Elementais-O Poder dos Fracos Seguir história

morikatsu Mori Katsu

Graymore por séculos fora governada por elementais poderosos. Eles eram temidos pelas classes inferiores; conjuradores, bruxas e pessoas sem dons. O rei tinha que ser o mais forte de todos para garantir sua permanência no trono e para manter todas as classes exatamente onde estavam, abaixo dele. Joseph, o príncipe herdeiro, não era poderoso o bastante.


Fantasia Medieval Para maiores de 18 apenas.

#magia #courtintrigue #intrigasdacorte #fantasticoink
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Azul para água, clara e constante

O ranking de aulas odiosas que Joseph deveria comparecer era extenso. Artes marciais estava em terceiro lugar. O treino sempre acontecia a noite, quando seu corpo estava exausto depois de um dia de intensas atividades físicas.

O instrutor de pé na borda do tatame, estava parado como uma estátua e sombrio como um espectro, estava pronto para matar qualquer um. Ele parecia querer matar Joseph nesse momento por ser seu pior aluno, por ser a mancha no seu histórico perfeito, porém limitava-se a incentivar Stephan, o filho caçula do rei a fazê-lo.

— Não pegue leve Stephan. A compaixão é um desperdício no campo de batalha. — ele perdera o olho esquerdo na guerra, parecia um pirata com tapa olho. Usava colete preto de oficiais sem dons com orgulho, era um homem normal. Joseph achava que o treinador tinha o dom para tortura-lo e que ele se orgulhava disso também.

Os outros alunos assistiam a luta com diversão, garotas e rapazes compartilhando a paixão pelo combate. No final das aulas práticas uma dupla ou uma pessoa sozinha era escolhida para mostrar suas habilidades, os príncipes eram escolhidos com frequência e apresentavam níveis de competência completamente opostos.

As diferenças não paravam por ai, se estendiam como um campo com flores e um campo de pedras até aonde a vista alcançava.

Joseph, o herdeiro do trono, tinha a aparência de um querubim, cabelos louros cacheados, olhos azuis e porte delicado. Apesar de ter quase 16 anos mantinha a mesma aparência de quando tinha 14. Stephan era moreno, seus olhos tão escuros quanto os cabelos, era tão alto quanto o instrutor pirata e quase tão forte quanto, ele realmente tinha quatorze mas a seriedade sempre fazia com que parecesse mais velho.

Julgando ambos pela aparência, qualquer um poderia afirmar que Stephan era o herdeiro do trono.

Stephan atacava, veloz e implacável, como sempre, sem dar brecha para o oponente. Joseph com braços em frente ao rosto mal conseguia se defender e recuava mais como um bichinho assustado do que como um príncipe. Sua retirada vergonhosa teve fim quando se atrapalhou nos próprios pés e caiu para trás, seus braços balançaram no ar como tentáculos de um polvo. Tão rápido como um raio seu irmão avançou, acertando um soco potente entre suas costelas antes mesmo que chegasse ao chão.

— O destino não favorece os fracos — disse Stephan com seriedade arrancando risos dos colegas — De pé, é indigno chutar um homem caído.

— Não estou caído, o chão estava com uma aparência ótima então resolvi deitar para testar a qualidade. — disse Joseph com dentes cerrados, a dor o consumido por dentro. O senso de humor também não era o mesmo porque seu irmão não riu. Aproveitou a pequena distração e a proximidade para dar uma rasteira nele. — O intelecto por outro lado os engrandece. De pé, é indigno chutar um homem caído.

Ele devolveu satisfeito, com um sorriso singelo brotando em seus lábios machucados. Qualquer um com conceito elevado de si mesmo deveria se sentir ridicularizado ao ser pego por truques tão baratos quanto aquele. O riso da plateia foi contido, mas um "pfft" ainda escapou quebrando o silêncio anormal que se formou. Os olhos de Stephan brilharam perigosamente, o preto salpicado com vermelho, como brasas inflamado na escuridão.

Era fácil identificar um elemental, antes de usarem seu poder os olhos deles sempre irradiavam luz. Joseph se afastou, seus próprios olhos como fogo azul. Antes que Stephan se levantasse ele já estava a uma boa distância, usando a umidade da sala para criar agulhas finas de gelo que balançavam trêmulas no ar, vibrando, refletindo seu nervosismo. As pontas afiadas na direção de Stephan eram perigosas, contudo, para quem dominava o fogo tão bem aquilo não representava nada.

— Sem truques alteza, esta é a aula de artes marciais, não de elementos. Contenha-se. — repreendeu o instrutor com ironia.

Joseph queria dizer que Stephan estava prestes a incinera-lo, mas desfez as lâminas em neve. Assumiu uma posição defensiva esperando o ataque. Ele tinha dificuldade para respirar, a dor vinha em pontadas e a pele ardia. Era um milagre que ainda estivesse de pé, outro golpe daqueles seria suficiente para que desse adeus a este mundo.

"Contenha-se" era uma piada ruim.

Eles se analisavam, não como um irmão treinando com o outro, mas como um leão encarando um gato, se o leão pudesse sentir pena do parente ao imaginar o que estava prestes a fazer com ele.

— Acabou por hoje, estão dispensados.

Joseph não conteve um suspiro, tinha sido por muito pouco.

Instantes depois eles sentaram na borda da arena, ambos sujos e com uma camada de suor cobrindo o torso nu. Os alunos tinham saído antes mesmo que o treinador terminasse sua última sentença, deixando os dois príncipes sozinhos pela primeira vez naquele dia.

— Machuquei muito você? — perguntou Stephan como um irmão preocupado faria, um irmão mais velho profundamente responsável. — Sabe que não posso pegar leve, é para seu próprio bem.

Na cabeça dele, treinos exaustivos davam resultados, era impossível que Joseph continuasse com o físico de uma moça após tantas horas de treinamento. Pegar ainda mais pesado parecia apropriado.

Joseph lembrou dos olhos do irmão e não deixou de se perguntar se ele ia mesmo incinera-lo para seu próprio bem. O que poderia ser pior, fracassar em tudo ou ver seu irmão mais novo supera-lo em todas as coisas? Em alguns anos seria coroado, tinha que estar pronto quando o dia chegasse. Stephan parecia pronto agora, era admirado pelos professores, bajulado pelos amigos e elogiado pelos pais. De alguma forma ele conseguia a proeza de ser simpático em multidões, ser um líder, embora todo ele fosse rígido como uma pedra.

Enquanto Joseph ainda se atrapalhava nos próprios pés cambaleando atrás como uma criança implorando por cuidados.

— Estou bem — disse ele, vestindo a camisa branca com dificuldade, cobrindo a marca de um vermelho alarmante na costela. Levantou para ir embora quando sentiu que estava prestes a ser afagado na cabeça, como um cãozinho. A mão de Stephan ficou suspensa não ar. — Não se preocupe.

— Vejo você no jantar?

Ouvir Stephan ser bajulado era tão animador quando ver uma ferida derramando pus.

— Estou de dieta! — gritou por sobre o ombro deixando a sala de treinamento rapidamente, ansioso para achar um buraco escuro onde pudesse cair, onde ninguém iria julga-lo por ser diferente de seu irmão mais novo ou por não ser como todos eles.

***

Em Granville existia uma tabela de bons resultados, o último da lista era penalizado. O castigo dos rapazes era fazer a manutenção da sala de armas, as damas ficavam com a limpeza da cozinha.

Resignado, Joseph cambaleou para a sala de armas, sentindo-se dolorido e miserável. O cheiro de metal e velas queimadas daquele lugar eram familiares para ele, de uma forma ruim. E a visão de estantes abarrotadas de escudos e espadas, lanças e flechas era suficiente para mata-lo de tédio.

Uma única vez ali era suficiente para fazer até o aluno mais ocioso se esforçar mais. Ninguém poderia acusar o príncipe de ser preguiçoso, ele apenas não era o que todo mundo esperava que ele fosse, um guerreiro brilhante.

Ele empurrou a porta e estancou no arco, no centro da sala um rapaz inspecionava espadas que estavam sobre a mesa. O par de olhos lupinos em sua direção bastou para deixa-lo pálido.

— Alteza?

Havia muita formas identificar uma pessoa com dons, os olhos de um elemental brilhavam, um conjurador tinha marcas tatuadas no corpo. Identificar uma bruxa era um pouco mais complexo, você só saberia se fosse enfeitiçado por uma pessoalmente. Aquele não era um simples aluno, não era um elemental tampouco, mas o filho do comandante Clarence, o único conjurador a ter um posto importante no exército. Naturalmente o filho dele possuía as mesmas marcas que deixavam as pessoas desconfortáveis.

Sardas salpicavam o rosto dele e o par de olhos verdes devia agradar as garotas, porém, a marca na bochechas esquerda provavelmente as repelia. No momento, tanto os olhos quanto a marca assustavam o príncipe, não mais do que o tamanho dele o intimidava. Ele era maior que Jackson, o treinador pirata.

— Ash que faz aqui? — perguntou timidamente, entrando na sala com menos ânimo ainda. Seu tom sugeria a intensão de se jogar em um poço profundo.

— Estou de castigo por uma semana- revelou o colega com desgosto — Kasper achou que me punir seria adequado por desafia-lo para um duelo de espadas. — então um sorriso vitorioso brotou nos lábios dele, Kasper era o professor de esgrima - Se eu não tivesse vencido o duelo talvez ele me deixasse impune pelo desaforo.

— O gosto da derrota é amargo. — disse Joseph, se juntando a Ash do outro lado da mesa. Por alguns instantes eles permaneceram em silêncio, o som do metal rompendo a quietude. Todas as espadas com o fio dentado deveriam ser afiadas e tudo o que estivesse fora do lugar deveria ser arrumado.

