As Piores Sensações De Henry Seguir história

pequenalady2000 Nathalia Souza

Henry, se pudesse resumir a época em que morava no orfanato, diria que foram os melhores piores dias da sua vida. Melhores, porque conheceu Lucy. E piores por motivos similares. Ainda lembrava de tudo com fervor. Dos gritos, das chamas, das vozes, da dor. Tudo vivo dentro de si, corroendo o jovem aos poucos. O pior de tudo era saber que, no fundo, a centelha para aquilo sempre pode ser apagada por ele.


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos. © ©Todos os direitos reservados©

#mistério #original #fantasia-sombria #crianças #hallowink
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Primeiro Ato: Castelo Ensolarado

Notas Iniciais: Esta história, escrita para o desafio Hallowink, foi baseada na imagem abaixo, feita pelo artista Dennis (@Disse86). 

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“Kaleidoscope eyes
Sparkle at the world
My emerald city, downtown girl
In the sickness of you
I'm just a white blood cell
Fighting like hell for you”
Panic! At The Disco – Kaleidoscope Eyes

A pior sensação do mundo, para  Henry, era a falta de liberdade. Ver-se privado de um direito natural do ser humano, enjaulado ou impossibilitado de ir muito longe. Podia deixar muitas pessoas malucas.

A segunda pior, ao seu ver, era a solidão. Estar sozinho no mundo, sem ninguém para lhe amparar, perdido em meio seus próprios sentimentos sem poder externar nada para qualquer pessoa.

A terceira na sua lista era a sensação de abandono. Saber que você fazia parte da vida de alguém e simplesmente você deixou de fazer. Sentir-se descartado como um treco velho e jogado num rio poluído qualquer.

Para todo seu azar, a vida de Henry possuía todas as três sensações. Vivia num ambiente completamente tóxico e repleto de desconfiança, onde cada um precisava viver por si: Orfanato Sunny Castle. 

Castelo sim, mas sem realeza. Além disso, naquele bela cidade de Lacock, a chuva normalmente estava presente no dia a dia do bairro Whittaker. Aquela parte do pacato lugar era cercada por uma densa floresta, e parecia receber mais da chuva do que o resto. Pelo menos era o quê ouvia dos adultos que cuidavam dos órfãos como ele.

Havia passado dez primaveras, ou seja, toda sua vida, dentro do orfanato. Alguém o levou até a Diretora Hume, sem identificação nenhuma e com um pequeno bilhete. Este dizia apenas que o bebê de três meses se chamava Henry. Sem sobrenome, nada mais. 

O som familiar da porta sendo destrancada tirou a criança de seus devaneios. O leve incômodo que a luz vinda da porta causou aos seus olhos nada se comparava a passar a noite dentro daquele quartinho escuro e fétido. Mesmo assim, nem estes fatores, nem os animais que ali viviam eram o real problema. O quê não havia deixado o menino dormir eram as vozes. As malditas vozes, que insistiam em dizer que, se não fizesse nada, a Lucy iria morrer.

— Anda Henry, está quase na hora do café. — a voz arrastada pelo sono lhe chamou e o rapaz logo estava do lado de fora.

Viu-se no corredor longo de madeira, de frente a figura que parecia ser um quadro de tão firme e impecável. A Diretora Hume era alta, cadavérica e pálida. Os cabelos grisalhos estavam presos num coque alto e seu vestido vinho lhe cobria do começo do pescoço até às canelas. Os olhos cinza e gélidos faziam o menino estremecer dos pés à cabeça, e logo desviou seu olhar para o assoalho.

— Espero que tenha aprendido a ser um menino comportado. Vá tomar um banho, Henry. — ordenou sem ao menos olhá-lo.

— Sim, Diretora Hume. — murmurou e afastou-se rápido, porém sem correr. 

Esta era uma das regras do “castelo”: Sem correria nos corredores. Uma regra nível um que apenas possuía um castigo leve: mais deveres de casa ou ajudar a lavar a louça do jantar. Na noite anterior, porém, havia quebrado uma regra nível três: Havia entrado no escritório da Sra. Hume, o que implicava dormir no “Cantinho do Pensamento”, como dizia a diretora. Um jeito carinhoso de chamar aquele buraco frio. 

Pelo menos tinha tempo de tomar um banho rápido antes de comer e ir para as aulas. Quando chegou ao dormitório, alguns ainda estavam a se arrumar, mas não se importaram bom sua chegada. Haviam aprendido a frase “Cada um por si.” um pouco bem e cedo demais. 

Mesmo assim, eles pareciam animados. Henry imaginou que, talvez, algum casal estivesse disposto a adotar uma criança. Não se importou muito com isso, esperanças não moravam dentro daquela criança. Era velho demais para os casais, que normalmente escolhiam os bebês. 

Deixou esses devaneios para trás e direcionou-se ao refeitório. Entrou na fila, e rapidamente conseguiu pegar uma maçã e uma tigela com leite, junto do cereal para misturar. Dirigiu-se ao seu lugar de costume, e lá estava o motivo de sua alegria e preocupação nos últimos tempos: Lucy. 

Ela era o mais próximo de amiga que tinha no Orfanato Sunny Castle. Tirando as crianças pequenas, que eram vigiadas por todas as outras, a maioria das crianças não se falavam muito. Podia ver certo nível de companheirismo entre os que estavam prestes a completar dezoito anos, mas apenas ali. Na sua faixa etária, a relação que tinha com Lucy era rara.

Uma vez, Billy, um dos zeladores, disse que Henry era apaixonado por ela. Achava a ideia um pouco absurda, já que nem sabia o que era paixão direito, então o zelador apenas riu e pediu que o rapaz esperasse o tempo fluir.

“Ele cada vez se aproxima mais. Ela vai morrer logo.”

