Vida longa ao Inca Seguir história

nathymaki Nathy Maki

Sabia que não devia estar ali. Sabia que devia dar as costas e se afastar. Ir embora o mais rápido que pudesse. Mas ele podia sentir seu sangue cantando. O chamado percorrendo suas veias. A atração irresistível de colocar o pé na estrada e se encaminhar para o templo. Via o quanto isso seria fácil, deixar tudo para trás: a mãe, a irmã, a casa em que viveu durante toda a infância; e apenas seguir essa parte de si que lhe dizia ser esse o seu destino.


Aventura Para maiores de 18 apenas. © Créditos a imagem da capa a jamga (https://www.deviantart.com/jamga/art/INCA-59696243)

#deathfic #peru #viajaink #suspense #original #inca #tortura-psicológica
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Capítulo Único

Notas iniciais: Olá! História original feita para o desafio Mapa-múndi.

País escolhido: Peru.

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***

— Não vá para o templo!

Olhos arregalados se pronunciavam na face branca. O terror lá visto fazia o garoto suar. A mão se estendeu, lutando contra o que quer que o estivesse agarrando e estas cravaram se em seus ombros sacudindo-o como se quisesse assegurar que a mensagem houvesse sido entendida.

— Não vá para o templo!

— Mas Papa... – o garoto gaguejou. As mãos o apertavam forte, levando lágrimas aos seus olhos, se eram de dor ou de saudade ele não saberia dizer. — Papa... – tentou novamente, mas foi interrompido pelo grito que o pai soltou. E, de repente, as mãos já não mais seguravam seus ombros e ele via a face do pai se distanciar. Mãos negras o puxavam pelas pernas e se enlaçavam na cintura, arrastando-o para a escuridão sufocante que havia ao fim do caminho. Vozes ecoavam da negritude, exigentes, sedentas, causando arrepios no garoto. — Papa! – Gritou, estendendo a mão para alcançá-lo, tentando mover as pernas e correr até ele. Mas ele não as sentia. Estava mergulhado em areia, afundando rapidamente até que a mão estendida - agora em direção ao céu - implorasse para sair. A última coisa que viu foram dois enormes olhos amarelados que piscaram antes de avançar para engoli-lo.

***

— Hermano Gui! Hermano Gui! Guilherme!

Abriu os olhos de uma vez, ofegante. A primeira coisa que viu foi a mão estendida como no fim do sonho. Olhou em volta assegurando-se de que aqueles olhos amarelos não se encontravam em parte alguma e respirou mais aliviado.

— Gui, você está bem? – A garotinha se reaproximou, tendo se afastado pelo susto com o súbito movimento do irmão ao acordar.

— Maribel. Desculpe, eu te acordei? – O garoto mais velho colocou as pernas para fora da cama, estendendo os braços para acolher a irmãzinha que pulou em seu colo sem hesitar. Os bracinhos descansaram ao redor do seu pescoço enquanto ele acariciava seus cabelos para acalmá-la. — Pronto, pronto, já passou.

— Você estava gritando. – Ela contou. — Teve outro pesadelo?

— Foi só um sonho, não precisa se preocupar. – Ele assegurou. Maribel descolou do seu pescoço e olhou fundo em seus olhos com toda inocência que alguém de 6 anos poderia ter.

— E quanto ao papa? Você estava chamando ele. Acha que ele vai voltar?

Guilherme sentiu um arrepio ao relembrar as mãos que agarravam o pai e o afastavam de si. Mas aquilo era só um sonho, certo? Fruto da sua imaginação misturado com o que quer que tenha contado de histórias no dia. Colocou a irmã no chão e se ajoelhou ao seu lado de forma a ficar no mesmo nível dos seus olhos.

— O papa está desaparecido, Mari. Ele não vai mais voltar. – A voz saiu mais amarga do que gostaria, por isso tentou suavizar ao ver as lágrimas ameaçarem cair dos olhos dela. — E você sabe que a Mama não gosta quando falamos dele, não é? – Ela assentiu, fungando. — Até porque não precisamos dele aqui, nós temos a mim! – Sorriu, fazendo uma pose boba, exibindo os músculos inexistentes e se sentindo aliviado ao ouvir a irmã rir de sua brincadeira. — Vamos ficar bem, ?

