O Segredo Lycan Seguir história

kamysouza Kamy Souza

Muitos são os nomes dados a eles, lobisomem, licantropo, loup-garou, lycan. Eles são homens capazes de se transformar em lobos, ou adolescentes perdidos, tentando se descobrir ao mesmo tempo que sobrevivem pelas ruas do México, sem se tornarem ameaçados de extinção, como seus familiares, os lobo-mexicanos. - História também postada no Nyah! Fanfiction e Wattpad com o mesmo nome de usuário - Esta história foi escrita para o Desafio Mapa-múndi do Inkspired


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os direitos reservados

#amizade #viajaink #lobos #lobisomem #teen #méxico #fantasia #aventura
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Capítulo Único


Notas iniciais:

Essa história foi desenvolvida para o Desafio Mapa-múndi do Inkspired e o país em destaque escolhido foi o México.


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A lua acima iluminava meu caminho pelas sombras de becos estreitos. Não havia ninguém nas redondezas, ou som que denunciasse a presença de alguém nas ruas ao alcance de meus ouvidos. Na madrugada solitária, eu me sentia livre como não podia sob a luz do sol, cercada por pessoas que se soubessem quem sou, não tardariam a me causar o mal.

Já fui ferida anteriormente, tenho a marca de uma bala em meu corpo e o luto por minha família para me lembrar todos os dias de que deveria temer, mas se não pudesse ser eu mesma ao menos nesses momentos roubados, não vejo motivo para continuar. Gabriel e os outros me acham estúpida por isso, e com alguma razão, mas não consigo evitar.

Sinto como se tudo se tornasse claro quando me transformo, como se o mundo a minha volta finalmente fizesse algum sentido, e quando corro, com o vento em meu pelo, a força em minha pernas, minhas patas me impulsionando como se pudessem me fazer alçar voo a qualquer momento… Lycan nenhum deveria deixar de experimentar essas sensações pela ignorância do mundo em que vivemos.

O principal motivo para nos escondermos é que os humanos teriam medo se soubessem de nossa existência, mas no fim das contas, nós é que ficamos presos a ele, aprisionados em nossos próprios corpos.

O fim da madrugada se aproximava, e logo o dia clarearia, levantando todos de suas camas e tornando as ruas inseguras. Uma armadilha para lobos. Não é atoa que os lobo-mexicanos estão quase extintos, tendo sido realocados para áreas de recuperação, em uma tentativa de repovoamento depois de serem ameaçados por caça, armadilhas e envenenamento. Eu sentia suas perdas ainda mais profundamente que outros de minha espécie por já passado por isso.

Voltei para casa, se é que poderia realmente chamá-la assim. Após meus pais morrerem em uma caçada ilegal e eu ficar por fim sozinha, aos 12 anos, velha demais para alguém querer me adotar, e nova demais para não ser responsabilidade do Estado, acabei passando por algumas casas temporárias, foi assim que conheci Gabriel e os outros.

Parece irônico que de todos os lugares que eu poderia acabar, fui parar logo no mesmo em que ele passou mais da metade de sua vida, e que pelos últimos dois anos, depois de ter que lidar completamente sozinha com meus problemas Lycan, estivesse em contato com tantas pessoas como nós, em nossa cidade e escola.

Debaixo da janela no segundo andar, que uso para sair, me transformei de volta, sentindo aquela mesma terrível sensação de ter meu corpo rasgado ao meio, que desde criança tenho aprendido a me acostumar, prendendo qualquer som que poderia escapar de minha boca. Não queria que o bairro acordasse com o uivo de um lobo, recorrendo às autoridades, e as armas, para lidar com ele.

Peguei minhas roupas escondidas atrás da lixeira no fim do beco sem saída, e as vesti antes de me lançar para a janela, me agarrando no parapeito antes de me impulsionar para dentro do corredor do Lar Guadalupe, onde atrás de meia dúzia de portas, meus outros dez companheiros e nossa cuidadora, Alejandra, dormiam o resto de tempo que ainda tinham.

Sou bem silenciosa, além de ser uma coisa Lycan, tenho experiência acumulada por me esgueirar durante toda a minha vida, então não era uma preocupação acordar nenhum dos humanos ali, ou mesmo Gabriel, apesar de seus ouvidos aprimorados, e se acontecesse, não seria tão importante assim, a única que poderia me deixar realmente encrencada era Alejandra, e ao menos que alguém quebrasse a casa, ela não despertaria de seu sono profundo.

