aos olhos de Yixing. Entendia porque aquele jeito dele podia ser considerado bem irritante. Principalmente depois que aquele garoto apareceu.


Ele parecia pequeno, ainda mais ao lado do Park e do amigo moreno que o acompanhava. Não tinha os fios pintados em cores berrantes, mas em um castanho claro simples que só evidenciava a delicadeza de seu rosto. Tampouco usava acessórios extravagantes ou itens de marcas caras, só o uniforme da escola estrategicamente desarrumado para parecer despojado, mas não totalmente desleixado. As mãos, que eram as mais lindas que Yixing já vira, estavam fechadas ao redor da alça da mochila pendurada em um ombro só. E o sorriso. Ah, o sorriso...


— Q-quem é aquele? — o chinês perguntou com os olhos vidrados no garoto.

Jongdae vasculhou o grupo por alguns segundos até entender quem estava sendo citado e bufou exausto. Sabia de quem Yixing estava falando. Todo mundo só falava dele o tempo inteiro, chegava a ser chato.


— Aquele é Do Baekhyun. E pode parar.


— Parar? O quê? — assustou-se primeiro para logo depois deixar o semblante se desfazer em desânimo, como um cãozinho que caiu do caminhão de mudança — Por quê?


— Todo mundo quer pegar esse cara na escola. As meninas querem, os caras gays querem e, acredite, até alguns caras héteros querem.


— Você também? — perguntou, subitamente preocupado.


— Eu não, credo! — desdenhou — Na boa, não sei o que as pessoas vêem nele.


— O sorriso. — Yixing respondeu.


— Tem dentes. E...?


— Parece que meu coração vai quebrar em mil pedaços só de olhar pro sorriso dele. — disse Yixing com uma voz suave, ignorando qualquer deboche vindo do outro.


— Padawan... — Jongdae deu palmadinhas nas costas do colega, consolando-o — Veja bem, não que eu queira tirar as suas esperanças...


— Mas? — perguntou, já esperando algum contra.


— É impossível.


O novato torceu os lábios, exasperado.


— É assim que você não quer tirar minhas esperanças?


— Yixing, não bastasse o fato dele ser o mancebo mais cobiçado dos sete reinos ou o que seja, — revirou os olhos — Baekhyun ainda tem um agravante: ele não sai com ninguém . Nunca. Em tempo algum.


— Por que?


— Parece que o pai não deixa eles namorarem. Nem ele nem o irmão. Os dois estão em regime total de clausura e virgindade até se formarem para não atrapalhar os estudos.


— Mas o quê? — estava completamente em choque — Estamos em que ano, 1018?


— Estamos no ano: esquece.


— E como eu poderia esquecer de pensar? — disse Yixing, mirando Baekhyun de longe com olhos apaixonados — Acho que meu coração realmente nunca tinha amado até agora...


— Cara, você literalmente botou os olhos nele há, tipo, três minutos, what the-? Tá, tudo bem. — bufou mais uma vez, não acreditando que teria que ajudar o garoto que mal tinha chegado a participar de uma conquista já perdida. O seu defeito era ser bonzinho demais o tempo todo — Olha aqui, ô, Romeu. Ouvi dizer que Baekhyun está precisando de um tutor de inglês esse ano porque tem dificuldades na matéria. Se quiser, pode tentar ajudar ele.


— Eu quero! — Yixing virou-se para Jongdae, mais animado do que deveria.


— Ótimo. Você sabe bem inglês, então?


— Eu vejo Friends legendado.


— Vai ter que servir. — deu de ombros — Vamos, tenho que te mostrar o resto da escola.


♥♥♥


Do Kyungsoo sempre saía da sala do Conselho Estudantil mais estressado do que quando entrava. Deveria estar habituado à rotina de frequentar aquela sala pelo menos uma vez por semana devido ao seu temperamento, digamos... não-convencional. Kyungsoo era extremamente participativo durante as aulas, sempre com uma opinião esperta na ponta da língua, o que, ao seu ver, era muito positivo para a dinâmica de classe, mas um verdadeiro pesadelo para os professores. No fim, acabava passando por ali toda vez, como um déjà vu indesejado que começava com uma reprimenda leve e terminava com a Sta. Bae lhe mostrando empolgada o último capítulo da fanfic de One Direction que escrevia. Suas expulsões eram sempre bizarras e sem propósito nenhum.


