O feitiço Seguir história

mary-olosko3981 Mary Olosko

O príncipe Taris vai atrás do que mais deseja no mundo. Ele consegue? --------- Alta fantasia feita no último dia pra o Fantástico Ink. Perdão!


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Taris, a Floresta e o Meistre

                        Estava quente.


  A roupa grudava no corpo e Taris sentia uma leve tontura dos inúmeros dias sem comida decente. Se escorou na árvore sentindo falta do seu aconchegante castelo. Sentia falta de Una e Itris, nunca tinha ficado tanto tempo sem elas.


  Tinha estudado alguns mapas da floresta antes de por seu plano em ação, mas não tinha certeza que estava andando na direção correta agora que se deparara com a realidade de uma mata fechada e selvagem.


  Puxou um lenço do bolso da calça e limpou o suor. Lembrou da ainda extensa jornada a frente e voltou a andar.


  As árvores de enormes copas cobriam totalmente o céu deixando o lugar escuro e barulhento de dia e ainda mais escuro e assustador de noite. O farfalhar de folhas, gorjeio de animais e sons que Taris não sabia reconhecer faziam crescer em si uma inquietação doentia.


  Uma semana vagando sem ver o céu ou horizonte. Tudo parecia igual não importava o quanto se mexesse. Nos primeiros dias escalava às árvores para saber o simples momento do dia, mas chegara ao ponto de não sentir mais firmeza nas pernas para tal ato.


  Itris tinha contado sobre a Floresta Spung algumas vezes nas suas histórias sobre Orzut. Nas histórias a Floresta sugava a energia dos que nela adentraram e faziam com que andassem em círculos por conta de inúmeras alucinações.


  Taris vinha de gil em gil marcando as árvores pela ordem que elas apareciam e ainda não tinha encontrado às outras marcações o que fazia-o acreditar que não estava andando em círculos.


  De repente ouviu um estouro alto atrás de si. Ao se virar viu uma Theyk colossal. Ela surgirá da terra como as sua espécie comuns e a encarava com seu único olho ferozmente. Taris sabia que não teria chance correndo do animal e não sabia se conseguiria se mexer. Estava perplexo, o animal de alguns palmos que era abundante no quintal de castelo, inofensivo, parecia pronto para exterminar alguém.


  A animal tinha uns 5 Yons de comprimento e 1 Yon de largura e apesar do enorme tamanho lembrava um Theyk comum, anelideo, de cor marrom escura e com o único olho em sua fronte inteiramente preto. Lembrou do Meistre Horas em casa, ele gostaria de examinar tal animal. Sentiu as lágrimas vindo, não queria morrer, estava tão perto…


  E tão rápido quanto o animal chegou ele explodiu. Mil pedaços de gosma e voaram pela úmida floresta. Taris desabou no chão, chorava audivelmente, sons nada educados saindo da garganta, seu pai riria se o visse daquele jeito.


— De nada! — gritou uma figura encapuzada ao fundo.


  O príncipe levantou imediatamente. Não deixaria que alguém o visse daquele jeito. O homem veio se aproximando e tentando tirar de si os pedaços da Theyk.


— Boa Tarde Princesa — cumprimentou o homem, revelando sua identidade.


  Tirou o capuz e pode que era Torus sorrindo-lhe. Taris correu para o irmão, nem um pouco triste por ter sido chamado de princesa. Queria abraçá-lo. Não o via desde que tinha ido para a escola dos Meistres três anos antes.


— Você está mesmo aqui? — perguntou apertando o irmão gêmeo, gosma e suor não importavam.


— Claro que estou — a voz dele soava diferente, mais máscula.


  Agora era um homem. Taris segurou o rosto dele entre suas mãos e observou. Os olhos verdes, a pele morena da longa exposição ao sol, o cabelo castanho que não via um corte há algum tempo, era o Torus que se lembrava. Era o Taris que queria ser. O rosto belamente masculino do irmão provocava em si uma inveja doentia desde a infância. Por que não nascera daquele jeito?


— Não faça isso minha irmã. Volte! Nosso pai diz que vai te perdoar se voltar agora. — suplicou o príncipe mais novo.

 

  Quando criança Taris nunca conseguiu negar nenhum pedido do irmão. O menor (por apenas alguns segundos) franzia as sobrancelhas e Taris cedia sempre. Mas seria impossível dessa vez.


— Não faça isso comigo Torus — respondeu, se afastando do irmão e evitando contato visual.


