danieleliberali Daniele Liberali

Vou Amar Você... Para Sempre Uma historia que poderia ser um conto de fadas. Um romance inesperado entre duas pessoas tão diferentes e tão próximas.


Drama Contemporâneo Para maiores de 18 apenas.
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NOVEMBRO 2007 Não é o início


Agora os domingos são sempre assim. Levanto-me. Vou à igreja. Será que ele vai estar lá? Não importa, vou mesmo assim.

***

Estou aqui, no meu lugar seguro: no fundo da igreja como o padre me indicou naquele dia, um ano atrás, quando, para minha surpresa, dei de cara com ele fazendo parte do coral da igreja!

Hoje ele não está aqui. Depois daquele dia, raramente o vejo.

***

A missa acabou.

Por que é sempre assim? Nunca saio “renovada” nem com o “coração aliviado”.

O que me falta?

***

Saio da igreja e começo o caminho de volta para casa. Não penso em nada; minha cabeça está tão vazia quanto meu coração.

A igreja não é tão longe da minha casa, fica na rua de baixo. Meu bairro é simples como muitos em São Paulo. Nasci em um bairro tradicional e sofisticado, mas somente nasci lá; moro aqui desde então, mas não o conheço muito bem. Aproveito quando vou a um lugar perto de casa para observá-lo melhor, conhecê-lo um pouco mais.

Suas ruas agora, todas pavimentadas, o cinzento de calçadas e ruas quebrado, às vezes, pelo pouco colorido das casas que vão melhorando ao passarem de pais para filhos e de filhos para netos e que ganham novas fachadas, garagens, carros, portões automáticos e, algumas delas, perdem suas varandas, seus jardins floridos; não há mais árvores nas calçadas na frente dessas casas. Perdem as cores, o verde, ganham o cinza, o concreto. Sem contar que algumas casas, mesmo recebendo as melhorias como as outras, preservaram ou fizeram seus jardins e, as que as têm, ainda preservam suas varandas e suas árvores.

Diferente da rua em que moro, que recebeu anos atrás da prefeitura, a plantação de uma árvore de ipê amarelo para cada casa que estivesse do lado da rua sem postes de luz ou fiação. E a rua que eu moro, na primavera, é tão bonita, com seus ipês todos floridos, colorindo a rua e as calçadas, um tapete amarelo que se estende do início ao fim. Então, me dou conta de que estou entrando na minha rua e de que ainda é primavera, mas já é novembro e resta mais nenhuma florzinha amarela.

Estou subindo a rua e vejo que ele está saindo de casa e descendo para a oficina. Ele me vê. Para. Ele está me esperando? O que eu senti hoje, antes de sair, aquela sensação que senti somente uma vez até agora... É isso mesmo, o que estou pensando?

Quanto mais me aproximo dele, mais sinto uma vontade incontrolável de rir


Foi à igreja?

Fui. Não o vejo mais lá.

Não consigo mais acordar cedo. Só vou à noite.

Ah...

E as coisas?

O de sempre. Mas é feriado. Prolongado. Estou sozinha.

Sozinha?

Sim.

Mas o que você está fazendo?

Nada de mais. Ouvindo música...

Ah é? O quê?

Algumas coisas que eu gosto.

Você gosta de Aerosmith?

Um pouco. Na verdade, de uma música. Não, duas.

Ah, eu tenho um CD deles comigo. Será que tem as músicas que você gosta? É uma coletânea.

Talvez.

Quer entrar? Você me mostra quais são as músicas?

Tá...

***

O que estou fazendo? É claro que isso não tem nada a ver com música. Como posso ser tão ingênua e não perceber que não é a música?

Estou atrás dele, observando todos os seus movimentos. Ele está perto do CD player. Eu estou distante. Ele coloca o CD para tocar. Passa faixa por faixa me perguntando

É essa?


e eu respondo


Não. Não é.


Não consigo parar de pensar por que estou aqui. Não sinto mais por ele o que senti alguns anos atrás. Agora o vejo como sempre o vi, o amigo, o anjo que está ali para me ajudar quando preciso.

***

Dez anos atrás, meus avós voltaram para casa espiritual e foi um após quinze dias do outro. Quando foi a vez da minha avó partir, ele foi quem me ajudou, a levando para o hospital. Naquele dia, me lembrei de tudo o que minha avó me dizia a seu respeito


Filha, por que você não namora com ele? Dê uma chance a ele.

Não, vó. Eu, namorando com ele? Imagina. Não tem nada a ver.

Mas ele gosta de você. Por que não, filha?

Não, vó. Não quero.


