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Faz algum tempo que ela não vê o sol, mas em seus sonhos o verdadeiro amor lhe preenche a vida. É um amor calmo, puro e idôneo. Um amor que lhe traz paz ao invés de dúvidas e noites sem sono. Um amor que a corresponde por inteiro, que ao seu lado fica, saciado pelo simples fato de segurar nas mãos, ver desenhos animados, olhar nos olhos, ouvir alguma música agradável. É aquele tipo de amor que quando chega, realmente tem o poder de com um abraço terminar de colar os cacos do coração que foi partido pela indiferença rude de quem não sabia amar.


Conto Romance Todo o público.

#escritora-mary #prosa-poética #tristeza #solidão #decepção-amorosa
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Em busca do sol

Ela voltou para casa. Depois do orgulho e do medo. Depois de perceber que nenhum lugar do mundo era igual. Depois de meses tentando acreditar que poderia viver sem sonhos, uma vida pela metade, de procuras desencontradas, noites tumultuadas e dias taciturnos.

Sua casa estava ali. Nunca saiu do seu lugar. Se analisar bem friamente, seu corpo se deslocou para longe do seu coração e a dor a trouxa de volta ao exato ponto onde se encontrava.

Seu coração sempre esteve ali.

O sol reconheceu pela janela uma moça de mochila nas costas, ensopada pela chuva. Aliviado, abriu a porta. Já era noite, estava tudo muito escuro.

O sol ainda estava lá para recebê-la. E ela ao reconhecer todos aqueles timbres e tiques familiares, aquele aroma de sonho bom, de comida apetitosa e nostalgia almiscarada, eis que chorou ainda mais.

De confusão. De tristeza. De saudades não apenas das coisas como elas eram, como por si mesma também.

Quantos de nós não choramos por nós mesmos?

Não choramos por sonhos que acabaram.

Ela chora por si mesma, evidentemente.

Saudades de uma porção de coisas. Daquela música que refletia seus sentimentos. Daquele programa de televisão que não passa mais. De amigos que voaram para outros destinos. Daqueles amigos que se tornaram estranhos. Do que eles representavam. Do que eles compartilharam. De um abraço sem segundas intenções. De dormir uma noite inteira sem ter pesadelos. Do cheirinho bom de pão de queijo recém-saído do forno. Daquele trajeto que fazia para ir à aula. Daquela que foi sua rotina um dia. De pequenas alegrias que foram se acabando. Do frescor das manhãs de tempos atrás, de um passado que já começa a ser relativamente distante.

Saudades do sol.

Saudades da vida que perdeu o brilho.

Ela sabe que fez algumas escolhas equivocadas, mas não errou de propósito, apenas pensou que já não fizesse mais sentido sonhar aqueles sonhos, tentando inventar outros.

Mas nenhum lugar do mundo lhe permitiu esquecer.

Errar dói de qualquer maneira, porém o engano engata cicatrizes, e pobre do orgulho se não der o braço a torcer.

— Por que foi embora, minha menina? Senti sua falta! — Saudou o sol com o seu sorriso aconchegante, envolvendo-a com o carinho que alivia qualquer indício de descrença e solidão.

Ela respondeu com lágrimas.

O sol olhou dentro daqueles olhos de jabuticaba e compreendeu que demoraria a ver um sorriso se abrir daqueles lábios. Os soluços dela lhe cortavam a carne, eram dolorosos, exprimiam todo o desespero de alguém que já não tem mais o que perder.

O queixo dela tremia. De frio também. Um frio que vem lá do fundo da alma. Frio de desesperança. De estar em casa e não ter mais a si mesma.

As estrelas vieram recebê-la, cortesãs, amáveis, oferecendo-lhe um cobertor para envolver os braços, um cantinho no sofá.

O sol, sempre cavalheiro e cuidadoso, preparou um café forte e amargo, bem do jeito que ela gosta, e apesar de estar agasalhada, nem o pó mágico das estrelas cura o machucado do coração dela porque se trata de uma ferida muito profunda.

— Eu vou estar sempre aqui. Quando a dor for mais forte que a coragem, pense em mim. Por mais magoada e perdida que você esteja, você ainda é você. Minha criança, não fuja do seu destino. Seu verdadeiro amor não vai te fazer sofrer porque não importa a distância que a vida inflija, o amor constrói as pontes até o coração e sempre vence. Não espere quem não te espera, quem não consegue nada além do próprio desejo egoísta. Não maltrate seus pensamentos cultivando dúvidas. Siga adiante. E se a dor for muito forte, sente e pare um pouco, permita-se sentir essa dor, só não a autorize a destruir os seus sonhos, o desejo do seu coração. Não deixe que essa dor leve embora o seu melhor, a esperança que te move, que ainda tem forças para te segurar. Nos momentos de medo costumamos enxergar apenas a escuridão. Mas é porque estamos longe de casa e por isso não nos sentimos seguros. Estamos nos enganando com falsas crenças, aceitando migalhas quando podemos receber muito mais do mundo. As flores continuam embelezando a vista no jardim, os pássaros continuam cantando, encantando e procurando um lar. Você continua sendo você, mesmo triste.

Ela encontrou sua cama feita, seu travesseiro no mesmo lugar de sempre. Cheirando a fronha como que se reconhecendo ali, aspirou um leve indício da essência de cereja daquele xampu que tanto gostava. E dormiu. Um sono sem sonhos, sem premonições, sem alívio também.

Metáfora nenhuma é capaz de explicar as constituições de um coração ferido porque apesar de a medicina tradicional não diagnosticar nenhuma moléstia condenável, essa dor é sentida toda vez que ela respira.

Faz algum tempo que ela não vê o sol, mas em seus sonhos o verdadeiro amor lhe preenche a vida. É um amor calmo, puro e idôneo. Um amor que lhe traz paz ao invés de dúvidas e noites sem sono. Um amor que a corresponde por inteiro, que ao seu lado fica, saciado pelo simples fato de segurar nas mãos, ver desenhos animados, olhar nos olhos, ouvir alguma música agradável. É aquele tipo de amor que quando chega, realmente tem o poder de com um abraço terminar de colar os cacos do coração que foi partido pela indiferença rude de quem não sabia amar.

Ela acredita nesse amor e tenta se perdoar por ter fugido do seu lar, pedindo perdão aos corações que magoou nesse processo, quando foi intransigente, egoísta, impulsiva e rude, sobretudo consigo mesma.

Ela não precisa ver o sol todos os dias para saber que ele existe, que o amor dele é capaz de fazê-la levantar. Às vezes basta sentir a energia pulsante da vida continuando para perseverar, ciente de que um “até mais” não é um adeus, não se perde o que não se vai.

Acontece o mesmo com as estrelas, suas grandes amigas. Longe dos olhos às vezes, mas sempre próximas, sempre amigas, sem muito protocolo, sem bajulações.

De volta para casa, dessa vez consciente de que o destino nunca se atrasa, que fugir dele é apenas se enganar, tentar da vida aceitar menos do que merece, é usar uma roupa que não serve, que não corresponde ao estilo essencial de quem veste.

Ela se sente muito só. Feridas profundas não se fecham da noite para o dia. Mas agora ela sabe que quando a chuva passar, o seu caminho é logo ali.

E o sol, mesmo longe, sempre estará consigo. A iluminar as manhãs de primavera e de outono, reacender um sorriso, um sorriso que voltará, porque nem a pior das dores é eterna.

O medo já ensinou que não se deve confiar nele.

20 de Janeiro de 2019 às 00:01 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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