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Yoongi descobriu que Jimin não gostava de qualquer escuridão, ele gostava do negro que os olhos se tornavam quando a alma finalmente abandonava o corpo. [ YOONMIN ]



Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 18 apenas.

#suspense #mistério #yoongi #jimin #yoonmin #insanidade #min-yoongi #park-jimin
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Meu clamor

Responda-me quando clamo,

Ó Deus que me fazes justiça!

Dá-me alívio da minha angústia;

Tem misericórdia de mim

E escute meu clamor.

— Salmos 4:1

14 de junho de 2014

— Eu tive um sonho essa noite, hyung — murmurou de olhos fechados. — Eu havia feito uma coisa ruim, mas de repente não era mais eu e sim você. Eu te observava de longe fazendo o que eu estava fazendo antes.

— O que estava fazendo, Jimin?

— Matando uma pessoa.

5 de maio de 2015

O sangue, viscoso e quente, escorria lentamente pelo ralo da pia, entranhando-se entre a tinta seca e pelotas de massa de correr do encanamento, levando com ele todas as poucas provas grudadas naquelas mãos que esfregavam-se compulsivamente uma na outra em um desespero amargo que já percorria a garganta e fazia o estômago girar e contorcer, a ânsia tão forte que os joelhos fraquejaram quando o primeiro impulso do abdômen veio, o jato espirrando pela cerâmica azul bebê e pelo espelho descascado.

Segurou firme nas bordas da cerâmica gelada e cuspiu, observando a água corrente lavando vagarosamente o sangue, sua saliva e seu vômito. Ali, olhando fixamente para o ralo, seu corpo tremelicou tanto que era como se tivesse sido tomado por um orgasmo há muito tempo reprimido, a sensação vibrante percorrendo todos os seus membros e perdendo-se em sua cabeça, em sua mente, tão profunda que seus olhos reviraram e, por um instante, a luz branca da morte descrita nos filmes e livros passou na frente de suas córneas um pouco antes delas entrarem para dentro das pálpebras e tornarem-se apenas duas bolas quase transparentes de tão claras.

Seu corpo despencou no azulejo cinza e gelado. Caído, com a bochecha esmagada e cortada contra o rejunte escuro, Yoongi entendeu. Ele entendeu que o medo era o sentimento mais poderoso do coração humano, o medo movia o ser humano. E esse medo, o medo que apossava-se de todos os seus nervos, era pior do que morrer. A morte, por poucos segundos, passou-se pela sua mente como a única escapatória. Estava com medo de conviver com o medo. Estava com medo de sentir o medo mais puro e cristalino dissolvendo-se em seu corpo como cristal líquido e transformando-se em cacos quando aproximavam-se de seu coração. O único objetivo era dilacerá-lo.

Mas os cacos não o dilaceravam.

Porque seu coração também era feito de medo.

E a única coisa que poderia quebrar o medo, era a morte. Ninguém morria de medo. Mas era possível matá-lo se você conseguisse matar o corpo. E a ideia de meter um revólver na porra da testa e apertar o gatilho era tão tentadora naquele momento que Yoongi realmente riu. Ele riu escandalosamente enquanto batia a mão sem parar contra o piso sujo de sangue e vômito, a palma tornando-se vermelha e depois roxa.

Era irônico porque ele também tinha medo da morte.

Yoongi parou subitamente quando passos pesados ecoaram no fim do corredor, seus olhos arregalaram e ele tentou subir o corpo, mas não conseguiu se mover. Os braços cederam e a bochecha atingiu o chão outra vez, o filete de sangue quente grudou na pele.

— Yoonie?

Yoongi fechou os olhos com força e resmungou um pedido de desculpas, virando-se de barriga para cima e sentindo o suor junto dos resíduos nojentos melando sua camiseta. Ele sentiu vontade de vomitar outra vez, mas não por culpa da sujeira e sim por culpa da voz que continuava se aproximando. Ela tremia seus ossos.

