Um bazar de esferas mortais Seguir história

harrytar Daniel Martins

Helena chegou tão perto de ser coroada! Infelizmente, não governar é o preço que se paga por ter nascido mulher. Mas e se ela não tivesse irmão ou...pai? Quem tomaria o poder?


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fastasticoink-baixafantasia
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Capítulo Único

''Seu vestido rasgado voava pelas ruas de WorthWood, ainda sentia o sangue escorrer de seus braços enquanto corria. Todas as janelas fechadas, afinal, já era tarde da noite. Quem ainda estaria acordado?

Não tinha para onde ir, onde passaria uma noite mais tranquila. Estava fervendo de raiva, tanto que sua cabeça até começou a doer. Com o abdômen doendo, resolveu parar, caindo de joelhos na fria e suja calçada.

─ Não consigo mais. ─ sussurrou com uma respiração tênue e ofegante ─ Por que essas coisas só acontecem comigo?

Mas não pode recuperar o fôlego por muito tempo: já conseguia ouvir a cavalaria se aproximando, mas não se arrependia do que havia feito duas horas antes.



─ Por que não? ─ protestou, nunca havia falado no tom com seu pai ─ É sempre assim! Homens apoiam homens, mulheres apoiam homens! Por que não tenta ter uma rainha no reino pelo menos uma vez?

─ Menina...─ seus olhos enrubesceram e com um sorriso no rosto, deu um tapa em sua filha ─ Helena, a próxima vez que gritar comigo, as consequências serão piores.

O homem alto e pálido a deixou em seu quarto, batendo a porta com força. As coisas realmente tinham que ser assim? Era mais velha que seu irmão, mas não podia governar, nunca poderia. Correu para a porta soluçando e tropeçando, mas estava lacrada. Lacrada com magia.

Engoliu o choro, mesmo que as lágrimas ainda escorressem começou a se vestir, a se preparar para a coroação de seu irmão. ''Não passe maquiagem para não chamar atenção e vá com uma roupinha bem menininha, bem fofa'', lembrava das palavras do velho enquanto colocava o vestido rosa e uma sapatilha e bateu na porta do próprio quarto. Esperou, até os tons vermelhos da porta sumirem completamente e poder abrir.

─ Pai, eu posso ir comprar um presente?

O homem, parado em frente a porta, apenas acenou em um gesto simpático. As lágrimas já tinham secado e seu soluço se transformara em um belo e falso sorriso. Saiu do castelo acenando para damas e cavalheiros, esbanjando alegria e simpatia.

Passou numa loja de roupas e comprou poucas peças, depois numa loja de veneno e depois, na direção da floresta.

Tudo naquele lugar era tão sombrio, sombras correndo de um lado para outro, barulhos de trem que ficavam cada vez mais alto e mais alto, mas não tinha medo. Ela temia o desconhecido, e aquela floresta já não era nova para ela. 

Tudo ficou branco em sua visão, sentiu uma dor forte. Havia caído sua pressão? Talvez. mas não importava mais, já que estava vendo a cabana que queria.

─Morthy! ─ Helena o chamou enquanto entrava e a porta rangia ─ Eu preciso de uma poção.

─ Sem chance. ─ seu ex apareceu com uma garrafa na mão, quase vazia ─ Veio pedir ajuda para mim? Deve estar desesperada, meu amor.

─ Não sou seu amor, e sabe que você é a última pessoa que eu pediria ajuda. É sério.

─ Do que precisa?

─ Uma poção.

─ Duh, isso é óbvio. ─ deu uma risada, olhou maliciosamente para ela ─ Uma poção do quê?

─ É...um veneno?

O sorriso em seu rosto desmanchou-se como castelo de areia no mar, agora teria tomado uma expressão séria e sombria. Exigiu uma explicação vinda da garota.

─ Meu pai quer coroar meu irmão hoje mesmo sendo mais novo, me deu um tapa quando discordei, e você lembra da pulseira que ele implantou em mim só para não usar magia?

─ Eu faço. Mas nada é de graça, meu amor.

Da sacola de compras pegou alguns tecidos de diferentes cores das quais ele extraía, além de maquiagens caríssimas que o químico usava para fazer alguns testes. Ele tocou, analisou, cheirou e decidiu: ─ Aqui está a poção.

Eram duas esferas pequenas, esbranquiçadas. Recebeu a instrução de atacar elas, que assim que explodissem e entrasse em contato com a pele a magia iria corroer. Era o que tinha pronto.

Voltou para o palácio saltitante, rodando e cantando. Oh, quem pensaria que uma princesa tão doce planejaria um assassinato?

Tomou um banho, passou um perfume, agora que a festa iria começar. Vestiu um vestido preto com rendas no braço, passou uma maquiagem leve no rosto e ombros. Ah...o batom, como esquecer do batom? Faltava dez minutos para a coroação.

Seu coração batia rápido, estava nervosa. E se desse errado? E se o químico houvesse a enganado? Eles mereciam isso? Lembrou do tapa de seu pai, de quando seu irmão quebrou um vaso e a culpou, nem sequer nunca pediu desculpas por isso.

Ah, eles eram podres. Podres como ela. 

─ A festa já vai começar!

Pudia ver a multidão louca, ansiosa e alegre. Aquela alegria poderia durar por tanto tempo assim?

Saiu do quarto e foi descendo as escadas lentamente, com um sorriso malicioso e egoísta no rosto. Os mordomos ficaram paralisados, chocados, foi então que chegou ao salão.

Mulheres, homens, todos a olhavam. Era o centro da atenção do povo. Seu pai e irmão tremeram. Estavam em choque.

─ Querido irmão, esse é o meu presente para você.

