Farol dos Perdidos Seguir história

lemonworld Julie Ruin

Toda noite, conforme me aproximo da ferrovia, começo a ouvir apitos de trem, cada vez mais altos. Como se o trem estivesse chegando, quase fazendo a curva, e o maquinista estivesse nos avisando para sair da frente. Mas ninguém mais escuta. Já perguntei para meus vizinhos, para as pessoas que esperam no ponto de ônibus comigo pela manhã. Nenhum deles disse escutar os apitos. Não passa nenhum trem por ali, já verifiquei. Aquela rota foi desativada há quase dez anos. E, ainda assim, toda noite eu ainda escuto.


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#sobrenatural #mistério #conto
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Farol dos Perdidos

- Eu só posso estar ficando louca – digo ao chefe do RH quando ele me pergunta o que há de errado comigo.

Me afundo na poltrona de couro preto daquele escritório excessivamente iluminado com lâmpadas fluorescentes. Ainda não sei exatamente o porquê de ter sido chamada aqui, mas só posso supor que é por causa da óbvia queda do meu desempenho nas últimas semanas. Eu só espero não ser demitida.

- Por que você não me conta qual é o problema, desde o começo? – encoraja o chefe do RH. Marcos é seu nome, um senhor grisalho de meia idade, com as lentes dos óculos tão grossas quanto o fundo de uma garrafa.

Eu suspiro e me afundo um pouco mais na poltrona, tentando criar coragem para começar a falar. Porque eu não consigo falar sobre o que está acontecendo comigo sem me sentir incrivelmente estúpida e louca. Mas, por mais que eu esteja com vergonha do que está acontecendo, acho que preciso desabafar com alguém. Eu lhe conto tudo desde o começo, então. Para minha surpresa, as palavras saem da minha boca com facilidade.

O problema teve início no mês passado, quando me mudei de casa e de bairro. Nos últimos meses, não estava dando conta de pagar o aluguel, então me mudei para este bairro mais distante, onde o aluguel é mais barato – o Farol dos Perdidos. Não vou medir palavras ou usar eufemismos: é um bairro de gente pobre. Mas pobre é o que eu sou, então o termo é bastante adequado. Eu moro sozinha, meus pais sumiram quando eu era adolescente. Simplesmente desapareceram, foram embora e me deixaram para trás. Venho me virando sozinha desde então, e pra ser sincera, já nem me lembro muito bem deles. São apenas um borrão. Talvez seja o trauma que tenha bloqueado minhas memórias.

O Farol dos Perdidos é o único bairro da cidade que fica do outro lado da linha desativada do trem. É longe e inacessível, e é por isso que é mais barato morar aqui. De segunda à sexta, eu saio de casa às seis e meia da manhã e faço uma caminhada de dez minutos até cruzar a linha do trem, depois mais cinco minutos até chegar ao ponto de ônibus mais próximo. Trabalho em um call center durante toda a manhã, almoço no refeitório da empresa e continuo trabalhando durante toda a tarde. Meu expediente acaba às seis horas, pego outro ônibus e vou direto para a faculdade. Eu faço Letras, quero ser professora. Minhas aulas acabam às onze, e então pego o terceiro ônibus do dia, para ir embora. Desço no mesmo ponto de antes – sou a única que desce naquele ponto naquele horário - e caminho os quinze minutos para casa. Geralmente, consigo estar na cama antes da meia noite e meia.

Mas aí é que está. Toda noite, conforme me aproximo da ferrovia, começo a ouvir apitos de trem, cada vez mais altos. Como se o trem estivesse chegando, quase fazendo a curva, e o maquinista estivesse nos avisando para sair da frente. Mas não passa nenhum trem por ali, eu verifiquei. Aquela rota foi desativada há quase dez anos. O barulho diminui quando eu atravesso a linha, correndo, e começo a me distanciar novamente.

Toda noite.

Já perguntei para meus vizinhos. Para as pessoas que esperam no ponto de ônibus comigo pela manhã. Nenhum deles disse escutar os apitos. Mas eu ouço tudo muito claramente. Andei perdendo o sono por causa disso, minhas olheiras me denunciam.

É isso. Quando termino de contar, estou sem fôlego. Marcos ouviu tudo atentamente, apoiando o queixo nas mãos entrelaçadas.

- Bem, Juliana, eu não sou médico nenhum, mas para mim está claro que seus dias estão sendo puxados demais, e à noite você está tão exausta que chega a ouvir coisas. Já li na internet que isso pode acontecer, às vezes. Sugiro que você diminua o ritmo, quem sabe trancar a faculdade por um semestre ou dois, que tal? Porque, olha... Não quero te assustar, mas se seu desempenho continuar caindo, teremos que te cortar da empresa. Existem muitos jovens que se matariam para ficar com a sua vaga.