Eu sabia que ele gostava de mim. Seu olhar quando me via, sua timidez disfarçada em indiferença para que eu não soubesse o que ele sentia. Mas era difícil esconder, tão difícil que poucas vezes nos encontrávamos. E, quando nos encontrávamos, era a mesma coisa. Primeiro, ele me cumprimentava, indiferente e eu pensava, agora ele vai embora, que cara estranho, mas não, ele ficava, me olhando. Eu também ficava o provocando somente para ver sua atitude até onde iria. Depois, acabávamos por ficar conversando por horas e era bom, muito bom.

***

Ainda me mantenho distante. Ele me mostra outros CDs agora, outras músicas. Começo a ficar entediada

Acho que vou embora.

Não, não vá não. Está cedo.

Preciso ir. Tenho umas coisas pra fazer em casa.

Ah... Tem certeza?

Tenho.

Está bem.

Desço a escada. Paro. Não sei porquê, mas penso em oferecer o número do meu telefone. Ele parece tão sozinho


Olha. Tenho mesmo de ir agora, mas se você quiser, fique com o número do meu telefone. Pode me ligar mais tarde.

Quero sim.

Na saída, ele me abraça e pergunta mais uma vez

Tem certeza de que vai embora?


Balanço a cabeça, afirmativamente


Bem... Também vou.

Saímos, então, juntos e paramos em frente ao portão da minha casa. Nos despedimos e entro.

Tenho sim coisas para fazer, mas nada de tão urgente assim. Eu só queria sair de lá, não conseguia respirar. Estava me sentindo sufocada, por ele. O que ele quer agora? Não quero pensar nisso.

Preparo meu almoço. Esqueço esta manhã. A lasanha está tão boa que não a trocaria por nada. O telefone toca


Está tudo bem aí?


É minha irmã


Está sim. E aí?

Tudo certo. Você precisa de que eu vá até aí?

Não, não precisa não.

Se você quiser, eu vou.

Não, não mesmo.

Qualquer coisa, me ligue.

Tá, ligo.

Desligo o telefone e ele toca de novo? O que ela quer agora? Atendo

Sou eu. Sabe o que é? Estava pensando se você gostaria de vir aqui de novo. Você já terminou suas coisas?

(Meu Deus! É ele! É lógico que vou.) Já terminei. Você pode me dar uns cinco minutos? Já desço.

Está bem. Até.

Ele quer que eu vá lá de novo? Bem. Vamos ver o que é.

***

Desço para a oficina. Ele me espera. Entro, subo a escada e, dessa vez, para a minha surpresa, há um tapete estendido no chão, com um lençol por cima e algumas almofadas. Acho estranho e, ao mesmo tempo, muito gentil da parte dele deixar o ambiente mais ajeitado. Sentamos, lado a lado, um de frente para o outro, Aerosmith de fundo e ficamos conversando, quero dizer..., ele conversando, me contando sobre sua nova experiência profissional. Algumas vezes eu o interrompo e pergunto


Mas como você entrou nessa de técnico em enfermagem?

Encontrei com um amigo pouco tempo atrás e ele me convenceu de fazer o curso.

Sim... tem a ver com você. E você está gostando?

Estou. Bastante. Ah... só posso ficar aqui com você até às três. Tenho um teste pra fazer hoje.

Teste? Hoje? Pra quê? Vestibular? Hoje é domingo.

Não, não é vestibular. É um teste pra um hospital. Emprego.

Não quero atrapalhar você. Posso ir embora.

Não. Ainda é cedo.

Gosto de estar aqui. Gosto de conversar com ele. Mas olho no relógio e... Opa! Já são três horas. Hora de zarpar. Não quero atrasá-lo de novo como naquela manhã que se acabava em água e eu, para não perder a oportunidade de estar com ele, mesmo sabendo que ele namorava, mas era uma chance, ofereci carona.


SÃO PAULO + CHUVA = TRÂNSITO/CAOS

Foi o que tivemos. Consequentemente, eu cheguei atrasada no meu primeiro dia na escola nova e ele, com certeza, perdeu a entrevista de trabalho. Isso, de novo? Não

Já são três horas.

Precisamos ir. Tenho de me arrumar.

Tudo bem.

Mais uma vez vamos, cada um, para sua casa. Fico o resto do dia em casa escutando música e, à noite, assisto TV. Esqueço, novamente, de tudo. A televisão aos domingos é fantástica: nada. De repente, olho para o relógio... Puxa vida! Dez e meia! Ah é... será que ele foi bem no teste? Quando acabo de pensar, o telefone toca. Na televisão, o programa que estou vendo está quase no fim. Atendo o telefone. É ele

Estava pensando em você agora mesmo. Será que ele foi bem no teste?