— O que está fazendo no chão? — a voz perguntou já dentro do cômodo, a risadinha atravessando seus tímpanos sensíveis. — Vai chorar, Yoongi?

— Não, Jimin. Não vou — respondeu Yoongi. — Me deixe sozinho, por favor.

— Não vou embora.

— Vai! — Ele alterou a voz, mas ela tremeu no final. — Você vai embora! Some daqui, Jimin!

— Não.

Yoongi encarou-o com olhos suplicantes, mas o suor escorreu pelo pescoço assim que Jimin sorriu largo, inclinando levemente a cabeça para o lado, analisando-o como se ele fosse uma jóia rara que estivesse suja ou rachada. Talvez ele estivesse dos dois jeitos, mas isso não o impediu de ver o brilho estranho formando-se naqueles olhos que sempre foram opacos.

Os olhos pelos quais Yoongi apaixonou-se há um ano.

Yoongi sentia falta daquele castanho escuro e sem forma, sentia falta daquele mistério e daquele ódio presentes nas córneas de Jimin. Aquilo havia conquistado facilmente seu coração, mas depois de alguns meses, Yoongi viu aquele brilho estranho formar-se no negrume. Ele não quis acreditar que a face mais linda de Jimin estava dissolvendo-se aos poucos e dando lugar à uma outra, mas quando deu-se conta de que ele havia tornado-se mais cristalino e legível consigo, sentiu medo. Talvez não houvesse um motivo formado para tal naquela época, mas Yoongi sentiu a saliva descendo dolorida quando Jimin virou-se para ele e disse com um sorriso distorcido que gostava da escuridão, mas não de qualquer escuridão. Ele gostava do negro que os olhos tornavam-se quando a alma finalmente abandonava o corpo.

Ele não entendeu naquele momento, mas depois tudo fez sentido e Yoongi somente desejou que aquele Jimin misterioso e fechado voltasse, porque ele não queria ter que encarar o Jimin cristalino e todas as suas intenções. A máscara era melhor que o rosto bizarro por trás dela.

— Eu te amo, Yoongi.

— Você me ama? — Yoongi pôs-se sentado e deixou que uma gargalhada alta e rouca escapasse de sua garganta. — Você não ama ninguém.

— É mentira. — Jimin abaixou-se com pressa, a testa franzida em preocupação e incredulidade. — É mentira! Eu amo você, eu amo-

— Ama porra nenhuma! Se amasse, não teria feito o que fez!

Yoongi grunhiu nervoso quando teve os cabelos puxados com força para cima, seus olhos movimentando-se rapidamente entre os olhos escuros e brilhantes de Jimin e o sorriso pequeno nos lábios que ele tanto amava beijar no começo.

— Repete — Jimin ordenou com a voz calma enquanto forçava ainda mais os dedos contra seu couro cabeludo. — Repete, Yoongi.

Yoongi não reagiu. Ele ficou parado com as pernas bambas tremendo sem parar contra o piso sujo, encarando Jimin. Estava apavorado, mas também estava com raiva. Sua voz não saía, seus lábios não se moviam. Yoongi sentia-se fora de si naquele momento, parecia estar observando a cena de longe. Seu corpo era apenas um boneco nas mãos de Jimin.

Jimin sugou o ar entre os dentes e soltou seus cabelos, levantando-se rapidamente e colocando as mãos no quadris, mordendo os lábios ao observá-lo de cima para baixo. Yoongi ainda estava olhando para cima, mas o foco saiu daquele rosto quase deformado e foi parar no volume evidente que formava-se no moletom amarelo que Jimin usava.

— É excitante ver você desse jeito, sabia? Me deixa com água na boca.

— Seu pervertido maldito — Yoongi grunhiu. — Eu quero matar você.

— Você me ama. — Yoongi sorriu com aquilo. — É evidente que ama.

— Eu amo você, Jimin.

Mas aquilo era uma mentira.

E Jimin sabia.

[...]