— Oh, olá, SooSoo! — disse Chanyeol, aparecendo do nada com um sorriso quase maior que a própria cara e esticando um dos braços sobre os ombros do garoto — O que faz aqui a essa hora da tarde? Pensei que tivesse aula de Literatura agora. Foi expulso de novo? Qual tarefa você não quis fazer por ser de um autor "misógino e homofóbico" do século passado?


Kyungsoo, num movimento totalmente imprevisível, torceu o braço de Chanyeol para trás, imobilizando-o.


— Primeiro, — disse num tom monótono — o que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta. Segundo, o que você está fazendo aqui a essa hora da tarde? Deixa eu adivinhar, — olhou pensativo para o teto, ignorando as caretas de dor de Chanyeol — deve estar parasitando pela escola como sempre, enfurnado em algum canto fumando e estragando os pulmões que teoricamente vão ser seus únicos instrumentos de trabalho além desse couro cabeludo maltratado. Terceiro, fica longe do meu irmão.


— Mas... o quê? — protestou — Eu nem falei nada sobre o Baekhyun!


— Não interessa, fica o recado. Pensa que eu não vejo você rastejando atrás dele como uma cobra prestes a dar o bote?


Chanyeol, mesmo naquela posição desconfortável, arrumou forças para abrir um sorrisinho convencido.


— Está com ciúmes? Se quiser, podemos combinar um ménagAAAH!


O pulso do trainee foi puxado até quase a nuca e sua fala havia sido entrecortada por um grito de dor. Ao redor, alunos encaravam os dois e cochichavam sem se intrometer, afinal, aquela cena era bem mais comum do que deveria e o Do parecia ainda mais assustador quando irritado com Chanyeol. Kyungsoo se aproximou do ouvido do rapaz, sussurrando com uma voz anormalmente calma.


— Repete comigo: "eu vou ficar longe do seu irmão".


— Qual é, Kyungs- aaah! — os ossos do ombro de Chanyeol começavam a estalar, deixando-o finalmente preocupado — Tá bom, tá bom! Eu vou ficar longe do Baekhyun!


— Muito bom. — anunciou, finalmente liberando o rapaz, que gemeu de alívio — Tenta lembrar dos anos de karatê que eu já pratiquei toda vez que chegar perto do Baek ou sequer pensar em me chamar de SooSoo de novo.


O garoto ajeitou a mochila nos ombros pequenos e continuou seu caminho através do corredor, de costas se assemelhando muito mais a uma criança do jardim de infância do que ao cara que quase havia quebrado o braço do colega de escola minutos atrás.


— Psicopata! — Chanyeol esbravejou, massageando o ombro dolorido quando o outro já estava a uma distância segura – Saiba que o meu escalpo é extremamente resistente!


— Que coça, hein? — Um dos amigos do trainee, Kris, surgiu de repente, achando graça da situação.


— Onde você estava enquanto eu tava apanhando, filho da puta?


— Por aí. — deu de ombros tranquilamente, mostrando que pouco se importava — E aí, finalmente vai desistir do seu menino Baekhyun?


Se Chanyeol achava que Kyungsoo parecia um psicopata, ele deveria se olhar num espelho no momento em que sorriu cheio de si para Kris.


— Sou um homem de palavra, Wu.


— Sei...


— Eu pretendo, sim, me manter longe do Baekhyun. O difícil vai ser ele querer se afastar de mim.


— Você tá se achando demais, até pro seu padrão, Park. O moleque nem pode sair de casa sem uma babá...


— Quer apostar? — ergueu as sobrancelhas, sentindo-se desafiado. Aquele era seu esporte preferido.


♥♥♥


— Rhythm after summer is everywhere.


— Rhyt after-


— Não, não... Rhythm. Tem que colocar a... — Yixing pigarreou — a língua... atrás dos dentes no final. Rhythm.


— Rytm.


— Rith-um.


— Ah, eu desisto! — Baekhyun reclamou, cruzando os braços e fazendo um biquinho adorável.


— Tá tudo bem, Do...


— Baekhyun. — corrigiu — Melhor, Baek. Não vou suportar você me chamando pelo sobrenome da minha família disfuncional até o fim das aulas.


— Tá... Baek. — Yixing repetiu, sentindo o coração quase saltar pela boca com aquela intimidade — Não se pressione demais, você está indo muito bem. A pronúncia é sempre mais complicada, mas é porque nosso sistema fonético é muito diferente do americano e-


— Não, não é nada disso, Xing. — interrompeu-o, espantando um incômodo invisível com as mãos — É só que... tem muita coisa na minha cabeça no momento, entende? Problemas familiares, o que pode ser resumido com: meu pai é louco e meu irmão é desequilibrado.


