O Soldado de Swandia Seguir história

jagutheil Julio Gutheil

O jovem soldado de infantaria Dann viaja para uma nação estrangeira juntamente de seus companheiros do exército de Swandia. Lá ele conhecerá um mundo completamente novo, e também tropeçar em um segredo que mudará sua vida para sempre.


Aventura Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fantasia #espada #guerra #aventura #soldado #segredos #viagem
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O Soldado de Swandia

Gavan tinha o nojento hábito de limpar suas mãos sujas de gordura nos cabelos. Seu rosto anguloso e cheio de cicatrizes sempre tinha um brilho opaco por causa disso, e seu cheiro era um azedume constante que impregnava o ar da estreita cabine onde os soldados comiam suas refeições. Ele gostava de comer carnes gordas e suculentas, a maioria de suas refeições envolvia isso. E sem cerimônia ele limpava as mãos nos cabelos.

E cerveja, montes de cerveja pensava Dann, não sem certo amargor, enquanto comia seu humilde prato de feijões frios com alguns fiapos de carne seca e um pedaço de pão duro e velho, sem nada para beber e lavar aquela porcaria goela abaixo. Os privilégios do comando.

Dann odiava aquilo tudo. O navio balançava sem parar, o deixando enjoado e com ainda menos vontade de engolir a comida rançosa, tudo ali dentro fedia, o sol inclemente do meio dia deixava o ar denso e pegajoso, os companheiros de viagem eram todos uns imbecis presunçosos e Gavan era o maior filho da puta de todos. Imaginava que aquilo tudo era um castigo. Pelo o que não sabia, mas tinha quase certeza de que era.

Gavan, com o seu comprido cabelo preto sempre engordurado e esparramado pelos ombros largos, era o comandante de um dos sete destacamentos do exército swandi que atravessavam o Golfo de Durâth em direção à Cidade-Porto de Khaxos. Swandia estava pacatamente empoleirada no extremo oeste do continente, era rica e poderosa, e não fazia uma guerra de verdade há séculos.

Mas ama se meter nas dos outros. Dann já desistira de entender aquilo há muito tempo. Diziam que eram antigos acordos de ajuda mútua, mas mesmo assim soava estúpido para ele. Terminou de comer e jogou o prato sobre a mesa e subiu ao convés. Ali em cima soprava um vento forte que inflava as grandes velas pintadas de roxo com listras verdes e empurrava o navio rumo ao sul. O vento era fresco e carregava o cheiro intenso do mar, ondas quebravam contra a proa do navio, às vezes causando uma breve chuva de respingos salgados ou uma névoa gentil que refrescava os rostos castigados pelo sol.

Os sons ali em cima eram do quebrar das ondas, de cordas rangendo, das velas se esticando ao máximo e depois relaxando, do chão sendo esfregado; de vozes conversando, cantorias obscenas, do choque de espadas de alguns soldados que aproveitavam seu tempo livre para treinar. Essa era a parte boa da viagem, que dava a Dann uma estranha sensação de liberdade.

Foi até o parapeito, encostou-se a ele e ficou ali olhando aquela imensidão vazia. O céu brilhava em um tom cintilante de azul, sem qualquer sinal de nuvens de um horizonte ao outro. Estava assim desde que zarparam do Porto Vermelho, na província de Eldessian, no sul de Swandia, há quase duas semanas. E vai continuar.

Dann sabia disso. Tempestades não eram comuns naquele mar a essa altura do ano, por causa de alguma coisa envolvendo ventos e correntes marítimas ou algo do tipo. Não que Dann realmente conhecesse os segredos do mar e do clima, na realidade não conhecia qualquer segredo sobre qualquer coisa, era um pobre órfão ignorante das vielas de Freya, a capital swandi. Não sabia ler nem escrever, acreditava ter por volta de vinte e três anos e o exército fora a saída que encontrou para ser alguma coisa de útil na vida. Uma vez ouvira por acaso, em uma taberna qualquer de Freya, dois velhos falando sobre o mar e como ele funcionava em suas peculiaridades e caprichos. Sabia que eventualmente teria que fazer aquela viagem, e o que os velhos falavam parecia ser um conhecimento útil de se ter.

Algumas gaivotas sobrevoavam o navio, o que queria dizer que não estavam longe da terra, segundo os marinheiros experientes. Uma delas despejou solenemente um jato de merda no convés recém-lavado, e o infeliz que tinha acabado de esfregar aquele lugar rogou uma praga tão alta que Dann imaginava que até os peixes embaixo da água teriam ouvido.

Alguém riu perto de onde Dann estava parado. Ele olhou para o lado e viu um escudeiro sentado sob a sombra da vela principal, que pacientemente amolava uma enorme espada de combate. Conhecia o rapaz, se chamava Aldo e era o escudeiro do general Phanteu, o homem que comandava a tropa swandi como um todo. Era um garoto ainda, dizia ter 16 anos, mas era alto e tinha ombros consideravelmente largos e, além disso, era bem mais forte do que sua aparência pálida dava a entender. Dann imaginava que ele fosse bem nascido, isso porque se Aldo fosse um ninguém como ele próprio não seria o escudeiro de um dos homens mais poderosos de todo o reino.

Mas Aldo não gostava de falar sobre isso, então Dann era sensato o suficiente para não insistir, afinal se ele fosse mesmo alguém importante poderia mandar cortarem-lhe a cabeça sem ninguém questionar.

"Já almoçou?" Perguntou o escudeiro quando Dann se sentou ao seu lado embaixo da sombra da grande vela.

"Se você considerar aquela gororoba lá embaixo como comida," respondeu Dann, fechando os olhos e apoiando as costas contra uma parede, "então poderia dizer que sim, já almocei. Mas me falta a convicção".

"Eu tenho alguma coisa aqui ainda" falou Aldo, deixando a espada de lado e pegando um prato coberto por um pano, que estava escondido sob a sua sombra. "Pode comer se você quiser, não estou com muita fome hoje. Esse sol todo me deixa um pouco enjoado."

"Ah, eu aceito!" Dann já estava animado, sabendo que o general era bom com seu escudeiro e o alimentava bem. Tirou o pano de cima do prato e se viu diante de um belo pedaço de vitela, quase intocado, coberto por um molho o qual Dann não tinha qualquer ideia do que era feito além de algumas ervas que o deixavam com a boca cheia de água. Havia purê de batatas também, além de pedaços de cenoura e beterraba frescas curtidas com vinagre. Não era um banquete, mas Dann não comia bem assim há tanto tempo quem nem lembrava mais da última vez. "Tem certeza de que não quer? Está muito bom."