Seu corpo ainda tremia quando acordou naquela madrugada quente. Ao mover-se de um lado para o outro na cama, sentiu o quadril afundando na poça de suor acumulada no colchão. Apesar disso, não levantou, apenas encarou o teto escuro iluminado por pequenas estrelas de plástico fluorescentes que foram coladas quando ele ainda era um adolescente.

Respirou pesadamente e cruzou as mãos acima da barriga, forçando a mente a lembrar-se do sonho que teve mais uma vez. Ele andava tendo muitos pesadelos ultimamente, todos eles envolvendo sangue, desespero e Jimin.

Jimin, seu namorado.

Yoongi havia o conhecido na faculdade, durante um dia extremamente frio. Ele normalmente ficava até mais tarde no campus, gostava da sensação que o vazio dos corredores trazia e também gostava de ficar na biblioteca lendo algum livro antigo e interessante.

Gostava de ficar sozinho.

No entanto, quando cruzou as portas pesadas de madeira, deparou-se Jimin andando de um lado para o outro com folhas nas mãos e murmurando coisas desconexas enquanto olhava para elas.

Ele parecia tão bonito naquele ângulo e Yoongi desejou estar com a sua câmera para fotografá-lo.

Yoongi amou-o no mesmo instante. Ou talvez não tivesse sido amor, mas estava tão cansado de não sentir nada que o coração palpitando no peito foi como um novo fôlego e de repente forçar-se a sentir o que jurava sentir era muito melhor que a simples indiferença.

Yoongi estava cansado de ser indiferente.

No entanto, nos últimos meses, sentir estava tornando-se estranho e amar Jimin era assustador. Era assustador, porque Yoongi não o reconhecia mais, não conseguia enxergar a melancolia por trás daquele rosto, mas sim a maldade. Era a pura maldade misturada com uma confiança estranha que nunca esteve ali antes e que transformou-o em apenas uma sombra andante, sem nada mais para defini-lo como um ser humano. Yoongi não enxergava mais quem ele queria enxergar e a ideia de que Jimin nunca tivesse sido o que sua mente planejou fez com que a repulsa surgisse rápido demais e o gosto azedo do pânico deslizasse sorrateiro pelas paredes da garganta, bloqueando a respiração.

— E então os pesadelos começaram — sussurrou para si mesmo sereno. — E eu nunca mais consegui dormir.

Porque ele simplesmente tinha muito medo de Park Jimin.

5 de março de 2015

— Está me dizendo que devo largar a peça? — Jimin perguntou ofendido e colocou uma mão no peito. — É isso mesmo, Yoongi?

— Não, não é isso. — Ajeitou-se na cama para observá-lo melhor. — Estou dizendo que você está entrando demais nesse personagem, pode não ser saudável.

— Ah, seu psicólogo interior agindo. Não estou entrando no personagem, Yoongi. Não é difícil interpretar uma pessoa parecida com você.

Yoongi franziu o cenho em confusão e apoiou a mão no queixo, querendo uma explicação melhor do que aquela. Jimin estava interpretando uma pessoa insana, o que os dois tinham em comum? Em sua perspectiva, aquele personagem não tinha nada a ver com o seu namorado. Tudo bem que Jimin era uma pessoa triste a maior parte do tempo, mas era só isso. Como ele enxergava alguma semelhança entre os dois? Yoongi não sabia responder, mas um sabor amargo apossou-se de sua língua no mesmo instante.

— O que você quer dizer? — sussurrou com a voz falha. Não percebeu que estava mais branco que o normal.

— Você não sabe muita coisa sobre mim, não é, Yoonie? — Jimin riu recolhendo suas folhas da cama e se levantou. — Vai descobrir.

E então Jimin foi embora sorrindo. Yoongi sentou na cama e analisou melhor o que tinha acontecido, mas a única coisa que conseguiu fazer foi rir alto. Jimin não tinha noção nenhuma do que estava dizendo, só podia ser uma piada para deixá-lo com medo. Se era uma piada, ele tinha que rir.