— Ah, seu irmão... Kyungsoo, certo?


— Ele mesmo. — bufou, irritado até mesmo ao lembrar da existência do garoto — Talvez você já tenha ouvido por aí que meu pai tem uma regra forjada nas masmorras da Idade Média de que eu e meu irmão só podemos namorar depois de terminar a escola.


Yixing esfregou a nuca, embaraçado.


— É, acho que já ouvi algo por aí...


— Pois então, querido... Ontem tivemos um plot twist na hora do jantar.


Querido. Yixing sentia como se um hamster estivesse correndo loucamente numa rodinha bem no seu estômago depois de ouvir o apelido, mas tentou manter o controle. Não era nada demais, só o jeito dele, havia aprendido isso naqueles quase dois meses de tutoria. Baekhyun era daquele tipo de pessoa que se dirige com apelidinhos a todo mundo. Era uma mania meio falsa e irritante na boca da maioria das pessoas, mas na dele soava simpático e doce, apenas por ele ser tão cativante. E finalmente, depois de todo aquele tempo, ele estava se abrindo para para Yixing, então o chinês precisava ser sábio com o que iria dizer ou fazer dali para frente.


— Papai disse que eu agora posso namorar... se Kyungsoo namorar. — o rapaz continuou — O que seria ótimo se meu irmão não fosse uma criatura abissal.


Os olhos de Yixing se tornaram desesperançosos no mesmo instante.


— Isso é uma pena — entrelaçou os próprios dedos, aflito — E-eu... estava pensando em te chamar pra sair algum dia.


O sorriso que Baekhyun abriu era mais brilhante do que todas as joias dos rappers da escola empilhadas.


— Sério? — ele parecia legitimamente lisonjeado — Eu adoraria sair com você, Xing... — Piscou os olhos inocentemente, fazendo o chinês sentir seu corpo perdendo forças aos poucos. Teria que mandar uma mensagem para Jongdae vir buscar seus restos mortais depois daquela conversa — Mas, antes, precisamos passar pela besta-fera.


♥♥♥


Jongdae estava certo de que, em outra vida, tinha feito algo muito ruim para a humanidade. Só isso explicava estar pagando todas as penitências possíveis ao tentar arrumar um encontro para uma pessoa que ele nem conhecia direito, para que outra pessoa que ele nem conhecia direito pudesse ter um encontro com uma terceira pessoa que ele não conhecia direito. O garoto apertava a ponte do nariz por sobre os óculos de leitura de armação grossa, analisando a lista de possíveis pretendentes para Do Kyungsoo em suas mãos, enquanto caminhava com Yixing, que carregava os materiais de ambos, até a sala de Artes.


— Que ser humano aceitaria sair com esse tipo de pessoa? — Jongdae exasperou-se, apontando a lista.


— Foi exatamente a pergunta que Baekhyun me fez se referindo ao próprio Kyungsoo quando eu pedi que me desse alguns nomes de quem aceitaria sair com ele.


— Mas, meu deus? Olha bem isso. — começou a enumerar algumas pessoas na lista — Kim Jiwoo, a stalker? Nem pensar! Pra começo de conversa, ela sequer tem noção da existência de qualquer pessoa que não seja a Ha Sooyoung, do segundo ano. E esse aqui? Nakamoto Yuta. O nerd que só faz piada de pinto. Pelo amor de deus, gente! E Kim Namjoon? Quem é Namjoon? Nunca ouvi falar desse cara na minha vida — sacudiu a lista bem no nariz de Yixing, impaciente — Isso aqui não vai servir, padawan!


— Tem mais um nome no verso da folha.


Jongdae virou o pedaço de papel e engasgou com a própria saliva, os olhos tão imensos que quase pulavam das órbitas.


— KIM JUNMYEON? — leu, praticamente berrando — Não! Nunca!


— Ué, mas por quê?


— Porque ele é um perdedor!


— Não acho, o clube de e-Sports é até bem sucedido...


— Perdedor! — retrucou irritado, logo depois fazendo uma pausa para respirar fundo e recobrar a estabilidade emocional — Olha, Kyungsoo não vai se interessar por esse tipo de millennial padrão, ele é um cara que gosta de poesia e artes, sensível...


— Fiquei sabendo que ele quase quebrou o braço de Park Chanyeol na semana passada.


— Deve ter merecido. — menosprezou — De qualquer forma, isso acontece bastante por aqui, eles se odeiam.