Aos poucos o príncipe relaxou e a curiosidade venceu o desconforto inicial, ele passou a lançar olhares cada vez mais demorados na direção do colega. As roupas dele eram de um tecido fino, caro. Como todos os outros alunos ele usava calças e botas pretas, porém não ostentava nenhuma cor, nem sequer usava um colete, a peça que identificava a habilidade dominante através de cores. Ele usava camisas branca todos os dias, assim como Joseph.

Preto, para o homem comum.

Azul para a água, clara e constante.

Amarelo para a ventania no horizonte.

Marrom para o que faz vida brotar.

Vermelho para a chama ardente, como nossos espíritos e nossos corações.

Os cabelos ruivos caindo sobre os olhos verdes, eram como fogo, como as chamas de Stephan. Então os olhos de Joseph pousaram sobre a marca. De longe pareciam várias camadas de círculos minúsculos sobrepostos, de perto, pode ver que eram diversas inscrições ainda menores que formavam a imagem delicada, bonita até, dos círculos sobrepostos. Assim como as dos braços e da clavícula que sumia roupa a dentro.

— O que ela faz? — perguntou finalmente, lá no fundo ele também estava encantado.

— O que, Alteza? — Ash levantou o rosto, o suficiente para encarar o príncipe, o que não era muito. Piscou duas vezes. O príncipe até poderia ser uma desgraça em qualquer atividade física, porém, mesmo com o lábio machucado, a bochecha arranhada e um olho roxo sua aparência ainda era impressionante. Parte dos caracóis loiros estavam queimados também. Aquela beleza imaculada devia ser a flecha do coração de jovens damas.

— A marca no seu rosto. Eu não espero que compartilhe a informação, vocês normalmente não fazem.

As marcas de um conjurador eram mágicas, elas permitiam o usuário retirar objetos da própria pele como uma adaga; e invocar criaturas saídas de algum depósito infernal particular. Não era como se Joseph não soubesse disso, ele só nunca teve a oportunidade de ver esse tipo de magia pessoalmente.

— É claro Alteza.

— Estou ouvindo.

— O que? — Ash perguntou confuso.

— Perguntei se poderia me dizer o que sua marca faz, e você respondeu "É claro, alteza". Pois bem, estou ouvindo.

Se a língua de Joseph fosse uma espada ele seria um guerreiro formidável. Sua voz jamais se elevava, mas tudo o que pronunciava era mordaz e sarcástico, com o tom leve de uma raposa.

— Ela faz um tipo diferente de magia. — disse Ash sem qualquer originalidade, fugindo intencionalmente de uma resposta clara.

— Vocês conjuradores fazem um juramento de lealdade de nunca revelarem o segredos do grupo. Corro o risco de parecer grosseiro, mas vocês são um culto? Esqueça, ignore a pergunta. — fez um gesto como se estivesse abanando moscas, suas unhas eram meias luas de sujeira — Como anda seu pai? Ouvi dizer que está liderando uma campanha formidável contra Fallwood.

O filho do comandante foi pego desprevenido, ninguém lhe perguntou até agora como seu pai estava indo e de forma alguma esperava que o príncipe fosse o primeiro a levantar a questão. Poucas pessoas se interessavam com o que acontecia nos limites do reino, e nenhum nobre daquela escola se importava com um mero capitão do exército.

— Ele está bem, estão acampando próximo de um vilarejo e o tempo por lá não está nada mal essa época do ano. — comentou.

O príncipe sabia que campanha estava acontecendo muito ao sul, na fronteira com Fellwood, só existia um vilarejo por lá, o mais esquecido de todo o reino. A briga por aquele território era como alguém se recusar a jogar o osso para o cachorro. O rei não precisava e nem se importava com aquele miserável pedaço de terra, mas sua mesquinhez era grande o bastante para brigar pelo vilarejo.

— Grimper é separado do restante do reino por montanhas, os moradores estão acostumados a atuar mais com os vizinhos por ser mais próximo e mais fácil para fazer comércio. Faz sentido que não estejam acampando lá. Pessoalmente, aquele deve ser um lugar interessante. — Joseph concordou, falando consigo mesmo, imaginando as montanhas e as diversas nascentes que existiam por lá.

Ele sabia das coisas, passava horas perdido em livros, estudando e absorvendo tudo o que poderia ajuda-lo no futuro. Nem todas as batalhas eram travadas com espadas, algumas delas, uma pena poderia dar fim ao conflito.

— Está enganado Alteza. Meu pai descreveu o lugar como "um pedacinho do inferno". Os moradores não tem o menor senso de decência ou de civilidade. — Ash baixou o tom de voz — Eles comentem assassinatos brutais com muita frequência.

Joseph voltou as espadas e continuou a conversa, ainda com pensamentos voando longe.

— Na verdade, os 'assassinatos brutais" que mencionou são reservados aos criminosos. Como não existe nenhuma guarda por lá, então os habitantes se livram de inconvenientes á sua própria maneira, fazendo justiça com as próprias mãos — disse o príncipe com simplicidade. Através de registros ele sabia tudo o que precisava saber sobre cada vilarejo do reino, ele teria que cuidar daquilo futuramente, era seu. — Ainda me parece um lugar interessante.

Depois de terminarem com as espadas dividiram as tarefas e cada um foi para o seu lado do cômodo.

— Não sei como alguém pode suportar fazer isso todo dia. Que trabalho enfadonho! — Ash disse enquanto colocava as lanças no depósito, mais ao fundo. Do outro lado da sala Joseph tentava pendurar escudos nos ganchos mais altos na parede, tentava, pois mesmo na ponta dos pés mal alcançava o suporte. — Deixei isso comigo Alteza.

— Não precisa. — os dedos dele estavam suados e o pesado objeto escorregou de suas mãos, no exato momento que foi puxado pela cintura a beirada do escudo tingiu o chão onde segundos antes estava seu pé.

— Precisa tomar cuidado Alteza, essas coisas vivem caindo.

A parede de músculos nas costas do príncipe o cercou com o odor de lavanda, embrulhando-o como um presente.

— Que sensível da sua parte não dizer que eu sou um completo desastre. — gruniu de dor logo em seguida. — Mas você terminou de quebrar minhas costelas, de modo que não sei se agradeço ou simplesmente grito com você.

Ash encarava o escudo enquanto mantinha o príncipe em seus braços fortes, como se estivesse protegendo ele de um artefato maligno. Quando foi repreendido percebeu que a força que usava era excessiva.

— Perdoe-me Alteza. — disse ele, libertando Joseph do aperto esmagador. O príncipe virou de frente para ele, a expressão era solene.

— Em todo caso, obrigado. — agradeceu Joseph. Ele levantou a barra da camisa, o lugar onde Stephan o atingiu estava ainda pior, uma mancha escura contra a pele suave

Os olhos de Ash recaiu sobre a barriga lisa, a pele era dourada, bonita.

— Creio que ninguém virá inspecionar nosso castigo. Vamos jantar? Acho que ainda deve ter um ou duas coisas gostosas para comer. — Ash sugeriu desconfortável.

— Não costumo frequentar o refeitório a noite. Mas obrigado pelo convite. — recusou. A noite os outros alunos pareciam ainda mais com o que realmente eram, um bando de nobrezinhos de nariz em pé. Ele suportava o dia inteiro aquelas pessoas, mas ninguém poderia obriga-lo a aturar durante a noite. Havia um limite para tudo!

Não havia qualquer indício de arrogância no príncipe que indicasse um título importante, embora muitos dissessem que ele tinha uma língua afiada. Ash não tinha as melhores impressões da nobreza, mas aquela pessoa era honesta e principalmente, humilde. Adjetivos como aqueles era anormais na realeza, não eram valorizados.

Joseph sentou sobre a mesa no centro da sala. Já tinha esquecido a presença do colega quando novamente levantou a camisa. Tateou as costelas, e ficou aliviado por não estarem quebradas, infelizmente o hematoma estava roxo e ainda doía como o inferno.

— Tem certeza?

O príncipe ergueu o rosto, o conjurador estava na porta relutante em ir embora, olhando para ele intensamente.

— Absoluta.

— Posso fazer uma pergunta Alteza?

— Acabou de fazer.

Ash revirou os olhos.

— Por que não usa o uniforme? É um daqueles azuis, não é?

Joseph emitiu um riso baixo.

— Azul para água, clara e constante. — receitou — Não me considero tão constante assim.

— As águas de um riacho nunca são as mesmas. Sempre mudam. Isso é bom.

Joseph refletiu. Um dia ele quis ser como todo mundo, alguém capaz de enfrentar seus oponentes com frieza, sem compaixão. Para ser aceito ele precisava ser assim. Até perceber não seria capaz de aceitar a si mesmo. Ele poderia fazer isso? Não. Por isso não usava o uniforme, porque antes de ser o herdeiro do trono e um elemental, ele era um ser humano.

— De fato.

— O azul do uniforme combina com seus olhos, deveria usar.

Depois disso Ash foi embora, deixando Joseph atordoado para trás se perguntando se deveria encarar aquilo como um elogio ou apenas uma dica de estética. Pensaria nisso mais tarde.

A única coisa realmente interessante na sala de armas era a passagem secreta no fundo da sala. Arrastou seu corpo até lá. Na parede de pedra uma prateleira estava fixada, onde lanças enfileiradas estavam prontas para o uso. Havia um candelabro aceso ao lado que ao ser puxado para baixo, a parede se movia como uma porta, sem emitir qualquer ruído. O príncipe puxou o candelabro revelando um corredor estreito e escuro como a garanta de um monstro prestes a engoli-lo.