Pegou o celular e discou para Jimin, sorrindo enquanto esperava ele atender. Foi uma piada um pouco mórbida, mas ele estava acostumando-se com o modo peculiar de Jimin para lidar com as coisas, aos poucos não sentia mais tanto medo. Ou tentava não sentir.

— Jimin, essa foi muito boa! — disse assim que foi atendido. — Sério, você quase me matou de susto.

Do que está falando, Yoongi? O que foi muito boa?

— Sério que vai tentar me enganar agora? Não adianta tentar, eu já entendi que foi só uma piada meio mórbida demais. — Ele riu e levantou, indo diretamente para a cozinha pegar um pouco de refrigerante. Estava com sede, longas conversas com Jimin resultavam nisso.

Não estou entendendo… Estou ocupado agora, ensaiando para a peça. Posso te ligar depois?

— Mas você já ensaiou hoje. — Segurou o celular com o ombro e abriu a geladeira para pegar a lata de Coca. — Não está cansado? Disse que estava.

Eu disse? Não me lembro disso, mas… hã, olha, eu preciso desligar, tudo bem? — Yoongi escutou a voz firme de Taehyung chamando Jimin ao longe e paralisou. Jimin vinha passando muito tempo com Taehyung. Yoongi não gostava. — Já vou, Tae! Tchau, Yoonie, nos falamos depois. Amo você.

Jimin desligou e Yoongi guardou o celular no bolso, balançando a cabeça enquanto ria e abria a latinha de refrigerante, jogando-se no sofá somente para encarar a televisão desligada e se achar o mais imbecil do mundo por cair em uma pegadinha tão arcaica. Deus, até parecia que ele nunca tinha sido adolescente.

Sim, é claro que havia sido apenas uma pegadinha muito boa.

Preferiu acreditar nisso.

6 de maio de 2015

Kim Taehyung estava desaparecido. Yoongi sabia disso porque sempre topava com ele durante o percurso até a faculdade. Naquela manhã, quando não o viu saltitando com aquela alegria irritante um pouco mais a sua frente, seu coração apertou.

Apertou porque ele sabia o que tinha acontecido com ele.

— É muito sangue, Jimin!

— Quem se importa, Yoongi? Não seja tão covarde!

Engoliu em seco enquanto encarava Jimin conversando animado com Hoseok como se nada tivesse acontecido na noite passada. Estava atônito, sem acreditar que ele praticamente havia se esquecido do tanto de sangue que o chão de sua sala acumulou naquela madrugada de merda. Com isso, sentiu raiva, seu corpo tremeu por inteiro e, em um quase surto, precisou bater com os punhos nas coxas para impedir-se de gritar na cara daquele maldito manipulador que ele ia direto para o Inferno pelo que fez.

Estava fervendo, estava furioso. O remorso estava batendo no estômago com tanta força que ele sentiu o gosto do vômito subindo pela garganta, ameaçando esguichar. Queria berrar, queria correr, queria colocar as mãos em volta do pescoço de Jimin e apertar até que ele pedisse desculpas por destruir a porra da sua vida que já era uma completa tragédia antes mesmo de conhecê-lo, mas que pelo menos não o deixava sem dormir por ter matado uma pessoa.

Matado uma pessoa.

Ainda conseguia sentir o sangue grudando no vão dos dedos e descendo pelos punhos do suéter. Era tão asqueroso, Yoongi podia lavar as mãos tantas vezes que a pele desgrudaria do músculo, mas a sensação de morte camuflando-se entre suas unhas jamais iria deixá-lo em paz.

— Yoongi? Está tudo bem? — Jimin chamou encostando a mão em seu braço, mas ele o puxou para o colo. — O que aconteceu?

— Não aconteceu nada — respondeu irritado. Por um breve momento, sentiu-se pequeno ao ser analisado calmamente por Hoseok. — Não aconteceu nada, Jimin.

— Você está mais branco que o normal, está doente? — Jimin ignorou completamente a fala de Yoongi e ameaçou levantar para dar a volta na mesa e chegar até ele, mas parou quando o viu arregalar os olhos e colocar-se em uma posição defensiva. — Vou te levar até a enfermaria.