Caminhei a passos ligeiros de volta para meu quarto, o último no corredor, com quem dividia com duas outras meninas, preparada para dormir um pouquinho antes de ter que me levantar às seis para estar na escola às sete, mas fui surpreendida pela sombra, deixando a escuridão do banheiro em frente, para entrar na fresta de luz proporcionada pelo feixe de lua que entrava pela janela no meio do corredor. Gabriel me olhava sério, com os braços cruzados sobre o peito, a boca em uma linha fina e os olhos amarelados apertados.

— Eu realmente gostaria de dormir agora. — expliquei, arrastando o “realmente” para enfatizar. — Você pode ficar quão bravo quiser comigo, de manhã, de preferência depois do café. — Sabia que estava correndo o risco de deixá-lo mais irritado, mas não resisti a provocação.

Uma coisa que todo mundo deveria saber sobre Gabriel, apesar de sua aparência e postura de bad boy dizer o contrário, ele se preocupa, demais até, e está sempre cuidando das pessoas com que se importa, de maneira até controladora, o que de vez em quando me deixa louca e me faz escapar escondida durante a noite.

— Você sabe como lá fora é perigoso. — sussurrou, se inclinando em minha direção, com mechas de cabelo negro caindo sobre seu rosto.

Ele também é bem bonito, com o corte de cabelo reto sobre os ombros, o rosto quadrado, a pele dourada, os ombros largos e os 1,70, aos 16 anos. Sem falar no físico, mas entre nós Lycan, isso não era incomum, muito pelo contrário. Nós corremos, o que é um ótimo exercício físico, e apesar de comer demais e dormir mais ainda, nosso metabolismo se encarrega de não nos deixar acima do peso.

— Acho que seria ainda mais perigoso se eu me transformasse aqui dentro. — Também cruzei os braços, o encarando com um sorrisinho.

Gabriel balançou a cabeça em reprovação.

— Talvez, realmente devêssemos falar disso de manhã, em um lugar mais particular. — ele me deu as costas, seguindo para o quarto dele. — Bom sono, Lola.

Ok, me senti um pouquinho mal. De manhã, após meu café da manhã, claro, quando estivesse com o humor um pouquinho melhor, eu lhe pediria desculpas por agir da forma que agi, não por sair, eu não poderia, não quando não sinto isso, mas por tratar Gabriel de uma forma que não merecia, quando tudo o que fazia era tentar me proteger.

Entrei no quarto nas pontas dos pés, fechando a porta às minhas costas com cuidado milimétrico para não despertar minhas colegas de quarto. Na parte de cima de meu beliche, tentei fazer com que minha hora de sono durasse, mas não sou uma operadora de milagres, mesmo me chamando María Dolores.

Logo Alejandra passou batendo com os punhos fechados em nossas portas, gritando para levantarmos e nos aprontar para a escola. Me arrastei para baixo e vesti minhas roupas, junto com as outras meninas. Com tantas pessoas nessa casa e dois banheiros, era impossível tomar banho para sair de manhã, então o fazíamos a tarde, próximo a hora de dormir, quando não havia horários para estarmos em outro lugar que não fosse nossa cama.

Na cozinha abarrotada de gente tentando garantir seu café da manhã, tinha chilaquiles em uma panela grande, com sobras de tortillas partidas em pedaços e fritas, da noite anterior, e ovos mexidos em uma outra. Juntei tudo em meu prato e encontrei um canto para comer sem ser perturbada. Gabriel estava sentado à mesa com outros garotos da casa e se limitou a me olhar quando entrei. Decidi por ficar longe, mas após terminarmos de nos arrumar e pegarmos nosso material para sair, não havia escapatória.

Caminhamos juntos para a escola, lado a lado, seguindo os outros a distância. Ele estava calado, soturno, imaginava quando seria esse momento mais “particular” para conversarmos, talvez quando Ximena, Ricardo e Juan Carlos estivessem por perto para o ouvirem me esculhambar.

— Então, você vai me ignorar até quando?

— Até você se tornar mais responsável. — respondeu sem me olhar, caminhando a passos largos, me fazendo me esforçar para me manter ao seu lado.