Sem hesitar, Joseph entrou.

***

Na noite seguinte enquanto inspecionavam as espadas, foi Ash que iniciou a conversa.

— Eu o observei o dia inteiro Alteza, me pareceu ótimo esta manhã. Não,  estava praticamente reluzindo. — em um gesto ousado, ele tocou o queixo de Joseph erguendo o rosto dele para cima; a pele estava imaculada, o cabelo loiro não estava chamuscado e os lábios... ele era a flecha no coração de pobres mortais. Era lindo, como um anjo que perdeu as asas. Era quase doloroso deixar de toca-lo, relutante, Ash consegui fazê-lo. — As pessoas desse lugar ou são cegas ou muito idiotas para não notarem sua cura milagrosa da noite para o dia.

— Parabéns, você não é cego nem idiota.

— Isso parece bruxaria, se me permite dizer. Conhece alguma bruxa? Compra poções de cura instantânea? É a única explicação que posso imaginar. Mas bruxas raramente prestam serviços confiáveis, sempre estão prontas para jogar uma maldição em você por qualquer motivo. Não merecem a confiança de ninguém, e ainda são feias como...

Joseph buscava auxílio com uma bruxa durante a noite, era o outro motivo que o levava a não frequentar o refeitório naquele horário. Ela emendava seus ossos quebrados, fazia os cortes em sua pele sumirem sem deixar nem mesmo uma cicatriz para trás e restaurava as forças dele para o dia seguinte. Ela cobrava por isso obviamente, mas Joseph sabia que ela era sim digna de confiança, bruxa ou não, era uma das melhores pessoas que já conheceu na vida. Ninguém tinha o direito de insulta-la. A espada curta que estava polindo foi empunhada com maestria, a ponta sob o queixo de Ash quase perfurando a pele dele, que pego de surpresa não pode fazer nada além de erguer as mãos em rendição.

— Se não gosta de ser julgado por desconhecidos, então não faça o mesmo com outras pessoas.

— Tem razão, sempre o achei arrogante, mas na verdade é incrivelmente inteligente e está de fato, acima de tudo isso — Ash disse, e acrescentou desnecessariamente — E fica uma gracinha quando está com raiva.

— Retiro o que disse sobre você não ser idiota. —rebateu o príncipe parecendo tímido logo retirando a espada do queixo do menino. —Você é.

Os dias foram passando e ambos ficaram mais próximos. Durante as aulas que faziam juntos raramente olhavam um para o outro, somente na sala de armas o diálogo tornava-se fluido e natural.

Ash contou que Clarence o treinou desde criança, com a mesma rigidez reservada ao exército. Quando ele era chamado para uma campanha ficava preocupado que os professores particulares não fossem o bastante para mantê-lo focado nos estudos, então não pensava duas vezes antes de manda-lo para um colégio interno.

A maioria dos alunos de Granville jamais usariam seus dons com algo que valesse a pena, mas ainda era chamada de escola preparatória de qualquer maneira. Na teoria, aquele lugar poderia ser frequentado por qualquer um, não era exclusivo para elementais, contudo as tachas astronômicas barravam a ralé e até mesmo comerciantes endinheirados. Evidentemente, na prática aquele lugar não era para os populacho. Clarence era alguém que tinha posses, poderia muito bem confinar o filho aqui quando bem entendesse.

Joseph contou dos livros que amava, dos planos que tinha para o futuro, até a cor favorita! Mas nunca comentou sobre o rei ou sobre Stephan. Revelou que a mulher que o ajudava se chamava Sofia, ela trabalhava na cozinha da escola lavando pratos, era uma senhora respeitável que criava os filhos sozinha desde que o marido morrera. Insistiu diversas vezes para que Ash parasse de chama-lo de "Alteza", obtendo apenas apelidos ridículos em troca, como "Majestade", pronunciado de forma debochada.

Eles começaram a ficar ansiosos pela companhia um do outro, mas então Ash não precisava mais voltar a sala de armas porque o castigo havia acabado. E não poderiam se encontrar no jantar porque Joseph não frequentava o refeitório durante a noite. Só restava deixar a amizade florescer a luz do dia.

O problema era que nenhum dos dois era conhecido por apreciar a companhia de outras pessoas. Sempre sentaram sozinhos no refeitório sem dar indicações que tinham conhecimento da existência um do outro. Quando Ash sentou com Joseph naquela manhã a atenção de todos pareceu ir na direção deles, sobretudo porque o príncipe não repeliu o intruso imediatamente.

— Você não deveria fazer boas conexões com os outros nobres? Digo, com os filhos deles para manter um bom relacionamento desde já?

A comida se Joseph permanecia intocada, sua atenção estava voltada para o livro aberto ao lado do prato, a leitura parecia exigir tanta atenção que era quase impossível que estivesse escutando alguém falando com ele.

— Sei diferenciar boas relações de bajulação desdenhosa. — respondeu sem erguer os olhos da leitura, com um gesto elegante ele virou a folha. — Não preciso disso.

— O que está lendo? — perguntou Ash, pegando o livro sem permissão, virando da forma correta para que pudesse ler. As páginas amareladas estavam gastas nas pontas, havia pequenas nas anotações nas beiradas, a letra era curvada e delicada. O livro era de botânica. — Mandrágora, Mil e Uma Utilidades. — ele lançou um sorriso galante para o príncipe. A marca na bochecha fazia dele uma figura um pouco teatral. — Que título mais genérico.

— Tem muitos desenhos. — o príncipe fez um floreio com os dedos. — Você vai adorar.

O refeitório inteiro estava prestando atenção, atentos a todas as palavras que eles pronunciavam. Na mesa principal, Stephan estava igualmente interessado, afinal, seu irmão mais velho não tinha amigos. Então de repente ele estava sentando com escória, portando-se daquela forma inadequada na frente de todo mundo. Joseph raramente gostava de companhia, se não gostasse da pessoa ele simplesmente a ignoraria até ela desistir e ir embora, porém se gostasse, falava de forma ácida e irônica. Ele estava sendo ácido e irônico com aquele conjurador.

— Gosto de desenhos — Ash fechou o livro e colocou sobre a mesa — mas hoje é domingo e tenho planos melhores.

— O que vai fazer? — Joseph perguntou um pouco rápido demais.

— Vou passear na floresta, com vossa Alteza.

— O que faz você pensar que eu vou? — Joseph levantou a sobrancelha.

— Sou uma companhia agradável. Me encontre nos estábulos depois que terminar seu dejejum, e tente não se distrair com a leitura novamente.

Depois disso Ash foi embora sob dezenas de olhares curiosos.

O estábulo ficava mais ao fundo no terreno da escola, de frente para a arena livre onde os elementais treinavam pela manhã. O lugar estava parcialmente vazio. Muitos alunos aproveitavam o dia de folga para se divertir na cidade, voltar para casa ou simplesmente passear na floresta, os cavalos eram ótimos meios de transporte para esse tipo de aventura curta.

De longe ele viu Ash preparando os cavalos na entrada, seu cabelo ruivo era inconfundível na luz do sol, mas não seguiu diretamente na direção dele, desviou para parte de trás, onde havia outra entrada. Antigamente a arena livre, ocupava também o espaço dos estábulos e a parte onde agora várias árvores serviam de cobertura para alunos em encontros clandestinos. Era estranho que alguém fosse se esgueirar por ali sem um bom motivo, Joseph não tinha realmente um bom motivo, nem mesmo um ruim que explicasse seu repentino desvio para aquele lugar.

Exceto um, que não fazia nenhum sentido. Da outra entrada ele poderia ver claramente seu parceiro de castigo sem que fosse notado.

Na frente dos outros, Ash colocava uma máscara de arrogância e seguia em frente como se não ligasse para nada. Ele deveria retira-la quando estava sozinho, não é mesmo? Joseph percebeu que aquele era um bom motivo afinal. Ash estava terminando de preparar os cavalos, eram dois garanhões negros, robustos. Ele usava camisa branca leve, calças e botas de montaria. Ele acariciava o pescoço do garanhão, seu rosto era sereno enquanto balbuciava qualquer coisa para o animal. Normalmente quando ele sorria, fazia Joseph pensar em bandoleiros na estrada, mas agora, se parecia com aqueles rapazes que tem suas bochechas apertadas por suas avós, rapazes extremamente bondosos e fofos.

Joseph enrijeceu, depois um instante de hesitação, ele refez o caminhão, retomando a rota que deveria ter tomado desde o início.

— Por um instante pensei que vossa Alteza iria me deixar aqui, plantado no sol quente o dia todo.

— Não seja dramático, eu ia vir durante a noite para verificar se nasceu algum fruto.

— Vamos Alteza, nosso tempo está muito curto.

Eles montaram os cavalos, atravessaram a arena livre e entraram na floresta. Cavalgaram por trilhas estreitas onde a neblina da manhã ainda dificultava a visão, passaram por duas clareiras e viram alguns coelhos pulando para dentro de arbustos antes de chegarem a uma cachoeira.

Eles pararam na margem mais próxima da queda d'água, onde um arco-íris se formava com a luz do sol. Respingos caiam sobre eles, molhando suas roupas rapidamente.

— Sua habilidade com a montaria não é ruim — Ash gritou, o som da cachoeira era alto demais onde estavam.

Joseph bloqueou o comentário, estava impressionado demais com a vista para prestar atenção. Estava hipnotizado. Todos os elementais, sem exceção, adoravam estar perto coisas que representavam sua essência, estar perto especialmente quando se mostravam em toda sua glória como; vulcões cuspindo lava, ondas gigantes no oceano, tempestades, grandes desabamentos de terra...