"Tenho sim." Respondeu Aldo, calmamente ao pegar a espada outra vez e começar novamente o seu trabalho minucioso de afiamento. "Estou um pouco enjoado desde o amanhecer. Pensei que subir aqui e aproveitar a sombra e o vento fresco me fariam sentir melhor e com vontade de comer, mas no fim das contas não ajudou muito".

"Não me leve a mal," falou Dann com a boca cheia de cenoura, "mas você parece ser uma pessoa doente, mesmo tendo um tamanho bom e sendo forte. Não tem muito jeito de soldado."

"Eu sei disso." Aldo tinha um ar triste, mirando apenas a espada que afiava com tanto cuidado. "Eu gosto de viajar, mas definitivamente não em uma circunstância como essa." Ele fez outra pausa, longa e pensativa, como se estivesse cansado ou escolhendo as palavras que diria a seguir. "Meu pai insistiu que eu deveria vir. Disse que era hora de me tornar homem."

"Se tornar homem, pfffff" Dann já ouvira aquele tipo de conversa uma centena de vezes de outros jovens recrutas das tropas swandis, principalmente filhos mais jovens de senhores ricos e importantes, que eram ou bêbados que causavam dor de cabeça aos pais ou não receberiam quase nada de partilhas de heranças e precisavam encontrar um caminho na vida. "Essa coisa de ser homem não é grande negócio Aldo, não mesmo, isso eu posso garantir. Na maioria das vezes só tem a ver com matar outros homens que querem se provar homens também."

"Esse é um pensamento amargo" apontou Aldo, com algo na voz que fez Dann pensar que fosse uma repreensão.

"Quando você nasce sendo um miserável como eu, a maioria dos seus pensamentos é amarga. A maioria das pessoas pensa que não existe gente miserável no dourado reino de Swandia, mas existem sim, apenas somos menos miseráveis que outros miseráveis pelo mundo." Comeu o resto da carne e dos vegetais e lambeu o prato até não sobrar mais nada, sentindo-se grato por pelo menos uma vez naquela maldita viagem ter comido bem. "Enfim, obrigado pela comida e desculpe pelas palavras. Acho que falo demais às vezes."

"Tudo bem" o escudeiro pareceu se obrigar a abrir um sorriso "Essa é outra das coisas que o meu pai costuma dizer, que eu preciso conhecer mais sobre as pessoas simples."

"Você realmente não vai me contar quem é o seu pai, não é mesmo?" Algumas vezes o soldado levava em conta uma possibilidade, mas era uma possibilidade que deixava seu sangue frio e os cabelos dos braços em pé.

"Eu gosto de você Dann, e não quero que nomes fiquem entre a nossa amizade."

Aquela era uma resposta boa o suficiente. Dann nunca teve um nome a mais para chamar de seu, desde sempre era apenas Dann. Se sua memória não o traísse, quem havia dado aquele nome para o garoto fora uma prostituta que de certa maneira o havia criado. Seu nome era Danna. Quando cresceu e se deu conta daquilo ficara um bocado perturbado, mas não havia mais o que fazer, aquele era seu nome e fim de assunto.

Entendia o ponto de Aldo, se com um nome completo já seria complicado manter amizade com alguém bem nascido, o que dirá tendo apenas um que veio de uma prostituta. Dann também gostava do garoto, sempre era gentil com ele e não o tratava como se ser apenas um soldado de infantaria fizesse dele nada mais que um animal de abate que morreria primeiro em batalha. Então era melhor assim.

"O que você abe sobre essa guerra estúpida para onde estão nos arrastando?" A pergunta surgira em sua mente como uma mudança de assunto, mas no fundo também era sincera, afinal não sabia mesmo do que se tratava aquele conflito.

"Khaxos e Arafazze vivem constantemente em guerra, e muitas vezes se torna uma tarefa ingrata distinguir os motivos." Aldo havia guardado a espada em sua devida bainha e agora parecia satisfeito em poder demonstrar seus conhecimentos de história. E demônios, o garoto fala bem. "Khaxos é pelo menos 200 anos mais antiga que Arafazze, a lenda diz que foi a primeira Cidade-Porto a ser fundada, pelo Venerável Ghitarro, um senhor tribal que fez contato com povos de terras distantes e passou a fazer comércio com eles, fazendo com que a cidade que fundara não tardasse em prosperar e enriquecer. Não demorou muito e novas Cidades-Porto foram surgindo, e conforme elas cresciam, as animosidades também, em geral devido a interesses econômicos das rotas de comércio, mas principalmente devido a rixas de sangue ancestrais do tempo das tribos do deserto. Milhares de anos atrás algum sujeito roubou um camelo de outro e por isso seus descentes se odeiam até hoje e fazem guerra por qualquer motivo que surja." O escudeiro fez uma pausa, olhando uma gaivota que sentara em uma corda que prendia a grande vela do navio, logo acima deles. "O motivo mais recente, pelo que me consta, foi um ataque araffe a um comboio de nobres de Khaxos que se dirigia aos Pilares do Mundo, no coração do deserto, que fariam algum tipo de ritual da crença espiritual deles. Senhores importantes foram mortos, senhoras e servas raptadas e estupradas, tesouros que seriam usados como oferendas nos rituais foram levadas. Isso foi uma ofensa muito séria, a viagem aos Pilares é sagrada para todos os povos das Cidades-Porto e não pode ser de forma alguma manchada pelas velhas rixas."

"Os Pilares do Mundo, você diz. – Dann franziu o cenho, não sabia do que se tratava aquilo, mas parecia que o nome não era totalmente estranho para ele. "O que é isso? Um templo? Eles têm religiões aqui para baixo? Nunca vou entender isso de religião."

"É um templo sim." Confirmou Aldo. "São quatro pilares imensos de pedra que são tão altos que parecem segurar os céus, daí vem o nome. Esses pilares formam um quadrado, e no meio desse quadrado fica o templo, tão grande quanto o palácio real de Freya. O povo que o construiu se perdeu na história, e junto com ele sua religião. Mas os povos do deserto que vieram depois usam o lugar para seus próprios cultos, os quais eu não posso dizer com certeza se são de fato religiões." Aldo suspirou, parecendo satisfeito com sua atuação de professor naquele meio dia modorrento. "Acho que nossa jornada está terminando, Dann."

O soldado olhou em volta e viu a movimentação dos outros homens, que se armavam e se reuniam em seus destacamentos específicos. Dann se levantou e olhou por cima do parapeito do navio e viu a silhueta de uma cidade ao longe. De fato, a jornada estava próxima do fim.