Ah... fui sim. Foi tudo bem.

Que bom!

Você não quer vir aqui pra gente terminar aquela conversa?

(Terminar? Qual conversa? Espera... vamos ver qual filme vai passar... hmmm... não.) Tá, estou indo.

Tá, estou esperando.

***

Entro, pela terceira vez, somente hoje, na oficina. Tudo está como à tarde: tapete com lençol e almofadas no chão, aquele ambiente ajeitado. Mas noto duas diferenças: não está tocando Aerosmith, agora é Queen, e não há luz alguma acesa...


Por que tudo escuro?

Pra ninguém saber que tem gente aqui, senão as pessoas começam a bater na porta pra pedir alguma coisa e acabou sossego.

Hmmm... (Ah é... suas estranhices.)

Passamos algum tempo somente conversando e, mais uma vez, ele me contando suas novas peripécias profissionais. É bom vê-lo assim, falante, rindo, aberto, muito diferente daquele garoto distante, sério, fechado. Ele é assim quando estamos juntos, se há alguém por perto, ele é aquele garoto que até parece assustado, como se alguém fosse puni-lo ou o repreendê-lo; quando estamos somente nós dois, ele se transforma no ser mais agradável, simpático e sorridente do meu universo.

Perco a noção do tempo. Ele, de repente, me pergunta se estou com sede. Digo que não, estou bem. Ele me diz que está com sede e que vai buscar água, mas não vai. Ele, então, continua falando. Eu pego sua mão e brinco com ela. Ele, segurando minha mão, me puxa para seu peito e, de repente, sem eu perceber, sua boca está na minha boca e ele me beija. Eu, pela primeira vez, não resisto nem tento escapar da situação. Seu beijo me faz me sentir calma, não quero parar. Eu o abraço, não consigo me afastar dele. Cada vez mais, me sinto à vontade.

Paro de beijá-lo e pergunto

Há quanto tempo você quer fazer isso?

Desde hoje à tarde.


Desde hoje à tarde? Não foi a resposta que imaginava ouvir. Ele era apaixonado por mim. Esperava ouvir


Há muito tempo.

O que houve? Acreditei todo esse tempo que, pelo menos, ele gostasse de mim. Agora ele vem com essa! Tenho que admitir para mim mesma que ele mentiu - ou mente, e essa não é, não foi e não vai ser a primeira vez.

Um breve sentimento de decepção me envolve, mas não me entrego a isso, não agora. Talvez ele tenha algum motivo

Não vou fazer nada que você não queira.

Me desculpe.

Tudo bem.


Consigo me afastar um pouco dele, me sinto bem; parece que esqueci o que ele me disse a pouco

Acho que alguém lá no céu está feliz...

O que você disse?

Nada não.

Ele fica mudo, não diz mais nada. Então, ele me convida a ir embora dizendo que no outro dia tem de acordar cedo. Concordo, afinal de contas professores têm o privilégio de aproveitar feriados prolongados, os outros nem tanto.

Quando já estou no meu quarto, começo a pensar que estraguei algo que começou acabado ao dizer que alguém no céu estaria feliz. Parece que ele não gostou. Foi apenas um comentário. Tudo bem, comentários não são bem-vindos. Mas que diabos esse cara é? Durante muitos anos da minha vida me fizeram acreditar, inclusive ele, que ele gostava de mim. Todo Natal e Ano Novo, ainda quando minha avó estava presente, com a desculpa de ver os malditos fogos de artifício, eu e minha amada avó saíamos à rua para vê-lo. Algumas vezes, eu pedia para ela me acompanhar, porque eu sim sou tímida e ela era meu apoio. E ele estava sempre lá, com seu escudo timidez/indiferença. Ao romper da meia-noite, acontecia o que eu mais esperava: ele me abraçava e me dava um beijo. Eu ficava feliz porque eu já o amava. E, ao invés de você se aproximar e falar comigo, não, você simplesmente se despedia, ia embora e eu voltava para o meu universo.

Esperei muito por esse momento. Esperei demais. Não sabia que seria você. A propósito, nunca sonhei que seria você. Mas agora é você. E eu estraguei tudo. Ou foi a sua timidez/indiferença?

O sono está começando a me envolver em seus braços seguros, confortáveis... Tudo fica longe, cada vez mais longe, distante... Amanhã penso nisso...

5 de Fevereiro de 2020 às 12:19 0 Denunciar Insira Seguir história
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