Lebres na montanha Seguir história

lemonworld Julie Ruin

Certo dia nós acordamos e todos os nossos maridos haviam desaparecido.


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Lebres na montanha

Certo dia nós acordamos e todos os nossos maridos haviam desaparecido.

Quando me virei na cama e abri os olhos pela primeira vez, ele não estava lá. Em seu lugar, uma lebre marrom como a terra dormia imóvel, respirando pesadamente. Me perguntei que tipo de sodomia ele estaria planejando para mim daquela vez, com uma lebre; e, paralisada pelo choque, esperei pacientemente. Já havia aprendido que doía menos quando eu não tentava fugir.

Se força psicológica pudesse ser convertida em força física, a aquela altura eu já estaria movendo montanhas e remodelando nosso vale como bem quisesse. Mas, se força psicológica pudesse mesmo ser convertida em força física, a aquela altura eu também não precisaria mais ser tão forte, porque já teria subjugado aquele que me causava tanto sofrimento.

Muito eu esperei, mas ele não apareceu.

Confusa, pensei que talvez fosse seguro sair. O tempo não havia parado, e eu ainda tinha uma casa para cuidar. Era dia de mercado: eu precisava ir até o vilarejo comprar carne, leite e linha – para reparar as roupas dele. No meu caminho, era inevitável eu que passasse pela praça central, onde, naquele dia, uma multidão de mulheres se aglomerava. Eu não ia parar: mulheres não podiam se aglomerar em grupos maiores que três, ou correriam o risco de serem acusadas de bruxaria. Mas, quando passei por elas, ouvi os burburinhos: os maridos de todas haviam desaparecido e deixado uma lebre marrom em seu lugar.

Imediatamente, eu entendi, por mais que tivesse passado a vida inteira sendo chamada de burra. Eles podiam proibir a nossa alfabetização, podiam proibir nosso aprendizado, podiam forçar nossa ignorância e nos subjugar com força física, mas nunca conseguiriam limitar nossas mentes.

Voltei para casa correndo, tropeçando na barra do pesado vestido que era obrigada a usar. Minha lebre havia acordado, e quando me viu chegar, disparou a saltitar debilmente pela casa, procurando uma maneira de fugir. Eu era melhor que uma lebre, e logo a tinha em minhas mãos. Levei-a até a praça central e subi no palanque da forca monstruosamente enfeitada com flores coloridas e perfumadas, utilizada para calar aquelas de nós que insistiam em desobedecer.

Frente os olhos de todas as mulheres do vilarejo, apertei o corpinho frágil daquela lebre, até ouvi-la guinchar. Era o guincho de um homem covarde, desprovido de toda a agressividade que utilizava como escudo. Era o guincho de um homem inseguro e impotente. Um homem que se sentia menos insignificante quando oprimia aquelas que não podiam se defender, como todos os outros do vilarejo. Aquela lebre era meu marido, eu sabia.

Desafiando aquela forca florida atrás de mim, apertei o pescoço daquela lebre até que seus chiados se cessassem. Seu corpo mole e sem vida foi jogado na pira onde as bruxas eram queimadas. A partir daquele dia, nós iríamos nos libertar.  

As pedras que pavimentavam as ruas logo se tornaram vermelhas, mas maioria de nós decidiu soltar suas lebres, para depois persegui-las na montanha. Era mais gratificante assim: dar aos homens a chance de correr e sentir uma fagulha de esperança. Nossa vingança era mais completa quando deixávamos que se escapassem, para depois chutarmos os arbustos onde se escondiam e caçá-las novamente, até a exaustão, com espingardas e forquilhas.

Eles haviam nos negado o mundo e a vida. Eram demônios que haviam nos negado a felicidade e a esperança, dando-nos em troca o medo e a dor. Eles sabiam que, se fossemos livres, tudo seria diferente. Nós havíamos passado tempo demais sob correntes e grilhões, mas tomaríamos de volta tudo o que era nosso, e daríamos luz a um novo universo.

25 de Outubro de 2018 às 22:14 0 Denunciar Insira 1
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