"Creio que o general precise de minha assistência agora." Falou Aldo enquanto se levantava, colocando a grande espada embainhada em cima do ombro. "Foi bom conversar com você Dann, nos vemos em terra. Até mais!"

"Até lá."

Dann observou enquanto o jovem escudeiro caminhava apressado na direção dos alojamentos do general. Ao redor dele, todos pareciam muito apressados, como sempre. Parecia até que o navio venceria o restante das léguas até Khaxos em um estalar de dedos. Sabia que precisava ir ao seu próprio alojamento, deixar suas coisas em ordem e ficar pronto para o desembarque, se não Gavan o repreenderia e o ameaçaria de chibatadas.

Subitamente sentiu-se cansado e de mau humor, como se a boa comida que provara há pouco não tivesse sido nada mais do que um sonho distante. Bufou, pesadamente, e arrastou os pés até o alojamento.

*

Khaxos não era como qualquer outra cidade que Dann já tivesse visto em toda a sua vida.

A primeira coisa que chamou sua atenção foi o cheiro, que deixou sua cabeça girando e sem entender muito bem o que acontecia. Era um cheiro salgado de mar, de peixes frescos e podres, de especiarias diversas, de flores, de fumaça, de metal em brasa nas oficinas de ferreiro, de pães e bolos que eram assados em fornos de barro bem ao lado das bancas que os vendiam no imenso mercado que estendia por todo o comprimento do caís do porto. Tudo isso ao mesmo tempo.

Havia gente de todos os lados do mundo ali. Dann viu compatriotas swandis com sua pele branca e postura altiva, viu também krennixes magros e esfarrapados que pareciam ter sempre uma expressão amargurada no rosto, havia os imponentes homens de pele negra como carvão que atravessavam o grande oceano a oeste para negociar suas armas estranhas feitas de um metal que só existe em suas terras quentes e ensolaradas, os esguios orientais de cor quase como o âmbar e olhos amendoados que vestiam roupas coloridas e tinham barbas trançadas em padrões geométricos bizarros. As línguas dessas pessoas se misturavam em um zumbido intermitente que flutuava por sobre o mercado como um enxame de abelhas, e ao fundo podia-se ouvir o som das ondas indo e voltando, das gaivotas grasnando e batendo suas asas e das palmeiras balançando preguiçosamente com o vento suave que soprava o tempo inteiro.

Esse não parece com um lugar que esteja em guerra, pensou Dann enquanto atravessava aquela multidão junto aos demais soldados do destacamento comandado por Gavan. Via negócios sendo selados, via sorrisos, ouvia gargalhadas e o tilintar de moedas em bolsas. Nada ali o fazia pensar em guerra.

Até que viu a coluna de fumaça negra subindo por trás de um palácio suntuoso plantado no alto de uma colina.

O destacamento de Dann, organizado em cinco linhas de dez soldados cada, marchou com rapidez pelo mercado e logo se viu em uma área mais pacata da cidade, com o palácio crescendo mais e mais diante de seus olhos. Assim como a coluna de fumaça atrás dele.

Estavam passando agora por avenidas largas pavimentadas com pedras amareladas e poeirentas, por todos os lados havia canteiros de flores e fontes que despejavam água cristalina e fresca, longas fileiras de palmeiras proporcionavam uma muito bem vinda sombra ao longo daquelas avenidas e também para as construções diversas de pedra e barro pintadas de branco.

Aquela parte da cidade era muito diferente do que o mercado no porto, quase como se fosse uma cidade completamente diferente, mesmo que não estivesse muito mais do que uma milha de distância de lá. Poucas pessoas andavam pelas ruas, e as que andavam pareciam sempre desconfiadas, com expressões fechadas no rosto e olhares de esguelha cheias de suspeita e medo. Elas tinham uma pele morena escura, quase totalmente coberta por roupas brancas, leves e folgadas. Protegiam sua cabeça com véus e turbantes, geralmente também brancos. Durante a travessia do golfo Dann ouvira alguém se referindo a Khaxos como A Cidade Branca, e agora ele entendia a razão disso.

Das janelas dos prédios e casas mulheres idosas abanavam-se com imensos leques de penas coloridas e miravam olhares reprovadores para quem estivesse passando lá em baixo. Havia algo no ar, algo quase palpável, que ia muito além das ondas de calor do meio da tarde ou dos cheiros que vinham do mercado, empurrados pela brisa. Medo e apreensão. Dann sentiu um gosto amargo na boca. A situação deve ser delicada se nem a imagem dos aliados chegando para a batalha anima essa gente.

"Ei Gruh!" Chamou Dann, batendo no ombro do soldado que marchava logo a sua frente. "Você também está sentindo algo de estranho nesse lugar?"

"Não" respondeu o outro soldado, um homem bem mais velho e veterano de muitas viagens como aquela. "Por que?"

"Não sei dizer" admitiu Dann. "Só sei que tem alguma coisa estranha nesse lugar. Lá no mercado é como não houvesse guerra nenhuma, mas aqui as pessoas parecem com medo das próprias sombras."

"As coisas são assim por aqui." Gruh era mais largo do que alto, com um pescoço curto e duro cheio de cicatrizes por baixo do cabelo que mantinha sempre na altura dos ombros, mas que se deixava ver na seguidas vezes que ele levava a mão até ali para coçá-lo ao longo de um dia de marcha. E coçou o pescoço mais uma vez ante de seguir falando: "O comércio é sagrado para essa gente, o mundo pode arder em chamas e destruição ao redor que a rotina do porto e do mercado vai continuar a mesma. A guerra pode até ser causada pelo comércio, mas no mercado e no porto ela nunca chega. Com as pessoas daqui... bom, aí é outra história".

"Contaram-me que umas colunas no deserto que eram sagradas para as pessoas daqui."

"Podem até ser!" Gruh gargalhou. "Mas na escala de coisas sagradas nesse lado do golfo o comércio sempre virá em primeiro lugar. Estamos quase no acampamento, logo poderemos tomar um dos bons vinhos que se fazem aqui e você esquecerá essas preocupações tolas!"

Dann esperava que assim fosse, mas não tinha certeza. A sensação estranha de que algo estava errado era persistente.

Mas sobre o posto, Gruh estava certo, poucos momentos depois as colunas de soldados swandis chegaram ao sopé da colina na qual o grande palácio esse erguia. Comandantes das tropas locais conversavam com os comandantes swandis, trocavam apertos de mãos e sorrisos, parecia tudo uma grande confraternização, o reencontro de amigos que não se viam há muito tempo. Dann achava aquilo estranho demais.