— Eu não preciso de enfermaria! — Alterou o tom de voz. — Me deixa em paz!

Yoongi colocou as pernas para o outro lado do banco e levantou, correndo para longe, tentando não virar para trás quando ouviu Jimin gritar seu nome com uma voz chorosa. Não cederia mais uma vez, não se deixaria ser manipulado pelo bom coração que ainda possuía e nem pelas coisas que sabia sobre o passado de Jimin. Yoongi não ficaria mais ao seu lado e a promessa de que jamais iria embora foi rompida assim que ele atravessou as portas do refeitório.

Entrou no banheiro com pressa e apoiou-se na pia, encarando o próprio reflexo no espelho. Estava acabado e a expressão abatida simplesmente não abandonava o seu rosto. Ele poderia engolir três comprimidos de relaxante muscular e dormir por três dias seguidos, o que ele tinha no fundo dos olhos jamais iria embora.

Lavou o rosto algumas vezes, esfregando bem as mãos a ponto de arder e depois olhou-se mais uma vez, respirando fundo antes de começar a andar para a saída, mas parou quando escutou a porta sendo aberta e dois colegas de classe entrando. Virou-se rapidamente para a pia outra vez, mantendo a cabeça baixa.

— Taehyungie anda meio sumido, não?

— Acho que aconteceu alguma coisa, ele sumiu e não avisou ninguém.

— Podemos falar com o Jimin na saída, ele deve saber alguma coisa.

— Sim, tem razão.

Yoongi não ficou para escutar o resto da conversa, apenas saiu apressado e com os olhos no chão, deixando para trás os dois garotos confusos.

Cruzou o corredor com as pernas trêmulas e enfiou-se em uma sala qualquer que não estava sendo usada, camuflando-se no escuro, em uma das carteiras do fundo. Afundou o rosto entre os braços e ficou parado por incontáveis minutos, talvez até horas. Ele só queria que seu cérebro o deixasse descansar pelo menos um pouco, assim seria mais fácil de lidar com Jimin e fingir que nada tinha acontecido.

A porta abriu lentamente e Yoongi arriscou olhar, deparando-se com o rosto bonito de Jimin adornado por um sorriso doce. Ele estava bonito naquelas roupas pretas e um tanto largas para suas curvas, estava bonito com aquele olhar preocupado e carinhoso. Era disso que Yoongi sentia tanta falta.

— Está tudo bem? — ele perguntou aproximando-se. — Xiumin te viu meio assustado no banheiro. Quer conversar?

— Estou bem — resmungou quando Jimin sentou na carteira da frente, virado para ele. — Só cansado.

— Não parece cansado. Está assim por culpa do que fizemos ontem? Vai ficar tudo bem, Yoonie.

— Não, não vai. — Yoongi aproximou-se com olhos suplicantes, apoiando os braços na mesa e umedecendo os lábios. — Matamos uma pessoa, Jimin!

— Matamos? — Jimin riu e balançou a cabeça. — Você matou. Eu não fiz nada.

— Do que diabos você está falando? Perdeu a porra da memória? — Yoongi respondeu ríspido, baixando alguns tons da voz. — Você matou o Taehyung!

— Isso foi você, eu só não te parei. Enfim, já que não está disposto a conversar sem me acusar, eu vou embora. Tente se lembrar.

Jimin levantou sem pressa nenhuma, caminhando devagar e com as mãos nas costas até a saída, virando-se apenas para lançar uma piscada indecifrável para Yoongi. Ele saiu da sala, deixando-o completamente sozinho mais uma vez, como sempre fazia. Não foi ruim, Yoongi não queria companhia nenhuma para o momento, queria apenas ficar sozinho.

Mas isso não aconteceu.

A porta abriu bruscamente, revelando um Jimin com semblante preocupado. Ele olhou para todos os lados antes de achar Yoongi escondido no fundo escuro, com uma expressão de quem não estava entendendo nada. E ele realmente não estava.