— Ixi, e se isso levar tipo, uns sessenta anos? — Sorri, e recebi um olhar enviesado. — Qual é, Gabriel, você sabe que se não falar comigo eu posso acabar caindo em situações bem ruins, preciso de suas broncas para me manter sob controle, ou quase isso. — Um sorriso perpassou seu rosto, mas ele tratou de escondê-lo rapidamente. — E eu te conheço melhor que você mesmo, sei que não pode ficar com raiva, porque gostaria de fazer o mesmo que eu, e deveria. Deveríamos correr juntos novamente.

Eram poucas as vezes que ele se permitia entrar em contato com o lobo, normalmente, quando estávamos todos juntos e ele se sentia mais seguro. Certa vez, fomos só nós dois, em um raro momento de lapso do Gabriel louco por controle. Existe algo especial em estar com outros transformados, uma conexão, talvez por isso os lobos estão sempre juntos em alcateias, não que nós pudéssemos realmente saber, mas é assim que me sento sobre ele, de forma ainda mais profunda que com os outros. Gabriel se tornou a pessoa mais próxima em minha vida.

— Achei que estava tentando fazer as pazes. — retrucou seco.

— Estou. E também estou te lembrando que não precisa ser tão careta o tempo todo. — Bati meu ombro contra o dele. — Corra comigo, Gabriel! — pedi alto, já dando passadas largas caminho a frente.

Não houve um instante que não achasse que ele não me seguiria, assim que me impulsionei para frente o chamando, Gabriel se pôs a correr, tentando me alcançar. Apesar de suas pernas serem mais largas, era eu a mais veloz.

— Espere, Lola! — gritou, enquanto passávamos os outros.

Eu mal atingia todo o meu potencial, tomando cuidado para não chamar o tipo de atenção errada sob a luz do dia, somente por isso ele me alcançou, chegando ao meu lado nos portões da escola. Eu ria boba, tentando ajeitar meu cabelo atrapalhado pelo vento enquanto ele sorria com as bochechas coradas.

— Não faça isso de novo! — Sua intenção era me repreender, mas não foi muito efetivo pelo sorriso em seu tom de voz, me fazendo rir ainda mais.

Vi pelo canto de meu campo de visão Ximena e Juan Carlos se aproximando. Ximena é uma afro-mexicana com cabelos trançados e quase tão alta quanto Gabriel. Ela mora com os pais, também Lycans, em uma casa em bairro nobre e é talvez, a garota mais estilosa que conheço. Eu nunca conseguiria me vestir como ela sem me achar boba, mas tudo o que se propõe a vestir, fica bem.

Juan Carlos mora com o pai e a avó, mas herdou os genes de sua mãe, então como nós, tem que se virar sozinho. Ele é o tipo de garoto bobo que está sempre fazendo brincadeiras, além de ser um namorador, as garotas o adoram, e não é por menos, além da genética Lycan, com os olhos amarelados que dividimos, e o porte físico, ele ainda tem aquele sorriso largo e brilhante, e sobrancelhas cheias que lhe dão um olhar misterioso.

— O que é tão engraçado? — perguntou Ximena, se aproximando com um sorriso largo. — Achei que estivesse com raiva dela, Gabriel.

Mandei um olhar bravo para o garoto ao meu lado. Ele já havia enviado mensagens a eles para anunciar o que havia feito?

— Acredite, Mena, Gabriel está exagerando como sempre. Foi só uma voltinha segura. — Ela rolou os olhos para mim.

— Claro, claro. Vocês vão ter todo o tempo no intervalo para defenderem seus pontos, mas agora temos que ir para a sala. — concluiu, passando o braço pelo meu e nos guiando para dentro do prédio.

— Mas onde está Ricardo? — perguntei, dando falta do quinto integrante da nossa alcateia disfuncional.

— O vimos com um garoto por aí, não lembro onde, no caminho. — Juan Carlos comentou casualmente, dando de ombros. — Acho que está de namorado novo.

Se tem uma coisa que nosso amável Ricardo é, é um romântico, o que inclui se decepcionar bastante com seus relacionamentos, e iniciar outros tão rápido quanto eles acabam. Não é culpa dele, só teve o azar de ser um garoto incrível, uma raridade, que gosta de outros garotos e se decepciona com eles tanto quanto nós, garotas.