— Taris, ninguém pode fazer nada por esta sua loucura! Você nunca será um homem!


 Os gritos do irmão feriram profundamente Taris. Eles nunca tinham falado sobre o assunto, mas ele imaginava que alguém como o seu irmão, que o conhecia tão intimante, o apoiaria. Taris não ligava para metade do Reino o chamando de “Princesa Macho” ou para outra metade que lamentava sua “loucura”, não ligava para o pai lhe dizendo que tinha vergonha dele todo dia pela manhã, e não ligava de não poder ser chamado como queria, mas ouvir Torus fez sua mágoa com todas essas outras coisas aflorar.


— Eu sei o que eu sou. — Ele começou, num tom machucado e baixo — Não preciso de perdão seu, do Rei ou de qualquer outro idiota que sentir que pode falar do meu corpo sem viver nele.


  Virou mata a dentro e continuou andando sem olhar para trás. Não saberia dizer por quanto tempo andou, sendo seguido de perto por Torus, até finamente olhar para trás. Não trocaram uma palavra, um olhar foi o suficiente para se entenderem.


  Começaram a “limpar” o locar. Pegando alguns gravetos do próprio chão, armaram uma pequena fogueira que o mais novo acendeu com um líquido que tirou de sua bolsa meistral. Taris desamarrou dois Yerl que viajavam até o momento amarrados pelas orelhas sua bolsa e entregou ao aprendiz de Meistre que já tinha uma pequena cuba de ferro com legumes dentro.


  Enquanto a comida assava a farfalheira e gorjeios da floresta os envolviam, e os barulhos não pareciam tão assustadores agora que tinha Torus consigo. O escuro normal se tornou progressivamente o escuro da noite e o frio fez com que tirasse de sua bolsa seu casulo de pele Ghoul e se embrulhasse com ele como um cobertor.

  

  O irmão fez o mesmo com o seu cobertor que só era diferente pela cor azulada. Ambos se sentaram no chão tentando não pensar no que haveria debaixo deles. Ele tirou um livro da bolsa e estendeu para Taris com certo acanhamento.


— Esse é o único livro de toda biblioteca Meistral que ensina como chegar ao Feiticeiro.


  O mais velho pegou o livro ávido e grato. As informações do livro não eram muito melhores do que as da Biblioteca Central de Orzut, mas o livro falava sobre uma limitação do Feiticeiro que não havia sido listada antes: Ele apenas podia realizar um desejo a cada 100 anos.


  Taris se sentiu bem entristecido. E se ele já tivesse realizado o desejo daquele centenário? O rapaz não tinha um plano B.


— O pescador que encontrei em Turtel e os livros da Biblioteca Central já tinham me ensinado tudo isso — anunciou, devolvendo o grosso e pesado livro com certa displicência.


  Novamente se fez o silêncio. O crepitar do fogo se misturando aos outros barulhos e deixando Taris com sono.


— Por que você está aqui? E como me achou? — O sonolento príncipe perguntou esticando o cobertor no chão e deitando sobre ele perto do fogo.


— Meistres são ótimos rastreadores — respondeu unicamente, mexendo na comida.


— E por que você ainda está aqui? — insistiu, virando a cabeça da onde estava deitado completamente para o irmão.

  

  Taris tomou o tempo para observar o corpo do mesmo, só as partes que a espessa manta que ele segurava em si, não cobria. É no geral ele lembrava o próprio pai: ombros largos, pernas longas e uma pose ainda bem ereta e viril mesmo que estivesse relaxado.


— Eu não sei — respondeu lentamente, como que procurando as palavras.


  O príncipe mais velho se virou para a copa das árvores, observando a teto verde sobre si mexer lentamente com o vento agradável da noite.


— Eu lembro de quando você me falou que seria Meistre. Que era seu sonho. Eu te apoiei. Ajudei a fugir até… — Taris disse com um sorriso triste nos lábios.


  O ensonado príncipe puxou com a mão nua um pedaço do Yerl do fogo e começou a comer. A carne viscosa e quentinha recompensando um dia exaustivo.


  Torus lembrava com clareza daquele dia. A irmã não o questionou por um segundo e ele a amava por isso. Não queria que ela se machucasse naquela jornada sem garantias, ela seria rainha afinal. O mais novo sempre achou que ela seria uma excelente rainha.


  Perspicaz, generosa, destemida e forte; ele via tudo isso na irmã, mas o que era aquela história de achar que era homem?


Pegou também a comida e apagou o fogo rapidamente com as próprias mãos.