. – Ela sorriu de volta e recebeu um beijo na testa.

— Agora vá tomar seu café, e, já que me acordou, eu te levo para a escola.

Ela obedeceu e saiu do quarto, saltitando. Gui podia ouvir o mexer de panelas que indicava que a mãe também já havia acordado ou talvez nem houvesse ido dormir. Passou a mão pelos cabelos cacheados, e voltou para a cama cobrindo os olhos com o antebraço, vendo formas amorfas piscarem nas pálpebras cerradas com força. Os sonhos vinham acontecendo há meses, desde o desaparecimento do pai no ano anterior, mas haviam piorado muito na semana passada e nessa subsequente. Vinha adiando ao máximo o ato de dormir, mas o corpo sempre acabava cedendo, dominado pela exaustão de um dia de trabalho. Tudo para acordar horas mal dormidas depois, com o peito coberto de suor e a mão sempre estendida a frente, em busca do pai que nunca conseguia alcançar e em seguida da liberdade daquela prisão sufocante na qual afundava. E ao fim, as palavras eram sempre as mesmas: Não vá ao templo!

E ele não queria ir, não queria. Fora lá que o pai desaparecera, em mais uma dessas expedições arqueológicas em busca de pistas da civilização perdida Inca. Logo, se dependesse de Gui, ele nunca se aproximaria de lá. Porém, seu corpo tinha uma opinião contrária. Pegava-se constantemente virando-se na direção dos templos erguidos em adoração ao sol e em um mero momento de distração se encontrava a caminho. Algo no lugar agia como um ímã, atraindo-o, enunciando doces palavras que seu interior captava e o arrastava em busca de mais, sem que ele se desse conta. Era exaustivo. Estava cansado, muito cansado para um garoto de 15 anos que mal havia concluído a escola.

O chiado o trouxe de volta a realidade, sabia o que aquele som significava: a mãe fazia uma nova tentativa de falar com o pai desaparecido pelo walkie-talkie que ele havia deixado para estes casos. Ignorou o som e levantou-se de vez antes que a irmã voltasse para puxá-lo pelas orelhas - mesmo ela sendo a caçula - e tratou de ir para o banheiro se livrar do suor e dos resquícios do sonho. Fitou sua imagem no espelho, a pele azeitonada e os olhos escuros, além disso, a sua maior característica, um símbolo intricado na nuca que parecia um quadrado recortado por linhas duras que se dobravam sobre si. A marca da benção dos deuses, como seu papa costumava dizer. Papa....

Não, recriminou-se por ainda ter esperança. Havia prometido que, independente do que houvesse de fato acontecido, o pai os havia abandonado. Fora decisão dele partir e deixá-los. E agora a mãe e a irmã pagavam por isso.

— Ele está morto e não vai voltar. – Disse para sua imagem no espelho de forma séria. Assentiu e voltou ao quarto para pegar uma roupa antes de se dirigir a cozinha para tomar café.

Maribel já se encontrava sentada confortavelmente na mesa, os pezinhos se balançando na cadeira de encosto alta enquanto comia seu mingau e a mãe trançava seu cabelo com um pequeno sorriso. Viu os olhos dela caírem sobre si e os ombros murcharem. Já havia se habituado a essa recepção desde que o pai desaparecera. Ela tentou disfarçar e sorriu para ele apontando para o prato no lugar habitual.

— Fiz seu preferido, mi hijo. Tamal criollo.

— Obrigado, Mama. – Sentou-se e começou a comer. — Conseguiu dormir hoje?

— Um pouco, um pouco. – Ela respondeu de forma vaga. — Mas não precisa se preocupar, eu estou bem. – Ele sabia que era uma mentira, via as bolsas escuras sob os olhos e o vidro de remédios na prateleira estava novamente mexido. Mas não comentou nenhuma dessas coisas, não queria piorar a situação. — Leve Maribel para a aula hoje, ? – Disse ao terminar de amarrar a trança e depositar um beijo na testa da mais nova. — E tu, mi corazón, se comporte, está bien? Tenho que ir, a Sra. Ramirez me aguarda. – Pegou a bolsa, pendurada no trinco da porta e lançou um último olhar aos filhos. — Se cuidem bem, mis pequeños.