Fomos para a aula de matemática, a qual sou muito boa por sinal, a exatidão é fácil para o meu cérebro, sem complicações, dois mais dois são quatro, e eu não preciso pensar nos sentimentos dele.

A professora já havia chegado quando Ricardo entrou atrasado, como um furacão, arrancando risadas dos presentes pela sua trapalhada. Ocupou o lugar vazio ao meu lado, como de costume, assim como Gabriel estava na última cadeira da fila as minhas costas, Ximena a minha frente e Juan Carlos ao seu lado.

Era confuso para as pessoas ao nos conhecer, sempre perguntavam se tínhamos parentesco, as vezes, preferimos dizer que sim, é como uma brincadeira, uma pequena mentira inofensiva que nos poupa as exclamações. Me surpreende Gabriel não decidir que deveríamos ficar afastados para não levantar suspeitas, mas nem ele poderia ir tão longe, somos uma família.

De toda forma, uma hora ou outra a curiosidade acaba, e as pessoas percebem que somos diferentes demais para ter qualquer laço que seja. Somos motivo de curiosidade, mas cedo ou tarde ela passa, a não ser em raros casos em que, aparentemente, isso não acontece.

Tem esse garoto, que frequenta a mesma classe que nós, Miguel Ángel, eu me lembro que quando me mudei para cá, por um breve momento, nos aproximamos. Ele era um garoto fofo que foi gentil comigo depois de conhecer Gabriel e receber sua frieza, mesmo nos reconhecendo como iguais. Mas não durou.

Aos poucos me aproximei dos outros, e o abandonei. As semelhanças falaram mais alto que qualquer agradável simplicidade que ele carregasse, e eu nunca olhei para trás, mas ele aparentemente, nunca seguiu completamente em frente. Não quando sempre o encontro olhando para mim. Como agora. Fui atraída pelo peso de seu olhar, do outro lado da sala, o notando, antes que pudesse desviar seu rosto de volta ao quadro.

Havia algo de estranho, sentia isso aumentar a cada dia. Ele se distanciava de seus amigos e vez ou outra, achava que poderia estar se aproximando para falar comigo, mas parecia mudar de ideia no meio do caminho. Podia ouvir seus batimentos, constantemente acelerados, como se estivesse em um ininterrupto estado de alerta. E seu cheiro… eu estava confusa sobre o que ele significava. Meu olfato nunca foi tão apurado quanto a audição, talvez devesse trabalhá-lo mais.

— Está tudo bem? — Gabriel sussurrou as minhas costas, atraindo os olhares de nossos amigos ao redor.

— Sim. — garanti sorrindo, para não restar dúvidas, me virando para olhá-lo e encontrando seu olhar preocupado se desviar de mim para o mesmo ponto que olhava antes. — E sua matemática? Está prestando bastante atenção ou vou ter que dar aulas particulares de novo? — cutuquei, arrancando risadas de Juan Carlos e sorrisos dos outros.

No intervalo, comemos burritos na cantina, não um dos melhores que se encontra no bairro, mas bem apimentado. Após, nos sentamos em um canto do pátio, estava sem energias pela falta de sono, mas foi Ricardo que deitou, colocando a cabeça loira sobre minhas pernas e me sorrindo com as covinhas a mostra, rolei os olhos, impossibilitada de me irritar, e mexi em seu cabelo.

Gabriel aparentemente esqueceu que sai escondida na noite passada, e não seria eu a lembrá-lo. Se sentou ao meu lado, ombro a ombro, Ximena a frente mexia no celular concentradíssima, provavelmente falando com seu namorado americano e Juan Carlos havia desaparecido assim que nossos lanches terminaram.

— Então… ouvi falar que foi correr. — Fuzilei Ricardo com os olhos, seu tom inocente não escondendo a capciosidade. Por que ele foi lembrar desse assunto logo agora, na paz? Ximena ergueu os olhos para nos olhar. — Dá próxima vez, convida a gente. — completou, com ar inocente e segurei um sorriso, olhando para Gabriel e erguendo a sobrancelha sugestivamente.