— O que você está fazendo aqui? — Yoongi levantou irritado, caminhando duro até Jimin.

— Yoongi, você estava chorando no banheiro?! Eu-

— Para com isso, Jimin! Você acabou de sair! — Yoongi cortou sua fala, inclinando-se até estar cara a cara com ele, agarrando a gola de sua camiseta branca e fazendo-o arregalar os olhos em surpresa. — Pare de brincar com a minha cabeça, porra!

— Do que você está falando?! — Foi empurrado bruscamente. Jimin tinha levantando a voz e parecia realmente irritado. — Pare você de me tratar desse jeito!

— Você acha que merece ser tratado de outro jeito?! É sério, Jimin?

— O que eu fiz para você? Fala de uma vez!

— Você matou uma-

A voz de Yoongi morreu assim que o celular de Jimin tocou. Eles se encararam por um tempo antes de Jimin cerrar os olhos e pegar o aparelho, atendendo em seguida. Enquanto conversava com a pessoa do outro lado, Jimin não parava de olhá-lo como se estivesse prestes a interná-lo por insanidade. Pobre Jimin, a maldade em seu coração o tornou cego.

— Hã, claro que pode dormir na minha casa hoje — Jimin disse meio sem ânimo. Ele não tirava os olhos de Yoongi e parecia completamente aéreo à conversa. — Claro, claro, Taehyung. Eu não negaria nada ao meu melhor amigo, por favor!

Yoongi congelou. Ele abriu e fechou a boca tantas vezes que os lábios tornaram-se ressecados e a ponta da língua endureceu. Jimin observava tudo com um olhar indecifrável, mantendo-se afastado de maneira segura de Yoongi e quando ele ameaçou se aproximar, Jimin agarrou com mais força o telefone e deu um passo para trás, negando forte com a cabeça. Disse um “não ouse” apenas com movimento labial e Yoongi parou outra vez, com uma perna na frente da outra.

— Vejo você mais tarde, então. Até, Tae.

Ele desligou o telefone e voltou a encarar Yoongi, que já não sabia mais o que fazer. Ele explicaria o que estava prestes a dizer antes do telefone tocar? Fingiria demência? Diria que era apenas uma pegadinha?

Pensou que tinha tempo o suficiente, mas ele acabou quando Jimin pegou firme em seu pulso e olhou intensamente para seus olhos trêmulos e lacrimejantes. Quando isso aconteceu, Yoongi perdeu todos os pensamentos que estava formando e disse:

Taehyung não morreu?

Jimin parou um instante, absorvendo o significado daquela pergunta. Ele piscou e recuou, apertando o celular entre as mãos com mais força.

— Morreu? Não, Yoongi. Ele foi viajar com o namorado.

E Jimin escureceu dos pés a cabeça, ele não fazia mais parte daquele cenário. Yoongi piscou, olhando o próprio reflexo no espelho, os dedos dormentes submersos na água. Tudo que ele conseguiu notar de diferente foi a dor consumindo parte de seu peito e seu cérebro desfazendo-se em milhões de pedaços. As lágrimas rolavam silenciosas e, em um impulso, Yoongi correu para fora de seu banheiro e ajoelhou-se no meio do corredor, agarrando seu crânio entre suas mãos molhadas e soltando um grito tão forte que sua consciência apagou e ele caiu no chão com o resto de sua sanidade desaparecendo lentamente.

13 de Maio de 2015

Eu nunca imaginei que o Yoongi fosse pirar. Você já tinha notado algum sinal antes, Jimin?

Jimin negou e Taehyung sentiu nos olhos dele uma tristeza quase palpável. Mas o que Jimin fez quando Taehyung se virou demonstrava o completo oposto disso.

Jimin sorriu.

29 de Novembro de 2018 às 02:07 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Penduluns Escritora ainda em treinamento, faço do terror meu verdadeiro lar. Sou uma amante da noite.

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