Adiós, Mama. – Eles se despediram juntos. Guilherme voltou a se concentrar na comida a sua frente, mas, nem mesmo o seu prato favorito conseguia aplacar a ânsia que sentia no estômago. Algo estava para acontecer. Era a mesma sensação que tivera no dia em que o pai desaparecera. Forçou a comida para dentro e engoliu tudo com um copo de água.

— Terminou, Maribel? - A caçula assentiu e correu para o quarto para pegar a mochila. Gui buscou suas coisas e pendurou a bolsa no ombro no tempo em que a irmãzinha voltava. Segurou sua mão e os dois partiram pelas ruas movimentadas de Cusco. A arquitetura feita em pedra bruta mesclando os estilos pré e pós-colonial eram palco de grande atenção dos turistas. As ruas calçadas e as portas coloridas que se abriam indicando mais um dia de trabalho que começava. A manhã estava quente, o céu claro e limpo de nuvens estava perfeito para uma caminhada ao ar livre. Desceram uma das grandes ladeiras, apostando corrida para ver quem chegaria primeiro e pararam em frente ao prédio da escola, suados e ofegantes, o ar rarefeito devido a altitude tornando mais acentuada a falta de fôlego, mas com um riso indisfarçado nos lábios.

Gui deixou a irmã na escola com a promessa de vir buscá-la no fim do dia e partiu para as ruas mais movimentadas, ignorando a própria aula que também devia estar começando e puxando os fantoches de dentro da bolsa – um casal vestido em trajes longos e mantos, usando adornos metálicos que haviam sido dobrados em forma de joias, além um comprido cajado preso a mão do homem. Conseguiu um bom lugar na Praça das armas, que era conhecida por ser a parada inicial da maioria dos tour, e se aprontou para quando a horda de turistas começasse a chegar. Testou as cordas e brincou um pouco com as marionetes, ensaiando a história que contaria. Seu número era bem conhecido e as amizades feitas nos últimos meses com os guias garantia-lhe que sempre houvesse pessoas para assistir. Agradecia ao pai pelo vasto conhecimento sobre a cultura inca de onde retirava histórias de deuses e batalhas.

Todo o entorno pareceu respirar como um só antes que as janelas se abrissem e os cheios deliciosos cobrissem a rua, atraindo a multidão que começava a acordar. Manteve-se calado, esperando o momento certo quando o número de pessoas houvesse aumentado o suficiente. O turismo era a principal fonte de rendas do país, e, por sua antiguidade e importância histórica, Cusco foi declarada pela UNESCO como Patrimônio Mundial.

— Atenção todos! Esta é a história de como os deuses criaram os humanos e do nascimento da grande Capital Cusco. – Gritou para a multidão, chamando a atenção dos mais próximos que por sua vez se aglomeravam ao seu redor para ouvir, atraindo a curiosidade dos demais que iam investigar a fonte de todo aquele ajuntamento

— O criador supremo do mundo era Viracocha. – Puxou o boneco do deus, um dos primeiros que havia ganhado do pai, antes de passar a fabricar os seus próprios. — Ele criou os homens a partir do barro e os colocou em cavernas, de onde eles saíram para o mundo exterior. Ele também criou o sol, a lua e as estrelas a partir do lago Titicaca  Por sua vez, Inti, o deus do sol, enviou seu filho Manco Cápac e sua filha Mama-Quilla para uma Terra caótica e escura, em busca de um lugar para estabelecer seu reino. — Posicionou os dois bonecos especiais que eram suas últimas criações e os moveu, andando ao redor do público para ilustrar a longa caminhada. — Os dois vagaram pelas planícies e seguiram em direção noroeste, até o vale do rio Huatanay. Ali, Manco revirou a terra com seu cajado, encontrou solo espesso e fértil e chamou o local de Cusco, o umbigo do mundo. – Repetiu o gesto com o cajado que o boneco carregava. — A cidade se tornou o centro do poder, da religião e da cultura inca. Manco Cápac se tornou rei e passou a ensinar a arte da civilização para os homens. Então vieram os colonizadores espanhóis e atacaram a cidade, destruíram a cultura e mataram o seu líder, condenando a civilização a anos de esquecimento. Mas há uma coisa que ninguém sabe. Um dia o deus sol, Inti, enviará seu filho a esta terra para levar o império a sua antiga glória.