Isso me trouxe à memória o feriado de Dia dos Mortos do ano anterior, quando nós cinco fomos para a casa de férias da família de Ximena, com extensa área natural, onde pudemos correr sem preocupações dentro do limite da propriedade. Foi uma surpresa Gabriel e eu podermos ir, como propriedades do Estado, achei que fosse praticamente impossível, mas acho que eles trabalharem para o governo fez toda a diferença.

— Talvez na próxima, só precisam convencer meu amigo aqui. — Apontei para meu lado, arrancando risadas.

Gabriel bufou, desviando o olhar para longe.

— Vocês não deveriam incentivá-la.

Não notei a aproximação até que Miguel parasse a nossa frente, o coração ainda mais acelerado que nos últimos tempos, podia sentir o nervosismo em seu odor, e sabia que os outros ali também conseguiam. Os olhares de meus amigos recaíram sobre sua figura frágil ao mesmo tempo, e tive pena, diante de seu desconforto. Mas o que ele fazia ali?

— Eu posso falar um instante com você, Lola?

Ponderei, com a testa franzida. Ricardo se levantou de meu colo antes que pudesse respondê-lo, como se soubesse que minha curiosidade me venceria, acenei confirmando e apoiei minhas mãos contra o chão para me ajudar a levantar, quando senti Gabriel segurar meu pulso.

— Algo está errado. — avisou baixo, com olhar sério.

— Ele provavelmente vai se declarar, ou algo assim, Gabriel. — Ximena brincou, rindo e arrancando risadas de Ricardo, fazendo com que Miguel, ainda parado ali, ficasse com a face queimando. — Relaxe.

Voltou a atenção para o celular tão rápido quando o deixou, e levou Ricardo para junto de si, sem ligar para o que acontecia à sua volta.

— Está tudo bem. — garanti, retirando sua mão e me levantando.

Segui Miguel para longe, me sentindo desconfortável durante a caminhada. Ele andou à frente, parecendo tenso, com os passos duros. Tentei manter o bom humor, mas quando paramos, cocei a nuca, mantendo meus olhos longe dos dele, sem graça. Não sei o que seria pior, Ximena estar certa, ou errada, já que não fazia ideia do que poderia se tratar.

Estávamos distantes de todos, escondidos atrás de um galpão, sem visão para o resto do pátio, e ele parou a minha frente, olhando diretamente para mim enquanto tinha o aparelho celular apertado em uma de suas mãos, com os nós dos dedos esbranquiçados pela pressão.

— Então, o que você quer? — O olhei, estava pálido, como se estivesse prestes a vomitar, mantive a distância, evitando que fosse sobre mim.

— Eu… queria falar com você há um tempo já. — começou, mas parou, me deixando desconcertada.

— Eu meio que percebi. Sobre o que, exatamente? — incentivei. O sinal logo bateria, e eu não queria ficar ali mais tempo que o necessário.

— Eu… eu… — gaguejou antes de voltar os olhos para a tela do celular, suando e limpando uma gota que escorria por sua testa. Umedeceu os lábios passando rapidamente os dedos pela tela, antes de voltar a olhar para mim. — Eu sei quem você é… — Piscou várias vezes, nervoso, e ergueu o celular para que eu pudesse olhar. — O que… o que você é.

Olhei pasma para o que me era mostrado. O vídeo estava escuro, mas pude identificar a forma canina em evidência, com pelagem manchada em preto e bege, um lobo caminhava em um beco escuro, enquanto a filmagem distante, o focava de cima. Senti minha cabeça latejar enquanto a olhava sem desviar os olhos, ou mesmo piscar. Ou melhor, me olhava. Tremi.

Aquilo não era de ontem a noite, não fazia ideia de quando havia sido feita a filmagem, mas fora recentemente, na lateral do Lar Guadalupe, enquadrando a janela do segundo andar, o lobo, envolto pela escuridão, visível sob a pouca luz, se metamorfoseou e deu lugar a uma garota, nua. Era mais fácil se referir a filmagem assim, o lobo, a garota, e não a mim, pega em minha forma animal, me metamorfoseando e surgindo nua para a câmera daquele garoto.

Ergui os olhos para olhá-lo ainda me encarando, havia algo em seu olhar, como se, se sentisse de alguma forma vitorioso. Eu queria chorar, ao mesmo tempo que gritar e lhe socar a cara, ou talvez, vomitar, bem em cima dele. Mas acabei por dizer:

— Eu estou nua aqui! — disse alto, em tom indignado.

