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você, o Boto…

— Então como foi a noite? — Perguntou-lhe a amiga assim que ele entrou no quarto que compartilham.

— Meio que não foi — respondeu meio ressabiado ao sentar-se do seu lado na cama.

— Mas como assim, você saiu daqui com aquele bonitão, impossível não ter rolado algo. Por acaso ele tava afim só de manhã e experimentar e depois desistiu? Porque se foi tu me diz agora que eu vou pessoalmente matar ele.

— Não amiga, é complicado dizer.

— Se não foi um idiota enrustido ou curioso, foi o quê então? Não vai me dizer que o idiota te deixou por causa da sua pele? — Indicou então a diferença de tom no braço do outro que negou com a cabeça enquanto disfarçadamente tampava a pele onde havia o vitiligo. — Ah mas deixa só eu achar esse filho duma quenga pra tu ver se não faço picadinho dele.

— Eu já disse o quanto sou feliz por ser seu amigo Gih?

— Não, mas bem que podia né. Então me conta ae o que aconteceu.

— Ele era um boto.

— Cê tá brincando comigo né!? — Ditou perplexa.

— Tô não mana, ele era um boto mesmo, ainda é né já que tá lá no rio.

— Mas se ele é o boto, porque te tirou pra dançar? Pelo que bem me lembre eles não vem pra terra só pra buscar moças bonitas? Não sabia que existia boto gay, ou vi né já que ele dançou com metade das meninas do salão.

— Sério Gih? Eu conto que sai com um boto e sua preocupação é se ele é ou não bi? Amiga cê tá bem né? Acho que a química do seu platinado enfim atingiu seu cérebro.

— Cala boca Antônio Carlos que eu te mato — gritou enquanto tacava uma almofada em sua direção.

— Não tá mais aqui quem falou — ditou o outro rindo depois de desviar do objeto.

— Mas volta aqui no enredo do boto e me conta tudo. Ele era bonito? E como foi ficar com ele? E o duto respiratório, fica ali mesmo no alto da cabeça?

— Nossa mãe do céu hein menina, dá pra ter um break please? Ótimo, deixa eu te explicar, como eu disse meio que não rolou. E sim ele é um gatinho.

— Então? Me diz o que aconteceu logo porra!

— Também não precisa xingar né.

— Se você não fizesse esse drama todo talvez eu não precisasse. Vai, conta logo menino.

— Eu meio que fugi.

— Não, perae cê tá me dizendo que desistiu de ficar com a lenda viva do boto? Eu juro que se você não tiver uma boa explicação quem vai morrer será tu viu.

— Eu fiquei com medo tá legal. Os caras nunca ficam comigo por causa dessa merda aqui do meu braço, e quando ficam você sabe o que costumeiramente acontece.

— Não, sei não viu. Porque você sempre desiste antes do fim. Porra mano tirando aqueles dois embustes que te usaram quando foi a última vez que você entrou de cabeça numa relação? Não responda porque eu vou te dizer. NUNCA! Você sempre foge com medo de se decepcionar. Eu sei que é osso, mas se você deixar esse seu medo lhe consumir vai ficar sozinho a imaginar mil 'e se’s diferentes. Sério, a tua sorte é que eu te amo senão ia te estrangular aqui mesmo.

— Eu, e- desculpa Gih.

— Se desculpar vai fazer o bonitão aparecer de novo? Não né meu amigo. Agora você vai ter que esperar ele aparecer de novo. Sorte a nossa que tá tendo festa senão. Ai ai ai viu, o que eu faço com você menino?

— Me dá carinho e me chama de amigo?

— Não mesmo, talvez te dou uns tabefes e te chamo de burrinho.

— Nossa viu, brigado pelo parte que me toca.

— Ah cala boca e me deixa dormir. São três da madrugada.

Giovanna então se virou e foi voltar a dormir, enquanto que Antônio Carlos ficou ali estagnado pensando naquela louca discussão que tivera com sua amiga. Ele bem sabia que ela estava um tantinho só que certa. Não na verdade era totalmente certa. Ele olhou pra ela e ficou a pensar no quão grato era por ter sua amizade. Deixou-a dormindo e seguiu porta a fora. Talvez o boto ainda estivesse ali à beira do rio a lhe esperar. Não foi preciso correr muito, o jovem de trajes brancos e chapéu a combinar estava ali jogando pedrinhas que recolhera da areia para dentro das turvas águas do rio. Se aproximou devagar com receio de o assustar, mas antes que chegasse perto o outro se virou sorrindo para si. Suas pernas tremeram e as forças que antes tinham pareceu se extinguirem assim que aqueles olhos cor de avelã se ficaram nos seus. O coração parecia querer pular do peito. Ele não soube mais o que dizer, nem mesmo fazer. Viu então o boto se aproximar, tocar-lhe a face antes de pegar suas mãos entre as dele e beijar-las com devoção para então seguir-lhe aos lábios.