Os dois garotos finalmente chegaram à sala de Artes, onde Jongdae tomou sua pasta de materiais das mãos de Yixing e ambos esquadrinharam o local em busca de assentos vagos. A aula já havia começado, mas a Busan High tinha políticas brandas com relação a horários de matérias eletivas, então bastou que eles se encaminhassem para os lugares vazios no fundo da sala em silêncio e estava tudo bem. A tarefa da semana já estava descrita sobre a lousa branca e se chamava "A verdade profunda do seu coração". Um tema meio vago, na opinião de Yixing, mas por ser abstrato e não ter horário marcado para finalização, já que eventualmente poderiam terminar em casa, dava tempo para continuar debatendo os próximos passos de sua conquista com Jongdae.


— Então precisamos de uma pessoa inteligente e não muito fútil? — sussurrou ao amigo — Bonita, de preferência?


— Aham. — Jongdae concordou com a cabeça, enquanto arrumava os pincéis e tintas ao lado do cavalete de pintura — E muito, muito durona pra conseguir lidar com o gênio difícil do Kyungsoo.


— Hm... — Yixing murmurou pensativo com a ponta de um lápis apoiada no queixo, analisando secretamente os outros alunos na sala. Não conseguia encontrar ninguém que se encaixasse nos parâmetros do irmão de Baekhyun e ficou subitamente tenso. Estava vendo aos poucos sua pequena oportunidade de ter o encontro com o cara mais lindo de sua existência indo por água abaixo. Até que... — Jongdae! — Chamou o amigo com tanto entusiasmo que alguns alunos chegaram a encará-los de cara feia. Mas Yixing não ligava, tinha acabado de ter uma epifania e não seria capaz de ignorá-la — Jongdae, aquele cara! — apontou para um rapaz alojado no canto mais escuro do cômodo.


Ele era alto e bonito como um dos modelos da escola, mas sem toda aquela camada de falsidade que os cobria. Os cabelos platinados tinham as raízes escuras aparentes e estavam displicentemente jogados com gel para trás, conferindo-lhe um aspecto de quem não se importa demais com frivolidades. Tinha os olhos rasgados delineados de preto e usava a gravata do uniforme com um nó tão frouxo que poderia se desfazer a qualquer momento. Sexy sem esforço.


— Oh Sehun? Você ficou maluco? — Jongdae sussurrou de volta, alarmado — Não ouviu ainda o tipo de barbaridade em que esse cara já se meteu?


— Hm... não?


— Você precisa mesmo começar a usar o app do colégio, Yixing! — comentou insatisfeito — Esse cara é perigoso, ninguém sabe como ainda não foi jubilado daqui. Dizem que ele tem uma tatuagem da máfia nas costas. Da Yakuza. Um dragão.


— Existe Yakuza na Coréia? — perguntou verdadeiramente espantado.


— Sei lá. Mas ouvi dizer também que já trabalhou num clube de strip e parece que é envolvido com satanismo.


Yixing riu, incrédulo.


— Por favor, isso já é ridículo...


Os dois amigos olharam na direção do garoto no momento em que o professor Kim Heechul circulava entre os alunos para observar o desenvolvimento dos trabalhos.


— Senhor Oh, não precisa ser tímido, sei que é um dos meus alunos mais talentosos. — disse o professor ao loiro — Vire o seu cavalete para cá, vamos.

Sehun apertou os lábios numa linha fina de óbvia contrariedade enquanto mostrava a própria pintura ao mestre.


Era nada menos do que um pentagrama invertido com uma cabeça de bode no centro e envolta em chamas escarlates.


Jongdae cobriu a boca com as mãos e puxou tanto ar de uma vez só que fez barulho e chamou a atenção de Oh Sehun. O rapaz encarou-o brevemente de cenho franzido antes de esconder o desenho.


— Essa é a vontade mais profunda do coração dele? — Yixing perguntou aos sussurros, estarrecido.


— Um belo... trabalho, sem dúvidas, Senhor Oh. — elogiou o professor, mantendo o profissionalismo — Mas o que acha que trabalharmos um pouco mais com a subjetividade e sentimentos mais complexos? Ou apenas algo que eu possa apresentar mais tarde na diretoria sem que meus colegas mais conservadores saiam numa ambulância? — sorriu-lhe simpático.


Jongdae começou a fazer repetidos sinais da cruz.


— O cara é metido com o próprio satanás, escuta o que eu tô te falando, Xing, eu sou católico! — murmurou.


— Bom, ele até que tem talento, no fim das contas. Ele parece inteligente e certamente é... sensível.


— Você só pode estar brincando...


