Bosque de Jacinto Seguir história

pequenalady2000 Nathalia Souza

Uma cidadezinha medíocre como Yves não seria conhecida como um local de acontecimentos chocantes. Um ponto insignificante perdido em seu país, o Canadá, onde as polêmicas mais quentes são traições e gravidezes adolescentes, no máximo. Um daqueles locais cinzas e sem graça, de temperatura feia o suficiente para possuir neblina quase constantemente, mas não tão congelante a ponto de ter sempre um belo visual invernal. Muitos de seus moradores alegavam que o lugar possuía uma atmosfera diferente dos outros. Desirée apenas achava aquele lugar melancólico e sem sentido, repleto de uma população pequena e fútil. Mas, ainda sim, existia um lugar que ela amava: O Bosque de Jacinto, marcado por alguns acontecimentos estranhos e esquecidos na origem da cidade. Era um local belo e aconchegante, que lhe atraía como o norte atrai uma bússola. Como se fosse um local para se estar. Mesmo com todos os avisos, não importava. Cada vez mais queria adentrar a ele e passar horas em meio àquela doce atmosfera. Apenas não suspeitava que, em meio àquela cidade de pessoas estranhas, seus avisos poderiam ter alguma sábia precaução.


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os direitos reservados

#romance #paranormal #sobrenatural #fantasticoink #fantasiasombria
Conto
9
5355 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Azul, violeta, vermelho

I'm from a little city with expensive taste
Where the cars don't run till the engine breaks

Wasn't spending pennies on the massive things
But them faster the mess with this recipe

Could've quite see, what the future held
And this days went by it would tell itself
Let it struggle just a little bit more
Let it struggle just a little bit more

Remember what the people said
Remember what the people said
When it's said and done, let it go!
Remember what the people said
Remember what the people said
When it's said and done, let it go!” The Neighbourhood – Let it go

---///---

Para Desirée, Yves era um lugar deprimente. Uma cidadezinha localizada no Canadá, ligeiramente próxima à fronteira com os Estados Unidos. Quase sempre chovia, e quando não chovia, uma neblina insistente pairava por toda a extensão daquele pequeno “feudo”. Possuía mil e trezentos habitantes, sua maioria de famílias que estavam ali há séculos e se conheciam desde a criação da cidade.


Não, ali moravam mil duzentos e noventa e nove a partir de 12 de junho de 2018. Dia do aniversário e do óbito da notável Janet Balerman, a mãe e esposa da família Balerman, que praticamente comandavam a cidade. Seu enterro seria no próprio casarão da família de banqueiros, toda a pequena população foi chamada. Os pais de Desirée foram ao funeral, e a chamaram, mas a menina preferiu ficar em casa, alegando não gostar destas atmosferas pesadas. Não sabia se eles tinham acreditado.


Na verdade, simplesmente não queria ir. O seu contato com os magnatas e controladores da cidade era zero, além de que sua paciência para falsas condolências também estava bem baixa nos seus “termômetros morais”.


Porém, algum contato teria com a cerimônia fúnebre. Ela e sua pequena família moravam perto da casa dos Balerman, algumas quadras de distância. Sua janela possuía a vista do belo bosque, o ponto mais belo daquela cidade cinzenta.


O Bosque de Jacinto. Recebeu este nome pois era repleto destas flores, a maioria em tons de azul. “A história de Jacinto e Apolo, lembra?” a voz de um de seus amigos, chamado Aaron, veio rapidamente em suas memórias. Toda vez que conversavam sobre isto, ele trazia à tona o relacionamento conturbado de Apolo e Jacinto, encerrado por Zéfiro, um deus do Vento Oeste que desviou o curso de um disco para a cabeça do pobre mortal. O deus do sol o transformou nas flores jacintos, que cresciam aos montes pelo lugar. Às vezes, pequenas florzinhas voavam até sua janela, como se a convidassem a dar um passeio pela mata.


As flores apareciam muito mais à noite, belas e convidativas. Contudo, o Bosque de Jacinto apenas era visitado das quatro horas da manhã até às cinco e cinquenta e nove da noite. Era patrimônio público e histórico da cidade, mesmo que os Balerman tenham tentado controlá-lo por estar praticamente no quintal de sua propriedade. Desirée achava isso ridículo, já que seu quintal também dava para o local. Sempre quis o visitar após o horário aconselhado, mas seus pais, sabendo disso, a impediam de ir. “Tudo por uma lenda idiota.” pensou ao aproximar-se da janela.


Uma manhã chuvosa, mas ainda assim várias pessoas andavam com seus guarda-chuvas preto, como uma procissão. Uma das trilhas passava ao lado do seu quintal, e dentre as árvores conseguia ver praticamente toda a população em seus trajes pretos e faces falsamente tristes. Todas aquelas pessoas eram hipócritas, na sua opinião. Os boatos sobre a dama de ferro que maltratava seus filhos a fim de que fossem perfeitos rondava Yves, e as piadas maldosas ao respeito de Janet eram comuns em locais públicos. Não podia negar que não havia gargalhado ao ouvir algumas. Mas, pelo menos, permaneceu em casa sem dar a mínima para o funeral.


O toque de notificação em seu telefone resgatou sua mente destes devaneios. Ajeitou-se em sua cama e desbloqueou seu telefone, vendo a mensagem uma de suas amigas, Danielle.


/Olhe pra janela, mon ami/


Sorriu levemente, ao olhar para o lado de fora novamente. Debaixo de um guarda-chuva azul, vestindo um sobretudo vermelho e botas estava Mawusi. Ao seu lado, com um guarda-chuva branco, usando sua clássica jaqueta de couro por cima de uma blusa verde, além dos seus jeans e tênis surrados, Aaron sorria como uma criança travessa.


Estendeu a mão como se em sinal de que esperassem, e arrastou-se pela casa, descendo as escadas em desânimo com sua gata preta ao seu lado.


—Nyx, cuidado!—exclamou para seu animal de estimação assim que a gata correu entre os pés da dona e saiu rapidamente para a porta.


Normalmente Nyx reagia dessa maneira quando Aaron chegava perto, já que ele sempre trazia guloseimas para seu bichinho. “Sua traidora” pensou sozinha ao lembrar como foi difícil conquistar a simpatia de sua gata.


Abriu a porta, sendo atingida pelo vento gélido do lado de fora. Seus amigos entraram, guardando os guarda-chuvas e os casacos. Antes de fechar a porta, Nyx arqueou o corpo e soltou um som agudo e arrastado. Parecia pronta para atacar. Estranhou o comportamento do animal, e tentou ver o quê a gata parecia ver dentre as árvores. Pode ver um farfalhar entre as folhas, mas nada além. Um gato de rua, talvez? Nyx podia ser bem territorial quando queria.