Jogou a esfera para cima, ninguém se mexeu, moveu um músculo, ficaram todos olhando algo pequeno e branco cair na testa do garoto. De acompanhamento, um grito de dor.

Deu uma risada alta enquanto subia as escadas e se jogava da janela, caindo num jardim de rosas. A pobre moça se cortou e acabou prendendo o vestido, o qual ficou metade preso as folhas enquanto corria. Corria até nunca mais ser encontrada''




─ Boa história, Ethan. Mas o que houve com a moça?

─ Morreu, há muito tempo atrás na história, lá na metade.

─ Como assim? Quando caiu nos espinhos? ─ Milena indagou, confusa.

─ Quando seu pai descobriu o que ela pensava, o que planejava. Ele a matou, o barulho do trem que ficava cada vez mais alto era uma metáfora para algo grande, que se aproximava cada vez mais, até atingir ela na cabeça.

─ Tá mas...e o químico? Quem é ele?

─ Ah, ele é uma interpretação aberta. Pode ser uma amizade má que te dá tudo o que você quer, mesmo que isso te faça mal. Ou pode ser um demônio, que deu a ela algo para matar. Eu prefiro a primeiro.

─ Você é tão cheio dessas metáforas...

23 de Agosto de 2018 às 23:12 7 Denunciar Insira 4
Fim

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, olá tudo bem? Ahh, que história incrível, adorei a forma que tu abordou uma história dentro da outra, ficou maravilhosa. Não apenas isso, a narrativa cativante enquanto Helena planejava o assassinato de seu irmão, tudo para assumir o trono. Me fez recordar sobre a história de Ginga, a rainha da Angola. A única diferença é que faltou astúcia para ela talvez planejar um golpe de estado com mais calma, fosse a saída. E o fato de Helena não concordar que uma mulher não pode subir ao trono é tão igual a Pragmática Sanção, passa a mesma sensação de que se passa no nosso mundo. Sem contar que isso é um assunto que ronda a nossa realidade até hoje. E a Baixa fantasia? Está lá na história em todo o tempo, quase todos os elementos abordados de maneira tão clara, que enche meu kokoro de orgulhinho. Talvez o único ponto dela que não tenha sido tão explorado seja a parte Plot Twist, quando é revelado que tudo não passava de um conto. Sabe, falta algo para ficar tão natural quanto o resto do texto. Talvez ir mais fundo com o drama de Helena caída nas folhas e depois cortado para Ethan, ou iniciar a história como um conto de fadas, também cortaria esse efeito. Mas, de qualquer jeito, não foi todo perdido, eu mesma prendi a respiração nessa parte. E ainda tem metáforas claras ao longo da história, e quem sabe até uma moral. Mas a moral acaba dando a impressão de conto de fadas, o que dá um salto além da baixa Fantasia, e aí está o erro, houve um desvio no último momento do subgênero selecionado, Baixa Fantasia não tem moral como nos contos de fada. Originalidade esse é um outro pratão cheio que não deixou em nenhum momento a desejar. Estou muito contente com sua contribuição para o desafio, e espero que esteja se divertindo tanto quanto eu ao ler algo tão bom! Parabéns! ♥️ Ps: a tag está errada! Precisa ser "fantasticoink" e outra "baixafantasia"
4 de Outubro de 2018 às 14:12
Liiz Lestrange Liiz Lestrange
interessante, gostei dos plot twists, de ser uma história contada dentro de outra história, achei curioso. Mas eu admito que achei meio sem propósito ela ter morrido no meio e tudo ser metáfora. Uma metáfora funciona melhor quando você trabalha ela na história e não conta no final. O barulho do trem, por exemplo, pareceu mais literal do que metáfora, do jeito que você explicou. Mas você tem ideias interessantes e um jeito diferente de contar, parabéns.
7 de Setembro de 2018 às 22:48
Forbela Forbela
Menina que coisa bela que você escreveu, adorei as metáforas e a história em si, sua escrita também é bastante bonita e criativa. Que tempos horríveis de se viver para nós mulheres, não é? As vezes eu fico pensando como elas aceitavam tamanha submissão, mas ai me lembro que até hoje aceitamos muitos absurdos. Alias, a rainha da Inglaterra criou a lei que agora não importa o sexo, o primeiro a nascer herdará o trono, sabemos que isso é insignificante, mas é bem legal saber. Enfim, deixar eu para de dizer besteiras qqqq Parabéns pela história!
1 de Setembro de 2018 às 11:57
Neeca Ashcar Neeca Ashcar
Olá tudo bem? Meu nome é Nicca e sou uma das organizadoras do desafio, gostaria de avisar que as tags estão juntas e por isso sua história não parece na lista no site. Para inserir a TAG de maneira correta você escreve fantasticoink, desse jeito sem acento nem nada aí seleciona, depois pode inserir a outra. Lembre-se: sempre uma TAG por vez! Espero ter ajudado! Qualquer dúvida pode me perguntar ou através do meu face Nicca X Keehl... Beijinhos 😘
31 de Agosto de 2018 às 23:17
BC Bruno Coutinho
Gostei da ideia, uma abordagem diferente e interessante de ler. A maneira como começa e o facto de ser um texto curto acabaram por criar em mim uma sensação de urgência que se manteve durante todo o texto.
29 de Agosto de 2018 às 07:16
Tali Uchiha Tali Uchiha
Caramba, meu Deus, que genialidade foi essa. Eu esperando uma assassina em série e tu me deu um livro de metáforas. Eu adorei, de verdade, tu arrasou
25 de Agosto de 2018 às 09:52
CC C Clark Carbonera
Narrativa interessante, quando pensamos que é apenas uma só história, na verdade ela se apresenta como uma história dentro de outra!
25 de Agosto de 2018 às 09:25
~