"Muito bem seus imundos!" Disse Gavan pulando de seu cavalo assim que o seu destacamento entrou por completo no acampamento. Seu cabelo engordurado cintilava de forma curiosa naquela meia luz causada pela sombra da colina, mas entrecortada por reflexos que de alguma maneira desciam das vidraças coloridas das janelas do palácio. "Arrumem suas barracas e descansem, pois amanhã teremos homens para matar. Não bebam demais, pois se algum de vocês se embebedara e aprontar arruaça terá um encontro marcado com minha amada Joanna."

Joanna era como Gavan chamava o chicote que trazia o tempo todo preso em sua cintura. Uma coisa horrorosa feita de tiras de couro negro cobertas por pequenas bolinhas de chumbo, entrelaçadas até se tornarem um açoite capaz de arrancar pele e carne do infeliz sob o seu jugo. Tinha um cabo revestido de prata e o formato de um tigre com os dentes arreganhados. Todos os dias, Gavan passava horas polindo aquela imagem até que ficasse tão brilhante que ele pudesse ver o seu reflexo nela.

Ou talvez fosse apenas um lembrete diário para todos os homens sob o seu comando. Mas Dann não queria descobrir, baixava sua cabeça e apenas cumpria ordens.

E cumpriu a que Gavan havia dado. Armou sua barraca junto a dos outros homens, ao longo do muro que circulava a colina.

Sentou-se no chão, tirando as botas dos pés e sentindo com prazer a brisa fresca soprando entre seus dedos cansados. Logo Gruh estava sentado ao seu lado, trazendo um jarro e dois copos de cerâmica. Serviu um para Dann e outro para si.

"Você não perde tempo." Disse Dann, depois de sorver o primeiro copo em uma tragada só. "Esse é dos bons".

"Eu não sou homem de perder tempo" afirmou o homem mais velho, servindo outro copo para Dann, que dessa vez foi com mais calma e aproveitou melhor o sabor rico daquele vinho. "Ainda mais quando se tem bebida de graça".

"À generosidade de nossos aliados!" Dann ergueu seu copo e brindou com Gruh. Fora um dia bom apesar da sensação estranha que persistia, afinal comera bem e agora bebia bem.

"Sua primeira batalha amanhã?"

"Oficialmente sim. Já estive metido em algumas escaramuças fronteiriças em Talanas, mas não foi uma batalha de verdade."

"Então você já matou." Gruh falou aquilo querendo fazer parecer que fosse uma pergunta, mas Dann sabia que era uma afirmação.

"Bom, tenho alguns corpos na minha conta." Confirmou Dann, não havia razão em mentir, mas também não sentia nenhum orgulho naquilo.

"Cedo ou tarde se torna uma tarefa de rotina." A voz de Gruh soou solene dizendo aquelas palavras, como se compartilhando um pedaço de sabedoria. "E uma batalha de verdade ajuda no processo, isso eu garanto".

Os dois esvaziaram o jarro e logo depois alguém apareceu com outro. Mas antes que eles ficassem bêbados de verdade, um batalhão de servos, tão numeroso quanto aquela própria tropa, apareceu nos portões que levavam ao palácio trazendo um banquete. Dann teve certeza de que ele era mesmo um dia de sorte.

Havia costeletas de porco, carneiro assado, peixes, frutos do mar, pães e bolos de todos os tipos e formatos, ensopados, molhos, aves cozidas, assadas e grelhadas. Se isso for uma última refeição porque nós vamos todos morrer em um massacre amanhã eu morrerei feliz, por mil demônios.

O anoitecer veio sorrateiro e quando Dann se deu conta o acampamento estava iluminado por tochas que deixavam o lugar com um fantasmagórico tom alaranjado. Sentiu um arrepio na pele. Em Freya, a maioria dos lugares era iluminada com a clara e limpa luz de magia, que não fazia sombras que pareciam vivas nem enchiam os ambientes de fumaça.

Mas as Cidades-Porto eram um lugar diferente de Swandia, magia era uma coisa rara por ali, Dann sabia. Todo o lado ocidental do continente do outro lado do golfo era rico em magia, com muitos bruxos e feiticeiros capazes de usarem essa magia, senhores e servos do alto escalão dos governos. E Swandia ainda mais do que os outros reinos ocidentais. Ninguém sabia realmente o porquê disso, e provavelmente ninguém jamais descobriria a resposta.

Dann viu-se mais bêbado do que gostaria quando voltou a si depois de observar as línguas de fogo dançando nas tochas. E estava com a bexiga doendo de tão cheia.

Levantou e fez algum esforço para não cair de cara naquele chão arenoso e cheio de pedras. Atravessou a extensão do acampamento com passos cambaleantes e de repente se viu em um ponto aonde a luz das tochas não chegava e o muro da colina fazia uma suave curva para sua esquerda. Olhou em volta e não viu ninguém por perto então abriu os cordões de suas calças e começou a mijar ali mesmo, com o alívio percorrendo seu corpo em ondas de prazer.

Dann podia ouvir o barulho de água ali, como ondas subindo e descendo em uma praia. O mar não poderia ser afinal ele ficava na outra direção. Decidiu que não beberia mais naquela noite.

Ouviu barulho de passos e pelo menos duas vozes se aproximando mais adiante na escuridão, além de um pequeno ponto de luz que acompanhava as vozes. Apressou-se em terminar e ir embora dali antes que aparecesse alguém e causasse encrenca. Apesar dessa linda noite sem luas e estrelada me deixar inclinado ao romantismo, não quero ter um encontro com Joanna.

O som dos passos se aproximava cada vez mais e Dann sabia que era hora de se mandar dali de vez. Começou a caminhar sem pressa, não queria deixar a impressão de que estava fugindo ou fazendo algo errado.

Mas então alguma coisa enrolou-se em suas pernas e ele caiu no chão. Estava preso, não conseguia se mexer; uma enxurrada de pânico tomou conta de seu corpo.

"Inya! Você precisa mesmo fazer isso?" Perguntou uma voz cansada que Dann achou perturbadoramente familiar.

"Claro que sim Aldebaram! Ele estava profanando a terra sagrada!"

Aldebaram. Dann parou de se debater e ficou imóvel como uma estátua. Eu sabia. Maldição, eu sabia! O maldito herdeiro.

A luz se tornou muito mais forte, uma luz clara e brilhante que cegou os olhos de Dann. A mesma luz de casa, ele entendeu, luz de magia.

"Inya, por favor, ele não sabia disso." Argumentou Aldebaram, com um toque a mais de nervosismo na voz que deixou Dann ainda mais alarmado. "Não foi de propósito".