—Calma Nyx...—murmurou Aaron ao se aproximar do bicho, que pulou para seu colo, assustado.


Aquilo pareceu acalmar o animal, mas confusão permaneceu por alguns instantes entre os três. A dona de Nyx deu de ombros, fechando a porta atrás de si. Ainda assim, algo naquilo havia lhe deixado um pouco desconfortável. “Não seja tão imaginativa. Daqui a pouco estão dizendo que ficou doida.”


—Belo dia para um enterro, não é?—comentou Aaron, arrancando risadas de Desirée.


—Que horror, Rony!—exclamou Mawusi ao abraçar a amiga.—Meu Deus, vocês são podres!


Os olhos escuros dela arregalaram-se, os pequenos raios caramelo brilharam mais ao serem atingidos por um breve sinal de luz solar. Separou o abraço, portando um leve sorriso em seus lábios longos e carnudos. A pele escura contrastava com o batom vermelho que usava, assim como com o turbante branco e pequeno em sua cabeça.


—Mawu, licença, ela não é sua propriedade.—comentou Aaron ao empurrar Mawu para o lado, abraçando Desirée enquanto a outra protestava

.

Aaron era um dos rapazes que a maioria das meninas do colégio onde os três estudavam (o único colégio para adolescentes de Yves) gostaria de ter algo mais. Possuía longos cabelos ruivos lisos; olhos verdes com leves pontos castanhos; pele branca repleta de sardas; rosto quadrado e corpo atlético.


Aqueles dois eram suas boias no meio daquele fim de mundo. Os três faziam parte da pequena parcela da população que não pertencia às famílias fundadoras e seus aliados, portanto, pertenciam às famílias mais pobres. A família de Desirée descendia de imigrantes asiáticos chamados para o trabalho; a de Mawusi, de escravos recém libertos procurando por algum lugar para ficar e a de Aaron era proveniente de ingleses protestantes que não quiseram morar nos Estados Unidos. “Vamos queimar essa cidade inteira!” era uma frase comumente utilizada por eles em zombaria.


—Desirée? Tudo bem?—questionou Mawusi, desconfiada.


—Sim, vamos subir.—desconversou ao virar-se para a escada.


Sabia muito bem que os dois estavam atrás de si trocando olhares em confusão e preocupação. Não era a primeira vez que Desirée agia desta maneira, ainda mais quando o bosque estava envolvido. Desde o começo da amizade dos três, quando se conheceram no primeiro dia de aula de suas vidas estudantis, aquela pequena floresta estava emaranhada com a menina. Ela amava aquele lugar, mesmo sem ser uma ativista ecológica ou gostar de atividades ao ar livre. Quando lhe perguntavam o quê naquele local onde a neblina era mais densa tinha de especial para Desirée, a jovem não tinha resposta. Apenas era e pronto.


Adentraram ao quarto dela, sentando-se na cama como sempre fizeram na casa um dos outros. Seus pais até fariam altas reclamações caso outro garoto estivesse no seu quarto, mas Aaron? Ele já era de casa.


—Seus pais foram no funeral?—questionou Desirée, ainda na tentativa de mudar de assunto.


—Os meus não, você sabe que eles iam dançar em cima do caixão de Janet.—respondeu Mawu e os outros dois apenas assentiram.


—Os meus sim, minha mãe disse: “Ela ainda é uma alma, Rony. Não podemos deixar de demonstrar respeito!”—zombou o rapaz, com uma das mãos sobre o peito, completamente teatral.


Suas amigas riram, sabendo que, provavelmente, as ações da Senhora Blanc não foram tão diferentes daquilo. A mãe do rapaz era bastante dramática quando queria.


—Ah, cara, vocês não vão acreditar no que eu vi vindo pra cá!—começou Mawusi, atraindo a atenção para si.—Assim, eu tinha saído de casa pelos fundos, iria passar pelo bosque e sair quando visse a sua casa. Então, enquanto eu andava por lá, eu encontrei o Jace, rindo horrores e chorando ao mesmo tempo, sentado no chão.—assim que o disse, Desirée franziu o cenho, confusa.


—Ahn? Eu sei que a mãe dele morreu, mas normalmente as pessoas não ficam... Desse jeito.—comentou a garota, mesmo que estivesse triste por ele, curiosidade a corroía por dentro.


—Eu sei, eu sei. Fui falar com ele, dar apoio e tudo mais. Jace me abraçou, e depois disse com uma voz super bem-humorada: “ tudo bem, Mawusi. Ela brincou com o bosque tempo demais.”—Mawu continuou a história, causando apenas mais confusão em seus amigos, que permaneceram em silêncio por alguns instantes.


—Só eu achei essa frase super bizarra? Tipo, a mãe dele morta. Talvez ela fosse uma megera mesmo e ele tenha matado Janet.—supôs Aaron, recebendo olhares incrédulos das amigas.—O que foi? Eu não estava rindo que nem louco da morte da minha mãe!


—Eu fiquei meio chocada, mas depois ele disse assim: “O quê? Solidão cobra o seu preço. Sempre.” Aí ele começou a chorar, eu fiquei ali mais um tempo. Perguntei o quê aquilo significava, mas Jace disse que tinha falado demais. Então, ele foi embora e eu logo depois encontrei o Rony.—concluiu a garota, olhando nervosamente para as árvores do lado e fora.


Desirée acompanhou seu olhar, intrigada pela história que ouviu. A neblina se intensificava mais e mais com o passar do dia, não enxergava com clareza o seu gramado. Algum detalhe naquilo tudo lhe parecia tão familiar, mas o quê?


—Ahá!—gritou Desirée, assustando os dois.—Desculpa...—murmurou ao sorrir de maneira singela.—Qual é a frase do jovem Yves, o garoto que morreu e foi homenageado tendo seu nome colocado nesta cidade horrenda?


—Solidão é um lugar que apenas te atinge se você permitir.—responderam ambos, acostumados com a frase.


—Será que isso tem haver? Ou vai me dizer que não acha nem um pouco similar?—murmurou Desirée ao cruzar os braços.


Aaron e Mawusi entreolharam-se, conversando com os olhos numa discussão não-verbal. Mawu parecia ter ganhado, pois Rony arriou os ombros e suspirou.


—Olha, isso tudo é meio estranho, mas... Ei, não pira tá? Teve aquela vez que você viu os olhos roxos...—começou Mawusi, um pouco receosa.


—E teve aquela vez que você escutou alguém chamando o seu nome.—completou Aaron, claramente desgostoso.—Não estamos dizendo que você enlouqueceu. Mas, toma cuidado com isso, tá?