— O que esta fazendo?! — Taris gritou vendo as mãos do irmão cobrindo e extinguindo o fogo devagar.


— Eu aprendi algumas coisas em Urbank — respondeu tirando as mãos da fogueira já apagada.


— Meistre Horas não faz isso…


— Quem te disse que ele não faz?


Desviaram os olhares novamente.



  Taris acordou de sobressalto. Sempre acordava assustado na Floresta, o escuro, o barulho, o cheiro da terra, nada era familiar.


  Viu que o irmão já levantara e estava ao seu lado lendo e bebericando algo. Ele parecia feito para aquele cenário. Havia até uma raviolita pousada no ombro dele cantarolando.

  

  Ao ver o sobressalto do outro, Torus se levantou e ainda com o pássaro num dos ombros estendeu uma mão para o irmão. O mais velho recusou e levantou apenas com as pernas.


  Rapidamente recolheu seu casulo e voltou a andar enquanto colocava-o de volta na bolsa de viagem.


  E por mais um dia parecia que a Floresta não teria fim. Andaram por muito tempo. O próprio Torus com todo seu conhecimento do tempo, não saberia dizer quanta tempo foi. Falaram muito pouco também, e viram uma variedade de animais estrondosa. Outra figura que parecia determinada em ficar era o pássaro que hora ia no ombro de Taris hora no ombro de Torus.

Quando acreditavam que não poderiam mais andar Torus sentiu cheiro de ornellas.

— Tarisa! — chamou animado.


    O cheiro das flores denunciava o fim do enclausuramento deles. Taris correu os últimos gils com a energia restaurada tamanha a animação.


 O que viu além das árvores intransponíveis foi simplesmente o lugar mais bonito de todo Vorln.


   O campo de Ornellas se estendia até perder de vista. De várias cores o chão não podia ser visto tamanha a expessura do tapete de flores.  

  

   O sol da tarde deixava o céu de inúmeras cores lindas, não havia uma única nuvem para impedir. Não parecia com nenhum lugar que Taris já tinha visto. Algumas pétalas voavam para o rosto de Taris e a Raviolita voou do ombro dele tentando pegar algumas pétalas. 


— Vamos parar! — Torus gritou para o irmão que continuava a andar, embevecido. 


  Taris nem ouviu. Continuou  com ainda mais afinco, porém foi parado por um raio que caiu a sua frente. 


— Princesa Tarisa de Orzut. Sei o que te trás aqui e sei o que vai me pedir — a voz a princípio vinha do nada, mas logo uma mulher se materializou — mas você terá que me convencer de que é melhor do que todos que vieram e os que virão. 


  Usava um vestido longo e azul claro, os olhos eram inteiros brancos, os cabelos eram cacheados de um vermelho sangue e chegavam aos pés que não tocavam as flores, pois ela flutuava. A tez negra era quase da cor do céu noturno e parecia formar uma aura negra ao redor da mulher. 


    A figura era de fato a mais estranha que já havia visto na vida, mas não sentia medo, sentia um estranho aconchego na presença da mulher. Torus parecia um pouco mais assustado, mas ainda sim estaca admirado, incrédulo. 


— Eu não sei se sou melhor que alguém, mas eu não tenho escolha. Preciso governar, mas não posso viver assim. 


Taris colocou tudo resumido naquela frase. Com decisão, com a voz firme, ele precisava daquilo.


   A mulher flutuou para perto dele. Não tinha como saber se estava olhando em seus olhos, mas Taris não cortou o contato visual em nenhum momento. 


— Você está pronto para isso? Eu apenas mudo o exterior. O que você sentirá a partir daí não é algo que eu possa mudar. 


— Eu estou... Mas é as outras pessoas que vierem? E se tiverem pedidos mais nobres? 


A mulher sorriu ternamente e encostou um dedo na testa de Taris. 


— Está feito — disse, ficando mais translúcida a cada momento.  — Você é o mais digno Príncipe Taris, governe bem e ninguém precisara me procurar. 


   O príncipe ficou parado alguns minutos, passou aos mãos rosto e pelo corpo sem pudor, estava mudado sem dúvida, mas percebera o seu real desejo apenas naquele momento. 


   Virou, chorando muito, para o irmão. 


— Você me aceita agora irmão? 