— Eu sei, — Engoliu em seco. — e sinto muito. Mas, eu sei o que você é agora, e não pode se esconder de mim. — Sorriu. — Você não pode mais fugir de mim, Lola.

Um som gutural surgiu as minhas costas, e me afastei para o lado, defensiva, antes de perceber que era só Gabriel, enquanto ele se lançava sobre Miguel, que gritou ao ser derrubado. Me aproximei assustada, percebendo que após um momento de puro terror, Miguel amoleceu sob o peso de seu corpo.

— Gabriel, levanta! O que você fez?

O puxei pela camisa preta, provavelmente fazendo com que os botões da frente quase se soltassem. Meus ouvidos latejavam, de puro pânico. Ele recolheu o celular no chão, dando uma olhada para a tela e me fazendo corar só por saber que ele havia me visto nua ali, mesmo que distante e precariamente. Mas quando ele se virou, tudo deixou minha mente.

A região em volta de sua boca estava toda pintada em tom escarlate e em seus olhos se encontrava o mesmo olhar lupino que se via quando transformado, enquanto permanecia imóvel a minha frente. Não tinha nada em mãos para limpá-lo, então usei elas próprias, ansiosa para tirar o sangue de seu rosto.

— O que você fez, Gabriel? O matou? — O choque tornou minha voz estridente.

— Eu protegi você. — respondeu sem humor.

— Como isso — Apontei para o corpo ainda imóvel. — pode ser me proteger? Vou me encrencar ainda mais com um corpo que com um vídeo, e você vai junto comigo!

— Não é um corpo, Lola, escute. Escute o coração.

Parei, atentando meus ouvidos. Estava tão nervosa que ignorei meus sentidos, mas ele estava certo, podia ouvir, fraco, o coração batendo.

— Mas então, o que planejava? — Não fazia sentido atacá-lo daquela forma. Por mais que não quisesse nem pensar sobre isso, a morte seria mais efetiva.

— Eu o transformei. Ele não vai prejudicar o nosso segredo se for o dele também. — se explicou, seus olhos faiscando contra os meus.

Eu queria correr para longe, mas ele não podia sair dali com o rosto sujo daquela forma, atrairia todos os olhares. E também, não poderia deixá-lo, não agora, não daquela forma. Tentava limpá-lo, mas parecia impossível, sua pele ainda permanecia manchada de vermelho, mesmo que tirasse todo o excesso, dando para seu rosto, um ar feroz, e eu só queria livrá-lo disso.


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Notas finais:

Informações usadas para a ambientação:

Comidas típicas, como o café da manhã com chilaquiles e o burrito. Os nomes dados aos personagens. Religião, como o nome do lar onde moram, em homenagem a Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do México, e o nome de Lola, María Dolores, vindo de María de los Dolores, traduzido como Maria das Dores, apelido dado a Virgem Maria. Citação ao feriado do Dia dos Mortos.

 