—É, os Balerman, essa cidade... Tem algo de estranho neles.—concluiu Mawu ao segurar as mãos da amiga.— Promete se cuidar?


—Eu prometo.


---///---


Desirée com certeza não iria manter a promessa. Assim que Aaron e Mawusi saíram de sua casa, voltou rapidamente ao seu quarto a fim de organizar suas ideias. Precisava reunir tudo o quê sabia sobre o Bosque de Jacinto.


Sobre sua origem, sabia que o filho único da primeira geração da família Balerman no Canadá escolhera o nome. Não apenas pelas flores que lá existiam, mas também pela mitologia grega, assunto pelo qual o jovem era apaixonado. Este mesmo jovem foi encontrado dentre delírios em seu amado bosque, em uma manhã de quinta-feira. Yves murmurava a frase citada por Aaron e Mawusi, e assim permaneceu por um dia inteiro até sofrer uma súbita parada cardíaca.


Sabia também do estranho caso de desaparecimento em 1972. Charlize Vegns, uma adolescente de dezesseis anos de idade que simplesmente sumiu e nunca mais foi vista. Diziam que a garota era rebelde e odiava a cidade (completamente plausível ao ver de Desirée), então uma fuga nos anos da libertação e da libertinagem não lhe pareciam tão incomuns. Contudo, algumas pessoas afirmavam (sua mãe, por exemplo, já que eram amigas de infância.) a fascinação da jovem Vegns pelo bosque e suas declarações públicas de que era muito melhor viver neste do que dentre aquelas pessoas quadradas e preconceituosas. Não tinha como Charlize ter se escondido numa pequena floresta, ou ter sido morta lá e nunca encontrada, certo?


—Filha?—a voz de sua mãe adentrou aos seus ouvidos, tirando-a de sua imersão.—Desculpa a demora, eu e seu pai aproveitamos para ir à cidade vizinha comprar algumas coisas pra casa. Você almoçou?


Almoço tão cedo?” pensou sozinha, um pouco confusa. Porém, ao olhar em volta, pôde perceber a falta da fraca iluminação diurna. Não havia percebido que a noite chegara. E de onde vinha aquele ramo de jacintos roxos em sua cama?


—Não comi mãe, acabei dormindo.—explicou basicamente, ainda confusa.


—Abriu a janela? Milagre. Enfim, vem comer, Desirée. Tem batata frita...—anunciou a mulher, sorrindo em resposta ao mesmo gesto demonstrado por sua filha.—Te espero lá em baixo.


Espreguiçando-se, Desirée fechou a janela, interrompendo a entrada do cheiro agradável e forte que o vento normalmente trazia do bosque. Ainda com o ramo em mãos, foi em direção ao interruptor de luz e o acendeu. O mecanismo ficava perto do espelho, e parou para se observar.


O corpo diminuto vestia moletons cinzas e confortáveis. Os pequenos olhos pretos e em formato de duas fendas na horizontal estavam um pouco sonolentos, mas seu olhar esboçava animação. Os lábios carnudos estavam rosados, o rosto oval repleto de algumas pequenas sardinhas desconexas. A pele parda contrastava com seu cabelo liso tingido em roxo, usava a mesma cor há quatro anos. Sorriu levemente ao olhar para as flores, que possuíam o mesmo tom de seu cabelo. Olhou ligeiramente para janela, que havia sido aberta novamente pelo vento. Franziu o cenho, mas aproximou-se para fechar.


“Desirée” uma voz sofrida e arrastada ecoou em sua mente, trazida por uma lufada de ar.


Se a janela fosse um pouco mais baixa e não tivesse sua cama entre ela e o ar livre, teria caído pelo susto. Reconheceria aquela voz profunda e enigmática que vinha chamando seu nome há semanas. Só podia ser a mesma voz.


“Só você pode me ajudar. Por favor.”


Este pedido emergencial por socorro avassalou qualquer receio que ela pudesse ter. Sim, era estranho e um pouco assustador não saber exatamente quem chamava, mas sentia-se mal ao ouvir aquela súplica. Não podia ignorar, pelo menos não mais.


—Desirée, seu prato vai esfriar!—ouviu seu pai a chamar no andar térreo, atraindo sua atenção.


—Já vou!—respondeu automaticamente, saindo de seu quarto.


Abandonaria o quê quer que lhe chamasse, mas apenas até seus pais irem para a cama. Decidida, desceu as escadas, pensando no seu plano. Naquela noite, adentraria ao bosque.


---///---


Estava andando às cegas, sem suporte algum. Claro, utilizava a lanterna do seu celular, e possuía sua pequena mochila com alguns mantimentos, mas estava sozinha e não fazia ideia do que realmente procurava.


Assim passou a primeira hora, e assim foi-se igualmente a segunda. Às onze horas da noite, não possuía nenhuma companhia além da lua, a neblina e os animais. Mesmo assim, praticamente não escutava os sons dos bichos. Como se todo o bosque segurasse a respiração.


“Desirée”


Ofegou ao ouvir, de um vento forte vindo do oeste, a voz melodiosa e pedinte invadindo-a. Andou em passos largos nesta direção, ansiosa. Estava chegando perto, sentia que sim. Instantes depois, corria pela euforia. Passava dentre as árvores sem dificuldade alguma, quase como se as raízes grossas dos carvalhos abrissem caminho para ela. Como se lhe convidassem a se aproximar.


Então, chegou à uma pequena clareira. O círculo irregular repleto de jacintos vermelhos parecia ter, no máximo, 2 metros de diâmetro. No meio dele, uma grossa árvore alta permanecia soberana. Porém, ao apontar a lanterna para esta, ofegou estupefata, uma das mãos sobre a boca.


Sentado embaixo árvore, estava um homem desfalecido apenas usando calças brancas. Seus braços estavam esticados para trás; a cabeça arriada; cabelos longos e loiros jogados escondiam parcialmente o peitoral pálido e desnudo. Aproximou-se, um pouco receosa, mas este receio morreu quando pode ver um grande ferimento atravessando o tronco em diagonal.


—Ei, ei.... Acorda, por favor. Eu vim te ajudar.—murmurou a jovem ao segurar o belo rosto suave em suas duas mãos.


Um dos olhos estava roxo e levemente inchado. Olhou atrás do grosso tronco, onde duas correntes grossas e antigas reluziram à luz do seu telefone. Era prateadas, de algum metal que desconhecia.


Ao ouvir uma tosse seca e dolorida vinda deste desconhecido, voltou-se para sua frente e abandonou seu telefone ao seu lado, sobre sua bolsa. O peitoral manchado de sangue subia e descia devagar, pelo menos demonstrando vida. Então, a cabeça levantou-se e os olhos em forma de amêndoa abriram-se. Duas belas e brilhantes íris roxas encararam-lhe, e então um sorriso suave abriu-se. Não parecia surpreso, de maneira alguma. Satisfação era o que estava em seu rosto.