Malditos capitalistas. Trancar a faculdade dos meus sonhos para não perder meu emprego neste call center de merda! Minha vontade é de apanhar o estilete de cortar papel que está em cima da mesa e rasgar a garganta dele. Mas aí eu definitivamente perderia o emprego, e eu preciso disso para sobreviver, por mais merda que seja.

Então eu tento argumentar. Até porque tenho certeza que meu problema não é apenas exaustão.

- Mas não pode ser só isso... O barulho é tão alto e tão real, parece que...

Eu paro de falar quando vejo que Marcos está me olhando com divertimento, como se eu fosse um animal exótico que ele viu no zoológico.

- Se você acha mesmo, posso te indicar alguns psiquiatras que têm parceria com a empresa – diz ele, me entregando um punhado de cartões de visita. –, embora me pareça frescura. Mas vá em frente e marque uma consulta. Enquanto isso, pense na minha sugestão de trancar a faculdade, acho que vai te fazer muito bem.

Eu vou embora com passos apressados, porque Marcos me dá vontade de vomitar, mas faço questão de ficar com os cartões de visita que ele me deu. Acho que eu devo mesmo marcar uma consulta em um desses psiquiatras. Sempre achei que psiquiatras fossem médicos de loucos, daqueles que vemos nos desenhos animados. Mas talvez eu esteja mesmo precisando de um médico de loucos. Talvez, ao final da consulta, eu volte para casa com um diagnóstico de esquizofrenia, paranoia, neurose e uma longa receita médica que vou ter o prazer de esfregar na cara do Marcos. Mas talvez me prendam em uma camisa de força e nem me deixem ir embora.

Passo o resto do dia divagando sobre todos os cenários possíveis e impossíveis. Na faculdade, não consigo prestar atenção em nada, e eu costumo ser uma das alunas mais nerds da minha turma. Estou distraída demais, preocupada demais com minha própria sanidade mental. Mas e se eu não estiver ficando louca? E se o que eu ouço for real?

A empresa que detém os direitos de uso da malha férrea da região já me negou, via e-mail, que a ferrovia que passa próximo ao Farol dos Perdidos tenha sido utilizada nos últimos dez anos. Então, começo a trabalhar em outras possibilidades. E se a linha férrea estiver sendo utilizada ilegalmente por terceiros? Tráfico de drogas me parece bastante plausível. Mas então, porque o maquinista utilizaria o apito? E por que eu sempre ouço o trem, mas nunca o vejo chegar? E por que eu pareço ser a única pessoa capaz de ouvir?

Resolvo procurar por respostas na internet pela milésima vez. Desta vez, procuro por “Farol dos Perdidos”, “Trem”, “Ferrovia”, e seleciono apenas notícias. Tudo o que encontro possui um pouco de violência no meio. Uma ninhada de filhotes de cães encontrados amarrados à linha férrea. Garotos que soltavam pipa com cerol próximos à ferrovia e acabaram matando um motoqueiro sem querer. Corpos desovados. Ninguém relatando ouvir o apito de um trem que não existe. Nada sobre tráfico de drogas. Mas eu persisto, e quando estou lá pela quinta ou sexta página de resultados, encontro algo curioso.

Há exatamente dez anos, em junho de 2008, ocorreu um acidente por ali, envolvendo uma locomotiva com o apito danificado e um carro inadvertidamente parado na ferrovia. O carro, um Escort ano 87 azul, foi atingido em cheio e amassou como uma latinha de refrigerante, prendendo e possivelmente matando imediatamente os dois passageiros. Como se já não fosse o suficiente, o combustível do tanque vazou e tudo começou a pegar fogo. Quando os bombeiros chegaram, os dois passageiros já haviam virado carvão, e seus corpos nunca foram identificados. Os vagões da locomotiva, que transportavam grãos, foram saqueados. O bairro onde ocorreu o acidente, antes chamado Santo Rei, passou a ser conhecido por Farol dos Perdidos, porque dizem que a luz da locomotiva chegando foi a última coisa que os passageiros daquele carro viram, antes de serem condenados à morte.

Eu salvo o link e fico pensando sobre isso. Eu não sabia da origem do nome do Farol dos Perdidos, e acredito que poucos saibam. Coisas como essa viram tabu, que as pessoas evitam comentar, até cair no esquecimento. Mas encontro algum conforto ao pensar que, se a minha teoria sobre tráfico de drogas estiver certa, ao menos o maquinista-traficante tenta evitar novos acidentes do tipo. Aviso sonoro é o que não falta.