— Fico feliz que tenha voltado, não prometo que poderei ficar muito, pois em breve será dia e o encanto que me faz homem deixará de existir.

— Eu não sei o que fazer. Isso parece loucura. Porque eu?

— Porque gostei de ti desde a primeira vez que o vi banhar-se nesse rio. As costas largas, o peito amplo e liso, a pele salpicada de sardas e nessa nuance de cores me deixou louco. Tudo em você me fez apaixonar-me por ti.

— Porque um cara e não uma garota?

— Nunca me interessei muito em mulheres, gosto delas, mas não tanto quanto gosto de você. Tive outros romances por aí, mas nenhum que me fizesse sentir o que estou a sentir agora estando aqui com você.

— Mas botos não tão sempre engravidando mulheres e largando-as por aí sozinhas no mundo?

—Alguns botos fizeram isso, outros foram os homens e botaram a culpa em nós. No fim é errado de qualquer forma esse tipo de atitude, mas eu não sou assim. Não vim pra terra firme em busca de conquistas, vim a procura de um amor e eis-o aqui.

— Como pode dizer isso se acabamos de nos conhecer? Você nem vai poder viver aqui comigo, nem eu com você no rio. Seria impossível.

— Respondeu-me o menino que a minutos atrás estava beijando a lenda viva do boto-cor-de-rosa. Pode não ser perfeito, mas será único, será nosso.

— Eu não sei.

— Dou-lhe tempo, pense com cuidado, em breve voltarei — dito isso beijou-o novamente antes de pular nas águas e desaparecer em meio elas.


… … … 


Os dias se passaram e noite após noite de festa boto e homem se encontraram. Dançaram, se beijaram, se amaram. Fizeram do pouco tempo em terra que possuíam momentos únicos, e assim viveram por muitos tempos, pois a lenda viva se apaixonou pelo homem e tão bem foi amado por ele que mesmo após a partida de um, o outro não deixou de amá-lo, pois homem e boto não vivem o mesmo tanto, mas amaram-se mais do que qualquer outro casal daquelas instâncias… 

21 de Setembro de 2018 às 16:07 7 Denunciar Insira 7
Fim

Conheça o autor

Bárbara Vitória 24 anos, mineira de BH, escritora e um monte de outras entrelinhas numa infinita linha de possíveis predicados…