Ao fim da história, tinha a garganta seca e os olhos ardendo da longa exposição ao sol, mas os aplausos eram gratificantes. Passou a bolsa, segura pelas mãos da marionete entre os turistas e ficou feliz com a quantidade recebida. Aquele dinheiro ajudaria a mãe nas dívidas da casa agora que já não mais podiam contar com o auxílio de pesquisa que o pai recebia. Tornou a guardar as marionetes na bolsa e saiu pelas ruas tão bem conhecidas. Correu para o Mercado Central de San Pedro e passou por entre as barraquinhas de comida apreciando os aromas deliciosos que faziam sua barriga roncar. Avistou uma cabeleira branca conhecida e, rápido como um raio, puxou um dos cuy que estavam em exposição.

— Gui, seu menino levado! – A senhora gritou, seu tom mais próximo de uma risada do que uma bronca verdadeira. — Assim vão pensar que você tem 8 anos e não 15.

— Fique mais esperta na próxima, Abuela! – Acenou uma despedida e voltou para as ruas movimentadas, comendo com gosto.

A garganta irritada reclamou e Gui parou em uma fonte para matar a sede e aplacar a ardência. Sentiu uma picada leve no pescoço e levou a mão, achando que havia sido algum mosquito o responsável. Mas, para sua surpresa, arrancou do pescoço um dardo enfeitado com penas. Girou-o entre os dedos sem entender o que via e sentiu o corpo amolecer. A visão embaçou, a cabeça pendeu contra o peito, subitamente sonolentos, e as pernas cederam. Gui foi ao chão sem ouvir ou enxergar mais nada além de um par de pernas que parecia ter surgido do nada.

***

Guilherme acordou atordoado. Olhou em volta, percebendo com espanto que o céu já se encontrava no crepúsculo do dia e constatando estar ao ar livre e puro, longe da poluição da cidade. Podia sentir a grama sobre os dedos e o cheiro de terra molhada e cultivada, além do som preguiçoso que as lhamas faziam. Sua mente se embaralhou, como havia saído da cidade e onde poderia estar? A resposta estava na grande construção que não havia notado de início. Sua boca secou. Logo a sua frente se encontravam os templos de pedra e as encostas construídas no ponto mais alto, como se seus construtores tentassem estar o mais próximo do céu, crendo que assim, poderiam alcançar os deuses. A cidade inca de Machu Picchu. Não sabia como havia chegado lá, sua última lembrança era de se abaixar para beber água e então uma picada rápida e bum! Acordara ali, a meros 500 metros do templo que tanto evitara se aproximar.

Sabia que não devia estar ali. Sabia que devia dar as costas e se afastar. Ir embora o mais rápido que pudesse. Mas ele podia sentir seu sangue cantando. O chamado percorrendo suas veias. A atração irresistível de colocar o pé na estrada e se encaminhar para o templo. Via o quanto isso seria fácil, deixar tudo para trás: a mãe, a irmã, a casa em que viveu durante toda a infância; e apenas seguir essa parte de si que lhe dizia ser esse o seu destino.

Olhou para o sol que se punha e lamentou o fato de ter quebrado a promessa a irmã, tinha certeza que se não aparecesse em casa, mama trataria de ir buscá-la. Mas agora que estava ali, iria descobrir a razão de todos aqueles sonhos. E, quem sabe, em seu íntimo, alimentava a esperança de encontrar o pai. Começou a caminhada, enunciando para si mesmo os dados que aprendera com seu papa: Machu Picchu. Localizada no topo de uma montanha, a 2400 metros de altitude, no vale do rio Urubamba, foi construída por Pachacutéc no século XV. Adentou a cidade, sendo acolhido pelas paredes de pedras, templos, santuários com seus corredores e escadarias que ligavam os diferentes níveis em que os edifícios ainda permaneciam de pé.