—Oh, Desirée... Você chegou.—sussurrou com sua voz forte como uma pessoa à espera de um milagre.—Eu te abraçaria se pudesse.


—Oh meu Deus, é você! Quem... Quem é você?— questionou Desirée.—Quem fez isso?


—Uhn, pode me chamar de Thierry. E e-eu não sei se posso te dizer.—respondeu ao suspirar.


—Foi profundo...—sussurrou a moça ao passar a mão levemente por cima da ferida.


Thierry estremeceu ao toque, mas sorriu, como se a incentivasse a tocar novamente. Desirée repousou suas mãos sobre o ferimento e o sorriso de satisfação dele apenas cresceu. Os olhos violeta prenderam sua atenção, repleto de luxúria e um certo escárnio que não lhe deixava aproveitar completamente o brilho de seu sedutor olhar.


—Olhe... É você mesmo. Eu tinha minhas dúvidas, mas elas acabaram agora.—comentou ao olhar para seu ferimento.


Desirée seguiu seu olhar e afastou as mãos, surpresa. O único resquício de qualquer machucado era o sangue manchando tanto o peitoral de Thierry quanto as mãos dela. Estas captaram toda a atenção da garota, que perguntava a si mesma como poderia ter feito aquilo.


—Não é o quê suas mãos podem fazer, querida. É você.—explicou vagamente Thierry, chamando sua atenção para cima novamente.


Nem o olho estava mais inchado! Como isso era concebível? Desirée não era cética ou algo do tipo, mas uma situação como aquela era difícil de se entender. Porém, ela estava lá, não tinha como não acreditar. “Calma, vamos ser práticas.” pensou ao tirar de dentro da mochila seu cantil de água. Limpou as próprias mãos, e olhou para os olhos de Thierry. Ele parecia estar contente, e sorriu levemente ao entender o que ela iria fazer. Não sabia se ele estava tentando a encorajar, ou se gostou de sua aproximação. Esta incerteza lhe deixou desconfortável, mas mesmo assim limpou o sangue que sujava o corpo dele.


—Não fique assim, tão tímida. Obrigada.—agradeceu Thierry, mas logo sua expressão feliz morreu.


—As correntes, certo? Quem te prendeu aqui? Eu quero te ajudar.—perguntou a menina, tentando desesperadamente mudar de assunto.


—É um dos vizinhos mal-humorados do bosque... Acho que ele se chama Jason, Jake, não sei.—murmurou, suspirando desgostoso ao final da fala.


—Jace?—questionou ela e Thierry apenas assentiu.—Por quê?


Thierry abriu um sorriso melancólico, seus olhos repletos de uma leve sapiência. Desirée sentiu-se uma criança prestes a receber uma explicação atenuada dos pais. Um olhar que parecia lhe dizer: Oh criança, esqueci que não experimentou a vida.


—Jace acha que eu sou culpado por algumas tragédias da família dele durantes estes séculos. Ingênuo da parte dele, não?—respondeu, um pouco cauteloso na sua escolha de palavras.


—Mas, como assim? Você não poderia ter séculos de vida. Ou poderia?—questionou Desirée e Thierry riu em deleite.


—Oh, doce Desirée... Os anos passam diferente para algumas formas de vida.—explicou, novamente sendo vago.—Jace tem a chave pendurada no pescoço. Bem, assim estava da última vez que o vi. Tome cuidado com ele, está bem? Jace é um rapaz perigoso.—advertiu e Desirée assentiu.


—Ah, quer água? Comida, ou algo assim?—perguntou ela e Thierry negou.


—Nem toda forma de vida precisa dessas coisas.—respondeu suavemente, apreciando sua escolha de palavras.—Desculpa dizer isto querida, amo sua companhia, mas você precisa ir.


Suas palavras a atingiram como uma flecha. Ele estava certo, uma hora ela precisaria ir e deixar Thierry acorrentado. Sentiu-se mal por isso, mas não tinha como ajudá-lo, não naquele instante.


—Não se preocupe, eu vou ficar bem aqui.—prometeu ao sorrir como uma criança travessa.—Agora vá, está bem? Após a meia-noite, as passagens para Solidão começam a se fechar.


Desirée assentiu, guardando o cantil em sua mochila. Respirou fundo, e puxou um cobertor que havia trazido. Colocou-o como pode sobre Thierry e sorriu tristemente.


—Eu volto amanhã pra te soltar. Eu prometo.—assegurou ao se afastar.


Aquela era uma promessa que faria questão de cumprir. Andou vagarosamente para longe daquela criatura de belos olhos, de costas para ele. Sentia que o olhar dele seguia seus movimentos, mas continuou a andar. Chegou à borda da lareira e virou-se, encontrando um belo sorriso convencido e um olhar de expectativa. Ambos sabiam que Desirée não se sentia mal apenas por deixá-lo preso. Ela queria estar ali com Thierry, um ser que nem sabia o que era e mal conhecia. Amaldiçoando a si mesma por ser impressionável, voltou-se para a direção oposta, bem mais centrada e certa de que caminho seguir. “Você não vai ficar longe por muito tempo.” consolou-se, e andou sem olhar para trás.


---///---


Aaron e Mawusi sabiam que ela estava estranha. Numa segunda-feira comum, Desirée estaria sonolenta e mal-humorada. Mas, para a jovem, com certeza não era um dia qualquer. Ainda estava sonolenta pelas andanças no bosque, mas uma certa ansiedade lhe deixou alerta. Teria que roubar a chave de Jace, e seu plano não parecia ser tão difícil de ser executado. Ou era isso, ou ela estava apenas tentando se convencer de que seria fácil.


—Que bicho te mordeu, Desirée?—questionou Aaron enquanto eles andavam pelos corredores.


—Diretora Moulin quer conversar comigo. Pediu para eu ir na sala dela. Podem ir sem mim, a conversa vai ser longa.—respondeu a menina, um pouco culpada por estar mentindo.


—Seu rendimento melhorou, o que ela quer contigo? Enfim, vamos Rony. Tchau Desireé.—o chamou Mawusi, acenando levemente para a amiga.


Desirée entrou no corredor à esquerda, que dava para a sala da diretora. Mas, também, caso continuasse reto, chegaria até a piscina. E lá estavam Jace e a chave das algemas.


Sabia que Jace Balerman fazia parte da equipe de natação. Sabia também que, após o término das aulas comuns, todas as segundas e quartas-feiras eles se reuniam na piscina para os treinos. Jace estava no colégio, nem deprimido, nem animado, apenas apático. Ouviu um de seus amigos dizer que treinar o faria bem. Portanto, ele provavelmente estaria ali.