Enquanto durava, a sensação era de ser parte daquilo, da beleza cruel e poderosa da natureza, como se fossem um só. Era uma coisa estranha e difícil de entender, então era melhor simplesmente sentir.

Ash observou por vários minutos os olhos inocentes do príncipe brilhando, as gotas de água no cabelos loiros semelhante a cristais, os lábios que formaram um sorriso cálido...

A expressão do conjurador ficou sombria.

— Você não deveria ser tão bonito.

— O que disse? — Joseph voltou-se para ele, piscando diversas vezes, vendo Ash apontar para o ouvido e em seguida para a margem mais distante da cachoeira, ele entendeu o recado, havia barulho demais ali para conseguirem manter algum diálogo.

Ash contou que descobriu aquele lugar no mesmo mês que foi mandado para Granville, porém, não tinha retornado desde então.

Para se protegeram do sol os dois se abrigaram na sobra de uma árvore, Joseph deitou de sobre a grama e Ash sentou ao seu lado, encostado no troncos áspero da árvore. Os cavalos tomavam água na margem do pequeno lago, seus rabos balançavam de satisfação. Havia pássaros cantado por toda parte, e quando o vento batia nos galhos acima, folhas secas de outono rodopiavam no ar. O lugar era harmonioso e tranquilo, perfeito para dois amantes em um encontro romântico.

— Aquelas pessoas no refeitório seriam capazes de qualquer coisa para ter alguma proximidade com o futuro rei. Um dia, podem vir a ser aliados fortes. Deveria tentar uma aproximação, mesmo que não goste.

Uma sombra pairou sobre o rosto do príncipe.

— Sim, eles são capazes de tudo.

Ele foi uma criança tímida, porém, bastante inteligente para sua idade. Quando via toda aquela bajulação a sua volta sentia no fundo da alma que aquilo não era normal, que era mentira. Tratavam-no como um pequeno deus, lhe davam presentes quase que diariamente, que ficaram empilhados em algum cômodo do palácio acumulando poeira, sem uso. Recebia olhares admirados, sem ter feito nada para merecer tal coisa. E as mães empurravam os filhos para brincar com ele porque o príncipe herdeiro deveria ter muitos amigos.

Ele só tinha três anos.

Diziam que ia ser igual ao pai; o homem mais poderoso do reino, que foi favorecido com um dom espetacular e vencido batalhas memoráveis antes dos quinze. Elementais comuns dominavam apenas sua base, e isso já era o suficiente para pessoas sem dons não olharem nos olhos deles. Os que dominavam dois elementos, eram ainda mais privilégios na corte, podendo fazer qualquer coisa desprezível sem jamais ser julgado. Com três, arrasar campos de batalha antes dos quinze era tão fácil quanto levar uma xícara chá aos lábios.

As expectativas para Joseph eram grandes.

Então, quando completou cinco anos ele foi testado através de uma pedra mágica chamada Espelho da Alma, que indicava o elemento base e a força do dom de uma pessoa. Bastava toca-la. Se ela emitisse uma luz esbranquiçada, ar era o elemento base, vermelho o fogo, azul a água e amarelo a terra*. Quanto mais forte fosse o brilho, melhores eram as chances do elemental conseguir ter controle sobre mais de um elemento.

O rei fez uma cerimônia e convidou todos os nobres do reino para testemunharem aquele momento. E o que eles viram deve causar arrepios no rei até hoje, porque ele preparou um público para ver sua humilhação. A pedra nas mãos pequenas e gordinhas do príncipe emitiu uma luz azulada tão fraca quanto de uma vela prestes a ser apagada.

Esta era a realidade. A bajulação continuou por mais algum tempo, Joseph ainda era o príncipe herdeiro, porém, havia os cochichos, risos disfarçados, e crianças fazendo brincadeiras maldosas com ele quando ninguém estava por perto.

Enquanto fazia o relato, Joseph não demonstrou tristeza, apenas a satisfação de estar certo; tudo era falso.

— A última vez que meu pai sorriu para mim foi naquela noite, antes de colocar aquela pedra na minha mão. Agora você sabe porque evito falar dele. — disse Joseph com amargura — Aquelas pessoas podem sorrir tentando ser simpáticas, mas eu vejo através disso, são corruptas, gananciosas e cruéis. — ele encarou Ash duramente — Eu não preciso disso.

A expressão feroz do príncipe  desafiava-o a convence-lo do contrário. Ele era um estranho entre os seus, um forasteiro condenado a andar por caminhos tortuosos, que construía seu caráter inflexível. Joseph preferia quebrar do que se curvar. No caminho mais difícil e escuro sua dignidade permaneceria imaculada e pura como a neve.

Ash poderia dizer o quanto aquelas pessoas eram sujas. O príncipe não deveria ser o mais mesquinho de todos? Ele achava que sim. Bastou conhecê-lo pessoalmente para que a primeira impressão desse um tapa em seu rosto, deixando-o desnorteado e confuso. Então uma vontade estranha e irresistível floresceu em seu íntimo nos encontros posteriores, a vontade de querer desvendar quais partes daquela pessoa eram verdadeiras.

Ash secretamente esperou que o nobre justo e bondoso fosse uma atuação muito boa do príncipe, e que em algum momento sua verdadeira face se revelaria. Tentou ultrapassar a ilusão apenas para descobrir que havia chegado onde queria a tempos!

O príncipe era uma verdadeira pérola jogada aos porcos.

O conjurador acariciou o rosto do príncipe. Seus dedos ásperos não eram dignos de toca-lo, mas o rubor nas bochechas era sedutor. E aqueles olhos azuis inocentes que o encaravam fixamente, brilhavam com curiosidade praticamente dando permissão para que seguisse em frente. Ash arrastou o toque pela bochecha direita, descendo para os lábios macios e delicados. O príncipe deveria que ter impedido a carícia inapropriada, entreabriu um pouco os lábios durante um leve suspiro, o suficiente para que o polegar de Ash ficasse úmido.

—Sinto muito alteza. — disse o conjurador com uma voz baixa e rouca.

***

Os três meses seguintes seriam marcados por acontecimentos que pouco a pouco revelariam um vislumbre do futuro.

Joseph completou dezesseis anos, já não ficava em último lugar na tabela de resultados da escola e frequentemente era visto sendo seguido por outro rapaz. Ash por sua vez conseguiu ficar de castigo mais algumas vezes por “insubordinação”, recebeu uma carta de Clarence que avisava que a campanha estava no fim e que logo voltaria para casa.

Tudo estava indo bem para os dois.

Durante uma das noites no castigo Joseph finalmente mostrou a passagem secreta da sala de armas para Ash, que aproveitou a oportunidade para sugerir que ambos escapassem do castigo para tomar um ar fresco lá fora, na floresta.

Enquanto vagavam pela clareira mais próxima o príncipe pediu para Ash ensinar-lhe algumas técnicas de combate e o conjurador concordou imediatamente. O filho do comandante era paciente e cuidadoso, nunca se aborrecia quando Joseph cometia algum erro ou quando ele quase cortou sua mão fora por acidente com uma espada. Mas quando o assunto era a dominação da base elemental dele, seu humor ficava ligeiramente frio.

—Alteza, você só precisa criar lâminas de gelo e lança-las na minha direção — o canto dos lábios dele tremiam enquanto tentava convence-lo pela milésima vez. Os professores não permitiam que ele participasse dos treinos na arena livre, usavam a desculpa de que mesmo um conjurador com treinamento não seria páreo para um elemental, diziam que não seria justo com ele. Ash queria que eles enfiassem essa desculpa em um lugar inominável, estavam com medo de que ele acidentalmente quebrasse o pescoço de algum nobrezinho fresco isso sim, e usavam esse tipo de artifício para parecerem superiores.

Joseph ergueu os braços para frente com as palmas das mãos abertas, seus olhos brilharam. Dezenas de lâminas do tamanho e espessura de uma agulha de tricô surgiram no ar. Ash estava a vinte metros de distância, portava apenas duas adagas para se defender.

Ele seria capaz de desviar? A dúvida perturbava a mente do príncipe deixando-o nervoso.

Ele lançou uma rajada de lâminas afiadas mas quando estavam perigosamente perto do corpo de Ash, o desastre aconteceu novamente. Todas as lâminas viraram neve.

— Não consegue nem mesmo fazer algo tão simples? —O conjurador explodiu finalmente.

Mas para Joseph não era tão simples. Suas lâminas de gelo dissolviam, voavam em direções aleatórias, faziam um “pop” e se transformavam em neve, como tinha acontecido agora.

—Desculpe, eu não consigo mais fazer isso. —disse ele, frustrado. —Faz dez anos que tento controlar meu dom e isso é tudo o que consigo fazer. É uma vergonha, sei disso.

Sob a luz da lua ele parecia desamparado, sua feição melancólica era capaz de amolecer até o coração mais duro. Ash que antes estava irritado, tentava arrumar a situação que ele mesmo causou.

— Ei, isso não é verdade. — disse largando as armas no chão. Ele foi até o príncipe, a distância reduzida á centímetros tornava a respiração dele mais difícil. O príncipe era tão pequeno, tão frágil se comparado a ele, que qualquer ação exagerada parecia capaz de quebra-lo. Ele lembrou da forma como o puxou na sala de armas, ainda que fosse para protege-lo sua força acabou por machuca-lo. Dessa vez, foi cuidadoso ao envolve-lo em seus braços.

A neve estava espalhada por todo o lado com o vento, e o corpo de Joseph estava frio, a respiração dele escapava em uma névoa branca. Seus dedos pálidos agarraram a camisa branca de Ash antes de encostar a testa sobre o peito dele.