— E ele é durão também, pelo visto. Acho que devemos tentar.


— Senhor, — Jongdae choramingou, olhando para os céus — por que me abandonastes?


♥♥♥


— Oh Sehun? — Baekhyun não conseguia parar de rir. Aquele plano estava saindo melhor do que a encomenda — Nossa, isso vai lindo de se assistir, tô amando! — enxugou as pequenas lágrimas de riso acumuladas nos cantinhos dos olhos — O pior é que, por algum motivo, acho que pode dar certo. Tem gente que chama meu irmão de Satansoo, pode ser que eles comecem uma seita ou sei lá. — voltou a rir, dessa vez mais comedido.


Sentado ao lado do rapaz na mesma cadeira de sempre na sala de estudos, poucos dias depois da conversa que tiveram sobre as políticas rígidas da família Do, Yixing acompanhava aquele riso sem nem saber o porquê. Só sentia uma vontade anormal de sorrir perto de Baekhyun o tempo todo. Para ele, o garoto era como o sol, e as rápidas aulas de inglês eram sua dose de energia da semana, alimentadas pela visão daqueles pequenos caninos brancos e pontudinhos.


— A grande questão é saber como pretendem convencer o Oh a sair com meu irmão. — Baek argumentou, batendo com a borrachinha na ponta do lápis nos lábios.


— Bom, podemos só dizer que Kyungsoo é a fim dele. — explicou Yixing, simplista — Não deve ser tão complicado, seu irmão é um cara bonito.


— Ah, ele é? — levantou uma sobrancelha, inquisidor.


— Não, e-ele... não... é... — Yixing se pegou gaguejando sem querer — V-você é muito mais, Baekhyun.


— Ah, eu sou? — provocou.


— Sim, é c-claro. — o chinês àquela altura devia estar vermelho até no couro cabeludo.


— Eu também acho. — assentiu, bagunçando a franja castanha com movimentos rápidos de seus dedos longos — Mas enfim. Acho que não vai colar, os dois são espertos demais pra caírem nessa. De qualquer forma, você precisa ser rápido, XingXing. — puxou a própria cadeira para mais perto do outro, como se lhe contasse um segredo de estado — Em algumas semanas vai rolar aquela festa na casa de Kim Junmyeon, pode ser o momento perfeito pra juntar esses dois.


— Pensei que essa festa fosse apenas para os membros do Clube de e-Sports.


— E era. Até seu amigo Jongdae subir a notícia no aplicativo da escola para todos os alunos verem.


— Ai, Jongdae...


— Ele realmente detesta o Junmyeon, né?


— Eu simplesmente não consigo entender o motivo.


Baekhyun meneou a cabeça, ponderando as opções.


— Acho é um tanto de tensão sexual enrustida e um pouco de inveja, já que o clube dele não é lá muito popular. Até foi, por um tempo, mas a maioria dos membros enjoou rápido e acabou migrando para os e-Sports.


Yixing concordou com um aceno. Tinha conhecido o clube de Jongdae, de "Preservação da Cultura Vintage" ou algo assim, e entrado por compaixão ao amigo que lhe era tão prestativo. Porque, por mais que fosse até uma premissa bacana, a falta de membros tornava as atividades um tanto monótonas. No final do dia, eram apenas Jongdae e Yixing jogando Nintendinho numa sala enorme e vazia. Um pouco deprimente, ele diria.


— Uma pena, a ideia do clube é bem divertida.


— Sim, mas não traz dinheiro nem visibilidade, né? Tadinho. — comentou, sem parecer minimamente abalado com a falta de popularidade do clube — Bom, anyway... — usou o termo em inglês com uma carinha travessa de quem quer mostrar ao professor que anda fazendo a lição de casa — Sobre a festa, agora já é tarde demais e, mesmo que o Junmyeon tente desconvidar todo mundo, as pessoas vão aparecer por lá. A saída mais fácil é abrir as portas e seja o que deus quiser.


— E você... — engoliu em seco — pretende ir também?


O convite estava lá, implícito, e Baekhyun olhou Yixing por baixo dos cílios grossos, as bochechas corando de leve e um sorrisinho tímido brincando no rostinho bonito. Nessas horas, o chinês queria se bater para ter certeza que o garoto era de verdade mesmo, tão precioso, tão angelical.


— Bom, se Kyungsoo for... por que não, né?


♥♥♥


Encontrar Oh Sehun pelos corredores da escola em horários vagos era praticamente uma caça ao tesouro. E assim, os dias se arrastaram sem que Jongdae ou Yixing conseguissem evoluir no plano que bolaram. O cara tinha praticamente um superpoder de se esconder nas sombras e desaparecer absolutamente do nada, o que dificultava muito uma aproximação para falar sobre Kyungsoo.