Correu até o vestiário masculino, tomando cuidado para que não a notassem. Ao chegar perto, o local estava silencioso, eles não haviam chegado. Respirou fundo, um pouco envergonhada por estar entrando naquele recinto para ajudar um ser desconhecido. Mesmo assim, pulou para dentro e foi até a última cabine, onde ficavam os produtos de limpeza. Lá tinha uma pratilheira de madeira onde alguns produtos químicos eram guardados. Sentou-se sobre as pernas na madeira, esforçando-se para fazer o mínimo de barulho, mas deixando uma pequena fresta para que pudesse ver o quê acontecia. Alguns segundos depois, ouviu o som do burburinho de um na do de rapazes conversando. O time de natação havia chegado.


Jace vinha na frente, com seus cabelos cor de areia curtos e olhos azuis escuros. Era malhado, um clássico popular de filmes clichês românticos. Muitas meninas gostavam dele, mas Desirée apenas o achava ridículo. Após ver o quê ele havia feito com Thierry, sentia raiva dele.


Os rapazes entraram em suas cabines e logo começaram a conversar, suas vozes misturando-se aos sons dos pingos d’água. Falavam sobre alguma festa no final de semana; sexo e o próprio esporte. Não entendia como algumas garotas se derretiam por esses caras quase vazios.


Aos poucos todos saíam em seus trajes de natação, exibindo seus corpos esbeltos. Não podia negar que eles eram bonitos, apesar de imaturos. Então, ali apenas restaram Jace e um de seus amigos, Hector.


—Não pode ir com esse cordão pra piscina, Jace. Normas da escola.—murmurou Hector e Jace suspirou, colocando a chave, que estava pendurada por uma tira de couro, dentro do seu armário.


Ambos saíram em silêncio, deixando o local extremamente silencioso. Devagar, Desirée deixou seu esconderijo e direcionou-se até o armário 13. Não era trancado, então precisava apenas abrir e sair logo. Colocou as mãos na grande chave prateada, ornamentada com algumas espirais. Fechou o armário, e virou-se para sair. Contudo, a figura de Jace no meio do vestiário impedia sua saída.


Ele aparentava estar transtornado. Intercalava seus olhares entre a chave nas mãos dela e os olhos da garota, até que arregalou os olhos em pleno horror.


—Como Thierry pôde ser tão sujo? Depois do que eu já vi ele fazer, não imaginei que fosse me surpreender. Ele é um monstro!—disse ao cerrar os punhos, tentando conter tremores.


—Você quase matou ele e deixou Thierry acorrentado! Quem é o monstro, Jace?—ironizou a garota, irritada pela hipocrisia do rapaz.


—Ele não é confiável. Não deixe ele te usar como ele fez comigo.—tentou lhe convencer Jace e passou as mãos pelo rosto, frustrado.—Thierry amaldiçoou toda uma família só por estar preso à essa merda de lugar.


“Jace acha que eu sou culpado por algumas tragédias da família dele durantes estes séculos.”


“Jace é um rapaz perigoso.”


As falas de Thierry invadiram sua mente como um vento forte mudando o percurso de uma folha que estava quase chegando ao chão. Por mais que o rapaz à sua frente parecesse genuinamente atordoado, não conseguia tirar de sua cabeça o que havia visto, nem o relato de Mawusi. Poderia estar falando com um lunático. Parte de sua consciência sinalizou que ela própria parecia uma louca ao acreditar numa criatura desconhecida, mas decidiu ignorar isto no momento.


—O quê ele fez com você?—perguntou Desirée, vencida pela curiosidade.


O rapaz riu de maneira forçada, quase como se lhe dissesse Por onde eu começo?


—Amaldiçoou minha família por gerações apenas por um acidente de um ancestral idiota. Fez minha mãe se matar quando ela tentou fazer alguma coisa de boa na vida dela. Ah, e por essa maldição, eu sou uma oferenda à Solidão. Você não sabe como é ser um fardo para seus pais, com todos os pesadelos e as vozes... Se bem que eu não sou mais afetado do que você.—despejou as palavras que provavelmente estavam entaladas desde o início de sua consciência como ser humano.


Desirée não possuía resposta. A chave estava sendo apertada com força em uma de suas mãos enquanto ela tentava absorver e compreender as informações soltas que foram jogadas em sua cabeça.


—Ah, lógico que ele não te falou. Típico.—murmurou Jace ao cruzar os braços.—Eu sou um dos prometidos, como todo primogênito dos Balerman. Você é a esperada da vez. A única esperança de Thierry se livrar de Yves e de Solidão.—explicou rasamente, ainda mais transtornado do que antes, à beira de um colapso.—Enfim, a chave é sua. Leve, eu não aguento mais isso perto de mim. Se você pode libertar o anjo, que seja. Talvez ele me mate, mas... Eu só não aguento mais.


Desirée não conseguiria responder algo do tipo. Ela fez algo que não se imaginou fazendo: fugiu, correndo para longe daquelas revelações que tanto lhe deixavam confusa. Não sabia se alguém havia a visto em sua fuga, mas não importava. Precisava chegar em casa, processar isto e tentar compreender onde estava se metendo.


---///---


Assim que Desirée colocou-se em frente à mata, sabia que algo estava errado. Além de estar em dúvida sobre a índole o suposto anjo que estava indo resgatar, a névoa estava tão densa que mal conseguia ver um palmo a sua frente, mesmo com a lanterna. E também, a sensação de estar sendo observada crescia mais e mais, calafrios subindo por sua espinha. Um vento frio vindo do leste fazia com que seus cabelos ricocheteassem em seu rosto. Uma certa ponta de dúvida crescia em si, mas já estava fora de casa. Precisava prosseguir e logo estava dentre árvores e jacintos.


O caminho parecia mais hostil. Não sabia o porquê, mas definitivamente estava mais difícil andar dentre as raízes. Parecia que o chão tentava lhe atrasar, cada vez mais os seus passos precisavam de mais força para sair do lugar. Olhou para seus tênis surrados, e pôde ver as lâminas de grama enrolando-se a eles. Puxou-os com rapidez e começou a correr para que a terra não voltasse a dificultar sua trajetória.


Contudo, o vento ficava mais e mais forte, as árvores curvando-se como se tentassem desesperadamente lhe segurar. As fortes rajadas de ar sopravam fortemente em seus ouvidos, similares à uma estranha voz desarmônica, tentando dizer algo.


“Manipulada. Impressionável. Fuja!” era definitivamente uma voz feminina distorcida em meio aos sons de galhos e pequenas pedras batendo em tudo, inclusive Desirée.