À noite no caminho de volta para casa, que faço pelo menos cinco vezes por semana e poderia fazer até de olhos fechados, eu estou em piloto automático. Pensando, pensando e pensando. Até me aproximar da maldita linha férrea. A partir daí, fico atenta como nunca. Não demora até ouvir o primeiro apito.

Pela primeira vez, eu decido ficar para ver o que acontece, ao invés de sair correndo. Os trilhos estão aqui, o barulho também. Onde está o trem?

Me posiciono bem em cima dos trilhos e cruzo os braços. Estou decidida a resolver isso hoje: ou esse trem aparece, ou eu aceito que perdi a cabeça de vez. Não tenho nada a perder.

- Aparece, desgraça! – grito. Que bom que há uma boa distância daqui até as casas mais próximas, espero que ninguém possa me escutar.

O apito fica cada vez mais alto e mais frequente. Eu corro em direção ao som, seguindo a linha férrea por algumas centenas de metros até onde os trilhos fazem a curva. Então, quando faço a curva, eu vejo uma luz branca surgir no horizonte. Apesar de distante, ela me cega por alguns segundos, porque meus olhos estavam acostumados à escuridão. Sinto o chão começar a tremer quase imperceptivelmente.

Eu grito de alegria. Eu estava certa esse tempo todo! Há, sim, um trem que passa pela ferrovia do Farol dos Perdidos. Engula essa, Marcos. Engulam essa, vizinhos, colegas e médicos de loucos. Porque eu não estou louca!

A luz branca continua aumentando no horizonte, o que significa que a locomotiva está vindo nesta direção. Eu saio dos trilhos, porque não sou louca, e corro de volta para o caminho de onde vim, com um largo sorriso de satisfação no rosto.

Estou correndo e apreciando a brisa que bate em meu rosto quando vejo um carro parado sobre a ferrovia, bem no trecho onde eu sempre costumo atravessar. Eu olho para trás e tento avistar o trem que se aproxima, mas ainda não consigo ver nada por causa da curva. Corro mais um pouco, utilizando todas as minhas froças, até alcançar o carro, e bato no vidro. Lá dentro, um casal namora no banco de trás, alheio ao seu redor.

- Saiam daí, idiotas. Este é o pior lugar que existe para estacionar o carro e namorar. Sei que vocês estão convencidos de que não passa nenhum trem por aqui, mas isso não é verdade.

O casal se separa e me olha horrorizado. Devem achar que sou uma pervertida.

- Vocês logo verão a luz da locomotiva, assim que ela fizer a curva – insisto. – Vocês não estão ouvindo o apito? Saiam daí logo, ou vocês irão morrer!

Então eu me dou conta: eu também não ouço mais o apito. Mas o chão ainda treme, e agora já é possível visualizar a luz da locomotiva novamente. Está mais perto a cada segundo. Aponto para aquela direção, e o casal também vê.

Assustados, eles se arrumam rapidamente e tentam sair do carro. É um pouco difícil, porque o carro tem apenas duas portas e eles estavam quase nus. Eu me distancio alguns metros para minha própria segurança, e me preocupo que eles não irão conseguir. Mas eles conseguem pular para fora nos últimos segundos, caindo no chão. Eu me encolho para me proteger do vento forte, porque estou perto demais. Atrás deles, a locomotiva atinge o carro em cheio, arremessando-o para fora do caminho, e segue por mais algumas centenas de metros até parar completamente. Uma locomotiva destas, carregando tantos vagões com carga, normalmente precisaria de mais de um quilômetro para diminuir a velocidade e parar.

Me levanto e vou até o casal cujas vidas acabei de salvar. Fisicamente, eles possuem apenas alguns arranhões, mas parecem estar em estado de choque. O barulho do impacto foi estrondoso, capaz de acordar a vizinhança inteira, e logo começam a chegar os primeiros curiosos. Fico feliz, porque eles amparam o casal, e assim eu posso ficar só e digerir o que acabou de acontecer.

Eu escuto uma mulher, perto de mim, sacar o celular do bolso e discar para a emergência. Ela gagueja de nervoso.

- Boa noite, acabou de acontecer um acidente... Um carro se chocou com o trem aqui na linha férrea perto do Santo Rei, temos dois feridos...

Engraçado. Ninguém chama o Santo Rei por este nome há anos. É Farol dos Perdidos, agora.

Eu saio de perto da mulher. Quero ir para casa, mas, a esta altura, a multidão já é enorme e me cerca por todos os lados. A fofoca viaja na velocidade da luz, e ouço várias outras pessoas no conversando no telefone sobre o acidente que acabou de acontecer no Santo Rei.