“Anda, vai em frente! O que você vai fazer?”

“Lucy logo logo não vai mais estar aqui para te proteger.”

“Culpa sua, sua!”

— Henry? O que foi? tudo bem? — questionou Lucy ao encará-lo nos olhos.

Ele apenas assentiu, aliviado pelas vozes terem cessado. Os olhos multicolores da menina, que no centro eram de um tom brilhante e fascinante de verde, e a linha externa era preta, traziam-lhe grande calmaria. A garota negra esbanjava um sorriso suave, e os cabelos crespos estavam presos em pequenos coquinhos feitos pela professora de história no dia anterior.

— Eu... Nada. Por que todo mundo animado? — questionou o rapazinho, começando a tomar seu café da manhã.

— O Sr. Sobretudo vem hoje. Ouvi dizer que vamos ter festa de Halloween. — sussurrou a menina da mesma idade que ele. 

Sr. Sobretudo era o apelido deles para o político e empresário Clovis Anderson que comandava o lugar. A longa peça de roupa sempre fez parte de sua vestimenta e sua chegada normalmente anunciava boas novas. 

Sempre tiveram pequenas comemorações de Halloween, e no final delas uma criança normalmente era adotada. Portanto, uma festa acendia desde os descrentes até os esperançosos. Doces e uma oportunidade de ter uma família era o suficiente para agitar as coisas por alí.

— Quanto mais doces melhor. —comentou Henry e ela assentiu, mordiscando sua pêra.

— Uhum, concordo... Olha, ele chegou. — chamou-lhe Lucy, apontando discretamente para a entrada.

Aos poucos, o refeitório silenciou-se ao ver a grande figura de sobretudo de couro. Era alto e viril, a pele bronzeada já havia visto dias melhores, e os cabelos castanhos bem penteados combinavam com a cor de seus olhos. Ao seu lado, um homem e uma mulher, segurando algumas máquinas, pareciam animados e curiosos. No pescoço dele tinha uma câmera, o que deixou um pouco mais confusa a classe infantil do lugar.

— Bom dia, Sr. Anderson! — disseram todas, em uníssono.

— Bom dia, crianças. — disse após sorrir. — Sabem que dia é hoje? Dia 30 de outubro de 2008. Não tem nada de especial hoje, mas, amanhã, uma data importante vai ser comemorada: o Halloween. E nesse ano, vocês vão ter festa grande, e meus amigos Samantha e Manu irão filmar e fotografar tudo. Sabem por quê? Vamos espalhar por todo canto. Quem sabe vocês possam ser adotados? 

A cada palavra que ele dizia, agitavam-se as crianças. Era como se Clovis fosse uma estrela do rock e todos aqueles infantes seus seguidores fanáticos. 

— Algumas coisas já chegaram, e estão lá fora. Vamos, vamos ver! — e com isso, quase todas as crianças correram atrás do empresário.

— Anda Henry! — chamou Lucy, puxando-o para fora. 

Algo dentro de si não conseguia ver aquela chegada como algo feliz. Talvez fossem as vozes, quem sabe uma desconfiança repentina? Não sabia, mas ainda sim não conseguiria relaxar. Lucy podia morrer a qualquer instante.

12 de Outubro de 2018 às 11:06 6 Denunciar Insira 3
Leia o próximo capítulo Segundo Ato : Doces e Chamas

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Oiê! Conte-nos sua experiência nesse Hallowink. Esperamos que não tenha sido tão traumatizante e intensa como a do pequeno Henry! Que história genial. A forma como você utilizou a imagem foi simplesmente perfeita! Um belo contraste entre realidade e fantasia, com um toque de mistério. Uma boa história para se ler em um acampamento no meio da floresta. Mesmo ficando extremamente curiosos com o que o destino reservará a Henry, precisamos chamar atenção para um pequeno detalhe: ortografia. Pedimos que que revise a história, pois, ao longo de toda a narrativa vários erros ortográficos e de digitação foram encontrados, nada que estrague muito a narrativa, mas, precisamos pensar um pouco na parte estética também, certo? A despeito disso, achamos a sua história incrível. Uma ótima narrativa, que tem um pouco de tudo que o Halloween pode oferecer. Parabéns!
27 de Dezembro de 2018 às 18:47

  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Olá! Obrigada pelas dicas e pelos doces elogios. Pobre Henry, prometo que irei revisar. Beijos! 2 de Janeiro de 2019 às 07:27
Kamy Souza Kamy Souza
O Henry e a Lucy são umas fofuras, deu vontade de abraçá-los e não soltar mais, tirá-los desse lugar e protegê-los! Mas gente, o que são essas vozes e como ele pode estar tão calmo? Se fosse eu, já estaria é morrendo de medo!
30 de Outubro de 2018 às 11:40

  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Oi! Sim, eles são as crianças mais fofas do mundo. Ele se acostumou, coitado. 30 de Outubro de 2018 às 13:58
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
Eu não gosto de orfanatos, talvez porque uma das minhas personagens favoritas não vivenciou coisas agradáveis lá - talvez porque muitos não vivenciem coisas agradáveis lá. Os pensamentos do Henry são assustadores; por mais que eu pense ser uma esquizofrenia, talvez possa não ser...? Não confio nele, nem nas vozes dele. Mas certamente confio menos ainda no Sr. Sobretudo. Esse sim me passa alguma coisa que... simplesmente não é boa! E eu gostaria que a Lucy não morresse, mas algo me diz que ela vai mesmo.
22 de Outubro de 2018 às 01:41

  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Quem gosta de orfanatos, né? Tadinho do nosso Henry, entendo você não confiar nele. Não tem como confiar mesmo no Sr. Sobretudo, super certa! 22 de Outubro de 2018 às 03:06
~

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