Uma grossa raiz colocou-se em seu caminho e a garota saltou, quase tropeçando. Virou à esquerda, o sentimento de urgência crescendo rapidamente dentro de si. Pôde ver um emaranhado de raízes no chão, e saltou entre elas como conseguia, fugindo do aperto delas em seus pés. Contudo, uma única raiz segurou seu tornozelo esquerdo, o que a garota despencar e bater com a testa com toda a força em uma pedra.


Desorientada, Desirée arrastou-se para fora do emaranhado de raízes e deitou no chão tentando se recompor. A dor latente em sua testa e a sensação de algo quente escorrendo na mesma apenas confirmaram a leve impressão de ter um corte feio na cabeça. Tentou levantar, mas sem sucesso. A terra tremia levemente a abaixo de si, algumas pedras arranhando suas mãos. Aos poucos, se viu adentrando ao chão terroso, sendo incorporada e incapacitada de se mover.


“Pare!”


A mesma voz de antes explodiu pelo bosque inteiro como o som de um trovão. Desirée arrastou-se para longe, reprimindo a vontade de vomitar. Colocou-se de cócoras e levantou com o apoio de uma árvore. Contudo, a primeira coisa que viu quase lhe fez cair novamente no chão.


Era como um amontoado da própria neblina, juntando-se de maneira volátil em um corpo feminino. Os longos cabelos voavam em um branco sujo, o único ponto de cor era na região torácica onde de um buraco do tamanho de um punho fechado pétalas de jacintos vermelhos desciam por todo o seu corpo. No lugar onde deveriam estar olhos, dois buracos enegrecidos e profundos carregavam melancolia e certo rancor. Era estranhamente bela e assustadora ao seu modo.


—Não o solte. Se quer continuar sua trajetória, deixe-o apodrecer.—sua voz sussurrou enquanto um sorriso sarcástico surgia aos poucos.—Oh, você já está envolvida... A esperada foi laçada. Não posso deixar você ir.


Não conseguia distinguir sua expressão, algo entre a decepção e o divertimento. Aproximou-se devagar, flutuando como se houvesse todo tempo do mundo.


—Charlize!—um berro estridente explodiu vindo do centro do bosque, fazendo a forma feminina a sua frente se desfazer.


Desirée respirou fundo, a chave pendurada em seu pescoço parecia pesar muito mais do que antes. Sua tontura apenas para piorava e o sangue proveniente de sua testa escorria sobre um de seus olhos e dificultava sua visão. E os acontecimentos recentes apenas lhe deixavam ainda mais atordoada. Aquela era Charlize, a mesma amiga desaparecida de sua mãe?


Não podia continuar ali, ou acabaria desmaiando sozinha tão perto do seu objetivo. Por mais que seus sentimentos em relação ao Thierry fossem levemente ambíguos, não tinha escolha. Desirée precisava da ajuda dele.


Cambaleou em direção ao círculo de jacintos vermelhos, onde havia encontrado Thierry na noite anterior. Lá estava ele, o rosto retorcido em ódio. Porém, ao ver Desirée, sua expressão suavizou-se. O que não durou muito tempo, já que ele logo percebeu que a garota não estava bem.


Aos tropeços, arrastou-se até a árvore. Recostou-se nela, suas pernas trêmulas cedendo ao seu peso. As mãos de Thierry estavam ao seu lado, as algemas brilhantes chamavam sua atenção, um fio que lhe prendia à consciência.


—Desirée? Consegue me ouvir? Eu não consigo ajudar você algemado, querida.—suave como uma brisa de verão a voz dele tentava chamar a atenção da garota para si.


Ela sabia que ele estava certo. Mas por que resistia tanto? E se ele fosse realmente horrível? Estaria colocando pessoas mil em perigo apenas por seu próprio benefício e luxúria.


“Foda-se” pensou a garota ao tirar a chave do pescoço e encaixá-la precariamente à sua fechadura. Seus olhos estavam pesados, e.nao tinha controle total dos seus movimentos, mas conseguiu virar a chave até ouvir um cleck. Rapidamente Thierry puxou os braços, levantando em uma explosão de energia.


—Quase livre... Oh, doce Desirée.—murmurou ao aproximar-se dela.


Segurou-a em seu colo, os olhos roxos presos nos olhos semiabertos da jovem. Ele sorriu, como se não houvesse nenhum problema acontecendo, tranquilo e levemente apático. Um beijo casto foi depositado nos lábios de Desirée, enquanto a garota lutava para retribuir melhor este beijo.


—Tudo vai ficar bem. —afirmou Thierry, ainda calmo.


Desirée prendeu-se ao brilho do seu olhar, e estas duas orbes incomuns foram a última coisa que viu antes de perder a consciência.


---///---


Não há nada mais doce e perigoso para uma relação do que o tempo. Ao longo dos cinco meses em que toda noite Thierry a visitava, Desirée cada vez mais se apaixonava pela personalidade misteriosa que o anjo possuía.


Sim, anjo. Um anjo sedutor e levemente humano pelos anos que passou na Terra. Aprisionado na cidade de Yves, mais especificamente nos arredores de Solidão, o belo lugar de jacintos vermelhos. Thierry lhe confessou que havia cometido erros, mas nunca era claro ao falar dos Balerman e de Charlize Vegns. Apenas dizia que a mágoa pode influenciar até os mais puros corações.


Mesmo assim, era o ser mais perfeitamente imperfeito que conhecia. Não tentava lhe mostrar que era bom e perfeito. Era o que era, um peça defeituosa enxotada do céu.


Talvez tivesse se afastado de Mawu e Rony. A briga que tiveram neste mesmo dia havia evidenciado isso. Eles provavelmente não entendiam seu afastamento, mas não conseguiria explicar. Nem Desirée entendia o porquê. Sentia-se cada vez mais envolvida pelo anjo dos olhos roxos e, no fundo dos seus pensamentos, pensava que isto não era tão bom assim.


—No que tanto pensa?—a voz de Thierry em sussuros ao pé do ouvido da moça fez com que ela se arrepiasse.


—Em você.—foi sincera ao virar-se para ver a reação dele.


Os olhos estavam serenos, e em seu sorriso suave apresentava um certo contentamento pelas palavras proferidas pela jovem. Talvez, por ser verdadeira, ou por ser previsível. Esta imprevisibilidade dos pensamentos dele lhe deixava um pouco desconfortável.


As asas cinzentas de cor irregular eram grandes e estavam repousada suavemente em suas costas. Os braços de Thierry abriram-se, então a garota aninhou-se entre seus braços e asas quentes.


—Quer dar uma volta? Relaxar um pouco...—sugeriu e Desirée apenas assentiu.