O que não poderia jamais ser dito sobre Park Chanyeol. Esse, sim, parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, principalmente aqueles onde Baekhyun também estava. Era todo braços e dentes para cima do Do mais novo e Yixing não podia negar que sabia que seu amado amava ser amado. Por isso ainda estava ali parado no meio do pátio da escola, observando os dois de longe de braços cruzados enquanto Jongdae, ao seu lado, mastigava tranquilamente o sanduíche que havia trazido para o almoço. O ruivo olhou da cena entre Baekhyun e Chanyeol para o próprio amigo, e tratou de esfregar o indicador nas rugas formadas em sua testa, na tentativa de desfazê-las.


— Se quiser ser idol um dia, precisa manter a boa aparência. Vai ficar cheio de marcas de expressão desse jeito. — explicou — Tenta relaxar, padawan, você tem muitas qualidades a mais do que o Park. Baekhyun vai saber fazer a escolha certa.


— Obrigado. — respondeu, tentando afrouxar os ombros e a expressão aborrecida — Eu só estou meio desanimado, sabe? Acho que vai ser impossível conseguir colocar Sehun no mesmo ambiente que Kyungsoo. A festa seria uma ótima ocasião, mas... Sehun é mais escorregadio do que uma enguia em um tanque.


— Tentou falar com ele de novo?


— Como sempre, ele disse que não tem tempo de tratar com pirralhos, blablabla. Não entendi, já que temos a mesma idade. Ele falou que, da próxima vez que quisesse fazer ele perder tempo com intrigas de novela adolescentes, deveria pagar a diária dele.


— Diária? — perguntou Jongdae, curioso.


— Parece que ele está trabalhando no bairro vizinho.


— Pensei que ele estivesse treinando dança em uma agência de entretenimento.


— Dança? Oh Sehun é... dançarino? — questionou Yixing, ainda mais assombrado que o outro.


— Um dos melhores que temos. — Respondeu meio aéreo, com uma das mãos apoiadas no queixo. Yixing quase podia ver fórmulas matemáticas e engrenagens funcionando dentro da cabeça do amigo — Quer dizer, então, que Oh Sehun está trabalhando... Estranho, já que a família dele é bem rica. Será que isso pode ser uma oportunidade?


O chinês finalmente entendeu até onde estava indo aquela ideia e sua mandíbula quase se deslocou e foi parar no chão.


— Você não está pensando em pagar ele pra sair com Kyungsoo, né?


— Claro que não! Você acha que eu vou ficar me envolvendo com a Yakuza?


— Eu tenho quase certeza de que essa história é mentira... — Yixing murmurou. Jongdae ignorou-o.


— Não, padawan, eu prezo pela minha vida e meus valores católicos. Mas a gente pode, sim, se valer de uma pequena troca de favores. Se Sehun está trabalhando, deve estar bem desesperado por algum tipo de independência.


— Favores? De quem pra quem? Eu não tenho absolutamente nada pra oferecer.


— Não estou falando de você, pequeno orgulho de Changsha. — suspirou cansado e segurou o queixo do amigo com uma das mãos, guiando seu olhar até Park Chanyeol novamente — Estou falando dele.


♥♥♥


Número desconhecido

14:32

Olá, Park.


Park Chanyeol

14:35

quem é?


Número desconhecido

14:35

Um aliado.


Park Chanyeol

14:35

quê?


Número desconhecido

14:36

Uma pessoa disposta a te ajudar.

Você tem interesse em ficar com Do Baekhyun, certo?


Park Chanyeol

14:35

primeiro: não te interessa

segundo: desde quando eu preciso de ajuda pra isso?


Número desconhecido

14:36

Desde que nós dois sabemos que Kyungsoo nunca vai permitir que aconteça.

A não ser que você aceite a minha ajuda.


Park Chanyeol

14:36

cara, eu nem sei quem você é

deve ser um maluco do caralho

apaga meu número e me esquece


Número desconhecido

14:36

Ok.

Mas saiba que foi escolha sua a de levar a fama de rejeitado pelo Do.

Ou melhor, pelos dois Do.

Passar bem.


Park Chanyeol

14:45

qual é esse seu plano pra "me ajudar"?


Número desconhecido

14:46

Tem um cara, Oh Sehun, que sairia com Kyungsoo em troca de uns favores.