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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá! Escrevo a você por causa do Sistema de Verificação do Inkspired. Caso ainda não conheça, o Sistema de Verificação existe para ajudar os leitores a encontrarem boas histórias no quesito ortografia e gramática; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores com relação a isso. A Verificação não é necessária caso não tenha interesse em obtê-la, então, se não quiser modificar sua história, pode ignorar esta mensagem. E se tiver interesse em verificar outra história sua, pode contratar o serviço através do Serviços de Autopublicação. Sua história foi colocada em revisão pelos seguintes apontamentos retirados dela: 1)Uso de dois tempos verbais na narração: presente; "compartilham" e pretérito "Respondeu" — deve-se escolher apenas um. 2)Falta de interrogação em "Mas como assim" em vez de "Mas como assim?". 3)Falta de vírgula em "Porque seu foi tu me diz" em vez de "Porque se foi, tu me diz". Falta de vírgulas em vocativos, como em "Não amiga, é complicado" em vez de "Não, amiga, é complicado"; "do outro que negou" em vez de "do outro, que negou"; "Ah mas deixa" em vez de "Ah, mas deixa"; "mas bem que podia né?" em vez de "mas bem que podia, né?"; "ainda é né já que" em vez de "ainda é, né, já que"; "logo porra" em vez de "logo, porra". Falta de vírgula em orações invertidas, como em "Se você não fizesse esse drama todo talvez eu não precisasse" em vez de "Se você não fizesse esse drama todo, talvez eu não precisasse" 4)" Foi o quê então?" em vez de "Foi o que então?". 5)"tampava" em vez de "tapava" (tampar = existe uma tampa para aquilo; tapar = cobrir, com sentido mais abrangente). Os erros acima são apenas exemplos; há outros de natureza similar. Aconselho que procure um beta reader; é sempre bom ter alguém para ler nosso trabalho e apontar o que podemos melhorar e no que acertamos, assim como ajudar-nos com a gramática e ortografia. Caso se interesse, esse serviço também é disponibilizado pelo Inkspired através do Serviço de Autopublicação. Quanto à história, devo dizer que esses dois muito me cativaram, a Gih também, claro! A história está muito gostosa, principalmente a interação entre os personagens. Bom... Basta responder esta mensagem quando tiver revisado a história que farei uma nova verificação.
27 de Fevereiro de 2019 às 19:28
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá! Primeiro de tudo, queremos nos desculpar pelo atraso no comentário e garantir que faremos o possível para que isso não se repita. Quem diria que uma boto se apaixonaria por um humano e que esse humano dispensaria ele. Hahaha. Nós da embaixada achamos muito interessante a sua versão da lenda e também adoramos a personalidade que você deu a ambos os personagens (magnífico)! A Gih se mostrou uma amiga valente e ameaçadora, enquanto o Antônio Carlos se mostrou uma Poc muito bem resolvida apesar de ter fugido do boto inicialmente. Hahaha. Você trabalhou muito bem a lenda apesar de a história ser curtinha e o humor que você deu a ela realmente prende o leitor, foi algo gostoso de ler. Sugerimos que você dê uma revisada mais minuciosa na história, pois ela tem alguns erros de pontuação, mas não é nada que atrapalhe a leitura. Parabéns por ter cumprido e desafio e obrigada por compartilhar a sua história com a gente. Até a próxima <3
22 de Fevereiro de 2019 às 14:39
LiNest LiNest
Mano MANO QUE CONTO LINDO! SÉRIO EU TO MUITO APAIXONADA POR TUDO AQUI! Primeiro, OS DIALOGOS ESTÃO FENOMENAIS OK? A conversa da Giovanna e do Antônio foi tão natural, tão gostosinha, eu ri tanto das broncas da menina porque eu sou muito assim kkkkkk tenho paciência pra novela não 😂 mas srsly foi tão fácil acreditar ba amizade deles porque suas falas transmitiram muito bem o sentimento de companheirismo e o carinho que sentem um pelo outro. Adorei tmb o quão fofo o boto é, embora eu goste da lenda, infelizmente ela é mais uma desculpa pra pilantragem dos homens do que qualquer outra coisa né? Mas não posso negar que vc me fez ter mais carinho pela lenda já que seu boto é um amorzinho <3 tão lindo como ele diz pro Antônio que ele lhe daria tempo para pensar, aff coração chega aquece! E eu fiquei tãoooo feliz de ver que no fim eles ficaram juntos e como, apesar de finito, o amor deles foi sincero e forte, sério lindo demais. MEU OTP OK? SHIPPÃO DA PORRA! VOU FAZER AESTHETIC DESSA LINDEZA! Outra coisa maravilhosa foi o Antônio ter virtiligo, sério um detalhe desses talvez parece "bobo" para alguns, mas pra mim que sou 100% integração foi algo super importante. Enfim, é só um belo conto ok? Amei muito, parabéns <3
24 de Setembro de 2018 às 19:36

  • Bárbara Vitória Bárbara Vitória
    Ah bebê eu tô feliz que ce tenha gostado do Antônio ter vitiligo, sério, desde a sua primeira aparição em "o gracejo do seu olhar" eu dei indícios do tom de sua pele, mas parece que ninguém pegou o mote do enredo né. 24 de Setembro de 2018 às 22:41
  • LiNest LiNest
    Não li "O Gracejo do seu olhar" ainda, mas agora tô meio triste que já vou saber que ele tem vitiligo, seria interessante ver se sou observadora o bastante pra notar esse detalhe sem ele estar explicito. Ainda assim só faz desse bb um personagem ainda mais especial <3 24 de Setembro de 2018 às 22:57
Akuma Lia Akuma Lia
Foi a primeira historia do desafio que eu li que trouxe o conto para atualidade, genial! Achei bem legal e em um conceito diferente você deixou a historia bem humorada. Gostei bastante, parabéns.
21 de Setembro de 2018 às 17:47

  • Bárbara Vitória Bárbara Vitória
    Obrigada, super agradeço ao seu comentário, fico feliz que tenhas gostado u.u 21 de Setembro de 2018 às 21:28
~