"Não importa se foi de propósito ou não." Disse a mulher chamada Inya, que se aproximou mais e puxou Dann pelo ombro jogando-o de costas no chão cheio de pedras. Estando um tanto bêbado e olhando para a mulher de baixo para cima era difícil dizer como ela era ou quem seria. A luz forte que ela produzia com uma das mãos flutuava em uma pequena bola não muito acima de sua cabeça, projetando sombras em seu rosto. "Ninguém pode profanar a terra do Espelho e ficar impune."

Inya fez um gesto brusco com a outra mão, fazendo com que Dann fosse puxado para cima com a força de um homem dez vezes maior que ele próprio. Seu corpo foi girado e atado por cordas invisíveis e colocado ereto diante de Inya e Aldebaram.

Os olhos de Dann se ajustaram àquela luz toda e ele conseguiu ver que estavam ao lado de um grande lago, de onde vinha o som de água que ouvira pouco antes. Viu também que Inya era uma garota que deveria ser da mesma idade de Aldebaram, morena e esguia, de cabelo cacheado volumoso vestindo algo que parecia ser seda. Ficou com ainda mais medo quando se deu conta que ela deveria ser alguém da nobreza local, já que ele revelou sua identidade verdadeira para ela.

"Escute-me Inya, eu juro pelos Pilares do Mundo ou pelo o que você quiser, Dann não tem culpa, ele só está bêbado e não sabia que o lago é sagrado!"

"Eu nem sabia que tinha um lago aqui!" A frase indignada escapou de Dann e ele temeu que essas tivessem sido suas últimas palavras.

"Por favor..." Implorou o príncipe, segurando o braço nu da jovem que escapava da sua túnica fina e requintada. Eram quase da mesma altura, e por seus olhos miravam uns aos outros com uma intensidade enorme. "Faça isso por mim Inya, por mim. Ele é meu amigo, talvez meu único amigo".

Dann prendeu a respiração enquanto os dois jovens trocavam um olhar flamejante. Depois de alguns instantes de tensão ela abre um sorriso largo e estonteante, que deixou o soldado bêbado ainda mais confuso, enquanto caía outra vez de joelhos no chão quando se viu livre das cordas invisíveis que o prendiam.

"Você tem amigos importantes para um soldado de quinta categoria." Disse Inya com suavidade, em uma posição tão ereta e firme que gelava o sangue de Dann.

"Eu... eu... senhora..." O soldado se colocou de pé, tremendo e sem saber o que dizer e temeroso de que sua boca o traísse ainda mais.

"Cale-se." Ordenou Inya gentilmente. "Agradeça ao seu amigo, e tenha a bondade de nunca mais colocar seus pés imundos nas margens do lago sagrado." Virou-se para Aldebaram, segurou suas mãos e disse: "Nos vemos amanhã?"

"Claro!" respondeu o príncipe, e Dann pode ver seu rosto corando e seus olhos brilhando. "Depois da batalha, quando todos os seus inimigos estiverem mortos."

"Ah, que heroico..." Inya suspirou e beijou o rosto de Aldebaram. "Boa noite."

Ela caminhou na direção em viera com Aldebaram antes. A luz foi com ela e aos poucos a escuridão da noite cercou o soldado bêbado e o príncipe.

"Eu nunca pensei que diria isso alguma vez na minha vida," falou Dann após um longo e estranho silêncio, "mas eu tenho uma dívida com você... vossa alteza."

"Dann, por favor, não, apena não. Vamos voltar ao acampamento antes que arrumemos problemas, algum que eu não possa te livrar."

Eles caminharam no escuro, acompanhados apenas pelo som das pequenas ondas do lago sagrado indo e voltando e do barulho dos seixos rangendo sob seus pés.

"Você não vai perguntar?" O príncipe parecia um bocado constrangido.

"Não!" Dann jamais dissera nada com tanta convicção.

*

A espada de Dann estava pintada de vermelho quando atravessou as vísceras do décimo segundo e último homem que matara naquela manhã infernal.

Arrancou a arma do corpo do infeliz e olhou em volta. A grande planície de terra ressecada na entrada do deserto estava coberta por corpos dilacerados e ensanguentados do que restava das tropas de Arafazze, no céu o sol inclemente parecia fazer com toda a terra queimasse e os abutres já davam voltas pacientes apenas esperando seu banquete. A batalha não fora longa, mas intensa e encarniçada o suficiente para ser como um pesadelo.

Batalha. Desde o momento que Dann viu as tropas inimigas se alinhando ao nascer do sol ele soube que a palavra estava errada. Massacre. Foi um maldito massacre.

Os soldados araffes não passavam de um bando de maltrapilhos exaustos e esfomeados, sobreviventes improváveis de outras batalhas daquela guerra sem fim entre as Cidades-Porto. As forças swandis serviram apenas para dar o golpe final daquele ciclo, que cedo ou tarde começaria outra vez.

Ouviam-se gemidos de agonia por todos os lados. Uma flecha zuniu alta por cima da cabeça de Dann, indo na direção do rochedo mais acima. Ele estava exausto, o sol escaldante fazia sua pele arder e o ar tremente pelo calor o sufocava sob a cota de malha, seu braço de espada pesava uma tonelada e parecia que estava prestes a cair. No ardor da batalha jogara o seu meio-elmo para longe antes que não conseguisse mais respirar, assim como o pesado escudo de salgueiro que mal usava contra aqueles inimigos risíveis.

Os últimos araffes foram mortos e a batalha terminou de vez. Dann caminhou com passos lentos até onde seus companheiros se reuniam. No caminho viu alguns deles caídos, poucos, bem verdade, mas bons amigos e cuja falta seria sentida. Os demais soldados não pareciam muito mais satisfeitos que o próprio Dann.

"Isso foi um abatedouro!" Dizia com raiva Uttor Três-Dentes quando Dann se aproximava, desolado e cansado. "Nunca senti qualquer prazer em matar qualquer pessoa, mas ao menos não me sinto culpado quando o inimigo dá combate de verdade".

"É a verdade." Concordou tristemente Orelha, um nortenho magrelo e com duas orelhas de abano enormes. "Hoje não fomos soldados, fomos apenas carniceiros."

"Vocês são pagos para fazerem o que o rei manda." Falou secamente Gavan, aproximando-se montado em seu cavalo. Não havia uma única gota de sangue em suas roupas, obviamente não esteve nem perto da batalha. "E se ele mandar que vocês sejam carniceiros, carniceiros o serão com muito gosto. Agora, seus vermes mal agradecidos, vejam se alguém do destacamento morreu e levem os corpos daqui, depois voltem ao acampamento."