— Já escutou o ditado “Quem ouve conversas atrás da porta nunca escuta nada de bom sobre si mesmo”? —inquiriu Joseph, sua voz era sussurro vago. —Antes de vir para cá, ouvi meu pai dizer que infelizmente seu primogênito não poderá ascender ao trono. Sabe o que isso quer dizer?

—Que vai renunciar? —Ash arriscou.

—Que em algum momento no futuro vou contrair uma doença mortal. Talvez quem sabe durante um passeio na floresta cairei do cavalo e quebrarei o pescoço. — respondeu  — Mas não vou renunciar. — ele não sentia mal por isso, sua voz não demostrava nenhuma emoção, mas o outro ficou rígido e pálido como um cadáver. — Então Stephan assumirá o trono, ele é forte e adequado para a tarefa.

Ash o abraçou mais forte.

—E quem disse que você é fraco? Cair tantas vezes e levantar somente para cair outra vez não demostra apenas teimosia, mostra coragem também. — Ash encontrou sua voz. O coração batia eloquente no peito ao sentir os cabelos loiros sedosos entre os dedos, a cintura em seu braço. Inferno, isso não deveria estar acontecendo! — Escute, você não é fraco, então por que está hesitando?

— Não estou.

— É claro que está. Olhe ao redor. — A neve cobria totalmente o capim seco, em algumas partes havia tanta que as botas deles poderiam afundar alguns centímetros dentro. — Você tem medo de machucar os outros, posso ver nos seus olhos que acha isso repugnante e insuportável. Mas você precisa fazer isso, mesmo que não goste. Vou votar lá para trás, e você vai me atacar com tudo o que tiver, entendeu?

Joseph o empurrou de leve. Estava chocado que alguém tivesse olhado para ele e enxergado sua alma e não tivesse se contorcido com a visão depois.

— Enlouqueceu? E se...

— Não vai me machucar. — afirmou ele confiança — Treinei desde criança, sou mais forte e mais veloz que a maioria das pessoas que treinam uma vida inteira. E caso aconteça alguma desgraça comigo você pode usar sua poção milagrosa da cura instantânea.

Joseph relaxou um pouco. Ele viu Ash vencer os garotos mais fortes da escola, até mesmo o professor Kasper, e sem dúvidas suas habilidades se comparavam a Stephan.

— Tudo bem. — Dessa vez não usou o truque das lâminas de gelo, a neve no chão derreteu de forma acelerada e antinatural com a vontade dele. Joseph usou a água para formar três tentáculos do tamanho de uma árvore que balançavam no ar como se tivessem vida própria. Ash sorria para ele de longe, parecia presunçoso e satisfeito, suas marcas apenas borrões no corpo, como sujeira manchando a pele. Seja lá qual fosse o resultado, aquele sorriso fez toda a insegurança dentro dele ruir completamente, então também sorriu de volta. — Se acabar mortalmente ferido depois não reclame.

A aula na arena livre havia acabado. Os alunos estavam lado a lado formando uma linha, garotas e garotos com seus coletes coloridos e suas expressões solenes esperando que os professores fizessem sua escolha para a demonstração. Seria uma dupla para combater? Um aluno para demostrar suas habilidades como se estivesse em um concursos de talentos?

Aquela era a única aula ministrada por quatro professores. Três homens e uma mulher. Um para cada elemento. Eles chegavam a um acordo no final da aula para decidir como e com quem seria a demonstração. A professora os encarava com seus olhos de águia, parecia que queria esmagar todos a sua frente com seus punhos pequenos. Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo, as roupas não tinham vincos e seu colete vermelho brilhava sob o sol quente, ela tinha uma aura severa.

Ela cravou aqueles olhos em Joseph.

O príncipe tinha o semblante cansado, sua pele estava pálida e havia sombras sob os olhos. As aventuras na floresta durante a noite cobravam seu preço. Fazia algum tempo que não era chamado para fazer alguma demonstração, mas ele ainda se lembrava do significado daquele olhar.

— Alteza, sua vez.

Os alunos cochicharam, não pareciam nenhum pouco solenes agora. Estavam ansiosos para mais um show de comédia que o príncipe iria patrocinar. Joseph estava acostumado a ser a piada interna dos nobres e não dava atenção a isso mais do que daria atenção para uma formiga sem a cabeça, apenas se concentrou em fazer algo que valesse a pena.

Contanto que houvesse água por perto ou umidade do ar ele teria alguma coisa para controlar, a arena livre não oferecia isso, era árida como um deserto e sob o sol escaldante era impossível que existisse alguma umidade. Escolher um elemental da água para fazer uma demonstração nessas condições era uma aposta muito ruim. Joseph inteligentemente pretendia usar o suor em seu copo para fabricar uma lâmina de gelo, seus olhos acenderam, porém, mas nada aconteceu.

— Tome o tempo que precisar Alteza.— disse a professora duramente.

O poder de um elemental era grande mas não era ilimitado, seu poder poderia ser mantido somente por algum tempo. Joseph calculou quanta energia ainda tinha, mesmo que a aula exigisse grande parte dela, era impossível que estivesse zerada. Tentou novamente, com afinco redobrado.

Em vez de uma lâmina de gelo se formar em sua mão, algo começou a se formar ao redor dele, algo que não tinha nada haver com seu elemento base.

Os cochichos cessaram, ninguém sentia vontade de rir agora. Poeira dava forma a um redemoinho ao redor do príncipe, ele estava controlando o ar.

Pela manhã Ash avisou que Clarence havia retornado, por isso ele iria para casa e só voltaria para a escola no dia seguinte. Sem ele, o restante do dia de Joseph foi um tormento com diversos olhares que transmitiam ressentimento e inveja. Poucos deles dominavam mais de um elemento, e Joseph, a piada interna de Granville agora controlava duas.

Se ele fosse como qualquer outro nobre, ninguém daria atenção, mas ele era o príncipe herdeiro que de repente deixou de ser visto como fraco para ser visto como alguém perigoso. Stephan era o favorito do rei, o alvo das bajulações por ser obviamente o mais forte dos príncipes, e quem todos esperavam que fosse corado no futuro. Joseph foi descartado de seus cálculos cedo demais, e agora a balança do poder na família real estava ligeiramente equilibrada. Stephan poderia ser o favorito, mais Joseph era o primogênito.

Sem nenhum castigo para cumprir, e sem Ash para fazer companhia, Joseph voltou cedo para o próprio quarto. Ele planejava dormir por longas horas. Estava terminando de se vestir quando alguém bateu em sua porta.

Se dependesse do humor dele a pessoa morreria do lado de fora.

— Alteza, sou eu, Ash.

O coração de Joseph deu um salto, se antes parecia cansado, agora estava sorrindo e cheio de energia.

Quando Joseph surgiu na entrada o conjurador se arrependeu amargamente de ter aparecido. O príncipe estava cheirando a sais de banho, os cabelos estavam molhados e as bochechas tinham um rubor muito fofo. Ele não tinha vestido a camisa completamente antes de abrir a porta, por isso parecia ainda mais sensual.

— Joseph.

— Finalmente aprendeu a me chamar pelo meu nome? — ele provocou com voz sedosa. — Quer entrar?

Aceitar o convite era procurar pela morte.

— Claro.

O quarto do príncipe era grande, havia livros empilhados por todos os cantos como se a biblioteca estivesse explodido ali dentro. O fogo na lareira do lado esquerdo se encarregava de iluminar o quarto. A cama na outra extremidade possuía um dossel e os lençóis estavam rigorosamente arrumados.

— Senti sua falta, sabia? — disse o príncipe, encarando Ash de forma dócil, antes de abraça-lo — Se passou pelo refeitório já deve ter uma noção de como foi meu dia.

Aquele não era um bom momento para Joseph começar a ter um comportamento atípico. Ash não sabia o que dizer, ou o que fazer com o aquele corpo quente sendo pressionado contra o seu. Aquele tipo de recepção parecia com o de uma senhora recebendo seu marido de volta em casa, só falta risos e eles rodopiando pelo quarto para deixar a cena ainda mais parecida. Da primeira vez que estiveram em um contato tão próximo, o conjurador o tinha puxado para si com força brusca. Da segunda, seu toque foi cuidadoso, com a intenção de conforta-lo. Dessa vez foi mais íntimo e possessivo.

Eles se encararam com a mesma faísca de interesses nos olhos. Ash se inclinou para beijar Joseph, que não pareceu espantado com o gesto mas ansioso para finaliza-lo. O beijo era quente e apressado, havia fome e prazer. O príncipe puxava os cabelos ruivos com um aperto não muito gentil. Ash ofegou e ergueu o príncipe nos braços, igualando suas alturas para aprofundar o beijo.

— Um dia vou pagar caro por tocar em você dessa maneira. Eu não deveria...

Joseph acariciou o rosto dele, dedilhando a marca com carinho. Um relacionamento entre um elemental e conjurador era na visão de ambos os lados, uma ofensa. Acrescente o fato de ambos serem rapazes e "pagar caro" tornava-se uma expressão muito pobre.

— Se não quer fazer isso então me solte — sussurrou Joseph no ouvido dele.

— Eu não deveria toca-lo, mas nunca disse que tinha bom senso. — ele riu, antes de levar o príncipe para a cama.

Se ele tivesse mesmo que apenas um pouco, ele teria ficado longe de Joseph desde o início.

Aquela foi a primeira noite que ele dormiu sem acordar durante a madrugada. Nem mesmo uma poção mágica seria capaz de causar aquela sensação agradável de leveza quando acordou. Mas ao tatear a cama, descobriu que Ash já tinha ido embora a bastante tempo, deixando uma folha de papel para trás. Ele deixou um bilhete antes de sair.