A alguns metros à frente está o carro, ou melhor, o que sobrou dele. Três homens conversam ali perto.

- Cara, acho que era um Escort...

- Tem certeza? Virou uma lata de sardinha, não consigo identificar. A única coisa que consigo identificar é que era azul.

- Estão sentindo o cheiro de gasolina? Vamos sair de perto antes que esse carro exploda e pegue fogo.

Eu ando mais um pouco e ouço alguém afobado dar notícias do maquinista. Ele está preso nas ferragens da locomotiva, uma centena de metros à frente, mas passa bem. Disse que houve um problema com o apito. Alguns se comovem com a situação e correm para tentar ajudar o maquinista, mas outros não estão nem aí e tentam dar um jeito de arrombar os vagões para roubar a carga.

Acidente envolvendo um carro e um trem. Santo Rei. Escort Azul. Apito danificado. Carga saqueada. Minha cabeça começa a girar: É muita coincidência com o acidente de dez anos atrás... Procuro o meu celular, mas não está comigo. Deixei na bolsa, em algum lugar que não me lembro. E agora, não consigo mais encontrar...

Sinto uma mão tocar meu ombro. É o homem que salvei. Sua mulher está ao seu lado, em prantos. Eu olho para o homem, depois para a mulher, e depois para o homem novamente. Algo parece clarear em minha mente, e eu entro em pânico. Eu me lembro vividamente dos meus pais, agora. E a semelhança entre eles e este casal é algo que não posso ignorar. Me pergunto onde estou – em qual ano estou.

- Obrigado por nos salvar... – diz ele. – Se não fosse por você... Se você não nos tivesse mostrado o farol do trem se aproximando, estaríamos perdidos.

12 de Setembro de 2018 às 22:51 2 Denunciar Insira 6
Fim

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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá, autora! Tudo bem? Estava dando uma olhadinha nos contos e encontrei este aqui e, nossa, que bom! Meu nome é Karimy, sou uma das embaixadoras do inkspired, muito me identifico com sua personagem (também estudo letras e sou apaixonada não só pela leitura, como também escrita e crítica literária) e com o jeitinho dela de lidar com as coisas. Acredito que uma das coisas mais deliciosas desse conto é a possibilidade de perceber com clareza a voz da personagem, o que até facilita imaginar como ela é fisicamente e como interage com as pessoas. Gostei muito do ritmo da história, de como o fato foi se desenrolando com cautela e sem alardes, isso deixou a narrativa muito suave e também verossímil, apesar do tema sobrenatural que o envolve. Consegui me senti na pela da personagem desde o primeiro momento. Na minha opinião, a personalidade dela foi construída de forma maravilhosa. E isso é muito bom, principalmente porque costumo levar muito em conta a descrição dos personagens, o que não foi explorado aqui, mas acredito que uma personalidade construída com esmero pode valer muito mais do que qualquer descrição, pois ela nos leva a enxergar o personagem através do modo que ele enxerga o mundo e age. Isso é muito interessante porque, psicologicamente falando, costumamos agir e pensar de acordo com o que somos externamente (não sendo isso via de regra, mas sempre fica uma pista. Uma pessoa que se mostra insegura com determinadas coisas pode ser uma pessoa que sofreu preconceito de alguma forma ou que não se aceita como é - o que também fruto de preconceito na maioria dos casos). Então, como ia dizendo, graças a sua dedicação em mostrar quem a personagem é, o físico dela ficou como uma questão secundária e satisfatória mesmo sem dados específicos, o que é algo realmente difícil de se fazer em uma narrativa. Com relação à gramatica, encontrei algumas pontuações que poderiam ser revistas, inclusive no dialogo, além de uma parte que precisa de um certo reparo (não me lembro no momento, mas acredito que tenha sido uma preposição errada ou algo do tipo, bem fácil de notar). Não são, porém, erros grandes, são coisas aceitáveis, mas que resolvi dizer para caso se interesse em dar uma olhadinha no futuro. Bom, é isso! Rsrs Adorei mesmo sua história, o desenvolver calmo, marcado e com boa estrutura, além da personagem cativante. Mil beijos!
29 de Setembro de 2018 às 11:19
Megan W. Logan Megan W. Logan
Olá! Tudo bem? Gostei bastante de sua história, ela é bem emocionante, porém existem alguns problemas de pontuação no texto, frases muito curtas ou pontuações em lugares errados, que podem ser corrigidos numa segunda ou terceira revisão. Apesar de alguns problemas que achei no texto, a história está muito boa, a personagem principal da narrativa é cativante e consegue chamar a atenção do leitor. prendendo sua atenção, por conta do mistério e do suspense evidenciado no enredo.
28 de Setembro de 2018 às 21:47
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