25 de Novembro de 2018 às 22:29 8 Denunciar Insira 6
Fim

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá! Primeiro de tudo, pedimos desculpa pela demora para postarmos o comentário e faremos o possível para que esse atraso não se repita. Que reviravolta, hein? Kkkk Toda a tensão de Lola e seus amigos também lobisomens de serem descobertos e chega Miguel assim dizendo que sabe do segredo? Pai amado! E Gabriel vai e transforma o menino? Não sabemos se é seu plano, mas tem cheirinho de continuação no ar! Você conseguiu seguir bastante o que foi proposto pelo desafio, mas ainda assim faltou um pouquinho da importância do local dentro da história. Também, a história é muito interessante, mas tem alguns parágrafos com sentenças muito longas, o que faz o leitor se perder às vezes no fluxo dos acontecimentos. Mas a história está muito boa e dá vontade de ler mais sobre! Agradecemos por ter participado e esperamos nos vermos novamente nos desafios! Até logo!
22 de Fevereiro de 2019 às 10:27
Saah AG Saah AG
Misericórdia!! Sabe, eu li as ones do México e parece q vcs ainda tão festejando o Halloween ou coisas do gênero. Ta bem escrita e bem ambientalizada. Esse final foi interessante e devo dizer que fiquei surpresa com a exploração de todos os personagens, mesmo em uma one. Ficou muito bem feito, parabéns.
2 de Dezembro de 2018 às 20:05
Zen Jacob Zen Jacob
Meu deeeeus, ok, ok, você me pegou MUITO desprevenido com esse final! Enquanto lia deu pra notar bem um desenvolvimento comum de histórias YA, eu gostei do detalhe de colocar os garotos como um grupo/alcateia que toma conta um do outro e buscam se proteger mutuamente. Deu pra entender bem a Lola, se eu também fosse lobisomem com certeza saíria por aí correndo porque, porra gente, a liberdade que isso não dá?? Achei a alcateia bem heterogênea e deu vontade de conhecer cada um deles melhor, tanto pelo background de cada personagem quanto por como isso seria desenvolvido no México - meu país preferido do desafio. <3 A saída do Gabriel para se livrar do problema foi ótima, e me deu uma sensação de que essa poderia ser uma história maior muito fácil. Você tem a intenção de desenvolver mais essa narrativa depois do desafio ou fazer algo semelhante? Me bateu muito uma nostalgia lendo da época em que eu tinha meu PDF de Lobisomem: Apocalipse, seria ótimo poder ler uma longfic como a que você escreveu aqui. Parabéns pela história! =)
2 de Dezembro de 2018 às 19:38
Lux Noctis Lux Noctis
Hello! Eu não sei se deveria dizer isso, mas quero um Gabe (tô íntima já) na minha vida. Saber que ele faz de tudo ao seu alcance para proteger a Lola. É aquela faca de dois gumes, sabe. Ele precisou no final, ser "a fera" para ser o salvador. Abraçar o que ele é, para manter à todos em sigilo. Arriscado, doloroso. Mas a descrição enquanto a Lola estava correndo, lá no inicio, ah, me cativou ali. O jeito arisco dela e atravessado nas respostas também, me senti representada, admito. Parabéns por concluir o desafio! Boa história! Beijos!
2 de Dezembro de 2018 às 13:40
Megan W. Logan Megan W. Logan
Oi! Tudo bem? Eu adorei a história, ficou emocionante! O enredo é muito bem feito e prende o leitor do inicio até o final, Lola, a personagem principal é forte e decidida. Gostei do suspense que você fez em relação a Gabriel, se ele tinha matado o outro rapaz ou não. Notei apenas alguns errinhos de pontuação no texto,porém numa segunda revisão você arrumaria fácil esse problema. No mais você está de parabéns, essa história foi bem feita, enredo maravilhoso, cujo qual os sentimentos dos personagens descritos durante a narrativa são palpáveis e realistas, dando mais corpo para o história. Existe uma ótima fluidez do texto, que facilita a leitura do mesmo. Fiquei com vontade de ler mais um capítulo dessa história, pena que acabou! Beijos!
1 de Dezembro de 2018 às 11:42
HunterPri Rosen HunterPri Rosen
Oiiiieee! Adorei a história, os lobisomens, o Gabriel e o clima muito instigante com a Lola. Super imagino um triângulo amoroso entre eles e o Miguel hahahahahah Mas como assim já acabou? Vai ter continuação? Porque terminou com gostinho de quero mais e isso não é justo, beleza? Acha bonito iludir os leitores? kkkkkkkkkkkk Parabéns pelo desafio, moça! Adorei o enredo, o desenvolvimento, a escrita, a escolha do país, os personagens, tudinho mesmo <3 Beijos!
30 de Novembro de 2018 às 05:35
Nathy Maki Nathy Maki
Foi bem legal incluir isso de terem lobisomens de todas as culturas. Sua escrita é muito boa e fluida, fácil de ler. E é uma pena que ela tenha sido pega, mas tá mais que na cara que o Gabriel aí tem um crush forte na Lola. O finazinho deixou o gosto de "e aí?????" Curiosa pra saber como esses rolos todoa vão acabar. Beijinhos <3
29 de Novembro de 2018 às 20:48
Zacky U. Zacky U.
Uouu, por um segundo achei que o Gabriel tinha matado o cara! Claramente rola um clima entre esse dois viu hahaha . Parabéns. gosto de fantasia e ficção. A escolha dos lobisomens foi bacana. abraços ; )
27 de Novembro de 2018 às 20:54
~