" Preciso resolver algumas coisas com meu pai na cidade, volto somente a noite.

P.S: Você fica ainda mais adorável quando dorme."

Ash foi o único amigo de verdade que teve na vida e ele não sabe quando a amizade tornou-se algo mais. Estava feliz por gostar de alguém dessa forma especial, feliz por ser Ash, um rapaz, uma pessoa sem títulos, um conjurador. Finalmente ele sentia que era importante para alguém.

Nada conseguiu estragar seu bom humor durante o dia, nem os professores nem suas aulas de exercícios maçantes. Ao que parecia, a notícia de que ele havia despertado uma segunda habilidade ainda corria como fogo em palha por todo lugar, os comentários sobre o assunto também não tiveram nenhum efeito sobre ele. Quando a última aula acabou, Joseph comemorou internamente e foi para seu quarto.

Ash estava esperando por ele no corredor, encostado na porta parecendo misterioso, não, mais como um gato que comeu o canário. Usava roupas pretas. As mangas da camisa estavam dobradas até os cotovelos deixando uma das marcas expostas, e o colete por cima da roupa apenas ressaltava seu porte atlético. O cabelo ruivo estava mais curto deixando os olhos mais visíveis. A marca no rosto se destacava ainda mais sobre a pele pálida. Incrivelmente sexy. Joseph queria beija-lo ali mesmo no corredor.

— Como foi com seu pai? — inquiriu.

— Conto mais tarde, vamos dar volta agora.

Eles voltaram para a clareira. A lua cheia deixava iluminava o lugar, os grilos e os sapos faziam uma orquestra e vagalumes voavam por toda parte.

— Isso é tão romântico. — ele encarou Ash pelo canto do olho, desconfiado. Alguma coisa dizia que algo estava errado, ele nunca foi tão silencioso como estava sendo agora. E também não fez qualquer tentativa para toca-lo. Talvez estivesse envergonhado depois da noite anterior. Joseph queria tranquiliza-lo — Sobre o que aconteceu ontem, sabe, eu não me importo. Quero dizer, seu sentimento é recíproco. Não há nada de assustador em gostar de outra pessoa, nem mesmo em nossa circunstância.

Ash tinha uma expressão difícil de ler. Joseph só pode concluir que ele poderia estar envergonhado de fato. Ele ficou na ponta dos pés, pronto para beija-lo quando os dedos dele tocaram seus lábios e o afastaram.

— Tenho uma coisa para contar Alteza. Mas fique aqui. — disse Ash. Ele se afastou, parando a uma distância de vinte metros. Parecia estar se preparando para alguma coisa importante — Sabe porque nunca mostrei o que minhas marcas fazem?

— Regras do culto. — replicou Joseph imediatamente, cruzando os braços, contrariado por ter sido rejeitado de repente.

— Exatamente. De acordo com as regras do culto, conjuradores devem usar suas marcas apenas para um propósito. — ele pôs a mão na bochecha, como se tivesse sentido dor de dente. A marca na pele dele brilhou. —, matar pessoas. — Quando ele retirou a mão, algo veio junto. A coisa brilhava como os olhos de Joseph, por isso ele imediatamente percebeu o que era, garras cumpridas e afiadas, como pequenos punhais. — Está errado alteza, você não irá padecer de uma doença mortal, nem cair do cavalo e quebrar o pescoço. Você vai simplesmente fugir, abandonar suas obrigações com a coroa, e nunca mais vai voltar.

Não foi o que Ash disse que fez Joseph ficar paralisado, mas a expressão no rosto dele; era fria, maldosa e errada. Isso confirmou o que ele deixou implícito anteriormente, que estava aqui para mata-lo.

— Não foi meu pai que me mandou para cá, foi o seu.

Joseph afastou um passo. Ele tinha a sensação que o chão não estava mais lá para apara-lo.

— Está me traindo? — sua voz soou frágil e infeliz, mas não foi uma pergunta, foi uma afirmação. A dor no peito dele era tão grande que era capaz de fazê-lo tirar a própria vida apenas para ter alívio. O rei queria mata-lo da forma mais cruel possível, pelas mãos de alguém que amava. Ele era inteligente demais para perder tempo com descrença — Teria sido mais digno morrer apunhalado pelas costas ou com uma taça de bebida envenenada. Não havia necessidade de ir tão longe! Para que brincar com alguém dessa forma, isso diverte vocês? É doentio — gritou ele.

Joseph estava chorando agora.

Ash permaneceu indiferente aquele tapa moral.

— Sei que é. Por isso vou dar uma chance para lutar por sua vida, então agarre-se a este fio de esperança e lute.

Joseph lançou uma rajada de gelo na direção de Ash, mais forte do que qualquer outra que conseguiu criar até então. Mas Ash era rápido e conseguiu escapar com facilidade. Então foi a vez das lâminas, centenas delas foram lançadas em uma velocidade tão grande que os olhos não poderiam acompanhar. O conjurador invocou um escudo brilhante e saiu sem nenhum arranhão.

— É tudo o que pode fazer Alteza?— perguntou ele, sorrindo atrás do escudo. — Não estou surpreso por fazerem piadas de você.

A voz dele soou pegajosa.

Joseph tentou de tudo, suas lâminas, os tentáculos de água, rajadas de vento poderosas. Ash bloqueava as lâminas, cortava os tentáculos com suas garras, vencendo a distância entre eles rapidamente. O poder de um elemental não era ilimitado, as forças do príncipe ficavam cada vez mais baixas, reduzindo a força e tornando seus ataques mais lentos. Enquanto Ash apenas se divertia as suas custas.

Não demorou para o príncipe atingir seu limite. Sem capacidade de lançar ataques e sem meios para se defender tudo o que ele poderia fazer era esperar pela morte. Não havia sentido em iniciar uma luta física, Ash era mil vezes mais forte. Então não recuou quando ele pressionou as garras em seu plexo solar.

O gritou ecoou e depois a clareira caiu em um silêncio mortal.

As garras do conjurador atravessaram o corpo do príncipe, as pontas visíveis nas costas dele estavam manchadas de sangue e fizeram um som molhado quando foram retiradas da carne. Joseph caiu como uma boneca de pano, sangue fluindo das feridas abertas. Os olhos não brilhavam mais, ainda que estivessem molhados com lágrimas.

— Por que? — perguntou.

Ash tocou no próprio rosto, guardando suas garras na pele. Além da marca, agora havia manchas de sangue na bochecha também. Ele se ajoelhou ao lado do príncipe e ergueu a mão para afagar seus cabelos loiros, mas foi repelido como se fosse um inseto rastejante asqueroso e nojento.

— Porque você é ingênuo. Nunca conheci alguém louco o bastante para fazer amizade com uma bruxa, mas você as defende. Me permitiu tocar seu corpo sem reservas e foi maravilhoso. Você é encantador Joseph, puro e verdadeiramente nobre, por isso não resisti em fazer o que fiz. Apreciei sua astúcia, a força de vontade, sua beleza e sua bondade. Essa é a única verdade entre todas as mentiras que contei nos últimos meses. — disse Ash lembrando da noite anterior. — Mas o maior motivo, é que seu pai teme que com essa sua natureza gentil, Graymore caia em desgraça. E você não tem apoiadores, nem força para lutar por sua posição na corte. — ele completou sarcasticamente — Por isso, agora, você vai fugir, desaparecer e nunca mais vai voltar. E Stephan vai ser obrigado a usar a coroa em seu lugar.

Ash colocou um joelho de cada lado do quadril de Joseph, e acariciou o rosto dele somente para ser novamente repelido com um tapa.

O príncipe queria se afastar. O toque que um dia o confortou o deixava enojado agora. Queria que Ash desaparecesse, que apenas o deixasse morrer ali e não mais tocasse seu corpo com aqueles dedos imundos. As mãos dele fecharam em volta de seu pescoço em vez disso, apertando, negando o ar aos seus pulmões em seu último instante de vida amarga.

— De verdade Alteza, eu sinto muito.

Em um último esforço ele tentou lutar, esmurrando e arranhando seu agressor, mas os golpes eram fracos e não causavam dano. Joseph viu Ash sorrindo, provocando-o com brincadeiras, sendo sarcástico, sentando com ele no refeitório tomando seus livros emprestados, polindo espadas e reclamando sempre, tocando seu rosto com carinho, tomando-o diversas vezes em seus braços, e por último, Ash cuidando dos cavalos sob o sol quente. E tudo era mentira.

As feridas no corpo, os pulmões queimando doíam menos.

Então seus movimentos cessaram. Duas lágrimas solitárias escorreram dos cantos de seus olhos. Tudo estava escuro, mas os últimos resquícios da consciência teimavam em permanecer um pouco mais. Joseph queria que todos pagassem por isso, que sofressem dez vezes mais por quebrar seu espírito e seu coração.

Ash finalmente afrouxou o aperto, seus dedos deixaram impressas marcas rochas do pescoço alvo. Os olhos de Joseph estavam abertos, dilatados, sem vida. A morte violenta não deixou seu rosto contorcido, deixou marcado com a mais profunda melancolia. Se existia justiça no mundo Ash seria castigado sem misericórdia. Ele percebeu assombrado que um braço inerte continuava apoiado no seu e observou o membro deslizar para o chão lentamente.

Antes que os dedos de Joseph tocassem o chão, Ash sabia que iria pagar caro por aquilo. E estava certo. Uma estalagmite brotou do chão acima da cabeça do príncipe, a ponta afiada perfurou seu coração.