Gavan deu meia com o cavalo e saiu trotando tranquilamente entre os corpos dilacerados. Filho da puta pensou Dann, mirando um olhar cheio de raiva ao comandante que se afastava. Desde a noite anterior refletia se deveria ou não falar dos desmandos daquele cretino para Aldo, talvez ele pudesse fazer alguma coisa. Mas, no fundo, ele sabia que seria perda de tempo.

Conformado, enfiou a espada cheia de sangue já seco na bainha e foi atrás de companheiros mortos.

*

A água fresca que brotava do rochedo do outro lado da colina onde ficava o grande palácio era um alívio imenso para a pele tostada de Dann. Lavou o sangue do rosto e dos braços, esfregou a nuca e o peito nu que finalmente estava livre do peso e sufocamento da cota de malha.

Logo anoiteceria. Dann havia esperado pacientemente sua vez de e lavar na fonte, que não era sagrada, dessa vez ele fez questão de perguntar primeiro. Havia se sentado na sombra de um grupo de palmeiras enormes que subiam aos céus ao lado da colina, e achou aquilo tão agradável que deixou quase todos os outros soldados se lavarem antes que ele. Ou talvez estivesse tão cansado e triste que não queria se mexer.

A noite trazia uma brisa fria do deserto e Dann logo teve que colocar a camisa limpa que trouxera do acampamento e uma capa. Juntou suas coisas e tomou o rumo de volta.

Enquanto ainda havia luz era possível entender porque o lago sagrado daquela gente era chamado de O Espelho. Suas águas eram tão plácidas e calmas que pareciam ser uma camada de vidro refletindo as cores do céu. E naquela hora de entardecer ele estava pintado de um dourado que aos poucos se tornava laranja. Era um lago enorme, cercado por jardins luxuriantes, ancoradouros de mármore reluzente e casas baixas e compridas.

E havia um templo também. Ou pelo menos Dann achava que fosse um. Uma construção estranha, aquela, era como um grande cubo de pedra bruta cercada por muros ondulados e com curiosas torres que pareciam com fitas de seda serpenteando ao céu. Teria que chegar mais perto para ver melhor, mas ele não ousaria isso nem que fosse obrigado.

"Dann! Dann!" A voz desesperada veio de repente, quando o soldado começava a deixar o lago para trás. "Dann!"

Ele reconheceu a voz e parou de caminhar no mesmo instante. Não se virou para olhar, apenas esperou o que o destino estava trazendo, com tristeza.

"Dann..." Aldebaram ofegava, apoiando as mãos nos joelhos e com o desespero fazendo seus olhos claros arderem como fogo. "Ainda bem que eu vi você passando, eu preciso de ajuda!"

"Ah..." Por um momento Dann congelou e não soube o que dizer, então decidiu seguir o protocolo: "O que o senhor ordenar, alteza."

"Não começa com isso! Só vem comigo!"

O príncipe saiu em disparada na direção do lago. Dann respirou fundo, tendo certeza de que aquilo não acabaria bem, e então foi atrás.

Apesar de Aldebaram correr como louco Dann conseguiu o alcançar antes que o perdesse de vista. Estavam indo para o estranho templo que o soldado observara a pouco, o portão estava entreaberto, assim como a porta simples de madeira do cubo de pedra e de lá de dentro se ouviam sons estranhos. Por instinto Dann já estava de espada na mão.

O soldado não tinha prestado atenção ao templo antes, mas mesmo assim estranhou que não houvesse ninguém por ali. Era tudo limpo e bem cuidado, mas não se via um único monge, sacerdote ou o que fosse.

Atravessaram o portão e a porta e de repente Dann sentiu sua cabeça sendo esmagada. Suas pernas fraquejaram e ele quase caiu, a mão que segurava a espada perdeu a força e a ponta da arma bateu no chão de pedra causando um tilintar que ecoou alto. Era uma sensação horrenda, como se duas mãos gigantes espremessem sua cabeça.

Um empurrão de Aldebaram o fez voltar a si, com a cabeça ainda doendo e com um zumbido agudo nos ouvidos, mas capaz de ficar em guarda novamente. Estavam em uma espécie de salão, mergulhado em penumbra que dançava no ritmo de uma luz azulada e misteriosa.

Havia uma grande mesa de pedra bruta mais adiante, colocada sob um nível mais alto do que o resto do salão, com um braseiro de cada lado de onde vinha a luz. Dann entendeu logo que não havia fogo nem brasas naqueles braseiros, mas sim magia. Luz de magia. Mas não a luz clara e limpa de Swandia, era algo diferente, estranho, ameaçador.

E então Dann viu que alguém estava amarrado naquela mesa.

"Dann eles vão matá-la! Vamos, me ajude!"

"Eles quem?!" Dann não via mais ninguém naquele lugar.

Até que viu. Duas figuras emergiram de algum lugar por trás da grande mesa, pareciam ser homens, de tamanho médio e com o rosto coberto por máscaras metálicas que brilhavam em um tom dourado opaco, quase bronze. Uma delas trazia nas mãos um punhal retorcido e cheio de farpas.

Não é só uma mesa. O horror tomou conta de Dann que por um segundo fraquejou, sentiu a cabeça rodopiando e o zumbido aumentando. É um altar, um altar de sacrifício.

Em Swandia não havia religiões, apenas crenças populares distintas que variavam de província para província, mas Dann perambulou por lugares o suficiente com o exército para saber o que um altar de sacrifício era.

O príncipe estava ao seu lado, angustiado e também cheio de horror. Era o seu futuro rei ali, e não poderia recusar uma ordem dele. Respirou fundo, apertou o cabo da espada com mais força, tencionando os dedos até eles ficarem rijos como pedras, e então atacou.

Atravessou o salão em uma corrida desajeitada, temendo tropeçar algo escondido nas sombras daquela luz bruxuleante. Aldebaram veio logo atrás, empunhando sua espada leve e simples.

Ao se aproximarem puderam ouvir que os dois homens mascarados entoavam algum tipo de cântico e ignoravam completamente a presença de Dann e Aldebaram.

Pularam os três degraus que levavam àquele nível superior de uma vez só e apontaram suas espadas para os mascarados. Dann estava prestes a atravessar um deles, mas o príncipe segurou seu braço.

"Espere!"

"Como assim? Eles estão em transe ou o que for, é a nossa chance!"

"Eu não quero derramar mais sangue do que já foi derramado hoje." Ele ainda tinha a espada apontada, mas seu braço tremia e seus olhos pareciam tristes refletindo a luz azul.

"Você quer esperar eles terminarem então?" Perguntou Dann, impaciente e já não se importando mais se era insolente ou não.

"Vamos cortar as amarras e tirar Inya daí."