Você poderia, sei lá, mexer uns pauzinhos dentro da SM, conseguir umas audições, indicar ele pra uns concursos.


Park Chanyeol

14:47

só isso? pensei que quisesse grana


Número desconhecido

14:47

Oh Sehun não se venderia assim.


Park Chanyeol

14:47

você é ele?


Número desconhecido

14:48

Não.


Park Chanyeol

14:48

então quem é, porra?

e o que você quer em troca?

por que é óbvio que você quer alguma coisa


Número desconhecido

14:48

Como disse, sou um aliado.

Mas não seria nada mal dar uns pulos no Clube de Preservação da Cultura Vintage de vez em quando.

Sabe como é, pra dar uma movimentava e ajudar a aumentar o número de membros.


Park Chanyeol

14:48

kim jongdae, é você?


Número desconhecido

14:50

Droga.


♥♥♥


Park Chanyeol

15:30

oh sehun, aqui é park chanyeol

tenho uma proposta pra te fazer


♥♥♥


Qualquer um que visse aquela cena a acharia, no mínimo, hilária. Lá estavam, na mesma mesa, um chinês recém-chegado no pedaço, um nerd de um clube fracassado e um possível membro satanista da máfia dividindo uma travessa enorme de churrasco num dos refeitórios chiques da escola como se fossem melhores amigos de uma vida. A sorte é que os três eram tão excluídos que ninguém estava nem aí.


Oh Sehun tinha acabado de dar a última mordida num pedaço especialmente suculento de carne e sorveu um gole grande de Coca-Cola antes de relaxar o corpo sobre a cadeira de madeira, satisfeito. Conferiu uma última vez as mensagens que havia acabado de receber e bloqueou a tela, guardando o celular no bolso do blazer azul escuro.


— Espero que esse esquema dê certo pra você, pirralho. — disse a Yixing.


— Nós temos literalmente a mesma idade, Sehun.


— Que seja. — sacudiu os ombros, aproveitando a deixa para levantar e colocar a mochila nos ombros — Agradeço pelo almoço, crianças, mas tenho que ir ganhar dinheiro. Tenho um encontro no próximo fim de semana. — piscou o olho, certo de que estava com tudo sob controle.


♥♥♥


Baekhyun estava quase arrependido de ter escolhido uma calça tão justa para sair naquela noite.


— Vai valer a pena. Vai valer a pena. — repetia o mantra a si mesmo, tentando focar nas olhadas que atrairia de Chanyeol. Se sua bunda e coxas já chamavam a atenção do trainee debaixo daquele uniforme horrível da Busan High, imagina sob o jeans apertado que usava.


Com dificuldade, passou uma perna sobre o parapeito da janela, tentando calcular o grau de estrago que sofreria ao cair dali. A altura não era muita e Baekhyun certamente poderia usar um pouco de sua destreza adquirida com anos de hapkido naquela empreitada, mas queria terminar aquilo o mais apresentável possível para ir à festa de Kim Junmyeon.


Respirou fundo uma, duas vezes antes de deixar o corpo escorregar do telheiro embaixo da janela de seu quarto até os arbustos altos que enfeitavam a frente da casa. Foi um pouso quase perfeito, sem danos físicos e praticamente nenhum estético. Orgulhoso de si mesmo, Baekhyun se pôs de pé e começou a espanar distraidamente algumas folhinhas que ficaram grudadas em seu cabelo.


— E em primeiro lugar no salto em altura, — disse uma voz grave e monótona em meio às sombras da varanda — pulando de três metros e meio e perigando quebrar o pescoço está ele, Do Baekhyun! Palmas! — e ele mesmo começou a aplaudir sozinho.


Baekhyun inflou as narinas furioso ao conseguir enxergar Kyungsoo sentado no balanço de madeira ao lado da porta, todo coberto com um conjunto de moletom escuro, desafiando a paciência e o senso de moda do irmão.


— Fala baixo, o papai tá dormindo! Se ele descobrir alguma coisa sobre isso, eu te mato.


— É sério que você está mais preocupado com o papai? — Kyungsoo debochou — Quem não vai te deixar sair dessa casa hoje sou eu, Kyoong. Não vou te largar na mão daquele fodido do Park.


— Mas quem está falando do Chanyeol aqui? — jogou as mãos para o alto — Eu só queria poder ter uma vida normal, longe da insanidade dessa família, e poder desfrutar da minha popularidade que você tanto inveja!


Kyungsoo gargalhou.


— Eu tenho um total de zero invejas da sua popularidade, Kyoong. Pensei que a essa altura já tivesse percebido que prefiro minha própria companhia.