  

3 de Setembro de 2018 às 14:52 5 Denunciar Insira 3
Fim

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Karimy Karimy
Olá! Escrevo a você por causa do Sistema de Verificação do Inkspired. Caso ainda não conheça, o Sistema de Verificação existe para ajudar os leitores a encontrarem boas histórias no quesito ortografia e gramática; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores com relação a isso. A Verificação não é necessária caso não tenha interesse em obtê-la, então, se não quiser modificar sua história, pode ignorar esta mensagem. E se tiver interesse em verificar outra história sua, pode contratar o serviço através do Serviços de Autopublicação. Sua história foi colocada em revisão pelos seguintes apontamentos retirados dela. 1)Falta de acento em "por seu plano em ação" em vez de "pôr"; "ninguém precisara me procurar" em vez de "precisará". 2)Falta de crase, como em "extensa jornada a frente" em vez de "extensa jornada à frente". Crase desnecessária em "escalava às árvores" em vez de "as árvores". 3)Falta de vírgula em orações reduzidas de gerúndio, como em "As árvores de enormes copas cobriam totalmente o céu deixando o lugar escuro" em vez de "As árvores de enormes copas cobriam totalmente o céu, deixando o lugar escuro". Falta de vírgula em vocativos (e letras maiúsculas quando não necessário), como em "Boa Tarde Princesa" em vez de "Boa tarde, princesa". 4)Verificar grafia de certas palavras como "mata a dentro" em vez de "mata adentro"; "limpar o locar" em vez de "local"; "estaca admirado" em vez de "estava". Obs.: Há o uso de pretérito mais-que-perfeito na história em momentos de acontecimentos "imediatos" na história: o pretérito mais-que-perfeito é usado para expressar o passado do passado, como quando você está escrevendo no pretérito do indicativo e sua personagem se lembra de uma coisa que aconteceu com ela há muito tempo, se mesmo necessário, o pretérito mais-que-perfeito é usado em momentos como esse. Obs.: os apontamentos acima são exemplos; há mais o que ser revisado na história além deles. Aconselho que procure um beta reader; é sempre bom ter alguém para ler nosso trabalho e apontar o que acertamos e o que podemos melhorar, assim como ajudar-nos com a gramática e ortografia. Caso se interesse, esse recurso também é disponibilizado pelo Inkspired através do Serviços de Autopublicação. Agora, sobre a história... caramba! Fiquei apaixonada por esse conto. Eu realmente gostei muito do desenvolvimento e também do final, parabéns! Bom... Basta responder esta mensagem quando tiver revisado a história, então farei uma nova verificação.
7 de Março de 2019 às 13:52
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, tudo bem? Nossa, eu adorei essa história, o caminho de um cara para conseguir reger de forma que se sinta à vontade com seu corpo. Com toda a certeza, em originalidade, essa foi umas das melhores que li. Pior é que dá para sentir toda a aflição de Taris em não aceitar seu corpo, e, quando Taurus fala que é uma loucura ele agir daquela forma se comportando como um cara, você passa todos os sentimentos conflituosos que ele está sentindo com uma naturalidade na narrativa impressionante. Faltou aprofundar um pouco o personagem principal. Você o desenvolveu sem a complexidade exigida pela Alta Fantasia, o que acabou deixando o personagem como segundo plano no texto. Um pouco mais de tempo o desenvolvendo e o texto teria mais naturalidade na hora da leitura. Outra observação são alguns errinhos encontrados nos últimos parágrafos, nenhum ortográfico, apenas algumas palavras trocadas como, por exemplo, "estaca" que acredito ser "estava". Bom, eu gostei muito da aventura de Taris e espero que tudo tenha dado certo com o reino após sua coroação. Parabéns! Beijinhos 😘
4 de Outubro de 2018 às 15:09

  • Mary Olosko Mary Olosko
    A gente sabe que a crítica é boa quando consegue enchergar tudo que foi criticado. Problema pra mim foi o tempo, escrevi literalmente nas últimas horas do prazo então não pude fazer muito do que eu queria. Fora que postei em cima da hora e não sabia se podia editar. De qualquer forma fico lisonjeada e muito feliz pelo comentário. 4 de Outubro de 2018 às 15:21
Luray Armstrong Luray Armstrong
Se tem uma coisa q eu adoro é a abordagem da transexualidade sendo abordada nas histórias Ta pipocando! E eu tô amando! Adorei a fiiiic, de vdd, verdadezinha ❤❤
8 de Setembro de 2018 às 20:32
Davi Wayne Davi Wayne
Mdsss tá muito bom, profissional de uma competência incrível Rogerinho!! Genial!!
3 de Setembro de 2018 às 17:36
~

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