Não teve tempo de se aprofundar na exploração da superfície, pois, como todo bom aventureiro que invade um lugar sagrado, Gui pisou em falso e caiu em uma armadilha. O buraco se abriu aos seus pés e ele caiu. Cipós se emaranhavam em seus membros e a sensação gélida que lhe causava arrepios o tomou. Não conseguia ver o fundo, de modo que fechou os olhos a espera da pancada final. Mas o choque que esperava não veio, em vez disso o que sentiu foi a maciez de uma rede que o aparava a poucos metros do chão. Sentou-se sem jeito, tonto pela queda e piscou para forçar os olhos a se acostumarem a pouca luminosidade que vinham de dois archotes pendurados nas paredes. Uma respiração ruidosa indicou que não estava sozinho, apertou os olhos em uma tentativa de identificar a sombra que crescia em sua direção e, quando o fez, um bolo cresceu na garganta e os olhos encheram-se de lágrimas.

— Papa?! – Gritou com todo o ar disponível nos pulmões, saltando do lugar onde havia caído e pulando direto nos braços do homem que quase caiu para trás com o susto.

— Guilherme! O que faz aqui? – As mãos calejadas agarraram seus ombros e o sacudiram. Os olhos escuros pareciam ter adquirido um estado permanente de surpresa e Gui podia ver neles o desejo de que aquele encontro não fosse real.

Não houve tempo para maiores explicações. Passos ecoaram no corredor de pedra bruta e o pai passou Gui para suas costas em uma atitude protetora. Ouviram o barulho de nós sendo desfeitos e logo os estranhos adentravam o que era uma cela para manter os prisioneiros confinados.

— Quem são eles, Papa?

Shii... Fique bem quieto agora, mi niño. Eles são os sobreviventes do Império inca. Moram nas cidadelas subterrâneas abaixo das ruínas de Machu Picchu. – O arqueólogo o puxou e os dois se encolheram contra o canto da parede.

Dois homens corpulentos entraram portando pesados bastões de madeira. Junto a eles, um senhor á de muita idade, pele enrugada e cabelos muito brancos e compridos, avançou apoiando-se pesadamente em seu cajado.

— Separem-nos! – Ordenou. E os dois outros avançaram, descendo os bastões contra seu papa que tentava o proteger. Fraco como estava, não resistiu muito e logo desabou no chão, o sangue quente escorrendo pela testa no local que fora atingido. Puxaram Guilherme de seu abraço e o jogaram diante do velho, enquanto prendiam-lhes os braços, forçando-o a permanecer deitado.

— É ele! O escolhido veio até nós! – O ancião avançou a passos pesados e agarrou o garoto pelo pescoço, girando-o de forma deixar exposta a tatuagem ali existente.

— Não! Parem! Soltem-me agora! – Guilherme gritava, os dedos fechados em garras ao redor de seu pescoço o estavam sufocando. — O que querem de mim? Por que me trouxeram aqui?

— Você é Inca, o filho do deus sol, aquele que foi escolhido para ser seu hospedeiro e foi tirado de nós por este homem! – O ancião apontou o cajado para seu pai que continuava ajoelhado a sua frente, um olhar triste no rosto como se já soubesse como aquilo acabaria. — Mas que voltou ao mundo para nos conduzir de volta antiga glória. – As palavras agiram como uma chave, destravando sua memória e provocando um ruído alto que parecia rachar sua cabeça ao meio.

— Isso é verdade? Papa? – Gui parou de se debater e voltou o olhar para o pai. A voz implorava por respostas.

— Guilherme, você tem que entender, tudo que fiz foi para protegê-lo. Encontrei-o ainda bebê, abandonado em uma sala escura, trancado a própria sorte. Resgatei-o de lá e o levei para casa. Você é meu filho e não merece esse destino. Devia ter me ouvido e ficado longe do templo. – Os olhos sofridos encheram-se de lagrimas. — Mi hijo... eu lamento tanto...