"Inya? Aquela que quis me matar noite passada?" Dann estava chocado, abaixou sua arma e começou a cortar desajeitadamente a primeira tira de couro, que prendia a mão direita da garota desacordada sob o altar.

"Sim..." Aldebaram pareceu constrangido de repente. Os homens ainda cantavam em transe.

"Ela me derrubou como um saco de aveia! Com magia! Como é possível ter vindo parar aqui?" Agora ele cortava a tira que prendia a outra mão, sempre de olhos nos sujeitos estranhos em transe.

"Eu não sei! Estávamos passeando pelo lago quando de repente esses dois surgiram do nada na nossa frente, derrubaram-na e a arrastaram pra cá. Eu não pude fazer nada."

"Certo, certo, não é problema meu..." Dann correu para o outro lado e começou a trabalhar na tira que prendia o pé esquerdo. "Rápido, corte você a outra e saímos daqui!"

Aldebaram embainhou a espada e sacou um punhal de suas vestes. Correu a até a outra ponta e pegou a tiras na mão e começou a cortar o couro como se fosse papel molhado. Isso que é um punhal, Dann pensou enquanto brigava com sua espada comprida demais para aquela tarefa.

As amarras foram todas cortadas e eles estavam prestes a carregar Inya para fora do altar. Mas então o cântico parou e uma mão enorme apertou o braço esquerdo de Dann, com tanta força que seus ossos estalavam.

O príncipe também estava imobilizado e Inya continuava deitada sob o altar desacordada, mas agora parecia inquieta, como se sonhando ou tentando acordar. Os dois homens mascarados olhavam um para o outro sem dizer nada, suas expressões eram apenas as linhas duras e geladas das máscaras que agora Dann conseguia ver que eram de bronze.

"Eu ordeno que vocês a soltem!" Gritou Aldebaram, de um jeito estridente e apavorado. "Eu sou o príncipe Aldebaram de Castrobom! Herdeiro do trono de Swandia e se vocês não fizerem o que mando meu pai não terá piedade!"

Dann não sabia se o príncipe havia reparado que ele tentava alcançar sua espada guardada na bainha e por isso falava para distrair os homens ou se ele realmente estava os ameaçando. De qualquer maneira ele levava a mão livre suavemente na direção da espada.

"A ira de Swandia caíra sob vocês..."

"Garoto tolo." Disse um dos homens, com sua voz sendo distorcida e vibrada pela máscara de bronze. "Nós sabíamos quem você era antes mesmo de você saber. Sabemos quem você é e quem você será. Cada dia de sua vida até hoje o trouxe aqui, para você testemunhar o seu próprio fim."

"Veja bem" falou Dann de repente, assim que alcançou a espada, arrancou-a da bainha e um movimento rápido abriu um corte nas roupas e na pele do homem que o segurava, libertando-se e logo em seguida cravando a espada no ventre do sujeito com toda a força que conseguira juntar. Arrancou a espada e depois se voltou ao outro: "Não é o príncipe que está deitado nessa mesa para morrer".

"Não, não é" concordou o outro mascarado, inabalado pela morte do companheiro, agora segurando Aldebaram pelo pescoço com o braço e com o punhal retorcido apontado para o abdômen de Inya. "E essa é a beleza de tudo, a inevitabilidade. O sangue real dele será poupado, nem uma gota caíra, mas essa será sua desgraça e sua ruína. O ventre dessa jovem não será o portador daquele que trará o fim dos dias, aquele que desencadeara o caos e a insanidade, aquele que destruirá o mundo para salvá-lo".

"Solte o príncipe agora."

"Solto, mas a garota morre."

"E você morre logo depois."

"Viver ou morrer é irrelevante. Quando esse punhal descer meu propósito neste mundo terá sido cumprido."

"Que os demônios da noite carreguem seu propósito para os infernos, solte o garoto agora!"

"Dann! Eu imploro não o deixe matar Inya!"

"Meu dever é com você príncipe, não com sua namorada estrangeira. Solte o garoto agora!"

"Ela não é..."

O mascarado atirou Aldebaram no chão ao mesmo tempo em que começava a recitar algum encantamento, segurava o punhal com as duas mãos erguendo-o sob o ventre de Inya, que se debatia e lutava para acordar. O punhal retorcido agora brilhava da mesma forma que a luz azulada que os braseiros emitiam, vibrava e tinia no ritmo do encantamento.

Instintivamente Dann correu na direção do príncipe atirado ao chão, mas ele já ia se levantando e o seu olhar desesperado implorava para que ele fizesse algo.

Rangendo os dentes de raiva Dann dá a volta ao redor de si mesmo e gira na direção do mascarado, desferindo um longo golpe arqueado com sua espada, que pareceu levar uma eternidade até encontrar os braços dele que levavam o punhal em direção ao corpo da Inya.

Um súbito jato de sangue borrifou de vermelho o rosto de Inya, que finalmente acordou e gritou apavorada quando viu um par de mãos segurando um punhal deitados em seu ventre nu.

O homem gemia e arquejava por trás de sua máscara de bronze, com os braços esticados para frente, como se olhando para onde suas mãos deveriam estar.

Os gemidos e arquejos pararam quando Aldebaram, tomado por uma fúria que assustou Dann, o pegou pela cabeça e abriu sua jugular com o punhal que usara antes. Mais sangue jorrou deixando rubro o chão do templo. O homem caiu com o rosto no chão, causando um apito agudo que ecoou pelas paredes de pedra quando a máscara atingiu o chão.

Ainda furioso Aldebaram vira o homem e arranca sua máscara, apenas para revelar um rosto queimado e cheio de cicatrizes, sem olhos, sem boca, sem nariz. Apenas queimaduras e cicatrizes.

"Vamos embora daqui." Ordenou o príncipe pesadamente, arfando, tremendo de fúria. "Dann, por favor, carregue Inya."

"Sim vossa alteza." Respondeu Dann, baixando a cabeça. Aquele tom de voz era aviso o suficiente para não haver questionamento. "Imediatamente."

Dann pegou Inya nos braços. Ela se agarrou em seu pescoço com força, tremendo e chorando. Parecia apenas uma criança machucada e assustada, e não a mulher altiva e imponente que queria matá-lo na noite anterior.

Aldebaram saiu na frente, com passos rápidos e enérgicos, cada batida de seus pés contra o chão soava como um grito de raiva. Dann seguiu logo atrás, mas não sem antes dar uma última olhada naquele rosto mutilado e nas poças de sangue no chão. Teve certeza que aquela visão o assombraria até o seu último suspiro.