Ela estava cansada da pressão exercida pelos outros; cansada dos olhares de reprovação de Jace; cansada dos interrogatórios e das verdades ditas por seus amigos; cansada dos pesadelos... Ah, os pesadelos eram horrendos. Quando acordava, ainda conseguia ouvir os berros desesperados por ajuda de Charlize enquanto era insultada de várias maneiras, ou era chamada de esperada num tom completamente sarcástico.


Perdeu-se em seus próprios pensamentos, e apenas percebeu que estava próxima ao voo quando viu o sua janela escancarada. Thierry lhe segurou fortemente e de costas para o lado de fora, jogou os dois. Virou-se rápido e abriu as asas, sendo impulsionado para cima. Voaram como um jato para dentro do bosque, indo em direção ao ponto mais alto que Thierry conseguia atingir: o último galho de um carvalho que suportava o peso deles.


Sentados lá, sentia quase como se estivessem perto da liberdade. Já havia compartilhado este pensamento com Thierry, que achou a ideia um pouco irônica, mas nada disse.


—Desirée... Você gostaria de me ver livre?—perguntou o anjo, um pouco temeroso.


O assunto liberdade sempre o deixava assim, encabulado e inseguro como uma criança. A jovem segurou o rosto de sua amada criatura e sorriu tentando o tranquilizar.


—Claro, Thierry. E você sabe por quê?—perguntou ela e ele negou.—Porque eu te amo.


Havia esperado para dizer isso. Talvez pela sua própria insegurança, ou por toda aquela desconfiança que sentia no fundo do seu coração ao ouvir coisas horríveis sobre ele. Mas, simplesmente sentia que era a hora certa de dizer. Os olhos dele brilharam, e abraçou a moça num ímpeto de ânimo.

—Eu também te amo, doce Desirée. E obrigada.—murmurou ao sorrir levemente.


Depois, Thierry separou o abraço e olhou para a adolescente. Ele possuía um olhar melancólico, quase que arrependido.


—Pelo o quê?—questionou a garota, um pouco desconfiada.


Estava a metros e metros do chão. Se pulasse, ela com certeza ganharia vários ossos quebrados.

—Eu amei Yves. Amei Charlize. Mas você é a esperada. E é a dor que eu terei que carregar.—e assim que pronunciou, um das suas mãos segurou o pescoço da jovem, enquanto a outra foi direto ao centro dos seus seios.


Desirée se debateu como pode, mas não surgia efeito. Sabia que Thierry era bem mais forte do que a maioria das pessoas, e, infelizmente, mais do que ela. Sua respiração se esvaía rápido e sua consciência também. Não tirava os olhos das orbes incomuns que tanto lhe atraíram. Estava inconformada, além de se sentir uma tonta. Não podia ser tão manipulável assim. E agora, iria morrer por isso.


—Eu preciso ser livre, minha querida. Eu preciso.—e assim que concluiu sua fala, afastou a mão que estava sobre o busto.


Esta mão foi até suas costas, onde do bolso da calça puxou uma faca dourada. A mão esquerda de Thierry tremia, mas enquanto Desirée ainda estava consciente, pode ver ele erguer a arma com rapidez. E antes de piscar os olhos, a lâmina desceu como um relâmpago em todo o seu esplendor.


A faca foi jogada longe, e esta mesma mão voltou ao lugar onde estava. Desirée prefiriu focar nos olhos violeta enquanto a mão de Thierry invadia seu peito. E estas orbes repletas de lágrimas foram a última coisa que conseguiu ver antes dos seus olhos se fecharem.


---///---


“Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes
Só pro meu, só pro meu amor passar

Nesta rua, nesta rua tem um bosque
Que se chama, que se chama Solidão
Neste bosque, neste bosque mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração

Se eu roubei, se eu roubei teu coração” 
É porque tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque, só porque te quero bem”

25 de Agosto de 2018 às 19:34 10 Denunciar Insira 5
Fim

Conheça o autor

Nathalia Souza Olá pessoal! Podem me chamar de Lady, ou de Nath mesmo, tanto faz. Bem, sou uma carioca da gema apaixonada pela a escrita e tentando evolur cada vez mais neste assunto. Amo mistérios, podem me indicar os seus, além de ser chegada à música Indie (indiquem artistas se quiserem). Beijos e até!

Comentar algo

Publique!
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, tudo bem? Bom, eu adorei a história toda. O enredo prende, assim como a narrativa é boa e fluída. Os detalhes ao longo dela, a forma como foi construído o cenário, tudo foi maravilhoso, por sinal. O mistério em torno do bosque foi muito bom, porque tinha uma lenda desde a criação da cidadezinha, o próprio nome da cidade era por causa da primeira vítima de Thierry. A construção de um vilarejo minúsculo e sombrio foi o auge da sua capacidade em ser minuciosa com os detalhes, o que fez tudo ficar mais palpável para a leitura. Toda essa construção do subgênero ficou muito boa, parabéns! A Desirée é uma personagem interessante. Ela teve diversas pessoas ao seu redor, como os amigos, a amiga da mãe dela, o Jace, o próprio bosque (se pensarmos bem) lhe avisando de que seguir o caminho que ela queria poderia ser problemático. Ainda assim, ela ignora todos esses personagens e continua a seguir seus instintos. Isso nos faz pensar se o próprio anjo não tinha algum tipo de influência sobre ela, ou se esse magnetismo que a chamava para o bosque desde sempre não era, também, sobrenatural. Ela foi iludida? Ela tinha controle sob o próprio corpo? Essas questões ficam em aberto e é muito bacana pensar nas diversas interpretações possíveis do seu conto. Notei quase em toda a história alguns errinhos com espaçamento e em parágrafos, assim como algumas palavras trocadas ou partes de frase um pouco confusas. Aconselho a revisar novamente o texto. A música no final nos mostrou que a história é uma releitura da música que fez parte da infância da grande maioria dos jovens de hoje, o que foi uma grande sacada. Talvez fosse interessante ambientar a história no Brasil, já que a música é brasileira e representa muito das nossas crenças, mas isso é questão de gosto. A ambientação ficou realmente muito legal, independentemente do lugar que você tenha escolhido. De todo o jeito, adorei a forma honesta que tu abordou e conduziu os personagens, a originalidade em toda a história. Parabéns! Espero que tu tenha se divertido com o desafio e te vejo nos próximos, posso contar? Beijinhos 😘
4 de Outubro de 2018 às 14:29