Arrastaram Guilherme aos gritos pelo corredor e o jogaram em um aposento trancado. O pai foi forçado a assistir ao ritual como parte de sua punição por ter levado o hospedeiro embora. E, a cada grito que escutava o filho soltar, um pedaço de si morria com ele.

Trancado naquele cômodo escuro, Gui foi assaltado pelas vozes. Elas sussurravam em seu inconsciente, corroendo as beiras de sua sanidade. Vozes antigas, ancestrais, infinitamente sábias e que já haviam visto muito mais além desse mundo. Entregue. Entregue seu corpo a mim. Gui resistiu o quanto podia, visualizando a família: o sorriso da irmã e sua risada inocente, o passar ritmado da escova por seus cachos que sua mama sempre fazia ao fim do dia, os giros pela sala nos braços do pai enquanto ele falava entusiasmado de uma nova descoberta. Não adianta. Você está marcado, nasceu para isso. Entregue-se! Focou nos dias ensolarados que passeavam pela cidade, correndo por entre os turistas, os sorvetes que os olhos chorosos haviam conquistado derretendo nas mãos sob o sol do meio-dia. Mas nem isso adiantou. Isso! Isso! Não há razão para lutar. O império precisa reaver sua glória. Eles precisam de mim. Entregue-se!

Os rostos se tornaram borrados e, aos poucos, desapareciam por completo como se nunca houvessem existido. A tatuagem na nuca queimava sua pele. Agulhadas de dor perpassavam seu cérebro e o faziam gritar. As mãos arranhavam as paredes, deixando rastros de sangue em formas de palavras em uma língua desconhecida. Os olhos dourados do sonho o perseguiam por todos os recantos de sua mente. Não havia onde se esconder. Não havia escapatória. Era como estar preso novamente, afundando na areia do sonho com as mãos negras a puxarem-no para mais e mais fundo.

Cânticos ecoavam pelas paredes, os sons misturando-se as vozes em sua cabeça, dando-lhe a impressão de flutuar. Tropeçou em algo e caiu no chão de onde não mais se levantou. O corpo cansado demais para lutar, a mente em frangalhos após tantas informações, tantas imagens transmitidas que eram demais para sua mente humana processar. Lamento, Papa... pensou. Não consigo mais aguentar! É demais! Deixou-se envolver, os sentidos entorpecidos, a consciência cada vez mais distante, desprendendo do corpo, afastando-se do invólucro que o prendia e se untando ao fluxo do universo. Tudo que ficou para trás foi uma casca vazia que foi rapidamente preenchida.

Os olhos se abriram e neles não havia mais o castanho escuro e bondoso. Em seu lugar, dois orbes dourados olhavam fixamente o arqueólogo ser arrastado até si. Ele sabia que aquele não era mais seu filho e o coração sangrava a perda.

— Você foi o responsável pelo atraso no ritual. – A voz era grossa e profunda demais para alguém que aparentava ter 15 anos. — Portanto, deve pagar por tal ação. – Estendeu a mão de lado e o ancião lhe passou uma adaga com intrincadas escritas por toda a lâmina.

Em seus últimos segundos, enquanto assistia a adaga se aproximar de seu coração em um golpe que seria a sua morte, ele pensou na família, no filho que mesmo não sendo sangue do seu sangue agora estava morto, na esposa abandonada chorando amargamente sua partida e na filhinha que nem ao menos veria pela última vez. Engasgou-se no próprio sangue e soltou um urro de dor ao sentir a lâmina ser girada em seu interior. Os olhos dourados assistiam aos seus últimos suspiros, impassíveis. E, quando a vida á havia se esvaído do corpo, ele apenas limpou o sangue que tinha nas mãos antes de se voltar para o ancião que lhe encarava extasiado.

— Alegrem-se, irmãos, o deus sol está entre nós e trará prosperidade outra vez. – O ancião anunciou e os cânticos retornaram. Levaram o corpo agora habitado pelo deus para se preparar.