*

"Ela é filha de um mercador muito rico aqui de Khaxos." Contava Aldebaram na noite seguinte, sentado ao lado de Dann diante de uma fogueira crepitante no acampamento das tropas swandis, algumas horas depois de outra batalha sangrenta no deserto, um último ataque suicida orquestrado pelos generais de Arafazze. Outro massacre. "Homem importante, um dos conselheiros mais próximos do governante da cidade. Conhecemo-nos naquela mesma noite, no banquete que o Senhor Gharo ofereceu aos comandantes de alta patente."

"Você não precisa me contar nada." Dann realmente nem queria saber mesmo.

"Ela tem magia por parte de mãe." Continuou o príncipe, olhando atentamente para as labaredas. "Uma bruxa poderosa de uma terra mais ao sul. Algo peculiar, porque nessa terra existe tanto até menos magia do que aqui. Nada como é em Swandia."

"Talvez por isso quisessem matá-la? Um sacrifício de sangue mágico deve ser poderoso."

"Talvez... talvez... mas as coisas que aqueles homens disseram..."

"Não deve ser nada Alde..." Dann quase deixou escapar o nome real, mas se deu conta a tempo. "Aldo. Apenas uma conversa idiota para te deixar nervoso e atrapalhado. Já vi homens muito habilidosos com espadas serem derrotados com palavras."

"Mas mesmo assim..."

"Aliás, por que o templo estava vazio?"

"O sacerdote havia partido para os Pilares dois dias antes, junto da maioria dos acólitos, foi o que me disseram. E o que ficara para guardar o templo apareceu boiando na outra extremidade do lago com a barriga aberta."

"Como Inya está agora?" Dann tratou de mudar de assunto logo, não queria mais ouvir sobre aquilo. E queria saber mesmo, levaram-na até um palacete não muito longe do lago, e depois disso Dann não teve mais notícias dela.

"Recebi um bilhete esta manhã. Dizia que estava bem, ainda chocada, mas sem nenhum machucado. E agradecia a sua ajuda, e também pedia desculpas."

"Ora ela não precisava."

'"Sentirei saudades dela, mas pela memória dos meus ancestrais, eu quero ir para casa." Aldebaram soava triste e cansado, sentimento que Dann compartilhava.

"Partiremos à primeira luz." Contou Dann, tentando parecer animado. "Foi o que o meu comandante disse."

"Ainda bem."

Decidiram dar uma última olhada no lago sagrado antes de irem dormir. A Lua de Prata estava no céu naquela noite, e fazia toda a água reluzir. Estavam quietos apenas observando aquela beleza toda quando o som de cascos se fez ouvir no meio da noite. Dann já estava com a mão no punho da espada.

Uma silhueta esguia se aproximava vinda da direção do acampamento, galopando um cavalo que mesmo naquela meia luz de luar Dann conseguiu reconhecer. Gavan. O filho da puta do Gavan!

Mais rápido do eu parecia ser possível, Gavan chegou e agarrou Aldebaram pela gola de sua capa e o puxou para cima do cavalo.

"Ora, ora, ora, minha suspeita estava certa, o pequeno príncipe..." Disse o comandante, abrindo um sorriso felino que brilhava amarelado na meia luz da noite. "Finalmente um prêmio de verdade nessa guerra patética."

"Isso é traição Gavan!" Gritou Dann, chocado, mas não totalmente surpreso. Era de se esperar algo assim de um verme como o comandante.

"Mas e daí? O general Phanteu pagará o resgate que eu pedir e quando alguém se importar o suficiente em cortar minha cabeça já estarei longe."

Dann não queria ouvir mais aquela voz enervante nem sentir mais seu cheiro azedo de gordura. De espada empunhada avançou contra Gavan.

Primeiro tentou perfurar a barriga do cavalo, mas o animal era esperto e desviou do ataque antes mesmo que seu cavaleiro puxasse a rédeas. Dann então tentou acertar Gavan, mas o príncipe estava perto demais e ele poderia acabar levando o golpe.

O comandante começava a cavalgar para longe e Dann correu atrás, com toda sua velocidade, e em um esforço imenso saltou na lateral do cavalo e conseguiu se segurar na sela. Seus pés eram arrastados contra o chão pedregoso e o resto do seu corpo balançava e girava de um lado para o outro. Tentava desesperadamente desequilibrar o cavalo para derrubar Gavan, que retribuía com golpes do cabo de Joanna.

De repente havia mais luz. A luz alaranjada de tochas e fogueiras. Dann tentou olhar em volta, mas não entendeu bem onde estavam, mas soube eu não era o acampamento swandi.

Resolveu arriscar. Quando Gavan desferia mais uma pancada com o cabo do chicote Dann soltou uma das mãos da cela e tentou agarrar o cabo, e para seu espanto, conseguiu.

Precisou puxar várias até conseguiu soltar o instrumento da mão de Gavan, e quando conseguiu, deixou se soltar e durante a queda acertou um açoite na barriga do cavalo, que urrou de dor, empinou e derrubou Gavan e Aldebaram ao chão.

Dann perdera sua espada no caminho e agora estava apenas com Joanna nas mãos. Correu para cima do atordoado Gavan e desferiu uma série de açoites desajeitados. Mas o comandante era maior e mais experiente, e acabou conseguindo se esquivar e acertar uma pancada em Dann que fez o soldado voar para longe, indo parar sob um pequeno estande de madeira cheio de vasos de barro que explodiram em cacos.

Ele ficou de pé outra vez, com as costas doloridas e cheias de cortes dos pedaços de cerâmica, assim como seus braços, e viu Gavan arrastando Aldebaram em direção à escuridão.

Dann se viu bem ao lado de fogo, e num piscar de olhos soube o que fazer. Pegou uma tocha e saiu em disparada.

Alcançou Gavan e atirou a tocha em seus cabelos, que incendiaram no mesmo instante por causa de toda a gordura que havia neles. Aldebaram conseguiu se soltar e foi junto a Dann, e ambos observaram com olhos arregalados a cabeça do comandante arder.

*

O navio se afastava com suavidade do porto de Khaxos, o vento forte trazia consigo os cheiros do mercado; e Dann ainda podia ouvir a colcha de retalhos de idioma misturados.

Ganhara uma espada nova e a promessa de uma posição na guarda pessoal do príncipe. Seus braços estavam marcados pelos cortes, e ganhara cicatrizes no rosto, nos ombros e nas costas depois da batalha do dia anterior. Além de mais vinte e duas mortes em sua conta.

Acabou sendo como Gruh dissera: se tornara uma tarefa de rotina.

Não sentiria falta de nem um segundo que passara naquela terra quente e perturbadora, mas no fim das contas não tinha sido tão ruim assim.

29 de Setembro de 2018 às 13:33 0 Denunciar Insira 1
Fim

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