Nos olhos do príncipe, havia uma luz azulada tão fraca quanto de uma vela prestes a ser apagada.

***

Quando abriu os olhos, ele percebeu que estava em seu quarto no palácio. O sol entrava pela janela, a brisa suave fazia as cortinas balançarem. Sentia cheiro de remédio e um gosto amargo na boca. A garanta doía, seu o plexo solar doía, seu coração doía, tudo doía.

— Finalmente acordou, estava começando a ficar preocupado.

Stephan surgiu em seu campo de visão. Parecia cansado, usava as mesmas roupas que vestia na escola. Mas por que ele o encara com tanta pena?

Joseph afastou as cobertas, ele tinha bandagens em volta da cintura. Ele foi perfurando por garras brilhantes e depois sufocado quase até a morte. Ver pena no olhos dos outros era quase normal.

Joseph se forçou a sentar na cama.

Stephan deu um pouco de água para ele, depois foi até a porta para chamar uma criada.

— Avise meu pai de que Joseph acordou.

A ordem soou um alarme na mente do príncipe. O rei que mandou mata-lo, seu próprio pai. Ele e Ash não conseguiram tirar sua vida, mas acabaram com ele.

— Quanto tempo fiquei apagado?

— Quatro dias.

— Onde está Ash? —sua voz soou autoritária, exigente.

— Quando te encontraram, ele estava do seu lado, havia um buraco no peito dele. Ash está morto.

— Quem o matou?

— Foi você. Não se lembra? — disse Stephan.

Não, Joseph não lembrava disso. A última lembrança que tinha era de Ash o sufocando. As mãos dele em sua pele... O príncipe sentiu-se sujo e usado mas não sentia arrependimento pelo que supostamente fez com ele.

— Quem me tirou de lá?

— Uma bruxa? Você acredita?

Sofia estava na floresta aquela noite colhendo ervas medicinais. Estava próxima da clareia quando escutou barulhos vindo de lá, curiosa, resolveu ir ver o que estava acontecendo. Chegou bem a tempo de ver Ash sendo empalado com uma estaca de pedra. Ela fez o possível para impedir que Joseph morresse, porque pelo outro ela não poderia fazer mais nada. Quando Stephan terminou de contar o relato, um guarda entrou pela porta.

— Alteza, o rei me mandou para ver se precisa de alguma coisa. — o soldado anunciou curvando-se respeitosamente.

— Onde está a mulher que me salvou?

— Até que tudo seja esclarecido, ela permanecera detida.

— Ele deve ser libertada, e recompensada devidamente. — exigiu o príncipe. Havia frieza em seu olhar. Ele sentia gratidão por ela, contudo, já não sentia vontade de ser bom por qualquer motivo. — Você se lembra de Clarence?

— Este homem foi enforcados três dias atrás por traição Alteza — o soldado respondeu desconfortável. O olhar do príncipe sobre ele era assustador, vingativo. Estavam dizendo que ele era igual o pai, que dominavam três elementos e que às portas da morte, ele refez o caminho — E seus bens foram confiscados.

— Eu tinha coisas a perguntar aquele homem antes de dar fim a sua existência com minhas próprias mãos.

Se Ash importava-se com alguma coisa verdadeiramente era com o pai. Se ele estivesse queimando no inferno, Joseph queria que ele se contorcesse um pouco mais com a visão de seu pai morrendo lentamente. Mas Clarence provavelmente sabia que o filho estava trabalhando para o rei, consequentemente, era cúmplice e testemunha que o regente tentou matar seu próprio filho. Obviamente, era alguém para ser silenciado. Enforcado por traição, que piada.

— Todos os bens dele devem ser queimados. — ordenou. — Façam uma pilha grande e deixem queimar.

— Mais Alteza...

— Irmão. — chamou Stephan, tão inquieto quanto o guarda. Seu irmão mais velho estava diferente desde que acordou. Sua feição era melancólica, mas olhos estavam frios, como se não houvesse nada de bom ali dentro para aquece-lo.

— O rei mandou o guarda para perguntar o que preciso. Eu quero uma pira acesa antes do fim do dia. — disse ele para o irmão. Quem era Stephan para repreende-lo? Apenas o irmão mais novo, ele deveria ficar quieto enquanto os mais velhos falavam — Agora me deixem sozinho.

Os dois visitantes foram embora, mudos 

Sozinho em seu quarto, o príncipe jurou que jamais permitiria ser tocado por outro rapaz novamente. E que todos aqueles que o ofenderam teriam o castigo merecido. Joseph, o príncipe gentil, bondoso, não existia mais.

Ash de fato o matou no fim das contas, ele destruiu as melhores partes que existia nele e deixou uma casca vazia e sombria para trás.

3 de Setembro de 2018 às 13:15 17 Denunciar Insira 6
Fim

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Olá! Mori, por que me mastaste? Lá estava eu no inicio da historia "QUE LINDO O JOSEPH COM O ASH! É OTP QUE CHAMA, NÉ? VAI DAR TUDO CERTO!". O Ash falando que o Joseph fica uma gracinha bravo me fez vomitar arco-iris, e o Joseph chamando ele de idiota me fez morrer de amor - aaaaaaa, que coisinha mais linda, meu Deus. A troca de farpas entre eles era algo esplêndido, e eu sabia que ia dar em romance, rolou até beijo e eles dormiram juntos! MAS AÍ DE UMA HORA PRA OUTRA O ASH ME VEM COM UMA DE "Seu pai me mandou aqui pra te matar". CADÊ O AMOR NO CORAÇÃO, ASH? CADÊ A PAZ INTERIOR? - indignada -. A traição do Ash foi um grande plot twist, e eu não vou superar a forma indiferente como ele tratou o Joseph. Ele nem pensou em hesitar, apesar de ter dado a ele uma chance pra lutar... O jeito como o Joseph ficou depois de sobreviver ao atentado e de ter matado uma pessoa que ele amava, confiava foi mais do que compreensível... Ele era uma pessoa boa demais para o mundo, e agora todos vão ver o que é maldade. Enfim, eu estou apaixonada pela história, ela é linda do inicio ao fim - mesmo que tenha destruído corações -. O universo que você criou é incrível e você ambientou tudo muito bem, deu pra ver através dos olhos dos personagens. Você soube trabalhar com o seu subgênero e os elementos fantasiosos da historias são maravilhosos - meu sonho é ser uma conjuradora agora -. De uma forma esplêndida, você conseguiu passar para nós o que os personagens sentiam, e para muito o final realmente foi uma surpresa, porque a história foi toda montada para ser um romance clichê e fofo. O modo como você muda o clima de forma abrupta (porque, para o Joseph, foi abrupto também), é realmente muito bacana. Vocês traz o leitor para a cabeça do Joseph, fazendo com que ele crie expectativas junto a ti. Ela tem alguns erros gramaticais, como a palavras "excitante" no lugar de "hesitante", mas não é nada que uma revisada não dê jeito. A leitura é fluida e muito envolvente. To muito grata por ter lido a sua historia, parabéns pelo ótimo trabalho e obrigada por compartilhar essa historia maravilhosa com a gente. Até mais <3
4 de Outubro de 2018 às 14:32

  • Mori Katsu Mori Katsu
    Obrigada pelo comentário (li suando frio, comentários grandes me dão medo). Essa história é um spin-off de uma original. Tenho alguns capítulos prontos até. Mesmo que eu tenha "feito" Ash, tem partes da personalidade dele que eu simplesmente não sei 4 de Outubro de 2018 às 16:09
  • Mori Katsu Mori Katsu
    Continuando o comentário anterior... 4 de Outubro de 2018 às 16:10
  • Mori Katsu Mori Katsu
    Continuando o comentário anterior... 4 de Outubro de 2018 às 16:10
  • Mori Katsu Mori Katsu
    Parte de Ash realmente gostava de Joseph. Eu me pergunto quem no mundo se envolve de verdade com alguém que futuramente tem que matar. Ele não só traiu Joseph, traiu também o rei dando uma chance do príncipe lutar por sua vida. Creio que a única coisa que ele não traiu foi o juramento que todo conjurador faz. Joseph é alguém bom demais para esse reino, de verdade, ninguém o merece. Depois de tudo o que aconteceu é impossível que continue sendo a mesma pessoa. As pessoas podem mudar para melhorar e para pior. Joseph tem tudo para ser um rei excelente, mas também tem tudo para ser um tirano. Eu desejo muito continuar o projeto, me diverti muito escrevendo essa história a ponto de achar os 10k muito limitante. Peço desculpas pelos erros ortográficos (a ortografia sempre me dá uma surra). 4 de Outubro de 2018 às 17:08
Forbela Forbela
Quantas reviravoltas em? Adorei o universo criado, todas as habilidades possíveis e tudo mais. Me deu vontade de saber mais sobre os personagens e o reino! Além disso adorei sua escrita, muito boa e coesa. Parabéns pelo texo
6 de Setembro de 2018 às 22:55