Pinturas foram feitas em sua pele e um manto macio foi posto em suas costas. O sol andava novamente por esse mundo. Caminhou por entre os corredores de pedra seguido por dois nativos e subiu os degraus até a alta cadeira localizada no altar sob a única réstia de luz que atingia o subsolo. Suas costas bateram contra a cadeira de pedra dura, e, enquanto um dos nativos baixava um coroa de ouro em sua cabeça, os demais se ajoelharam e entoaram em uma só voz.

— Vida longa ao Inca!

25 de Novembro de 2018 às 17:12 5 Denunciar Insira 8
Fim

Conheça o autor

Nathy Maki Leitora voraz desde que tenho idade para segurar um livro em mãos. Sagitariana e um poço de emoção e muuita indecisão. Amo um clichê bem escrito e um suspense que te prende, mas fantasias e ligações são especialidade. Sou fã daqueles finais inusitados. Até mesmo os tristes! Lema: Colecionar sonhos, ideias e magia e depois transformá-los em palavras é o que torna bela a vida.

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Olá! Primeiro de tudo, pedimos desculpa pela demora para postarmos o comentário e faremos o possível para que esse atraso não se repita. Estamos muito felizes que tenha participado com, não com uma, mas sim duas histórias nesse desafio! A história de Guilherme foi realmente intrigante! O mistério do que aconteceu com o pai e o porquê de Gui não poder ir ao templo deixaram a aquele suspense e a vontade de ler mais! E, com certeza, a parte dele ser a encarnação de um deus Inca também deixou tudo mais excitante! Você seguiu muito bem o tema do desafio com todas as lendas urbanas e Guilherme ser importante dentro delas. Agradecemos por ter participado! Esperamos por você nos próximos desafios! Até mais!
22 de Fevereiro de 2019 às 10:33
MiRz Rz MiRz Rz
Que história magnifica! Muito original, bem escrita durante todo o conto, fazendo bom uso do suspense e com um desfecho imprevisível. Parabéns a autora pela obra.
10 de Fevereiro de 2019 às 17:14
Zen Jacob Zen Jacob
Ok, eu realmente não previ esse final trágico vindo?? Tava crente-crente que no final o Guilherme conseguiria se libertar da influência da força ancestral e impedir a morte do pai, a coisa toda chegar nesse nível foi uma baita surpresa. Gostei das descrições da história e de como você colocou o cenário do Peru. O Guilherme ser contador de histórias também foi uma ótima forma de mostrar as lendas e a cultura local, ficou bem fluido dentro da história, além de acrescentar background pro próprio personagem. Só o que senti falta na história foi a razão de o pai ter retornado para o templo, sendo que ele aparentemente sabia que tinha algo de errado com o lugar - mas dá pra entender que por serem só 4k de palavra e a história não tinha ele como enfoque, não seria algo tão explorado. Num geral o clima desse final contrastou bastante com o início, que apesar da tristeza do abandono do pai, ainda era iluminado; foi escuro, cinzento e aterrorizante. Eu gostei, espero poder ver outras histórias que explorem essa ancestralidade da América Latina, tem uma cultura rica demais pra que nós não a aproveitemos. :)
2 de Dezembro de 2018 às 18:45
Yasu Wada Yasu Wada
Estou sem palavras para dizer o quão incrível ficou!!! O enredo, as descrições e o clima incerto. Ficou realmente muito bom. Parabéns pela participação no desafio!
2 de Dezembro de 2018 às 08:24
HunterPri Rosen HunterPri Rosen
Caraca muleke! Estou muito chocada em Cristo com essa história, socorro kkkkkkkkkkkkk Achei sensacional do começo ao fim (apesar de ter ficado com dó do Gui e seu papa, claro). As descrições foram impecáveis e deram todo um clima à narrativa, foi mesmo como estar no Peru, gente... As palavras em espanhol também deram esse clima, parabéns por toda a caracterização da história. Eu amei o enredo sobre os sobreviventes da civilização Inca, a tensão sobre o escolhido para ser o receptáculo do deus sol, tudinho mesmo, de cabo a rabo. Arrazou demais! Tô impactada e queria colocar essa história num potinho <3 Amei hardmente! Parabéns pelo desafio e por ter criado algo tão bacana de ler! Bjs!
28 de Novembro de 2018 às 06:48
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