— Mas eu não, Kyungsoo, que inferno! — Baekhyun respirava forte e tentava tanto segurar o choro que ameaçava cair, que sentia o peito queimando do esforço. Mas não podia chorar, ou arruinaria o trabalho lindo que havia feito com o delineador — Eu já me sinto sozinho o suficiente nessa casa depois da morte da mamãe e com o nosso pai ausente que tenta compensar o papel que deveria ter na nossa educação com atitudes imbecis que não fazem o menor sentido! — soltou o ar todo de uma vez só, sentindo o rosto se encharcar de lágrimas — Eu quero estar ao lado das pessoas que eu gosto e namorar e dançar e rir pra lembrar que sou jovem e que não preciso levar tanto peso nas costas o tempo inteiro!


Com um suspiro profundo, Kyungsoo se levantou do balanço e caminhou até o irmão. Analisou o rosto vermelho de raiva e os olhos agora manchados de delineador preto. Era impressionante como ele conseguia ser lindo até desse jeito. Essa era a parte que Kyungsoo sentia inveja, de fato. Não da beleza física em si, mas da inocência do irmão, de como ele ainda se permitia ser quem era mesmo depois de tudo o que haviam passado. Perder a mãe quando se é muito pequeno é mais difícil do que parece e deixa marcas que quase ninguém vê. Carinhosamente, passou os polegares sob os olhos pequenos, arrumando o estrago que, de certa forma, havia ajudado a criar.


— Tudo bem. — concluiu, exausto e de coração partido — Vamos pra essa tal festa.


Baekhyun abriu a boca em choque.


— O quê? É sério isso?


— Sim, vambora. — pegou o celular do bolso do moletom e digitou rapidamente algumas palavras antes de bloqueá-lo e segurar a mão do irmão — Pronto, avisei ao papai pelo kakaotalk, caso ele acorde e não veja a gente em casa. Amanhã eu converso melhor com ele.


— Obrigado! Obrigado, obrigado, obrigado! — falou com sinceridade e um enorme sorriso no rosto.


— Tá, tá. — revirou os olhos — Espero que você tenha dinheiro aí, porque sua punição é me bancar hoje. Se eu voltar pra buscar qualquer coisa em casa, ficar por lá mesmo vai ser atrativo demais e eu não vou resistir.


— Eu te amo, SooSoo.


♥♥♥


Para Kyungsoo, a festa de Kim Junmyeon e o inferno estavam separados por muito pouco. Todo o tipo de ilegalidade e música pop de baixo nível se misturavam aos adolescentes riquinhos de Busan como a combinação mais esdrúxula do mundo. Como esperado, em questão de segundos Baekhyun havia sumido de sua vista e agora ele estava ali, plantado no meio do corredor entre a sala e os quartos do primeiro andar assistindo a uma briga homérica entre os Kim's, Junmyeon e Jongdae, que gritavam raivosamente coisas desconexas e sem sentido sobre videogames e gadgets um com o outro. Pelo visto, aquela seria uma noite bem, bem longa.


— Você claramente não queria estar aqui. — disse o garoto loiro que usava um colete de couro brilhante sobre uma camiseta branca simples, parecendo uma versão coreana de James Dean ao oferecer-lhe um copo com qualquer coisa indecifrável dentro — Me identifico muito.


Kyungsoo olhou do copo para Oh Sehun como se estivesse em dúvida sobre cuspir em um ou no outro.


— Bom, então está óbvio que não vim fazer amizades. Com licença.


Entregou o copo de volta para o seu dono e deu as costas acreditando que havia se livrado do rapaz, quando na verdade estava seguido de perto por ele, que mantinha um sorriso discreto no rosto.


— Olha, — disse Sehun — eu imagino que esteja aqui pelo seu irmão e eu juro que entendo, estou aqui fugindo do meu pestinha que está em casa agora. Mas já que não temos escolha, a gente podia só aproveitar a oportunidade, certo? — colocou-se na frente de Kyungsoo para bloquear o caminho e tentou usar o melhor olhar sedutor que conseguia.


O rapaz permaneceu em silêncio por alguns segundos e, percebendo que não conseguiria passar a noite totalmente sóbrio, tomou o copo da mão do loiro sem nenhuma delicadeza.


— Errado. — e deu meia-volta de novo.


Sehun pressionou os lábios, pensativo.


É. Aquilo seria bem mais difícil do que planejava.

13 de Dezembro de 2018 às 00:37 0 Denunciar Insira 2
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