  • Mori Katsu Mori Katsu
    Obrigada por comentar. Vou me esforçar para continuar escrevendo cada vez melhor. 7 de Setembro de 2018 às 13:59
LiNest LiNest
Gente que universo interessante vc criou aqui, eu literalmente estou babando querendo mais porque só isso não foi suficiente! Joseph é um puta de um personagem, ele é o tipo de personagem que me cativa, amei o sarcasmo dele, como ele é resiliente apesar das circunstâncias adversas e como faz da língua uma arma e armadura, e mesmo assim é ingênuo diante da possibilidade de ter encontrado um igual. Isso tudo só torna a traição do Ash mais cruel, eu tive que parar de ler na cena do ataque porque eu não tava acreditando no que estava lendo, mano que fdp! E pensar que eu quis adota-lo como filho! E apesar de ser apresentado de forma dúbia, eu gostei do Stephan cara, até chego a acreditar que ele sinceramente se importa com o irmão mais velho, apesar de tudo, mas é aquilo né, a pulga sempre fica atras da orelha sobre ele. Mas sério, eu amei esse universo, cada detalhe acrescentava mais ao plot e eu lia tudo com a boca aberta porque é tudo tão interessante! Dos personagens à politica e magia, tudo muito bem apresentado. Eu amei os dialogos tmb, muito inteligentes. Bem, agora vem a parte chata das criticas. Embora eu tenha adorado o universo, sinto que foi informação demais para pouco espaço, não me entenda mal! Vc apresentou muito bem os principais elementos, mas nem todos foram tão bem desenvolvidos, o que é totalmente entendivel porque um universo incrivel desses ser apresentado num limite de 10k sem dúvida ia faltar algo, mas às veses isso acaba sendo um problema e é o caso aqui, pra mim essa fic deveria até ser um livro, talvez uma série, porque tem muito potencial para ser um trabalho grandioso! Tmb tem alguns erros graves de gramática, por exemplo a palavra "hesitante" que vc escreve como "excitante", há tmb alguma incoerência em frases, algumas palavras "comidas" que acaba prejudicando a progressão da narrativa e quebrando a "ponte" de uma cena para a outra, tmb tem alguns erros de pontuação, mas nada que um pente fino e uma boa betagem não resolva. Meu principal problema foi o final, veja bem, eu não me importo com finais abertos, pelo contrário, mas aqui o final apenas pareceu... incompleto. Como um final de um capitulo e não de uma one-shot entende? É como se fosse o final de um episódio de tv que sem um próximo confirmado deixa tudo o que foi apresentado nesse parecendo confuso. Novamente, entendo 100% a situação, passei por isso com uma fic minha de desafio tmb, mas só acho que é um ponto importante para futuros fechamentos que vc deixe as coisas conclusivas da melhor forma possivel, porque um final aberto demais não é final. Tirando isso eu REALMENTE amei essa fic, como disse, eu babei no universo que vc criou e, SE DÚVIDA COMPRO SE VIRAR LIVRO! QUERO VER O JOSEPH VIRANDO REI DO BALACUBACO E MANDANDO NESSA CARALHA TODA! E que ele tenha um namorado maravilhoso e legal no futuro porque foda-se o Ash (e tmb foda-se o rei, tomara que morra tmb) e antes de terminar quero só dizer que minha cena preferida é a do Joseph defendendo a Sofia, a bruxa, dos comentários babacas do Ash, eu amei como ele corta, literalmente, o bullshit do Ash kkkkkk Joseph é ótimo, sério. Enfim, eu só adorei essa fic, espero não te sido dura nos pontos negativos porque realmente to torcendo pra vc escrever mais com esses personagens. Ótimo trabalho <3
6 de Setembro de 2018 às 11:45

  • LiNest LiNest
    P.s: ESSA CAPA É FANTÁSTICA TMB! Palmas para quem fez 6 de Setembro de 2018 às 11:48
  • Mori Katsu Mori Katsu
    Primeiramente, que medo! Comentário grandes me dão muito medo. Eu realmente tive que colocar muita informação e concordo plenamente sobre as frases incompletas. Obrigada por sua crítica construtiva, você foi bastante delicada, por isso gostei duas vezes você. Sua crítica a longo prazo vai tornar minha receita melhor. Vou corrigir os erros ortográficos por agora, e melhorar um pouco mais esse final depois que o desafio acabar. Agora sobre os personagens. Stephan, ele tem um talento natural para ser um líder, mas não é uma proezas se formos ver seu carisma. Ele faz o que tem que ser feito, e nessa jogada do rei, acabou envolvido sem nem mesmo saber. De qualquer forma, é sempre bom desconfiar. Ash: como assassino do rei, ele sabia o quão ruins as pessoas da corte eram. Ele desprezava muita gente, tinha raiva dos elementais, mas não Joseph. Ele não conseguiu, por isso ele ainda deu uma chance para o outro lugar por sua vida. Isso não muda em nada a forma como a gente vê ele. Joseph; 6 de Setembro de 2018 às 14:24
  • Mori Katsu Mori Katsu
    Primeiramente, que medo! Comentário grandes me dão muito medo. Eu realmente tive que colocar muita informação e concordo plenamente sobre as frases incompletas. Obrigada por sua crítica construtiva, você foi bastante delicada, por isso gostei duas vezes você. Sua crítica a longo prazo vai tornar minha receita melhor. Vou corrigir os erros ortográficos por agora, e melhorar um pouco mais esse final depois que o desafio acabar. Agora sobre os personagens. Stephan, ele tem um talento natural para ser um líder, mas não é uma proezas se formos ver seu carisma. Ele faz o que tem que ser feito, e nessa jogada do rei, acabou envolvido sem nem mesmo saber. De qualquer forma, é sempre bom desconfiar. Ash: como assassino do rei, ele sabia o quão ruins as pessoas da corte eram. Ele desprezava muita gente, tinha raiva dos elementais, mas não Joseph. Ele não conseguiu, por isso ele ainda deu uma chance para o outro lugar por sua vida. Isso não muda em nada a forma como a gente vê ele. Joseph; 6 de Setembro de 2018 às 14:23
  • Mori Katsu Mori Katsu
    Primeiramente, que medo! Comentário grandes me dão muito medo. Eu realmente tive que colocar muita informação e concordo plenamente sobre as frases incompletas. Obrigada por sua crítica construtiva, você foi bastante delicada, por isso gostei duas vezes você. Sua crítica a longo prazo vai tornar minha receita melhor. Vou corrigir os erros ortográficos por agora, e melhorar um pouco mais esse final depois que o desafio acabar. Agora sobre os personagens. Stephan, ele tem um talento natural para ser um líder, mas não é uma proezas se formos ver seu carisma. Ele faz o que tem que ser feito, e nessa jogada do rei, acabou envolvido sem nem mesmo saber. De qualquer forma, é sempre bom desconfiar. Ash: como assassino do rei, ele sabia o quão ruins as pessoas da corte eram. Ele desprezava muita gente, tinha raiva dos elementais, mas não Joseph. Ele não conseguiu, por isso ele ainda deu uma chance para o outro lugar por sua vida. Isso não muda em nada a forma como a gente vê ele. Joseph; 6 de Setembro de 2018 às 14:23
  • Mori Katsu Mori Katsu
    Terminando sobre Joseph. Nem mesmo a traição do pai e de Ash será capaz de fazer ele se dobrar as jogadas da corte. Antes ele realmente não se importava com o falavam dele e não fazia nada, deixava por isso mesmo. Depois disso duvido muito que deixe qualquer ofensa impune. Eu não deixei muito explícito, mas nesse universo, as bruxas sofrem de preconceitos. Elas são ainda mais misteriosas que os conjuradores, por isso o conceito de que elas são más/feias/traiçoeiras prevalece. Joseph sabe que Sofia não é isso, por isso ele não pode deixar de defende-la. A capa, eu mesma fiz. 😊 E fico extremamente feliz que tenha gostado dela. Obrigada pelo comentário e pelas críticas. 6 de Setembro de 2018 às 14:51
  • LiNest LiNest
    Awn não tema, eu deixo essas bíblias nas fics pra enaltecer, só fic feliz de não ter lhe ofendido ao apontar esses detalhes, pois nunca será minha intenção, eu só critico de forma construtiva! E gente agora eu to como? Prometendo minha alma para pacto pra ter mais desse universo porque gezuis quão rico ele é! E VC TEM TALENTO PARA CAPAS! PARECE ATÉ CAPA DE LIVRO! Linda d+ mesmo. Enfim, continue o ótimo trabalho sweet <3 6 de Setembro de 2018 às 23:04
Barry A. Barry A.
gente eu to no chão, o que q foi isso aqui? estou em choque. DE ONDE VC TIROU ESSE PLOT CRIATURA? DE UM POTE DE OURO NO FIM DO ARCO-ÍRIS??? SO PODE Eu nao to acreditando que o Ash fez isso, ai meu coração carai, n se faz isso com as pessoas n TOMARA QUE QUEIME NO INFERNO so eu q imaginei o Joseph chegando na frente da pilha de coisas na frente do castelo encarando todas as pessoas ao redor enquanto aperta uma das mãos em punho dando início ao incêndio da pira? AHAHAHAHAHAHAHA EU QUERIA MT VER ISSO, aproveitar a cara de todos os fdp que pisaram nele hahahahahaahahha ❤
3 de Setembro de 2018 às 14:42

  • Mori Katsu Mori Katsu
    Não sei qual a parte danificada no psicológico desse menino. Ash era um verdadeiro duas caras! Ele mereceu morrer, ele sabia que merecia morrer. Agora o pobre Joseph, queria botar ele em um potinho, mas é provável que ele fosse quebrar o pote para se vingar. Além de ser enganado, ter sofrido um inferno e ainda nem pode fazer justiça com as próprias mãos! 3 de Setembro de 2018 às 15:44
Mori Katsu Mori Katsu
Vou deixar a explicação do "*" aqui, o número de caracteres acabou, e não pude colocar no final da história. As cores da Pedra da Alma não emite a cor marrom. Somente, vermelho, azul, branco, e amarelo. Mas com o coletes, as roupas que identificam a natureza de um elemental, o amarelo ficou no lugar do branco, e marrom do lugar do amarelo.
3 de Setembro de 2018 às 09:37
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