  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Olá, tudo ótimo, melhor ainda após esse belo comentário! Achei Fantasia Sombria um subgênero difícil, mas confesso que foi o que eu mais desejava ter no sorteio. Fico feliz que tenha gostado da história :). Desirée é uma fofa, mas meio bobinha, coitada. Bem, sei que tem pontas soltas, e estou pensando em ampliar para uma trilogia. Quem sabe? Sim sim, obrigada pelo conselho, pretendo te usar. Eu também pensei isso depois, sabia? Mas, eu já tinha feito a base toda para o Canadá, a história da cantiga veio depois. Quem sabe uma cidadezinha no Sul? Obrigada, de verdade, não sabe como alegrou meu dia. Eu me diverti muito, e no próximo pode contar comigo! Beijos! 5 de Outubro de 2018 às 18:43
BC Bruno Coutinho
Wow! Gostei bastante, o texto está muito bem escrito e dei por mim a querer ler mais e mais! Duas notas: 1) Adorei ver a forma como pegou nessa canção que é realmente conhecida e a pintou de uma forma "fora da caixa"; num sitio onde é comum vermos pessoas a utilizar obras já existentes como combustível para fanfics, acho que é um alivio ver algo que se inspira noutra obra sem roubar personagens. 2) Falo a sério quando digo que fiquei "agarrado" a esta história. Na realidade o maior senão deve ter sido mesmo o limite de palavras que limitaram de certa forma a construção do folclore do mundo. Creio que se desse continuidade a esta obra seria uma das pessoas que iria ler. Dito isto, no geral gostei muito da ideia em si e da forma como foi executada.
29 de Agosto de 2018 às 07:03

  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Oi! Obrigada, de verdade, Bosque de Jacinto me tragou por alguns dias e esse feedback me deixa muito feliz, não faz ideia. Valeu, eu amo essa cantiga desde sempre, e nuca havia parado para perceber que ela podia ter essa interpretação antes de começar a escrever para o desafio. Estou com planos para uma trilogia, graças a um comentário de uma moça mais embaixo kkkk. Assim que sair, eu com certeza te mando, okay? Obrigada pelo apoio e os doces elogios, beijão e até! 29 de Agosto de 2018 às 21:52
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
Confesso que suspeitei quanto à cantiga na hora que você se referiu à "Solidão". Achei interessante a interpretação disso. Também achei curiosa a forma como você usou de um anjo sem necessariamente colocá-lo como uma figura "boa". Achei que tiveram pontas soltas, mas provavelmente era pela necessidade de explicar muito em poucas palavras (10k pode parecer muita coisa, mas no fim nem é tanto). Parabéns pela ideia! Fantasia sombria não é um tema muito fácil de se trabalhar (eu pelo menos achei) e eu acho que você pegou uma abordagem interessante aqui, com as lendas, os jacintos. Outra coisa interessante foi que duas cenas me chamaram muito a atenção: Primeiro, a cena da clareira com jacintos vermelhos que me remeteu a outra cena, de um anime na real, onde havia um jardim com flores vermelhas vivas, observado à noite. Era bem impactante. A segunda cena, dentro do bosque, enquanto Desirée fugia; a forma que as árvores assumem, achei curioso, pois estudei sobre um conto infantil que fazia uso dessa ideia como uma metáfora. Foram dois pontos que me remeteram a outras obras e eu achei muito curioso!
27 de Agosto de 2018 às 01:45

  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Olá olá! É, fica meio na cara sim, mas simplesmente jogar as informações sem uma cerimônia não faz o meu estilo . Sério que achou? Obrigada, surgiu na minha cabeça do nada e eu tinha que escrever algo relacionado à está cantiga que amo tanto. Thierry era um renegado, a bondade e pureza o abandonaram faz tempo. É, ele realmente não parece com os irmãos. Sim sim, se eu fosse explicar cada detalhe (como, por exemplo, a ligação de Yves e Thierry, o relacionamento dele com a Charlize, a amizade da mãe de Desirée e a Charlize, a história da família Balerman, o próprio Jace, Aaron e Mawusi... Ia ficar séculos aqui.) Obrigada! Não conheço esse anime, mas agora fiquei curiosa. Pode me dizer qual é? O coro talvez eu conheça e esteja no meu subconsciente sem que eu saiba, relamenrw não lembro. Intertextualidade existe para ser usada, não é? Obrigada pelos elogios e o comentário em si, beijos e até! 27 de Agosto de 2018 às 20:23
  • Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
    Olá de novo! <3 Eu fiquei curiosa quanto a continuidade. Quero dizer, você pretende depois fazer uma versão longa desse conto? Ou essas personagens pertencem a outra história? Porque eu certamente gostaria de olhá-las mais profundamente! Seria uma boa premissa inclusive! Quanto ao anime, o nome dele é "Hybrid Child". É uma coletânea de OVAs. É yaoi, não sei se gosta do gênero. Mas independente disso é uma história MUITO bonita de verdade (e vai em contra mão de tudo o que a autora produziu de famoso, inclusive). E quanto ao conto, ele se chama "The Tunnel", do Anthony Browne. Eu não li o livro em si (é um livro infantil), porém eu li uma análise semiótica dele durante o desenvolvimento do meu TCC e uma das coisas que as autoras abordavam era justamente dessa linguagem visual onde as árvores "engoliam" a menina conforme ela passava pela floresta. Claro, no caso desse conto, era uma metáfora total para o medo da criança. Na sua história é um contexto REAL, induzido por magia. São, essencialmente, coisas diferentes, mas eu achei muito curioso porque a referência foi muito forte pra mim! E obrigada pela resposta doce <3 28 de Agosto de 2018 às 02:20
  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Hey hey! Okay, vou ver se consigo ver o anime, se conseguir te dou um feedback. Esses personagens foram criados exclusivamente para o conto, mas uma versão longa dele seria uma boa. Talvez uma trilogia, uma sobre Yves; outra sobre Charlize e a última sobre Desirée. Não tinha pensado nisso, obrigada! A leitura não depende apenas do sentido do autor, mas do leitor também, então entendi perfeitamente! Ownt, de nada! 28 de Agosto de 2018 às 14:10
Karimy Karimy
Oie! Gostei muito da história, principalmente do link entre ela e a cantiga popular. No fundo, acho que Desirée sabia que ele oferecia o perigo em uma bandeja de ouro para ela, mas preferiu se deixar levar pelos sentimentos e fechar os olhos para a intuição e para os pesadelos. Uma pena, porque além do fim trágico, estava sozinha, nem amigos, nem nada.
26 de Agosto de 2018 às 07:13

  • Nathalia Souza Nathalia Souza
    Olá! Obrigada, de verdade, por seu feedback. O link veio enquanto eu estava pensando no enredo e precisava manter. É, Desirée não quis perceber, simplesmente por anseiar tanto por mudança. Realmente uma pena. Beijos e até! 26 de Agosto de 2018 às 16:08
~